segunda-feira, 17 de julho de 2017

Para a memória histórica: 'nazistas entre nós'

Por Cláudia Eloi e Suetoni Souto Maior

Prédio com tijolos e mobília requintada, ao gosto da arquitetura e da decoração germânicas, combinadas com uma grande bandeira com a suástica, estrategicamente colocada na área central de uma das paredes da sala. No local, uma concorrida reunião do Partido Nazista, iniciada com a tradicional saudação “heil Hitler”, numa referência ao Terceiro Reich. Nos planos, a expansão da ideologia nazista no Brasil e na América Latina.
Apesar de a descrição acima sugerir um encontro na distante e fria Berlin, na Alemanha, o local fica bem mais próximo: o palacete pertencente à família Lundgren, em Paulista (PE), região metropolitana do Recife. O casarão, assim como a fábrica, era usado como uma espécie de “quartel general” pelos integrantes do Partido Nazista em Pernambuco.
Os encontros ocorreram de 1932 a 1938, quando a existência do movimento foi proibida em solo brasileiro. A partir daí, eles passaram à clandestinidade e foram acompanhados de perto, na época, pelo serviço de espionagem brasileiro. O governo federal queria estar a par de qualquer movimentação, e cada passo dos alemães era cuidadosamente registrado. 
Oficialmente, os alemães foram a Pernambuco para trabalhar na Fábrica de Tecidos Paulista, que deu origem à rede de lojas Casas Pernambucanas, de propriedade dos Lundgren. Mas algumas reuniões, de acordo com os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), tinham como propósito difundir entre os “espiões nazistas” a propagação da ideologia de Hitler, os planos de expansão do regime e os preparativos para a Segunda Guerra Mundial. 
Com a mudança de lado do ex-presidente Getúlio Vargas, que passou de simpatizante a inimigo do nazismo, em 1942, já com a guerra em curso, por pressão do governo americano, diversos alemães foram levados ao campo de concentração batizado de Chã de Estevam, em Araçoiaba, antigo distrito de Igarassu. “O Dops de Pernambuco, além de caçar comunistas, teve forte atuação na perseguição dos supostos espiões nazistas. Não eram apenas os funcionários da fábrica. Muitos deles atuavam como empresários, em instituições financeiras, no comércio e na indústria”, explicou o chefe de apoio técnico do Arquivo Público do Estado, Roberto Moura.

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Fonte: http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/50686


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Educação e sociedade hoje: desafios, práticas e alternativas

Dizem os economistas Abhijit Banerjee e Esther Duflo que ignorância e inércia são, dentre outros, fortes adversários do desenvolvimento pessoal e social, assim como  bloqueadores do raciocínio analítico. O que só faz “embaralhar” a percepção da realidade e a compreensão dos dispositivos de mudança social. De qualquer forma, não é padrão que o erro humano seja, de todo, “aleatório”, na medida em que as tomadas de decisões decorrem de "deambulações mentais" que podem gerar resultados previsíveis e, ao mesmo tempo, distantes do que seria o mais apropriado para o indivíduo e a sociedade – se fossem resultados oriundos de decisões assentes num “código de racionalidade”. O ser humano parece propenso a estabelecer vínculos imediatos de causa e efeito em tudo o que presencia e vivencia. É preciso, portanto, conhecimento sistematizado, análise e equilíbrio para evitar o autoengano e o enviesamento de entendimento perante a realidade em geral e os fatos que instigam o sentido da vida cotidiana.
Pois bem, nos últimos tempos, no Brasil, parece que não temos marchado por aí numa esfera fundamental: o da pesquisa social/educacional. Uma ilustração empírica a esse respeito: uma credível pesquisa feita recentemente (com uma amostragem representativa de um universo de 17 milhões de jovens com idade entre 15 e 19 anos) revelou que, para 85,2% dos discentes do Ensino Médio, o principal problema da escola é a questão da segurança. Enquanto isso, por outro lado, paradoxalmente, “algumas pautas educativas” e “determinados pesquisadores educacionais” andam a alimentar uma agenda que, inteiramente desconectada da realidade dos sujeitos em formação, regozija-se ora com modas acadêmicas, ora com a repetição estéril de enfoques que, se no passado tiveram relevância, atualmente se revelam impertinentes como dispositivos analíticos, e, desse modo, uma das suas utilidades - para os que os repisam como “bens do mercado cognitivo” -  é servir de degrau para a autopromoção e o marketing pessoal.    
Posto isto, o realce é para dizer que o livro Educação e Sociedade: Perspectivas sobre Saúde, Ambiente e Formação,  que organizo e brevemente estará disponível, com o selo da Editora Universitária CCTA e sob a chancela do CNPq, procura seguir uma trilha diferente. Pesquisadores estrangeiros e de diferentes universidades brasileiras buscam desenvolver abordagens tendo como propósito tratar analiticamente das questões que a realidade coloca como desafio e, por outra parte, aportar conceitos e procedimentos para as enfrentar no terreno da prática social. Segue, aí abaixo, a Introdução do livro.  



