Há pequenos reparos a fazer na abordagem, mas ela é válida.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
domingo, 12 de novembro de 2017
terça-feira, 7 de novembro de 2017
ANPOCS: Nota sobre a vinda de Judith Butler ao país e sua liberdade acadêmica
| Filósofa Judith Butler (Foto: Moacyr Lopes Junior/Folhapress) |
A filósofa Judith Butler é
doutora em Filosofia pela Universidade de Yale, professora na Universidade da
Califórnia, Berkeley, onde leciona no Departamento de Literatura Comparada e no
Programa de Teoria Crítica, é autora de 15 livros, dos quais seis traduzidos no
Brasil por diferentes editoras. Butler é uma das convidadas do colóquio “Os
fins da democracia - Estratégias Populistas, Ceticismo sobre a Democracia e a
Busca por Soberania Popular”, promoção conjunta entre Berkeley e a USP, no qual
estão previstas as participações de outros tantos professores oriundos de
diferentes universidades, como Humboldt Universität, Boğaziçi University,
Université de Paris VII, Universidade de Buenos Aires etc.
São
pesquisadores e pesquisadoras norte-americanos, latino-americanos e europeus
que, como nós, professores brasileiros e brasileiras, desenvolvem um trabalho
intelectual cuja premissa é a liberdade de pensamento, a possibilidade de
crítica, e a capacidade de colocar em debate questões relevantes para o
conjunto da sociedade. Essa liberdade, no entanto, está ameaça por grupos que
pretendem impedir a vinda de Butler ao Brasil, a realização do seminário e o
livre diálogo de ideias.
Nós,
da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências
Sociais), que agrega 111 programas de pós-graduação de Antropologia, Ciência
Política, Ciências Sociais e Sociologia no país, viemos a público manifestar
nosso apoio integral à vinda da professora Judith Butler ao Brasil e o
exercício de sua liberdade de expor seus argumentos, proposições e discussões
que não acreditamos poder ser cerceadas. Uma mordaça sobre sua fala é uma
ameaça para todos e todas nós, cuja vida acadêmica e intelectual não pode
prescindir desta liberdade.
segunda-feira, 6 de novembro de 2017
domingo, 5 de novembro de 2017
Intransparência da tristeza
Por Leont Etiel
No
contido, está a angústia.
Na
palavra silenciada, a fala entristecida.
No
mundo que se apresenta, a sombra do sofrimento.
No
passo que o pé alcança, a melancolia no horizonte.
No
tempo que faz luz, o turvo da noite.
No
raciocínio que busca, o pensamento que se ilude...
sábado, 4 de novembro de 2017
quinta-feira, 2 de novembro de 2017
Sobre a morte… e a vida!
Por Antonio Ozaí da Silva
(Professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá - UEM)
“A existência de que
desfrutais é igualmente dividida entre a morte e a vida. O primeiro dia do
vosso nascimento vos encaminha para morrer como para viver”(MONTAIGNE,
2010, p. 77)
“Ao nascermos, morremos,
e o fim decorre da origem” (Manílio, IV, 16) [1]
Por
que escrever sobre a morte? Por que pensar sobre o inexorável? Por que consumir
o precioso tempo de viver, tempo que não retorna, para refletir a respeito da
verdade absoluta da finitude da existência? Não é melhor simplesmente viver a
vida sem pensar e submergir no cotidiano dos dias que passam? Morreremos! Que a
vida seja intensa em toda a sua plenitude e, de certa forma, esqueçamos de
morrer. É preciso viver como se não houvesse o amanhã. Carpe diem!
Não
obstante, a morte nos surpreende e caminha ao nosso lado, em nós, desde o
momento em que a vida é concebida. Para o feto, ainda em desenvolvimento no
ventre materno, a vida é apenas uma possibilidade. O nascimento não representa
a vitória sobre a morte, mas simplesmente a continuidade do ciclo da vida. Vida
e morte se unem no mesmo ser, e o corpo que se desenvolve, robusto e saudável,
já começou a morrer. Não há certeza de que chegará ao tempo da velhice. Seja
como for, não resistirá aos ditames da natureza.
