terça-feira, 13 de outubro de 2015

Corrupção escolar e estudantil

O Laboratório de Práticas de Pesquisa da UniCarioca acaba de realizar uma investigação que tem chamado a atenção e alcançado grande repercussão entre os pesquisadores em educação, dado o tema que focou e os resultados aos quais chegou, isto é, a 'corrupção estudantil'. Essa denominação tem sido bastante reproduzida pela imprensa ao divulgar as conclusões da pesquisa. O que foi constatado é factíco, mas, a bem da verdade, talvez a designação que calharia mais representativa do fenômeno estudado fosse 'corrupção escolar' (incluindo aí também a universidade), envolvendo alunos desde a escola básica até a pós-graduação, assim como determinados professores - seja diretamente ou por via da cumplicidade. Nesse mercado da trapaça, as mercadorias são diversas: cola, plágio, assinar lista por outro (falsidade ideológica, é o nome desse crime), troca da avaliação por outra coisa que nada tem a ver com a averiguação do rendimento relativo aos conteúdos, venda de trabalhos... Se isso de modo geral já é grave, imagine você em cursos de formação de professores! Mas, mesmo com essas práticas, ainda poder-se-á encontrar alguém espumando palavras em torno da "educação libertadora" e seus teóricos. Ou também ouvir-se gritos inflamados contra a corrupção no país, "dos políticos lá de Brasília"! Que nada! Lorota! É mais uma daquelas situações em que se pode aplicar o que Sartre, na peça 'Entre Quatro Paredes', cunhou como 'o inferno ser os outros'. Nunca se reconhece a 'responsabilidade interna', ela está sempre lá fora, nos outros. Um misto de patologia e cinismo. É um caso, ao mesmo tempo, para a psicanálise (aos que apreciam) e para uns  dois litros de óleo de peroba. Aí abaixo, os resultados da referida pesquisa, assim como o texto que desencadeou a sua realização. 


Por Antônio Gois 

Em junho deste ano, um doutorando da UFMG que começou a dar aulas na graduação da universidade fez um post em seu blog pessoal (veja aqui) relatando sua frustração com o que chamou de postura corrupta enraizada nos alunos e na comunidade acadêmica. Mesmo num ambiente universitário, estudantes abusavam de recursos ilícitos como colar nas provas, copiar trabalhos e assinar lista de presença em nome de outros. Boa parte dos jovens, dizia ele, não era movida pelo desejo de conhecimento. Sugestão de livros, exercícios, trabalhos... tudo isso só fazia sentido para os alunos se houvesse algo em troca, no caso, pontos na nota final para facilitar a aprovação na matéria.


Inspirada por esse post, a coluna sugeriu ao Laboratório de Práticas de Pesquisa da UniCarioca que investigasse, na cidade do Rio, a ocorrência desses comportamentos em sala de aula. A sugestão, prontamente aceita pela instituição, deu origem à pesquisa Pequenas Infrações nas Salas de Aula, que ouviu em agosto 1.100 cariocas, a grande maioria deles estudantes dos ensinos médio e superior com idades entre 16 e 30 anos.  
A maioria dos respondentes (58%) admite, por exemplo, que já pediu a colegas para colocar seus nomes em trabalhos de grupo mesmo sem ter contribuído com a realização dos mesmos. Outros 74% dizem que já fizeram isso em favor de outro colega.
Nome em trabalhosInserir nome no trabalhotrabalhos copiados
De vez em quando, a opinião pública se choca com imagens de deputados em plenário assinando presença em nome de outros colegas. Mas a prática é comum também nas escolas, tendo sido admitida por 59% dos respondentes na pesquisa.
Lista de frequenciacola
Do ato individual de colar numa prova ao de desviar milhões de cofres públicos vai uma distância gigantesca. Mas a correlação entre a frequência de pequenos desvios éticos no ambiente escolar e a grande corrupção existente numa sociedade que parece não ser tão espúria assim. Em 2013, a pesquisadora Aurora Teixeira, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, publicou na revista científica “Journal of Academic Ethics” estudo baseado numa amostra de 7.602 alunos de economia e administração de 21 países (o resumo pode ser lido aqui). Ela identificou que a prática de colar em provas nesses cursos universitários variava muito entre países (o Brasil, infelizmente, estava entre os maiores percentuais da lista) e que havia alta correlação entre essas taxas e indicadores gerais de percepção de corrupção nas sociedades analisadas. Para ela, a “reprodutibilidade e a persistência ao longo do tempo de comportamentos desonestos mostram que é perigoso ignorar as trapaças num ambiente acadêmico."  
Voltando ao levantamento da UniCarioca, ao fim, os pesquisadores perguntaram aos entrevistados quais seriam os responsáveis pelas práticas de corrupção em sala de aula. Apenas 41% disseram que os culpados eram os próprios alunos. A maioria apontou para outros atores: o professor ou instituição acadêmica que não estimulam a aprendizagem; o sistema educacional que precisa ser modernizado, ou mesmo a falta de investimento do governo no ensino. Também na educação, o inferno são os outros.
A culpa é dos outros

