segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Entre a teoria e a prática na sociedade atual

sábado, 9 de dezembro de 2017

A nossa queda

Por Edmilson Lopes Júnior
(Sociólogo, UFRN)


Envelhecer foi se tornando obsceno. De repente, temos que ser todos eternamente jovens. Talvez Mick Jagger seja o ícone desse imaginário. Como se tudo fosse assim: a gente nasce, cresce, fica adolescente, jovem e vive como jovem e um dia morre. Balela. A gente envelhece, sim. A gente vai esquecendo coisas, também. Palavras que não vêm, conexões de eventos que demoram a ascender à consciência... Mas, para muita gente, envelhecimento foi guindado à condição de palavra proibida. Como câncer, antigamente. Lá na Várzea do Apodi, ninguém falava câncer... Pronunciava-se "aquela doença". E de forma um tanto conspiratória e amedrontada. Hoje, a velhice é negada. Um elogio grande, nestes dias, é dizer que a pessoa "continua a mesma". Eu, não, não continuo o mesmo. Para o bem e para o mal, mudei. E, sim, estou envelhecendo. E as marcas ficam em todos os lugares, embora, algumas vezes, você ainda pense que o seu corpo é aquele de antes e que vai te obedecer prontamente. Mas, não. Dia desses, subindo as escadas do meu prédio, calculei mal o próximo batente e me esparramei na escadaria. Nos batentes ficaram as compras que levava nas mãos, e, sim, um pouco do controle sobre o eu que definia como parte fundamental de "mim mesmo" (meu corpo). Sim, porque, na queda, vi-me tentando, como direi?, a mitigar os seus efeitos. Pude apenas proteger a cabeça. Não, não tive maiores consequências, exceto um pequeno corte na perna, a essa altura já sarado. A gente aceita as idades quando elas são carregadas semanticamente: idade dos arroubos, idade da paixão, idade da razão... e até uma certa "idade da maturidade". Só. Nós, os vivos, continuaremos a envelhecer, é inexorável... Ah, mas não aquelas especulações do Yuval Noah Harari, no HOMO DEUS? Tá, eu sei. Mick Jagger tá aí, quase jovem. Aliás, o ícone desse tempo que não passa. Joe Cocker, não. O cara morreu velho, que sinistro! Você vai lá e clica "Joe Cocker" no youtube e aparece um cara cantando With a little help from my friends no Festival de Woodstock e um velho senhor também cantando a mesma música. Você se choca? Sei lá, acho verdadeiro e prefiro isso ao mito que é o Mick. E a Jane Fonda? Jane Fonda é a demonstração de que envelhecemos, sim. Ah, porque estou falando de Jane Fonda? Sei lá, eu estava falando de uma queda, de envelhecimento... 

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Texto socializado pelo autor em rede social, sob o título 'A Minha Queda'. 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Dinamarca: bolsas de estudo para graduação, mestrado e doutorado

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Danish Government Scholarships under the Cultural Agreements prevê bolsas com duração de 5 a 12 meses.
As bolsas destinam-se a jovens qualificados interessados em se especializar em design, arquitetura, estudos ambientais e outros campos relacionados ou em estudar língua e cultura dinamarquesas. Podem se candidatar estudantes do Brasil, China, Japão, Coreia do Sul e Rússia.
O programa oferece um salário mensal de 6,5 mil coroas dinamarquesas, cerca de 3,3 mil reais. Os selecionados devem ser estudantes de instituições de ensino superior que queiram realizar intercâmbio no país europeu.
Por ano letivo, são reservados 50 meses de bolsas de estudos a estudantes brasileiros. Os tipos de benefícios disponíveis são:
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes doutorado/PhD.;
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes de mestrado;
Bolsas de 5 a 12 meses para estudantes de graduação que estudam língua e literatura dinamarquesas

Critérios de seleção do programa
A comissão que vai selecionar os candidatos dará prioridade para quem tiver projetos de pesquisa que, de alguma forma, estejam relacionados ao país. A motivação do candidato em estudar em solo dinamarquês também será avaliada. Serão solicitadas cartas de avaliação/recomendação de ex-professores dos candidatos, assim como também se considerará o patamar intelectual desses professores.