Em um dos seus últimos trabalhos, o geógrafo brasileiro Milton Santos, ao ter em perspectiva os cenários do início do século XXI, assinalou: “Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido.”[1] Em seguida, indagava se existiria nisto um paradoxo pedindo uma explicação, e afirmava que há, por um lado, um extraordinário progresso das ciências e das técnicas e, por outro, as vertigens que a aceleração contemporânea cria, a começar pela própria velocidade. Porém, tudo isso, conforme o seu entendimento, são inventos de um mundo criado pelos próprios seres humanos, cuja utilização, aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido. Dessa forma, para entender a realidade que estamos a viver, enfatizava ele: “Explicações mecanicistas são insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material [contemporânea], se produz a história humana que é a verdadeira responsável pela criação da torre de babel em que vive a nossa era.” [2]
Entender a nossa era, em suas múltiplas dimensões, é, portanto, um desafio. Para isso, é necessário método, ou seja, conforme a etimologia da palavra indica, é preciso definir um caminho de estudo e de abordagem. Nesse sentido, ao publicar o seu clássico trabalho “A Sociedade em Rede”,[3] Manuel Castells foi paradigmático ao delinear uma perspectiva: “Proponho a hipótese de que todas as maiores tendências de mudança em nosso mundo novo e confuso são afins e que podemos entender o seu inter-relacionamento. E acredito que observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo diferente e melhor.”
De forma geral, o presente livro assume essa perspectiva como pressuposto. O que mais, no entanto, nele, aglutina autores de diferentes países (Brasil, Uruguai, Portugal e Espanha) e oriundos de distintas tradições acadêmicas? Dentre outros, podem ser mencionados mais dois aspectos inter-relacionados.
O primeiro é a busca por desenvolver enfoques inter/transdisciplinares, o que significa então procurar superar a fragmentação disciplinar, que separa na teoria o que está unido na empiria, e assim ergue fronteiras estanques classificando “pedaços da realidade” de acordo com os “interesses corporativos da cada ciência específica” (e de seus agentes). Como decorrência, o segundo aspecto diz respeito à tentativa de construir novos enfoques e paradigmas em torno das questões abordadas pelo livro.  
Tendo o referido norte, a obra se estrutura em torno de cinco eixos temáticos: educação e saúde; drogas e sociedade; educação em espaços não formais; ambiente e educação; epistemologia e sociedade.
Em relação ao primeiro eixo, o texto de Ivonaldo Leite faz uma incursão retrospectiva na relação educação e saúde, seguida de uma abordagem sobre as configurações dessa relação na contemporaneidade e de um enfoque considerando a pesquisa no campo da saúde, tendo em conta a formação profissional. Por sua vez, Paulo Santana, apoiando-se nos estudos da complexidade desenvolvidos por Edgar Morin, realiza um movimento analítico em que discute o processo saúde-doença, o conceito de saúde e coloca em realce um histórico da construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Em perspectiva semelhante, mas com uma dimensão sociológica mais acentuada, segue o texto de Nildo Viana tratando do processo saúde-doença como processo social e das causas das doenças relacionadas às condições de vida das classes sociais.
O tema das drogas (lícitas e ilícitas) é o fio condutor do segundo eixo. Nele, Renata Monteiro Garcia problematiza analiticamente a medicalização da infância e destaca o grau de gravidade ao qual se chegou a prescrição da chamada “droga legal” no cotidiano escolar, referindo, nesse sentido, o uso do medicamento metilfenidato, também conhecido pelos nomes de Ritalina e Concerta. Trata-se, por certo, de uma questão que coloca significativos desafios ao trabalho pedagógico na infância, constituindo-se, além disso, num problema preocupante quando se consideram as consequências que o uso de metilfenidato tem sobre os corpos e o desenvolvimento das crianças. Por sua vez, Ione Gomes e Patrícia Souza passam em revista o debate sobre a descriminalização ou não das drogas ilícitas. Trata-se de uma discussão, sem dúvida, de significativa relevância no contexto brasileiro, onde, muitas vezes, os preconceitos e a desinformação em matéria científica impedem a devida compreensão do assunto e, portanto, bloqueiam a formulação de políticas apropriadas a respeito. Da sua parte, Fernando Bessa Ribeiro, David Pereira e Cristina Macieirinha dão a conhecer a experiência do seu país, Portugal, no tocante à política de drogas, experiência marcada por já mais de 15 anos de descriminalização e que tem recebido menções, na comunidade científica, como referência a ser considerada no que concerne à apreciação de ações para lidar com a questão.