quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

La profunda necesidad humana y el deseo de vivir

Escrevi o breve artigo aí abaixo para um periódico em língua espanhola.

Foto: "Untitled"
by YongJun Qin
Foto by YongJun Qin

Ivonaldo Leite

La cuestión de la “necesidad más profunda del ser humano” es polémica, pero como dijo Erich Fromm[1], tal vez sea posible considerar la  necesidad de superar la separatidad como uno de los sus principales desafíos. El total  fracaso en el logro de tal finalidad puede significar la locura, pues el pánico del aislamiento absoluto sólo puede vencerse mediante un retraimiento tan radical del mundo exterior que el sentimiento de separación se disipa, ya que el mundo exterior, de lo cual se está separado, ha desaparecido.
En su existencia, el ser humano enfrenta la solución de un problema que es siempre el mismo, es decir, el problema de cómo transcender la propia vida individual y encontrar compensación. Habla la historia: es la misma cosa para el hombre primitivo que habita en cavernas, el nómada que cuida de sus rebaños, el pastor egipcio, el mercador fenicio, el soldado romano, el monje medieval, el samurái japonés, el empleado y el obrero modernos ¿Por qué?
Muy bien, el problema es el mismo pues nace en el mismo terreno, es decir, la situación del ser humano y sus condiciones de existencia. Hay más de un camino para llegar a la respuesta. Conforme enfatiza Fromm, la solución se puede alcanzar por medio de la adoración de animales, del sacrificio humano o las conquistas militares, por la complacencia en la lujuria, el renunciamiento ascético, el trabajo obsesivo, la creación artística, el amor a Dios, entre otros. Y si bien las respuestas son muchas no son, todavía, innumerables.
Por el contrario, en cuanto se dejan de lado las diferencias menores, que corresponden más a aspectos secundarios, se descubre que el ser humano sólo ha dado una cantidad limitada de respuestas, e que no pudo haber dado más en las diversas culturas en que vivió.
En verdad, las respuestas dependen, generalmente, del grado de individualización logrado por el individuo. En el infante, la yoidad se ha desarrollado apenas; él aún se siente uno con su madre, no experimenta el sentimiento de separatidad mientras su madre está presente. Su sensación de soledad es creada por la presencia física de la madre. Sólo en el grado en que el niño desarrolla su sensación de separatidad e individualidad, la presencia física de la madre deja de ser suficiente y surge la necesidad de superar de otras formas la separatidad.
De la misma manera, la especie humana, en su infancia, se siente una con la naturaleza. En suelo, los animales, las plantas, constituyen aún el mundo del ser humano, quien se identifica con los animales, como lo expresa, por ejemplo, el uso que hace de máscaras animales, la adoración de un animal totémico o de dioses animales. Pero cuanto más se liberta la especie humana de tales vínculos primarios, más intensa se torna la necesidad de encontrar otras maneras de escapar del estado de separación.
Un modo de alcanzar ese objetivo consiste en diversas clases de estados orgiásticos. Éstos pueden tener el aspecto de un trance autoinducido. Varios rituales de tribus primitivas ofrecen un vívido cuadro de este tipo de solución. Según parece, el ser humano puede seguir durante cierto tiempo, después de la experiencia, sin sufrir demasiado con el factor que causa su separatividad. Pero, lentamente, la tensión de la angustia comienza a aumentar nuevamente.
Volvemos al comienzo. La necesidad más profunda del ser humano parece tener caminos para marchar, pero no lugar para llegar.



[1] FROMM, Eric. El arte de amar. Buenos Aires: Paidós, 2010. 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Sobre "ingênuos", fascistas à brasileira e seus cúmplices: aos que defendem um golpe militar

O texto aí abaixo é da escritora e documentarista Eliane Brum, a propósito das manifestações em defesa da instalação de uma nova ditadura militar no Brasil. Entre os que defendem essa sandice há de tudo um pouco: fascistas e seus cúmplices, assim como determinados "ingênuos", que, em certos casos, embarcam na onda por analfabetismo histórico. O texto de Brum, inicialmente escrito para o jornal El País, é lapidar. Vale a leitura. 



Cenas cotidianas no Brasil sob a ditadura militar, entre 1964-1985

Por Eliane Brum
 Quando escuto brasileiros fazendo manifestação pela volta da ditadura, penso que eles não podem saber o que estão dizendo. Quem sabe, não diz. Mas esse primeiro pensamento é uma mistura de arrogância e de ingenuidade. O mais provável é que uma parte significativa desses homens e mulheres que têm se manifestado nas ruas desde o final das eleições, orgulhosos de sua falta de pudor, peçam a volta dos militares ao poder exatamente porque sabem o que dizem. Mas talvez seja preciso manter não a arrogância, mas a ingenuidade de acreditar que não sabem, porque quem sabe não diria, não poderia dizer. Não seria capaz, não ousaria. É para estes, os que desconhecem o seu dizer, estes, que talvez nem existam, que amplio aqui a voz das crianças torturadas, de várias maneiras, pela ditadura.
Crianças. Torturadas. De várias maneiras.
Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha dois anos e três meses. Foi considerado terrorista, “Elemento Menor Subversivo”, banido do país por decreto presidencial. Foi preso em 18 de maio de 1970, em São Paulo, com sua mãe, Jovelina Tonello do Nascimento. O pai, Manoel Dias do Nascimento, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada por Carlos Lamarca, havia sido preso horas antes. Ernesto é quem conta:
“Me levaram diversas vezes às sessões de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar, com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo”.
O menino de dois anos dizia: “Não pode bater no papai. Não pode”.
E batiam.
Libertado quase um mês depois, passou os primeiros anos com pavor de policiais de farda e grupos com mais de quatro pessoas. Entrava em pânico, escondia-se debaixo da cama ou dentro do armário, mordia quem se aproximava e urinava nas calças. Ernesto foi uma criança com pesadelos recorrentes. O mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. “O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.”
Ernesto é um dos 44 adultos torturados na infância – física e psicologicamente, mas também de outras maneiras – que contam sua história em um livro lançado em novembro pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Infância roubada – crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil é a memória do inominável que precisa ser nomeado para que cada um deles possa viver, para que o crime de Estado não se repita. A maioria dos depoimentos foi registrada em audiências na Comissão da Verdade de São Paulo. Algumas pessoas, que não puderam comparecer ou não conseguiam falar sobre o assunto, foram entrevistadas depois.
O que dizer sobre crianças torturadas pelo Estado? E torturadas ontem, em parâmetros históricos, bem aqui? Os relatos desse livro são alheios aos adjetivos. São silêncios que falam. E soluçam. Como João Carlos Schmidt de Almeida Grabois, o Joca, antes mesmo de nascer. Ele estava na barriga da mãe, Crimeia, quando ela levou choques elétricos, foi espancada em diversas partes do corpo e agredida a socos no rosto. Enquanto ela era assim brutalizada, os agentes da repressão ameaçavam sequestrar seu bebê tão logo nascesse. Quando os carcereiros pegavam as chaves para abrir a porta da cela e levar Crimeia à sala de tortura, o bebê começou a soluçar dentro da barriga. Joca nasceu na prisão e, anos depois, já crescido, quando ouvia o barulho de chaves, voltava a soluçar. A marca da ditadura nele é um soluço.
Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”. O pai de Joca foi assassinado pelo regime militar meses depois de o menino nascer. A primeira vez que ele viu o rosto do pai foi aos 18 anos, numa foto nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo.
Carlos Alexandre Azevedo, o Cacá, não suportou a lembrança. Talvez porque ele nunca pôde transformá-la em memória. Era nele algo vivo e sem palavras, um silêncio que não conseguia se dizer. E um silêncio que não consegue se dizer é um pavor. Ele tinha um ano e oito meses quando sua casa foi invadida por policiais do DOPS/SP, em janeiro de 1974. Como começou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que de imediato sangrou. Passou mais de 15 horas em poder da repressão, nas mãos de funcionários do Estado, enquanto lá fora gente demais vivia suas vidas fingindo que nada acontecia. Seus pais ouviram relatos de que nesse período o menino, pouco mais que um bebê, teria levado choques elétricos. Cacá se matou aos 40 anos, em 2013. Seu pai diria: “Ele ficou apavorado. E esse pavor tomou conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da angústia”.
Ângela Telma de Oliveira Lucena escolheu lembrar. Tinha três anos e meio quando executaram o pai diante dela. Ângela diz:
“Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que, se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. (…) As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. (…) Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da sua morte”.
Houve Paulo Fonteles Filho, cujo parto da mãe foi uma tortura iniciada por policiais, completada pelo médico. Aos cinco meses de gestação, Hecilda era espancada com socos e pontapés, aos gritos de: “Filho dessa raça não deve nascer”. Era mantida acordada a noite inteira com uma luz forte no rosto, no que se chamava de “tortura dos refletores”. Depois, sentada numa cadeira, os fios subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios, causando calor, frio, asfixia. Mais tarde, foi colocada numa cela cheia de baratas. Ela já não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitou-se no chão. As baratas começaram a roê-la. Ela só conseguiu tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Levaram-na então para o Hospital da Guarnição do Exército, em Brasília. Ela lembra da irritação extrema do médico, que induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Hecilda não chorou. Ela conta no livro Luta, Substantivo Feminino: Mulheres Torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos: “Depois disso ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a ‘fera’ que estava ali”. Assim é contado o nascimento de Paulo, assim é como ele começa a se contar. Nascido entre feras – nenhuma delas a sua mãe. Nascido entre humanos, os mais brutais entre as feras.
E há aqueles que não nasceram. Como o filho de Isabel Fávero que, aos dois meses de gravidez foi colocada numa sala e torturada com choques, pau de arara, ameaça de estupro e insultos verbais. No quinto dia, abortou. Isabel foi trancada num quarto fechado, onde ficou incomunicável. Ou Nádia Lucia do Nascimento, grávida de seis meses, colocada na temida “cadeira do dragão”. Depois de ter a roupa arrancada, levou choques elétricos por todo o corpo. Abortou. Teve hemorragias e dores, nenhum atendimento médico.
Essa é a memória das crianças da ditadura. É a lembrança de parto de suas mães. Nós, que não fomos torturados, não temos como alcançar como é viver com essa marca –ou tentar fazer marca do que ainda é horror– num momento histórico em que -depois de tudo– alguns brasileiros perderam a vergonha de pedir a volta da ditadura. Podemos tentar nos colocar no lugar desses homens e mulheres, hoje adultos com seus próprios filhos, alguns já avós, nascidos ou presos nos porões em que seus pais foram torturados e alguns deles assassinados. É fundamental tentar vestir o outro, mas não alcançamos. Não há como alcançar. Como é passar pela Avenida Paulista, como aconteceu algumas vezes nas últimas semanas, ouvindo os gritos de gente – gente, certamente gente – gritando por intervenção militar e volta da ditadura. Como é?
Entre as dezenas de relatos desse livro, há um que destoa. Este eu conheci de perto. Testemunhei. Ao contrário da maioria, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut não tinha lembrança da repressão. Sequer sabia o que era ditadura para além de um nome vago, uma história que não lhe dizia respeito. Alguns poderiam supor que talvez fosse melhor assim, mas isso é desconhecer o quanto a ausência da memória é brutal, um buraco que se pressente, mas não se sabe como apalpar.
Sobre ele, a jornalista Tatiana Merlino, que o escutou e assina a edição e a organização primorosa desse livro, diz:
“A ditadura deixou inúmeras marcas nos filhos das vítimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na prisão, serem levados aos órgãos de repressão, clandestinidade, exílio, banimento, etc. Há histórias de horror, de crianças que viram os pais torturados, que foram sequestradas… Mas a história do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que é o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua própria história. A ele foi negado até o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para além da subtração da vida, do corpo, a mentira, a subtração da verdade. Quais são os impactos desse crime na construção da identidade do Grenaldo? É essa lacuna, que são se pode mensurar, que me toca profundamente”.
Meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que só acontece na vida real. Se fosse ficção, a história seria considerada tão fantasiosa que soaria de má qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista Época e minha atribuição era contar o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela sua trajetória pessoal e familiar. Fiz várias reportagens e, no início do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o bebê perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, país que naquele momento ele começava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estatísticas como as da mortalidade materna.
Durante a investigação jornalística, descobri uma curiosa coincidência. O médico que assinou o atestado de óbito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. Sérgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era então gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica em que Lula trabalhava como operário, e também funcionário do Instituto Médico Legal de São Paulo. Numa das páginas da reportagem havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade do regime militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avião da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripulação, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a versão do regime: “Encurralado, terrorista suicidou-se”.
Três décadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a história de Lula e Lourdes, moveu lembranças insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeronáutica, José Barazal Alvarez, então com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relatório e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa espécie de carta testamento, Grenaldo contava as razões do sequestro para o filho e prometia buscar a família tão logo chegasse ao Uruguai. José manteve segredo do que viu por 30 anos, não mencionou nada nem mesmo à própria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por não ter se completado, teria de ter causado estrago. Era desse pesadelo que José queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro “suicidado” na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai – e a libertação.
Eu procurei o filho. Mas mesmo entre as organizações de mortos e desaparecidos políticos da ditadura, a trajetória, as circunstâncias e a intenção do marinheiro que sequestrou um avião tinha muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente João Goulart. Destes, 414 foram condenados à prisão. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia até ressurgir num avião da Varig.
Tentei vários caminhos para encontrar seu filho, não consegui. Quando o telefone da minha mesa na redação tocou, eu ainda o procurava, mas já tinha escassas esperanças. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo tão prosaico, um clichê. Uma mulher folheava distraída uma revista velha no consultório do dentista, quando se deparou com o nome bastante raro. De imediato ligou para a irmã: “Leila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Será que não é o pai dele?”.
O marido de Leila não falava do pai. Ele era sobrevivente de uma infância arruinada, na qual o legado do pai era um “sangue ruim”. Sua mãe nunca soube das ações políticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como “terrorista”, ela não pôde entender. Mônica Mesut já conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corrêa e teve pelo menos dois negócios fracassados. Em 1971, começou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar para dar a família uma vida melhor e só voltou a aparecer num avião da Varig. O filho tinha quatro anos.
Até a vida adulta, do pai ele só sabia que era “ladrão” e “terrorista”. A família era muito pobre, sem nenhuma formação política e precária educação. Grenaldo, o filho, cresceu num cenário em que tudo faltava, entre uma mãe alcoólatra, um tio violento e uma avó devastada. Christina, a avó, e Mônica, a mãe, já eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um bebê nos braços de uma mulher morta. Sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era Mônica, a mãe de Grenaldo, que em 1972 não suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma família na qual o passado já era trevas, mais um apagamento fazia todo o sentido.
Quando Grenaldo ainda era criança, Mônica literalizou a destruição da memória ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu a quase nada. Morreria só anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a mãe eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai só emergia pelo ódio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: “Seu filho de ladrão!”. E então, quando ele tinha 35 anos, já professor de educação física e pai de família, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma história diferente. Na mesma página de revista, José reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo deparou-se com a face desconhecida do próprio pai.
O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de São Paulo. Eu carregava vários livros sobre a ditadura para dar a ele e um enorme temor. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho notícias do pai? Como se faz algo assim tão enorme, com que palavras? Me senti tão insuficiente. Cheguei mais cedo, como sempre faço, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaixão. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possuía ali o poder de acabar com o delicado equilíbrio que ele havia alcançado com um esforço impossível de mensurar. Percebi que ele não tinha a menor ideia do que ia ouvir. Naquele momento, Grenaldo começou uma travessia em busca de um pai e de um país. Os dois, ao mesmo tempo. E eu era a ponte imperfeita e aquém diante dele. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado na cama de roupa e ficado ali de olhos estalados até o dia amanhecer, porque era tão grande aquilo, grande demais.
Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e José, o ex-militar. A cena era impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de José. E José libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida não cabia em nós.
José encerrava ali três décadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repressão. E Grenaldo iniciava uma série de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.
Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inquérito militar espalhadas pelo chão da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e nós dois tentando desvendar aquele quebra-cabeça macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?
Grenaldo tinha – tem – algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua infância, algo que eu já vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo. Consegui localizar a última pessoa a encontrar seu pai com vida no avião e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem “suicidado com um tiro na nuca”. A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo José, um carretel de pescaria enrolado com fita crepe.
Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho pôde receber uma indenização do Estado. Meses depois, ele reencontrou a avó paterna no Maranhão e resgatou os laços perdidos com uma família que não sabia que tinha. Ele soube então que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avião, o marinheiro perseguido pela repressão tinha visitado a mãe, para dar a notícia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atrás do retrato estava escrito: “São três anos que completo, sou um meninão. Um dia vou crescer, visitar o Maranhão. Naldinho. 9/6/71”. Passaram-se mais de três décadas até ele desembarcar no aeroporto de São Luís, onde a avó o esperava. Viveram uma relação de afeto pungente até a morte dela.
Nunca conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai jamais será completado. É enorme a tragédia de uma carta que não encontra seu destinatário. Essa letra perdida será sempre um buraco que Grenaldo terá de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a construção da memória. Hoje ele tem um pai – e tem um país. E é com os pedaços faltantes de ambos que precisa lidar. Grenaldo se prepara agora para contar para sua filha mais velha a história do avô. E às vezes, quando um dos dois filhos diz que não consegue fazer alguma coisa, ele diz: “Não fale que você não consegue, essa palavra não pode existir. Você é neto do Grenaldo!”.
Não sei quem são os brasileiros que gritam nas ruas pedindo a volta da ditadura. Desconheço as pessoas que clamam por intervenção militar como se isso não fosse uma vergonha, uma indignidade, e sim a prerrogativa de “cidadãos de bem”. Acho que nunca tive tanto medo desse deformado discurso “do bem” quanto hoje, essa época em que todo o pudor foi perdido e a ignorância da História é ostentada como um troféu. Sei que são pessoas, porque só humanos são capazes de algo tão brutal.