Este não é
um processo meramente biológico. Se a vida e morte humana transcorressem
meramente como uma evolução biológica seríamos reduzidos à categoria de um
animal qualquer. Somos animais, mas diferentes. Não pautamos nossa vida apenas
pelos instintos, ainda que sejam importantes. O animal não-humano
institivamente sente que vai morrer; o ser humano tem a consciência da morte e,
culturalmente, desenvolve mecanismos protetores e compensadores diante da
certeza da finitude e do pós-morte. A espécie humana se imagina especial
destinado a uma vida post mortem e
elabora diversas teorias e crenças na esperança de que a vida seja eterna.[2] A morte humana transfigura-se num
ritual cultural, religioso e social, circunscrito no tempo e no espaço
histórico. Povos e grupos sociais, nas mais diversas sociedades e culturas, têm
o seu modo específico de conviver, ritualizar e conceber a morte.
A consciência
da morte é humana. Talvez por isto, assuma a face de um drama desesperador e,
muitas vezes, insuperável. Embora esteja presente no dia-a-dia, sempre nos
parece distante, pertencente a um futuro que nos recusamos a vislumbrar e se
refere aos outros. Por que transformamos a morte num tema tabu? Por que a
dificuldade em aceitá-la com naturalidade? Não é mais sensato aprender a
conviver com a certeza de que morreremos?
Montaigne
ensina que a sabedoria está em aprender a não ter medo de morrer. Meditar e
aprender sobre a morte é parte do aprendizado do viver bem. Para ele, recusar
esta verdade é estupidez:
A morte é o fim da nossa caminhada, é
o objeto necessário de nossa mira; se nos apavora, como é possível dar um passo
à frente sem ser tomado pela ansiedade? O remédio do vulgo é não pensar nela.
Mas de que estupidez brutal pode vir cegueira tão grosseira? É pôr a brida na
cauda do burro (MONTAIGNE, 2010, p.63).
Por outro
lado, também é risível vincular a morte à idade. É ridícula a arrogância dos
jovens diante da velhice, como se a partir de certa idade a morte se anunciasse
no rosto enrugado e no corpo decrépito. Quem sabe o horror ao longevo se
explique mais pelo espetáculo da morte anunciada do que por antecipar o futuro
indesejado ao jovem. Os critérios da morte não são definidos pela certidão de
nascimento. O aborto, o natimorto, a morte na infância e adolescência e em
qualquer tempo da vida, mostra a sandice de se imaginar imune ao destino finito
de todo ser vivente:
Jovens e velhos abandonam a vida da
mesma maneira. Dela ninguém sai de outro jeito senão como se tivesse entrado
naquele instante, acrescentando-se a isso que não há homem tão decrépito que
não pense ainda ter vinte anos no corpo enquanto enxergar Matusalém diante de
si. E ademais, pobre louco que és, quem te fixou os prazos de tua vida (Id.,
64).
Montaigne
escreveu estas palavras aos 39 anos de idade – viveu mais 20 anos. O romano
Marco Túlio Cícero provavelmente concordaria com ele. “Aliás, quem pode estar
seguro, mesmo jovem de estar ainda vivo até o anoitecer?”, escreveu Cícero
(2007, p. 53). Embora apologista da velhice, o sábio romano chamou a atenção
para a insensatez de imaginar que a flor da idade torna o jovem imune à morte:
Alimentaria o jovem, apesar de tudo, a
esperança de viver ainda muito tempo, enquanto isso é interdito ao velho? Mas
vejam, é uma esperança insensata: que pode haver de mais insano que ter por
certo o que não o é e por verdadeiro o que é falso? (Id.)
No
entanto, a morte considerada prematura é mais impactante. Assim, é mais
naturalmente aceita a morte na velhice do que a dos jovens e crianças. Cícero
expõe em bela metáfora este paradoxo da vida humana:
Que há de mais natural para um velho
do que a perspectiva de morrer? Quando a morte golpeia a juventude, a natureza
resiste e se rebela. Assim como a morte de um adolescente me faz pensar numa
chama viva apagada sob um jato d’água, a de um velho se assemelha a um fogo que
suavemente se extingue. Os frutos verdes devem ser arrancados à força da árvore
que os carrega; quando estão maduros, ao contrário, eles caem naturalmente
(Id., p. 55)
Não há,
porém, como escapar aos desígnios da morte. Com efeito, o contar do tempo é
apenas a medida da vida vivida, nada diz sobre a intensidade do viver. O meu
avô faleceu com 107 anos de idade, mas será que sua experiência de vida fez
valer a pena tamanha longevidade? Na verdade, é preferível a morte ao
prolongamento do viver sob a dor e sofrimento constantes e da perda do
autocontrole sobre o próprio corpo.
