sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Drogas, saúde e educação: realidade e desafios

Alucinação
Imagem: http://lusophia.wordpress.com/

Com o título acima, está publicado um trabalho meu na nova edição da Revista Espaço Acadêmico/Paraná. É resultado de incursões na bibliografia especializada sobre tal tema e de pesquisas empíricas desenvolvidas no contexto onde atualmente trabalho - Universidade Federal da Paraíba/Centro de Ciências Aplicadas e Educação. Drogas e educação - você já pensou na significação material e simbólica dessa relação? As drogas ilícitas, produzindo insanidade em seus usuários, torna-os outsiders, e assim deles devem ficar encarregues exclusivamente os aparatos jurídico-repressivos? Dentre outras, estas são as vias de uma empreitada analítica dessa natureza, para a qual devem ser mobilizadas ferramentas conceituais de distintas áreas do conhecimento. O resumo e o texto integral do artigo, a ser descarregado de pdf, pode ser lido aqui:
 http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/view/22149


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Tristeza das gerações sem "mestres"

Dizem os historiadores que 'a consciência da história' tem dessas coisas: a cada dia, a cada semana, a cada mês, a cada ano, lançar um olhar melancólico sobre o passado, para ver o que, no tempo pretérito, na mesma altura do tempo presente, estava a se passar. É assim que um amigo me lembra que, há 50 anos, em 1964, Jean-Paul Sartre ganhava o Prêmio Nobel de Literatura, recusando, contudo, recebê-lo. Difícil imaginar algo similar nos dias presentes, onde, intelectualmente, a busca da autopromoção praticamente faz a propaganda pela propaganda, posto que, ao fim e ao cabo, os que andam ansiosamente à procura de palco nada têm a apresentar como efetiva criação intelectiva - mas, mesmo assim, assumem um tom de arrogância que é de abalar as pirâmides do Egito. No final das contas, os abalados são eles. Por ocasião da recusa de Sartre ao Nobel, Deleuze escreveu um texto emblemático. Começa por falar da 'tristeza das gerações sem mestres'. Pode ser lido aí abaixo. 

Gilles Deleuze, Jean-Paul Sartre (ao fundo, no centro) e Michel Foucault


“Ele foi meu mestre” (1)
[1964]

