quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre conhecer, aprender e desenvolvimento moral

A propósito da hipótese piagetiana, conforme Yves de La Taille.  Contemporaneamente, há de se considerar ainda outros aportes sobre o tema, tendo em conta as suas bases/condicionamentos histórico-sociais. 


terça-feira, 22 de agosto de 2017

A morada do "enigma" do raciocínio: o lógico caminho do pensamento


Continua no esquecimento a tradução brasileira do livro mais editado do mundo, depois da Bíblia. Refiro-me aos Elementos, de Euclides. É possível que fatos como esse expliquem a dificuldade dos nossos jovens percorrerem o caminho da lógica, livrando-se do pensamento causal assente na aparência, e adentrando no universo revelador das abstrações. Tomemos em conta, por exemplo, o caso condicional e bicondicional e suas tabelas verdade. 
No primeiro caso:  

p
q
p → q
V
V
V
V
F
F
F
V
V
F
F
V


     Seguindo...
     a)  p: Pelé é brasileiro (V)
q: Maradona é argentino (V)
 q: Se Pelé é brasileiro, então Maradona é argentino (V)

b)   q: 2 + 2 = 4 (V)
p: 1 > 7 (F)
 q: Se 2 + 2 = 4, então 1 > 7 (F)

c)   p: crocodilos são anfíbios (F)
q: macacos são mamíferos (V)
 q: Se crocodilos são anfíbios, então macacos são mamíferos (V)

d)   p: o sistema de governo do Brasil é o parlamentarismo (F)
q: o sistema de governo da Inglaterra é o presidencialismo (F)
 q: Se o sistema de governo do Brasil é o parlamentarismo, então o da Inglaterra é o presidencialismo (V)

No segundo caso: 


p
q
 q
V
V
V
V
F
F
F
V
F
F
F
V

Seguindo...
a)   p: Heródoto escreveu sobre as Guerras Médicas (V)
q: Tucídides escreveu sobre a Guerra do Peloponeso (V)
p ↔ q: Heródoto escreveu sobre as Guerras Médicas se e somente se Tucídides escreveu sobre a Guerra do Peloponeso (V)

b)   q: 2 . 2 = 4 (V)
p: 5 > 9 (F)
p ↔ q: 2 . 2 = 4 se e somente se 5 > 9 (F)

c)   p: Dostoiévski é o autor de Guerra e Paz (F)
q: Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro (V)
p ↔ q: Dostoiévski é o autor de Guerra e Paz se e somente se Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro (F)

d)   p: a Lua é um satélite artificial da Terra (F)
q: Marte é o maior planeta do Sistema Solar (F)
p ↔ q: a Lua é um satélite artificial da Terra se e somente se Marte é o maior planeta do Sistema Solar (F)

Na verdade, parte da dificuldade reside em entender adequadamente o que vem a ser uma condição necessáriauma condição suficiente e uma condição necessária e suficiente. Na História da Filosofia, a lógica sempre foi algo que me fascinou, sobretudo porque dela depende a objetividade, e com ela está conectada a Ética. Dessa forma, nas universidades em que tenho trabalhado, ensinar em cursos como Matemática é algo estimulante, na medida em que a área proporciona bases para a interlocução lógica. E se falarmos de uma lógica dialética, os “ares avivam-se ainda mais”. Kant foi longe nessa matéria: disse que 'há uma lógica curiosa e convincente, mesmo no mais perverso pensamento humano'. E disse mais: 'Quem não sabe o que busca, não identifica o que encontra'. De sua parte, William Roger assinalou: 'A maturidade não se dá pela idade e sim pela capacidade lógica de raciocínio profundo e reflexão própria.'  Apurar e sofistificar o pensamento, é disso que se trata. Voltar a Euclides pode ser útil. Vale a pena então conferir o texto aí abaixo, escrito com primor, pelo César Benjamin. 