Dizem que eram “apenas” 400 no primeiro sábado de dezembro, em São Paulo. Alegam que 400 pedindo intervenção militar é pouco. Eu digo que um é muito. Respeito o direito que têm de se expressar, porque ao fazê-lo reforçam a expressão máxima da democracia, na grandeza de acolher a voz até mesmo de quem exige o seu fim. Mas me reservo o direito de, por um momento, escolher a ingenuidade. Prefiro acreditar que vocês não sabem do que falam nem o que pedem. Não podem saber. Se soubessem, não ousariam.
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Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2014/12/08/opinion/1418042130_286849.html

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sentidos para o Natal

Da pena do português Ruy Belo,  uma reflexão sobre o Natal (in Obra Poética de Ruy Belo, vol 3, Lisboa: Editorial Presença, 1998) - mantenho o grafo lusitano do texto.

triste natal
'Janelas de Natal': quais sentidos?
Por Ruy Belo 

Aí temos mais uma vez o Natal. Chega inexoravelmente, como o cair das folhas ou a velhice. Veio, éramos nós pequenos, vem hoje que a vida passou por nós, continuará a vir amanhã independentemente de nós. O que de nós depende é recebê-lo ou não. Transmitiram-no-lo os nossos pais, olhámo-lo originalmente com esses olhos lavados que trouxemos ao mundo, capazes ainda da grande intensidade de uma primeira visão. Que terá acontecido depois? Os dias repetiram-se, alguma coisa ruiu perto de nós. Continuará a vir o feriado nacional ou a festa da família, mas não há nada que nasça dentro de nós. E, no final do ano, nem teremos coragem de deitar pela janela fora as coisas velhas, porque ficaríamos nus. Foi Natal lá fora, nos outros, mas em nós ninguém nasceu. Talvez ombros alheios nos tenham contagiado uma certa animação por essas ruas engalanadas, um vago sentimentalismo ter-nos-á empurrado para dentro de um comboio, a caminho da família, da quinta ou da aldeia.
(...) Esqueceu-se que há uma realidade por trás de todo o movimento de gente que enche os comboios, sobrecarrega de trabalho o serviço dos Correios e requer a intervenção do Grémio dos Lojistas para decretar horas especiais de encerramento do comércio. Na alegria das crianças, no aconchego dos lares, no colorido das ruas, oculta-se um mesmo motivo a aproveitar por todo aquele que não quer virar o rosto às realidades.
(...) Mera questão de palavras? É possível que sim. No entanto, a gramática está longe de ser um instrumento tão inocente como poderia parecer à primeira vista. Por trás da gramática, está a lógica e para além dela a vida. A palavra é um bem perigoso, porque dá testemunho da realidade. É tarefa vã, mas possível e tentadora agir sobre os termos para deteriorar os conceitos e desviar a inteligência e a memória das situações que lhes deram origem. (...) Não se pode esperar que o homem humilde da rua vá à raiz da palavra beber a vida. Urge facilitar-lhe a tarefa, desimpedir-lhe o caminho.
(...) O Natal não é mera questão de coração ou de sentimento, embora também o seja. Não se trata de um mero “símbolo eterno”, como é possível que se diga nos jornais e depois o leitor tome como verdade. Não se celebra uma cerimónia, nem tão-pouco se cumpre um simples ritual. Oxalá as crianças pudessem ver nas pessoas crescidas que hoje somos a certeza de um ideal vivido. Haveremos de brincar com as crianças? 
Dá por vezes tristeza ver, entre outras coisas, os cartões de boas-festas que nos chegam. Trazem-nos as paisagens geladas do Norte, mostram-nos árvores que as nossas crianças nunca viram. Tudo isto por se imitar servilmente.
Fazer ver estas coisas equivale, parece-nos a nós, a pôr os pontos nos “is”. Urge, nestes tempos, aproximar a vida da verdade. Chamar as coisas pelo seu nome é garantir às crianças, que nesta quadra nos olham mais nos olhos, um mundo de amanhã melhor.

O espírito do Natal é este. Se o vivermos assim, ou se pelo menos tivermos o desejo sincero de examinar a forma como o temos vivido, o Natal não passará em vão. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