Por Gilles Deleuze

Tristeza das gerações sem "mestres". Nossos mestres não são apenas os professores públicos, ainda que tenhamos uma grande necessidade de professores. No momento em que atingimos a idade adulta, nossos mestres são aqueles que nos tocam com uma novidade radical, aqueles que sabem inventar uma técnica artística ou literária e encontrar as maneiras de pensar que correspondem à nossa modernidade, quer dizer, tanto às nossas dificuldades como aos nossos entusiasmos difusos. Sabemos que existe apenas um valor de arte e até mesmo de verdade: a "primeira mão", a novidade autêntica daquilo que se diz, a "musiquinha" com a qual aquilo é dito. Sartre foi isso para nós (para a geração que tinha vinte anos no momento da Liberação). Quem, na época, soube dizer algo de novo além de Sartre? Quem nos ensinou novas maneiras de pensar? Por mais brilhante e profunda que tenha sido, a obra de Merleau-Ponty era professoral e dependia daquela de Sartre em muitos aspectos. (Sartre assimilava de bom grado a existência do homem ao não-ser de um “buraco” no mundo: pequenos lagos de nada, dizia. Mas Merleau-Ponty os considerava como dobras, simples dobras e dobramentos. Assim se distinguiam um existencialismo duro e penetrante e um existencialismo mais brando, mais reservado.) E Camus, ai! Ora se tratava de um virtuosismo afetado, ora de uma absurdidade de segunda mão. Camus valia-se de pensadores malditos, mas toda sua filosofia nos conduzia a Lalande e a Meyerson, autores já bem conhecidos dos alunos do terceiro grau. Os novos temas, um certo estilo novo, uma nova maneira polêmica e agressiva de levantar os problemas, tudo isso veio de Sartre. Na desordem e nas esperanças da Liberação, descobria-se, redescobria-se tudo: Kafka, o romance americano, Husserl e Heidegger, os acertos de contas sem fim com o marxismo, o impulso em direção a um novo romance…Tudo passava por Sartre, não apenas porque, sendo um filósofo, possuía um gênio da totalização, mas porque sabia inventar o novo. As primeiras representações de As Moscas, a aparição de O Ser e o nada, a conferência O Existencialismo é um humanismo foram acontecimentos: aprendia-se aí, depois de longas noites, a identidade do pensamento e da liberdade.
Os "pensadores privados" opõem-se, de uma certa maneira, aos "professores públicos". Até mesmo a Sorbonne precisa de uma anti-Sorbonne, e os estudantes só escutam bem seus professores quando têm também outros mestres. Nietzsche, no seu tempo, deixara de ser professor para tornar-se pensador privado: também Sartre o fez, num outro contexto e com uma outra saída. Os pensadores privados têm duas características: uma espécie de solidão que permanece como propriamente sua em qualquer circunstância; mas também uma certa agitação, uma certa desordem do mundo, na qual eles surgem e falam. Além do mais, só falam em seu próprio nome, sem "representar" nada; e solicitam presenças brutas no mundo, potências nuas que de modo algum são "representáveis". Já em Que é a literatura? Sartre traçava o ideal do escritor: "O escritor retomará o mundo tal e qual, todo nu, todo suado, todo fedido, todo cotidiano, para apresentá-lo às liberdades fundado sobre uma liberdade… Não é suficiente conceder ao escritor a liberdade de dizer tudo! É preciso que ele escreva a um público que tenha a liberdade de mudar tudo, o que significa – além da supressão das classes – a abolição de toda ditadura, a renovação perpétua dos cargos, a derrubada contínua da ordem – a partir do momento em que ameaça se fixar. Em uma só palavra, a literatura é essencialmente a subjetividade de uma sociedade em revolução permanente”(2). Desde o início Sartre concebeu o escritor sob a forma de um homem como os outros, dirigindo-se aos outros do ponto de vista único de sua liberdade. Toda sua filosofia se inseria num movimento especulativo que contestava a noção de representação, a própria ordem da representação: a filosofia mudava de lugar, abandonava a esfera do juízo, para se instalar no mundo mais colorido do "pré-judicativo", do "sub-representativo". Sartre acaba de recusar o prêmio Nobel. Continuação prática da mesma atitude, horror à idéia de representar algo praticamente, ainda que seja dos valores espirituais ou, como ele, diz, de ser institucionalizado.
