O
Itamaraty fica num dos prédios mais bonitos do Brasil. Traçado, salões,
escadas, pisos, mobiliário, quadros, esculturas, murais, jardins, painéis e
lustres formam um conjunto ímpar, que harmoniza pensamento e natureza,
funcionalidade e arte.
Percorrê-lo
numa tarde silenciosa, no entanto, provoca um travo de angústia. A sensação de
malogro se mescla ao alumbramento: o prédio não é a síntese da potência
nacional, e sim o seu epitáfio. O choque entre o Brasil sonhado e o presente é
aterrador, e não há futuro à vista.
Desenhado
por Niemeyer, o seu cálculo estrutural é do poeta Joaquim Cardozo. Ele deu vida
ao saguão sem colunas mais amplo do mundo, o qual foge do monumental,
amoldando-se à perspectiva humana.
Passa-se
do exterior ao interior sem perceber. A transição é atenuada por nenúfares e
vitórias-régias de Burle Marx. A escada em caracol brota do subsolo e, solta no
ar, sobe para o jardim suspenso. A preocupação com o meio ambiente, pioneira,
marca a construção.
No
auditório, poltronas de jacarandá coexistem com círculos futuristas na parede,
revestidos com plástico-bolha. A consonância entre natureza e trabalho
prossegue no mural geométrico de Sérgio Camargo e no mobiliário em madeira de
lei de Sergio Rodrigues.
A
melhor arte se faz presente: esculturas de Brecheret e Mary Vieira, mural de
Volpi, telas de Weissmann e Iberê Camargo, além de trabalhos de Rugendas e
Debret. História e arrojo se complementam. O prédio nada tem de pitoresco
(atributo inclusive de nossa melhor literatura).
Concebido
nos anos [19]50, o Itamaraty foi inaugurado em 1970. Houve outras iniciativas
nesse período de o Brasil se dotar de uma cultura, construir uma sociedade
aberta. Seminário Marx e Poesia Concreta; Cinema Novo e Reformas de Base; Bossa
Nova e Centros Populares de Cultura.
De
maneira tateante, mas progressistas e abertas ao novo, essas iniciativas
moldaram aspirações nacionais. E todas elas foram derrotadas pela Casa de
Odebrecht. A família ilustre corrompeu a ditadura, a Nova República, o Brasil
Novo, o neoliberalismo, o petismo, deu R$ 10 milhões a Temer. Criou um sistema
de mando à sua imagem e semelhança.
Nos
folhetos de propaganda, a Casa de Odebrecht se vangloria da origem germânica e
oculta ancestrais africanos. Fala em sustentabilidade, ética e ecologia, e
compra privilégios com vil metal. Nunca prezou a nação e a democracia,
dedicando-se à pilhagem de um povo do qual tem nojo.
Exagero?
Releia-se o e-mail que Isabela mandou ao marido, Marcelo Odebrecht, protestando
contra a presença de uma sindicalista na sua casa: "Se sujar minha toalha
de linho ou pedir marmitex, vou pirar. Saudações sindicais? Não mereço".
Uma
das dez famílias mais ricas do Brasil, a Casa de Odebrecht foi adulada desde
sempre pelos seus pares. Por isso, desfruta de reconhecimento mesmo agora,
quando o Departamento de Justiça americano diz que ela perpetrou o "maior
caso de suborno da história". O sujeito odeia Lula ou Temer, mas não
Emílio Odebrecht.
Quando
a encardida Casa de Odebrecht suplantou o prédio de Niemeyer? Que fim levaram
as aspirações nacionais? Qual seria o lugar dos Odebrecht e similares num país
justo? São indagações que perpassam o pensamento numa tarde no Itamaraty.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/. Título original: ' A Casa Odebrecht nunca prezou a nação e a democracia'.
Já se se fez uma analogia entre certas músicas de Belchior e o ser de Heidegger, dizendo-se, que, em geral, a maioria das músicas são entes, mas que as canções de Belchior são seres: não só quebram a cadeia da servidão como também embatem com o intelecto das pessoas que captam o significado das suas melodias. É de se pensar. Assim digo tendo em conta o breve texto que aí abaixo vai, relativo à pintura nordestina e à 'invenção da região' nas artes plásticas. Lembro, a propósito, do artista cearense em 'Conheço o meu lugar': "O que é que pode fazer o homem comum/Neste presente instante senão sangrar?/Tentar inaugurar/A vida comovida/Inteiramente livre e triunfante? (...)/Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!".
Segue aí a música, depois o texto, nos passos da incursão de Durval Muniz na sua obra 'A Invenção do Nordeste e Outras Artes' (conforme o texto aparece, em outro mais amplo, na Base Maxwell-PUC/RJ: http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/).
Nas
artes plásticas, o regionalismo tradicionalista nordestino foi expresso
principalmente através da materialização em formas visuais das imagens
produzidas na literatura - tanto pelas obras de ficção, como pela
sociologia/antropologia freyriana. A pintura nordestina feita na época congelou
imagens locais, instituindo-as como representações típicas da região com tal
força que, como pôde ser visto posteriormente, elas tiveram (e ainda têm)
influências nas produções cinematográficas
e televisivas realizadas no país a partir da segunda metade doséculo De uma forma geral, os quadros
carregam imagens sintéticas, simbólicas e arquetípicas, que remetem
constantemente a uma suposta essência regional. As paisagens do Nordeste são
temas recorrentes nas telas, nas quais são enfatizadas as presenças do sol, da
luz, da tropicalidade peculiar. E é através delas que Gilberto Freyre tenta
estabelecer certos critérios para a produção da pintura regionalista e
tradicionalista “de paisagens de tons ocres
ou de exuberância tropical que não se coadunaria nem com os cinzentos
acadêmicos, nem com as cores carnavalescamente brilhantes do “impressionismo”.
Para ele (Gilberto Freyre), até então a pintura tinha passado ao largo dessa
paisagem regional, com seus contrastes de verticalidades – as palmeiras, os
coqueiros, os mamoeiros – e de volúpias rasteiras – o cajueiro do mangue, a
jitirana. Uma paisagem animada de muitos verdes, vermelhos, roxos e amarelos.
Uma “paisagem que parece ter alguma coisa de histórico, de eclesiástico e
cívico”. Uma pintura que devia se voltar, principalmente, para as cenas de
engenhos, de negros trabalhando no meio daquela fábrica de aquedutos de pau ou
trazendo carros de boi cheios de cana madura. Figuras de senhores de engenho,
danças de negros, flagrantes de chamegos em que se prolongavam os gestos de se
semear e plantar cana” (Albuquerque Jr, 2009, p. 122).
Os
pressupostos da pintura regionalista, para Freyre, eram evocações nítidas da
civilização açucareira, a qual oferecia um rico material imagético capaz de
romper com a submissão colonial de reverenciar mitos gregos e romanos. Freyre
desejava uma pintura cúmplice do seu esforço de salvar formas e figuras humanas
e sociais que desapareciam em meio as
transformações pelas quais passavam o país. Entre os nomes que se destacaram
como representantes legítimos deste ideal de pintura estão, entre outros, os
dos pintores Cícero Dias e Lula CardosoAyres.
O
primeiro retratou a sociedade açucareira de forma poética, lírica, através de
uma visão idílica das relações sociais, ignorando os conflitos entre os grupos
que a compunham. Pela harmonia das linhas, formas e cores, sua pintura propôs
uma suposta semelhança em relação ao próprio espaço social que retratou uma pintura feita por meio da colagem
expressionista de cenas regionais, fragmentos imagéticos do cotidiano da vida rural, aliadas a
imagens históricas que são como que coladas, justapostas, formando “paisagens”
onde o espaço surge como produto de um encontro não conflitivo entre
temporalidades... Uma imagética escravista e patriarcal, na qual o mundo é
desigual, mas sem conflito, em que há
trabalho escravo belo plasticamente, a exploração sexual do negro se torna
idílio de fim de tarde. Umapintura
que cria a imagem de um espaço multirracial, multicolorido, e os contrastes se
harmonizam em cores líricas e sensuais... Uma paisagem fruto de sonhos, de sublimações, de seqüestros da
história, do passar
do tempo, das transformações sociais (Albuquerque Jr.,
2009).
O
segundo destacou, em seus trabalhos, a relação entre o homem e a natureza,
enfatizando os estragos que, segundo o próprio pintor, a civilização causava
nesta interação. Para Lula Cardoso Ayres, o homem que tinha dominado os
trópicos pelo amor e pela simbiose com a região, passou a se distanciar desses
espaços por causa do predomínio da
técnica e das relações artificiais estabelecidas pelo mundo moderno. Neste primeiro momento regionalista,
seus quadros tinham características expressionistas, retratavam paisagens e
tipos (homens, mulheres e crianças) na intimidade de seus cotidianos de
trabalho e das festas. Suas pinturas também abordaram o folclore da região, do
qual se apropriou de temas e do realismo mágico das manifestações populares. Em
seus quadros, é freqüente a humanização de animais e da natureza, sendo ainda
constante a presença dos “mal-assombrados”, que habitualmente aparecem nos
desenhos ao lado dos objetos retratados da casa-grande, como que estivessem
denunciando a morte da velha sociedadepatriarcal.