Resultado de imagem para Os elementos, Euclides

                                                                                                                      
  Por César Benjmain 
Passou despercebida a primeira edição brasileira do livro mais editado no mundo, depois da Bíblia: os Elementos, de Euclides, o tratado científico mais importante da história.
Quase nada sabemos do autor e das circunstâncias que cercaram a criação da obra no século III a.C.. Por isso, e pela impressionante dimensão do trabalho, alguns já propuseram que Euclides pode ter sido um nome coletivo e os Elementos, a obra de uma escola. Mas isso não é provável. A maioria dos estudiosos situa por volta de 295 a. C. o ponto médio da vida ativa do  geômetra e aceita que ele estudou em Atenas até se transferir para Alexandria. Além dos Elementos, autores antigos referem-se a onze livros seus, entre os quais um Livro das falácias, uma Astronomia e um sobre música.
Houve outras obras com o mesmo título, que era usado para designar compilações de conhecimentos básicos. Mas elas se  perderam,  esmagadas pelo peso do tratado de Euclides. Em sua época a matemática helênica já  estava avançada, com uma tradição que remontava a Tales e Pitágoras, passando por Platão, Aristóteles e seus discípulos. “Euclides”, diz Proclo, “juntou os elementos, ordenando  muitos  teoremas de Eudoxo, aperfeiçoando os de Teeteto e acrescentando demonstrações irrefutáveis que só tinham sido vagamente comprovadas por seus antecessores.”
É difícil rastrear a trajetória da obra, sujeita por mais de 2 mil anos ao arbítrio de copistas, tradutores e comentadores, o que gerou diferentes traduções, traduções de traduções, versões resumidas, interpretações e interpolações. A primeira tradução árabe, feita por al-Hajjāj no século VIII, registra no frontispício que “deixou de lado os supérfluos, preencheu as lacunas, corrigiu ou retirou os erros, até ter melhorado o livro e o tornado mais exato, e resumiu-o, conforme é encontrado na versão atual.” Poderíamos multiplicar tais exemplos. Em Lisboa, encontrei em um sebo Los elementos geométricos del famoso Euclides Megarense, amplificados de nuevas demonstraciones por el sargento general de batalla Don Sebastian Fernandez de Medrano (1646-1705); o bravo general já erra no título, ao confundir o geômetra com um homônimo, Euclides de Megara.
O livro foi traduzido diversas vezes para o latim e o árabe na Idade Média, e para as mais importantes línguas vernáculas a partir do  Renascimento. Até o século XIX, todas as edições em grego adotaram como referência a de Teon de Alexandria, preparada cerca de setecentos anos depois da época de Euclides. Em 1808, porém, François Peyrad constatou que um manuscrito trazido da Itália por Napoleão era uma versão mais próxima do original, iniciando pesquisas que culminaram em 1888 com o estabelecimento da edição de J. L. Heiberg, hoje aceita como a mais fiel. Ela foi o ponto de partida da tradução que Irineu Bicudo realizou durante dez anos, recém- publicada pela Editora da Unesp. Um trabalho assim não se faz por dinheiro, mas por amor. Não há como exagerar a sua importância.
A ausência de um aparato crítico faz a edição brasileira (um volume, 594 páginas) menor, em tamanho, que outras que a antecederam. A espanhola (Gredos), por exemplo, tem dois volumes e 772 páginas, enquanto a francesa (PUF)  atinge  quatro  volumes  e  2.024  páginas.  Mas,  no  que  é    essencial, estamos diante de um trabalho cuidadoso e competente: comparado com as outras edições, o texto em português parece até mesmo mais fiel ao estilo seco de Euclides.
***
A geometria nasceu no Egito antigo como ciência empírica, um conjunto de métodos de mensuração necessários para reconstituir os limites das propriedades em seguida às inundações anuais do Nilo. O gênio grego a transformou em um sistema dedutivo, gigantesco salto.
Os gregos viram que os conhecimentos geométricos não poderiam depender da experiência ou da evidência sensorial, pois uma e outra nunca nos permitiriam entrar em contato com pontos, retas e planos, meras abstrações. Esses conhecimentos dependeriam de demonstrações. Sabiam, porém, que era impossível demonstrar tudo, pois isso provocaria uma regressão ao infinito, com cada afirmação sendo sempre remetida a afirmações anteriores.  Para evitar isso, era preciso buscar o que Aristóteles chamou de “primeiros princípios”, que, sendo evidentes, dispensariam as provas. A partir dessa âncora, a lógica nos conduziria a conhecimentos válidos,  constituindo-se  assim uma  “ciência demonstrativa”. Coube a Euclides realizar esse ideal.
Em um sistema desse tipo, hoje denominado axiomático, a escolha das proposições primeiras, ou postulados, devia atender três exigências principais: consistência (a partir deles não se podem deduzir logicamente proposições contraditórias), completude (entre quaisquer duas proposições contraditórias formuladas nos termos do sistema, uma pode ser corretamente demonstrada) e independência (nenhum postulado pode ser demonstrado a partir dos demais). (Em  1931,  Kurt  Gödel  provou  que  sistemas  axiomáticos  usuais,  como    a aritmética e a teoria dos conjuntos, não podem preencher o requisito da completude, mas isso ultrapassa o tema deste artigo.)
Euclides deduziu toda a sua geometria – 372 teoremas e 93  construções – a partir de cinco postulados, que aparecem acompanhados de 23 definições e cinco noções comuns.
Quando Michelangelo foi perguntado como conseguira esculpir  a  Pietà a partir de um bloco de mármore, deu a famosa resposta: “Ela já estava  lá; eu só tirei o excesso.” Euclides poderia dizer o mesmo, lidando agora não com a matéria, mas com o espírito. Os postulados aparecem no início dos Elementos, mas isso não deve nos enganar: eles são o ponto de chegada de  uma longa reflexão prévia que vai desbastando o pensamento, muitas vezes tendo teoremas como ponto de partida. A ordem expositiva do sistema, de natureza lógica, não segue o caminho percorrido na sua formulação.
A escolha de apenas cinco postulados – todos simples, por definição – para deles derivar uma geometria completa é um trabalho de gênio. É o momento mais difícil da construção, pois as proposições que estamos acostumados a usar derivam de outras proposições, cujos pontos de partida desconhecemos.

