Por Ivonaldo Leite
‘Pessoas
de pouca sorte’, é o que se pode dizer dos professores da Educação Básica. Com as escusas pela ironia, não se pode falar
outra coisa. Neste momento, no país, estão numa resistência ímpar em mais de um
estado. Em São Paulo, estado com o galope de duas décadas de governos do PSDB,
os docentes resistem bravamente numa greve ignorada pela grande mídia e minada
pelo tucanato paulista.
Em
Pernambuco, o governador que se elegeu sob a sombra de um falecido, e
prometendo dobrar os salários dos professores, diante da paralisação das
atividades dos docentes, “esqueceu” tudo o que disse para então promover o
encontro do pescoço dos professores com a guilhotina: demissão. Um assessor seu foi às raias do cinismo, ao
dizer que o governo estadual está permanentemente aberto ao diálogo com a
categoria. Imagine se não estivesse! Merece, o assessor, uns dois litros de óleo de peroba.
Contudo,
é na Paraíba que se tem verificado um caso, digamos, paradigmático. Da dupla greve docente nestas paragens, dos professores da rede estadual e da
rede municipal de João Pessoa, é de se tirar ilações. Surpreendeu, e continua surpreendendo, a postura dos dois ‘alcaides’, o da
prefeitura (PT) e o do governo do estado (PSB). Supostamente situados no “campo
de esquerda”, não apenas desdenharam/desdenham da greve como até mesmo, sobretudo no
caso do alcaide municipal, investiram com virulência contra os professores. Desde
logo o burgomestre pessoense recorreu à justiça em busca da decretação da ilegalidade da
greve. Esqueceu-se o diálogo, a negociação. Decretada a ilegalidade do
movimento grevista, veio o passo seguinte: a decisão de corte nos salários dos
professores. À Camões, diríamos: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se
o ser, muda-se a confiança”. PT, saudações! A inabilidade política e a empáfia dos
gabinetes fazem estragos e costumam cobrar um alto preço eleitoral. É bom que
se tome nota disso.
Já
no que toca ao governo estadual paraibano, a situação é a de um misto de
manobras veladas (embora nem sempre) com pitadas de populismo, atirando pais e
alunos contra os professores. E tentativas de esvaziar a greve ‘por dentro’. Mas,
ontem (23/04), tivemos o ápice do cômico, se não fosse trágico: matéria da
Secretaria Estadual da Educação no Jornal da Ciência/SBPC (versão eletrônica),
informando que a ‘Paraíba promove o diálogo sobre educação’. Promove o diálogo!
Quando os professores, com as suas atividades paralisadas, por justos pleitos, reivindicam...
serem ouvidos pelo governo, mas não são atendidos!
Os
professores têm mesmo ‘pouca sorte’. Nas campanhas eleitorais, servem de mote
para os inflamados discursos, onde, na busca de votos, todos os candidatos se
dizem seus amigos. Com amigos assim, os docentes e a educação em geral não precisam
de inimigos. O melhor que os professores têm a
fazer, portanto, é depositar a sua confiança na capacidade de mobilização de
corações e mentes para alcançar os seus objetivos. Assim fazendo, dignificam um
dos atributos mais fundamentais do ser humano: a coerência da palavra. Ao mesmo
tempo, como educadores, estarão dando uma lição prática de cidadania aos seus alunos
e tirando a máscara de muitos políticos que, com os seus atos, restringem a história
a uma degradante oscilação entre a tragédia e a farsa.
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