O conto da ilha desconhecida

Foto: © Amanda Cass
Docked
Sempre se vai onde se quer chegar


Por José Saramago


Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Contudo, no caso do homem que queria um barco, as coisas não se passaram bem assim. Quando a mulher da limpeza lhe perguntou pela nesga da porta, Que é que tu queres, o homem, em lugar de pedir, como era o costume de todos, um título, uma condecoração, ou simplesmente dinheiro, respondeu, Quero falar ao rei, Já sabes que o rei não pode vir, está na porta dos obséquios, respondeu a mulher, Pois então vai lá dizer-lhe que não saio daqui até que ele venha, pessoalmente, saber o que quero, rematou o homem, e deitou-se ao comprido no limiar, tapando-se com a manta por causa do frio. Entrar e sair, só por cima dele. Ora, isto era um enorme problema, se tivermos em consideração que, de acordo com a pragmática das portas, ali só se podia atender um suplicante de cada vez, donde resultava que, enquanto houvesse alguém à espera de resposta, nenhuma outra pessoa se poderia aproximar a fim de expor as suas necessidades ou as suas ambições. À primeira vista, quem ficava a ganhar com este artigo do regulamento era o rei, dado que, sendo menos numerosa a gente que o vinha incomodar com lamúrias, mais tempo ele passava a ter, e mais descanso, para receber, contemplar e guardar os obséquios. À segunda vista, porém, o rei perdia, e muito, porque os protestos públicos, ao notar-se que a resposta estava a tardar mais do que o justo, faziam aumentar gravemente o descontentamento social, o que, por seu turno, ia ter imediatas e negativas consequências no afluxo de obséquios. No caso que estamos narrando, o resultado da ponderação entre os benefícios e os prejuízos foi ter ido o rei, ao cabo de três dias, e em real pessoa, à porta das petições, para saber o que queria o intrometido que se havia negado a encaminhar o requerimento pelas competentes vias burocráticas. Abre a porta, disse o rei à mulher da limpeza, e ela perguntou, Toda, ou só um bocadinho. O rei duvidou por um instante, na verdade não gostava muito de se expor aos ares da rua, mas depois reflexionou que pareceria mal, além de ser indigno da sua majestade, falar com um súdito através de uma nesga, como se tivesse medo dele, mormente estando a assistir ao colóquio a mulher da limpeza, que logo iria dizer por aí sabe Deus o quê, De par em par, ordenou. O homem que queria um barco levantou-se do degrau da porta quando começou a ouvir correr os ferrolhos, enrolou a manta e pôs-se à espera. Estes sinais de que finalmente alguém vinha atender, e que portanto a praça não tardaria a ficar desocupada, fizeram aproximar-se da porta uns quantos aspirantes à liberalidade do trono que por ali andavam, prontos a assaltar o lugar mal ele vagasse. O inopinado aparecimento do rei (nunca uma tal coisa havia sucedido desde que ele andava de coroa na cabeça) causou uma surpresa desmedida, não só aos ditos candidatos mas também à vizinhança que, atraída pelo repentino alvoroço, assomara às janelas das casas, no outro lado da rua. A única pessoa que não se surpreendeu por aí além foi o homem que tinha vindo pedir um barco. Calculara ele, e acertara na previsão, que o rei, mesmo que demorasse três dias, haveria de sentir-se curioso de ver a cara de quem, sem mais nem menos, com notável atrevimento, o mandara chamar. Repartido pois entre a curiosidade que não pudera reprimir e o desagrado de ver tanta gente junta, o rei, com o pior dos modos, perguntou três perguntas seguidas, Que é que queres, Por que foi que não disseste logo o que querias, Pensarás tu que eu não tenho mais nada que fazer, mas o homem só respondeu à primeira pergunta, Dá-me um barco, disse. O assombro deixou o rei a tal ponto desconcertado, que a mulher da limpeza se apressou a chegar-lhe uma cadeira de palhinha, a mesma em que ela própria se sentava quando precisava de trabalhar de linha e agulha, pois, além da limpeza, tinha também à sua responsabilidade alguns, trabalhos menores de costura no palácio como passajar as peúgas dos pajens. Mal sentado, porque a cadeira de palhinha era muito mais baixa que o trono, o rei estava a procurar a melhor maneira de acomodar as pernas, ora encolhendo-as ora estendendo-as para os lados, enquanto o homem que queria um barco esperava com paciência a pergunta que se seguiria, E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou quando finalmente se deu por instalado, com sofrível comodidade, na cadeira da mulher da limpeza, Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, Quem foi que te disse, rei, que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas, E que ilha desconhecida é essa de que queres ir à procura, Se eu to pudesse dizer, então não seria desconhecida, A quem ouviste tu falar dela, perguntou o rei, agora mais sério, A ninguém, Nesse caso, por que teimas em dizer que ela existe, Simplesmente porque é impossível que não exista uma ilha desconhecida, E vieste aqui para me pedires um barco, Sim, vim aqui para pedir-te um barco, E tu quem és, para que eu to dê, E tu quem és, para que não mo dês, Sou o rei deste reino, e os barcos do reino pertencem-me todos, Mais lhes pertencerás tu a eles do que eles a ti, Que queres dizer, perguntou o rei, inquieto, Que tu, sem eles, és nada, e que eles, sem ti, poderão sempre navegar, Às minhas ordens, com os meus pilotos e os meus marinheiros, Não te peço marinheiros nem piloto, só te peço um barco, E essa ilha desconhecida, se a encontrares, será para mim, A ti, rei, só te interessam as ilhas conhecidas, Também me interessam as desconhecidas quando deixam de o ser, Talvez esta não se deixe conhecer, Então não te dou o barco, Darás. Ao ouvirem esta palavra, pronunciada com tranquila firmeza, os aspirantes à porta das petições, em quem, minuto após minuto, desde o princípio da conversa, a impaciência vinha crescendo, e mais para se verem livres dele do que por simpatia solidária, resolveram intervir a favor do homem que queria o barco, começando a gritar, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. O rei abriu a boca para dizer à mulher da limpeza que chamasse a guarda do palácio a vir restabelecer imediatamente a ordem pública e impor a disciplina, mas, nesse momento, as vizinhas que assistiam das janelas juntaram-se ao coro com entusiasmo, gritando como os outros, Dá-lhe o barco, dá-lhe o barco. Perante uma tão iniludível manifestação da vontade popular e preocupado com o que, neste meio tempo, já haveria perdido na porta dos obséquios, o rei levantou a mão direita a impor silêncio e disse, Vou dar-te um barco, mas a tripulação terás de arranjá-la tu, os meus marinheiros são-me precisos para as ilhas conhecidas. Os gritos de aplauso do público não deixaram que se percebesse o agradecimento do homem que viera pedir um barco, aliás o movimento dos lábios tanto teria podido ser Obrigado, meu senhor, como Eu cá me arranjarei, mas o que distintamente se ouviu foi o dito seguinte do rei, Vais à doca, perguntas lá pelo capitão do porto, dizes-lhe que te mandei eu, e ele que te dê o barco, levas o meu cartão. O homem que ia receber um barco leu o cartão de visita, onde dizia Rei por baixo do nome do rei, e eram estas as palavras que ele havia escrito sobre o ombro da mulher da limpeza, Entrega ao portador um barco, não precisa ser grande, mas que navegue bem e seja seguro, não quero ter remorsos na consciência se as coisas lhe correrem mal. Quando o homem levantou a cabeça, supõe-se que desta vez é que iria agradecer a dádiva, já o rei se tinha retirado, só estava a mulher da limpeza a olhar para ele com cara de caso. O homem desceu do degrau da porta, sinal de que os outros candidatos podiam enfim avançar, nem valeria a pena explicar que a confusão foi indescritível, todos a quererem chegar ao sítio em primeiro lugar, mas com tão má sorte que a porta já estava fechada outra vez. A aldraba de bronze tornou a chamar a mulher da limpeza, mas a mulher da limpeza não está, deu a volta e saiu com o balde e a vassoura por outra porta, a das decisões, que é raro ser usada, mas quando o é, é. Agora sim, agora pode-se compreender o porquê da cara de caso com que a mulher da limpeza havia estado a olhar, foi esse o preciso momento em que ela resolveu ir atrás do homem quando ele se dirigisse ao porto a tomar conta do barco. Pensou ela que já bastava de uma vida a limpar e a lavar palácios, que tinha chegado a hora de mudar de ofício, que lavar e limpar barcos é que era a sua vocação verdadeira, no mar, ao menos, a água nunca lhe faltaria. O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.
Andando, andando, o homem chegou ao porto, foi à doca, perguntou pelo capitão, e enquanto ele não chegava deitou-se a adivinhar qual seria, de quantos barcos ali estavam, o que iria ser o seu, grande já se sabia que não, o cartão de visita do rei era muito claro neste ponto, por conseguinte ficavam de fora os paquetes, os cargueiros e os navios de guerra, tão-pouco poderia ser ele tão pequeno que resistisse mal às forças do vento e aos rigores do mar, o rei também havia sido categórico neste ponto, Que navegue bem e seja seguro, foram estas as suas formais palavras, assim implicitamente excluindo os botes, as faluas e os escaleres, os quais, sendo bons navegantes, e seguros, conforme a condição de cada qual, não tinham nascido para sulcar os oceanos, que é onde se encontram as ilhas desconhecidas. Um pouco afastada dali, escondida por trás de uns bidões, a mulher da limpeza correu os olhos pelos barcos atracados, Para o meu gosto, aquele, pensou, porém a sua opinião não contava, nem sequer havia sido ainda contratada, vamos ouvir antes o que dirá o capitão do porto. O capitão veio, leu o cartão, mirou o homem de alto a baixo, e fez a pergunta que o rei se tinha esquecido de fazer, Sabes navegar, tens carta de navegação, ao que o homem respondeu, Aprenderei no mar. O capitão disse, Não to aconselharia, capitão sou eu, e não me atrevo com qualquer barco, Dá-me então um com que possa atrever-me eu, não, um desses não, dá-me antes um barco que eu respeite e que possa respeitar-me a mim, Essa linguagem é de marinheiro, mas tu não és marinheiro, Se tenho a linguagem, é como se o fosse. O capitão tornou a ler o cartão do rei, depois perguntou, Poderás dizer-me para que queres o barco, Para ir à procura da ilha desconhecida, Já não há ilhas desconhecidas, O mesmo me disse o rei, O que ele sabe de ilhas, aprendeu-o comigo, É estranho que tu, sendo homem do mar, me digas isso, que já não há ilhas desconhecidas, homem da terra sou eu, e não ignoro que todas as ilhas, mesmo as conhecidas, são desconhecidas enquanto não desembarcarmos nelas, Mas tu, se bem entendi, vais à procura de uma onde nunca ninguém tenha desembarcado, Sabê-lo-ei quando lá chegar, Se chegares, Sim, às vezes naufraga-se pelo caminho, mas, se tal me viesse a acontecer, deverias escrever nos anais do porto que o ponto a que cheguei foi esse, Queres dizer que chegar, sempre se chega, Não serias quem és se não o soubesses já. O capitão do porto disse, Vou dar-te a embarcação que te convém, Qual é ela, É um barco com muita experiência, ainda do tempo em que toda a gente andava à procura de ilhas desconhecidas, Qual é ele, Julgo até que encontrou algumas, Qual, Aquele. Assim que a mulher da limpeza percebeu para onde o capitão apontava, saiu a correr de detrás dos bidões e gritou, É o meu barco, é o meu barco, há que perdoar-lhe a insólita reivindicação de propriedade, a todos os títulos abusiva, o barco era aquele de que ela tinha gostado, simplesmente. Parece uma caravela, disse o homem, Mais ou menos, concordou o capitão, no princípio era uma caravela, depois passou por arranjos e adaptações que a modificaram um bocado, Mas continua a ser uma caravela, Sim, no conjunto conserva o antigo ar, E tem mastros e velas, Quando se vai procurar ilhas desconhecidas, é o mais recomendável. A mulher da limpeza não se conteve, Para mim não quero outro, Quem és tu, perguntou o homem, Não te lembras de mim, Não tenho idéia, Sou a mulher da limpeza, Qual limpeza, A do palácio do rei, A que abria a porta das petições, Não havia outra, E por que não estás tu no palácio do rei a limpar e a abrir portas, Porque as portas que eu realmente queria já foram abertas e porque de hoje em diante só limparei barcos, Então estás decidida a ir comigo procurar a ilha desconhecida, Saí do palácio pela porta das decisões, Sendo assim, vai para a caravela, vê como está aquilo, depois do tempo que passou deve precisar de uma boa lavagem, e tem cuidado com as gaivotas, que não são de fiar, Não queres vir comigo conhecer o teu barco por dentro, Tu disseste que era teu, Desculpa, foi só porque gostei dele, Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter, ter deve ser a pior maneira de gostar. O capitão do porto interrompeu a conversa, Tenho de entregar as chaves ao dono do barco, a um ou a outro, resolvam-se, a mim tanto se me dá, Os barcos têm chave, perguntou o homem, Para entrar, não, mas lá estão as arrecadações e os paióis, e a escrivaninha do comandante com o diário de bordo, Ela que se encarregue de tudo, eu vou recrutar a tripulação, disse o homem, e afastou-se.