***

Euclides é exaustivo no que Leibniz chamou de “arte de demonstrar”.  Qualquer um de nós dispensaria diversas de suas demonstrações, por óbvias, mas não devemos criticar essa obsessão: a cultura helênica estava repleta de sofistas habilíssimos em contestar as verdades mais evidentes.
O esforço para superá-los resultou em uma construção intelectual de magnífica    concepção:    as    proposições    primeiras,    indemonstráveis, são enunciadas explicitamente; os termos usados são objeto de definição prévia; e os teoremas são demonstrados (às vezes, com redução ao absurdo) sem o recurso aos sentidos ou à experiência empírica. Novas provas se sucedem, sempre por lógica, com base naquilo que foi provado antes. O resultado é uma rede na qual todas as proposições se comunicam, sustentando-se umas às outras. No lugar da compilação de receitas práticas ou de enunciados empíricos, legados por egípcios e babilônios, surge assim uma ciência racional.
O êxito foi inigualável. É o único caso, na história, em que um só livro fundou uma disciplina científica, instituindo um padrão que passou a servir de referência ao pensamento rigoroso. Graças a Euclides, a unidade e a estabilidade da geometria foram excepcionais. Durante mais de 2 mil anos ela permaneceu fundamentalmente a mesma, com acréscimos, é claro, mas sem crises, confundindo-se por isso com os fundamentos da razão. Os  demais ramos do conhecimento deviam inspirar-se nela.
A obra de Newton reforçou a importância da de Euclides. Na juventude, Newton foi traído pela aparente simplicidade dos Elementos, cuja leitura iniciou e largou, por considerá-la banal. Redimiu-se adulto: depois de reestudar o livro, percebeu que nos seus postulados estão implícitas, como veremos, as propriedades do espaço, tal como ele mesmo veio a conceber no seu sistema do mundo: um meio homogêneo, imutável, intemporal, infinito e infinitamente divisível, que existe independentemente do conteúdo físico que contém. Embora esse espaço absoluto tenha se tornado desnecessário na física contemporânea, não se deve subestimar a profundidade de sua concepção: nenhuma de tais características é acessível aos sentidos. A ideia euclidiana de uma extensão pura e de um espaço sem qualidades é extremamente abstrata.
No fim do século XVIII, os Elementos, de Euclides, e os Principia, de Newton, davam ao conhecimento científico uma base imponente, sobre a  qual Kant, maravilhado, filosofou. Ele viu uma geometria dotada de validade universal, construída de modo racional e, ao mesmo tempo, passível de ser aplicada ao mundo físico. Identificou nisso um problema profundo: como um conhecimento que se desenvolve sem recorrer à realidade sensível pode ser a chave para decifrá-la? Como uma pura criação da razão humana pode representar, com tamanha perfeição, o mundo exterior? Que estranha conexão  é essa, entre a mente do homem e as coisas?
Tendo Euclides e Newton como principais referências, Kant concluiu que espaço e tempo são “intuições puras”, estruturas do próprio sujeito. A intuição a priori do espaço nos possibilita os juízos a priori da geometria, enquanto a intuição a priori do tempo funda as operações do cálculo, que se sucedem e duram.
A construção kantiana sofreu duro golpe quando, primeiro,  a geometria euclidiana e, depois, a física newtoniana perderam seu caráter universal. Para entender isso, no caso da geometria, precisamos contemplar os cinco postulados.