Os avanços
científicos tornaram possível o prolongamento da vida biológica, mas não
garantem, necessariamente, qualidade de vida. Sob determinadas condições, chega
a ser cruel a manutenção da vida – ainda mais quando prolongada
artificialmente. O indivíduo que se encontra em tal situação perdeu a
capacidade de decidir sobre si mesmo. Ainda que abandonasse os valores
religiosos e morais que o formaram, não teria como solicitar que dessem cabo à
vida. Se conseguisse, muito provavelmente não seria atendido, pois, em geral, a
lei pune a eutanásia. Muito dificilmente algum familiar teria tal iniciativa.
Só lhe resta viver – se se pode chamar assim a vida sob tais circunstâncias.
Isto me
faz lembrar os struldbrugss, personagens da
obra de Jonathan Swift, As viagens de Gulliver.
Os struldbrugss, raros entre os luggnaggianos, eram
imortais. Porém, quando alcançam os oitenta anos, o que é considerado o limite
extremo da vida neste país, eles sofrem de todas as excentricidades e doenças
dos demais velhos e, além delas, de muitas outras que surgiam com a
atemorizante perspectiva de nunca morrer. Não apenas são teimosos, rabugentos,
avarentos, taciturnos, presunçosos, tagarelas, como também são incapazes de
sentir amizade e encontram-se mortos para todas as afeições naturais, que
jamais se prolongam além dos seus netos. Inveja e desejos impotentes são as
afeições que prevalecem neles. (…) Aos noventa leses perdem dentes e cabelos;
com esta idade já não fazem nenhuma distinção de gosto, então comem e bebem o
que puderem conseguir, sem ter apetite e nem satisfação com isso. As doenças
que os atacam permanecem, sem evolução ou diminuição. Quando conversam,
esquecem os nomes das coisas e os nomes das pessoas, até mesmo dos que são seus
amigos e parentes mais próximos (SWIFT, 2003, p.253-255).
E daí para
pior… Swift imaginou esta cena dantesca no século XVIII (a primeira edição do
livro é de 1726). A ciência atual gera os struldbrugss modernos,
embora não possa garantir a imortalidade. Talvez seja tempo das sociedades
questionarem os valores que fundamentam tais práticas.
A
intensidade de uma vida não se mede pela quantidade de tempo vivido. Os animais
não-humanos não contam o passar do tempo, apenas vivem. Viver a ver o passar
das nuvens, imerso na mediocridade e restrito às funções vitais é diferente do
viver intenso e qualitativo. Na vida, alguns meses podem ser mais
significativos do que a longevidade:
A utilidade do viver não está na
duração: está no uso que dele fizemos. Uma pessoa viveu muito tempo e pouco
viveu. Atentai para isso enquanto estás aqui. Ter vivido bastante está em vossa
vontade, não no número dos anos (MONTAIGNE, 2010, p. 81).
É possível
acomodar-se, amoldar-se e simplesmente viver. Como notou Dostoiévski (1992, p.
68), para uso do cotidiano, é “mais do que suficiente a consciência humana comum.”
A consciência perspicaz traz à tona o sofrimento. O ser humano é o único capaz
de sofrer por antecipação. Então, diriam o vulgo e o douto, por que refletir
sobre a morte se esta indubitavelmente induz à angústia?
O comum e
o douto que se recusa a pensar sobre a morte se iludem. Pois, ela pode ser
sutil e fugaz; mas é impossível relegar sua presença. “Como é possível
conseguirmos nos desfazer do pensamento da morte, e que a cada instante não nos
pareça que ela nos agarra pela gola?”, pergunta Montaigne (2010, p. 66).
Por mais
que façamos de conta que a nossa vez está inscrita em algum lugar do futuro
indeterminado, não escapamos ao pensamento sobre a morte. Ainda que nos
recusemos firmemente, ela nos espreita e pode nos surpreender. É preciso,
portanto, que nos preparemos:
aprendamos a arrostá-la de pé firme e
a combatê-la. E para começar a tirar-lhe sua grande vantagem sobre nós, tomemos
um caminho totalmente oposto ao comum. Tiremos-lhe a estranheza,
frequentemo-la, acostumemo-nos com ela, não tenhamos nada de tão presente na
cabeça como a morte: a todo instante a representemos em nossa imaginação em
todos os aspectos (Id., p. 68).