O pensador privado precisa de um mundo que comporte um mínimo de desordem, mesmo que seja apenas uma esperança revolucionária, um grão de revolução permanente.  Em Sartre, há uma espécie de fixação na Liberação, nas esperanças desiludidas desse momento. Foi preciso a guerra da Argélia para reencontrar algo da luta política ou da agitação liberatória e, então, em condições muito mais complexas, já que não éramos mais os oprimidos mas, precisamente, aqueles que deviam se voltar contra si mesmos. Ah! juventude. Só resta Cuba e a guerrilha venezuelana. Porém, maior ainda do que a solidão do pensador privado, há a solidão dos que buscam um mestre, dos que gostariam de um mestre e que só poderiam encontrá-lo num mundo agitado. A ordem moral, a ordem "representativa" fechou-se sobre nós. Até o medo atômico tomou ares de um medo burguês. Agora acontece até de propor-se aos jovens Teilhard de Chardin como modelo de pensador. Tem-se o que se merece. Depois de Sartre, não apenas Simone Weil, mas a Simone Weil da imitação. Porém, não é que não existam coisas profundamente novas na literatura atual. Citemos ao acaso: o novo-romance, os livros de Gombrowicz, os contos de Klossowski, a sociologia de Lévi-Strauss, o teatro de Genet e de Gatti, a filosofia da "desrazão" que Foucault elabora… Mas o que falta hoje, o que Sartre soube reunir e encarnar para a geração precedente, são as condições de uma totalização: aquela em que a política, o imaginário, a sexualidade, o inconsciente, a vontade se reúnem nos direitos da totalidade humana. Hoje nós subsistimos com os membros esparsos. Sartre dizia de Kafka: sua obra é "uma reação livre e unitária ao mundo judeo-cristão da Europa central; seus romances são o ultrapassamento sintético de sua situação de homem, de judeu, de tcheco, de noivo relutante, de tuberculoso etc."(3). Mas o próprio Sartre: sua obra é uma reação ao mundo burguês, tal como o comunismo o põe em questão. Ela exprime o ultrapassamento de sua própria situação de intelectual burguês, de ex-aluno da École Normale, de noivo livre, de homem feio (já que Sartre se apresentava freqüentemente assim)… etc.: tudo isso que se reflete e ecoa no movimento de seus livros.
Falamos de Sartre como se ele pertencesse a uma época acabada. Mas ai! Nós é que estamos já acabados na ordem moral e no conformismo atual. Pelo menos Sartre nos permite uma vaga espera dos momentos futuros, de retomadas nas quais o pensamento se reformará e refará suas totalidades, como potência ao mesmo tempo coletiva e privada. É por isso que Sartre continua sendo nosso mestre. O último livro de Sartre, A crítica da razão dialética, é um dos livros mais belos e mais importantes surgidos nestes últimos anos. Ele dá a O ser e o nada seu complemento necessário, no sentido em que as exigências coletivas completam a subjetividade da pessoa. E quando pensamos novamente em O ser e o nada é para reencontrar o espanto que tínhamos diante em face dessa renovação da filosofia. Agora já sabemos melhor que as relações de Sartre com Heidegger, sua dependência de Heidegger, eram falsos problemas que se apoiavam em mal-entendidos. O que nos tocava em O ser e o nada era unicamente sartreano e dava a envergadura da contribuição de Sartre: a teoria da má-fé, em que a consciência, no seu interior, brincava com a sua dupla potência de não ser o que é e de ser o que não é; a teoria do Outrem, em que o olhar de outrem bastava para fazer o mundo vacilar e "roubá –lo" de mim; a teoria da liberdade, em que esta se limitava a si mesma ao se constituir em situações; a psicanálise existencial, onde se podia reencontrar asescolhas de base de um indivíduo no centro de sua vida concreta. E cada vez, a essência e o exemplo entravam em relações complexas que davam um estilo novo à filosofia. O garçom do café, a moça apaixonada, o homem feio e, principalmente, meu amigo-Pierre-que-nunca-estava-presente, formavam verdadeiros romances na obra filosófica e percutiam as essências ao ritmo de seus exemplos existenciais. Por toda parte brilhava uma sintaxe violenta, feita de rachaduras e de estiramentos, lembrando as duas obsessões sartreanas: os lagos de não-ser, as viscosidades da matéria.
A recusa do prêmio Nobel é uma boa notícia. Finalmente, alguém que não tenta explicar que é um delicioso paradoxo para um escritor, para um pensador privado, aceitar honras e representações públicas. Muitos espertinhos já tentam levar Sartre à contradição: demonstram-lhe sentimentos de despeito, vindo o prêmio tarde demais; objetam dizendo que, de qualquer maneira, ele representa algo;  recordam-lhe que, de todo modo, seu sucesso foi e permanece sendo burguês; deixam entender que sua recusa não é nem sensata nem adulta; mostram-lhe o exemplo daqueles que aceitaram-recusando, dando pelo menos o dinheiro à caridade. Melhor seria não provocar muito, Sartre é um polemista perigoso…Não há gênio sem paródia de si mesmo. Mas qual é a melhor paródia? Tornar-se um velho adaptado, uma autoridade espiritual coquete? Ou então querer ser o abobado da Liberação? Quem não vê a diferença de qualidade, a diferença de gênio, a diferença vital entre essas duas escolhas ou essas duas paródias? Ao que Sartre é fiel? Sempre ao amigo Pierre-que-nunca-está-presente. É o destino desse autor trazer ar puro quando ele fala, mesmo que seja difícil respirar esse ar puro, o ar das ausências.