***

Uso a tradução de Irineu Bicudo, mas faço a ressalva de que o que Euclides chama de “reta” é o que hoje chamamos de “segmento de reta”.

      1.       Fique postulado traçar uma reta a partir de todo ponto até todo ponto.
2.                      Também prolongar uma reta limitada, continuamente, sobre        uma   reta.
3.                      E, com todo centro e distância, descrever um círculo.
4.                      E serem iguais entre si todos os ângulos retos.



5.       E, caso uma reta, caindo sobre duas retas, faça ângulos interiores e do mesmo lado menores que dois retos, sendo prolongadas as duas retas, ilimitadamente, encontrarem-se no lado no qual estão os menores que dois retos.
 O primeiro postulado diz que somente uma reta pode ser desenhada entre dois pontos quaisquer, o que equivale a dizer que, se dois segmentos de reta têm as mesmas extremidades, todo o seu comprimento coincide; logo, o espaço é contínuo. O segundo postulado diz que quaisquer retas podem ser prolongadas indefinidamente; logo, o espaço é infinito em todas as direções. O terceiro postulado afirma a existência do círculo e enfatiza que o espaço, além de infinito, é infinitamente divisível, pois diz que o raio de um círculo pode ter qualquer comprimento.
O quarto postulado é desconcertante por sua aparente trivialidade. Note-se, no entanto, que Euclides não diz que os ângulos retos são retos, o que seria uma redundância; ele diz que são “iguais entre si”, uma ideia que não   está contida na definição de ângulo reto. Ao estabelecer que as figuras podem ocupar quaisquer posições e conservar suas formas, permanecendo  “iguais entre si”, o postulado implica um espaço homogêneo.
Os postulados, como se vê, definem as características do espaço –   hoje seria mais rigoroso dizer de um tipo de espaço – e estabelecem a existência de pontos, retas e círculos, os elementos básicos da geometria de Euclides, com os quais ele demonstrará a existência de todas as outras figuras que define.
Mas Euclides sentiu a necessidade de também postular a existência de paralelas, necessárias em muitas demonstrações. Era uma encrenca,  pois  exigia encontrar uma afirmação que fosse evidente e, ao mesmo tempo, se referisse ao que acontece no espaço remoto: paralelas são retas coplanares que nunca se encontram. A solução do geômetra, mais uma vez, foi muito engenhosa: propôs um postulado que só fala de retas secantes, cuja existência  é indiscutível, mas mantém implícita a existência de paralelas.
Mesmo assim, ele logo foi reconhecido como problemático. Ouçamos Proclo: “O fato de que as retas convergem quando os ângulos retos são diminuídos é certo e necessário; mas a afirmação de que chegarão a se encontrar é apenas verossímil, mas não necessária, na falta de um argumento que prove que isso é verdade para duas linhas retas. Pois o fato de que existam algumas linhas que se aproximam indefinidamente mas permanecem sem se tocar [asýmptotoi], por mais improvável e paradoxal que pareça, também é certo e está comprovado em relação a linhas de outro tipo. Por que, no caso   das retas, não é possível ocorrer o mesmo que ocorre com as linhas mencionadas?” Proclo conclui que o quinto postulado “deve ser riscado dos postulados, pois se trata de um teorema repleto de dificuldades”.
O debate sobre isso envolveu os grandes geômetras gregos, árabes e europeus durante mais de 2 mil anos, sem solução. Cresceram as suspeitas de que não se tratava de um verdadeiro postulado, mas as tentativas de manejá-lo como um teorema exigiam introduzir novos postulados igualmente problemáticos, que eram meros equivalente lógicos do postulado de Euclides; configurava-se assim o erro que os filósofos chamam de petição de princípio, ou seja, adotar como ponto de partida de uma demonstração o mesmo argumento que será provado no fim dela. Tentou-se deduzir o  quinto  postulado dos demais, até que se provou que isso era impossível. Buscaram-se formulações alternativas, todas insuficientes. E, quando ele era simplesmente retirado, o sistema perdia o requisito da completude: muitos teoremas não podiam mais ser demonstrados.
Parecia impossível inserir a afirmação de Euclides em seu próprio sistema, consistentemente. O postulado das paralelas, como ficou conhecido, permanecia como um corpo estranho, um expediente que preenchia  uma  lacuna no encadeamento lógico. D’Alembert disse que ele era “o escândalo da geometria”, pois a credibilidade dos teoremas não pode ser maior do que o  grau de credibilidade associado ao postulado que tenha menor credibilidade.
Dois pensadores estiveram perto da solução, o árabe al-Khayyami (1048-1131) e o jesuíta italiano Girolamo Saccheri (1667-1733). Ambos adotaram o caminho da redução ao absurdo. Aceitando o restante do sistema euclidiano e negando o quinto postulado, pretendiam chegar a contradições, o que demonstraria a validade e a necessidade dele. Não sabemos bem até onde foi al-Khayyami, mas Saccheri abandonou a empreitada quando começou a encontrar o que denominou “teoremas estranhos”.
Teve nas mãos o bilhete premiado, mas não percebeu. Começara a descobrir uma outra geometria, mas viu nisso um erro. Estava preso à ideia milenar de que só a geometria de Euclides podia existir.

