Daniel Faria, dito por Maria do Carmo Caminho.
quarta-feira, 19 de julho de 2017
segunda-feira, 17 de julho de 2017
Para a memória histórica: 'nazistas entre nós'
Por Cláudia Eloi e Suetoni
Souto Maior
Prédio com tijolos e mobília
requintada, ao gosto da arquitetura e da decoração germânicas, combinadas com
uma grande bandeira com a suástica, estrategicamente colocada na área central
de uma das paredes da sala. No local, uma concorrida reunião do Partido
Nazista, iniciada com a tradicional saudação “heil Hitler”, numa referência ao
Terceiro Reich. Nos planos, a expansão da ideologia nazista no Brasil e na
América Latina.
Apesar de a descrição acima sugerir um encontro na distante e
fria Berlin, na Alemanha, o local fica bem mais próximo: o palacete pertencente
à família Lundgren, em Paulista (PE), região metropolitana do Recife. O
casarão, assim como a fábrica, era usado como uma espécie de “quartel general”
pelos integrantes do Partido Nazista em Pernambuco.
Os encontros ocorreram de 1932 a 1938, quando a existência do
movimento foi proibida em solo brasileiro. A partir daí, eles passaram à
clandestinidade e foram acompanhados de perto, na época, pelo serviço de
espionagem brasileiro. O governo federal queria estar a par de qualquer
movimentação, e cada passo dos alemães era cuidadosamente registrado.
Oficialmente, os alemães foram a Pernambuco para trabalhar na
Fábrica de Tecidos Paulista, que deu origem à rede de lojas Casas Pernambucanas,
de propriedade dos Lundgren. Mas algumas reuniões, de acordo com os arquivos do
Departamento de Ordem Política e Social (Dops), tinham como propósito difundir
entre os “espiões nazistas” a propagação da ideologia de Hitler, os planos de
expansão do regime e os preparativos para a Segunda Guerra Mundial.
Com a mudança de lado do ex-presidente Getúlio Vargas, que
passou de simpatizante a inimigo do nazismo, em 1942, já com a guerra em curso,
por pressão do governo americano, diversos alemães foram levados ao campo de
concentração batizado de Chã de Estevam, em Araçoiaba, antigo distrito de
Igarassu. “O Dops de Pernambuco, além de caçar comunistas, teve forte atuação
na perseguição dos supostos espiões nazistas. Não eram apenas os funcionários
da fábrica. Muitos deles atuavam como empresários, em instituições financeiras,
no comércio e na indústria”, explicou o chefe de apoio técnico do Arquivo
Público do Estado, Roberto Moura.
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Fonte: http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/50686
quinta-feira, 13 de julho de 2017
Educação e sociedade hoje: desafios, práticas e alternativas
Dizem os economistas Abhijit Banerjee e Esther Duflo que ignorância e
inércia são, dentre outros, fortes adversários do desenvolvimento pessoal e
social, assim como bloqueadores do
raciocínio analítico. O que só faz “embaralhar” a percepção da realidade e a
compreensão dos dispositivos de mudança social. De qualquer forma, não é padrão
que o erro humano seja, de todo, “aleatório”, na medida em que as tomadas de
decisões decorrem de "deambulações mentais" que podem gerar resultados previsíveis e,
ao mesmo tempo, distantes do que seria o mais apropriado para o indivíduo e a
sociedade – se fossem resultados oriundos de decisões assentes num “código de
racionalidade”. O ser humano parece propenso a estabelecer vínculos imediatos
de causa e efeito em tudo o que presencia e vivencia. É preciso, portanto,
conhecimento sistematizado, análise e equilíbrio para evitar o autoengano e o enviesamento de
entendimento perante a realidade em geral e os fatos que instigam o sentido da
vida cotidiana.
Pois bem, nos últimos tempos, no Brasil,
parece que não temos marchado por aí numa esfera fundamental: o da pesquisa
social/educacional. Uma ilustração empírica a esse respeito: uma credível
pesquisa feita recentemente (com uma amostragem representativa de um universo
de 17 milhões de jovens com idade entre 15 e 19 anos) revelou que, para 85,2%
dos discentes do Ensino Médio, o principal problema da escola é a questão da
segurança. Enquanto isso, por outro lado, paradoxalmente, “algumas pautas educativas” e “determinados
pesquisadores educacionais” andam a alimentar uma agenda que, inteiramente
desconectada da realidade dos sujeitos em formação, regozija-se ora com modas
acadêmicas, ora com a repetição estéril de enfoques que, se no passado tiveram
relevância, atualmente se revelam impertinentes como dispositivos analíticos,
e, desse modo, uma das suas utilidades - para os que os repisam como “bens do
mercado cognitivo” - é servir de degrau
para a autopromoção e o marketing pessoal.
