sexta-feira, 23 de junho de 2017

A porta mora à espera

De Daniel Faria, 'A Porta'. 


Vexame internacional

Por Bernardo Mello Franco 

A viagem de Michel Temer à Europa produziu um vexame internacional. Enquanto o presidente passeava em Oslo, o governo da Noruega anunciou que cortará pela metade a ajuda ao Fundo Amazônia. O motivo é o fracasso do Brasil no combate ao desmatamento.
A devastação da floresta avançou 29% na última medição anual, divulgada em novembro. O país perdeu 7.989 quilômetros quadrados de mata tropical, o equivalente a sete vezes a área da cidade do Rio de Janeiro. Foi o pior resultado em oito anos.
A Noruega é a maior patrocinadora do Fundo Amazônia. Já doou R$ 2,8 bilhões para o Brasil proteger as árvores e reduzir a emissão de carbono. Isso equivale a 97% dos recursos do fundo, que também recebeu aportes da Alemanha e da Petrobras.
Às vésperas da chegada de Temer, os noruegueses repreenderam o governo brasileiro pelo desmantelamento da política ambiental. O ministro Vidar Helgesen criticou a aprovação de medidas provisórias que reduzem unidades de conservação.
A pressão internacional convenceu o presidente a vetar as MPs. No entanto, o governo prometeu aos ruralistas que vai enviar ao Congresso um projeto de lei com o mesmo teor.
Após o anúncio desta quinta, o Fundo Amazônia deve perder ao menos R$ 166 milhões em doações. "É uma decisão humilhante para os brasileiros. O país pediu dinheiro para reduzir o desmatamento, mas o que está acontecendo é o contrário", me disse Jaime Gesisky, da WWF.
O secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, avalia que o retrocesso ainda pode se agravar. "A aliança de Temer com a bancada ruralista está saindo muito caro. O meio ambiente virou moeda de troca na negociação para barrar o impeachment", afirmou.
Em Oslo, onde desfilou com uma reluzente gravata verde, o ministro Sarney Filho foi questionado se o Brasil vai reduzir o desmatamento. Sua resposta foi outro vexame: "Só Deus pode garantir isso". 

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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardomellofranco


quarta-feira, 21 de junho de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

O Avesso da Pele: Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas

De algum modo, penso eu, todos aqueles que vivem a universidade como algo que não se deve confundir com o 'jogo de espertezas', com o discurso populista (à direita e à esquerda) e com o rebaixamento ético e de qualidade que atualmente atenta contra ela como centro do conhecimento sistematizado, sentem quando a instituição universitária perde um dos seus membros comprometidos com o seu métier. Assim falo a propósito do suicídio do Professor Waldir Pedrosa Amorim, Professor de gastroenterologia da UFPB, um profissional de referência na docência e atuante na pesquisa, além das incursões pelo campo literário e pela poesia. Não vem ao caso indagações sobre as razões do ato que Albert Camus qualificou como sendo a 'decisão em torno da única questão fundamental.' Ao tomar conhecimento do fato, de imediato, lembrei-me que, por esses dias, estive a folhear um livro de poesias dele, sugestivamente intitulado 'O Avesso da Pele'. Lembrei-me também de 'Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas', de Walt Whitman.  

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Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles. 

('Estão Todas as Verdades à Espera em Todas as Coisas', Walt Whitman,  in Leaves of Grass, traduzido como  Folhas da Erva - antologia, seleção e tradução de José Agostinho Batista, Assírio e Alvin Editora, Lisboa, 2003) 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quanto tempo a democracia suportará?

Por Carlos Melo
(Cientista político)