***

Só no século XIX, um matemático de valor excepcional, o alemão Carl Friedrich Gauss, e dois matemáticos jovens, o húngaro János Bolyai e o russo Nicolai Lobachevski, trabalhando de forma independente, ousaram prosseguir até o fim na dedução dos “teoremas estranhos”. Em vez de encontrar contradições, como esperavam, chegaram a geometrias consistentes e completas, diferentes da euclidiana, mas sem defeito lógico.
Gauss não divulgou seu trabalho, pois acreditou que ninguém o compreenderia.  O  inseguro  Bolyai  entregou  o  manuscrito  ao  pai,  também matemático, que o enviou a Gauss sem saber que este último já tinha percorrido o mesmo caminho. O texto pioneiro de Lobachevski, por sua vez, denominava-se “Geometria imaginária”. Os descobridores pisavam em ovos: viam que as descobertas eram deveras estranhas. Não era para menos: Bolyai   e Lobachevski, por exemplo, adotaram como postulado a afirmação de que    por um ponto fora de uma reta é possível fazer passar mais de uma paralela à reta dada...
O trabalho dos três foi completado depois, magistralmente, por um aluno de Gauss, Bernhard Riemann, cuja geometria nega a existência de paralelas. Ao contrário do espaço infinito de Euclides, o espaço de Riemann é finito, mas ilimitado, pois ele aplicou a noção de curvatura ao espaço tridimensional, em uma formulação muito abstrata, quase sempre mal compreendida. (Muito depois, essa “geometria imaginária” foi decisiva na formulação da relatividade geral, a teoria física mais importante do século  XX.)
Para dar só um exemplo dos resultados discrepantes, em cada uma das geometrias a soma dos ângulos de um triângulo é diferente: sempre igual a
180 graus em Euclides, sempre menor que esse valor em Lobachevski e  Bolyai, sempre maior em Riemann.
Eugênio Beltrami, Felix Klein, Henri Poincaré e David Hilbert demonstraram em sequência, por diversas vias, que as novas geometrias  tinham a mesma validade que a geometria de Euclides. Mais ainda: demonstraram que a eventual inconsistência de uma delas implicaria a inconsistência do próprio sistema euclidiano. Nunca mais poderíamos, como Saccheri, nos livrar dos “teoremas estranhos”. Desde então, as geometrias se multiplicaram, mas, para nosso consolo, Sophus Lie demonstrou que elas não são infinitas.