Posto
isto, o realce é para dizer que o livro Educação e Sociedade: Perspectivas sobre
Saúde, Ambiente e Formação, que
organizo e brevemente estará disponível, com o selo da Editora Universitária
CCTA e sob a chancela do CNPq, procura seguir uma trilha diferente.
Pesquisadores estrangeiros e de diferentes universidades brasileiras buscam desenvolver abordagens tendo como
propósito tratar analiticamente das questões que a realidade coloca como
desafio e, por outra parte, aportar conceitos e procedimentos para as enfrentar
no terreno da prática social. Segue, aí abaixo, a Introdução do livro.
Em um dos seus últimos trabalhos, o geógrafo brasileiro Milton
Santos, ao ter em perspectiva os cenários do início do século XXI, assinalou:
“Vivemos num mundo confuso e confusamente percebido.”[1]
Em seguida, indagava se existiria nisto um paradoxo pedindo uma explicação, e
afirmava que há, por um lado, um extraordinário progresso das ciências e das
técnicas e, por outro, as vertigens que a aceleração contemporânea cria, a
começar pela própria velocidade. Porém, tudo isso, conforme o seu entendimento,
são inventos de um mundo criado pelos próprios seres humanos, cuja utilização,
aliás, permite que o mundo se torne esse mundo confuso e confusamente percebido.
Dessa forma, para entender a realidade que estamos a viver, enfatizava ele: “Explicações
mecanicistas são insuficientes. É a maneira como, sobre essa base material
[contemporânea], se produz a história humana que é a verdadeira responsável
pela criação da torre de babel em que vive a nossa era.” [2]
Entender a nossa era, em suas múltiplas dimensões, é, portanto, um
desafio. Para isso, é necessário método, ou seja, conforme a etimologia da
palavra indica, é preciso definir um caminho de estudo e de abordagem. Nesse
sentido, ao publicar o seu clássico trabalho “A Sociedade em Rede”,[3]
Manuel Castells foi paradigmático ao delinear uma perspectiva: “Proponho
a hipótese de que todas as maiores tendências de mudança em nosso mundo novo e
confuso são afins e que podemos entender o seu inter-relacionamento. E acredito
que observar, analisar e teorizar é um modo de ajudar a construir um mundo
diferente e melhor.”
De forma geral, o presente livro assume essa perspectiva como
pressuposto. O que mais, no entanto, nele, aglutina autores de diferentes
países (Brasil, Uruguai, Portugal e Espanha) e oriundos de distintas tradições
acadêmicas? Dentre outros, podem ser mencionados mais dois aspectos
inter-relacionados.
O primeiro é a busca por desenvolver enfoques inter/transdisciplinares,
o que significa então procurar superar a fragmentação disciplinar, que separa
na teoria o que está unido na empiria, e assim ergue fronteiras estanques
classificando “pedaços da realidade” de acordo com os “interesses corporativos
da cada ciência específica” (e de seus agentes). Como decorrência, o segundo aspecto
diz respeito à tentativa de construir novos enfoques e paradigmas em torno das
questões abordadas pelo livro.
Tendo o referido norte, a obra se estrutura em torno de cinco
eixos temáticos: educação e saúde; drogas e sociedade; educação em espaços não
formais; ambiente e educação; epistemologia e sociedade.
Em relação ao primeiro eixo, o texto de Ivonaldo Leite faz uma
incursão retrospectiva na relação educação e saúde, seguida de uma abordagem
sobre as configurações dessa relação na contemporaneidade e de um enfoque
considerando a pesquisa no campo da saúde, tendo em conta a formação
profissional. Por sua vez, Paulo Santana, apoiando-se nos estudos da
complexidade desenvolvidos por Edgar Morin, realiza um movimento analítico em
que discute o processo saúde-doença, o conceito de saúde e coloca em realce um
histórico da construção do Sistema Único de Saúde (SUS). Em perspectiva
semelhante, mas com uma dimensão sociológica mais acentuada, segue o texto de
Nildo Viana tratando do processo saúde-doença como processo social e das causas
das doenças relacionadas às condições de vida das classes sociais.