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ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 4ª ed. Recife: Fundação Joaquim Nambuco/Editora Massangana; São Paulo: Cortez, 2009.
Happy Noam Chamosky Day -
Capitain Fatastic,éum filme que se apresenta como um bom ponto de partida para uma
reflexão sobre a sociabilidade humana nestes tempos que estamos a viver e as
"intermitências", digamos assim, das alternativas que buscam outras
dimensões para o devir humano. Já foi dito que, "se as pessoas soubessem o que
realmente desejam, talvez desejassem menos". E seriam mais felizes. Mas a questão, parece, é que, muitas vezes, as pessoas, de per si, não sabem bem o que desejam. Há boas
razões para que se assistaHappy
Noam Chamosky Day (EUA, 2016. Direção: Matt Ross. Com: Viggo Mortensen, George McKay, Nicholas Hamilton, Annalise Basso, Samantha Isler, Shree Cooks, Charlie Shotwell).Segue aí
abaixo uma recensão do filme, acompanhada de dois realces das suas cenas.
Por Cynara Menezes
A certa altura do filme Capitão
Fantástico, em cartaz nos cinemas, o pré-adolescente Rellian
pergunta irritado ao pai, Ben (Viggo Mortensen):
– Que tipo de gente
maluca celebra o aniversário de Noam Chomsky como se isso fosse um tipo de data
oficial? Por que não celebramos o Natal como todo o resto do mundo?
Ben responde:
– Você preferia
celebrar um elfo mágico fictício em vez de um humanitário vivo que fez tanto
para promover os direitos humanos e o entendimento?
O menino se cala. Rellian
é o “rebelde” da família, só que ao contrário: Ben e a mulher, Leslie, criam os
seis filhos de maneira alternativa, no meio de uma floresta. As roupas são costuradas
por eles, que também aprendem desde cedo a caçar, plantar e encontrar o próprio
alimento, fugindo, portanto, da chamada “sociedade de consumo”. Rellian está de
saco cheio de viver assim e a internação da mãe só faz aprofundar o conflito
entre o garoto e o pai.
O que a maioria das
crianças e dos adolescentes quer é justamente o oposto, ser “iguais a todo
mundo”, base fundamental para a sociedade de consumo funcionar. Sem o desejo de
ser igual, não existiriam grifes, por exemplo, capazes de seduzir jovens a
pagar fortunas por uma blusa ou uma bolsa “da moda” que todo mundo tem. Mas os
Cash decidiram que não queriam desse jeito para os filhos. Queriam que
sentissem orgulho de ser “diferentes”, por isso cada um tem um nome único,
inventado pelos pais. O caçula, Nai, inclusive, é uma criança sem gênero.
O conflito do filme é que,
ao mesmo tempo que de fato aquelas crianças sentem orgulho de si mesmas, o
contato com a “civilização” demonstra que também possuem inseguranças.
Sentem-se ao mesmo tempo superiores e inferiores àquela sociedade que seu pai e
sua mãe esnobaram. Contrastam maturidade e inocência: seu pai lhes acostumou a
falar sobre tudo, sem reservas, mas se esqueceu de alertá-los para coisas
prosaicas como paquerar uma garota.
Capitão Fantástico é uma
fábula sobre como é duro desafiar o sistema reinante, mesmo que você abra mão
dele por completo. Todos estamos programados a viver sob as regras do sistema
e, se você foge delas, arrisca-se a sofrer e a ser punido, a ser visto como freak, uma
aberração. A revolta de Rellian contra o Noam Chomsky Day ilustra isso –e se
inspira numa celebração feita pelo diretor Matt Ross com os próprios filhos.
Viver de forma anticapitalista num mundo capitalista é tão complicado quanto,
para um ateu, se esquivar do Natal todos os anos.
Mas à ternura e à angústia
despertadas pelo filme é adicionado ainda outro sentimento: frustração. A
sensação de que hoje em dia criamos nossos filhos de uma maneira banal,
automática. Submetidas a uma disciplina rígida de exercícios físicos e
leituras, as crianças de Ben são incrivelmente agradáveis, encantadoras e
interessantes, principalmente em contraste com os primos criados na cidade à
base de muita televisão e videogames. Difícil não sentir uma invejinha dos
resultados que ele conseguiu com seus meninos…
A “sociedade de Noam Chomsky” emulada pela família Cash a partir
das concepções do linguista, filósofo e ativista norte-americano está longe de
ser perfeita, mas está impregnada de um humanismo que causa nostalgia. Será que
um dia não fomos assim, capazes de sentar à mesa de jantar com nossos filhos e
falar de literatura e ciência, em vez de permitir que passem a maioria de suas
horas de folga absortos em si mesmos, mexendo num tablet? É constrangedor e
incômodo se dar conta de como a vidinha confortável e previsível do mundo
capitalista é, no fundo, uma vidinha de merda.
Temos todos os tipos de
aparelhos eletrônicos que previa a ficção científica dos anos 1960 e nunca
fomos tão pobres de espírito. As crianças do século 21 sabem mexer em qualquer
bugiganga eletrônica, mas não teriam a menor ideia de como sobreviver no meio
da mata se algum dia se perdessem em uma. Para sorte (ou azar) delas,
dificilmente alguma criança toparia atualmente passar uma semana na natureza
sem wi-fi.
A sociedade de consumo e a
tecnologia trouxeram um efeito colateral bizarro, de nos tornar seres humanos
vazios. Quantas horas de leitura o Facebook roubou de você hoje? Capitão Fantástico impacta
por escancarar isso, por chacoalhar as certezas de todos, mesmo a dos que
afirmam estar fazendo a sua parte, lutando por um mundo mais justo, com as
nádegas confortavelmente instaladas sobre uma cadeira acolchoada e diante da
tela de um computador.
É um paradoxo, porque em
tese as facilidades das novas tecnologias deveriam servir para a gente se
independizar da vida urbana e do caos das grandes cidades. Deveriam servir para
a gente ter mais tempo para curtir a família, os amigos. E é todo o contrário o
que está acontecendo: os gadgets estão roubando o tempo ocioso que temos porque
nos viciamos neles. Como a heroína fez com a morfina, criamos uma dependência
dos instrumentos que supostamente nos salvariam. E ela é transmissível às novas
gerações.
Capitão Fantástico é uma
fábula sobre como é duro desafiar o sistema reinante, mesmo que você abra mão
dele por completo. Todos estamos programados a viver sob as regras do sistema
e, se você foge delas, arrisca-se a sofrer e a ser punido, a ser visto como freak, uma aberração.
A revolta de Rellian contra o Noam Chomsky Day ilustra isso –e se inspira numa
celebração feita pelo diretor Matt Ross com os próprios filhos. Viver de forma
anticapitalista num mundo capitalista é tão complicado quanto, para um ateu, se
esquivar do Natal todos os anos.
Mas à ternura e à angústia
despertadas pelo filme é adicionado ainda outro sentimento: frustração. A
sensação de que hoje em dia criamos nossos filhos de uma maneira banal,
automática. Submetidas a uma disciplina rígida de exercícios físicos e
leituras, as crianças de Ben são incrivelmente agradáveis, encantadoras e
interessantes, principalmente em contraste com os primos criados na cidade à
base de muita televisão e videogames. Difícil não sentir uma invejinha dos
resultados que ele conseguiu com seus meninos…
A “sociedade de Noam Chomsky” emulada pela família Cash a partir
das concepções do linguista, filósofo e ativista norte-americano está longe de
ser perfeita, mas está impregnada de um humanismo que causa nostalgia. Será que
um dia não fomos assim, capazes de sentar à mesa de jantar com nossos filhos e
falar de literatura e ciência, em vez de permitir que passem a maioria de suas
horas de folga absortos em si mesmos, mexendo num tablet? É constrangedor e
incômodo se dar conta de como a vidinha confortável e previsível do mundo
capitalista é, no fundo, uma vidinha de merda.
Temos todos os tipos de
aparelhos eletrônicos que previa a ficção científica dos anos 1960 e nunca
fomos tão pobres de espírito. As crianças do século 21 sabem mexer em qualquer
bugiganga eletrônica, mas não teriam a menor ideia de como sobreviver no meio
da mata se algum dia se perdessem em uma. Para sorte (ou azar) delas,
dificilmente alguma criança toparia atualmente passar uma semana na natureza
sem wi-fi.
A sociedade de consumo e a
tecnologia trouxeram um efeito colateral bizarro, de nos tornar seres humanos
vazios. Quantas horas de leitura o Facebook roubou de você hoje? Capitão Fantástico impacta
por escancarar isso, por chacoalhar as certezas de todos, mesmo a dos que
afirmam estar fazendo a sua parte, lutando por um mundo mais justo, com as
nádegas confortavelmente instaladas sobre uma cadeira acolchoada e diante da
tela de um computador.
É um paradoxo, porque em
tese as facilidades das novas tecnologias deveriam servir para a gente se
independizar da vida urbana e do caos das grandes cidades. Deveriam servir para
a gente ter mais tempo para curtir a família, os amigos. E é todo o contrário o
que está acontecendo: os gadgets estão roubando o tempo ocioso que temos porque
nos viciamos neles. Como a heroína fez com a morfina, criamos uma dependência
dos instrumentos que supostamente nos salvariam. E ela é transmissível às novas
gerações.