Candidatura às bolsas para estudar na Dinamarca
As inscrições vão até 1º de março de 2018. É preciso fazer o download e preencher o formulário de candidatura e enviá-lo por e-mail (kulturaftaler@ufm.dk) junto aos seguintes documentos:
Currículo;
Carta de motivação;
Programa detalhado de estudos/pesquisa na Dinamarca;
Cópia do diploma (certificada e traduzido);
Histórico escolar;
Carta da universidade de origem;
Certificado de proficiência em inglês;
Carta de admissão ou convite da universidade dinamarquesa;
Carta de recomendação e/ou duas de referência.

Veja a lista das instituições dinamarquesas que participam do programa




quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A invenção do Natal

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Templo dedicado a Mitra 

Por Alexandre Versignassi

Roma, século II, dia 25 de dezembro. A população está em festa, em homenagem ao nascimento daquele que veio para trazer benevolência, sabedoria e solidariedade aos homens. Cultos religiosos celebram o ícone, nessa que é a data mais sagrada do ano. Enquanto isso, as famílias apreciam os presentes trocados dias antes e se recuperam de uma longa comilança.
Mas, não. Essa comemoração não é o Natal. Trata-se de uma homenagem à data de “nascimento” do deus persa Mitra, que representa a luz, e, ao longo do século II, tornou-se uma das divindades mais respeitadas entre os romanos. Qualquer semelhança com o feriado cristão, no entanto, não é mera coincidência.
A história do Natal começa, na verdade, pelo menos 7 mil anos antes do nascimento de Jesus. É tão antiga quanto a civilização e tem um motivo bem prático: celebrar o solstício de inverno, a noite mais longa do ano no hemisfério norte, que acontece no final de dezembro. Dessa madrugada em diante, o sol fica cada vez mais tempo no céu, até o auge do verão. É o ponto de virada das trevas para luz: o “renascimento” do Sol. Num tempo em que o homem deixava de ser um caçador errante e começava a dominar a agricultura, a volta dos dias mais longos significava a certeza de colheitas no ano seguinte. E então era só festa. Na Mesopotâmia, a celebração durava 12 dias. Já os gregos aproveitavam o solstício para cultuar Dionísio, o deus do vinho e da vida mansa, enquanto os egípcios relembravam a passagem do deus Osíris para o mundo dos mortos. Na China, as homenagens eram (e ainda são) para o símbolo do yin-yang, que representa a harmonia da natureza. Até povos antigos da Grã-Bretanha, mais primitivos que seus contemporâneos do Oriente, comemoravam: o “forrobodó” era em volta de Stonehenge, monumento que começou a ser erguido em 3100 a.C. para marcar a trajetória do Sol ao longo do ano.
A comemoração em Roma, então, era só mais um reflexo de tudo isso. Cultuar Mitra, o deus da luz, no 25 de dezembro, era nada mais do que festejar o velho solstício de inverno – pelo calendário atual, diferente daquele dos romanos, o fenômeno, na verdade, acontece no dia 20 ou 21, dependendo do ano. Seja como for, o culto a Mitra chegou à Europa lá pelo século IV a.C., quando Alexandre, o Grande, conquistou o Oriente Médio. Centenas de anos depois, soldados romanos viraram devotos da divindade. E ela foi parar no centro do Império.
Mitra, então, ganhou uma celebração exclusiva: o Festival do Sol Invicto. Esse evento passou a fechar outra farra dedicada ao solstício. Era a Saturnália, que durava uma semana e servia para homenagear Saturno, senhor da agricultura. “O ponto inicial dessa comemoração eram os sacrifícios ao deus. Enquanto isso, dentro das casas, todos se felicitavam, comiam e trocavam presentes”, dizem os historiadores Mary Beard e John North, no livro Religions of Rome (“Religiões de Roma”, sem tradução para o português). Os mais animados se entregavam a orgias – mas isso os romanos faziam o tempo todo. Bom, enquanto isso, uma religião nanica que não dava bola para essas coisas crescia em Roma: o cristianismo.

