sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Decisões em marcha: Qual Universidade queremos?



Por Helena B. Nader 
(UNIFESP; Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) 

Os acontecimentos envolvendo a instituição da Universidade pública brasileira neste ano trouxeram ao menos um saldo positivo – o questionamento amplo e irrestrito sobre os equívocos e acertos do modelo da educação superior que adotamos ao longo de quase um século do início da instituição de universidades no Brasil. O questionamento tornou-se tão presente em nossa realidade recente, que uma rápida busca no Google com o título escolhido acima para este artigo, apresentou quase 9 milhões de possíveis respostas, soluções, caminhos, entre trabalhos acadêmicos, resultados de grupos de pesquisa exaustiva, até palpiteiros de toda sorte.
Não há dúvidas que tivemos acertos, fáceis de detectar. Nossa Universidade é jovem e, sobretudo nas últimas décadas, espalhou-se pelo País, pelos estados e municípios, constituindo um sistema onde podemos identificar ilhas de excelência. E nos últimos anos tornou-se mais inclusivo e acessível às camadas mais carentes da população brasileira. O sistema, aliado ao ensino, abraçou a extensão e a pesquisa, levando o Brasil a ser listado entre os países que mais publicam trabalhos acadêmicos no mundo. No entanto, o modelo indica exaustão, pois a lista de desacertos é muito maior e mais complexa.
O resultado que temos hoje de um sistema de educação superior público conturbado por greves, manifestações de toda sorte, carência de recursos financeiros e humanos, e ainda longe de ser amplamente acessível, tem implicações históricas que, em resumo, advêm da ausência crônica de definição de modelos estratégicos de uma universidade voltada, sobretudo, a contribuir com o desenvolvimento social e econômico do País.
Nossa universidade, de fato, nasceu para as elites e assim foi por muitas décadas. O acesso à universidade pública no Brasil por muito tempo ficou restrito aos estudantes que tiveram acesso a uma boa educação na infância e adolescência. Mas é preciso dizer que os menos favorecidos continuam, em grande maioria, a ter uma educação básica deficiente. De maneira perversa, para dizer o mínimo, nosso sistema de educação básica, cuja qualidade deveria ser de inteira responsabilidade do Estado, descambou nas últimas décadas a um estágio inadmissível a qualquer nação que queira sair realmente da pobreza. A melhoria do ensino básico público e universal, a nosso ver, é um ponto estratégico de partida para iniciarmos um caminho que nos leve à Universidade com excelência intelectual e imbricada na sociedade, em todas as suas camadas.
 E quanto ao modelo de Universidade a ser seguido? A complexidade da sociedade brasileira, o tamanho do território e sua diversidade nos leva a crer que o ideal mesmo seria termos um modelo com diversas inspirações, adequado à nossa realidade. Tivemos alguns exemplos que deram muito certo. Na década de 1930 a sociedade paulistana criou o IPT para desenvolver materiais necessários à industrialização e, sem dúvida, o Instituto contribuiu em grande parte com o desenvolvimento de São Paulo. Quando foi criado o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos (SP), na década de 1950, a inspiração foi o MIT (EUA), porque se queria desenvolver um parque tecnológico aeroespacial no País. E foi o que aconteceu. Existem outros bons exemplos. No entanto, não temos um modelo ou um sistema que atenda a todas as principais demandas nacionais.
Os Estados Unidos têm as oito universidades privadas do nordeste que constituem a Ivy League, instituições tradicionais como as universidades de Harvard, Cornell, Yale e as outras, na maioria criadas no século XVIII e que permanecem como um esteio sólido para a formação de lideranças. Estão no topo de rankings mundiais. Outro grupo robusto de universidades americanas de classe mundial, reunidas na Universidade da Califórnia (Los Angeles, Berkeley, San Diego, entre outras), mantidas pelo estado, e a Universidade de Stanford, são bem mais jovens e foram o berço da pesquisa tecnológica de ponta que levou os EUA a tornar-se a potência militar que é, como também a potência no campo das tecnologias de informação e comunicação, que floresceu no Vale do Silício.
Na Europa o modelo mais bem sucedido (e entre os mais antigos na história mundial) segue sendo a dupla constituída pelas tradicionalíssimas Universidades de Oxford e Cambridge, na Inglaterra que, embora rivais entre si, também estão no topo dos rankings globais. Responsáveis pela formação de lideranças, grandes cientistas e intelectuais de alcance internacional. E mais recente temos o modelo da Coreia do Sul, competitivo e orientado para a inovação em indústrias de tecnologia de ponta.
Não há um só modelo a copiar. Podemos buscar inspirações, como temos feito desde o início da história da Universidade no Brasil. Mas precisamos adotar um modelo que tenha tentáculos suficientes para abarcar todas as grandes demandas da nossa sociedade. Um sistema público de ensino superior que seja de fato inclusivo, mas que tenha qualidade acima de tudo. Porém não podemos mais continuar nos enganando. Não há educação de qualidade se não houver excelência.
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Fonte: Jornal da Ciência, versão impressa, edição 764, dezembro de 2015. Título original: 'Que universidade queremos?'


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