Por outro lado, senti também que talvez exista um
lugar no meio do caminho entre abdicar de tudo ou se embriagar na sociedade de
consumo, chafurdar nela. Difícil é se dedicar a encontrar este caminho do meio,
na correria em que vivemos. Há que se ter uma disciplina férrea, é isso que Ben
ensina. Eu fiquei a fim de começar imitando o Noam Chosky Day.
Um subproduto da infindável
crise nacional é o mau humor. Ele ficou unânime. O Brasil outrora engraçado é
agora movido a azedume. A faísca espirituosa, que iluminava falácias e liberava
o riso, deu lugar ao rancor. A ironia política entrou em pane.
O conceito de ironia foi desenvolvido por Sócrates, que
dizia o contrário daquilo que achava verdadeiro. Quando lhe perguntaram quem
era o homem mais sábio da Grécia, respondeu: "Só sei que nada sei".
Irônico, o sabe-tudo se disse um ignorante total.
E Temer? Quandonomeou Angorá ministro,
indicou um plagiadorpara o Supremo,
se esfalfou para que Índio [senador Eunício Oliveira] presidisse o Senado, mas
continuou a jurar que preza a Lava Jato, ele foi irônico, socrático?
Se o presidente pretendeu proteger a sua grei, para que
ela prospere em paz, mas afirmou o contrário, não foi irônico nem sábio. Foi,
isso sim, cínico.
A ironia causa problemas. Sócrates a usava para fazer
perguntas e chegar à verdade. Com as suas indagações, o filósofo sabotava as
certezas do interlocutor, que ficava espiritualmente livre para aceitar o
inesperado, o verdadeiro.
Num mundo racional, os atenienses deveriam agradecer as
ironias do pensador, que os conduzia à verdade. No mundo real, eles ficavam uma
arara porque Sócrates os ridicularizava.
Para piorar, o filósofo tinha os olhos arregalados de um
boi. Vestia togas desalinhadas. Chegava atrasado às festas nas quais era o
convidado principal. Aristófanes espalhou que Sócrates era um chato.
Kierkegaard observou que, transformada em método, a
ironia alcança tudo e todos. Sem limites, ela faz com que a própria realidade
oscile. A existência se torna estranha ao sujeito irônico, e este se torna
estranho à existência. Realidade e linguagem entram em descompasso.
Por exemplo: muitos atenienses passaram a achar que, com
o seu só-sei-que-nada-sei, Sócrates simulava humildade; dava uma de sábio, mas
sofismava. Sem se dar conta da realidade (a irritação crescente), o pensador
insistiu na sua retórica (irônica).
No Brasil, há descompasso semelhante entre linguagem e
realidade. Desde a Constituição de 1988, o sistema de representação política
foi paulatinamente comprado pelo alto empresariado. Congresso e Planalto
viraram agências.
Mas a linguagem da política continuou a mesma.
Parlamentares, ministros e governadores faziam o que a classe dominante
determinava, mas ao som de discursos contra a corrupção.
Achando que a direção do PT estava no bolso, a Odebrecht
e assemelhados não cuidaram de mudar a linguagem maior, a da Constituição. Até
porque não tinham como controlar uma Constituinte inteira. Foi nessa brecha que
a Lava Jato germinou.
Essa conjuntura mudou nos últimos dias. Situação e
oposição pararam de dizer que a corrupção é um mal. Querem se safar e seguir em
frente. Se não houver protestos, o Brasil oficial triunfará.
O núcleo da linguagem será a eleição de 2018, apresentada
como miragem para mudanças reais: agora vai! Só a ironia não terá lugar na nova
retórica. Segundo Kierkegaard, a única continuidade possível para a ironia é o
tédio:
"O tédio, essa eternidade sem conteúdo, esta
felicidade sem gozo, esta profundidade superficial, esta saciedade
faminta".
-----------------------
Fonte: Folha de São Paulo, versão para assinantes, edição do dia 14/02/2017. Título original: 'O Brasil outrora engraçado é agora movido a azedume'.
Duas coisas enchem a alma de admiração e de respeito sempre renovados e
que aumentam à medida que o pensamento mais vezes se concentra nelas:acima de nós, o céu estrelado; no
nosso íntimo, a lei moral. Não é necessário
buscá-las e adivinhá-las como se estivessem ofuscadas por nuvens ou situadas em
região inacessível, para além do meu horizonte; vejo-as ante mim e relaciono-as
imediatamente com a consciência da minha existência. A primeira, a partir do lugar
que ocupo no mundo exterior, estende a relação do meu ser com as coisas
sensíveis a todo esse imenso espaço onde os mundos se sucedem aos mundos e os
sistemas aos sistemas e a toda a duração ilimitada dos seus movimentos
periódicos. A segunda parte do meu invisível eu, da minha personalidade e do
meu posto num mundo que possui a verdadeira infinitude, mas no qual o
entendimento mal pode penetrar e ao qual reconheço estar vinculado por uma
relação não apenas contingente, mas universal e necessária (relação que também
alargo a todos esses mundos visíveis).
Numa, a visão de uma infinidade de mundos quase aniquila a minha
importância, na medida em que me considero umacriatura animal que, depois de ter (não se sabe como) gozado
a vida durante um breve lapso de tempo, deve devolver a matéria de que é
formada ao planeta em que vive e que não é mais do que um ponto no universo.
Pelo contrário, a outra ergue infinitamente o meu valor como inteligência, mediante a minha personalidade, na
qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e até de todo o
mundo sensível, pelo menos na medida em que podemos julgá-lo pelo destino que
esta lei consigna à minha existência, e que, em vez de ser limitada às
condições e aos limites desta vida, se alarga até ao infinito."
Já lá vão alguns anos da publicação de 'A Invenção do Nordeste e Outras Artes', obra primorosa de Durval Muniz de Albuquerque Jr. O livro está esgotado, e está a merecer, com urgência, uma nova edição. Trabalho inovador em relação à interpretação da formação do Nordeste, não é, contudo, um texto que descura do aporte epistemológico (algo tão em voga nos dias atuais) para "cair nas graças". Resultado da sua tese de doutoramento em História, combina uma escrita segura, consistente, oferecendo, ao mesmo tempo, uma leitura fluida. Talvez fenômenos como o Movimento Maguebeat (posterior ao estudo de Durval), surgido em Recife, anteponha questões à 'Invenção do Nordeste'. Mas, da minha parte, é convicção que, além de o tempo reservar um lugar na galeria dos clássicos para a 'Invenção', teses suas são centrais para a compreensão da formação da ideia de Nordeste, onde as diversas artes têm um lugar de destaque. Aí inclua-se o romance, objeto desta postagem. Por outro lado, penso que, para os dias atuais no país, as páginas da 'Invenção" evidenciam algo como que uma espécie de "metodologia" acionada na formação identitária de uma população, agregando-a/unificando-a, e que, à escala nacional, foi responsável pela formação da ideia de povo brasileiro, que agora está em risco (ou talvez até mesmo já se dissolvendo - há quem comece a ver as coisas assim), por causa dos extremismos e da intolerância (e se calhar também em decorrência da acentuação da "racialização"). Enfim, a contribuição de 'A Invenção do Nordeste e Outras Artes' é inestimável. Segue aí abaixo um texto dando conta das suas teses em relação ao papel do romance na formação do Nordeste, e que aparece em um texto mais amplo na Base Maxwell-PUC/RJ: http://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/. A postagem é finalizada com a 'Incelença para uma terra que o sol matou', do mestre Elomar Figueira.
Pode-se afirmar
que, para o “romance de trinta” [1930], a decadência da sociedade patriarcal -
e sua conseqüente substituição pela sociedade urbano-industrial – foi o seu tema principal, tendo em vista que seus
autores eram, na maioria, descendentes das famílias tradicionais nordestinas
que passavam por um processo de certa marginalização. Este processo os levou a
tentativas de aproximação com o povo, utilizando temas e formas de expressão de
origem popular como forma de difundir as condições sociais pelas quais estavam
vivendo na época. De uma forma geral, os autores passaram a se identificar com
o sofrimento do povo e muitos deles assumiram a pretensão de ser seus porta-vozes,
numa postura comumente populista, que variava entre a denúncia das condições de
vida das classes populares e o louvor da tradicional dominaçãopaternalista.
Apesar de ser um
tanto controverso defender a idéia de um estilo comum para os romancistas de
trinta, esta aproximação com as fontes populares estabeleceu uma comunhão de
características de certa forma “regional” entre eles. Este suposto “estilo
regional” buscou uma escrita próxima da fala do cotidiano, que, além de ter
sido uma forma de aproximação com o universo popular, serviu também como
estratégia para se afastar da linguagem - considerada por esses autores -
artificial, que vinha sendo desenvolvida pelos modernistas (do Sudeste). Para
eles, essa busca era um esforço na tentativa de fazer a linguagem voltar a ser
expressão do real, de descrever um mundo que fosse a imagem direta da
realidade, onde tudo parecesse claro e que transmitisse um sentido de imediato.
