quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A soleira da porta do grande silênico aberta à noite infinita



Por Francisco Mangas 
 
O fim da vida foi tema de vários romances e textos introspectivos do Prémio Nobel.  O escritor José Saramago conhecia a inevitabilidade da morte, mas trabalhou literariamente os vários trocadilhos possíveis sobre a única coisa certa que a humanidade tem
Ainda criança, na aldeia da Azinhaga, ouviu a avó a fazer um comovedor elogio à vida. 'O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.' Assim mesmo. 'Eu estava lá', conta Saramago no livro As Pequenas Memórias. A avó, 90 anos 'e o fogo de uma adolescência nunca perdida', estava sentada na soleira da porta, 'aberta para a noite estrelada e imensa'.
O jogo da vida e da morte está bem presente na obra de José Saramago. 'De Deus e da morte não se tem contado senão histórias', dizia o autor de Levantado do Chão. A morte, a palavra morte, que andarilha por muitas páginas da densa prosa, emerge também no título de dois dos seus romances: O Ano da Morte de Ricardo Reis e As Intermitências da Morte. Esta última obra, grande metáfora da vida e da morte, Saramago abre com a frase, 'no dia seguinte ninguém morreu'. A partir de um Janeiro, num determinado país, ninguém mais morreu. Mas, como viver sempre também cansa, a dada altura, a morte, através de carta, retoma a regras antigas do mundo. Retomou os seus implacáveis poderes: 'A partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios.'
Saramago não contará mais histórias sobre a morte. Mas as palavras que nos deixa são 'o viático, o salvo-conduto, graças ao qual', agora que chegou a hora, se libertará do silêncio mais profundo.
'Mas a imagem que não me larga nesta hora de melancolia é a do velho que avança sob a chuva, obstinado, silencioso, como quem cumpre um destino que nada poderá modificar. A não ser a morte. Este velho, que quase toco com a mão, não sabe como irá morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia terá o pressentimento de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, das sombras amigas, dos frutos que não voltará a comer. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória não o ressuscitar no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e na eterna interrogação dos astros. Que palavras dirá então?'
'Então ela, a morte, levantou- -se, abriu a bolsa que tinha deixado na sala e retirou a carta de cor violeta. Olhou em redor como se estivesse à procura de um lugar onde a pudesse deixar, sobre o piano, metida entre as cordas do violoncelo, ou então no próprio quarto, debaixo da almofada em que a cabeça do homem descansava. Não o fez. Saiu para a cozinha, acendeu um fósforo, um fósforo humilde, ela que poderia desfazer o papel com o olhar, reduzi-lo a uma impalpável poeira, ela que poderia pegar-lhe fogo só com o contacto dos dedos, e era um simples fósforo, o fósforo comum, o fósforo de todos os dias, que fazia arder a carta da morte, essa que só a morte podia destruir. Não ficaram cinzas.  A morte voltou para a cama, abraçou-se ao homem e, sem compreender o que lhe estava a suceder, ela que nunca dormia, sentiu que o sono lhe fazia descair suavemente as pálpebras. No dia seguinte ninguém morreu.'
'(…) E os homens avançaram para o terreno revolvido, com carros de não e pás, enchendo aqui, no monte, despejando além, na encosta para Mafra, ao passo que outros homens, de enxada ao ombro, desciam aos caboucos já fundos, neles desapareciam, enquanto mais homens lançavam cestos para dentro e depois os puxavam para cima, cheios de terra, e os iam despejar afastadamente, aonde outros homens iam por sua vez encher carros de mão, que levavam no aterro, não há diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.'
'(…) Nenhum condenado à cadeira eléctrica, ou à forca, ou à guilhotina, ou ao garrote, ou à fogueira, terá dado voz de acção para ligar a corrente, ou abrir o alçapão, ou soltar a lâmina, ou girar o parafuso, ou riscar o fósforo, talvez por não terem estas mortes dignidade, incluindo as de mais longa tradição na arte, talvez por faltar nelas o factor militar, a instituição das armas, onde tão mais de costume faz ninho o heroísmo, que mesmo quando o condenado não passava de vulgar paisano as balas que recebeu no peito procederam como resgate da mediocridade e foram o viático, o salvo-conduto, graças ao qual lhe virá a ser permitido, quando chegar a hora, entrar no paraíso dos heróis.'
'E nós, portugueses, que poeta devermos ir buscar a França, se lá nos ficou algum, Que eu saiba, só o Mário de Sá Carneiro, mas esse nem vale a pena tentar, primeiro, porque não havia de querer vir, segundo, porque os cemitérios de Paris são lugares bem guardados, terceiro, porque tendo passado tantos anos depois que morreu, a administração duma capital não cometeria os erros duma comuna de província que, ainda por cima, tem a desculpa de ser mediterrânica, Além disso, de que serviria tirá-lo dum cemitério para o pôr noutro, uma vez que em Portugal não há-de ser autorizado enterrar os mortos fora do lugar, ao ar livre. Nem os ossos dele ficariam quietos se os deixássemos à sombra duma oliveira no Parque Eduardo VII.'
'Enquanto andava, ia pensando que ali eu não era eu, que o meu corpo ficara morto virado ao mar, no alto da arriba, e que o mundo estava todo cheio de sombras e confusão. A noite apanhou-me na margem do rio, com uma cidade diante que eu não reconhecia, como as torres ameaçadoras dos pesadelos. Ainda hoje, tantos anos passados, me pergunto que vulto de mim terá ficado disperso na brancura das areias ou imobilizado em pedra na arriba cortada pelo vento. E sei que não há resposta.'