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(1) Arts, 28 de novembro de 1964, p. 8-9. Um mês antes, Sartre tinha recusado o prêmio Nobel de literatura.
(2) Qu’est-ce que la litérature? Paris, Gallimard, coll. Folio Essais, p.162-163. 
(3) Qu’est-ce que la litérature ?ibid., p.293. 
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Tradução de Francisca Maria Cabrera. Fonte: http://intermidias.blogspot.com.br/2011/04/gilles-deleuze-declara-sobre-sartre-ele.html

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Invenção das tradições, identidade e chapéu

A História Social deve a Eric Hosbsbawm e Terence Ranger um dos mais emblemáticos trabalhos: o livro por ambos organizado sob o título The Invention of Tradition, que ganhou tradução no plural em língua portuguesa - A Invenção das Tradições. Das atiladas páginas aí escritas, é de se reter distinções feitas, como entre costume e tradição, tradição e convenção, tradição genuína e tradição inventada, etc. O trabalho de Hobsbawm e Ranger me veio à mente ao ler uma reportagem sobre o tradicional chapéu panamá, que, na verdade, é fabricado no Equador. Apreciador que sou do seu uso, chamou-me a atenção a informação segundo a qual os chineses estão a avançar, como um rolo compressor, fabricando uma versão 'pirateada' do chapéu panamá. E, assim, está em causa uma tradição que, ao fim e ao cabo, desde há séculos, vem sendo um elemento propulsor de identidade. Explico-me: quando a colonização espanhola aportou no hoje Equador, lá encontrou indígenas já usando o referido chapéu, sendo a produção própria desse país. De modo que o chapéu passou a ser um símbolo identitário equatoriano, na genuína perspectiva dos povos originários. De resto, ganhou o mundo, e no Brasil tem até confraria, com encontros anuais - tendo um deles (o VI) sido realizado em Natal.  Que a secular tradição do chapéu panamá consiga manter-se diante da investida dos chineses!  

Livro capta o significado das tradições...o chapéu panamá é um exemplo a ter em conta. 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

'Uma História Simples'