Uma tentativa de restabelecer um realismo - em detrimento das experimentações
modernistas -, no qual se visava suprimir a distância entre coisa e
significado, resgatando velhos sentidos que eram vistos como “naturais” e
“essenciais”.
Esse resgate de
antigos sentidos, dos velhos costumes da região, a postura de resistência
frente às inovações – tanto na escrita como nas coisas da vida cotidiana -,
revelam o caráter saudosista dessa produção romanesca. Sobre este assunto,
Albuquerque Jr. (2009, p. 114) coloca:
"Embora produto do olhar moderno,
estes romances são nostálgicos em relação a uma visão naturalista e realista do
real, em que tudo parecia claro, fixo, estável, e todas as hierarquias e
ordenações no seu lugar. O que mais temem na modernidade é o dilaceramento, o
conflito em torno do próprio espaço tido, até então, como referente natural e eterno. Não é por outro
motivo que este romance tem como um dos
seus temas constantes a luta pela terra, pelo poder sobre o espaço. As usinas e seuimpulso expansionista, sua fome de terras, invadindo os bangüês,
maculando os espaços sagrados dos antepassados, são o símbolo maior desse
processo em que a terradeixadeserrepositóriofixodetradiçõeserelaçõessecularesdepoderparase
tornar uma “vil mercadoria.”
Entre os
assuntos abordados pela produção romancesca de trinta, destacam-se alguns
“temas regionais”, tais como: a decadência da sociedade açucareira; os
conflitos entre o beatismo e o cangaço; o coronelismo e seu universo
(autoridade, disputa por terras, jagunços, etc.); e a seca e sua iminente
epopéia da retirada. Temas que já eram presentes na literatura popular, no
discurso político das oligarquias, nas cantorias e desafios dos cantadores, mas
que foram trabalhados pelos romancistas de uma forma que se tornaram espectros
de uma essência regional.
A seca foi um
tema importantíssimo, tendo em vista que foi o próprio fenômeno natural que deu
origem à concepção de uma região destacada das demais outras do país. A partir
dos romances, a imagem do Nordeste passou a ser pensada tomando a seca como
principal paisagem. A retirada do nordestino, uma conseqüência dela, era um
acontecimento que oferecia aos escritores uma verdadeira estrutura narrativa:
saída de um local infernal até a chegada ao paraíso, que se materializava no
litoral e, principalmente, nas terras mais ao sul. Para Albuquerque Jr. (2009,
p. 114):
"O romance de trinta institui uma
série de imagens em torno da seca que se tornaram clássicas e produziram uma
visibilidade da região à qual a produção subseqüente não consegue fugir.
Nordeste do fogo, da brasa, da cinza e do cinza, da galharia negra e morta, do
céu transparente, da vegetação agressiva, espinhosa, onde só omandacaru,
o juazeiro e o papagaio são verdes. Nordeste das cobras, da luz quecega, da
poeira, da terra gretada, das ossadas de boi espalhadas pelo chão, dos
urubus, da loucura, da prostituição, dos retirantes puxando jumentos, das
mulheres com trouxas na cabeça
trazendo pela mão meninos magros e barrigudos, nordeste da despedida dolorosa da terra, de seus animais de estimação, da
antropofagia.Nordeste
da miséria, da fome, da sede, da
fuga para a detestada zona da cana ou para o Sul."
Outro tema importante,
principalmente no que se refere à criação de um “espaço da saudade”, foi o da
decadência da sociedade patriarcal açucareira. A derrocada desta sociedade
significou, para alguns autores, a perda do
“paraíso infantil”. O Nordeste
que foi traduzido por eles era aquele anterior às usinas, espaço onde todos
trabalhavam e ninguém passava fome, onde negros e senhores conviviam
“harmonicamente”, local que tinha feito a grandeza do Brasil através do açúcar.
Tal visão da região destacou de forma positiva uma sociedade altamente
hierarquizada, na qual as diferenças
sociais eram encobertas pelos mecanismos paternalistas, de relações pessoais,
mais determinadas pelo sentimento do que pela racionalidade. Os romances
produzidos sob esta perspectiva tenderam a potencializar uma leitura amena da escravidão, escondendo seus aspectos
hediondos. Eles também destacaram a arbitrariedade do emergente mundo burguês e
sua exploração do assalariamento, aspectos considerados negativos e que
reforçavam a defesa da velha estrutura patriarcal eescravista.
Os temas
estabelecidos pelo “romance de trinta” consolidaram características regionais
para o Nordeste com uma força muito grande de impregnação imagética. O sentido
de uma identidade nordestina fechada atribuída a este grupo de escritores veio
fortalecer a própria estratégia política dos discursos sobre a região, de
pensá-la (e sua produção cultural) como uma idéia coesa e possuidora de uma
essência generalizável. No entanto, é importante ressaltar que, embora tenham
muitas afinidades entre si, os autores possuem diferenças na forma de
interpretar a região, sendo, portanto, necessário destacar diferenças no
interior do próprio discurso tradicionalista para que ele não seja pensado como
um discurso de simplicidade homogênea. Dentre os romancistas classificados
neste grupo de escritores e que tomam o Nordeste como “região da saudade”, três
nomes se destacam: José Lins do Rego, José Américo de Almeida e Rachel de
Queiroz.
Se o “romance de
[19]30” foi talvez a mais importante representação artística de um Nordeste
como local da saudade, José Lins do Rego foi o escritor que encarnou mais
fortemente esta interpretação. Nascido na propriedade de seu pai (Engenho
Corredor), localizada no município de Pilar na Paraíba, ele passa a infância
envolto pelo universo da sociedade
açucareira, ambiente que o inspirou na criação
dos personagens dos seus
romances que constituíram
o chamado “Ciclo
dacana-de-açúcar”.
Diferentemente
do trabalho de Gilberto Freyre, de quem se tornou grande amigo e admirador a
partir de 1923 quando terminou a Faculdade de Direito do Recife, as ficções de
José Lins não são criadas a partir de uma pesquisa sociológica. São obras
construídas baseadas nos relatos que ouvia nos engenhos de sua meninice,
permeadas de recordações de seus primeiros anos de vida. Narrativas inspiradas
pelas suas memórias de infância, nas quais a vida idílica do engenho se
entrecruzava com as apreensões psicológicas que se deram desde a adolescência.
Histórias que evidenciam seu sofrimento diante do desmantelamento da sociedade
açucareira, seu território existencial que ruía com as transformações do país.
De uma forma
geral, os livros do “Ciclo da cana-de-açúcar” descrevem um processo de
destruição paralelo a um esforço de reconstrução deste território existencial.
Na sua escrita, José Lins denota uma vontade de reconstruir o passado que
viveu, para assim escapar do presente que vivia. Uma vontade de dar
continuidade ao ambiente da gente no meio da qual foi criado, de seus
antepassados. Como tem consciência da impossibilidade de tal desejo, o autor
fez de sua prosa um veículo de vingança contra os que contribuíram para a
dissolução das relações sociais tradicionais. Daí a presença de elementos da
velha sociedade patriarcal (o engenho, o senhor) sempre vivos, opondo-se a uma
nova realidade que emerge. Nova realidade que também é vingada aparecendo como
responsável por infortúnios da vida como doenças, melancolia, loucuras,etc.
Este confronto
entre velha ordem patriarcal (no seu caso,
a açucareira) versus a moderna
civilização burguesa marcou significantemente a obra do escritor. Seus
personagens foram criados quase como lamentos da disseminação da segunda em
detrimento da primeira. Em sua maioria, são homens incapazes (e incapacitados)
de transpor as fronteiras de seu (velho) mundo, com dificuldades de
comunicação, perante um (novo) sistema que parece estruturado para fazê-los
sofrer. Homens para os quais a realidade presente parece não existir, que vivem
no mundo das recordações, enquanto
assistem o seu mundo de fato diminuir, tornando-se sufocante. O embate é ainda
evidenciado quando o autor deixa transparecer também nos seus personagens uma
interpretação naturalista (congeneridade entre homem e meio) da vida,destacandonelesapresençadeumacerta“naturezahumana”,comemoções primitivas,
naturais, e mesmo traços de irracionalidade que a civilização não conseguia
eliminar. Para José Lins, a superficialidade da civilização é que era incapaz
de traduzir a verdade do homem, sendo as máscaras burguesas o verdadeiro
empecilho para se descobrir a essência do indivíduo na sua relação com o
meio. Sobre este confronto, Albuquerque
Jr. (2009, p. 134-135). aindacoloca:
"Na obra de José Lins, a cidade
surge como o lugar do dezenraizamento; lugar a partir do qual projeta o espaço
nostálgico do engenho; lugar em que a miséria era maior eas injustiças mais gritantes que no
engenho; em que os códigos morais
tradicionais ruíam. Lugar traiçoeiro onde a lei e a disciplina vigiavam e
puniam aqueles homens acostumados com os
códigos lábeis e informais da sociedade patriarcal. Faltava ao pobre, na
cidade, alguém que velasse por ele, que o orientasse, que o controlasse de
forma paternal. A cidade era o lugar do conflito, do acirramento das contradiçõesentre patrões e empregados, protótipo das relações capitalistas que se
implantavam. Lugar onde se formavam as novas gerações de senhores, cujos
valores não mais se coadunavam com aqueles que fizeram a glória das
casas-grandes. José Lins atribui a este
despreparo das novas
gerações uma boa
parcela da responsabilidadepela decadência da sociedade
açucareira."
