Ayn Rand, de origem judaico-russa, mas radicada nos Estados Unidos, foi, ao mesmo tempo, escritora, dramaturga, roteirista e filósofa. A vastidão do seu pensamento tornou-lhe bastante eclética, aglutinando, por vezes, tendências opostas. De qualquer dos modos, ela foi certeira ao analisar a figura do 'invejoso', esse triste tipo que muitas vezes se esconde por trás da falsa humildade, bem como também induz o fenômeno do 'coitadismo', que, na verdade, traz incalculáveis prejuízos à efetiva autonomia das pessoas. Os ataques dos invejosos, disse Rand, significam o ato repugnante de tentar desqualificar/desconstruir alguém não pelos seus defeitos, mas pelos seus méritos, por suas virtudes. Trata-se da atmosfera da 'Era da Inveja', assinalou. A conferir o vídeo.
segunda-feira, 23 de novembro de 2015
sábado, 21 de novembro de 2015
Deambulações parisienses: a vida que não fica
Dizia-se na
Europa da Belle Époque que uma
estadia em Paris, quando se estava na casa dos vinte anos de idade (nos albores
dos estudos), serviria para, além de se aprender francês, paralisar, para si,
a passagem do tempo. Neste o último caso, parece que não – ‘el tiempo pasa’,
como canta Mercedes de Sosa. Nem o conhecimento da Universidade de Sorbonne, aí
estampada, sob o tremular da bandeira francesa, detém essa tendência natural. E
ainda bem que é assim. Como afirmava Mário Quintana, o tempo não pára, só a
saudade faz as coisas pararem no tempo. Contudo, ele, o tempo, é tribunal da
história e senhor da razão.
Às margens da estação do tempo: o trem que nos conduz
Por Leont Etiel
Quem
abraça o mundo, não se pode esconder da vida. Escuta o movimento do vento e dele
recolhe alento para as dores grandes e pequenas, as tristezas e sofrimentos que
pedem pausa. Nas mais duras circunstâncias, costuma ser a ele que se tem. O
vento. O seu suave sopro ao nascer do dia, o calmo soar noturno acompanhado pelo
barulho das ondas oceânicas. É mais previsível do que a imprevisibilidade de
muitas pessoas. Depois do vento, o que resta é a descida à terra dura. Desde os
tempos imemoriais.
Falando
do encantamento da luz dos olhos, Lady Edna St. Vincent Millay lamenta que esse
seja o destino dos corações amantes. Eu não concordo com a descida dos corações
à terra dura, diz ela. Mas, reconhece, assim será, é e foi desde sempre: eles
seguem pelo desconhecido, os sábios e os belos. Coroados de lilases, eles
partem, mas eu não me conformo, insiste a Lady, e prossegue: amantes e
pensadores, contigo, dentro da terra, transformados na poeira morna e cega. Um
fragmento do que tu sentias, daquilo que tu sabias, uma fórmula, uma frase
apenas restou – mas o melhor está perdido. As respostas rápidas e vidas, o olhar honesto,
o amor – estes partiram. Partiram para alimentar rosas. Os botões serão meigos,
elegantes e perfumados. Eu sei, admite ela, voltando a dizer da sua
insatisfação: mas não aprovo. Mais preciosa era a luz dos teus olhos do que
todas as rosas do mundo. Fundo, fundo, fundo na escuridão da cova, docemente,
os belos, os ternos, os espirituais, todos, e todos os outros não ditos, descem.
Cego
mesmo é quem enxerga sem perceber os ventos da vida. E não se dá conta dos seus
desvios, dos caminhos feitos e refeitos, das curvas do tempo, que vão longe para
chegar ao lugar que está consigo próprio, dentro de si. No cerne de quem diz, no espelho-vento
reflexo. Se o abraço no mundo refuta ‘o se esconder da vida’, é de se navegar
nos sentimentos que lhe atam e desatam. Foi assim que Nietzsche comoveu-se até às últimas lágrimas, ao ser tomado pela
ideia de eterno retorno, no caminho de Egadine. É assim que se efetiva, em
passos rápidos ou lentos, a existência.
Cada
um sabe de si. De dores e amores. De decepções. De certezas e incertezas. De
convicções e ilusões. De decisões postergadas. Da convivência moldada pela necessidade
de suportar o vivido. Mas, fazendo-se o resumo das contas, sobra o vento. Se
não senti-lo, depois só resta a terra dura.