Estrada, doença, velhice - o fim próximo. Está aí o tom norteador de The Straight Story, que foi às telas do mundo português sob a designação de Uma História Simples, na tradução lusitana. O filme é de 1999, e o assisti quando vivia fora do Brasil. Desde o regresso, tenho procurado essa película deste lado de cá do Atlântico - gostaria de o assistir uma vez mais; contudo, sem êxito na busca. Baseado em fatos reais, é um filme sobre a vida e sobre a morte. Sobre o que se faz da existência, e no fim dela se olha para trás. Uma ilação daí pode ser tirada de modo indagativo: do que vale desentender-se, transformar a vida em beligerância, se, ao fim, tudo será nada? Se o nada de agora, ao fim, é que ficará como tudo? Assim se desperdiça a existência. Alvin Straight é um homem de 73 anos, residente em Iowa/EUA, que, ao saber que o seu irmão - morando em outro distante ponto do país - se encontra enfermo, sente uma imperativa necessidade de visitá-lo, afinal a vida inteira dos dois foi de brigas, de desentendimentos e de negar a fala um ao outro. Como fazer a viagem? Straight tem contas a acertar com os fantasmas que os seus 73 anos de existência instalaram em sua alma. Decide então fazer a longa viagem num vagaroso pequeno trator/cortador de grama... Pela estrada, dormindo e acordando, parando e partindo, encontrando os mais diversos personagens, vai ele se encontrando consigo mesmo. Ao finalmente encontrar o irmão, que fica surpreso com a visita e com a forma como foi feita a viagem, Straight diz que veio para, no fim de tudo, tal qual como quando eram crianças, sentarem novamente na varanda e olharem as estrelas. O filme tem a direção de David Lynch, primeiro diretor surrealista estadunidense. Se os que passam por este espaço tiverem notícia sobre onde encontrar esse filme, fico grato se me informarem. Aí abaixo o trailer e algumas fotografias. 








The Straight Story

The Straight story image

The Straight story image

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

O mal das certezas precipitadas

Aí está, às vezes, o mal causado pelas conclusões/certezas precipitadas não tem retorno. Só o tempo faz ver, a quem se precipitou, o erro cometido. Os povos latinos costumam atribuir o 'sangue quente' a uma suposta característica universal do ser humano. Talvez seja melhor atribuí-lo a uma "característica universal de determinados seres humanos latinos". O certo é que não são poucos os males causados pelas certezas precipitadas, na esfera amorosa, profissional e de convivência em geral, como é realçado no texto abaixo. Ao modo oriental, é de se dizer que o silêncio faz brotar frutos prósperos ao longo do tempo. Certo estava Aristóteles ao falar da reflexão do sensato. 


frase-o-ignorante-afirma-o-sabio-duvida-o-sensato-reflete

Por Robson Fernando de Souza 

Um dos grandes motivos das brigas de casais, das desavenças entre as pessoas e da intolerância contra as diferenças é a certeza precipitada. É tomar a priori como certo um acontecimento ou característica que não se sabe se realmente condiz com a realidade ou é apenas uma crença infundada. É, aliás, transformar meras crenças factuais em certezas absolutas que resultarão em conflitos muitas vezes desnecessários.
Por exemplo, quando a diretoria da empresa pune um empregado que acabou impedido de ir ao trabalho e avisar a tempo por que não pôde comparecer, como se considerasse de antemão que a falta teria sido por “vagabundagem” ou descompromisso com a missão da companhia. Ou então quando alguém, diante de uma catástrofe natural, arroga que “foi castigo de Deus” sem ao menos saber as causas geológicas ou climáticas por que tal cataclismo aconteceu.
A certeza precipitada também parece ser a força motriz da opinião de conservadores que acreditam, por exemplo, que os pobres o são porque “são preguiçosos” ou todos os criminosos o são por serem “intrinsecamente maus”, sem nem mesmo terem o interesse de verificar se suas crenças constituem a verdade. Assim como impele a polícia a prender um indivíduo que, do alto de sua miséria, furtou do supermercado alguns pacotes de arroz, como se tal furto tivesse sido indiscutivelmente movido por um “instinto criminoso” a ser implacavelmente combatido com a força da lei.
Da mesma forma, é o impulso que move todos os preconceitos. Racial, quando brancos racistas acreditam que negros, pela cor da pele, tendem à bandidagem ou à incapacidade de vencer na vida. Religioso, quando, por exemplo, cristãos intolerantes prejulgam ateus como se sua descrença os fizesse ser pessoas más e infelizes. Homofóbico, quando um intolerante crê que uma pessoa amar outra do mesmo sexo a predispõe a ser sedenta de sexo homoerótico a todo momento e em qualquer lugar. Entre tantos outros casos em que certezas infundadas rotulam minorias como se fossem “ruins” por sua(s) característica(s) que as torna(m) minoritárias, ou um indivíduo prejulga outro por características físicas ou de personalidade.
Graças a esse comportamento infeliz, brigas movidas por ciúme destroem relacionamentos, vítimas das injustiças sociais são tratadas como bandidos, o preconceito desgraça a vida de inúmeras pessoas, políticas sociais são desdenhadas e desvalorizadas, entre tantas outras consequências perniciosas que poderiam ser evitadas com uma reflexão humana sobre a precipitação em dar uma certeza apriorística.
Para evitar tal mal, é necessário questionarmos firmemente toda e qualquer crença precipitada que apareça em nossa mente, antes que ela se firme como uma certeza a motivar brigas, preconceitos e demais injustiças. Por exemplo, antes de acreditarmos que nosso(a) namorado(a) estava nos traindo, vamos verificar se isso é verdade ou é apenas uma impressão infeliz nossa.
Antes de acharmos que pobres são preguiçosos e “vagabundos”, procuremos estudar as causas (não só individuais, mas também sociais) de sua pobreza. Antes de julgarmos uma minoria como se fosse dotada de uma característica odiosa, vamos conhecer de verdade essa minoria, em seus costumes e crenças, antes de darmos qualquer julgamento precipitado sobre ela. Antes de pensarmos que veganos são subnutridos por não consumirem nada de origem animal, leiamos sobre nutrição vegetariana primeiro.
Antes que as certezas precipitadas nos levem a cometer injustiças muitas vezes irreversíveis, adotemos para nossas vidas a filosofia por trás do seguinte ditado atribuído a Aristóteles: “O ignorante afirma. O sábio duvida. O sensato reflete.” Ao invés da certeza a priori, vamos dar lugar à dúvida sobre se aquela crença que nos tenta a uma conclusão apressada condiz com a realidade, se a impressão que temos sobre algo ou alguém representa uma verdade ou é só uma impressão preconceituosa.
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Fonte: http://consciencia.blog.br/2013/04/o-mal-das-certezas-precipitadas.html#.UvUP-GJdVrn