[4] Daí que, sugestivamente, os autores intitulem o seu texto como “Interpelando o proibicionismo: o caso português como possibilidade de outros caminhos para as políticas da droga?” O Uruguai também tem sido destaque por sua política alternativa em relação às drogas, com uma perspectiva mais ousada do que Portugal, e, de lá, Valentín Magnone aporta um texto ao livro, enfocando as políticas de drogas e o conceito de governamentalidade. Um aspecto pouco abordado, e mesmo despercebido, é o abuso de substâncias psicoativas por estudantes com deficiência, e é disso que, fechando o segundo eixo da obra, se ocupa Fernanda Jorge Guimarães e colaboradores, tratando de intervenções educativas preventivas.
O terceiro eixo do livro é voltado ao fenômeno educativo nos contextos não formais. A esse respeito, Sheyla Fontenele, Iandra Caldas e Francicleide Cesário têm em apreciação o hospital como espaço educativo e tratam da formação ético-profissional do pedagogo para atuação na esfera hospitalar. As autoras enfatizam que a Pedagogia Hospitalar é uma prática educativa organizada, voltada a um ambiente educacional específico, requerendo, portanto, que os cursos de Pedagogia revejam os seus componentes curriculares, considerando esse âmbito de ensino-aprendizagem.  Pedagogia Social e Educador Social são expressões que, sobretudo nos últimos tempos, têm marcado o campo da educação não formal no Brasil, existindo, todavia, por outro lado, um amplo desconhecimento das suas definições e significados. Em seu texto, Milene Rejane debruça-se sobre o assunto e coloca em realce uma perspectiva histórico-conceitual a respeito do perfil do Educador Social, considerando também a sua configuração como profissão no Brasil.
O quarto eixo refere-se ao tema ambiente e educação. Tema, por si, propenso a aglutinar enfoques disciplinares diversos, ele tem essa expressão confirmada no texto de Sérgio Botton Barcellos. O autor, um interveniente na questão ambiental no extremo sul do Brasil, realiza uma incursão relacionando, por exemplo, educação ambiental e saúde, a partir de um projeto social desenvolvido no município de Santa Maria/RS. Também aliando atuação acadêmica e intervenção no contexto da temática ambiental no extremo sul do Brasil, Carlos Machado enfoca, junto com Kathleen Aguirre e Eron Rodrigues, a relação entre Educação Ambiental e o emergente campo da História Ambiental. Eles discutem a produção e a reprodução do real nas/das relações sociais, o contexto brasileiro e a configuração do real relacional desigual, assim como o lugar da Educação Ambiental e da História Ambiental perante esses delineamentos.
A reflexão sobre corpo e sociedade, acerca do social e do natural, bem como a respeito da sociedade e dos processos neurais, estrutura a base de enfoque do quinto e último eixo do livro. Nesse sentido, Gilmar Leite realiza uma abordagem aproximativa do tema corpo e natureza, realçando notas propedêuticas, constantes do pensamento moderno e contemporâneo, e que se constituem como uma espécie de convite a uma incursão mais pormenorizada no assunto. A busca de estreitamento de relação entre as neurociências e as ciências humanas tem sido algo fortemente valorizado na Espanha, principalmente quando está em apreciação a busca de novas alternativas educativas, resultando disso, por exemplo, formulações como neuroeducação.[5] Dando expressão a esse empenho analítico do seu país, Vicente Huici Urmeneta encerra o livro com um texto que, aproximando neurociências e o contexto social, delineia um novo campo do conhecimento: a neurosociologia.
Tendo a forma e o conteúdo que se acaba de descrever, este livro apresenta-se, por um lado, como um contributo ao debate em torno dos temas que ele aborda e, por outro lado, como obra cuja leitura pretende ser um ponto de maturação de procedimentos para tratar dos problemas que desafiam a prática social.
Por fim, cabe deixar consignado que a sua publicação é levada a cabo sob a chancela do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
                                                     