Lady
Edna St. Vincent Millay insurge-se: Eu morrerei,
mas isso é tudo o que eu farei pela morte. Não vou segurar a rédea enquanto ela
ajusta as correias. Não lhe darei apoio. Embora me fustigue, não vou dizer
nada. Morrerei, mas isso é tudo que farei pela morte. A insurgência de Lady
Millay a conduz a um trem, oferecendo-nos um ticket de embarque: A
léguas de distância está a ferrovia. E o dia grita e fala sem parar, e bem não
há um trem que passa todo o dia, mas eu o ouço apitar. Bem não há esse trem que
a noite toda passa, e a noite dorme e vai sonhar em paz, mas vejo o céu
tingir-se em brasas e fumaça. E ouço o ofegar que ele faz. Meu coração se apraz
em boa companhia. E melhores amigos não terá. Mas não existe um trem no qual eu
não iria, aonde quer que ele vá. O vento. Quem abraça o mundo, não se pode esconder da
vida.
sexta-feira, 20 de novembro de 2015
Companhia de si próprio
| Le Café de Nuit, de Vicent van Gogh |
Por
Allan Moreira
Uma
série de receios e preconceitos nos fecha para exceder o protocolo social do
clássico “bom dia” ou a resposta monossílaba para o “tudo bem?”. Logo, o quão
correto é alegar que o encontrar de boa companhia é pouco provável atualmente
quando muitas vezes nossa própria disposição para ser uma é escassa?
Ao
discorrer sobre a palavra acompanhar é válido ressaltar que esta não se limita
ao incompleto, porém importante, ofertar da presença física no percorrer da
mesma direção ou permanência em um local. Uma real companhia surge pelo doar do
viver mutuamente, ao esquecer o correr de ponteiros do relógio no apreciar de
um momento.
O
receio da solidão é inerente naquele que se esquece, ou foge, da própria
companhia. Entretanto, estabelecer relacionamento leal com a própria essência
pode não revelar respostas daquilo que necessariamente se deseja, mas do que se
precisa para ser realmente feliz.
Estar
apto para fazer companhia para si mesmo é enxergar o brio de “estar só” como
oportunidade para descobrimento e ascensão. A harmonia na autoconvivência se
apresenta no singelo presente entregue na forma de um sorriso para o reflexo do
espelho, capaz de originar ondas de pensamentos positivos que fomentam a
sensação de paz interior.
Em
um diálogo interno, todo ser humano compōe diariamente sua “carta de vida”
narrando alegrias e tristezas que presencia. Desenvolver este “manuscrito” por
seu melhor ângulo é o escrever de um convite para a “companhia do eu” que
prontamente estende a sua própria
terceira mão, conduzindo-lhe à gratidão
e coragem para prosseguir.
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Fonte: http://lounge.obviousmag.org/. Título original: 'Companhia do Eu'.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Outras Histórias: 'Vênus Noire' e a Hiperssexualização
Os apreciadores da ciência histórica sabem das 'outras histórias'. Chamava-se ela Sarah Baartman, sul africana, e em princípio trabalhava numa fazenda de holandeses, até ser conduzida para Londres (em 1810) como uma "selvagem" que havia sido capturada em África, a fim de ser exibida como uma espécie de "aberração" em relação ao que era/é o protótipo ocidental e seus valores. Baartman era uma mulher de 'corpo amplo', com nádegas que faziam volume. Apresentada como coisa exótica na Europa, era exibida em público a troco de pagamento, sendo o seu corpo sistematicamente apalpado, além de "outros afins de natureza similar". Comprada por um domador de animais francês, em Paris, foi exposta durante noites e noites inteiras, e para multidões, com violações das mais diversas. Faleceu em 1815. Para não ter de pagar o enterro, o domador de animais vendeu o corpo ao Musée de l'Homme, onde foi empalmada como animal e exposta nua. Com os anos, o corpo degradou-se e o museu guardou como restos as partes que foram avaliadas como 'mais interessantes', como esqueleto, órgãos genitais e cérebro. Com a chegada de Nelson Madela à Presidência da República da África do Sul, o governo requereu às autoridades francesas a devolução dos restos mortais de Sarah Baartman. No entanto, houve resistência. Em 2002, a questão foi vencida, e os restos mortais foram devolvidos à terra natal dela. Com o 'caso Sarah Baartman', erigiu-se, em significativa medida, o imaginário da hiperssexualização das mulheres negras/mulatas. O filme 'Vênus Negra', embora reproduza determinados estereótipos, recupera um pouco a história dessa mulher, e ao mesmo tempo evidencia, com o recurso da história, um dos calcanhares de Aquiles da ideia de civilidade ocidental. É um filme pertinente, sobretudo nos dias atuais, quando se deseja pintar um falso quadro dos orientais como povos da barbárie permanente. Aí abaixo o trailer do filme.