Onde ela
nos encontrará? Impossível saber:
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida.
Existem tantas… Um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto,
A anestesia mal aplicada,
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe,
Há
muitas formas de morrer. “É incerto onde a morte nos espera, aguardemo-la por
toda parte” (MONTAIGNE, 2007, p. 69). O poder econômico, por exemplo, é incapaz
de evitar a morte provocada por uma picada de mosquito. Sejamos mais sensatos e
humildes, reconheçamos a fragilidade da existência.
Para
Montaigne, a morte está relacionada com a liberdade. Somos mais livres na
medida em que nos preparamos para morrer:
Meditar
previamente sobre a morte é meditar previamente sobre a liberdade. Quem
aprendeu a morrer desaprendeu a se subjugar. Não há nenhum mal na vida para
aquele que bem compreendeu que a privação da vida não é um mal. Saber morrer
liberta-nos de toda sujeição e imposição” (Id., p. 69).
Retiremos
as máscaras que nos iludem e nos aprisionam em nossos medos. Não é fácil, mas
nos ajudará a conceber a vida e a morte em sua simplicidade:
É
preciso tirar a máscara tanto das coisas como das pessoas. Quando for retirada,
só encontraremos embaixo essa mesma morte pela qual um criado ou uma camareira
passaram ultimamente sem medo. Feliz a morte que não deixa tempo para os
aprestos de tal viagem (Id., p.83).
Os
fantasmas que criamos são mais assustadores que a morte em si. No final, tudo
terminará bem; ou seja, de qualquer forma será o final. Não adianta tentar
escapar ao destino comum à condição biológica humana.
Referências
CÍCERO,
Marco Túlio. Saber envelhecer e A amizade. Porto
Alegre: L&PM, 2007.
DOSTOIEVSKI,
Fiodor. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo, Editora Paulicéia
1992.
MONTAIGNE. Que
filosofar é aprender a morrer. In idem, Os Ensaios. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010, p.59-83.
SWIFT,
Jonathan. As viagens de Gulliver. São Paulo: Editora Nova Cultural:
2003.
* Publicado na REA, nº 131, abril de 2012,
disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/16685/9012
[1] Citado em Montaigne, 2010, p. 77.
[2] Sugiro a leitura de Reflexão
sobre a morte, publicado em https://antoniozai.wordpress.com/2012/03/17/reflexao-sobre-a-morte/,
17.03.2012.
[3] Raul Seixas. Canto para a minha morte.
Letra e vídeo disponível em http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48303/
-------------------------------
Fonte: Publicado originalmente em: REA, nº 131, abril de 2012, disponível em http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/16685/9012. Disponibilizado pelo autor em seu blog pessoal: https://antoniozai.wordpress.com/2012/05/05/sobre-a-morte-e-a-vida/.
sábado, 28 de outubro de 2017
Uberização
(Via http://ricardoabramovay.com/)
A explosão da cultura digital durante o Século XXI revigorou os mais importantes ideais emancipatórios, combalidos pela queda do muro de Berlim. As pessoas e as comunidades passariam a dispor dos meios técnicos que lhes permitiriam estabelecer comunicação direta umas com as outras. A informação, os bens e os serviços poderiam ser oferecidos de forma eficiente sem que as condições objetivas de sua produção estivessem nas mãos de grandes empresas. O mantra da teoria microeconômica segundo o qual eficiência supõe concentração de recursos parecia desmentido pela comunicação em rede e, mais ainda, pelo surgimento dos smartphones e de equipamentos como as impressoras em três dimensões e as máquinas de corte a laser. Dispositivos eletrônicos com um poder cada vez maior estavam nas mãos das pessoas e operavam em rede. A oposição entre o pinguim e o Leviathã, no título do importante livro de Yochai Benkler, apontava para a importância cada vez maior dos “commons”, de tudo aquilo que operava para ampliar o domínio da esfera pública não só sobre a vida social, mas sobre a própria relação entre sociedade e natureza. Jeremy Rifkin foi além, vinculando a abundância trazida pela revolução digital ao próprio fim do capitalismo. A sharing economy, cujas expressões mais emblemáticas são a Wikipédia e os softwares livres, exprimiria a capacidade humana de cooperação, não apenas entre pessoas que se conhecem, num círculo limitado por laços de parentesco e amizade, mas de forma anônima, impessoal e massificada. As bases materiais para a transição do reino da necessidade para o de liberdade pareciam asseguradas.
