sábado, 8 de agosto de 2015

Um freio no movimento pró-impeachment da Presidente Dilma?

"Se podes olhar, vê; se podes ver, repara", disse José Saramago no seu Ensaio sobre a Cegueira. Trata-se de um pensamento, digamos, substancial e cheio de significações. São poucos os que têm a compreensão do significado da comunicação do olhar; são poucos os que, olhando, vão além do aparente. Pois bem, olhar e reparar, indo além da aparência dos fatos, é um imperativo fundamental da análise social. Por suas lentes, nestes últimos dois dias, estamos a captar alguns elementos que, sendo relacionados, podem indicar um freio, por parte do establishment, nas movimentações pelo impeachment da Presidente Dilma. Eles são: 

1) O Editorial do Jornal O Globo defendendo o esforço pela governabilidade, o respeito pelo calendário eleitoral ('eleição presidencial é em 2018') e fazendo críticas ao PSDB e Eduardo Cunha. O título do Editorial é sugestivo: 'Manipulação do Congresso ultrapassa limites'. 

2) As notas oficiais das duas principais associações empresariais do país defendendo a governabilidade, isto é,  da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIERJ). 

3) O espaço dado pelo Jornal Nacional às declarações da Presidente Dilma a dizer que a sua legitimidade vem do voto que a elegeu, assim como o destaque ao ato de desagravo ao ex-Presidente Lula no seu Instituto, por conta da bomba lançada contra o prédio. 

4) As declarações do Presidente do maior banco privado do país, o Bradesco (que acaba de adquirir o HSBC Brasil), o sr. Luiz Trabuco, em entrevista à Folha de São Paulo, a afirmar, por exemplo, que 'o avião deve ser consertado em pleno voo', ao expressar a sua posição sobre o enfrentamento da crise, ou seja, entende-se, deve ser enfrentada sob a condução do atual governo. 

Estamos perante um freio de segmentos (importantes) do establishment contra o impeachment? É cedo para dizer, mas as evidências são de que sim. Prosperarão, a deposição da Presidente será bloqueada? Não é possível arriscar uma resposta. Por que os referidos segmentos estão a adotar tais posições? Há hipóteses a considerar. Seja como for, são posições que um embaralham as cartas. Contudo, o jogo nem sequer chegou ao meio do primeiro tempo. À Saramago, mais do que olhar, lancemos mão da argúcia dos olhos para reparar os próximos lances. 



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