 Como é possível essa existência múltipla da verdade? Qual, afinal, a geometria verdadeira? Ouçamos Einstein: “Não podemos nos interrogar se é verdade que por dois pontos passa uma única reta. Podemos apenas dizer que   a geometria de Euclides trata de figuras, que ela chama de ‘retas’, às quais atribui a propriedade de serem determinadas univocamente por dois de seus pontos. O conceito de ‘verdadeiro’ não se aplica aos enunciados da geometria pura, pois com ‘verdadeiro’ nós costumamos, em última análise, designar a correspondência com um objeto ‘real’. Porém, a geometria não se ocupa da relação entre seus conceitos e os objetos da experiência, mas apenas com os nexos lógicos desses conceitos entre si.”
Teoremas incompatíveis entre si podem ser igualmente verdadeiros se estiverem perfeitamente integrados em diferentes sistemas lógicos. Compreender isso foi a culminância do ideal da ciência grega, de um modo  que nem os gregos ousaram pensar.
***
Sempre que avança, a ciência cria problemas novos. Por isso, sua marcha não pode ter fim. Se a matemática passou a admitir diferentes geometrias, qual delas se aplica ao mundo físico? No século XIX, a questão era inédita. Gauss concluiu que a resposta dependeria da observação empírica. Com medições geodésicas, lançou-se em busca de uma prova experimental, mas seus esforços não foram conclusivos: nas escalas humanas, as geometrias convergem para padrões euclidianos. (Poincaré propôs outra solução: as geometrias são convenções, de modo que todas são aplicáveis; a euclidiana é apenas mais cômoda.)
Paradoxalmente, a culminação do ideal grego redimiu a geometria praticada por egípcios e babilônios, que ele mesmo havia superado. Seria mais correto dizer que houve uma bifurcação. Pois, ao lado de uma geometria física, novamente empírica, as pesquisas em geometria pura foram impulsionadas na direção de formulações ainda mais abstratas, em busca de procedimentos lógicos mais rigorosos.
Hilbert elaborou novos postulados de modo a apartá-los de qualquer representação sensível. Em vez de evocar objetos especificados, buscam estabelecer relações entre objetos genéricos, representados por letras, e são manejados sem que contenham nenhum sentido, segundo regras puramente formais. Esse caráter hiperabstrato da matemática contemporânea foi sintetizado, não sem ironia, por Bertrand Russell: “A matemática é uma  ciência na qual nunca sabemos do que estamos falando, nem se aquilo que estamos falando é verdadeiro.”
Pobre Kant. Se a matemática trabalha com proposições destituídas de sentido, adaptáveis a qualquer conteúdo, então se desfaz o problema que o atormentou. A aplicabilidade das leis matemáticas ao real não decorre de uma harmonia maravilhosa entre o espírito e as coisas. Tais leis valem em nosso mundo simplesmente porque valem em todos os mundos possíveis.

-----------------Fonte: http://www.contrapontoeditora.com.br/arquivos/artigos/201008020426300.Euclid   es_e_a_geometria.pdf. Título original: Euclides e a Geometria. 

A elite do atraso e o uso escasso de cérebro

O novo livro do sociólogo Jessé Souza promete despoletar bons debates. 'A Elite do Atraso: Da Escravidão à Lava Jato' vai na contramão do pensamento mainstream de grande parte da intelectualidade brasileira, intelectualidade que o próprio Jessé já a denominou de tola.  Esta ainda continua a repetir o bordão que deriva os problemas da configuração social brasileira da herança portuguesa, mas, numa discussão criteriosa, não é levada a sério. Sobra-lhe apenas o ridículo, cada vez mais evidente no modo como ela se posiciona em relação à conjuntura latino-americana.  Não custa lembrar que já foi dito que, no Brasil, não há propriamente direita e conservadores, dado o grau de ignorância reinante entre o que assim se colocam, e assumir a referida perspectiva demanda elaboração intelectual. É certo que, atualmente, cérebro é algo de uso escasso no país, e daí tenhamos os super-heróis do combate à corrupção de ontem abraçados com corruptos favoritos hoje, e sem serem incomodados. Em um ambiente assim, a ideia messiânica (e, portanto, não republicana e não democrática) de juízes e promotores como cavaleiros da redenção de uma nação atolada na corrupção pode, galopando na parcialidade, dar-se ao luxo de manter os privilégios da sua casta e recusar as tentativas de investigação dos casos de corrupção que nela ocorrem. A propósito, o caso das diárias anuais recebidas por procuradores da Lava Jata é paradigmático. Coisas que nem em sonho o povo brasileiro imagina para si. Vale a pena observar a reprodução aí abaixo referente ao recebimento só de diárias por procuradores, afora os altos salários e outros privilégios que o segmento desfruta.  Enquanto isso, a bestialização prospera. 