Igualmente
paraibano – nascido no município de Areia - e também filho de senhor de engenho
(de uma família de forte influência política), José Américo de Almeida foi
outro importante escritor a imprimir uma visão nostálgica para o Nordeste. No
entanto, apesar de ser um homem oriundo dos canaviais da zona da mata, elegeu o
sertão como espaço-modelo da região.
Através d’A Bagaceira, romance que o projeta para
todo o país, José Américo aborda o tema da retirada dos sertanejos para o brejo
(zona da mata), onde iam para trabalhar na colheita da cana, expondo os
conflitos que ocorriam entre eles e os brejeiros em decorrência de suas
diferenças. No livro, o autor expôs sua verve naturalista pela ênfase que dá ao
meio natural na construção de seus personagens. Partindo da falsa idéia da
ausência de escravidão no sertão, ele mostra o sertanejo como uma classe racial
superior, pois, além de “não ter sangue negro”, é o único tipo regional capaz
de vencer o problema das secas (problema natural que impedia a afirmação da
sociedade nordestina).
A Bagaceira é praticamente a obra que inaugura a tradição literária do romance
social nordestino, a qual estabelece a denúncia da miséria como regional e
espacial (muitas vezes escondendo as responsabilidades dos homens de poder). No
entanto, é uma obra um tanto ambígua em
relação ao Nordeste que deseja estabelecer. Nela – e também em outros romances
-, José Américo tenta conciliar padrões sociais tradicionais da região com a
modernização técnica da sociedade burguesa. Cria uma região não apenas como
espaço da memória, mas também tocada pela história, desde que fosse mantida a
estrutura social como sempre existiu. Sobre isto, Albuquerque Jr (2009, p.139)
comenta que:
"Para ele, a racionalidade burguesa
devia ser adotada como forma de sobrevivência e manutenção das relações sociais
e de poder. Conciliar o tradicional com o moderno era o único caminho para
evitar uma ruptura mais radical com o passado. O Nordeste devia se modernizar
sem perder o seu caráter, leia-se, sem ter modificadas as suas relações de
dominação. Uma modernização vinda de cima, feita por uma vanguarda bovarista
capaz de conciliar as vantagens da técnica, com os laços paternalistas que evitassem a emergência do conflito
social mais explicitado."
Rachel de Queiroz
é outra importante escritora que imprimiu em suas narrativas uma perspectiva
nostálgica para o Nordeste. Apesar de ter nascida em Fortaleza, Ceará, é
oriunda de famílias tradicionais sertanejas (dos municípios de Quixadá e
Beberibe). Foi, juntamente com Jorge Amado, dos primeiros romancistas a expor a
questão social e a revolução como assuntos literários. Mas, diferente do
escritor de Capitães de areia, ela
associa esses temas a uma representação tradicionalista da sociedade,
evocando-os em nome de um passado que se diluía.
A autora
publicou, aos 20 anos, a sua obra de maior repercussão nacional, o romance O Quinze. Nele relata o drama de seus
personagens, e dos sertanejos em geral, decorrente da seca de 1915. O fenômeno
natural é visto na obra como uma fatalidade que desordena o cotidiano da
sociedade sertaneja, causando a
desintegração das relações tradicionais de produção e de poder, e também
desencadeando a dissolução dos códigos sociais e morais. Sendo assim, na perspectiva de Queiroz, a seca funcionava
como uma espécie de causa substituta para justificar todo o processo de
decadência que já vinha se desenrolando nas velhas sociedades tradicionais
nordestinas, independente dofenômeno.
Sua escrita
revela um traço naturalista, pois parece procurar o homem “natural”, selvagem,
isento de controles e restrições sociais. Como escritora e militante política de esquerda, Rachel de Queiroz
desejava uma mudança social que conduzisse o homem na sua “verdade”, livrando-o
da ação nociva da civilização. Pode-se considerar que a sua utopia se inspirava
na idéia de um ordenamento da natureza e que, por isso, a ordem social deveria
estar mais de acordo com a “natureza humana”. Diante dessa característica, sua
leitura da revolução se colocava mais próxima de uma reação romântica às
artificialidades da sociedade moderna do que de uma transformação completa do
seu mundo que, no fundo, lamentava estar se exaurindo. Para Albuquerque Jr.
(2009, p142):
"Raquel trabalha com uma imagem idealizada do homem do sertão
nordestino, o mito do sertanejo, ao mesmo tempo em que fala de ação e valentia, fala de reação ao urbano, às modificações tecnológicas, fazendo da
denúncia das transformações sociais, trazidas pelo capitalismo e sua ética
mercantil, o ponto de partida para a utopia de uma sociedade nova que, no
entanto, resgatasse a pureza, os vínculos comunitários e paternalistas da
sociedade tradicional. O seu socialismo
se aproxima mais de uma visão paternalista de fundo cristão e exprime a revolta
de uma filha de famílias tradicionais da região, que vê a vida dos seus
degradada pelo avanço das relações mercantis e pelo predomínio das cidades.
Seus personagenssão subversivos à
medida que contestam a ordem capitalista, mas a sua visão de sociedade futura
mistura-se com uma enorme saudade de um sertão onde existia “liberdade”,
“pureza”, “sinceridade”, “autenticidade”. Seus personagens se debatem mais
contra o social do que pela mudança social. São seres sempre em busca desta
verdade irredutível do
homem contra as
“mentiras” e o “artifício” do mundo
moderno."
Diante de seus
posicionamentos e incursão política - e mesmo suas críticas a certos
funcionamentos opressores da sociedade patriarcal – e também da sua idealização
da sociedade sertaneja naturalmente generosa, Raquel de Queiroz se coloca numa
posição ambígua. Apesar de contribuir na sedimentação do Nordeste como
tradição, como espaço da saudade, através da valorização da natureza, do sertão
e do sertanejo, a escritora revelou também a região como local de uma possível
revolução social, como um território antiburguês e plausível potência de uma
transformação social no país mediante as injustiças e misérias que nele ocorre.
Referência
ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes.
4ª ed. Recife: Fundação Joaquim Nambuco/Editora Massangana; São Paulo: Cortez,
2009.
Em 1936, na
abertura da coleçãoDocumentos Brasileiros,Sérgio Buarque de Holandaintitulava
o capítulo V deRaízes
do Brasil de ‘O Homem Cordial’. Encontrara a expressão no escritor e amigo Ribeiro Couto. Ao
longo do capítulo, explicava que a expressão nos caracterizava [os brasileiros]
como “um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente do ninho
familiar”, pois “as relações que se
criam na vida doméstica, sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer
composição social entre nós”.
As passagens citadas são
imprescindíveis porque: 1) muitos dos
comentadores do autor não hesitaram em considerá-lo prova que o depois
celebrado historiador estaria enfatizando um dado altamente positivo de nossa
formação; 2) na verdade, a cordialidade
tinha o papel de ressaltar a rígida separação, em nossa sociedade, entre o
público e o privado. O autor não deixava dúvidas sobre sua consequência
negativa: “Armado desta máscara (a
cordialidade) o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social”. Fundada nas relações familiares de que
derivava, a cordialidade se estendia até a área do público, cuja lógica, que
antes deveria ser o interesse público, era com isso sufocada; 3) a distinção se tornará mais efetiva a
partir da 3ª edição doRaízes(1956), quando, ao texto sensivelmente
modificado, corresponderá o esclarecimento decisivo sobre a questão da
cordialidade.
Tal esclarecimento se
tornara necessário desde que Cassiano Ricardo iniciara seu desentendimento,
tomando-a [a cordialidade] como sinônimo
da nossa bondade (!). Contrapondo-se-lhe, Sérgio Buarque, ainda que reiterasse
em nota seu débito a Ribeiro Couto, acrescentava passagem deO Conceito do Político,
que Carl Schmitt publicara em 1933, lido no original. Aí, de maneira
inquestionável, era diferenciada a
inimizade, pertencente à ordem do privado, assim como a hostilidade,
propriedade da ordem do público. O texto revisto tirava qualquer possibilidade
de dúvida: Sérgio Buarque acentuava que nossas raízes familiares comprometiam a
formação consequente de uma ordem pública entre nós, pois seus agentes, no
exercício de seus cargos, agem como se a população fosse parte do círculo de
seus apaniguados.
O esclarecimento acima se
mostra particularmente pertinente. Por
quê? Seria um desperdício alegar que assim sucedia porque Sérgio Buarque é um
intelectual a que poucos entre nós se igualam. Seu propósito é bem outro.
Trata-se de mostrar que o termo, em vez de manter a estrita acepção inicial – a
oposição entre o público e o privado, a hostilidade versus a manifestação de inimizade como derivadas da importância
primordial da instituição familiar –, passa a ter outra configuração. Para
melhor entendê-lo, recordemos que, nos termos do autor, a oposição entre
público e privado significava que nossa política, sob uma capa de afabilidade,
acobertava interesses privados.