----------------------
Fonte: https://www.dn.pt/dossiers/gente/jose-saramago/perfil/interior/a-morte-segundo-saramago-1598883.html

Os medíocres


Tempo de ler novamente José Ingenieros. 


Libro El hombre mediocre

El mediocre aspira a confundirse en los que le rodean; el original tiende a diferenciarse de ellos. Mientras el uno se concreta a pensar con la cabeza de la sociedad, el otro aspira a pensar con la propia. En ello estriba la desconfianza que suele rodear a los caracteres originales: nada parece tan peligroso como un hombre que aspira a pensar.”

“No sólo se adula a reyes y poderosos; también se adula al pueblo. Hay miserables afanes de popularidad, más denigrantes que el servilismo. Para obtener el favor cuantitativo de las turbas, puede mentírseles bajas alabanzas disfrazadas de ideal.” 

“La hipocresía es el arte de amordazar la dignidad; ella hace enmudecer los escrúpulos de los hombres incapaces de resistir la tentación del mal.” 

“La vulgaridad transforma la prudencia en cobardia, el orgullo en vanidad, el respeto en servilismo.” 

“No hay diferencia entre el cobarde que modera sus acciones por miedo al castigo y el codicioso que las activa por la esperanza de una recompensa.” 


“El hombre mediocre sólo tiene ruinas en el cerebro y prejuicios en el corazón.”


“Los hipócritas ignoran que la verdad es la condición fundamental de la virtud.” 

sábado, 14 de outubro de 2017

'O passado é um rio que dorme'


De José Eduardo Agualusa, em O Vendedor de Passados: 

Nada passa, nada expira
O passado é
um rio que dorme
e a memória uma mentira multiforme

Dormem do rio as águas
e em meu regaço dormem os dias
dormem
dormem as mágoas
as agonias
dormem

Nada passa, nada expira
O passado é
Um rio adormecido
Parece morto, mal respira
acorda-o e saltará
num alarido 

Resultado de imagem para josé eduardo agualusa o vendedor de passados

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O ponto em que o olhar exercitou a sua profundidade: a criança, o adulto e a 'lei do eterno retorno'