Um brasileiro na Síria
![]() |
| Damasco, capital da Síria |
Por Guga Chacra
(Jornalista)
É triste ver como falam da
Síria, como se os sírios fossem selvagens radicais. Mas não é assim. A
Síria, embora seja um país novo, possui cidades milenares, como Damasco e
Aleppo. Por muitos anos, chegaram a ser das cidades mais cosmopolitas do mundo.
Estive dez vezes em Damasco. Sou
brasileiro, de origem cristã libanesa pelo lado paterno. E fui muito bem
recebido todas às vezes. Damasco, não podemos esquecer, possui patriarcados
cristãos – o Ortodoxo, o Melquita e o Siríaco. Ao todo, 12 apóstolos cristãos
viveram em Damasco, incluindo Mar Boulus, que significa São Paulo em árabe e dá
nome à maior cidade do Brasil.
Em Damasco, há dezenas ou mesmo
centenas de milhares de cristãos. Eles vivem nesta região há séculos,
provavelmente desde a época de Cristo. Na cidade velha, há o bairro de Bab
Touma, ou Portão Tomás, em homenagem a São Tomás. Nesta área, e em toda
Damasco, cristãos circulam livremente com seus amigos muçulmanos alauítas,
sunitas, drusos e ateus.
Damasco, quando os EUA invadiram
o Iraque, recebeu centenas de milhares de refugiados cristãos iraquianos. Eles
não tinham para onde ir. Ninguém se importava ou sequer sabia que tinha
cristãos no Iraque. Mas a Síria os recebeu e deu saúde e educação gratuita, além
de direito ao trabalho, sem nenhuma ajuda externa. Já pensou se o mundo fosse
assim com os sírios?
Os bares e restaurantes de
Damasco servem álcool. Afinal, quantos países do mundo podem dizer que possuem
uma bebida nacional do calibre do Arak? Os clubes, que lembram os brasileiros e
tem quadras de tênis, piscina e campo de futebol, reúnem a classe média local
para pegar um bronze no verão. A capital síria, inclusive agora, tem altas
baladas e a paquera rola solta. Parece muito o interior paulista ou mesmo São
Paulo e Belo Horizonte. Muitas mulheres não se cobrem. Algumas usam véu. Qual o
problema? De burqa, é raro. Há uma chance maior de ver uma mulher de burqa em
Londres. Honestamente, nunca vi em Damasco.
Os táxis são amarelos e o taxímetro funciona, diferentemente do Cairo ou de Beirute. O
trânsito é relativamente decente. A estrada que liga a fronteira do Líbano a
Damasco tem pista dupla, asfalto novo e posto de gasolina que lembra o Graal.
Até parece a Castelo Branco.
Aos domingos, uma das marcas de
Damasco são os sinos das igrejas. É um cenário mágico, dentro da cidade velha.
Tem missa em aramaico, algo raro em muitos países. E alguns fiéis são fluentes
em aramaico, diferentemente de muitos líderes de igrejas ao redor do mundo que
não sabem falar a língua de Cristo. Não muito longe dali, está a esplendorosa
mesquita dos Omíadas. Dentro, a tumba de São João Batista. E sim, cristãos
podem entrar, visitar e tirar fotos. Depois, vale tomar um sorvete no Bakdash
dentro do Suq al Hamidiya. Pelas ruas, aquele cheiro gostoso de narguilé e
muita gente jogando gamão enquanto toma chá ou café.