Mas tal acepção ainda vigora
depois do golpe de 1964? Embora a delação, a tortura, o desaparecimento dos
adversários, já houvessem sido praticados durante o Estado Novo [1937-1945],
ainda se poderia supor que a indiferença e a progressiva hostilidade da
população pelo clima de terror indicavam alguma permanência da velha
cordialidade.
Já o que se dá em
consequência do resultado da última eleição presidencial não mais permite
dúvidas. Em vez de o adversário político ser hostilizado, ele se torna objeto
de ódio e rancor. A passionalidade chegou ao ponto de as manifestações contra o
[então] governo eleito conterem manifestações em prol da volta da ditadura
militar. Isso não significa que a cordialidade deixou de haver, senão, e
apenas, que a definição dos interesses privados deixou de derivar de raízes
familiares. O privado agora se identifica com instituições industriais, ainda que
de origem familiar. Ponhamos aspas na nova “cordialidade”.
“Cordialidade” industrial,
como assim? É aquela oriunda de instituições que, por sua capacidade de difusão
pública, têm a possibilidade de forjar uma opinião pública. A mudança nada tem
de excepcional. Pode-se mesmo dizer que seria bastante esperável. Tanto antes
como agora temos sido uma população de “ouvintes”, ou seja, em que o hábito da
leitura é reduzido, seja pelo número reduzido dos alfabetizados, seja pela
falta de hábito de ler, pensar e estudar. Por isso, os valores antes difundidos a partir da
família se tornaram mais eficazmente transmitidos pela “oralidade” industrial. Com exceção dos miseráveis, a mídia alcança
todas as classes. De posse de meios de divulgação de massa, os poderosos interesses
privados se tornam mais potentes. Para isso, têm apenas que saber recrutar
colunistas e entrevistadores dotados de
uma oralidade agressiva, na aparência apenas técnica. Os panelaços se esgotaram
nos protestos [contra o governo anterior]. Assim, continuamos um país grande
apenas no tamanho.
(Conferência proferida na Universitat
Autònoma de Barcelona,
Dept. de Ciències de
l'Antiguitat i de l'Etat Mitjana)
"Obrigado", "Parabéns", "Perdoe-me", "Meu
caro", "Felicidades", "Meus pêsames" e diversas outras
formas de linguagem do relacionamento quotidiano - nas diversas línguas -
encerram em si profundas informações para o estudo filosófico do homem. Para
além do eventual formalismo vazio em que o uso diário tende a arremessá-las,
essas expressões - à primeira vista, tão inofensivas - incidem,
originariamente, sobre importantes dimensões da realidade humana.
A partir da discussão metodológico-temática sobre a linguagem e a antropologia
filosófica (guiados pelo clássico S. Tomás de Aquino), essas fórmulas de
convivência mostram-se autênticas mensagens cifradas, por vezes infinitamente
surpreendentes e sábias... Como diz Isidoro de Sevilha, sem a etimologia não se
conhece a realidade e com ela mais rapidamente atinamos com a força expressiva
das palavras (1).
Na verdade, as palavras têm um potencial expressivo muito maior do que nós -
tão familiar e quase automático é o uso que delas fazemos - possamos imaginar.
Daí a atenção do filósofo para os modos de dizer, os contextos, as sutilezas da
linguagem comum, em sua própria língua ou em outras.
Quando a filosofia se volta para a linguagem comum, não está praticando um
procedimento periférico, mas atingindo algo de muito essencial, pertencente ao
próprio núcleo da reflexão filosófica.
Tal apropriação, dizíamos, não é fácil nem imediata. Nossa tendência é antes a
de embotamento e esquecimento do profundo sentido originário que acabou por se
consubstanciar nesta ou naquela formulação. Pois, sempre vige aquela verdade
fundamental, ressaltada tanto pela antropologia ocidental quanto pela oriental:
o homem é, essencialmente, um ser que esquece!(2) E, assim, a
linguagem, a língua viva do povo, acaba por ser em muitos casos a depositária
das grandes experiências esquecidas. E se quisermos resgatar o sentido do
humano que elas encerram, devemos voltar-nos, criticamente, para esse
depósito... Não é de estranhar, pois, que num clássico como Tomás de Aquino encontremos
uma filosofia altamente comprometida com a linguagem. Nesse sentido, é oportuno
recordar alguns de seus princípios metodológicos.
1)
Nossas palavras, freqüentemente, só alcançam fragmentariamente - Tomás usa o
advérbio divisim - a realidade, que é complexa, que supera, de
muito, a capacidade intelectual humana. Aliás, é de Tomás a aguda observação de
que "filósofo algum jamais chegou a esgotar sequer a essência de uma
mosca". Ao contrário do Ser Transcendente, que expressa tudo num único
Verbo, "nós temos de expressar fragmentariamente os conhecimentos em
muitas e imperfeitas palavras"(3).
2)
Outro fenômeno interessante, também ele ligado à limitação de nosso
conhecimento/linguagem, é o que poderíamos denominar: efeito girassol,
assim explicado por Tomás: "Já que os princípios essenciais das coisas são
por nós ignorados, freqüentemente, para significar o essencial (que não
atingimos) nossas definições incidem sobre um aspecto acidental"(4).
Assim, por exemplo, todo o ser da planta que chamamos girassol é designado por
um fenômeno-gancho, acidental e periférico, no caso o do heliotropismo.
3)
Daí, também, que não escape ao Aquinate o fato de que, freqüentemente, é
diferente o gancho, o aspecto, o caminho pelo qual cada língua acessa uma
determinada realidade: o mesmo objeto que me protege contra a água (guarda-chuva)
produz uma sombrinha (umbrella). Daí, diz Tomás, que "línguas
diferentes expressem a mesma realidade de modo diverso"(5).
"Muito
obrigado" - os três níveis da gratidão
Dizíamos que a limitação do conhecimento humano reflete-se na linguagem: não
podemos expressar o que as coisas são, na medida em que não sabemos
completamente o que elas são. Além do mais, muitas vezes, uma palavra acentua
originariamente só um dentre os muitos aspectos que a realidade designada
oferece. E pode ocorrer que, com o passar do tempo, essa realidade mude, evolua
substancialmente a ponto de perder a conexão com o étimo da palavra, que
permanece a mesma. Isto não nos choca, pois, no uso quotidiano, as palavras vão
perdendo transparência: falamos em salada de frutas porque
envolve mistura e nem notamos que salada deriva de sal.
Do mesmo modo, o barbeiro, hoje em dia, quase já não faz barbas, mas cortes de
cabelo; como também o tintureiro já não tinge, mas só lava; o garrafeiro compra
jornais velhos e muito poucas garrafas; o chauffeur não
aquece, mas dirige o carro; e nem nos lembraríamos de associar funileiro a
funil.
Se essas incompatibilidades não nos causam estranheza é porque a linguagem
tornou-se opaca para nós: dizemos colar, colarinho, coleira, torcicolo e
tiracolo e não reparamos em que derivam de colo, pescoço (daí que seja
incompreensível, à primeira vista, a expressão "sentar no colo").
Essas considerações são importantes preliminares ao estudo da gratidão e das
formulações que ela recebe nas diversas línguas. Tomás ensina que a gratidão é
uma realidade humana complexa (e daí também o fato de que sua expressão verbal
seja, em cada língua, fragmentária: este ou aquele aspecto-gancho é o
acentuado): "A gratidão se compõe de diversos graus. O primeiro consiste
em reconhecer (ut recognoscat) o benefício recebido; o segundo, em
louvar e dar graças (ut gratias agat); o terceiro, em retribuir (ut
retribuat) de acordo com suas possibilidades e segundo as circunstâncias
mais oportunas de tempo e lugar" (II-II, 107, 2, c).
Este ensinamento, aparentemente tão simples, pode ser reencontrado nos
diferentes modos de que as diversas línguas se valem para agradecer: cada uma
acentuando um aspecto da multifacética realidade da gratidão. Algumas línguas
expressam a gratidão, tomando-a no primeiro nível: expressando mais nitidamente
o reconhecimento do agraciado. Aliás reconhecimento (como reconnaissance em
francês) é mesmo um sinônimo de gratidão. Neste sentido, é interessantíssimo
verificar a etimologia: na sabedoria da língua inglesa to thank (agradecer)
e to think (pensar) são, em sua origem, e não por acaso, a
mesma palavra. Ao definir a etimologia de thank o Oxford English
Dictionnary é claro: "The primary sense was therefore thought"(6).
E, do mesmo modo, em alemão, zu danken (agradecer)
é originariamente zu denken (pensar). Tudo isto, afinal, é
muito compreensível, pois, como todo mundo sabe, só está verdadeiramente
agradecido quem pensa no favor que recebeu como tal. Só é agradecido quem
pensa, pondera, considera a liberalidade do benfeitor. Quando isto não acontece,
surge a justíssima queixa: "Que falta de consideração!"(7).
Daí que S. Tomás - fazendo notar que o máximo negativo é a negação do grau
ínfimo positivo (a última à direita de quem sobe é a primeira à esquerda de
quem desce...) - afirme que a falta de reconhecimento, o ignorar é a suprema
ingratidão(8): "o doente que não se dá conta da doença não quer
se curar"(9).