[1] SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 09.
[2] Ibidem, p. 09.
[3] CASTELLS, Manuel. The rise of the network society. Vol. I. Cambridge, MA; Oxford, UK: Blackwell, 1996.
[4] Ver, por exemplo, HUGHES, Caitlin E.; STEVENS, Alex. What Can We Learn From The Portuguese Decriminalization of Illicit Drugs? In: The British Journal of Criminology, vol. 50, nº 06, 2010, p. 999-1022. 
[5] A propósito, ver MORA, Francisco. Neuroeducación. Madrid: Alianza Editorial, 2013.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

A ideia de universidade e a delinquência acadêmica

Por Rafael Barros de Oliveira
Quando recebeu o título de professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em 1997, o geógrafo Milton Santos  pronunciou um discurso intitulado O intelectual e a universidade estagnada.  Nessa intervenção, indagando-se sobre as possibilidades de produção adequada de conhecimento num mundo em constante mudança, questionou: Como fazê-lo no Brasil, onde a vida intelectual está organizada em torno de clubes, de clãs e do enturmamento, sendo às vezes mais útil passar as noites em reuniões com os colegas que mandam, do que queimar as pestanas, como antigamente se dizia, em frente dos livros?
Santos aponta para um fenômeno bastante comum na paisagem universitária nacional, a saber: a endogamia. Formam-se grupos de poder e de influência entre os membros da comunidade acadêmica, os quais aparelham e capturam as instituições, mandando, desmandando e ditando seus rumos e perpetuando-se nas posições de chefia. Nesses casos, como disse o geógrafo, vale mais a pena investir o tempo em cópulas sociais – quando não físicas – com colegas influentes do que em estudos, pesquisas e publicações.
Outro aspecto dessa formação de panelinhas é a endogenia: a produção das futuras gerações acadêmicas no interior da própria universidade, sem muito espaço para influências externas. Isso está bem documentado por uma pesquisa do departamento de ciência da computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre circulação de pesquisadores no Brasil. Analisando cerca de seis mil pesquisadores brasileiros, o grupo observou que apenas 20% (um quinto do total, portanto) constroem suas carreiras profissionais a mais de quinhentos quilômetros (500km) de onde fizeram sua formação universitária.
O efeito mais pernicioso dessa estrutura de reprodução endogâmica e endogênica é o engessamento e a falta de circulação – não só de pessoas, mas de ideias. Gerações atuais costumam repetir ou, na melhor das hipóteses, reformular os trabalhos realizados por seus orientadores e orientadoras e, consequentemente, treinar gerações futuras para seguir na mesma toada: a repetição da repetição, ad nauseam. Ora, a força das universidades e da vida acadêmica reside precisamente em sua capacidade de abertura a novas ideias. Sem ela, é impossível à universidade realizar sua tarefa mais vital, da qual sua sobrevivência depende estritamente, como bem apontou Santos:
A universidade, aliás, é, talvez, a única instituição que pode sobreviver apenas se aceitar críticas, de dentro dela própria, de uma ou outra forma. Se a universidade pede aos seus participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é, à morte, pois seu destino é falar. A fidelidade reclamada não pode ser à universidade, e a ela não temos razão para ser fiéis. Nossa única fidelidade é com a ideia de universidade. E é a partir da ideia sempre renovada de universidade que julgamos as universidades concretas e sugerimos mudanças.
Pois bem, embora não se configurem estritamente como casos de nepotismo – o favorecimento de parentes na nomeação de cargos – porque não se tratam de relações consanguíneas, há de se convir que a atuação de padrinhos e madrinhas acadêmicos é decisiva na construção de carreiras na universidade. Além de impedir a renovação científica, intelectual e crítica das instituições, pressupostos de seu fortalecimento, essa prática provoca distorções quanto à primazia da qualidade acadêmica ou promoção de certa meritocracia.
Para além de razões culturais, antropológicas e sociológicas que invocam traços da formação brasileira como compadrio, uma das causas desse fenômeno está na própria estrutura de carreira das universidades brasileiras, especialmente as públicas. Uma vez aprovado(a) no concurso, o(a) docente adquire estabilidade no cargo após um período de experiência de alguns anos – normalmente três.
Como combater esse problema? Engana-se quem pensa que a solução esteja na extinção da estabilidade. Países anglófonos, como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, por exemplo, concedem estabilidade a uma parcela cada vez menor de docentes, o que gera uma massa de profissionais com contratos temporários instáveis e precários, sobrecarregados por obrigações e impossibilitados de desenvolver pesquisas de médio-longo prazo – o que, irônica e paradoxalmente, lhes qualificaria para postos permanentes. Países como Alemanha, França e Itália têm soluções locais para promover algum grau de circulação em seus sistemas universitários, mas essas costumam estar intimamente ligadas à história e à constituição desses.
Não é necessário, entretanto, importar soluções. Um caminho se encontra disponível no Brasil, nas carreiras jurídicas, por exemplo. Carreiras federais são organizadas nacionalmente, e os ingressantes distribuídos pelas diversas Unidades da Federação de acordo com a demanda e disponibilidade de vagas de cada uma delas (exemplo: Ministério Público Federal). Ao longo da carreira, a cada x anos, o(a) profissional pode optar por se transferir para outra localidade – novamente de acordo com a demanda e a disponibilidade de vagas. O mesmo acontece em esfera estadual (exemplo: magistratura estadual). Isso tudo sem prejuízo da estabilidade no cargo.
Por que não tentar algo semelhante na carreira acadêmica? Docentes e pesquisadores poderiam prestar concursos federais e estaduais, após cuja aprovação seriam alocados nas instituições que carecessem de profissionais. Alguns anos depois, poderiam solicitar transferência para outras, se for de seu interesse.
Naturalmente, não se trata de uma solução perfeita. Ela não impede a captura de bancas de concursos por grupos de influência e distorções sistêmicas. No entanto, já é mais do que se tem feito hoje para combater esse grave problema: nada. Dado o que está em jogo, vale a aposta.
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Fonte: http://terracoeconomico.com.br