Não
demorou muito para ficar claro que esta narrativa edificante subestimava a mais
importante transformação do capitalismo do Século XXI: a emergência da
empresa-plataforma. O aumento na capacidade de processar, coletar, armazenar e
analisar dados foi de tal magnitude que seu custo, que era de onze dólares por
gigabyte em 2000 caiu para US$ 0,02 em 2016. Esta foi uma das bases objetivas
não só para que Google e Facebook estivessem entre as mais poderosas empresas
do mundo, mas também para que um conjunto cada vez mais amplo de bens e
serviços fossem oferecidos não mais por empresas ou conglomerados
especializados, mas por plataformas que, a custo quase zero, tinham o poder de
conectar imediatamente consumidores e varejistas, reduzindo os custos
envolvidos em suas transações.
A
Amazon, assim, deixa de ser uma livraria e uma loja de discos e passa a
promover a ligação entre milhares de fabricantes e comerciantes a consumidores
de todo o mundo. E o poder da Amazon aumenta à medida que ela consegue ampliar
o alcance de sua rede. Quanto mais gente comprar e vender por meio de sua
plataforma, maior será a dificuldade de que surjam concorrentes capazes de
enfrentar o seu poder. O mesmo ocorre com a Netflix ou com o mecanismo de busca
do Google. É a lógica do “vencedor leva tudo” em que quem não estiver dentro da
rede terá dificuldade para obter os benefícios que ela propicia.
O
mais impressionante é que estas empresas-plataforma estão entre as mais
valiosas e poderosas do mundo atual, sem que, para isso, precisem deter
patrimônio, propriedades, estoques, almoxarifado, frota de caminhões, máquinas
ou custosas instalações. A Walmart, por exemplo, possui mais de 150 centros de
distribuição, uma frota de seis mil caminhões que rodam 700 milhões de milhas
anualmente para levar produtos a 4.500 lojas só nos Estados Unidos. Seus ativos
em 2016 valiam US$ 180 bilhões. Com tudo isso, a Walmart vale menos que a
chinesa Alibaba que vendeu um trilhão de dólares em 2016 e que atende
mensalmente um público maior que a população norte-americana.
O
livro de Tom Slee tem o mérito de desmistificar a aura de esperança com que a
sharing economy foi encarada em seus primórdios. Ele é inspirado, como diz o
autor na conclusão, por um sentimento de traição: muito longe de exprimir a
cooperação direta entre indivíduos, o suposto compartilhamento deu lugar à
formação de gigantes corporativos cujo funcionamento é regido por algoritmos
opacos que em nada se aproximam da utopia cooperativista estampada em suas
versões originais. O livro apoia-se numa sólida pesquisa empírica mostrando
consequências sociais desastrosas das corporações digitais. Sob a retórica do
compartilhamento escondem-se a acumulação de fortunas impressionantes, a erosão
de muitas comunidades, a precarização do trabalho e o consumismo.
O
AirBnb, por exemplo, acabou por estimular que, em cidades turísticas
importantes, como Barcelona, Paris e Amsterdã, as pessoas vendessem seus
domicílios a empresas que operavam como se fossem indivíduos. Ao mesmo tempo,
em muitas destas cidades o turismo se expandiu muito além dos limites da rede
hoteleira. No verão de 2014, mostra Slee, o bairro parisiense do Marais recebeu
66 mil visitantes, mais que os 64 mil habitantes que ali residem de forma
permanente. O resultado é que as regiões centrais das cidades atingidas, cujo
atrativo era exatamente o de conciliar a beleza arquitetônica com o cotidiano
de quem ali vivia, corriam o risco de serem convertidas em cenários de
Disneylândia. Não é à toa que várias prefeituras impuseram regulamentações
limitando o poder destes novos protagonistas da degradação urbana.