A expressão árabe de agradecimento shukran, shukran jazylan situa-se
diretamente naquele segundo nível: o de louvor do benfeitor e do benefício
recebido. Já a formulação latina de gratidão, gratias ago, que se
projetou no italiano, no castelhano (grazie, gracias) e no francês (merci,
mercê)(10) é relativamente complexa. Tomás diz (I-II, 110, 1)
que seu núcleo, graçacomporta três dimensões: 1) obter graça, cair
na graça, no favor, no amor de alguém que, portanto, nos faz um benefício; 2)
graça indica também dom, algo não devido, gratuitamente dado, sem mérito por
parte do beneficiado; 3) a retribuição, "fazer graças", por parte do beneficiado.
No tratado De Malo (9,1), acrescenta-se um quarto significado
de gratias agere: o de louvor; quem considera que o bem recebido
procede de outro, deve louvar.
No amplo quadro que expusemos - o das expressões de gratidão em inglês, alemão,
francês, castelhano, italiano, latim e árabe - ressalta o caráter profundíssimo
de nossa forma: "obrigado"(11). A formulação portuguesa,
tão encantadora e singular, é a única a situarse, claramente, naquele mais
profundo nível de gratidão de que fala Tomás, o terceiro (que, naturalmente,
engloba os dois anteriores): o do vínculo (ob-ligatus), da obrigação, do
dever de retribuir. Podemos, agora, analisar a riqueza de sugestões que se
encerra também na forma japonesa de agradecimento(12). Arigatô remete
aos seguintes significados primitivos: "a existência é difícil",
"é difícil viver", "raridade", "excelência (excelência
da raridade)". Os dois últimos sentidos acima são compreensíveis: num
mundo em que a tendência geral é a de cada um pensar em si, e, quando muito,
regularem-se as relações humanas pela estrita e fria justiça, a excelência e a
raridade salientam-se como característica do favor. Mas, "dificuldade de
existir" e "dificuldade de viver", à primeira vista, nada teriam
que ver com o agradecimento. No entanto, S. Tomás ensina (II-II, 106, 6) que a
gratidão deve - ao menos na intenção - superar o favor recebido. E que há
dívidas por natureza insaldáveis: de um homem em relação a outro, seu benfeitor,
e sobretudo em relação ao Ser Transcendente: "Como poderei retribuir-lhe -
diz o Sl. 115 - por tudo o que Ele me tem dado?". Nessas situações de
dívida impagável - tão frequentes para a sensibilidade de quem é justo - o
homem agradecido sente-se embaraçado e faz tudo o que está a seu alcance (quid-quid
potest), tendendo a transbordar-se num excessum que se
sabe sempre insuficiente(13) (cfr. III, 85, 3 ad 2). Arigatô aponta
assim para o terceiro grau de gratidão, significando a consciência de quão
difícil se torna a existência (a partir do momento em que se recebeu tal favor,
imerecido e, portanto, se ficou no dever de retribuir, sempre impossível de
cumprir...).
Sinônimos?
Tomás é muito estrito no
uso da palavra "sinônimo": para ele, são sinônimas somente palavras
de significados absolutamente equivalentes, isto é, que não só indicam a mesma
realidade (res), mas também o mesmo aspecto, a mesma ratio.
Diz, por exemplo: "Embora essas palavras signifiquem a mesma realidade, não
são sinônimas porque não a enfocam sob o mesmo aspecto"(14).
Assim, para Tomás, duas (ou mais) palavras são sinônimas se (e somente se...)
em quaisquer contextos puderem ser comutadas sem real alteração de sentido: o
exemplo que dá, no Comentário às Sentenças, é tunica, vestis e indumentum.
O que quer que se afirme (ou negue) de tunica, será afirmado (ou
negado...) também de vestis(15). É como trocar
"meia-dúzia" por "seis"... Nós, hoje, com me-nos precisão,
admitimos como sinônimas justamente palavras que - embora com diferentes
títulos ou ênfases - apontam para a mesma realidade. Assim, de
"sinônimo", diz o Aurélio: "palavra que tem quase (sic)
a mesma significação que outra". Já o Larousse, explicita melhor:
"mots qui se présentent dans la langue avec des sens très proches et
qui se différencient entre eux par une nuance (trait particulier)". Já o Oxford distingue e registra
dois sentidos, o estrito e o lato: "Synonym - 1. Strictly, a word having the
same sense as another (in the same language); but more usually (grifo
nosso), either or any of two or more words (in the same language) having the
same general sense, but possessing each of them meanings which are not shared
by the other or others, or having different shades of meaning (grifo
nosso) or implications appropriate to different contexts: e.g. serpent, snake;
ship, vessel etc.".
Para Tomás, pelo contrário, como dizíamos, duas
palavras podem referir-se à mesma e única realidade e, no entanto, não serem
sinônimas: porque diferentes são suas rationes. É o caso, por
exemplo, dos diversos nomes pelos quais designamos a Deus ou seus atributos
(Criador, Onipotente, a Bondade, a Justiça etc.): todos incidem sobre a mesma
realidade, mas não são sinônimos(16). Seja como for, do ponto de
vista metodológico, são de especial interesse para o filósofo, dois pontos: 1)
a busca de contextos da linguagem comum em que uma palavra não pode - sem
alteração de sentido - ser substituída por nenhum "sinônimo": este é
um fecundo procedimento para atinar com a realidade antropológica significada
pelo vocábulo e 2) O segundo ponto a destacar é o fato de que cada
"sinônimo" tem sua ratio, aponta para um determinado
aspecto diferente da mesma e única realidade: tal como quando falamos em
"casa", "lar", "domicílio" ou
"residência". Em si, a realidade a que se referem estas palavras é a
mesma e única edificação - na Rua Tal, número tal -, mas ninguém diz
"domicílio, doce domicílio", nem a Prefeitura cobra impostos sobre
meu lar, etc.(17). Essa multiplicidade de formas de
linguagem para a mesma res tem importância na análise que
Tomás faz do amor.
"Meu caro"
A riqueza (e a precisão) de vocabulário vivo para
determinado assunto em uma língua denota o interesse vital dos falantes por
aquele tema. Nesse sentido, note-se, por exemplo, o incrível detalhamento a que
chegou o léxico futebolístico no Brasil, em que a resolução da linguagem chega
a distinguir: bicicleta, meia-bicicleta, puxeta e voleio! Do mesmo modo, S.
Tomás apresenta distinções entre diversos "sinônimos" de amor em
latim, interessantes do ponto de vista da antropologia filosófica. Assim, ao afirmar
(em I Sent. d.10, q.1, a. 5, ex) que o Espírito Santo é amor ou caritas ou dilectio do
Pai e do Filho, precisa que amor indica a simples inclinação
de afeto para o amado, enquanto dilectio ("como a própria
etimologia indica") pressupõe escolha e é, portanto, racional. Já caritas,
objeto de particular estudo neste tópico, enfatiza a veemência do amor (dilectio)
enquanto se tem o amado por inestimável preço ("inquantum dilectum sub
inaestimabili pretio habetur"), no mesmo sentido em que dizemos que as
coisas (o custo de vida, as compras) estão caras ("secundum quod res
multi pretii carae dicuntur").
Há aqui um fato surpreendente e muito sugestivo. Não é por acaso que, também em
outras línguas, se use a mesma e única palavra para dizer: "meu caro
amigo" e "o feijão está caro" ("my dear friend",
"beans are too dear"; "mon cher ami" e "haricots sont
trop cher"). Para o realismo medieval, não há nenhum choque em que a
palavra "caridade", escolhida para designar o amor de Deus (e o amor
ao próximo por Deus) seja a palavra, pré-cristã, ligada a dinheiro, preço:
caridade, o amor pelo amado, insiste Tomás, indica aquilo (uma coisa, um
objeto) que consideramos de inestimável preço, como caríssimo: "Caritas
dicitur, eo quod sub inaestimabili pretio, quasi carissimam rem, ponat amatum
caritas" (In III Sent. d.27, q.2, a.1, ag7). Assim, quando dizemos
"meu caro amigo" ou "caríssimo Fulano", estamos valendo-nos
de metáforas de preço (daí, também, a-preço, prezado, menos-prezo, des-prezo
etc.), de estima, de estimativa.
Nesta mesmíssima linha, situa-se a fórmula de cortesia árabe, ante um amigo que
diz que vai pedir algo: "Anta gally wa talibuka rakhiz"
("você é caro e seu pedido é barato"). E quando nos lembramos que
Cristo compara o Reino dos Céus a um tesouro que um homem encontra num campo ou
a um mercador que procura pedras preciosas e que a obtenção desse bem requer a
venda de todo o resto, não nos surpreenderá que "caridade" seja a palavra
para designar o bem apreciado.
Voltemo-nos agora para uma outra situação de nossa vida quotidiana, a de
felicitação, procurando resgatar o sentido originário dos votos de
congratulação. Seguindo o procedimento medieval, estaremos atentos à
etimologia.
"Parabéns"
Quando transcendemos o âmbito protocolar das
formalidades e da praxe, os votos de felicitação: "Parabéns!" (e seus
irmãos: o espanhol Enhorabuena!, o inglês Congratulations!,
o italiano Auguri!), vemos que eles trazem em si diferentes e complementares
indicações sobre o mistério do ser e o do coração humano. O que significam
exatamente essas formulações? O que realmente queremos dizer, quando dizemos
"parabéns" ou "congratulations" etc.? Todas
essas expressões trazem em si um profundo significado, por assim dizer,
"invisível a olho nu".