segunda-feira, 10 de julho de 2017

"Prisioneiras"

Por Mario Sergio Conti

O novo livro de Drauzio Varella, "Prisioneiras", da Companhia das Letras, trata de mulheres enjauladas. Ele conta que, como elas não têm onde cair mortas quando saem da prisão, novos crimes e condenações são inelutáveis. Para algumas a cadeia é preferível à liberdade. Ao menos não há crack no cárcere.
O livro é uma desgraceira só. Por frequentar penitenciárias há 28 anos, o autor é pessimista. Ele diz que o problema prisional ficou intratável com as detenções em massa. A repressão burra às drogas fez com que o número de presas crescesse 567% em 14 anos, passando de 5.600 para 37 mil.
Um ar podre de pântano paira sobre "Prisioneiras": o do inevitável. Novos ventos, todavia, vêm revirando o lodaçal. Drauzio começou a cuidar de detentos em 1989. Vieram desde então a chacina no Carandiru, a fundação do Primeiro Comando da Capital e a explosão do crack. E tudo mudou.
Para pior. O massacre dos 111 marcou o apocalipse do sistema fundado na fúria policial. Os presos revidaram e criaram o PCC. O crack devastou os presídios, dizimando milhares. Das ruínas do Estado surgiu a nova ordem, violenta de alto a baixo.
Ei-la, a ordem vigente: o Primeiro Comando proibiu o crack nos presídios; controla todas as cadeias para homens e 90% das femininas; enraizou-se em todo o país; trafica, rouba e mata; corrompe e comanda partes da polícia; domina periferias, elege parlamentares, negocia de igual para igual com o Estado.
Se não há redenção à vista, há testemunho. Precedido por "Estação Carandiru" e "Carcereiros", "Prisioneiras" encerra a trilogia do médico do Brás sobre prender e punir. O painel que ele constrói tem alcance maior que o dos especialistas e é mais profundo que o relato jornalístico. Tem a energia do longamente vivido, do apreendido e pensado.
A trilogia ecoa às vezes dois livros que se passam na Sibéria do século 19. Em "Recordações da Casa dos Mortos", Dostoiévski escreve sobre seus quatro anos de prisão nos confins do império russo. Tchékhov conta em
"A Ilha de Sacalina" o que descobriu quando investigou uma colônia penal czarista.

