Ou a propósito de um filme.
Por Anderson Henriques
Assisti, em DVD, há poucos dias, o último filme do
Almodóvar, “A pele que habito”. Não pretendo fazer aqui nenhum tipo de crítica
ao filme, pois estou longe de ter este talento, ou olhar. Gostei bastante do
filme, pelo impacto que me causou. Gosto disso na arte em geral, de me sentir
provocado. E, no caso deste filme, as provocações e sensações são variadas. No
entanto, independente do que senti ao ver o filme, o melhor pra mim foi a
metáfora, a mensagem subliminar, que ficou rondando minha mente após o término
do mesmo. Apenas um dos inúmeros olhares possíveis. Bem particular, obviamente.
O motivo principal do filme é a relação que se
estabeleceu entre um cirurgião plástico – personagem de Antonio Banderas – e
sua paciente, a qual ele mantém trancafiada e monitorada por câmeras de vídeo
em uma determinada área de sua casa. Além das visitas diárias do próprio
cirurgião, nenhum outro tipo de contato com o mundo externo é permitido à tal
paciente, a não ser a comunicação através de um interfone com uma espécie de
governanta da casa. Depois de algum tempo, o médico se percebe completamente
envolvido por sua paciente-prisioneira e, mesmo depois de tantas atrocidades
cometidas, tem-se início uma suposta relação afetiva entre os dois. Então, ele
se vê obrigado a ceder e permite a ela uma liberdade um pouco maior. No
entanto, a esta altura do filme, fica difícil imaginar que eles conseguiriam
levar uma vida normal, que seguiriam imunes àquela sucessão de erros, e que
seriam felizes para sempre. De fato, não conseguiram.
Fiquei pensando no quanto aquele tipo de relação de
domínio, de aprisionamento, de sequestro é mais comum no nosso dia a dia do que
possamos supor. Pelo menos do ponto de vista metafórico, é claro. Quem de nós
não poderia citar uma relação de sequestro psicológico, emocional? Relação em
que uma pessoa, mesmo não estando presa fisicamente, vê-se completamente
dominada por outra. Como se sua alma tivesse sido furtada, raptada. Ainda que
não sejam sentidos literalmente na pele, os danos causados por uma relação como
esta podem ser tão dolorosos e definitivos quanto aqueles sofridos pela personagem
do filme. Danos estes que dificilmente se apagam, deixando marcas e trazendo
consequências tais, que podem determinar para sempre as escolhas, os rumos a
serem seguidos na vida de uma pessoa.
Este tipo de relacionamento parece seguir um velho
e conhecido roteiro, percebido por muitos que estão de fora e, na maioria das
vezes, ignorado pela vítima do dito sequestro emocional. Inicialmente, a pessoa
se deixa entorpecer por algum motivo qualquer, seja ele, carência, paixão
desenfreada, autoafirmação, ingenuidade, imaturidade, chantagem emocional, ou
seja lá o que for, e mesmo que inconscientemente se deixa aprisionar pelo
raptor de sua alma, que sutilmente a afasta do convívio social, do contato com
amigos, familiares, e, por mais esdrúxulo que seja, consegue mantê-la distante
até mesmo de pessoas muito próximas, como pai, mãe, irmãos, filhos.
Por mais óbvio que pareça à grande maioria das
pessoas à sua volta, a vítima do sequestro de alma dificilmente consegue
enxergar a cilada em que se envolveu e, geralmente, quando se dá conta, ainda
que relute, não tem energia suficiente para escapar daquela situação. Com o
passar do tempo, quando parece não restar alternativa, acostuma-se. Muitas
vezes – assim como num sequestro real – é comum que se estabeleça uma relação
de dependência entre a vítima e o sequestrador, que pode até ser absurdamente
classificada, por eles, como amor.
No entanto, uma relação amorosa que
aprisiona é em sua gênese uma incoerência, uma mentira patética. Afinal o amor
é essencialmente libertador. Não se pode imaginar que é possível amar
alguém, impondo-lhe castrações, limitando seu crescimento intelectual,
impendido que o outro desenvolva suas próprias impressões e opiniões a respeito
da vida, afastando o outro do convívio social ou familiar. Enfim, fazendo-lhe
refém de seus caprichos e acorrentando sua alma. Quem age assim, ilude-se a
respeito do amor. Engana-se profundamente. É como um criador de aves, que
prende um pássaro em uma gaiola, e regozija-se com seu canto, sem se importar
se é de alegria ou de tristeza a canção que ele ouve todas as manhãs.
A verdade é que, por mais que se trate com cuidado
um passarinho preso numa gaiola, dando-lhe a melhor ração, água fresca, as
melhores condições de limpeza, por mais que se julgue tratá-lo com carinho,
afeto, dedicação, o passarinho nunca perderá uma oportunidade de escapar. Pois
o simples fato de tê-lo aprisionado já gerou desde o princípio uma relação
desigual, de domínio, regida pelo medo, pela falta de confiança. E onde
não há confiança, não é possível haver cumplicidade, não se cria o respeito,
base imprescindível ao amor.
Assim como o passarinho preso em uma gaiola, a
pessoa que de alguma maneira tem sua liberdade cerceada, por mais que não
demonstre, não cultiva outro pensamento senão o de se livrar das amarras e se
tornar livre novamente. Assim, quando efetivamente enxergar uma possibilidade
real de fuga, ela se arrisca, ganha mundo. Vai-se embora. Se não vai, é porque
esqueceu que sabe voar. E se chegou a este o ponto, perdeu a essência. Não é
mais pássaro, não é mais gente. E o que viveu nunca foi nem nunca será amor.
Amor é o que cultiva o jardineiro, que pacientemente
cuida de seu jardim, e fica à espera dos beija-flores, que seduzidos pela
beleza de suas flores, vêm em busca da doçura do néctar, e em troca oferece a
ele a elegância e o encanto de seu balé flutuante. Amor é essa relação de
doação, de troca, de entrega mútua. E, para que seja assim, não basta apenas
ofertar o néctar, o mel, pois beija-flor preso em gaiola não baila, não voa.
Morre à mingua. Para se apreciar a leveza de sua dança, é imprescindível
deixá-lo livre.
Quem corta asas, quem impede o voo, definitivamente
não ama. Apenas tenta satisfazer seus desejos egoístas e unilaterais. Não quer
se submeter a riscos. Dá o mínimo e, no entanto, se acha no direito
de usurpar o que o outro tem de melhor. Mas o amor não se dobra a caprichos e
imposições. O amor é a escolha de ficar diante das inúmeras possibilidades de
ir.
O amor deseja fluir, para tanto necessita de
espaço. Tem urgência de liberdade. Não sobrevive em gaiolas. Por isso, quem
impõe barreiras, grades, ainda que emocionais, não ama. Engana-se. Mente para si mesmo. Vive sozinho, mesmo estando junto. Raptor de
almas alheias, vê-se dominador, mas é dominado. Pensa-se livre, mas é cativo do
medo de perder. Refém da angústia de ver sua vítima escapar. E, ela há de
escapar. Mais cedo ou mais tarde. De um jeito ou de outro.
Não se aprisiona uma alma por toda a vida. Sua
essência clama por liberdade. Não suporta o domínio de uma prisão imposta.
Deseja ardentemente ser feliz. Quer reencontrar-se. E, ainda que habite outra
pele, ainda que tenha de conviver com marcas indeléveis, toda alma guarda em si
uma sede de amor. Essa força motriz que nos impulsiona e dá sentido à vida. Por
isso, viva e deixe viver!
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Fonte: http://obviousmag.org
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