quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Mentes entorpecidas e inversão da realidade: 'quando o mundo está louco, é uma loucura estar de acordo'

Os antigos costumavam dizer que, para "as mentes versadas nos jogos do espírito", exceder-se em explicações fazia com que as teses apresentadas  parecessem ser propostas cum grano salis. Daí se entender que a síntese da ironia, entrecortada de erudição, diz bastante, e muitas vezes basta. Mas não se confunda ironia com deboche. Se ela (a ironia) é devidamente entendida ou não, que se fale com "as mentes versadas nos jogos do espírito", sobretudo num momento em que, no Brasil, a manipulação campeia e cabeças são entorpecidas. Em tempos assim, tem-se boa licença para a "escrita simulada", navegando em ondas literárias e da ficção, para revelar duas características aniquiladoras da manipulação ideológica: a ideia de perpetuidade do presente, de que não há saída além do que a construção discursiva dominante descreve, e a apresentação de forma inversa, e muitas vezes perveras, de partes constituintes da realidade. O episódio da censura aos pesquisadores do IPEA fornece muito subsídio para esse debate. Por sua parte, o jornalista Elio Gaspari produziu um breve artigo com o referido sentido de escrita simulada, como carta do economista Paul Samuelson, Prêmio Nobel de Economia, dirigida ao Presidente do IPEA. Aí abaixo, vale conferir. Em poucas palavras, o essencial do que está em causa. 


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Paul Samuelson: 'quando todo o mundo está louco,
é uma loucura estar de acordo' 

Elio Gaspari

Prezado professor Ernesto Lozardo, ilustre presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada),
O senhor me conhece, estudou no meu clássico Introdução à Análise Econômica e viu quando ganhei o prêmio Nobel. Escrevo-lhe para compartilhar um episódio de 1973 que invadiu minha memória quando li a censura pública que o senhor impôs a dois pesquisadores do Ipea que criticaram os efeitos de uma medida proposta pelo governo que o nomeou.
À época, não dei maior importância ao que me aconteceu. Hoje, vejo o papelão em que me meteram. No segundo semestre de 1973 a editora Agir, que publicava meus livros no Brasil, estava traduzindo a 9ª edição do "Economics". A certa altura, discutindo o fascismo, mencionei o regime militar brasileiro e seu crescimento de 10% ao ano. Lembrei que todos os regimes semelhantes tinham ido à breca.
O diretor da editora escreveu-me dizendo que não publicaria aquilo. Dias depois, outra carta, desta vez do economista Eugenio Gudin, o grande liberal brasileiro. Passaram algumas semanas e veio a terceira, do economista Roberto Campos. Todos reclamavam do meu texto, da comparação e do tom.
Pareceu-me uma tempestade em copo dágua, pois a minha política era de permitir que os editores expurgassem trechos que pudessem criar problemas com as traduções, sobretudo nos países comunistas. Resultado: quem leu a edição americana aprendeu que o Brasil ia quebrar. Quem leu a tradução da Agir comprou Samuelson e levou Gudin-Campos.
Eu achava que as duas cartas poderiam ser reflexões de intelectuais, dirigidas a um professor. Coisa nenhuma, o que eles queriam era alavancar suas posições junto ao governo do general Ernesto Geisel, que tomaria posse meses depois. Queriam me operar, e operaram.
Digo isso porque toda a correspondência enviada a mim, bem como as minhas respostas a Gudin e Campos, foram parar nas mãos do general Golbery do Couto e Silva, conselheiro de Geisel. A minha decisão foi comemorada pelo dono da editora, o banqueiro Candido Guinle de Paula Machado. Num cartão que enviou a Golbery ele sugeriu: "Se puder, dê um telefonema ao Dr. Gudin, pois ele ficaria satisfeito."
Encontrei o general Geisel num jantar na casa do compositor Richard Wagner (ele estava com o professor Mario Henrique Simonsen) e perguntei-lhe o que aconteceu. Geisel contou-me que Golbery aceitou a sugestão de Guinle e almoçou a sós com Gudin. Impressionou-me a malquerença do presidente com o patriarca do liberalismo econômico brasileiro. O melhor adjetivo que lhe dá é o de "patife".
Os autores da nota técnica excomungada têm a minha solidariedade e saiba que não a li. Era desnecessário dizer que o texto não refletia a opinião do Ipea. Essa informação sempre está no cabeçalho desse tipo de trabalho. O senhor disse que "a posição institucional do Ipea é favorável à PEC 241". A "posição institucional" de Gudin, Campos e Paula Machado era favorável ao regime. Direito deles, mas o que a trinca queria era outra coisa. Fiz-me entender?
Converse com o Pedro Malan. Ele foi um servidor do Ipea respeitado pela ditadura e ministro da Fazenda na democracia. É um homem correto e muito bem educado. Pode ajudá-lo.

Cordialmente,
Paul Samuelson 


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Fonte: Folha de São Paulo, versão para assinantes, edição do 19/10/2016. Título original: 'Desnecessário dizer que o texto não refletia o IPEA, diria Samuelson'.