A mulher da limpeza foi ao escritório do capitão para recolher as chaves, depois entrou no barco, duas coisas lhe valeram aí, a vassoura do palácio e a prevenção contra as gaivotas, ainda não tinha acabado de atravessar a prancha que ligava a amurada ao cais e já as malvadas estavam a precipitar-se sobre ela aos guinchos, furiosas, de goela aberta, como se ali mesmo a quisessem devorar. Não sabiam com quem se metiam. A mulher da limpeza pousou o balde, meteu as chaves no seio, firmou bem os pés na prancha, e, redemoinhando a vassoura como se fosse um espadão dos tempos antigos, fez debandar o bando assassino. Foi só quando entrou no barco que compreendeu a ira das gaivotas, havia ninhos por toda a parte, muitos deles abandonados, outros ainda com ovos, e uns poucos com gaivotinhos de bico aberto, à espera da comida, Pois sim, mas o melhor é mudarem-se daqui, um barco que vai procurar a ilha desconhecida não pode ter este aspecto, como se fosse um galinheiro, disse. Atirou para a água os ninhos vazios, quanto aos outros deixou-os ficar, até ver. Depois arregaçou as mangas e pôs-se a lavar a coberta. Quando acabou a dura tarefa, foi abrir o paiol das velas e procedeu a um exame minucioso do estado das costuras, depois de tanto tempo sem irem ao mar e sem terem de suportar os esticões saudáveis do vento. As velas são os músculos do barco, basta ver como incham quando se esforçam, mas, e isso mesmo sucede aos músculos, se não se lhes dá uso regularmente, abrandam, amolecem, perdem nervo, E as costuras são como os nervos das velas, pensou a mulher da limpeza, contente por estar a aprender tão depressa a arte de marinharia. Achou esgarçadas algumas bainhas, mas contentou-se com assinalá-las, uma vez que para este trabalho não podiam servir a linha e a agulha com que passajava as peúgas dos pajens antigamente, quer dizer, ainda ontem. Quanto aos outros paióis, viu logo que estavam vazios. Que o da pólvora estivesse desmunido, salvo uns pozinhos negros no fundo, que primeiro mais lhe pareceram caganitas de rato, não lhe importou nada, de facto não está escrito em nenhuma lei, pelo menos até onde a sabedoria duma mulher da limpeza é capaz de alcançar, que ir em busca duma ilha desconhecida tenha de ser forçosamente uma empresa de guerra. Já a ralou, e muito, a falta absoluta de munições de boca no paiol respectivo, não por si própria, que estava mais do que acostumada ao mau passadio do palácio, mas por causa do homem a quem deram este barco, não tarda que o sol se ponha, e ele a aparecer-me aí a clamar que tem fome, que é o dito de todos os homens mal entram em casa, como se só eles é que tivessem estômago e sofressem da necessidade de o encher, E se já traz marinheiros para a tripulação, que são uns ogres a comer, então é que não sei como nos iremos governar, disse a mulher da limpeza.
Não valia a pena ter-se preocupado tanto. O sol havia acabado de sumir-se no oceano quando o homem que tinha um barco surgiu no extremo do cais. Trazia um embrulho na mão, porém vinha sozinho e cabisbaixo. A mulher da limpeza foi esperá-lo à prancha, mas antes que ela abrisse a boca para se inteirar de como lhe tinha corrido o resto do dia, ele disse, Está descansada, trago aqui comida para os dois, E os marinheiros, perguntou ela, Não veio nenhum, como podes ver, Mas deixaste-os apalavrados, ao menos, tornou ela a perguntar, Disseram-me que já não há ilhas desconhecidas, e que, mesmo que as houvesse, não iriam eles tirar-se do sossego dos seus lares e da boa vida dos barcos de carreira para se meterem em aventuras oceânicas, à procura de um impossível, como se ainda estivéssemos no tempo do mar tenebroso, E tu, que lhes respondeste, Que o mar é sempre tenebroso, E não lhes falaste da ilha desconhecida, Como poderia falar-lhes eu duma ilha desconhecida, se não a conheço, Mas tens a certeza de que ela existe, Tanta como a de ser tenebroso o mar, Neste momento, visto daqui, com aquela água cor de jade e o céu como um incêndio, de tenebroso não lhe encontro nada, É uma ilusão tua, também as ilhas às vezes parece que flutuam sobre as águas, e não é verdade, Que pensas fazer, se te falta a tripulação, Ainda não sei, Podíamos ficar a viver aqui, eu oferecia-me para lavar os barcos que vêm à doca, e tu, E eu, Tens com certeza um mester, um ofício, uma profissão, como agora se diz, Tenho, tive, terei se for preciso, mas quero encontrar a ilha desconhecida, quero saber quem sou eu quando nela estiver, Não o sabes, Se não sais de ti, não chegas a saber quem és, O filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo o homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa. O incêndio do céu ia esmorecendo, a água arroxeou-se de repente, agora nem a mulher da limpeza duvidaria de que o mar é mesmo tenebroso, pelo menos a certas horas. Disse o homem, Deixemos as filosofias para o filósofo do rei, que para isso é que lhe pagam, agora vamos nós comer, mas a mulher não esteve de acordo, Primeiro, tens de ver o teu barco, só o conheces por fora, Que tal o encontraste, Há algumas bainhas das velas que estão a precisar de reforço, Desceste ao porão, encontraste água aberta, No fundo vê-se alguma, de mistura com o lastro, mas isso parece que é próprio, faz bem ao barco, Como foi que aprendeste essas coisas, Assim, Assim como, Como tu, quando disseste ao capitão do porto que aprenderias a navegar no mar, Ainda não estamos no mar, Mas já estamos na água, Sempre tive a idéia de que para a navegação só há dois mestres verdadeiros, um que é o mar, o outro que é o barco, E o céu, estás a esquecer-te do céu, Sim, claro, o céu, Os ventos, As nuvens, O céu, Sim, o céu.
Em menos de um quarto de hora tinham acabado a volta pelo barco, uma caravela, mesmo transformada, não dá para grandes passeios. É bonita, disse o homem, mas se eu não conseguir arranjar tripulantes suficientes para a manobra, terei de ir dizer ao rei que já não a quero, Perdes o ânimo logo à primeira contrariedade, A primeira contrariedade foi estar à espera do rei três dias, e não desisti, Se não encontrares marinheiros que queiram vir, cá nos arranjaremos os dois, Estás doida, duas pessoas sozinhas não seriam capazes de governar um barco destes, eu teria de estar sempre ao leme, e tu, nem vale a pena estar a explicar-te, é uma loucura, Depois veremos, agora vamos mas é comer. Subiram para o castelo de popa, o homem ainda a protestar contra o que chamara loucura, e, ali, a mulher da limpeza abriu o farnel que ele tinha trazido, um pão, queijo duro, de cabra, azeitonas, uma garrafa de vinho. A lua já estava meio palmo sobre o mar, as sombras da verga e do mastro grande vieram deitar-se-lhes aos pés. É realmente bonita a nossa caravela, disse a mulher, e emendou logo, A tua, a tua caravela, Desconfio que não o será por muito tempo, Navegues ou não navegues com ela, é tua, deu-ta o rei, Pedi-lha para ir procurar uma ilha desconhecida, Mas estas coisas não se fazem do pé para a mão, levam o seu tempo, já o meu avô dizia que quem vai ao mar avia-se em terra, e mais não era ele marinheiro, Sem tripulantes não poderemos navegar, Já o tinhas dito, E há que abastecer o barco das mil coisas necessárias a uma viagem como esta, que não se sabe aonde nos levará, Evidentemente, e depois teremos de esperar que seja a boa estação, e sair com a boa maré, e vir gente ao cais a desejar-nos boa viagem, Estás a rir-te de mim, Nunca me riria de quem me fez sair pela porta das decisões, Desculpa-me, E não tornarei a passar por ela, suceda o que suceder. O luar iluminava em cheio a cara da mulher da limpeza, É bonita, realmente é bonita, pensou o homem, que desta vez não estava a referir-se à caravela. A mulher, essa, não pensou nada, devia ter pensado tudo durante aqueles três dias, quando entreabria de vez em quando a porta para ver se aquele ainda continuava lá fora, à espera. Não sobrou migalha de pão ou de queijo, nem gota de vinho, os caroços das azeitonas foram atirados para a água, o chão está tão limpo como ficara quando a mulher da limpeza lhe passou por cima o último esfregão. A sereia de um paquete que saía para o mar soltou um ronco potente, como deviam ter sido os do leviatã, e a mulher disse, Quando for a nossa vez faremos menos barulho. Apesar de estarem no interior da doca, a água ondulou um pouco à passagem do paquete, e o homem disse, Mas baloiçaremos muito mais. Riram os dois, depois ficaram calados, passado um bocado um deles opinou que o melhor seria irem dormir, Não é que eu tenha muito sono, e o outro concordou, Nem eu, depois calaram-se outra vez, a lua subiu e continuou a subir, em certa altura a mulher disse, Há beliches lá em baixo, o homem disse, Sim, e foi então que se levantaram, que desceram à coberta, aí a mulher disse, Até amanhã, eu vou para este lado, e o homem respondeu, E eu vou para este, até amanhã, não disseram bombordo nem estibordo, decerto por estarem ainda a praticar na arte. A mulher voltou atrás, Tinha-me esquecido, tirou do bolso do avental dois cotos de vela, Encontrei-os quando andava a limpar, o que não tenho é fósforos, Eu tenho, disse o homem. Ela segurou as velas, uma em cada mão, ele acendeu um fósforo, depois, abrigando a chama sob a cúpula dos dedos curvados, levou-a com todo o cuidado aos velhos pavios, a luz pegou, cresceu lentamente como faz o luar, banhou a cara da mulher da limpeza, nem seria preciso dizer o que ele pensou, É bonita, mas o que ela pensou, sim, Vê-se bem que só tem olhos para a ilha desconhecida, aqui está como as pessoas se enganam nos sentidos do olhar, sobretudo ao princípio. Ela entregou-lhe uma vela, disse, Até amanhã, dorme bem, ele quis dizer o mesmo doutra maneira, Que tenhas sonhos felizes, foi a frase que lhe saiu, daqui a pouco, quando lá estiver em baixo, deitado no seu beliche, vir-lhe-ão à ideia outras frases, mais espirituosas, sobretudo mais insinuantes, como se espera que sejam as de um homem quando está a sós com uma mulher. Perguntava-se se já dormiria, se teria tardado a entrar no sono, depois imaginou que andava à procura dela e não a encontrava em nenhum sítio, que estavam perdidos os dois num barco enorme, o sonho é um prestidigitador hábil, muda as proporções das coisas e as suas distâncias, separa ás pessoas, e elas estão juntas, reúne-as, e quase não se vêem uma à outra, a mulher dorme a poucos metros e ele não soube como alcançá-la, quando é tão fácil ir de bombordo a estibordo.
Tinha-lhe desejado felizes sonhos, mas foi ele quem levou toda a noite a sonhar. Sonhou que a sua caravela ia no mar alto, com as três velas triangulares gloriosamente enfunadas, abrindo caminho sobre as ondas, enquanto ele manejava a roda do leme e a tripulação descansava à sombra. Não percebia como podiam ali estar os marinheiros que no porto e na cidade se tinham recusado a embarcar com ele para ir à procura da ilha desconhecida, provavelmente arrependeram-se da grosseira ironia com que o haviam tratado. Via animais espalhados pela coberta, patos, coelhos, galinhas, o habitual da criação doméstica, debicando os grãos de milho ou roendo as folhas de couve que um marinheiro lhes atirava, não se lembrava de quando os tinha trazido para o barco, fosse como fosse era natural que ali estivessem, imaginemos que a ilha desconhecida é, como tantas vezes o foi no passado, uma ilha deserta, o melhor será jogar pelo seguro, todos sabemos que abrir a porta da coelheira e agarrar um coelho pelas orelhas sempre foi mais fácil do que persegui-lo por montes e vales. Do fundo do porão veio agora um coro de relinchos de cavalos, de mugidos de bois, de zurros de asnos, as vozes dos nobres animais necessários para o trabalho pesado, e como foi que vieram eles, como podem estar numa caravela onde a tripulação humana mal cabe, de súbito o vento deu uma guinada, a vela maior bateu e ondulou, por trás dela estava o que antes não se vira, um grupo de mulheres que mesmo sem as contar se adivinha serem tantas quantos os marinheiros, ocupam-se nas suas coisas de mulheres, ainda não chegou o tempo de se ocuparem doutras, está claro que isto só pode ser um sonho, na vida real nunca se viajou assim. O homem do leme buscou com os olhos a mulher da limpeza e não a viu, Talvez esteja no beliche de estibordo, a descansar da lavagem da coberta, pensou, mas foi um pensar fingido, porque ele bem sabe, embora também não saiba como o sabe, que ela à última hora não quis vir, que saltou para o cais, dizendo de lá, Adeus, adeus, já que só tens olhos para a ilha desconhecida, vou-me embora, e não era verdade, agora mesmo andam os olhos dele a procurá-la e não a encontram. Neste momento o céu cobriu-se e começou a chover, e, tendo chovido, principiaram a brotar inúmeras plantas das fileiras de sacos de terra alinhadas ao longo da amurada, não estão ali porque se suspeite que não haja terra bastante na ilha desconhecida, mas porque assim se ganhará tempo, no dia em que lá chegarmos só teremos que transplantar as árvores de fruto, semear os grãos das pequenas searas que vão amadurecer aqui, enfeitar os canteiros com as flores que desabrocharão destes botões. O homem do leme pergunta aos marinheiros que descansam na coberta se avistam alguma ilha desabitada, e eles respondem que não vêem nem de umas nem das outras, mas que estão a pensar em desembarcar na primeira terra povoada que lhes apareça, desde que haja lá um porto onde fundear, uma taberna onde beber e uma cama onde folgar, que aqui não se pode, com toda esta gente junta. E a ilha desconhecida, perguntou o homem do leme, A ilha desconhecida é coisa que não existe, não passa duma ideia da tua cabeça, os geógrafos do rei foram ver nos mapas e declararam que ilhas por conhecer é coisa que se acabou desde há muito tempo, Devíeis ter ficado na cidade, em lugar de vir atrapalhar-me a navegação, Andávamos à procura de um sítio melhor para viver e resolvemos aproveitar a tua viagem, Não sois marinheiros, Nunca o fomos, Sozinho, não serei capaz de governar o barco, Pensasses nisso antes de ir pedi-lo ao rei, o mar não ensina a navegar. Então o homem do leme viu uma terra ao longe e quis passar adiante, fazer de conta que ela era a miragem de uma outra terra, uma imagem que tivesse vindo do outro lado do mundo pelo espaço, mas os homens que nunca haviam sido marinheiros protestaram, disseram que ali mesmo é que queriam desembarcar, Esta é uma ilha do mapa, gritaram, matar-te-emos se não nos levares lá. Então, por si mesma, a caravela virou a proa em direcção à terra, entrou no porto e foi encostar à muralha da doca, Podeis ir-vos, disse o homem do leme, acto contínuo saíram em correnteza, primeiro as mulheres, depois os homens, mas não foram sozinhos, levaram com eles os patos, os coelhos e as galinhas, levaram os bois, os burros e os cavalos, e até as gaivotas, uma após outra, levantaram voo e se foram do barco transportando no bico os seus gaivotinhos, proeza que não tinha sido cometida antes, mas há sempre uma vez. O homem do leme assistiu à debandada em silêncio, não fez nada para reter os que o abandonavam, ao menos tinham-no deixado com as árvores, os trigos e as flores, com as trepadeiras que se enrolavam nos mastros e pendiam da amurada como festões. Por causa do atropelo da saída haviam-se rompido e derramado os sacos de terra, de modo que a coberta era toda ela como um campo lavrado e semeado, só falta que venha um pouco mais de chuva para que seja um bom ano agrícola. Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetecesse um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
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Fonte: http://www.releituras.com/jsaramago_conto.asp