As diferenças dos livros de Drauzio com o de Dostoiévski são nítidas. O russo foi preso político e as "Recordações" têm muito de ficção. Já Tchékhov era médico também, e tinha uma curiosidade parecida com a de Drauzio, de natureza objetiva. Mas Tchékhov passou apenas três meses entre os presos, e não tratou deles.
O que prevalece nos livros dos três é a crueldade do universo que retratam. "Cárcere" deriva da palavra latina que designa o lugar onde ficavam as carroças. "Penitenciária" remete a penar, penitenciar-se. A prisão não apenas aparta certas pessoas da coletividade, imobilizando-as como coisas ou como a morte.
Presídios existem isso sim para atormentar gente. São lugares onde o sadismo da sociedade é sancionado e –como na Rússia autocrata e no Brasil democrata– incentivado. Ninguém melhor que um médico, no exercício do seu metiê, para observar a dor e o sofrimento. Ninguém melhor do que Drauzio Varella.
Porque ele não trata do espírito, e sim do corpo, da vida material que molda o espírito. Ele escutou as histórias das pacientes "cum grano salis", e as pensou a partir de pressupostos científicos. É na contramão, depois de comparar e pensar, que se permite generalizações –que jamais reproduzem preconceitos em moda. Não é o sabichão de praxe.
Ele observa, por exemplo, que na cadeia, assim como entre grupos de chimpanzés e humanos, "a liderança não é necessariamente exercida pelo mais forte, mas por aquele com mais habilidade para formar coalizões". Aplica o conceito ao PCC, e não a Temer.
Ninguém melhor do que Drauzio para contar o que as prisões brasileiras se tornaram. Para dizer o que as prisões dizem da sociedade que as gerou e gere. 

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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/. Título original: 'Ninguém melhor do que Drauzio para contar o que as prisões se tornaram'. 


quarta-feira, 5 de julho de 2017

"El Ministerio del Tiempo" vai na contramão do tempo-espaço da era global

Por Wilson Ferreira

Desde “O Exterminador do Futuro” (1984) e “De Volta ao Futuro” (1985), as representações do tempo mudaram no cinema e audiovisual: o Tempo tornou-se mutante e aleatório como um hipertexto. Mas curiosamente, a série da TVE (a tevê pública espanhola) “El Ministerio Del Tiempo” (2015) vai na contramão desse imaginário sobre o tempo-espaço que caracteriza a atual era das tecnologias digitais e Globalização: ao contrário, a série de ficção-científica mostra o Tempo como um fenômeno unidirecional e imutável onde um ministério secreto do governo protege misteriosas portas do tempo de possíveis oportunistas que tentem alterar o passado em seu próprio benefício. Se o cinema é um documento do imaginário de cada época, a série espanhola parece apontar para uma reação contra o paradigma tempo-espaço que sustenta a financeirização e a Globalização. Mergulhada em uma crise econômica desde o fim da estabilidade da Zona do Euro, a Espanha nos oferece uma série que quer se apegar ao nacionalismo e à sua História como resposta à crise global.
O leitor deve conhecer o mais famoso quadro do pintor espanhol Valazquez, Las Meninas de 1656 – composição enigmática que sugere um quadro dentro de um quadro, criando uma relação incerta entre observador e a obra. Quem é a figura no fundo atravessando um corredor que observamos através de uma porta aberta? O neto do pintor, Dom José Nieto Velazquez? Não, provavelmente algum viajante do Tempo de passagem que parou para observar a cena.
É o que sugere a série produzida pela tevê pública espanhola (TVE) Lo Ministerio Del Tiempo em uma rápida sequência onde é apresentado ao protagonista o maior segredo guardado pelo governo espanhol: portas e corredores do tempo existentes em um subterrâneo na cidade de Madrid – segredo de um rabino na Idade Média que, em troca de não ser expulso revelou o segredo para reis católicos. Uma rede de portas de origem misteriosa que se conecta com o passado dos reinos espanhóis.
A rede de portas é administrada e guardada por entediados funcionários públicos do Governo, principalmente porque existe a ameaça da existência de portas clandestinas: existem pessoas que querem mudar o passado em seu benefício – líderes de legiões romanas que querem ter acesso a metralhadoras atuais ou militares franceses do século XVIII que querem ter acesso a revólveres da polícia de Madrid para derrotar a Espanha – tema do episódio piloto da série. E se a Al Qaeda de 2001 tivesse acesso aos modelos atuais de celulares?

Três Personagens Distintos
A série acompanha o recrutamento pelo ministério de três personagens em três épocas diferentes: Alonso de Entreríos (soldado condenado a morte no século XVI), Amélia Folch (feminista e primeira mulher a frequentar uma universidade da Espanha no século XIX - inteligente e com uma memória fotográfica é o cérebro do grupo) e Julian Martinez, paramédico do Samu na Madrid atual.
Cada um deles vive em sua respectiva época, mas ocasionalmente são convocados para missões secretas para localizar e combater oportunistas que descobrem as portas do tempo clandestinas, e tentam mudar o passado a seu favor. Três personagens bem distintos, que criam em muitos momentos situações engraçadas e irônicas – como um soldado do século XVI poderá aceitar ordens de uma feminista do final do século XIX?
Duas coisas chamam a atenção nas linhas de diálogo do El Ministério Del Tiempo: constantes referencias irônicas que o paramédico Julian faz ao filme O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984) e ironias em relação a atual situação econômica da Espanha – venceu a guerra contra a França no passado, mas hoje “presta homenagens ao Banco Central Europeu”. Ou quando os três atônitos protagonistas perguntam o que fazer em sua primeira missão para deter os militares franceses do século XVIII: “improvisem, como faz todo espanhol”, numa alusão ao atual cenário de crise econômica.