A
ideia de que se eu precisar de algo posso contar com a ajuda dos outros e que
isso vai gerar sentimentos e práticas de reciprocidade acabou se convertendo na
oferta generalizada de trabalhos mal pagos e sem qualquer segurança
previdenciária. Num ambiente em que os sindicatos estão cada vez mais fracos e
os direitos trabalhistas sob aberta contestação, os resultados são
devastadores. A utopia de que a relação peer to peer ampliaria o bem-estar, reduziria
o desperdício e traria significado humano para as relações econômicas, tão
fortemente cultivada pelo discurso do Vale do Silício, transformou-se no seu
contrário, como mostra de forma documentada e inteligente Tom Slee. E o curioso
é que a tão badalada sharing economy inclui gigantes digitais como Uber, Lyft e
Task Rabit, mas nunca as cooperativas do sistema espanhol Mondragón, as
inúmeras iniciativas de gestão comunitária de recursos ecossistêmicos comuns ou
o que na América Latina se conhece como economia solidária.
Este
livro é uma importante denúncia contra o cinismo dos que se apresentam ao
grande público como promotores da cooperação social e do uso parcimonioso dos
recursos, mas que na verdade estão entre os mais importantes vetores da concentração
de renda, da desregulamentação generalizada e da perda de autonomia dos
indivíduos e das comunidades no mundo atual. Um dos capítulos mais
interessantes deste livro é o que trata da confiança. A resposta do Vale do
Silício aos estudos que mostravam a erosão da confiança na sociedade
norte-americana a partir dos anos 1980 consistiu em enaltecer os sistemas
digitais de que atribuem reputação ao comportamento dos indivíduos e permitem,
supostamente, que todos saibam quem é confiável. Slee mostra que estes sistemas
são altamente distorcidos e que em hipótese nenhuma eles poderiam substituir o
sentimento de identidade e pertencimento comunitário que formam a base real de
qualquer democracia.
Uma
das mais dramáticas consequências do capitalismo de plataforma, é a drástica
redução da responsabilidade socioambiental corporativa. Slee cita diversos
exemplos em que, embora as plataformas sejam as maiores beneficiárias das
operações comerciais que intermediam, elas renunciam a qualquer
responsabilidade sobre suas consequências. E os gigantes digitais que hoje
aparecem como expressão emblemática do capitalismo de plataforma insistem na
narrativa de que são simples intermediários e que a responsabilidade pela
relação comercial entre os que oferecem os bens e os serviços e os que os
demandam não lhes cabe.
O
livro de Tom Slee não é uma condenação ou uma expressão de ceticismo diante do
fenômeno da cooperação social. É claro que a vida social depende do fato de os
indivíduos e as organizações, nas mais variadas dimensões de suas vidas
(inclusive na economia) compartilharem não apenas bens e serviços, mas
sobretudo informação e conhecimento. As inúmeras práticas de ajuda mútua, que
vão desde o cuidado com as crianças dos vizinhos até a formação de sistemas
informais de microfinanças são generalizadas no mundo todo. Além disso, no
interior da cultura digital há várias plataformas em que o compartilhamento se
realiza, de fato, entre pessoas ou entre empresas, sem que isso abra caminho à
concentraçãoo de fortunas e de poder que marca a face hoje mais visível e à
qual Tom Slee dedica mais atenção da sharing economy. Parte crescente da
inovação tecnológica contemporânea apoia-se em práticas pertencentes ao
knowledge commons. Da mesma forma que ocorre com inúmeras situações de recursos
naturais geridos por comunidades como pertencentes a todos (e cujo estudo
respondeu pelo prêmio Nobel de Economia a Elinor Ostrom), há um vasto campo de
“commons” cuja administração não é centralizada num punhado de empresas
altamente lucrativas.
É
claro que o avanço cada vez maior da conectividade e dos meios para que ela
chegue ao maior número de pessoas pode ser benéfico. Mas a distância entre
conexão e bem-estar social será tanto maior quanto mais poderosos forem os
gigantes digitais que determinam as regras sob as quais o maior bem comum
criado pela inteligência humana, a internet, funciona. Contrariamente à crença
dos protagonistas dominantes da sharing economy, a revolução digital só vai
melhorar a vida das sociedades contemporâneas se ela se apoiar em real
abertura, em participação transparente e em redução das desigualdades. O livro
de Tom Slee é uma contribuição fundamental nesta direção.
quinta-feira, 26 de outubro de 2017
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Um Professor singular e sem medo
Faleceu no último dia 21/10 o Professor Oliveiros S. Ferreira , que teve um papel central na formação de uma diversidade de cientistas sociais brasileiros, e a quem uma ex-aluna sua, a Profa. Maria Hermínia Tavares de Almeida, definiu como um 'Professor singular e sem medo'. Sob inspiração hegeliana, já escrevi que é na reconciliação com a vida onde poderemos encontrar a permanência e a valorização do desaparecido, assimilando o significado das vidas individuais. Seja de forma agnóstica ou como quer que seja, o que importa - como escreveu o meu amigo Ângelo Novo em relação à partida do ensaísta João Esteves - é procurar razões, até desesperadamente, para não desesperar.