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Para onde sopram os ventos de fevereiro?

Para além da mediocridade dos psesudoanalistas de sempre, eis aí, abaixo, mais um arguto artigo do cientista político Antonio Lassance. Preciso em captar a marcha do tempo/dos acontecimentos em 2014 no Brasil. Quem perde a marcha do tempo, como dizem os historiadores, corre o sério risco de ser por ele engolido. O "demiurgo" não faz concessões. Com seu curto texto, Lassance aponta a direção dos ventos de fevereiro - com um detalhe: assinalando o potencial que eles têm de condicionar a marcha do restante do ano. Vale a pena a leitura. 

 Fevereiro pode definir o rumo de 2014

ok Dilma, Aécio e Eduardo: 2014 já tem a largada definida
Principais candidatos: Dilma, Aécio e Eduardo Campos armam o jogo...

Senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP) será candidato em 2014 / Geraldo Magela/Agência Senado
... e o senador Randolfe Rodrigues (PSOL) tenta se apresentar como uma alternativa diferente   

Por Antonio Lassance 

É possível dizer que fevereiro, junho (mês da Copa) e outubro são os três meses cruciais da presidência Dilma Rousseff.

Em fevereiro, Dilma promove sua reforma ministerial e busca, com isso, consolidar as alianças favoráveis à sua reeleição em 2014.
O Congresso, com uma pauta extremamente polêmica e, por isso mesmo, com dificuldades de acordo, corre o risco de atravessar o mês paralisado. Se houve dificuldades sobretudo com a Câmara no ano passado, neste ano os problemas tendem a ser ainda mais difíceis de serem equacionados.
No Supremo, a novidade é o andamento do mensalão tucano. O ministro relator do caso, Luís Roberto Barroso, abrirá oficialmente em fevereiro o prazo para a defesa dos acusados. Respondem junto ao Supremo apenas o deputado Eduardo Azeredo (do PSDB-MG) e o senador Clésio Andrade (PMDB-MG).
Ao contrário da AP-470, em que todos os réus responderam junto ao Supremo, o processo do mensalão tucano foi desmembrado. A maioria dos acusados responderá na Justiça de primeira instância. O ministro Celso de Mello é o ministro revisor do caso.
O julgamento do mensalão tucano faz o contraponto com o escândalo atribuído aos petistas.
De todo modo, ainda estão pendentes de decisão, sobre a AP-470, a expedição dos mandados de prisão do deputado João Paulo Cunha e do ex-deputado Roberto Jefferson.
O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, já se manifestou pela prisão de Jefferson em estabelecimento prisional, negando inclusive a prisão domiciliar.
Os desdobramentos do caso de João Paulo Cunha no Supremo se refletirão na Câmara, que aguarda a decisão do STF para dar início ao processo de cassação do deputado.
Ao mesmo tempo, é bom lembrar que ainda há de ser concluído o julgamento dos réus do mensalão pelo crime de formação de quadrilha, o que pode elevar a pena e alterar o regime de prisão de alguns dos réus, como no caso do ex-ministro José Dirceu.
Outra questão central do mês de fevereiro é a do reajuste das tarifas de transporte coletivo. O Rio de janeiro e Porto Alegre têm possivelmente a situação mais crítica, pois pretendem realizar reajustar ainda neste mês.
O prefeito da capital fluminense anunciou que as passagens terão reajuste no dia 8 de fevereiro. Antes disso, diversos grupos promoverão, no dia 6, manifestações de protesto contra o aumento das tarifas.
O prefeito de São Paulo, por sua vez, declarou que não haverá aumento. Da mesma forma fez o prefeito de Salvador.
Em Curitiba, apesar da intenção da prefeitura de promover reajuste em 2014, o Tribunal de Contas determinou, ao contrário, que a tarifa seja reduzida. De todo modo, a decisão do Tribunal pode se tornar o próprio mote dos protestos.
Em Belo Horizonte, também já ocorreram mobilizações no mesmo sentido: forçar a redução da tarifa. A tarifa chegou a ser reduzida, no ano passado, mas as intermunicipais foram elevadas em mais de 6%.
Na Bahia, também são as passagens de ônibus intermunicipais que estão sofrendo maiores reajustes.
As prefeituras de outras cidades, como Vitória, postergaram a decisão sobre o reajuste.
O mês, portanto, promete ser um teste para avaliar em que medida podem ocorrer protestos da mesma dimensão e intensidade dos que ocorreram em 2013.
A consequência desse quadro deveria ser a retomada das discussões no Congresso para encontrar soluções de aumento dos subsídios e redução das tarifas de transportes nas cidades.
No entanto, o quadro de desavenças no Congresso torna pouco provável que isso aconteça, a não ser que os protestos ameacem mais uma vez ganhar volume e intensidade suficientes para apavorar os parlamentares e estimulá-los a retomar a pauta prioritária surgida, no ano passado, justamente a partir dos protestos.
O impasse se revela uma boa oportunidade para a presidência Dilma retomar uma ofensiva no Congresso, priorizando tal questão. Não deixaria de ser uma pauta positiva capaz de suplantar outras que, potencialmente, são consideradas explosivas, como é o caso das propostas de emenda à constituição que estabelecem pisos salariais nacionais para várias categorias.
Mesmo o marco civil da internet pode se tornar um problema. Apesar da prioridade do governo Dilma em defesa da proposta de marco civil, ela tem grandes chances de ser derrotada pela aliança do PMDB com partidos de oposição, que ameaçam retirar pontos considerados centrais, como o da neutralidade da rede.
Enquanto isso, os candidatos da oposição só devem de fato apresentar novidades em março.
A definição de Marina como vice de Eduardo Campos ainda depende do desenrolar das negociações entre PSB e Rede sobre o candidato próprio em São Paulo.
Aécio jogou para março o lançamento de sua candidatura. Embora todos já saibam que ele é o candidato do PSDB, o tucano diz que a candidatura "pode" ser lançada só em março. Ainda assim, não de forma oficial, mas oficiosa.