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

A vida, a felicidade e as escolhas: o espelho e os sentidos

Temos no pensamento social, não há dúvidas, longe de uma determinada "bibliografia folhetim", bases sólidas para tratar da questão da felicidade. O texto aí abaixo é uma pequena amostra disso. 

Por Ronaldo Barbosa Lima*
Presencia-se na atualidade uma concepção difundida de que a lógica capitalista, com o auxílio da publicidade, especula a felicidade como dependente da satisfação dos desejos materiais do homem.
Tal fato contraria a ótica do início do século 20, como observa o sociólogo Max Weber no livro A ética protestante e o espírito do capitalismo, onde eram as leis suntuárias que mostravam ao ser humano o que deveria ser consumido e o que era preciso fazer para ser feliz. Isso mostra como a sociedade moderna, por influência ou não da publicidade comercial, pode se organizar diante da felicidade. Nisto não parece haver implícita ideia religiosa que prometa o paraíso na vida eterna. Pelo contrário, como evidencia o pai da psicanálise, Sigmund Freud, talvez a felicidade consista em poder do narcisismo.
Nesse contexto, podemos deduzir que o discurso publicitário leva muitas vezes o indivíduo a acreditar naquilo que é dito e a lutarem e buscarem todo o prazer proporcionado pelo consumo daquilo que é anunciado. O significado das mercadorias associadas como valor de uso, passa a ser disseminado como dizendo respeito a características que representam o ideal de felicidade da sociedade, por exemplo. Para a publicitária e mestre em Sociologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Lívia Valença da Silva, “esta felicidade abrange uma realização pessoal e profissional que envolve boa aparência e desenvoltura, aprovação social, conforto e bem-estar, estabilidade econômica, status, sucesso no amor e no mercado de trabalho, entre tantos outros elementos”.
Bens descartáveis
Seguindo essa linha de raciocínio, o psicanalista Jurandir Freire Costa, na obra A ética e o espelho da cultura, enfatiza que o homem tem muitas vezes a tendência de acompanhar as metamorfoses sociais, e com todas as mudanças no cotidiano, acaba moldando-se as mesmas, sem muitas vezes se questionarem. Mas, segundo o psicanalista, quando o sujeito se apercebe num emaranhado de atribuições disseminados pela publicidade que nem sempre foram pensadas e analisadas, é que chegam os conflitos e desamparos, porque perdem muitas vezes a noção de singularidade para serem mais um na multidão.
Com efeito, o sociólogo Jean Baudrillard frisa que na cultura do consumo, na qual o homem contemporâneo se encontra inserido: “Como a ‘criança-lobo’ se torna lobo à força de com ele viver, também nós, pouco a pouco nos tornamos funcionais. Vivemos o tempo dos objetos; quero dizer que existimos segundo seu ritmo e em conformidade com sua sucessão permanente” (trecho extraído do livro A sociedade do consumo).
Por conseguinte, e com todas as mudanças ocorridas no contexto social vigente, bem como a produção de bens materiais em larga escala, muitas vezes se sofre a influência dos bens produzidos. Contudo, esses bens propagandeados afiguram-se cada vez mais descartáveis, pois já não se tem mais quem herde o sentido moral e emocional que eles no início do século 20 materializavam. Isso fez o jornalista Arnaldo Jabor carecer que “o futuro virou uma promessa de aperfeiçoamento de produtos com uma velocidade que fez do presente um arcaísmo em processo, uma espécie de passado ao vivo em decomposição”.
Sistema publicitário é um código
Ademais, atualmente o pensamento mais comumente evocado parece com um gozo excessivo proporcionado pela conquista do desejo de consumo aspirado pelo indivíduo. Isso tem tornado os homens vivenciadores de crises de referências, como bem atestam alguns psicanalistas, à medida que percebem que não só a mídia (publicidade), mas, o meio que o cerca tem muitas vezes a capacidade de artificializar as relações humanas, fazendo com que não tenha vontade própria, realizando o desejo e a vontade dos outros e não as suas.
Essas crises referenciais, tomadas como categóricos da perenização do homem contemporâneo, alinham-se às tecnologias suscetíveis de mudanças e a evolução do reclamo comercial podendo ser pontuadas como “alicerçadas nas transformações sociais, subsequentes à conjunção do desenvolvimento das tecnociências, da evolução da democracia e do crescimento do liberalismo econômico, nos obrigando a interrogar a maioria das nossas certezas de ontem”, atesta o psicanalista norte-americano Charles Melman no seu livro O homem sem gravidade. Gozar a qualquer preço.
Mediante esse contexto, a propaganda comercial, que tem sido xingada por uns e bajulada por outros, se mostra também, como a mola propulsora do desenvolvimento democrático. O sistema publicitário, nada mais é que códigos que permitem traduções e ajustes de mensagens provenientes de lógicas distintas. Ou seja, através de códigos, um produto impessoal cria uma identidade que o caracteriza como inserida no universo humano, por mais distante que dele seja a origem.
Prazer, engajamento e significado
Assim, o contexto dos anúncios comerciais suspende a dúvida. Proporciona ver o impossível e acreditar nele. É assistir ao mundo de “Ronaldo, o fenômeno do futebol”, por exemplo, e lutar por ele na perspectiva de uma felicidade plena e absoluta.
Na ótica de como foi exposta, a felicidade influenciada pela publicidade comercial, assemelha-se, parafraseando o psicanalista francês Jacques Lacan, como um imperativo do gozo. Ou seja, passamos de um tempo (início do século 20) em que à felicidade era um desejo, para o tempo em que a felicidade passou a ser uma ordem, um imperativo, onde se deve ser feliz, por meio do consumo de bens materiais publicizados, por exemplo. Nessa ceifa de ideias, o sociólogo Zygmunt Bauman, na obra O mal-estar na pós-modernidade, aborda o tema felicidade frente às transformações sociais, e comenta acerca dos conflitos, desamparos e crises referenciais vivenciadas pelo homem, fazendo um paralelo com o passado e o momento atual, dizendo: “Os mal-estares de anos atrás provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares atuais provêm de uma espécie de liberdade e procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais”.
Nesse contexto, Freud se refere aos “mal-estares” da nossa civilização, como nada mais que uma economia libidinal baseada no gozar. Enquanto, por exemplo, a mais-valia sustenta a economia capitalista em Karl Marx, o gozo sustenta a economia libidinal no sujeito em Freud. Argumenta que o indivíduo enquanto goza, não só no concernente a sexualidade, mas também na aquisição de bens de consumo, considera-se feliz.
Tendo em vista o anúncio cobiçoso como disseminador da felicidade e, levando em consideração o desenvolvimento tecnocientífico que promete a felicidade através do Prozac, do apartamento à beira-mar, entre outras possibilidades, o psicólogo Martin Seligman, no livro Felicidade Autêntica, expressa algo muito interessante. Diz que o homem, aceitando suas limitações diante da felicidade, esta pode estruturar-se, entre outras possibilidades, na interface entre o prazer, o engajamento e o significado.

A história e as escolhas
Prazer, em se tratando da situação agradável de quando se ouve uma boa música ou se faz sexo. Já o engajamento é a profundidade de envolvimento da pessoa com sua vida. Finalmente o significado, como a sensação de que a vida faz parte de algo maior. Salienta também, em suas pesquisas, que um dos maiores erros das sociedades contemporâneas é concentrar a busca da felicidade em apenas um dos três pilares, esquecendo os outros. Sendo que as pessoas escolhem justo o mais fraco deles. Enfatiza que o engajamento e o significado são elos indispensáveis na vida do ser humano frente à felicidade.
Mas, como se pode perceber, levando em consideração tudo o que foi exposto aqui, a felicidade se mostra como um fenômeno ambivalente. Quanto mais se tenta formalizar, não só em termos propagandísticos, como outros, mas se mostra em processo de deformalização. O fato é que, para muitos, felicidade pode ser o contrário de prazer. Para outros, pode ser sinônimo. Contudo, quem não quer a felicidade, única, que satisfaça toda sua ânsia? Aqui compartilho com o Pedro Demo, na sua coletânea Dialética da Felicidade, que propõe o autoconhecimento como grande valia para se atingir a felicidade, tanto para se ter a noção mais concreta das nossas potencialidade como para conhecer mais sobre nossos defeitos.

Uma proposta semelhante à da psicanálise de Freud, que não ensina o caminho da felicidade, mas faz com que se questione a história vivida e as escolhas, permitindo ao sujeito encontrar um sentido para sua própria história. Enfim, os aspectos concernentes à felicidade jungida aos bens materiais e ao desempenho da propaganda comercial, tendem a impressão de que existe um fosso cada dia maior entre os motivos que levam o sujeito a agir e os valores que julgam o que se faz no que diz respeito à busca da felicidade.
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* Jornalista, Recife - texto inicialmente publicado em http://observatoriodaimprensa.com.br/, sob o título 'Como a sociedade moderna se organiza diante da felicidade'. 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Sociologia do Romance


Da obra original de Lucien Golmann, Celso Frederico fez vir a lume o texto aí abaixo. 