  


sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Bolsas do Instituto Camões

Resultado de imagem para Instituto Camões bolsas

A atribuição de bolsas de formação tem em conta as necessidades e prioridades de desenvolvimento dos países parceiros e o reforço do seu sistema científico e tecnológico, sendo assegurado um processo conjunto de lançamento de oportunidades e seleção de bolseiros.
Formação em Portugal
Em função dos programas de cooperação estabelecidos com cada um dos Países de Língua Oficial Portuguesa, são concedidas anualmente bolsas para o Ensino Universitário e Politécnico.
Objetivos
Formar jovens quadros em áreas prioritárias ao respetivo desenvolvimento do país de origem.
Destinatários
Estudantes nacionais e residentes nos PALOP e Timor-Leste que não possuam, em simultâneo, nacionalidade portuguesa e pretendam frequentar cursos de nível superior em Portugal.
Formulário de 1ª candidatura e renovação de Bolsa de Licenciatura
Aceda aqui para baixar o formulário. Após preenchimento deve entregá-lo junto da entidade competente em cada país de origem.
Formulário de 1ª candidatura e renovação de Bolsa de Mestrado/Doutoramento
Aceda aqui para baixar o formulário. Após preenchimento deve entregá-lo junto da entidade competente em cada país de origem.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O vazio de pensamento, os novos aprendizes da 'banalidade do mal' ou entre fósforos e fogo

Por incrível que pareça, é preciso assinalar, lembrando Hannah Arendt, que o mal não é uma categoria ontológica, nem tampouco é natureza ou metafísica. É da dimensão histórica que se trata. Ele é produzido por seres humanos e se desenvolve onde encontra guarida para tanto. Nesse sentido, a trivialização da violência,  correspondendo ao vazio de pensamento, abre o espaço de instalação do mal. É em ambientes assim que estão a se acomodar os 'novos nazi-fascistas' e a sua pregação odiosa contra judeus e outras etnias. E ainda não passou nem um século da carnificina praticada durante a Segunda Guerra Mundial. O texto aí abaixo refere-se ao chocante movimento nazista nos Estados Unidos. Mas serve também de ponto de reflexão para o Brasil destes tempos que estamos a viver. 


Por Petula Devorak
(The Washington Post)