Enfim, fevereiro promete ser animado e cheio de surpresas. O mês tem ingredientes mais que suficientes para dar a embocadura do ano de 2014. 
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Fonte: http://www.cartamaior.com.br/?/Coluna/Fevereiro-pode-definir-o-rumo-de-2014/30170

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Sentidos da tristeza e melancolia romântica

O básico do texto aí abaixo é da vasta obra de Michael Löwy, de trabalhos como A Estrela da Manhã, Romantismo e Messianismo, Revolta e Melancolia, etc.

 

Por Guilherme Gutman e Pedro Duarte
            A caracterização de um sujeito como alguém romântico recupera conceitos como “melancolia” e “nostalgia”. Emerge, assim, a noção de um presente faltoso, um passado que se foi e certa esperança de um futuro que nunca chega. A relação entre Romantismo, melancolia e modernidade pode ser descrita através de uma dimensão crítica. Apesar dessa crítica representar algo aceso e vigilante, e a melancolia aparentemente associar-se a um desânimo e passividade, a reflexão sobre o diálogo entre esses três elementos é possível através do caráter crítico inesperado da melancolia. Essa tese encontra-se no pensamento de Michel Löwy, principalmente, em sua obra Romantismo e messianismo, na qual se pretende descobrir tal dimensão nas reflexões marxistas.
            A modernidade marcha a todo vapor calcada no Progresso e na Ciência, e a melancolia acompanha o movimento, não se apresentando passiva diante dele, mas crítica. O olhar melancólico seria quase como um antídoto à visão progressista da modernidade e da História. Ele é um olhar dirigido não para a face épica das criações humanas, mas para os seus escombros e seu aspecto trágico.
            A dimensão do ruminar é entendida pelos teóricos da melancolia como o seu aspecto positivo. O ser melancólico não apenas perde alguma coisa ao não conseguir lidar com funções pragmáticas e elementos mundanos, mas ganha a possibilidade de pensamento e criação. Ele é capaz de transformar objetos pretensamente úteis em objetos de ruminação. A melancolia como ruminação, dessa forma, exige um processo muito mais lento que o tempo racional e científico.
            A melancolia aparece no Romantismo marcada por um caráter histórico. A modernidade nasce sob o signo melancólico porque a sua base é a falta, a perda. O significado da palavra moderno surge de uma autoconsciência histórica da modernidade. O sujeito moderno não se sente mais capaz de confiar na sabedoria antiga para prosseguir. O seu mundo está marcado por uma crise na história da cultura e por um desamparo.
            É justamente a conquista da autoconsciência da modernidade que possibilita a querela entre Romantismo e Classicismo quanto à beleza estética. O que a vida moderna teria perdido em relação à Grécia seria a capacidade de basear-se em um padrão. A modernidade não pretendeu abandonar os gregos, mas reconheceu o padrão de vida desses como insuficiente para compreensão dos problemas do mundo moderno. Nesse momento, encontra-se um olhar melancólico diante de um mundo que perdeu uma forma já estabelecida.
            Perde-se, portanto, a importância da beleza clássica e surge uma nova categoria no lugar do belo, o sublime. O belo representa um sentimento estético de puro prazer, harmonia e perfeição. Já o sublime é prazer com dor, alegria com tristeza.  Na modernidade não há mais a ligação entre um sujeito e seu objeto através de um fio pleno. Experimenta-se um mundo de caráter problemático e confuso. Tal condição se reflete na arte e no desenvolvimento das obras do período.
            O homem moderno olha para a natureza e não consegue mais encontrar um lugar para si. Caminha na escuridão por não ter mais uma tradição clássica que o oriente e enfrenta, desamparado, ruínas e escombros. É no Romantismo que a paisagem e natureza ganham pela primeira vez um papel que não é o de cenário, um mero pano de fundo. A natureza romântica não é mero objeto a ser manipulado pela humanidade. Ela é um personagem vivo e poético que não está apenas atrás do que acontece, mas é o que acontece. No entanto, ela não se mostra totalmente. É nebulosa.
            O sublime é definido pelos filósofos do final do século XVIII como um sentimento estético derivado do momento de incapacidade da imaginação humana em nomear alguma coisa, ou seja, de uma resistência do objeto. O sublime aparece quando todo o padrão de medida é implodido. Para Kant, no sublime encontramos um grande prazer, pois é como se nossa imaginação apresentasse um desafio ao nosso pensamento. Quando ela não consegue formar uma imagem precisa de determinada coisa, a imaginação recorre ao pensamento para que esse atue de alguma maneira. Eis o sublime.
            Tanto o belo quanto o sublime são, no pensamento kantiano, características subjetivas e tipos de representação nos quais não encontramos o absoluto diretamente, mas indiretamente. Um sujeito tem acesso ao absoluto na medida em que se frustra e fracassa por não conseguir atingi-lo. O absoluto se afasta a cada tentativa e simboliza uma ausência sentida porque tentada. Há um contato com o  absoluto diante da impossibilidade de assim representá-lo. Essa ideia auxilia a compreensão do caráter melancólico do Romantismo: o reconhecimento da incapacidade científica de tudo esclarecer.
            A melancolia romântica é uma crítica à modernidade feita a partir dela mesma. Se a modernidade critica todos os tipos de ideais já definidos, é preciso que ela seja também autocrítica. E é justamente o caráter melancólico produzido por esse período histórico que possibilita a crítica de si mesmo.
            O que se aprende desde os filósofos antigos é que o bem encontra-se do lado da claridade, do Sol. O Romantismo, por sua vez, valoriza a noite e descarta sua associação ao mal. A claridade, a luz são fundamentais se o interesse do observador é pragmático, objetivo e busca reconhecer certa ordem. Mas é a escuridão que possibilita a visão da unidade, do conjunto e que impulsiona a imaginação. A tradição romântica aponta para a visualização da dimensão contrastiva da noite e descarta sua subestimação. O sonho e o inconsciente tornam-se fundamentais diante da desconfiança da autodeterminação e da vigília do homem. O amor romântico  é  prazer e serenidade.  
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Questão de segurança: crime, 'garras da lei' e bom senso

Há já algum tempo, a análise social tem feito incursões no 'mundo do crime', com interpretações bastante originais. No Brasil, por exemplo, o meu amigo Edmilson Lopes Júnior (UFRN),  lançando mão da sua aguda verve sociológica, tem desenvolvido marcantes abordagens a respeito, sendo uma referência nesse sentido o seu trabalho sobre as redes sociais do crime organizado, publicado pela Revista Brasileira de Ciências Sociais (disponível aqui: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-69092009000100004&script=sci_abstract&tlng=pt). A hipótese aí operacionalizada é sugestiva, qual seja: a melhor apreensão do crime é aquela que o tome como um processo situado em um continuum que vai da atividade legal até o evento delituoso. Para bom entendedor, 'meia palavra basta'. Ora bem, nos últimos tempos, tenho feito investigações similares, tendo em conta designadamente a questão das drogas (ilícitas), para então tratar da problemática no contexto educacional. Por esses dias, sistematizando dados empíricos e informações bibliográficas, fechei um paper a ser publicado na próxima edição da Revista Espaço Acadêmico/Paraná. Pode muito bem situar-se numa compreensão que apreende a questão da segurança localizando o delito entre as 'garras da lei' e o bom senso. Pelo trabalho produzido, deixo registrado o meu agradecimento às bolsistas, na UFPB, que atuaram no desenvolvimento da pesquisa; a colegas da UFPE (onde, quando nela trabalhava, inclinei-me à referida temática); e aos amigáveis contactos no setor de segurança pública/polícia civil de Pernambuco, pela solicitude para com as minhas demandas. 