Três Personagens Distintos
A série acompanha o recrutamento pelo ministério de três personagens em três épocas diferentes: Alonso de Entreríos (soldado condenado a morte no século XVI), Amélia Folch (feminista e primeira mulher a frequentar uma universidade da Espanha no século XIX - inteligente e com uma memória fotográfica é o cérebro do grupo) e Julian Martinez, paramédico do Samu na Madrid atual.
Cada um deles vive em sua respectiva época, mas ocasionalmente são convocados para missões secretas para localizar e combater oportunistas que descobrem as portas do tempo clandestinas, e tentam mudar o passado a seu favor. Três personagens bem distintos, que criam em muitos momentos situações engraçadas e irônicas – como um soldado do século XVI poderá aceitar ordens de uma feminista do final do século XIX?
Duas coisas chamam a atenção nas linhas de diálogo do El Ministério Del Tiempo: constantes referencias irônicas que o paramédico Julian faz ao filme O Exterminador do Futuro (The Terminator, 1984) e ironias em relação a atual situação econômica da Espanha – venceu a guerra contra a França no passado, mas hoje “presta homenagens ao Banco Central Europeu”. Ou quando os três atônitos protagonistas perguntam o que fazer em sua primeira missão para deter os militares franceses do século XVIII: “improvisem, como faz todo espanhol”, numa alusão ao atual cenário de crise econômica.
Exterminador do Futuro e De Volta para o Futuro dos anos 1980 foram filmes que alteraram a concepção clássica sobre o tempo no cinema. Ao contrário de séries cultuadas como O Túnel do Tempo (Time Tunnel, 1966-67) onde Philip e Doug tentam evitar sem sucesso as tragédias da História, a partir dos anos 1980 podemos voltar ao passado para alterá-lo e, simultaneamente, melhorar o presente. Mais do que isso, em filmes recentes como O Efeito Borboleta (2004) e Sr. Ninguém (Mr. Nobody, 2009) transforma-se em um hipertexto onde cada opção cria um futuro ou um passado alternativos, configurando um contínuo espaço-tempo cada vez mais complexo como uma série de universos paralelos que, potencialmente, poderiam se tangenciar ou influenciarem-se mutuamente.
O que chama a atenção de El Ministerio Del Tiempo é a sua concepção do contínuo tempo-espaço que transforma a série num documento de época, um produto cultural cujo imaginário reflete a atual situação econômica espanhola e europeia. 
Em primeiro lugar a série parece romper com a concepção de tempo, por assim dizer, pós-moderna iniciada nos anos 1980 – um contínuo maleável, moldável e que pode se bifurcar. Ao contrário, na série espanhola o passado deve ser guardado e mantido intacto a todo custo. O Governo é o guardião da História cuja missão é caçar todos os oportunistas que tentam mudá-la.
Parece que todos os passados de todas as épocas estão ainda sendo vivenciados repetidamente, ad eternum – por exemplo, um dos funcionários públicos que administram as portas do tempo sempre visita a de número 58 para reviver uma histórica vitória em uma partida do time do Real Madrid.

Tempo Real e a Globalização
O tempo-espaço complexo e mutável retratado pelo cinema segue paralelo ao desenvolvimento das mídias digitais, a linguagem hipertexto e a Internet – tecnologias que foram as ferramentas fundamentais para a Globalização e a integração do sistema financeiro mundial.
Se o historiador francês Marc Ferro estiver correto de que toda produção cinematográfica é um documento histórico por carregar consigo mentalidades, costumes e o universo simbólico do período em que foi produzido, podemos considerar que isso é mais do que um paralelismo (sobre isso leia FERRO, Marc. Cinema e História, São Paulo: Paz e Terra, 1992). 
Os seminais Exterminador do Futuro e De Volta Para o Futuro refletiram a concepção tempo-espaço da financeirização da sociedade – a hegemonia dos mercados financeiros (o chamado “turbo-capitalismo”) produziu a virtualização monetária, a integração em tempo-real das praças financeiras que produziu fluxos voláteis e cenários de engenharia financeira cada vez mais complexo.
Para o capital financeiro virtual e sem o antigo lastro-ouro que ancorava o papel-moeda, a realidade torna-se plástica, rapidamente modelável em um eterno presente (o “tempo-real”). Passado e futuro desaparecem nesse contínuo presente e o tempo deixa de ser rígido numa sucessão de causa e efeito – agora o Tempo é aleatório, caótico. 
Não mais lemos a História como um texto, mas navegamos como em um hipertexto onde saltamos de um lado para outro por meio de hiperlinks.