Pintura afiliada ao Movimento Romântico 
Por Celso Frederico

Os estudos literários representam um momento importante na produção goldmanniana. As contribuições do autor para a sociologia da literatura são inegáveis e seus numerosos estudos particulares permanecem uma referência viva para os especialistas. Justamente nesse núcleo central da obra goldmanniana as questões metodológicas alçam o primeiro plano1.
O materialismo histórico ou o estruturalismo-genético (expressão que substitui a primeira nos textos da década de 1960) é considerado um "método geral" válido para todas as ciências humanas. A criação cultural e, especialmente, a literária, constitui um campo privilegiado de aplicação daquela metodologia.
Goldmann considera uma característica universal do comportamento humano a tendência à coerência. Os homens, perante os desafios colocados pela realidade exterior, procuram agir no sentido de interferir nos acontecimentos através de respostas às questões com que deparam. Esse empenho para adaptar-se à realidade segundo as conveniências humanas faz com que os indivíduos tendam a fazer de seu comportamento uma "estrutura significativa e coerente". Tal estrutura não é um dado atemporal, como no estruturalismo formalista. Há um processo prévio de elaboração, de gestação, de gênese das estruturas significativas. Além disso, a ação do homem modificando cotidianamente a realidade resulta em um processo contínuo de desestruturação das antigas estruturas e criação de novas. Com isso, o caráter significativo do comportamento humano, sua tendência natural à coerência, não é uma adequação mecânica às estruturas fixas, como pretendem os estruturalistas não-genéticos.
Por outro lado, a formação das estruturas significativas não deve ser considerada uma façanha individual. Elas, ao contrário, são o resultado complexo de um esforço coletivo, da ação das classes e grupos sociais que se constituem num processo amplo de relacionamento com o mundo, de adaptação e de respostas aos desafios da vida social.
A tendência à coerência e o caráter coletivo da elaboração das estruturas significativas já anunciam o caminho por onde irá trilhar a sociologia da literatura de Goldmann: as idéias piagetianas sobre a "assimilação" e "acomodação" do indivíduo ao meio social. Piaget desenvolveu uma elaborada teoria sobre a "natureza adaptativa da inteligência". Segundo esse autor, o indivíduo, desde a infância, constrói suas estruturas mentais por meio da interação com o grupo social, num processo ininterrupto de acomodação e assimilação que conhece diversas fases, durante as quais ele assimila novas estruturas de percepção. Goldmann retoma o processo de construção das estruturas cognitivas para aplicálo às relações entre o autor e o grupo social. Aquele interage com o grupo social e procura responder às suas expectativas: a criação artística surge como uma resposta significativa e articulada, como expressão das possibilidades objetivas presentes no grupo social. Essa resposta significativa, segundo observou Sami Naïr,
funda o autor enquanto mediação constitutiva através da qual a consciência possível de um grupo se encarna de maneira coerente na obra literária. Inversamente, essa mediação constitutiva é o meio pelo qual o sujeito individual, imediatamente criador, entra em acomodação, em equilíbrio e assimila, sempre em sentido piagetiano, as categorias mentais possíveis do grupo, sujeito transindividual. Não há, portanto, homologia entre a estrutura biográfica ou sociológica do autor e aquela do grupo, mas entre as estruturas mentais categoriais da obra enquanto virtualidade daquelas do grupo2.
A aplicação do materialismo histórico no estudo da criação cultural em geral e da literatura em especial afirma a existência, nesses domínios, de uma coerência levada ao extremo que "se aproxima de um fim para o qual tendem todos os membros de um grupo social"3.
O ponto de partida de nosso autor é o Lukács de A alma e as formas e A teoria do romance. Essas obras, segundo Goldmann, marcam uma ruptura nos estudos de sociologia da literatura. Até então, os estudiosos consideravam a obra literária como um reflexo da realidade social, limitando-se a procurar uma correlação entre a obra e o conteúdo da consciência coletiva. Esse procedimento só é válido para as obras menores, aquelas que reproduzem a realidade social nos moldes do naturalismo, com exatidão de detalhes e pretensões de completa objetividade, mas cujo valor é meramente documental. Para as verdadeiras obras-primas, entretanto, em que a imaginação criadora dá altos vôos, esse método reducionista tem pouco a dizer.
O jovem Lukács subverteu essa perspectiva ao buscar uma nova correlação entre literatura e sociedade. Tal correlação não se dá mais no plano do conteúdo, mas da forma, da correspondência entre as categorias que estruturam a criação literária e a consciência coletiva. Essas categorias caracterizam-se basicamente por suacoerência, compreendida ainda de modo metafísico e a-histórico pelo Lukács de A alma e as formas. Goldmann submete a forma a um tratamento historicista, aprofundando, nessa direção, as análises que já apareciam de modo incipiente em A teoria do romance.
A historicização da forma levou-o a substituir a vaga consciência coletiva por um novo sujeito, formado pelas condições históricas e sociais. Mas o sujeito, nas ciências humanas em geral, não deve ser concebido em rígida oposição ao objeto, como ocorre nas ciências naturais. O sujeito que observa a sociedade e reflete sobre ela, seja o cientista social ou o artista, faz parte dessa mesma sociedade. A reflexão, portanto, "não se faz do exterior, mas do interior da sociedade". Por outro lado, a reflexão "é em grande medida organizada pelas categorias da sociedade", e o objeto estudado "é um elemento constitutivo, e mesmo um dos mais importantes, da estrutura do pensamento"4.
Quem é esse sujeito socialmente constituído cuja consciência é organizada pelas categorias da sociedade? Antes de ensaiar uma resposta, Goldmann procurou contrapor sua sociologia da literatura à psicanálise freudiana. Inicialmente, um elemento comum parece aproximar as duas disciplinas: ambas consideram o comportamento humano como dotado de um "fragmento de sentido" que se esclarece quando integrado no conjunto do qual faz parte. O comportamento, quando conectado a uma estrutura englobante, revelase significativo. Essa estrutura, por sua vez, não é invariável: ela formou-se geneticamente e está em permanente mudança. Esses pontos coincidentes permitem que a sociologia goldmanniana e a psicanálise freudiana possam ser consideradas como pertencentes ao estruturalismo-genético.
As semelhanças, entretanto, param aí. O que separa as duas disciplinas é a questão do sujeito. A psicanálise, assim, como o cartesianismo, a fenomenologia e o empirismo, ficou restrita ao sujeito individual. Na psicanálise, esse sujeito é determinado pela biologia. Concebido, dessa forma, o sujeito vê a sociedade como um meio e os demais indivíduos como objetos, objetos de frustração, satisfação dos desejos ou obstáculos a eles.
Contra o culto do indivíduo, Goldmann elege como sujeito uma coletividade - o sujeito transindividual. Um exemplo recorrente através do qual Goldmann explica esse sujeito coletivo é a ação exercida por três indivíduos que carregam um piano. Quem é o sujeito da ação? Certamente, nenhum deles considerados separadamente e sim a realidade nova criada pela ação conjugada em que cada um dos participantes é parte integrante do verdadeiro sujeito da ação. Estamos aí perante um conjunto, perante relações intrasubjetivas que envolvem os participantes e que os transcendem. A participação consciente do indivíduo, sua imersão na atividade comum, distingue a concepção goldmanniana da "consciência coletiva" de Durkheim - um consciência exterior aos indivíduos e que se volta contra eles para integrálos coercitivamente nas engrenagens sociais.
O exemplo dos três homens que carregam o piano é ilustrativo da existência de um sujeito coletivo, e isso vale para todo pensamento e ação social e cultural. O estudo da literatura não deve, por isso, restringir-se às relações entre o escritor e a obra, pois, se assim fizer, a análise fornecerá apenas uma imagem da "unidade interna da obra", mas não "uma relação do mesmo tipo entre essa obra e o homem que a criou". O que se pode saber da estrutura psíquica de um autor morto há tanto tempo? A análise sociológica, contrariamente, consegue "destrinçar os elos necessários, vinculando-os a unidades coletivas cuja estruturação é muito mais fácil de apurar e elucidar"5.
A ênfase na singularidade do escritor cede lugar ao estudo sociológico, estrutural e genético, cuja "hipótese fundamental" pressupõe que "o caráter coletivo da criação literária provém do fato de as estruturas do universo da obra serem homólogas às estruturas mentais de certos grupos sociais"6. Os grupos estruturam na consciência de seus membros uma "resposta coerente" para as questões colocadas pelo mundo circundante. Essa coerência (ou visão do mundo) é elaborada pelo grupo social e atinge o máximo de articulação através da atividade imaginativa do escritor. A obra, assim, permite ao grupo entender mais claramente suas próprias idéias, pensamentos, sentimentos. Esta é a função da arte: favorecer a "tomada de consciência" do grupo social, explicitar num grau extremo a "estrutura significativa" que o próprio grupo elaborou de forma rudimentar para orientar o seu comportamento e a sua consciência.
Percebe-se aqui a diferença entre a abordagem psicanalítica da criação artística e a sociologia de Goldmann. Na interpretação de Freud, a criação artística é sublimação, é o resultado de um processo inconsciente que visa a compensar as frustrações libidinais do indivíduo fazendo aflorar aquilo que a consciência havia recalcado. Para Goldmann, contrariamente, a criação cultural é movida pela aspiração a um máximo de coerência, a um máximo de consciência possível. Essa intencionalidade não é a vingança do recalcado contra as censuras impostas pela consciência, mas o trabalho da própria consciência em busca do esclarecimento. A aspiração à coerência projeta um mais-além, uma antecipação da consciência em relação à imediatez. A perspectiva de futuro como dado integrante da vida social não existe para a psicanálise, prisioneira da eterna viagem ao passado, onde repousariam os segredos recalcados do homem. O passado explica o presente, e o futuro é uma dimensão inexistente. Goldmann diversas vezes repetiu que a única vez que Freud se referiu ao futuro foi ao nomear uma de suas obras de O futuro de uma ilusão, mostrando, assim, que "essa ilusão não tem futuro"...
A coerência perseguida pelo artista e tomada pelo jovem Lukács e por Goldmann como critério para se avaliar a criação literária, remete a uma concepção de arte originária de Kant:
a definição da obra válida como tensão ultrapassada, num plano não conceitual, entre a extrema unidade e extrema riqueza, entre de uma parte a multiplicidade de um universo imaginário complexo e, de outra parte, a unidade e o rigor da criação estruturada7.
Goldmann aceita essa conceituação, porém com a retificação trazida por Hegel e pelo marxismo que vêem a unidade como decorrência de fatores sociais e históricos, e não algo atemporal. O estruturalismo genético, abre, assim, o caminho para se estudar a correspondência entre a unidade expressa pela criação cultural e a evolução da estrutura de uma determinada sociedade, a unidade entre as estruturas mentais ou categorias que organizam a consciência empírica dos grupos sociais e o universo imaginário criado pelo artista. Importante ressaltar aqui o papel de mediação atribuído às visões de mundo das classes sociais: são elas que se interpõem entre a vida econômica da sociedade e as criações culturais.
O objetivo de uma sociologia da literatura é, portanto, a busca das homologias, o estudo das estruturas significativas presentes nos grupos sociais - o substrato social que confere unidade à obra literária. O projeto de Goldmann procura transpor para a literatura dois movimentos: o estudo da compreensão, isto é, da estrutura significativa imanente da obra e a explicação, a "inserção dessa estrutura, enquanto elemento constitutivo e funcional, numa estrutura imediatamente englobante [para] tornar inteligível a gênese da obra que se estuda"8.
Os textos goldmannianos, contudo, concentraram-se quase que exclusivamente no segundo momento. A busca da gênese das condições sociais que tornaram possível a obra de arte, o momento da explicação, consumiu a atenção de nosso autor. Suas incursões na vida literária e cultural procuraram oferecer um mapeamento das visões do mundo e dos grupos sociais que as estruturaram.
Goldmann objetivava realizar uma tipificação sistemática das visões do mundo, tarefa que requereria a contribuição de muitos pesquisadores. Sua militância no magistério levou-o a incentivar estudos coletivos e interdisciplinares nessa direção.
Ciências humanas e filosofia9, o livro mais divulgado de Goldmann no Brasil, apresenta um mapeamento detalhado das classes sociais e de suas visões do mundo expressas nas criações filosóficas e literárias do século XVII. Trata-se de um verdadeiro programa de trabalho e de um modelo para novas pesquisas.
Cinco classes comparecem nesse painel da cultura francesa nos tempos de Luís XIV: os grandes senhores, a nobreza da corte, a magistratura, o terceiro estado enriquecido e o povo miúdo (artesãos e camponeses).
Os grandes senhores (o autor refere-se basicamente aos duques) viviam uma situação incômoda. De um lado, assistiam impotentes às transformações sociais que lhes tiravam o poder; de outro, não podiam partilhar dos novos valores do mundo burguês ascendente, "mundo de egoísmo e de ambições mesquinhas". Por isso, diz Goldmann, a realidade é muito próxima para eles, "muito insuficiente e ao mesmo tempo muito potente para ser apreendida além do dado imediato, do acontecimento e da psicologia". É esse o contexto social dasMemórias do Duque de Saint Simon e das Máximas do Duque de La Rochefoucauld.
nobreza da corte vivia uma situação especial: uma vida de prazeres e de moral sexual livre, tanto para os homens como para as mulheres. A plena aceitação de uma ordem que os beneficiava traduz-se num epicurismo expresso na filosofia, por Gassendi e, no plano literário, por Molière. As peças deste autor revelam com clareza a posição da nobreza da corte e sua visão crítica sobre as demais classes. O avarento satiriza o burguês que faz do dinheiro a única finalidade da vida; O tartufo volta-se contra o falso moralismo da igreja e a hipocrisia; O misantropo revela a imagem que a corte fazia dos jansenistas e de sua vida solitária etc.
magistratura, ou nobreza de toga, era constituída por setores de origem plebéia que ascenderam socialmente através do exercício das funções administrativas. O "pensamento trágico" é a expressão desse segmento sediado na província, em contato com o terceiro estado, de quem recebia influência, mas cujas idéias radicais não podia aceitar integralmente, já que sua fortuna se devia exclusivamente às funções exercidas e à fidelidade à monarquia. Essa situação contraditória propiciou a recusa ao mundo existente e o conseqüente isolamento social - fatores que levaram ao desenvolvimento de uma visão trágica do mundo (Pascal, Racine).

