Por ocasião dos 130 anos do nascimento de Marc Bloch, um pequeno texto lembrando como a escola analítica que ele deu corpo (L'École des Annales), com Lucien Febvre, mudou as perspectivas da História como ciência social, aproximando, por exemplo, história e sociologia como uma única démarche do espírito humano. Nas ondas agitadas do tempo histórico, afirmou: "Se eu fosse um antiquário, só teria olhos para as coisas antigas; mas, sou um historiador, é por isso que amo a vida." E assim chegou à sua definição de história: "ciência do homem [ser humano] no tempo, no seu tempo." A conferir o texto a seguir.
Por Isabela Pimentel
A revista dos Annales foi fundada no ano de 1929 por Marc Bloch e Lucian
Febvre. Suas abordagens revolucionaram o estudo da História. Uma delas foi a
nova maneira de encarar a relação do historiador com seu objeto, acompanhada
pela tentativa de construção de uma história total, através da utilização de
abordagens e metodologias vindas de outras ciências sociais, daí sua
preocupação com a interdisciplinaridade.
Pode-se dizer que as principais contribuições da Primeira Geração dos
Annales foram: ampliação da idéia de documento (ao considerar que outras fontes
pudessem ser utilizadas pelo historiador), aproximação com outras ciências
humanas, em uma clara resposta aos questionamentos e vazios deixados pela
historiografia do século XIX, que defendia a primazia dos fatos, depositados
nos documentos oficiais, cabendo ao historiador, “extrair” a verdade sobre o
passado, produzindo grandes narrativas, como as histórias políticas e
nacionais.
Se cada sujeito produz uma narrativa sobre a sociedade em que está inserido,
qual seu grau de isenção e objetividade? Qual, então, a função da história, se
para cada caso, é necessária uma
nova explicação, não havendo uma regra geral?
Debruçando-se sobre tais questionamentos e tecendo críticas ao
pensamento historiográfico dominante no século XIX, Marc Bloch propõe uma nova
visão sobre a História enquanto disciplina e ofício do historiador.
Conceito de História: Homem no
tempo
Uma contribuição de Bloch foi definir a História enquanto ciência dos
homens no tempo, pois ao historiador não cabe se ater ao passado, visto que,
enquanto sujeito ativo no processo de produção do conhecimento, está no
presente, caminha no tempo que vive, olhando sempre os fatos pela ótica do
presente. Ele acreditava que o “historiador é necessariamente levado a recortar
o ponto de aplicação particular de suas
ferramentas” (BLOCH, 1991: 52). Negava, assim, as crenças positivistas da total
objetividade e o documento visto como fonte da verdade única, inquestionável,
seria também impossível compreender a história abstraindo-se da sua dimensão
temporal, “eterno continuum, perpétua mudança” (BLOCH, 1991: 55).
Para Marc Bloch, o historiador não pode anular sua subjetividade, e a
verdade não está depositada nos documentos, aliás, todo vestígio pode vir a se
tornar um documento, dependendo das perguntas que o historiador coloca, é ele
que dá significação ao documento, através da perspectiva da “história-problema”.
Ele chega a considerar uma ilusão pensar que para compreensão de um dado
fenômeno histórico há um tipo correto de documento, o ideal é que seja feita a
utilização de ferramentas diversas. O próprio Bloch conclui: “Nunca se explica
plenamente um fenômeno histórico fora do estudo do seu momento”. (1992: 60)
O ofício do historiador
O papel da chamada Nova História não seria narrar o passado e julgar,
mas, antes de tudo, produzir compreensão, através da formulação de problemas e
questões, de acordo com os anseios de seu tempo. A pesquisa histórica deveria,
desta forma, dialogar com outras áreas do conhecimento, para gerar uma
compreensão mais global, analisando outros tipos de fontes além das oficiais.
Conforme explica Reis (REIS: 1994, 126):
“A nova história privilegia a documentação massiva e involuntária em
relação aos documentos voluntários e oficiais. Nesse sentido, os documentos são
arqueológicos, pictográficos, iconográficos, fotográficos, cinematográficos,
numéricos, orais, enfim, de todo tipo. Todos os meios são tentados para vencer
as lacunas e silêncios das fontes, mesmo, e não sem risco, os considerados como
antiobjetivos”.
Percebe-se um claro esforço de Bloch na definição de um método em
história, que vá reger o trabalho do historiador, que ele chama de “método
regressivo”: compreensão do passado pelo presente e vice-versa. Outra inovação
é a concepção de tempo, não mais encarado como linear, mas formado pela soma de
diversos processos, sejam eles políticos, sociais e econômicos, além da defesa
da abordagem quantitativa ou serial, devido à possibilidade de mensurar os
acontecimentos na ciência histórica.
Reflexões
Deve-se compreender a citada obra de Bloch como uma resposta a concepção
positivista da História, presente em nomes como Langlois e Seignobos, uma
tentativa de criar um método a ser seguido pelo historiador, na definição de
seu problema. Enquanto ciência, a história deveria gerar compreensão, não se
atendo s enumerar datas e fatos, mas, através da interdisciplinaridade,
entender o homem e sua relação com o tempo em uma concepção que supera o social
e o econômico, trata-se da História Total.
Ao mesmo tempo em que aponta para a necessidade de “educar a
sensibilidade histórica”, Bloch deposita esperança demais na proposta de uma
história totalizante, e apesar de defendê-la, reconhece, que “ a vida é muito
breve e os conhecimentos a adquirir muitos longos para permitir uma experiência
total da humanidade”. (1992: 68).
Apesar de se posicionar contra as abordagens reducionistas e uso de
conhecimentos isolados para geração de compreensão, Bloch insiste que “a única
história verdadeira é a universal”.
Pode-se reconhecer, desta forma, avanços fundamentais na obra discutida,
mas o contexto em que ela foi produzida deve ser levado em consideração. Como
historiador, Bloch foi influenciado pelos eventos de sua época (guerras,
regimes totalitários e perseguição aos judeus).
Seguindo a perspectiva de que não cabe ao historiador julgar o passado,
a obra de Bloch deve ser entendida como produto das aspirações de seu tempo.
Colocando-se no lugar do outro, através do exercício da compreensão, talvez se
possa entender a fé desmedida que este historiador colocou em seu ofício,
chegando a constituir uma “apologia”.
A nova história, a história dos homens no tempo presente, não poderia
mais ser a mesma que gerou os conflitos de sua época, era preciso mudar:
método, objeto e o próprio historiador. A ciência dos homens no tempo deveria
gerar um melhor entendimento do presente, afastando-se dos fantasmas do que um
dia chamaria de passado.
Referências Bibliográficas
BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001, p. 51-68 (“A história, os homens e o
tempo”).
BURKE, Peter. A escrita da
história: novas perspectivas. São Paulo,
UNESP, 1992.
LE GOFF,
Jacques. “Prefacio”. In BLOCH,
Marc. Apologia da historia ou o oficio do historiador. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 2001, p. 15-34.
REIS, José Carlos. Tempo, História e Evasão. Campinas: Papirus
Editora, 1994.
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Fonte: http://cafehistoria.ning.com/
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