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Fonte: http://jornalggn.com.br/blog/wilson-ferreira/. 

sábado, 1 de julho de 2017

As manhãs que começam e ensinam

Herberto Helder, dito por Fernando Alves. 


Um romance prefigurativo

Por Mario Sergio Conti

De tão repetida, a verdade insofismável de que a história não se repete transforma-se no seu contrário, em sofisma. Agora mesmo, venais travestidos de vestais repisam que o Terror curitibano esconde uma guilhotina no porão e estamos todos com a cabeça a prêmio.
Como os legalistas querem deter os carrascos, os procuradores provincianos botam a carapuça, fingem que é boné frígio e entoam: somos todos jacobinos. A analogia é trapaceira porque não se passou nada que remotamente lembre a revolução francesa.
Logo, não há motivo real para reação à termidoriana ou o alarme moralista. O que há de palpável, isso sim, é o afã em desregulamentar o trabalho e cortar aposentadorias. O sofisma de fundo histórico é falsa ideologia: evoca um passado heroico para justificar tramoias no presente.
Assim, se na França tribunos da plebe vestiram as togas retóricas da República romana, políticos e procuradores brasileiros agitam o espectro do Terror para mobilizar crápulas tremebundos do pântano brasiliense. Fazem buuuuu para arrebatar aliados e trouxas. É má ficção, mas cola.
Para captar o presente, o melhor é ficar na ficção à vera. Não na nossa, pois não temos o romance do pai da pátria, subgênero ilustre nas letras latino-americanas. Nele estão "O Senhor Presidente", de Astúrias, "Eu o Supremo", de Roa Bastos, "O Recurso do Método", de Carpentier, "A Festa do Bode", de Vargas Llosa.
São bons romances do século 20, mas nenhum emparelha com "O Outono do Patriarca", de García Márquez. Ele levou ao desvario o ódio frio de um tirano tropical: o monstro estrebucha com as axilas recendendo a cebolas velhas e uma hérnia no escroto do tamanho de um figo.
É com cadência fúnebre, com parágrafos letárgicos em prosa espessa, que "O Outono do Patriarca" fantasia a agonia de um ditador de República Banana. Há sentenças gélidas, compostas com drama e escárnio, que parecem delinear a solidão do patriarca ora no Planalto:
"Ninguém sabia senão ele que só lhe restavam nas frestas da memória uns quantos fiapos soltos dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como um espelho, arrastando suas densas patas decrépitas por gabinetes sombrios." Lá vai ele, com sua dança de dedos neurótica.
O personagem brasileiro mais parecido com um pai da pátria é Don Porfírio Diaz, de "Terra em Transe". Ele não se encaixa bem no gênero porque o filme acaba no momento em que costumam começar os romances de ditadores –quando o patriarca entra em parafuso e seu poder se paralisa.
Paralisia é o mote de "O Outono do Patriarca". Um colapso fez com que o poder do déspota se esvanecesse. O país entorpece aos poucos. Os pássaros silenciam. Todos estão à espera. Aí tempo para. O romance prefigura o Brasil letárgico de nossos dias:
"Esperávamos o cumprimento de previsões antigas, que no dia da sua morte o lodo dos lamaçais havia de regressar pelos seus afluentes até as nascentes, que havia de chover sangue, que as galinhas poriam ovos pentagonais, que o silêncio e as trevas voltariam a se estabelecer no universo porque aquele havia de ser o fim da criação".
Paralisia é permanência: os países dos pais da pátria estão condenados a esperar. A paralisia perpétua imobiliza até os de eventos mágicos de "Cem Anos de Solidão", também de García Márquez, cujo meio século de publicação vem de ser comemorado.
Estão no romance os fatos brutos: a chegada dos estrangeiros; a exploração colonial; o massacre dos trabalhadores; as escaramuças contínuas entre conservadores e liberais para manter o status quo.
Alvíssaras: depois de uma chuva de quatro anos, 11 meses e dois dias virá a praga do esquecimento. Um vento varrerá o país e haveremos de esquecer que estamos à espera de não sabemos o quê. Restará apenas a silhueta do patriarca no Planalto.

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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/