A prática de copiar textos da internet e de outros autores e apresentá-los ao professor como seus foi admitida, em maior ou menor frequência, por 68% dos entrevistados. 
 Colar na prova é ainda mais frequente: 69% dizem que já utilizaram esse artifício para ter melhores notas.
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COMO É DAR AULA NO ENSINO SUPERIOR E A CORRUPÇÃO NA UNIVERSIDADE
Por Rodrigo Botelho Ribeiro (UFMG)
Pensei em escrever um texto crítico e formal a respeito da educação e da sociedade. Mas dizer que a educação é a salvação já ficou meio fora de moda. Portanto, acho melhor apenas contar pra vocês como é dar aula. Lembrando que este texto não é uma crítica à profissão. É apenas uma exposição das frustrações diárias e um apelo a uma mudança urgente de postura, não só dos alunos, mas da sociedade como um todo. Aqui mostro como a postura corrupta está enraizada nos alunos e já virou parte da comunidade acadêmica.
Antes, uma pausa para minha relação com a profissão. Particularmente, gosto muito de ensinar. Gosto de matemática e gosto de entender matemática. Passar adiante minhas paixões é algo que faço por amor. Nunca houve problema sério o bastante para não desaparecer diante do quadro, dos alunos e sobre o tablado. Dar aula e pensar a respeito de matemática apagam, momentaneamente, claro, todos os meus problemas.
“FAZ PROVA FÁCIL!”
Minha felicidade se esvai diante das avaliações, dos comentários, da falta de compromisso dos alunos. Ouve-se mais “alivia aí, fessô!” do que “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite.” Há liberdade para chorar, mas não há liberdade para a educação e cortesia.
“VALE PONTO, FESSÔ?”
Em sua maioria, aluno não faz nada sem receber algo em troca. E a moeda de troca é chamada de ponto. A única motivação é o ponto. Sugestão de livros? Só valendo ponto. Lista de exercícios? Só valendo ponto. Fazer pelo conhecimento é ser taxado de idiota.
TRABALHOS E LISTAS
Tudo copiado. A cópia é quase sempre nítida. Conjecturo que numa turma de alunos, apenas \sqrt{k} realmente fazem os trabalhos, enquanto todo o restante apenas copia dos colegas.

Pai Rodrigo adivinhando o futuro: Esse aluno que só copia vai taxar de vagabundo moradores de rua. Vai dizer: “emprego tem demais, basta querer!”

AULAS DE EXERCÍCIOS
Durante aulas de exercícios, ninguém faz nada. O pedido geral é um resumão bem estilo pré-vestibular. Melhor ainda se você dar dicas do que cairá na prova (e pensar que nem assim os resultado são bons.) Gente pra gritar “faz um resumão aí, fessô!” Nunca falta. Você dá aula por meses antes de avaliação e aí lhe aparece vários que não prestaram atenção em nada, mas no dia da aula de exercícios eles aparecem lá só pra gritar a frase anterior ou pra escolher um exercício aleatório que sequer tentaram. Qual a razão de dar aula se no fim é dado um resumo mágico que abre todas as provas e desvenda todos os segredos?