Voltando ao Professor Oliveiros, é de se dizer, portanto, que continuará a existir após o seu desaparecimento. E talvez, agora, desfazendo-se alguns equívocos em relação aos seus posicionamentos e ao seu trabalho intelectual. Foi um tipo de professor raro nos dias de hoje, e, ao mesmo tempo, tão necessário. Vale a pena a leitura do artigo aí baixo a seu respeito.

Por Maria Hermínia Tavares de Almeida
Oliveiros S. Ferreira
(1929-2017), foi meu professor no Curso de Ciências Sociais da USP, onde
começou a lecionar em 1953 na então Cadeira de Política, como era chamado o que
viria a ser, mais tarde, o Departamento de Ciência Política.
Foi
um professor capaz de prender pela argumentação e seduzir pelas palavras. Nas
suas aulas o argumento consistente e aquele que se lhe opõe com a mesma
fundamentação se mostravam, um e outro, imersos numa peculiar riqueza de conceitos,
fatos, paralelos e interpretações.
Tudo
isso trazia não só conhecimento e inteligência, mas ainda a irresistível
tentação da travessura intelectual e um desejo de compartilhar sua
cumplicidade, senão com o pensamento exposto, com o ato de pensar.
Coisa
de quem nunca teve medo de ideias, fosse o seu autor o pensador francês Georges
Sorel (1847-1922) ou Lev Davidovich, como ele gostava de se referir a um dos
seus preferidos, o revolucionário russo Leon Trótski (1879-1940).
A
ironia, que nunca deixou de acompanhá-lo em classe, mal disfarçava peculiar
mistura de ceticismo e esperança. Lusbel, uma das formas do demônio, existe,
ensinava ele, mas o governo dos homens não está fadado a sucumbir aos seus
diabólicos intentos. E é esse não perder de vista jamais a condição humana que
o fazia buscar socorro tantas vezes na literatura. Tanto melhor para nós, seus
alunos.
Nos
anos 1990, convidado a dar a aula inaugural do curso de graduação em Ciências
Sociais, Oliveiros começou sua conferência sobre Karl Marx com uma longa
discussão sobre o amor. E por aí ele foi com sua leitura tão pessoal quanto
estimulante, que deixou alguns visivelmente incomodados, outros perplexos, e
muitos, principalmente os mais jovens, encantados.
A
irreverência, a originalidade, a capacidade de sempre apresentar um ponto de
vista diferente são atributos pessoais importantes num intelectual – para não
falar num jornalista com luzes próprias. Porém, muito mais do que qualidades
que valorizam, ou deviam valorizar, quem as tem, elas são virtudes inestimáveis
em um departamento universitário.
A
institucionalização da atividade acadêmica é condição essencial para a produção
organizada de conhecimentos. Ela substitui o diletantismo pela
profissionalização, o arbítrio subjetivo por critérios socialmente construídos
de aferição de mérito.
Entretanto,
a institucionalização acadêmica tem seus riscos. O maior deles é a propensão à
conformidade aos padrões consagrados de trabalho científico e às correntes
intelectuais dominantes.
Não
é fácil se proteger dessa forma sorrateira de mediocridade que assedia
constantemente a vida universitária. Contra ela só a força disruptiva do
pensamento que é contra a corrente, que nos força a olhar o mundo de forma
diferente do que estamos acostumados.
No
departamento de Ciência Política da USP esse foi o papel de Oliveiros Ferreira.
De
inclinação política à direita e bem relacionado com militares, Oliveiros mostrou impecável solidariedade com seus colegas perseguidos pela ditadura.
Quando fui detida em 1973 pela Operação Bandeirantes, que negava notícias sobre
meu paradeiro, foi a ele que meus amigos recorreram para finalmente me
localizar. Um exemplo, entre muitos, do ser humano generoso que foi.
------------------------------
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2017/10/1929312-professor-singular-oliveiros-s-ferreira-nunca-teve-medo-de-ideias.shtml
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