Solstício cristão
As datas religiosas mais importantes para os primeiros seguidores de Jesus só tinham a ver com o martírio dele: a Sexta-Feira Santa (crucificação) e a Páscoa (ressurreição). O costume, afinal, era lembrar apenas a morte de personagens importantes. Líderes da Igreja achavam que não fazia sentido comemorar o nascimento de um santo ou de um mártir – já que ele só se torna uma coisa ou outra depois de morrer. Sem falar que ninguém fazia ideia da data em que Cristo veio ao mundo – o Novo Testamento não diz nada a respeito. Só que tinha uma coisa: os fiéis de Roma queriam arranjar algo para fazer frente às comemorações pelo solstício. E colocar uma celebração cristã bem nessa época viria a calhar – principalmente para os chefes da Igreja, que teriam mais facilidade em amealhar novos fiéis. Aí, em 221 d.C., o historiador cristão Sextus Julius Africanus teve a sacada: cravou o aniversário de Jesus no dia 25 de dezembro, nascimento de Mitra. A Igreja aceitou a proposta e, a partir do século IV, quando o cristianismo virou a religião oficial do Império, o Festival do Sol Invicto começou a mudar de homenageado. “Associado ao deus-sol, Jesus assumiu a forma da luz que traria a salvação para a humanidade”, diz o historiador Pedro Paulo Funari, da Unicamp. Assim, a invenção católica herdava tradições anteriores. “Ao contrário do que se pensa, os cristãos nem sempre destruíam as outras percepções de mundo como rolos compressores. Nesse caso, o que ocorreu foi uma troca cultural”, afirma outro historiador especialista em Antiguidade, André Chevitarese, da UFRJ.
Não dá para dizer ao certo como eram os primeiros Natais cristãos, mas é fato que hábitos como a troca de presentes e as refeições suntuosas permaneceram. E a coisa não parou por aí. Ao longo da Idade Média, enquanto missionários espalhavam o cristianismo pela Europa, costumes de outros povos foram entrando para a tradição natalina. A que deixou um legado mais forte foi o Yule, a festa que os nórdicos faziam em homenagem ao solstício. O presunto da ceia, a decoração toda colorida das casas e a árvore de Natal vêm de lá. Só isso.
Outra contribuição do norte foi a ideia de um ser sobrenatural que dá presentes para as criancinhas durante o Yule. Em algumas tradições escandinavas, era (e ainda é) um gnomo quem cumpre esse papel. Mas essa figura logo ganharia traços mais humanos.

Nasce o Papai Noel
Ásia Menor, século IV. Três moças da cidade de Myra (onde hoje fica a Turquia) estavam na pior. O pai delas não tinha um gato para puxar pelo rabo, e as garotas só viam uma saída: entrar para o ramo da prostituição. Foi então que, numa noite de inverno, um homem misterioso jogou um saquinho cheio de ouro pela janela (alguns dizem que foi pela chaminé) e sumiu. Na noite seguinte, atirou outro; depois, mais outro. Um para cada moça. Aí as meninas usaram o ouro como dotes de casamento – não dava para arranjar um bom marido na época sem pagar por isso. E “viveram felizes para sempre”, sem se tornarem prostitutas. Tudo graças ao sujeito dos saquinhos. O nome dele? Papai Noel.
Bom, mais ou menos. O tal benfeitor era um homem de carne e osso conhecido como Nicolau de Myra, o bispo da cidade. Não existem registros históricos sobre a vida dele, mas lenda é o que não falta. Nicolau seria um ricaço que passou a vida dando presentes para os pobres. Histórias sobre a generosidade do bispo, como essa das moças que escaparam do bordel, ganharam status de mito. Logo atribuíram toda sorte de milagres a ele. E um século após sua morte, o bispo foi canonizado pela Igreja Católica. Virou são Nicolau.
Um santo multiuso: padroeiro das crianças, dos mercadores e dos marinheiros, que levaram sua fama de bonzinho para todos os cantos do Velho Continente. Na Rússia e na Grécia Nicolau virou o santo nº1, a Nossa Senhora Aparecida deles. No resto da Europa, a imagem benevolente do bispo de Myra se fundiu com as tradições do Natal. E ele virou o presenteador oficial da data. Na Grã-Bretanha, passaram a chamá-lo de Father Christmas (Papai Natal). Os franceses cunharam Pére Nöel, que quer dizer a mesma coisa e deu origem ao nome que usamos aqui. Na Holanda, o santo Nicolau teve o nome encurtado para Sinterklaas. E o povo dos Países Baixos levou essa versão para a colônia holandesa de Nova Amsterdã (atual Nova York) no século XVII – daí o Santa Claus que os ianques adotariam depois. Assim o Natal que a gente conhece ia ganhando o mundo, mas nem todos gostaram da ideia.