Sociologia do crime, de Philippe Robert: relações sociais e delito 






Indivíduo: caráter e personalidade

Com um certo plus, em relação ao 'enfoque meramente psi', é possível encontrar na teoria social ferramentas conceituais de significativo alcance analítico no trato de questões como caráter, personalidade e identidade. Esta última, por exemplo, tem sido referida como 'a parte socializada da individualidade', num processo que deita raízes na primeira infância, na socialização primária e estende-se, de forma permanente, pela socialização secundária. Com tal prosa, quero colocar em realce Nobert Elias, que, nos últimos tempos, como desdobramento de algumas de suas obras, tem inspirado estudos sobre o caráter. Chama a atenção, em Elias, o fato de ele operar com três estruturas fundamentais: a social, a histórica e a psíquica. Trata-se de um empreendimento epistemológico de grande monta, relativamente ao qual os "enfoques psi" de banca de revista, de sítios de autoajuda e similares não têm condições de acompanhar. E o realce em Elias é para dizer que está disponível na rede, para download, o seu The Society of Individuals, obra central na referida discussão. Disponível em língua inglesa, supre, de qualquer forma, uma necessidade daqueles que, como eu, não se satisfazem com a tradução que foi feita para o português brasileiro. Como arremate, deixo-vos, abaixo, com uma recensão da livro Nobert Elias, do Prof. Robert van Krieken.  

Nobert Elias: determinações psíquicas e comportamento humano em foco

By Thomas Kemple, University of British Columbia 

The recent resurgence of interest in the work of Norbert Elias is part of the rediscovery of a relatively neglected period of social theory, from approximately the 1920s through the 1950s. Though some figures tend increasingly to be forgotten, such as Parsons and Lukacs, Marcuse and the first generation of the Frankfurt School, others, such as Bakhtin and Mauss, Bataille and the Collège de Sociologie, are being revived. Robert van Krieken's brief introduction to Elias' work does not explicitly consider this broader theoretical context, but it shows very nicely how Elias' enormous body of writings spanning almost sixty years challenges us to redraw the conceptual and historical boundaries between "classical" and "contemporary" theory, and between "canonical" and "noncanonical" writers, if not to rethink the misleading labels we use to designate complex theoretical "paradigms" (including "process sociology" itself, which van Krieken employs despite Elias' misgivings).
The case of Elias is especially interesting in this regard, particularly in view of how the historical vicissitudes of publication and translation have delayed and distorted his reception: his masterpiece, The Civilizing Process, only reached wide circulation some 30 years after it was first published in 1939, and its reception in English was hampered by being first published in two volumes separated by four years. As van Krieken demonstrates, a clear picture of Elias has yet to be fully recognized in part because Elias developed a unique and challenging synthesis of his predecessors (especially Weber and Freud), while at the same time marking out his own path by broadly criticizing or remaining aloof from his contemporaries (interestingly, he was a colleague of Mannheim in Frankfurt in the same building that housed the Institute for Social Research). Likewise, his impact on successors has only belatedly or hardly been noticed: on Giddens, who studied with him at the University of Leicester, on Goffman, who cited him briefly though approvingly, on Foucault, who produced an early (though unpublished) translation of The Lonely and the Dying, and on Bourdieu, whose recent work has increasingly taken on Elias' conceptual framework and vocabulary.
To be sure, van Krieken's book is no substitute for Stephen Mennel's more extensive and in depth introduction to Elias. (On the back cover, Mennel himself endorses the book as "an indispensable concise guide," while George Ritzer characterizes it as "an excellent entrée," as if to advance his own McDonaldization of theory). Rather, the merit of his overview is to identify a few key principles of research that to varying degrees guided the whole of Elias' magnificent corpus, but which were most explicitly formulated in the collections What is Sociology? (1978), The Society of Individuals (1991), and The Symbol Theory (1991): namely, the interdependent, (un)intentional, relational, processual, and positional dimensions of social life. This more theoretical argument could only have been worked out through elaborately detailed empirical investigations into the emergence of informal and formal techniques of discipline and (de)civilization at the levels of psychical and institutional organization: in The Court Society (first drafted in 1933), The Civilizing Process (first published in 1939), and The Germans (a 1989 collection spanning almost the whole of his career), as well as in fascinating shorter studies of sport, music, science, death, and time. A weakness of van Krieken's approach -- induced in part by the "Key Sociologists" series in which it appears, and even by Elias' own disciplinary self-definition -- is that Elias' core concept of "figurations" which embraces these principles is given a rather narrow "sociological" cast at the expense of its more multidimensional inspiration from and implication for a wide variety other scientific and aesthetic fields.
Van Krieken's book succeeds in providing an avowedly sympathetic though conscientiously critical assessment of Elias through what he calls "a principle of generosity" which does not presume upon the unity or consistency of the work but which tests it against Elias' own standards of "object-adequacy" and theory formation. In part this is achieved against a tendency in much of the growing critical literature on Elias which treats his general hypotheses (such as "the civilizing process" itself) as timeless conceptual formulations rather than within specific historical and cultural contexts. In part, this critical dimension is also opened up by presenting the biography of the work as an indispensable point of access into the writer's sociological imagination. What emerges from this is a paradoxical portrait of Elias: if not as a "homo clausus" who cultivated the isolationist and lonely posture he relentlessly criticized as our prevailing social habitus, then at least as a detached outsider in his own field, who hardly applied the "principle of generosity" when reading his contemporaries as he expected others to do when reading him. But this irony too must be considered within the complex figuration that constitues the very life of theory.