Comecemos pela fórmula castelhana: Enhorabuena!, literalmente
"em boa hora". Enhorabuena indica que um determinado
caminho (os anos de estudo que desembocaram numa formatura, o árduo trabalho de
montar uma empresa que se inaugura etc.) chega, nesta hora, em que se dão as
felicitações, a seu termo: esta é que é a hora boa, enhorabuena!
Precisamente o fato de ser a hora da conclusão é que a torna uma boa hora. A
sabedoria dos antigos fala da "hora de cada um", de horas boas e más.
Mas a hora boa, a hora melhor é a da conclusão, a da consumação, a do bom termo
do caminho, a hora do fim, que é melhor do que a do começo: "Melior est
finis quam principium" (Ecl. 7,8), diz a própria Sabedoria divina.
Já a formulação inglesa, também presente no alemão e em outras línguas, congratulations,
expressa a alegria compartilhada pelo bem do outro, com quem nos congratulamos,
isto é, nos co-alegramos. Essa comunhão na alegria é sugerida também pela forma
depoente dos verbos latinos gratulor e congratulor.
A forma depoente está a indicar que a ação descrita no verbo não é ativa nem
passiva: mas uma ação que, exercida pelo sujeito, repercute nele mesmo. Ou
seja, no caso, que a alegria que externamos ao felicitar tal pessoa é também, a
título próprio, muito nossa.
O árabe mabruk lembra o caráter de bênção daquele dom pelo
qual felicitamos alguém.
Com a encantadora forma nossa, "Parabéns!", estamos expressando
precisamente isto: que o bem conquistado, que a meta atingida seja usada
"para bens". Pois, qualquer bem obtido (o dom da vida, dinheiro ou a
conquista de um diploma) pode, como todo mundo sabe, ser empregado para o bem
ou para o mal.
O italiano, auguri, auguri tanti!, anuncia (ou enseja) que este bem
celebrado é só prenúncio, prefiguração, augúrio de outros ainda maiores que
estão por vir.
"Meus pêsames"
"Carregava uma
tristeza...", diz o antigo samba de Paulinho da Viola: a tristeza é -
evidentemente - um peso, os famosos pesares...! E para carregar o peso da dor,
da tristeza, nada melhor - ensina Santo Tomás - do que a ajuda dos amigos:
"porque a tristeza é como um fardo pesado que se torna mais leve para
carregar, quando compartilhado por muitos: daí que a presença dos amigos seja
tão apreciada nos momentos de dor"(18).
Compreende-se, assim, imediatamente, que a expressão de condolências
("doer-se com") seja pêsames, literalmente: pesa-me ("eu te
ajudo a carregar o peso desta tua tristeza").
“Perdoe-me"
"Perdonare" é uma forma tardia que
não se encontra em Tomás. A palavra correspondente e usual, por ele empregada,
é par-cere. No entanto, encontramos em S. Tomás as razões
filosóficas que justificam a grandiosa etimologia das formas modernas:
"perdoar", "perdão", "perdonar",
"pardon", "pardonner" etc.
O prefixo per acumula os sentidos de "por"
("através de") e de plenitude, grau máximo: como em perlavar(lavar
completamente) perfulgente (brilhantíssimo), per-feito, per-manganato
etc. E, assim, o perdão aparece como o superlativo da doação. O mesmo se dá com
as formas inglesa e alemã: for-give, vor-geben.
Como o Aquinate pensa o tema do perdão e como o relaciona com o máximo da
doação? Há aí influências bíblicas e litúrgicas. Na liturgia, Tomás
impressiona-se com a oração, por ele freqüentemente citada(19), da
missa do X domingo depois de Pentecostes (e, ainda hoje, preservada no XXVI
domingo do tempo comum), que diz: "Deus qui omnipotentiam tuam parcendo
maxime manifestas" ("Deus, que manifestais vossa onipotência,
principalmente perdoando..."). E afirma que o perdão de Deus é poder
superior ao de criar os céus e a terra (II-II, 113, 9, sc).
Por outro lado, ele lê na tradução latina da epístola aos efésios: "sede
benignos e 'doai-vos' uns aos outros, tal como Deus, em Cristo, vos
'doou'" (Ef 4,32)(20). E em II Cor 2:10 "A quem vós
'doeis' eu também 'dôo' e o que eu 'doei' etc."(21). Tomás não
tem dúvidas: o doar, por excelência, não é doar dinheiro ou tempo ou qualquer
outra coisa, mas sim perdoar(22).
E conclui, com sua habitual sobriedade, com sugestivos id est:
"Donate, id est parcite" (Super II ad Cor.
cp 12, lc 4) e "Donantes, id est parcentes" (Super
ad coloss. cp 3 lc 3) .
1. "Nisi enim nomen scieris, cognitio rerum
perit" (Et.I, 7,1) e
"Nam dum videris unde ortum est nomen, citius vim eis intellegis" (Et. I,
29,2).
2.
Veja-se, a propósito, o capítulo "Educação e Memória" in Lauand, Medievália,
São Paulo, Hottopos, 1996.
3.
"Quia enim nos non possumus omnes nostras conceptiones uno verbo
ex-primere, ideo oportet quod plura verba imperfecta formemus, per quae
divisim exprimamus omnia, quae in scientia nostra sunt(Super
Ev. Io. Cp 1, lc1).
4.
"Et quia essentialia principia sunt nobis ignota, frequenter ponimus in
defini-tionibus aliquid accidentale, ad significandum aliquid essentiale"
(In ISent. ds25 q 1, a 1, r 8).
5.
"Diversae linguae habent diversum modum loquendi" (I, 39, 3 ad 2).
6.
Cito pela edição em hipertexto-Cd-ROM: OED 2nd. ed. on CD-ROM,
1994.
7.
Já Sêneca - citado por S. Tomás, II-II, 106, 3 ad 4 - fala de que não pode
haver gratidão, senão pelo que ultrapassa o estritamente devido, "ultra
debitum". Ministerium tuum est ("Você não fez
mais que sua obrigação") e outras do mesmo teor são, como se vê, fórmulas
já bastante antigas.
8.
"Est gravissimum inter species ingratitudinis, cum scilicet homo
beneficium non recognoscit" (In II Sent. d.22 q.2 a.2 r.1).
9.
"Quia dum morbum non cognoscit, medicinam non quaerit", ibidem.
10. Merci é
derivado de merces (salário), que tomou no latim popular o
sentido de preço, do qual derivou o de "favor" e o de
"graça".
11.
Infelizmente, nestes últimos anos, no Brasil, "obrigado" vem sendo
substituído pelo insosso "valeu!".
12.
Devo à Profa. Chie Hirose as observações sobre a expressão Arigatô na
língua japonesa.
13.
Dessa insuficiência de quem sabe não dispor de moeda forte, nasce o recurso a
Deus, consignado na expressão "Deus lhe pague", que, naturalmente,
deixa subentendido que um pobre homem, como eu, não pode fazê-lo...
14.
"Quamvis nomina dicta eandem rem significent, non tamen sunt synonyma:
quia non significant rationem eandem" (CG I, 35, 1).
15.
"Sicut patet etiam in synonimis; tunica enim et vestis eamdem rem
significant, tamen nomina sunt diversa; et similiter indumentum. Unde affirmationes et
negationes quae pertinent ad rem, non possunt verificari, ut dicatur: tunica
est alba, indumentum non est album" (In I Sent. d. 34, q.1,
a.1, r.2)
16."Ostenditur etiam ex dictis quod,
quamvis nomina de Deo dicta eandem rem significent, non tamen sunt synonyma:
quia non significant rationem eandem" CG I, 35, 1. Ou
"Cum non secundum eandem rationem attribuantur, constat ea non esse
synonyma, quamvis rem omnino unam significent: non enim est eadem nominis
significatio, cum nomen per prius conceptionem intellectus quam rem intellectam
significet" CG I, 35, 2.
17.
Ainda que, naturalmente, há casos em que é legítima a substituição de uma
dessas palavras por outra, ou indiferente o uso desta ou daquela: afinal são
"sinônimas"!
18. "Quod tristitia est sicut onus grave
quod quanto plures transsumunt fit levius ad portandum et sic presentia amici
delectabilis" (Tabula libri Ethicorum, cpt).
19.
Por exemplo em II-II, 113 9, sc e In IV Sent. d.46, q.2, a.1,
cag1.
20.
"Estote autem invicem benigni misericordes donantes invicem sicut et
Deus in Christo donavit nobis".
21.
"Cui autem aliquid donatis et ego nam et ego quod donavi si quid donavi
propter vos in persona Christi".
22."Doar
aqui é usado no sentido de perdoar" Super II ad Cor. cp
12, lc 4.
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Fonte: http://www.hottopos.com/notand1/antropologia_e_formas_quotidiana.htm. Conferência proferida sob o título 'Antropologia e Formas quotidianas - a Filosofia de S. Tomás de Aquino Subjacente à nossa Linguagem do Dia-a-Dia'.