Natal fora-da-lei
Inglaterra, década de 1640. Em meio a uma sangrenta guerra civil, o rei Charles 1º digladiava com os cristãos puritanos – os filhotes mais radicais da Reforma Protestante, que dividiu o cristianismo em vários segmentos no século XVI.
Os puritanos queriam quebrar todos os laços que outras igrejas protestantes, como a anglicana (dos nobres ingleses),  ainda mantinham com o catolicismo. A ideia de comemorar o Natal, veja só, era um desses laços. Então precisava ser extirpada.
Primeiro, eles tentaram mudar o nome da data de “Christmas” (Christ’s mass, ou Missa de Cristo) para Christide (Tempo de Cristo) – já que “missa” é um termo católico. Não satisfeitos, decidiram extinguir o Natal numa canetada: em 1645, o Parlamento, de maioria puritana, proibiu as comemorações pelo nascimento de Cristo. As justificativas eram que, além de não estar mencionada na Bíblia, a festa ainda dava início a 12 dias de gula, preguiça e mais um punhado de outros pecados.
A população não quis nem saber e “continuou a cair na gandaia” às escondidas. Em 1649, Charles I  foi executado e o líder do exército puritano Oliver Cromwell assumiu o poder. As intrigas sobre a comemoração se acirraram, e chegaram a pancadaria e repressões violentas. A situação, no entanto, durou pouco. Em 1658 Cromwell morreu e a restauração da monarquia trouxe a festa de volta. Mas o Natal não estava completamente a salvo. Alguns puritanos, do outro lado do oceano, logo proibiriam a comemoração em “suas bandas”. Foi na então colônia inglesa de Boston, onde festejar o 25 de dezembro virou uma prática ilegal entre 1659 e 1681. O lugar que se tornaria os EUA, afinal, tinha sido colonizado por puritanos ainda mais linha-dura que os seguidores de Cromwell. Tanto que o Natal só virou feriado nacional por lá em 1870, quando uma nova realidade já falava mais alto que cismas religiosas.

Tio Patinhas
Londres, 1846, auge da Revolução Industrial. O rico Ebenezer Scrooge passa seus Natais sozinho e quer que os pobres se explodam “para acabar com o crescimento da população”, dizia. Mas aí ele “recebe a visita de 3 espíritos” que representam o Natal. Eles lhe ensinam que essa é a data para esquecer diferenças sociais, abrir o coração, compartilhar riquezas. E o pão-duro se transforma num homem generoso.
Eis o enredo de Um Conto de Natal, do britânico Charles Dickens. O escritor vivia em uma Londres caótica, suja e superpopulosa – o número de habitantes tinha saltado de 1 milhão para 2,3 milhões na 1ª metade do século XIX. Dickens, então, carregou nas tintas para evocar o Natal como um momento de redenção contra esse estresse todo, um intervalo de fraternidade em meio à competição do capitalismo industrial. Depois, inúmeros escritores seguiram a mesma linha – o nome original do Tio Patinhas, por exemplo, é Uncle Scrooge, e a primeira história do pato avarento, feita em 1947, faz paródia a Um Conto de Natal. Tudo isso, no fim das contas, consolidou a imagem do “espírito natalino” que hoje retumba na mídia.
Outra contribuição da Revolução Industrial, bem mais óbvia, foi a produção em massa. Ela turbinou a indústria dos presentes, fez nascer a publicidade natalina e acabou transformando o bispo Nicolau no garoto-propaganda mais requisitado do planeta. Até meados do século XIX, a imagem mais comum dele era a de um bispo mesmo, com manto vermelho e mitra – aquele chapéu comprido que as autoridades católicas usam. Para se enquadrar nos novos tempos, então, o homem passou por uma plástica. O cirurgião foi o desenhista americano Thomas Nast, que em 1862, tirou as referências religiosas, adicionou uns quilinhos a mais, remodelou o figurino vermelho e estabeleceu a residência dele no Polo Norte – para que o velhinho não pertencesse a país nenhum. Nascia o Papai Noel de hoje. Mas a figura do bom velhinho só “bombaria” mesmo no mundo todo depois de 1931, quando ele virou estrela de uma série de anúncios da Coca-Cola. A campanha foi sucesso imediato. Tão grande que, nas décadas seguintes, ele se tornou a coisa mais associada ao Natal. Mais até que o verdadeiro homenageado da comemoração. Ele mesmo: o Sol.

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Fonte: https://super.abril.com.br/. Título original: 'A verdadeira história do Natal'.