O romance e a reificação
Quando passa do século XVII para o mundo burguês plenamente constituído, Goldmann procura identificar as novas homologias que se estabelecem entre a "estrutura de troca da economia liberal" e a manifestação literária característica do período: o romance. O instrumental teórico de que lança mão para enfrentar esse desafio parte das reflexões de Marx sobre o fetichismo da mercadoria e de sua generalização para todas as esferas da vida social, tal como foi desenvolvida na teoria da reificação de Lukács em História e consciência de classe.
A outra fonte de Goldmann é a concepção hegeliana do romance como "epopéia do mundo burguês", retomada e desenvolvida por Lukács, em A teoria do romance e por René Girard, em Mesonge romantique et verité romanesque. Esses dois autores desenvolveram a contraposição entre a epopéia clássica e o romance, mostrando esse último como um gênero problemático em que o herói se debate com a tarefa impossível de tentar realizar valores num mundo hostil a eles. O caráter problemático atribuído ao romance traz uma modificação no enfoque goldmanniano: a homologia das estruturas continua sendo a referência básica, mas, agora, ela dispensa o papel mediador da visão do mundo das diversas classes sociais.
As duas fontes teóricas são mobilizadas por Goldmann para estudar os impasses do romance moderno.
N'O capital de Marx, o mundo burguês é distinguido das formas anteriores de produção pela predominância e universalização da forma mercadoria. O processo de mercantilização em curso dissimula o fato de que a produção é uma façanha humana, pois, ao assumir a forma de mercadoria, os produtos do trabalho humano ganham uma objetividade ilusória que, encobrindo as suas características sociais, apresenta-as de forma invertida como "características materiais e propriedades sociais inerentes aos produtos do trabalho"10. Assim, essas mercadorias (coisas), parecem enfeitiçadas: esquecida sua origem humana, social, elas parecem movimentar-se por conta própria e estabelecer relações "sociais" com as outras mercadorias, num movimento automático que parece prescindir da presença humana. Essa "ilusão fantasmagórica" foi chamada por Marx de fetichismo da mercadoria. No terceiro tomo d' O capital, Marx voltou ao tema em sua análise da "fórmula trinitária", a "santíssima trindade" por meio da qual os economistas procuravam explicar a origem da riqueza. Esta, segundo eles, provém de três generosas fontes: o capital, que propicia os lucros e os juros do capitalista; a terra, que garante a renda fundiária do proprietário rural; o trabalho, que proporciona o salário, a renda do operário. Com tal procedimento a-histórico, os economistas colocavam no mesmo plano um elemento natural (a terra), com categorias sociais que só passaram a existir efetivamente no capitalismo, além de atribuírem equivalência entre o trabalho vivo executado pelo operariado e o trabalho morto, o trabalho objetivado que se transformou em capital.
Ao estudar a "fórmula trinitária", Marx observa a existência do fetichismo em todas as formações sociais em que há produção de mercadorias, vale dizer, também nas sociedades pré-capitalistas. Mas, no capitalismo, elas tornam-se uma'"categoria dominante". Outra característica importante, ao lado do fetichismo, do enfeitiçamento das mercadorias que ganham uma objetividade fantasmagórica e passam a estabelecer relações "humanas" entre si, é o processo correlato de reificação das relações entre os homens. Assim, de um lado, "personificação" das coisas e, de outro, "reificação" das relações de produção (os homens relacionam-se no mercado como portadores, suportes de mercadorias - força de trabalho versus dinheiro, salário).
História e consciência de classe trouxe para o primeiro plano a discussão sobre reificação, dando novos contornos ao tema. Em Marx, com vimos, a "ilusão fantasmagórica" já se fazia presente, embrionariamente, nas formações pré-capitalistas. Para Lukács, "a questão do fetichismo é uma questão específica da nossa época e do capitalismo moderno"11. O tráfico mercantil já existia anteriormente, mas no capitalismo a dominação da forma mercadoria produz um salto qualitativo, passando a "influenciar toda a vida" da sociedade. A mercantilização, agora, penetra "o conjunto das manifestações vitais da sociedade", transformando-a à sua "imagem". Com isso, Lukács faz da reificação "o problema central, estrutural da sociedade capitalista em todas as suas manifestações vitais". O seu empenho, portanto, estará voltado para "descobrir na estrutura da relação mercantil o protótipo de todas as formas de objetividade e de todas as formas correspondentes de subjetividade da sociedade burguesa"12. O estudo dessas últimas formas (as subjetivas) é a contribuição original de Lukács ao marxismo, de enorme influência no pensamento social do século XX.
Goldmann, a seu modo, retoma as análises de Lukács para explorar essa correlação entre objetividade e subjetividade, instaurada pela reificação, aplicando-a ao estudo da criação cultural e literária, áreas não trabalhadas naquele texto lukacsiano.
A reificação, entendida pelo nosso autor como um "processo psicológico permanente", afirma-se cada vez com mais intensidade. O romance, produto do mundo burguês, mantém uma relação de "rigorosa homologia" com as principais fases da estrutura econômica dessa formação social.
A primeira fase, marcada pela economia liberal, estende-se até o início do século XX. A expressão ideológica dominante é o liberalismo e a apologia do individualismo e da livre iniciativa. O indivíduo, portanto, foi alçado ao centro da vida social. Esta, contudo, começava a sofrer os efeitos perturbadores da reificação. A literatura, nesse contexto, expressa o desconforto perante a reificação nascente. No mundo desumanizado, os personagens se debatem em busca de um sentido para a existência. O "herói problemático" faz a sua aparição, inicialmente em Dom Quixote e, depois, em Stendhal, Flaubert e Goethe. Romance, aqui, é crônica social: é estudo das relações entre os personagens problemáticos e os contextos sociais opressivos: essas relações nos contam a tentativa de realização de valores autênticos num mundo hostil aos valores; portanto, busca degradada de valores por personagens desadaptados - busca condenada ao fracasso, que assinala o caráter precário e problemático da forma romance.
Na fase seguinte, a imperialista, a formação dos monopólios suprime a livre concorrência e a iniciativa individual, produzindo uma modificação substantiva na ordem burguesa. Segundo Goldmann, o período assinala "a supressão de toda a importância essencial do indivíduo e da vida individual, no seio das estruturas econômicas e, a partir destas, no conjunto da vida social"13. O romance, acompanhando as metamorfoses da estrutura social, sofre uma drástica modificação formal. O "herói problemático" sai de cena e seu lugar é ocupado pelo processo de dissolução do personagem, tais como aparece em Kafka, Joyce, Musil e em algumas obras do existencialismo francês (A náusea de Sartre e O estrangeiro de Camus).
Finalmente, o período posterior à Segunda Guerra Mundial é caracterizado pela intervenção do Estado na economia visando a controlar as crises cíclicas do capitalismo. A nova fase, chamada de "capitalismo de organização", inaugura um longo ciclo de estabilidade e expansão econômica, produzindo a impressão de uma ordem auto-regulada, uma segunda natureza, destinada a se perpetuar. A expressão literária do período é onouveau roman, que registra a vitória definitiva da reificação, o triunfo acachapante das coisas sobre os homens.
O novo momento, afirma Goldmann, não se exprime totalmente em todos os romances do período. Os de Nathalie Sarraute, por exemplo, ainda estariam presos à problemática psicológica: mesmo quando utiliza quarenta páginas (quarenta páginas!) para descrever a maçaneta de uma porta em Planetário, a descrição permanece subordinada às reações psicológicas dos personagens, tal como pregava o realismo crítico em seu empenho de subsumir a descrição à narração, à ação dos personagens. A figura central da nova fase, em que o romance adquire uma forma homóloga às estruturas do mundo totalmente reificado, é Robbe-Grillet. Os romances (e filmes) desse autor ressaltam a coisificação de uma sociedade auto-regulada na qual os objetos postos em primeiro plano ganham uma total autonomia em relação aos homens, estes reduzidos a espectadores passivos que se limitam a contemplar a realidade. Nesse mundo imóvel, não há lugar nem para a ação nem para a intencionalidade: a descrição detalhista e obsessiva dos objetos reproduz, no plano literário, a fixidez das estruturas sociais e a total desimportância dos homens.
Um bom exemplo é La jalousie14, romance que trata de um tema tradicionalmente vinculado às inquietações subjetivas, já que para sentir ciúme nem sempre é necessário a existência objetiva de indícios, pistas e referências seguras. Justamente esse tema, tão recorrente na literatura, é enfocado por Robbe-Grillet de modo nada convencional: um narrador distanciado (o marido ciumento), como uma câmara fotográfica, retrata com um máximo de distanciamento, frieza e indiferença, cenas que se repetem - sem deter-se em nenhuma caracterização psicológica ou referir-se aos pensamentos e estados de espírito dos personagens igualados às coisas. A supressão dos personagens, a ausência de ação, a ruptura com qualquer linearidade temporal, marcam esse livro perturbador. O único sentimento que tudo move - o ciúme do marido - totalmente sublimado, transfigura-se em sua obsessão de registrar, sem nunca comentar, as cenas imóveis que nos apresenta. Goldmann afirma ser esse romance
o verdadeiro protocolo da reificação de um mundo no qual somente as coisas agem, onde o tempo humano desapareceu e onde o próprio homem tornou-se um simples espectador reduzido ao estado mais abstrato: um olho que registra15.
Robbe-Grillet, em seus ensaios teóricos, procurou sempre afirmar o caráter realista de seus romances. A defesa do realismo, diz ele, é uma constante na história literária. Cada nova escola literária, voltou-se sempre contra as anteriores, invocando o realismo:
era a palavra de ordem dos românticos contra os clássicos, depois a dos naturalistas contra os românticos; e os próprios surrealistas afirmavam só se preocupar com o mundo real. [...]. Se não se entendem é porque cada um tem idéias diferentes sobre a realidade16.
As transformações na sociedade explicariam o surgimento e a caducidade dos modos de se entender a realidade. O nouveau roman, segundo Robbe-Grillet, é uma tomada de consciência, uma afirmação da impossibilidade de retratar o real seguindo o velho cânon do realismo clássico. Aliás, ele não se preocupa mais com a verossimilhança, e nem com as tentativas de utilizar a literatura para desvendar sentidos exteriores a ela; o foco da narração deve ser a "significação imediata das coisas". O novo romance, diz, "não exprime, procura. E aquilo que procura é ele mesmo"17. Voltamos aos ensinamentos de Flaubert: "construir alguma coisa a partir do nada, que fica em pé sem ter que se apoiar seja no que for do mundo exterior à obra"18.
O fechamento da linguagem sobre si mesma, a ruptura com o referente, eram idéias que aproximavam, naquele período histórico, as teorias estruturalistas e os romances de Robbe-Grillet. A idéias postas em circulação pelo estruturalismo são as mesmas do nouveau roman: a ausência de historicidade, o descentramento do sujeito e a morte do homem, seja ele o personagem (reduzido a "efeito" ou "suporte" das estruturas - e por isso, igualado às coisas), ou o próprio autor (já que agora quem "fala" é a escritura). Uma literatura reduzida ao fechamento da linguagem sobre si mesma expressa, assim, o espírito de uma época hegemonizada pelo estruturalismo em guerra contra a tradição humanista19.
Goldmann não se ateve a essa afinidade, limitando-se a ver, com entusiasmo, na literatura de Robbe-Grillet a manifestação de realismo adequada à era do capitalismo de organização. E por realismo literário Goldmann entende a "criação de um mundo cuja estrutura é análoga à estrutura essencial da realidade social"20.
Os estudos literários goldmannianos sobre o nouveau roman, feitos a partir da teoria da reificação, marcam uma ruptura com toda a teoria da consciência de classe que até então lhe servira de suporte. A consciência de classe, ponto organizador das estruturas significativas, perdeu a antiga função explicativa. O arcabouço teórico laboriosamente montado para fundar uma sociologia da cultura esbarra na forma problemática do romance num mundo governado pelo movimento autônomo dos objetos. A reificação venceu definitivamente. Se a classe social não pode mais expressar-se, se sua consciência está irremediavelmente atrofiada, quem "fala" através da literatura?

Sujeito, classe, gênero problemáticos
A questão do sujeito da criação cultural, desde o começo, estava marcada por uma indefinição. Apoiando-se em Lukács, Goldmann trouxe para o primeiro plano as classes sociais e sua consciência. Lukács, contudo, foi cauteloso ao discorrer sobre a formação das classes. Para ele, só se pode falar na divisão da sociedade em classes com o advento do capitalismo, momento em que a exploração econômica, libertada dos véus da religião e da política, exerce soberana a sua dominação. É essa visibilidade da economia que tornou possível a consciência de classe. Goldmann, contrariamente, utiliza a teoria da consciência de classe de Lukács para analisar as manifestações artísticas do século XVII21. E, como é impossível detectar aí a existência de classes plenamente configuradas, Goldmann, recorre a expressões imprecisas, como "grupos sociais específicos" e "sujeito transindividual".
De qualquer modo, há uma diferença básica a separar a concepção ontológica das classes sociais, presentes na obra de Marx, das incursões sociológicas goldmannianas. Estas restringem-se à busca de um equivalente sociológico para a produção literária. É como se as classes fossem configurações estáticas e auto-suficientes e a criação artística um reflexo passivo e imediato. Desse modo, pode-se falar em'"homologia das estruturas", dispensando o papel ativo da consciência do artista e qualquer outra mediação. Frederic Jamenson, a propósito, observa:
o que distingue a noção marxista de classe da noção sociológica é que, para a primeira, a classe é precisamente um conceito diferencial, que cada classe é, ao mesmo tempo, um modo de se relacionar com as outras e de recusá-las. Quaisquer quer que sejam seus pressupostos filosóficos, a visão sociológica é formalmente errada, na medida em que nos permite pensar as classes individuais numa espécie de isolamento mútuo, com a separação quase física dos grupos sociais na cidade ou no campo, ou como "culturas" de algum modo independentes umas das outras e que se desenvolvem de maneira autônoma: pois a noção da classe ou do grupo social isolado é uma hipóstase exatamente como o é a noção do indivíduo solitário na filosofia do século XVIII22.
Ao afirmar a vitória final da reificação no chamado "capitalismo de organização", Goldmann afastou-se também das idéias de Marx e Lukács que lhe serviram de ponto de partida para analisar as metamorfoses do romance.
Em Marx, a autonomia das coisas não passava de uma ilusão, se bem que ilusão necessária a uma ordem social na qual a exploração do homem pelo homem apóia-se exclusivamente na coerção econômica, dispensando a presença de outros fatores de legitimação (políticos, religiosos etc.), presentes nas formações sociais anteriores. A economia política clássica foi criticada por ser uma ideologia empenhada em duplicar essa aparência enganosa, tomando-a como um dado natural, a-histórico e, dessa forma, elidindo a existência do trabalho humano co-mo gênese da criação da riqueza. Lukács, a propósito, observou que Marx, em oposição às mistificações da economia política, promoveu'"a dissolução de todas as objetividades reificadas da vida econômica e social em relações inter-humanas"23.
Constatando a extensão do processo de reificação na sociedade moderna, Goldmann ateve-se à "ilusão fantasmagórica" e tirou de cena as classes sociais e suas manifestações de consciência. No século XVII, quando as classes ainda não estavam configuradas, a teoria lukacsiana servia-lhe de referência; no século XX, ao contrário, quando elas já se constituíram plenamente, Goldmann estuda o advento do nouveau roman sem referir-se a nenhuma classe social24. Aqui, estamos em pleno mecanicismo: literatura é reflexo imediato que dispensa a mediação das classes sociais e de suas lutas; o próprio autor, em seu desenraizamento social, transformou-se num mero fotógrafo de uma realidade estranha que não lhe diz respeito.
Outra questão a ser analisada é a concepção do romance como epopéia do mundo burguês. A pertinência da tese hegeliana foi contestada por Bakhtin para quem o romance não é a retomada da epopéia, mas a consciência de uma realidade nova. Por isso, o romance é o único gênero não acabado, em devir, que desconhece qualquer cânon. Ele formou-se em oposição à epopéia, no "processo de destruição da distância épica, no processo de familiarização cômica do mundo e do homem, no abaixamento do objeto da representação artística ao nível de uma realidade atual, inacabada e fluida"25.
Ao retomar a tese hegeliana, Goldmann incorporou a idealização da epopéia e o conseqüente rebaixamento do romance. Por sua vez, esse procedimento se fez acompanhar do culto à antiga comunidade perdida, da totalidade harmoniosa que se estilhaçou no mundo moderno, mundo da inautenticidade, tal como foi definido por Heidegger ou Mounier. A idealização da epopéia e da comunidade harmoniosa, no jovem Lukács, havia sido uma datada reação romântica à afirmação de uma sociedade capitalista em vias de desenvolvimento e aos seus produtos culturais - uma posição regressiva, portanto. Contra o inevitável progresso, Lukács figurava a oposição insuperável entre o indivíduo e o mundo. Esse é o contexto do herói problemático, condenado ao fracasso, e do próprio romance, um gênero destinado ao desaparecimento no mundo reificado.
Goldmann, décadas depois, retomou as idéias de A alma e as formas e de A teoria do romance sem modificações substantivas. Ferenc Fehér, ao estudar as perspectivas do gênero romance, criticou duramente as posições de Goldmann26, a partir das reflexões do Lukács marxista de Escritos de Moscou27. Para Fehér, a glorificação da epopéia e o conseqüente rebaixamento do romance é um equívoco. O romance não é um gênero problemático, mas ambivalente. Ele é fruto da sociedade burguesa e, como tal, sofre essa limitação; mas, essa sociedade, ao contrário do mundo antigo, é estruturada sobre formas puramente sociais, e não mais naturais. Os laços de sangue, as relações de parentesco, a religião etc. cederam lugar nessa nova realidade onde tudo é visto como resultado da ação humana. Com isso, pôde-se firmar, enfim, a consciência do gênero humano, transcendendo todos os limites tribais, nacionais e religiosos. A nova sociedade, apesar de todas as suas mazelas, significou um passo à frente no processo de emancipação humana. O herói moderno, portanto, não deve ser visto como se vivesse numa total incompatibilidade com o mundo, sem solução possível. Ele é um ser que escolhe entre alternativas, que responde aos desafios da realidade, ora em conformidade com os limites do mundo burguês, ora em consonância com as necessidades do gênero humano e do processo de emancipação. Ao contrário da epopéia, o herói do romance é alguém empenhado em "construir, para seu uso, um universo - universo ilusório ou real"28. Enquanto o herói da epopéia cumpria um destino que lhe foipredestinado, no romance há uma "orientação para o futuro", que transfere a responsabilidade para as ações dos personagens. O caráter aberto do romance é uma característica que aproxima, de certo modo, Ferenc Fehér de Bakhtin. Nos dois autores há uma valorização do romance. Para eles, trata-se de um gênero superior à epopéia, pois volta-se à desfetichização do mundo. O romance moderno é um gênero que não está condenado a desaparecer, mas, sim, em permanente transformação formal para enfrentar os novos desafios e resgatar a humanitas ameaçada pela reificação.
Ao criticar aqueles que vêem o romance como uma forma artística inferior condenada ao desaparecimento, Fehér volta-se contra a "homologia das estruturas" de Goldmann:
[...] o romance é justamente não homólogo à estrutura do sistema de mercado, porque atrás da estrutura dominante deste, é verdade que numa medida decres-cente, emergem à superfície os "autênticos" valores humanos, aqueles que nos dirigem para o enriquecimento da "substância humana"29.
Vitória final da reificação e completa homologia entre as estruturas do romance sem sujeito e a realidade depurada de todos os seus vestígios humanos: o ponto de chegada da sociologia do romance de Goldmann está em pleno desacordo com aquela tradição dialética e humanista reivindicada pela melhor tradição marxista. A "lógica do conteúdo", substituída pelo culto à forma e à busca das simetrias, assinala uma concessão às pretensões do estruturalismo então em voga.
Talvez se possa afirmar que o nouveau roman é um "romance de tese" e não o atestado de óbito da práxis humana transferido para a figuração literária. O pessimismo daqueles tempos em que a história surgia estagnada nos textos estruturalistas, embora continuasse se movendo, envolveu o espírito inquieto de Goldmann, sempre atento para captar os sinais emanados pela criação cultural. Mas, hoje sabemos, o nouveau roman foi apenas um capítulo, e não dos mais brilhantes, das inúmeras tentativas experimentais de renovação daquele gênero considerado erroneamente como "problemático".