E tem a comida síria, similar à
libanesa e que nós conhecemos tão bem no Brasil. Kibe, esfiha, kafta, charuto
de folha de uva, hummus, coalhada seca. Dá vontade de comer depois de escrever
este texto.
Tem também shopping em Damasco.
Um ao lado do outro. São dois sócios que brigaram. E cinemas modernos, que
passam filmes ocidentais. Em um deles, dá para comer comida japonesa enquanto
vê o filme. A Universidade de Damasco é parecida com as brasileiras. Os
estudantes também. Tire uma foto e parecerá a UFRJ.
Muitos sírios, especialmente os
da elite, se consideram ocidentais. Lembra um pouco nós brasileiros, que também
nos consideramos ocidentais, embora o Ocidente não nos considere.
Os damascenos, assim como os
parisienses, sempre tiveram a alegria de viver. Mas a guerra atingiu o país. O
Brasil tem sorte de não ter guerra, embora tenha mais homicídios em todas as
suas capitais do que em Damasco. Mas guerra é diferente. A Europa teve guerra
nos anos 1940, quando meu pai nasceu. Não faz muito tempo. Foram dezenas de
milhões de mortos.
quarta-feira, 18 de novembro de 2015
'Degelo de olhos tão sós'
'Caravana', de Geraldo Azevedo/Alceu Valença - Com Elba Ramalho, Zé Ramalho e Geraldo Azevedo.
Na sombra da pele
Ou a propósito de um filme.
Por Anderson Henriques
Assisti, em DVD, há poucos dias, o último filme do
Almodóvar, “A pele que habito”. Não pretendo fazer aqui nenhum tipo de crítica
ao filme, pois estou longe de ter este talento, ou olhar. Gostei bastante do
filme, pelo impacto que me causou. Gosto disso na arte em geral, de me sentir
provocado. E, no caso deste filme, as provocações e sensações são variadas. No
entanto, independente do que senti ao ver o filme, o melhor pra mim foi a
metáfora, a mensagem subliminar, que ficou rondando minha mente após o término
do mesmo. Apenas um dos inúmeros olhares possíveis. Bem particular, obviamente.
O motivo principal do filme é a relação que se
estabeleceu entre um cirurgião plástico – personagem de Antonio Banderas – e
sua paciente, a qual ele mantém trancafiada e monitorada por câmeras de vídeo
em uma determinada área de sua casa. Além das visitas diárias do próprio
cirurgião, nenhum outro tipo de contato com o mundo externo é permitido à tal
paciente, a não ser a comunicação através de um interfone com uma espécie de
governanta da casa. Depois de algum tempo, o médico se percebe completamente
envolvido por sua paciente-prisioneira e, mesmo depois de tantas atrocidades
cometidas, tem-se início uma suposta relação afetiva entre os dois. Então, ele
se vê obrigado a ceder e permite a ela uma liberdade um pouco maior. No
entanto, a esta altura do filme, fica difícil imaginar que eles conseguiriam
levar uma vida normal, que seguiriam imunes àquela sucessão de erros, e que
seriam felizes para sempre. De fato, não conseguiram.
Fiquei pensando no quanto aquele tipo de relação de
domínio, de aprisionamento, de sequestro é mais comum no nosso dia a dia do que
possamos supor. Pelo menos do ponto de vista metafórico, é claro. Quem de nós
não poderia citar uma relação de sequestro psicológico, emocional? Relação em
que uma pessoa, mesmo não estando presa fisicamente, vê-se completamente
dominada por outra. Como se sua alma tivesse sido furtada, raptada. Ainda que
não sejam sentidos literalmente na pele, os danos causados por uma relação como
esta podem ser tão dolorosos e definitivos quanto aqueles sofridos pela personagem
do filme. Danos estes que dificilmente se apagam, deixando marcas e trazendo
consequências tais, que podem determinar para sempre as escolhas, os rumos a
serem seguidos na vida de uma pessoa.
Este tipo de relacionamento parece seguir um velho
e conhecido roteiro, percebido por muitos que estão de fora e, na maioria das
vezes, ignorado pela vítima do dito sequestro emocional. Inicialmente, a pessoa
se deixa entorpecer por algum motivo qualquer, seja ele, carência, paixão
desenfreada, autoafirmação, ingenuidade, imaturidade, chantagem emocional, ou
seja lá o que for, e mesmo que inconscientemente se deixa aprisionar pelo
raptor de sua alma, que sutilmente a afasta do convívio social, do contato com
amigos, familiares, e, por mais esdrúxulo que seja, consegue mantê-la distante
até mesmo de pessoas muito próximas, como pai, mãe, irmãos, filhos.