LISTA DE PRESENÇA
Como aluno, confesso, nunca gostei de ir às aulas. Sempre preferi estudar sozinho. Assim poderia estudar durante a madruga, horário que sempre fui mais produtivo. Nunca tive problemas com chamadas. A aprovação era minha absolvição. Por conta disso, a única postura que adotei como professor foi a de passar uma lista de chamada e reprovar por infrequência apenas aqueles que não obtiveram 60 pontos. Ou seja, não precisou ir à universidade para ser aprovado? Parabéns, campeão.
A regra da UFMG é reprovar aluno infrequente. Tenha ele a pontuação necessária para sua aprovação ou não. Portanto, estou isentando o aluno de um dever: frequentar a universidade. Qual o resultado? Alunos assinam as listas pelos colegas. O sujeito foi livrado de um dever, mas ele não quer dar nada como contra-partida. Ele ainda quer o direito de, caso reprovado na pontuação, fazer o exame especial.
Nem vou comentar que assinar um documento em nome de outra pessoa é crime. Tem até nome: falsidade ideológica.
Logo, se o professor deseja ser rigoroso com a lista de presença, ele deve chamar nome a nome, como lá nos tempos da escolinha infantil Girafinha Feliz.
Pai Rodrigo adivinhando o futuro: Esse mesmo aluno que pede pro colega assinar a chamada, acha um absurdo o médico que só bate ponto e vai embora. Vai reclamar também do deputado que estava batendo dedo lá pro outro. Vai postar lá na timeline “É um absurdo!”

PROVAS E COLAS
Esta é a pior parte e a maior prova de que ninguém se preocupa com educação. Durante os meses de aula, o aluno não fez nada. Porém, chegada a prova, não foi possível estudar todo o conteúdo ou simplesmente não estudou mesmo. Qual o recurso utilizado? Cola. A pessoa não cumpriu com suas obrigações como aluno, nada fez até o momento da prova, porém ele ainda quer obter bom resultado. Apesar de totalmente irresponsável, o aluno ainda acha plausível apelar para a cola. Ainda quer uma boa nota. Isso é o absurdo dos absurdos. A incoerência da incoerência.
Existem ainda casos mais absurdos. Aqueles que os alunos pagam outros para fazer a avaliação em seus lugares (preciso lembrar que aqui também se comete crime?). Chegamos ao ponto ridículo de precisar olhar documento dos próprios alunos por conta dessa atitude patética. Isso é literalmente comprar o próprio diploma. É ridículo querer o diploma mas não querer fazer nada.
Pai Rodrigo adivinhando o futuro: O aluno colador, que hoje é engenheiro porque pagou gente mais esperta que ele pra se formar, vai gritar “Abaixo a corrupção!” aqui na porta de casa. Ele também vai compartilhar um monte de reportagem sobre escândalos de corrupção e vai dizer que esse país não tem jeito.

O ALUNO, O PATRÃO E O FUTURO
Enquanto considerou coisa de otário estudar quatro horas por dia, o aluno corrupto vai gastar 12h do seu dia, muito possivelmente, fazendo dinheiro pra outra pessoa. Ele não vai chegar pro chefe “alivia aí, chefe!”, “quebra essa aí, patrão!” porque ele sabe o destino de empregado molengão: rua. E ele vai dar duro, porque, ao contrário da educação superior, valoriza o emprego que tem. Sua timeline estará repleta de links contra a corrupção na política, contra desvio de verbas, enquanto continua perpetuando que colar não tem problema, assinar lista é “de boa” e pagar para fazerem suas avaliações é coisa de esperto. E assim continuaremos sendo essa sociedade que ainda não entendeu o valor moral e intelectual da universidade, pelos séculos dos séculos…
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Fontes: http://blogs.oglobo.globo.com/ e https://rbribeiro.wordpress.com

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