espiral

No filme Meia Noite em Paris, o ator Owen Wilson, ao se perder pelas ruas da cidade, transforma-se em um viajante do tempo, de volta ao passado. Regressar a passados distantes vividos ou imaginados talvez seja um desejo acalentado por muitos e muitos em toda parte. Mas só na memória isso é possível, porque a mente é eterna-mente. Viagem memorial por paisagens que, assim, na mente, se afiguram como se o viajante as observasse de um belevedere temporal. Tal como pretender uma viagem ao tempo que já se foi tem uma nuance de melancolia, olhar o tempo como que interrogando o porvir parece ser um ato misto de encanto e desencanto. Porque ‘a cor do tempo quando passa’ revela tonalidades que descolorem a existência.  Perante o registro fotográfico,  a criança lança um olhar fixo atravessando os ares do ambiente em que está e que vai imbuído de uma inquietação posta para além da ideia dos pais de parar aquele momento, em foto, para mostrá-lo no futuro.  Mas, lembra Walt Whitman, “quão diferente é o cheiro do meio dia do da meia noite, o cheiro do outono do cheiro do inverno, o de um momento de brisa de outro de calma.”
Falava Nietzsche que a criança está para além do bem e do mal, e que, com a força do seu  olhar intelectivo e da sua penetração, cresce a distância (e, de certo modo, o espaço) que circunda o homem: o seu mundo torna-se mais profundo, avistam-se continuamente novas imagens e novos enigmas. Não sabemos até que ponto. É provável que nunca saibamos. Mas deve ser colocada a hipótese segundo a qual, no registro fotográfico, a criança, numa atitude similar à da Física Clássica, fita o escoar do tempo que constitui tal momento indagando-se sobre o significado do registro que está a ser feito. Olhos do crescimento na observação do tempo: encanto e desencanto juntos. Nietzsche novamente: talvez em tudo aquilo que, um dia, o olhar exercitou - desde cedo - a sua sagacidade e profundidade venha a ser a razão da volta ao ponto inicial. A ideia de eterno retorno.

sábado, 7 de outubro de 2017

Na solidão que te acompanha, a verdade do vento do tempo é a tua companhia


Resultado de imagem para O viajante das nuvens

Por Leont Etiel

Nas portas que se toca, está escrito: “não abras nenhuma se, depois, não conseguires fechar qualquer uma delas.” É do hinduísmo, o que, no Ocidente,  é percebido como mito,  sendo que o que não é e a promessa do que não vai ser, no reverso, coloniza as mentes que pretendem ser.
A viagem era com Freud e Jung, e o assunto - com pequenas, médias e grandes modelações – pousava sobre os sonhos. Eles viajaram juntos durante quase dois meses. E puseram a análise do que sonhavam sobre a mesa. Freud, contudo, temendo o descenso da sua autoridade,  recusou a Jung a análise do seu sonho. Este, de sua parte, revelando o que a mente falava, enquanto os seus olhos fechavam, tinha um sonho complexo. Tratava-se de uma casa com vários andares e porões, os quais ele percorria até aportar a um espaço imensamente profundo que era uma caverna cavada numa rocha. Nela, o confronto era com duas caveiras. Freud ali via uma pulsão de morte; do contrário, Jung, tinha a percepção que a questão era de “inconsciente coletivo”.
Do que, na noite, se sonha e do que a mente pensa e deseja, há pouco a falar e muito a pensar. E muito a interpretar. E revelar o que está escondido por palavras ditas, que são ditas para não dizer, ocultar, o que, por trás delas, constitui o que é. Na estrada que se caminha,  sem pensar, quase sempre se concebe a “verdade” antes do primeiro passo. O que vai ser, é já o que é.
O universo que tanto torna cada um minúsculo. O céu estrelado que me habita. A corrida do tempo que fará com que cada um, numa idade surrealisticamente mal percebida, seja remetido ao ridículo e, afundando-se, ao nada.  Nos corredores, há sinais dispersos; na vida, há sinais enigmáticos. Na dispersão do tempo, as passagens da vida são não passagens de uma vivência que se desperdiça no que poderia ser, no que não foi, no que pode ser, no que há de ser, no que não vai ser.

Imagem inline 1

A cauda do cometa do romantismo insistente: o surrealismo. Na solidão que te acompanha, a verdade do vento do tempo é a tua companhia. Para onde se vai, é o sentimento não dito em palavras fáceis. É do cerne guardado. A casa distante e próxima que acolhe. Os ares que dizem flores. Segue-se, assim, a via da alta serra, desenhada em cruz, numa cruz da serra, numa imagem distante, numa fotografia próxima, numa vida vivida, numa casa de histórias e segredos, numa idade que olha para tudo e diz: “continua”; numa existência que pretende seguir buscando apoio naquilo que o tempo, surpreendendo, apresenta. 
O porto que abriga é quase sempre um caminho para dentro de si próprio. Contemplado de uma morada situada em um alto horizonte indecifrável.