Por mais óbvio que pareça à grande maioria das
pessoas à sua volta, a vítima do sequestro de alma dificilmente consegue
enxergar a cilada em que se envolveu e, geralmente, quando se dá conta, ainda
que relute, não tem energia suficiente para escapar daquela situação. Com o
passar do tempo, quando parece não restar alternativa, acostuma-se. Muitas
vezes – assim como num sequestro real – é comum que se estabeleça uma relação
de dependência entre a vítima e o sequestrador, que pode até ser absurdamente
classificada, por eles, como amor.
No entanto, uma relação amorosa que
aprisiona é em sua gênese uma incoerência, uma mentira patética. Afinal o amor
é essencialmente libertador. Não se pode imaginar que é possível amar
alguém, impondo-lhe castrações, limitando seu crescimento intelectual,
impendido que o outro desenvolva suas próprias impressões e opiniões a respeito
da vida, afastando o outro do convívio social ou familiar. Enfim, fazendo-lhe
refém de seus caprichos e acorrentando sua alma. Quem age assim, ilude-se a
respeito do amor. Engana-se profundamente. É como um criador de aves, que
prende um pássaro em uma gaiola, e regozija-se com seu canto, sem se importar
se é de alegria ou de tristeza a canção que ele ouve todas as manhãs.
A verdade é que, por mais que se trate com cuidado
um passarinho preso numa gaiola, dando-lhe a melhor ração, água fresca, as
melhores condições de limpeza, por mais que se julgue tratá-lo com carinho,
afeto, dedicação, o passarinho nunca perderá uma oportunidade de escapar. Pois
o simples fato de tê-lo aprisionado já gerou desde o princípio uma relação
desigual, de domínio, regida pelo medo, pela falta de confiança. E onde
não há confiança, não é possível haver cumplicidade, não se cria o respeito,
base imprescindível ao amor.
Assim como o passarinho preso em uma gaiola, a
pessoa que de alguma maneira tem sua liberdade cerceada, por mais que não
demonstre, não cultiva outro pensamento senão o de se livrar das amarras e se
tornar livre novamente. Assim, quando efetivamente enxergar uma possibilidade
real de fuga, ela se arrisca, ganha mundo. Vai-se embora. Se não vai, é porque
esqueceu que sabe voar. E se chegou a este o ponto, perdeu a essência. Não é
mais pássaro, não é mais gente. E o que viveu nunca foi nem nunca será amor.
Amor é o que cultiva o jardineiro, que pacientemente
cuida de seu jardim, e fica à espera dos beija-flores, que seduzidos pela
beleza de suas flores, vêm em busca da doçura do néctar, e em troca oferece a
ele a elegância e o encanto de seu balé flutuante. Amor é essa relação de
doação, de troca, de entrega mútua. E, para que seja assim, não basta apenas
ofertar o néctar, o mel, pois beija-flor preso em gaiola não baila, não voa.
Morre à mingua. Para se apreciar a leveza de sua dança, é imprescindível
deixá-lo livre.
Quem corta asas, quem impede o voo, definitivamente
não ama. Apenas tenta satisfazer seus desejos egoístas e unilaterais. Não quer
se submeter a riscos. Dá o mínimo e, no entanto, se acha no direito
de usurpar o que o outro tem de melhor. Mas o amor não se dobra a caprichos e
imposições. O amor é a escolha de ficar diante das inúmeras possibilidades de
ir.
O amor deseja fluir, para tanto necessita de
espaço. Tem urgência de liberdade. Não sobrevive em gaiolas. Por isso, quem
impõe barreiras, grades, ainda que emocionais, não ama. Engana-se. Mente para si mesmo. Vive sozinho, mesmo estando junto. Raptor de
almas alheias, vê-se dominador, mas é dominado. Pensa-se livre, mas é cativo do
medo de perder. Refém da angústia de ver sua vítima escapar. E, ela há de
escapar. Mais cedo ou mais tarde. De um jeito ou de outro.