O destino do PSDB não tem mais importância; a legenda demonstrou que está sincronizada com a média do sistema político nacional. Nem promessas de voltar atrás no apoio ao governo Temer são relevantes. Risíveis são as declarações de que se pautaram pela ''ética da responsabilidade'', pesando meios e fins em relação ao país. Triste fim de Max Weber, acabar como sofisma em bico de tucano.
Pedantismos sociológicos à parte, o maior problema é mesmo o Brasil, hoje um vazio de ideias e lideranças; deixado à sorte da crise, sem referências que possam contornar a situação. Tão cedo, não se constituirá um centro capaz de reestruturar seu sistema político, reformando e modernizando-o. A lacuna ao centro favorecerá a polarização e o populismo, o que traz riscos evidentes.
De imediato, o que se vê é que a crise não cessará: o governo Temer é um trem descarrilhado; admite todo o tipo de concessões para se salvar e se fortalecer de modo a atropelar o que resta de instituições. Seus desmentidos não escondem intenções de que o objetivo é desqualificar os principais agentes da Lava Jato: o ministro Edson Fachin e o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot. ''Estancar a sangria'', como disse Romero Jucá.
No quadro presente, será improvável fazer reformas estruturais e conduzir ajustes fiscais relevantes. A reforma Trabalhista, por adiantada tramitação, ainda vai; mas a da Previdência tende a ficar para as calendas — dificilmente será aprovado mais que um símbolo. Ao mesmo tempo, renegociações com estados e todo tipo de interesse que possam significar proteção política, agravarão a situação das contas públicas.
À existência de um teto de gastos, é justo imaginar cortes de investimentos e na área social; ou que venham aumentos de impostos. Também a economia será incapaz de um salto significativo; a aceleração, se houver, será lenta. Para investidores estrangeiros, o país ainda é melhor caminho para ganhos elevados do que os demais BRICS; mais cautelosos, nativos olham com apreensão, colocam o pé no freio. Dificilmente, o padrão de crescimento do primeiro trimestre se repetirá.
Ao mesmo tempo, no front político não há perspectiva de paz: as denúncias contra o presidente, sua equipe e aliados não cessarão; há, sem dúvida, muito potencial de desgastes. Enterrar a Lava Jato é sonho de dez em cada dez dos mais de trezentos picaretas que, em quase todos os partidos, estão envolvidos com ela. Mas, não há força para isso: bem ou mal, a sociedade reage. No mínimo, há um empate estabelecido. Para desespero de Jucá, o sistema continuará a sangrar.
O sistema de pesos e contrapesos da democracia foi afetado: o Tribunal Superior Eleitoral deu mostras de uma Justiça incapaz de arbitrar o conflito político; houve aí o desgaste de personagens e instituições, que, pela omissão ou ação parcial, perderam credibilidade. A possibilidade de algum avanço nesse campo ficará por conta do Supremo Tribunal Federal — a última cidadela, também cercada de controvérsia.
Logo, o país não sai da sinuca tão já. As eleições do ano que vem devem ocorrer envoltas nesse ambiente — e é plausível que o país continue encalacrado mesmo depois delas. Numa atmosfera de muita incerteza, a disputa eleitoral pode ferver ao mesmo ritmo das tensões sociais, com retroalimentação de ambos. PT, Ciro Gomes, Marina Silva, Jair Bolsonaro, João Doria; nomes colocados, qual seria capaz de abrir diálogos, propor pactos e estabelecer limites às contendas? De onde menos se espera é mesmo de onde nada vem.
A pergunta que não pode ser negligenciada é: quanto tempo a democracia brasileira suportará? Nossas tradições não nos garantem. Ademais, democracia não prescinde de lideranças. O diabo é enxergar onde elas estão. A ''ética da responsabilidade'' exigirá coragem para mudar, posturas morais, propostas reformistas no campo político; comunicação, diálogo e firmeza. Não há espaço para sofismar.

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Fonte: http://carlosmelo.blogosfera.uol.com.br/


terça-feira, 13 de junho de 2017

A serenidade do equilíbrio da maturidade

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L'Inspiration, de Eugène Delacroix 

“Recordo-me que outrora, quando tinha essa idade que se diz ser a idade do entusiasmo e do ímpeto da imaginação, como me faltava a experiência para tornar mais fortes essas belas qualidades. Interrompia frequentemente o meu trabalho, que muitas vezes me desagradava. A posição em que a idade nos coloca é uma ironia da natureza. Quando chegamos à  maturidade, temos uma imaginação mais arejada e viva do que nunca e sobretudo sossegaram as inconstâncias que a idade arrasta consigo, mas já temos os  sentidos gastos - estes pedem mais o descanso do que a agitação. E, no entanto, apesar de todas estas agruras, como é grande a consolação que nos é comunicada pelo trabalho! Como me sinto feliz por não ter de ser feliz como tanto o desejava no passado! De que selvática tirania afinal não me acabou por libertar a serenidade do equilíbrio da maturidade?! 
Então, a pintura era o que menos me preocupava. Temos de nos adaptar às nossas forças: se a partir de certa altura a natureza se recusa a trabalhar, não a devemos violentar, mas contentarmo-nos com o que ela nos dá; não nos deixarmos dominar pela sede de elogios, que passam como o vento, mas aprendermos a saborear o próprio trabalho e as horas deliciosas que se lhe seguem - profundamente convictos de que esse lazer foi conquistado graças a uma salutar fadiga, que salvaguarda a saúde da alma. Inspiração. A alma, por seu turno, influi sobre a saúde do corpo - impedindo que a ferrugem dos anos embote os mais nobres sentimentos.”
(Eugène Delacroix – pintor, principal expressão francesa do Romantismo; in Diário)