O presidente Donald Trump acendeu cada uma daquelas tochas em Charlottesville. Sim, os supremacistas brancos sempre estiveram entre nós. Uma marcha de racistas fanáticos não é surpresa para qualquer pessoa familiarizada com nossa história, especialmente aqueles que têm sido o alvo de ódio e violência há séculos.
Mas quando a multidão de homens brancos desfilava em Charlottesville, carregando tochas flamejantes na sexta-feira à noite, gritando "Heil Trump" como preliminar para um dia de violentos confrontos com os opositores aos protestos, que deixaram três pessoas mortas, mostraram ao mundo que os Estados Unidos estão mais uma vez brincando com fogo.
E Trump é quem está com os fósforos.
O simbolismo não foi sutil. Tochas, campanhas de perseguição, cruzes em chamas - tudo isso remete à consolidação de nosso país. Todos aqueles irmãos white-power sabiam exatamente o tipo de medo que tentavam evocar, mesmo se suas tochas tenham vindo do pátio de liquidações da temporada na Home Depot, varejista de produtos para o lar e construção.
As bandeiras nazistas e confederadas são igualmente desagradáveis para os milhões de americanos que perderam parentes no Holocausto, na luta contra Hitler ou têm vívidas memórias da incansável opressão racial, incluindo linchamentos, bombas em igrejas e assassinatos nas mãos da Ku Klux Klan e de outros terroristas da supremacia branca.
Agora vemos a transmissão ao vivo daquele mesmo ódio, enquanto Trump o ignora. Foi há 90 anos que Fred Trump, o pai de Donald Trump, foi preso por não conseguir dispersar-se de uma manifestação da Ku Klux Klan em Queens muito parecida com o que foi visto em Charlottesville.
Só que hoje em dia, não há os capuzes.
Donald Trump deu a todos a permissão de tirar tais capuzes com seu piscar de olhos, sinais de aprovação e recusa em assumir uma postura moral na questão do rancor racial e da intimidação durante sua campanha e durante os primeiros seis meses de sua presidência. Ele já gastou anos colocando em dúvida o local de nascimento e a legitimidade do presidente Barak Obama, o primeiro negro no posto de comandante supremo da nação. E aqueles que odeiam o amam por isso.
No sábado, o presidente manteve o silêncio durante horas, em seu clube de golfe em Nova Jersey, mesmo que o ex-grande mago da KKK David Duke tenha declarado Charlottesville como "momento decisivo" para um movimento que pretende "cumprir as promessas de Donald Trump".
Primeiro, ele apresentou um vago tuíte, condenando o ódio sem qualquer referência explícita às centenas de homens, alguns deles usando chapéus vermelhos prometendo Tornar os Estados Unidos Grandes Novamente, que cantavam "Vidas de brancos importam", "Vocês não vão nos substituir" e "Judeus não vão nos substituir".
Foi só depois que um jovem de 20 anos de Ohio arremessou seu automóvel contra um grupo de manifestantes contra a marcha supremacista, ferindo 19 e matando uma mulher, que Trump referiu-se ao ataque terrorista em seu próprio território.
"Nós condenamos nos termos mais vigorosos possíveis essa ofensiva demonstração de ódio, fanatismo e violência de muitos lados. De muitos lados," ele disse.
Errado.
"Há apenas um lado", replicou sucintamente pelo Twitter o ex-vice-presidente Joe Biden.
Trump tem tanto medo de ofender sua tribo das tochas, que nem mês usou o "eu" em sua débil declaração.
No domingo de manhã, sua filha Ivanka Trump finalmente referiu-se ao câncer que está no centro desse terrorismo doméstico.
"Não deveria haver lugar na sociedade para racismo, supremacia branca e neonazistas", ela declarou no Twitter.
Ela, porém, não é a comandante-chefe.
Nós somos aqueles que têm extinguir o incêndio que o nosso presidente ateou. Democratas, republicanos, independentes, não importa. Todos nós devemos rejeitar o que foi desencadeado nesse país. E isso já está acontecendo.
O ex-governador republicano de Arkansas, Mike Huckabee, pai da secretária de imprensa de Trump, Sarah Huckabee Sanders, também mandou mensagem pelo Twitter: "Os disparates da supremacia branca são o pior tipo de racismo - é diabólico e uma perversão da verdade de Deus sequer pensar que nosso Criador dê mais valor a alguns que a outros".
O senador Orrin G. Hatch, republicano de Utah, concordou; "Devemos chamar o diabo pelo seu nome. Meu irmão não deu a vida combatendo Hitler para que ideias nazistas continuem sem serem contestadas aqui em casa".
As tochas em Charlottesville são um perigoso mostruário na guerra de culturas em curso nos Estados Unidos.
Precisamos parar de atribuir o reaparecimento do racismo a desigualdades de renda ou perda de empregos e incluí-lo no grande conflito que abrange republicanos versus democratas, progressistas versus conservadores, setor urbano versus o rural, que está no centro do debate na nossa sociedade.
A Universidade da Virgínia, onde os extremistas brancos realizaram sua marcha com as tochas acesas, é o lar de James Davison Hunter, o sociólogo que ajudou a definir a guerra cultural americana contemporânea. Em 1992 - quando a eleição presidencial americana foi abalada pelo debate sobre a personagem de uma mãe solteira (Murphy Brown) - Hunter lembrou-nos que tais escaramuças culturais não são apenas retóricas ou "palavrório político".
"De forma cumulativa, tais disputas equivalem a uma luta fundamental sobre os `princípios básicos' que adotaremos para ordenar nossa vida juntos", escreveu Hunter no Washington Post. "Por meio dessas questões aparentemente discrepantes nós nos encontraremos, ou em outras palavras, em um esforço para nos definir como americanos e decidir qual tipo de sociedade queremos construir e manter".
Sim, existem muitos lados na guerra de culturas na qual os racistas continuam tentando engatar também seu vagão flamejante.
Mas essa abominação que ocorreu em Charlottesville no fim de semana não está em debate. Não é uma postura cultural ou plataforma política. Racismo, fanatismo e terrorismo em nome de um nacionalismo branco não é um "lado". É um veneno.
E fazer qualquer outra coisa além chamá-lo pelo que é, identificando-o e apagando-o é simplesmente contrário às instituições americanas. 

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Fonte: http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,analise-americanos-estao-brincando-com-fogo-diante-da-ameaca-supremacista-branca,70001935056.