Não se aprisiona uma alma por toda a vida. Sua
essência clama por liberdade. Não suporta o domínio de uma prisão imposta.
Deseja ardentemente ser feliz. Quer reencontrar-se. E, ainda que habite outra
pele, ainda que tenha de conviver com marcas indeléveis, toda alma guarda em si
uma sede de amor. Essa força motriz que nos impulsiona e dá sentido à vida. Por
isso, viva e deixe viver!
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Fonte: http://obviousmag.org
De Getulio.Vargas@edu para Lula@org
Doses de ironia como história. Ou uma suposta "carta do além" do ex-presidente Getúlio Vargas ao ex-presidente Lula, enviada, digamos, sob a mediação do jornalista Elio Gaspari. A conferir.
Por Elio Gaspari
Senhor presidente,
Faz
tempo que eu organizo um churrasco para os presidentes do Brasil que estão por
aqui. Depois da carne, jogamos pingue-pongue. Fizemos o último encontro há uma
semana e resolvi escrever-lhe porque falou-se muito do senhor. Vosmicê não é
popular entre nós. Simpatia, o senhor tem a de Itamar Franco e Floriano
Peixoto. O Médici não pode ouvir seu nome. Eu procuro entender seus pontos de
vista, mas sua gabolice dá-me nos nervos.
O
tema de nossa conversa foi sua relação com a senhora Rousseff, e estamos todos de
acordo: o senhor está jogando uma cartada inédita, ruim para o país e para
ambos.
À
mesa, éramos 25. Em graus variáveis, todos desentenderam-se com seus
sucessores. Uns nunca os toleraram, como Kubitschek com Jânio. Outros, tendo-os
ungido, como vosmicê, desencantaram-se e arrependeram-se. Confidencio-lhe que o
Ernesto Geisel mal cumprimenta o general Figueiredo. Eu dou-me bem com todos,
até com Geisel, que cercou meu palácio em 1945.
Por
maiores e até mesmo injustos que tenham sido os desencontros, nenhum de nós
tentou sequestrar o governo do seu sucessor. Mesmo quando procuramos
interferir, preservamos a discrição. O Itamar lembrou que disse poucas e boas
do Fernando Henrique Cardoso, mas sua força extinguira-se. Não é esse o seu
caso. A presidente precisa do seu apoio, e a destruição dela será a sua. Intuo
que o senhor precisa mais dela do que ela do senhor.
Resta
outro argumento, o do recato. O senhor tirou o nome da presidente da sua
cartola, como fizeram o Médici com o Geisel e o Geisel com o Figueiredo. Se
arrependimento matasse, ambos teriam chegado aqui muito antes. Por recato,
diziam horrores dos seus escolhidos, mas mantinham as queixas num círculo
fechado.
O
senhor está rompendo essa etiqueta. Quer mudar a política de sua herdeira,
chegando ao ponto de indicar um ministro da Fazenda que, sem ter sido convidado
por ela, sugere condições inaceitáveis até mesmo para um síndico de edifício.
O
Washington Luiz, que sabe de história, diz que vosmicê quer instalar uma
regência no seu Instituto Lula mantendo a titular no palácio do Planalto. Coisa
inédita. Isso só foi tentado uma vez, com um presidente fisicamente
incapacitado. O marechal Costa e Silva lembrou que, depois de ter sofrido uma
isquemia cerebral, estava mudo e paralítico, mas os generais empossaram uma
Junta Militar dizendo que ela era provisória. Esse gauchão sempre repete que
deveriam ter empossado o vice-presidente. Foi dele a ideia de não chamar os
membros de Juntas Militares para nossos churrascos.
O
senhor diz com frequência que se pode pedir tudo a um governante, menos a
própria humilhação. Meu caso foi extremo, mas quando tomei a decisão de sair da
vida, reagia à humilhação que os militares amotinados queriam impor-me. Em
1945, já deposto, recebi dois oficiais, fumei meu charuto e saí de cabeça
erguida. Em 1954, armou-se uma situação em que sairia escorraçado.
Escorracei-os entrando para a história, e escorraçados meus inimigos estão até
hoje, obrigados a conviver com suas infâmias.
Do
seu patrício,
Getúlio
Vargas
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Fonte: Folha de São Paulo, edição do dia 18/11/2015 (versão para assinantes).
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