As "duas epistemologias" de Goldmann
A guinada teórica de Goldmann trouxe uma visível contradição para o interior de sua obra - dividida entre a ênfase na "consciência possível", como mediação entre a obra e a estrutura social e a admissão do triunfo definitivo da reificação, que colocou em crise o papel do indivíduo e das classes sociais na sociedade mercantil e, por extensão, do personagem do romance burguês, o "herói problemático". Um dos discípulos de Goldmann, Jacques Lenhardt constatou a contradição e a existência de duas epistemologias em sua obra.
Após o movimento de maio de 1968, contudo, Goldmann voltou a falar em "consciência possível", mas manteve a sua adesão ao estruturalismo-genético. O último de seus livros, publicado em 1971, foi A criação cultural na sociedade moderna. A saga do "herói problemático" lukacsiano reaparece, timidamente, no enquadramento histórico proposto.
Inicialmente, Goldmann retoma a fase do capitalismo concorrencial, aquela em que o herói expressava a afirmação do indivíduo e de seus valores, num momento em que a criação literária exercia um papel abertamente crítico ao retratar os embates do personagem com um mundo que rejeita os seus valores; depois, na fase imperialista, a literatura abandonou o tema das possibilidades do personagem para enfocar os seus limites - a morte, quando o autor era filiado ao existencialismo; finalmente, no capitalismo de organização, efetivou-se o "encolhimento da consciência", e a literatura deixou de ser o "processo de estruturação de uma consciência coletiva", o ponto de encontro do indivíduo (o escritor) e a vida do grupo social. A consciência agora tende a tornar-se "mero reflexo"30 e os valores transindividuais desaparecem, bem como a angústia existencial que perseguia o "ser-lançado-no-mundo", cujo horizonte na filosofia heideggeriana seria a morte, a consciência da finitude como horizonte do ser. A homologia entre a obra e a sociedade "não passa mais através da consciência de um grupo qualquer"31. Goldmann, apoiando-se nos trabalhos de Riesman e Habermas constata o desaparecimento da opinião pública, que para o artista sempre havia sido "uma espécie de solo nutriente intermediário entre a sociedade global e a criação cultural"32.
Apesar disso, duas formas de reação cultural ainda sobreviveriam. A primeira delas, através da revolução naforma romanesca, tal como praticada por Robbe-Grillet. O nouveau roman, portanto, não é mais interpretado como constatação da reificação triunfante, mas sim como revolta. Mas essa literatura, ao contrário do realismo crítico, encontra-se impossibilitada de elaborar uma história capaz de ser percebida de modo imediato pelo leitor, já que a realidade, sob a reificação, apresenta-se invertida. Ao configurar a realidade sob o ângulo das coisas, a literatura tornou-se incompreensível para o leitor comum, uma atividade acessível apenas para os críticos. Além disso, o abandono do "herói problemático" cedeu lugar à representação de "um universo estável, equilibrado, mas rigorosamente a-humano"33.
A segunda forma de revolta é a do "pensamento oposicionista" que traz o conflito social para o centro da figuração literária. Mas, aqui, as dificuldades são também imensas: não se pode mais escrever a história de um indivíduo, já que ele "não tem realidade essencial", e nem se pode falar das forças de contestação, "quando estas não existem ou estão desaparecendo"34. Tais dificuldades bloqueiam a criação cultural na atualidade. Apenas uma exceção é lembrada: Jean Genet. Tanto ele como Sartre, contudo, para abordar os temas da revolta, precisaram abandonar a literatura e refugiar-se no teatro. No caso específico de Genet ocorre uma outra modificação substancial: o personagem individual cede lugar aos personagens coletivos. Por isso, Genet é figura solitária ao reafirmar a dimensão do possível e a ultrapassagem da ordem. Seus primeiros textos, observa Goldmann,
foram escritos na perspectiva de um sujeito coletivo bem preciso: os outsiders, os pequenos ladrões, as prostitutas e todo o mundo marginal em relação à sociedade; eles exprimem a visão, a perspectiva deste grupo social. [...]. Todavia, este grupo não elabora valores próprios35.
O recurso à visão do mundo e a concepção da literatura como "estruturação das categorias mentais do grupo", fazem, assim, suas reaparições no interior da sociedade administrada. Mas são em número muito restrito os exemplos citados por Goldmann. No caso do Malraux de A condição humana, trata-se de um grupo socialmente heterogêneo que só se constituiu uma comunidade através do engajamento no processo revolucionário - umaaposta, para usarmos uma expressão cara a Goldmann. Em Genet, como vimos, trata-se também de um grupo heterogêneo, porém incapaz de afirmar valores, e que não propende "para uma visão global do homem" - o objetivo da boa literatura, segundo pensava Goldmann.
Seja como for, a relação entre obra artística e classe social permanece num esfera indefinida e vaga, criando dificuldades para a construção de uma sociologia da literatura.


Notas
1 Na vasta produção voltada para a literatura destacam-se os seguintes trabalhos: Sociologia do romance, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967; "Structuralisme génétique en sociologie de la littérature", em VV. AA. Le structuralisme génétique. L'oeuvre et l'influence de Lucien Goldmann, Paris, Denoël/ Gonthier, 1997; "Máterialisme dialectique et histoire de la littérature"; "Le concept de structure significative en histoire de la littérature", em Recherches dialectiques, Paris, Gallimard, 1959; "Critique et dogmatisme dans la création littéraire"; "La sociologie de la littérature: statut et problèmes de méthode"; "Le subject de la création culturelle", em Marxisme et sciences humaines, Paris, Gallimard, 1970; Structures mentales et création culturelle, Paris, Anthropos, 1971; A criação cultural na sociedade moderna, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1972.
2 Sami Naïr,'"Forme et subjet dans la création culturelle", em VV. AA., op. cit., pp. 52-53.
3 L. Goldmann, "Structuralisme génétique en sociologie de la littérature", em V.V. A.A., op. cit., p. 21.
4 Cf. L. Goldmann, "La sociologie de la littérature: statut et problèmes de méthode", em Marxisme et sciences humainesop. cit., p. 55.
5 L. Goldmann, "O método estruturalista genético na história da literatura", em Sociologia do Romance, op. cit.,p. 206.
6 Idem, p. 208.
7 L. Goldmann, "Critique et dogmatisme dans la création littéraire", em Marxisme et sciences humaines, op. cit., pp. 46-47.
8 L. Goldmann, "La sociologie de la littérature: statut et problèmes de méthode", em Marxisme et sciences humanaines, op. cit., p. 66.
9 Cf. Ciências humanas e filosofia, 10ª ed., São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1986, especialmente pp. 90-93.
10 K. Marx, O capital, livro I, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1968, p. 80.
11 G. Lukács, História e consciência de classe, Porto, Publicações Escorpião, 1974, p. 98.
12 Idem, pp. 97-99.
13 L. Goldmann, op. cit., 1967, p. 176.
14 Há tradução brasileira: O ciúme, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986.
15 Lucien Goldmann, Recherches dialectiques, Paris, Gallimard, 1959, p. 92.
16 Alain Robbe-Grillet, Por um novo romance, São Paulo, Documentos, 1969, p. 105.
17 Idem, p. 107.
18 Idem, p. 108.
19 François Dosse assinalou a confluência do estruturalismo tanto com os modelos formais das ciências exatas como da "nova sensibilidade literária". Sobre esse último ponto observou: "reencontra-se a temática estrutural em ação nos princípios fundadores donouveau roman: a mesma colocação do sujeito à distância, com a exclusão do personagem romanesco clássico, o mesmo privilégio concedido ao espaço que se desenrola através das diversas configurações das coisas localizadas pelo olhar do romancista, o mesmo desafio em face da temporalidade em sua dialética, a qual é substituída por um tempo suspenso, um presente estático que se dissolve ao desvendar-se". Cf. História do estruturalismo, vol. 2, São Paulo, Ensaio, 1994, p. 231.
20 L. Goldmann, op. cit., 1967, p. 195.
21 Fato que não escapou ao olhar atento de Agnes Heller: "Contrariamente a Lukács, Goldmann aplica a noção de consciência de classe ou grupo quase exclusivamente a sociedades precapitalistas. A objetivação analisada por ele e relacionada a diferentes grupos sociais são aquelas das sociedades precapitalistas, e nenhuma delas reflete primordial ou diretamente a base econômica da sociedade como um todo". "Role of the intellectual in Lukács and Goldmann", em Agnes Heller e Ferenc Fehér, The Grandeur and Twilight of Radical Universalism,New Brunswick, New Jersey, Transaction Publishers, 1991, p. 369.
22 Frederic Jamenson, Marxismo e forma, São Paulo, Hucitec, 1985, p. 289.
23 G. Lukács, op. cit., 1974, p. 62.
24 Um discípulo de Goldmann, Jacques Leenhardt, estudou detidamente O ciúme de Robbe-Grillet. Procurando ir além das idéias do mestre, empenhou-se em desvelar as bases sociais do nouveau roman. A visão do mundo expressa no Nouveau Roman apontaria para "os primeiros lineamentos de uma ideologia que teria por função, como o grupo ou a fração de classe tecnocrática no plano da produção, transcender tanto os antagnismos de classe, simbolizados pelos pensamento socialista, como o individualismo". Cf. Jacques Leenhardt, Lectura política de la novela, México, Siglo Veintiuno, 1975, p. 38.
25 Mikhail Bakhtin, Questões de literatura e estética, São Paulo, Unesp/ Hucitec, 1988, p. 427.
26 Cf. Ferenc Fehér,O romance está morrendo? Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972.
27 Cf. G. Lukács, Écrits de Moscou, Paris, Sociales, 1974. Os dois principais ensaios do livro foram traduzidos para o português: "O romance como epopéia burguesa", na revista Ad hominem, n. 1, São Paulo, 1999; en"Nota sobre o romance", em José Paulo Netto (org.), Lukács, São Paulo, Ática, 1981 (Grandes Cientistas Sociais).
28 Idem, p. 16.
29 Idem, p. 49.
30 L. Goldmann, A criação cultural na sociedade moderna, São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1972, p. 66.
31 Idem, p. 68.
32 Idem, p. 74.
33 Idem, p. 76.
34 Idem, p. 47.
35 Idem, p. 90.

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