O tema das drogas (lícitas e ilícitas) é o fio condutor do segundo
eixo. Nele, Renata Monteiro Garcia problematiza analiticamente a medicalização
da infância e destaca o grau de gravidade ao qual se chegou a prescrição da
chamada “droga legal” no cotidiano escolar, referindo, nesse sentido, o uso do
medicamento metilfenidato, também conhecido pelos nomes de Ritalina e Concerta. Trata-se, por certo, de uma questão que coloca
significativos desafios ao trabalho pedagógico na infância, constituindo-se,
além disso, num problema preocupante quando se consideram as consequências que
o uso de metilfenidato tem sobre os corpos e o desenvolvimento das crianças. Por
sua vez, Ione Gomes e Patrícia Souza passam em revista o debate sobre a
descriminalização ou não das drogas ilícitas. Trata-se de uma discussão, sem
dúvida, de significativa relevância no contexto brasileiro, onde, muitas vezes,
os preconceitos e a desinformação em matéria científica impedem a devida
compreensão do assunto e, portanto, bloqueiam a formulação de políticas
apropriadas a respeito. Da sua parte, Fernando Bessa Ribeiro, David Pereira e Cristina Macieirinha dão a conhecer a
experiência do seu país, Portugal, no tocante à política de drogas, experiência
marcada por já mais de 15 anos de descriminalização e que tem recebido menções,
na comunidade científica, como referência a ser considerada no que concerne à
apreciação de ações para lidar com a questão.[4]
Daí que, sugestivamente, os autores intitulem o seu texto como “Interpelando o
proibicionismo: o caso português como possibilidade de outros caminhos para as
políticas da droga?” O Uruguai também tem sido destaque por sua política
alternativa em relação às drogas, com uma perspectiva mais ousada do que
Portugal, e, de lá, Valentín Magnone aporta um texto ao livro, enfocando
as políticas de drogas e o conceito de governamentalidade. Um aspecto pouco
abordado, e mesmo despercebido, é o abuso de substâncias psicoativas por
estudantes com deficiência, e é disso que, fechando o segundo eixo da obra, se
ocupa Fernanda Jorge Guimarães e colaboradores, tratando de intervenções
educativas preventivas.
O
terceiro eixo do livro é voltado ao fenômeno educativo nos contextos não
formais. A esse respeito, Sheyla Fontenele, Iandra Caldas e Francicleide
Cesário têm em apreciação o hospital como espaço educativo e tratam da formação
ético-profissional do pedagogo para atuação na esfera hospitalar. As autoras
enfatizam que a Pedagogia Hospitalar é uma prática educativa organizada,
voltada a um ambiente educacional específico, requerendo, portanto, que os cursos
de Pedagogia revejam os seus componentes curriculares, considerando esse âmbito
de ensino-aprendizagem. Pedagogia Social
e Educador Social são expressões que, sobretudo nos últimos tempos, têm marcado
o campo da educação não formal no Brasil, existindo, todavia, por outro lado,
um amplo desconhecimento das suas definições e significados. Em seu texto,
Milene Rejane debruça-se sobre o assunto e coloca em realce uma perspectiva
histórico-conceitual a respeito do perfil do Educador Social, considerando
também a sua configuração como profissão no Brasil.
O
quarto eixo refere-se ao tema ambiente e educação. Tema, por si, propenso a
aglutinar enfoques disciplinares diversos, ele tem essa expressão confirmada no
texto de Sérgio Botton Barcellos. O autor, um interveniente na questão
ambiental no extremo sul do Brasil, realiza uma incursão relacionando, por
exemplo, educação ambiental e saúde, a partir de um projeto social desenvolvido
no município de Santa Maria/RS. Também aliando atuação acadêmica e intervenção no
contexto da temática ambiental no extremo sul do Brasil, Carlos Machado enfoca,
junto com Kathleen Aguirre e Eron
Rodrigues, a relação entre Educação
Ambiental e o emergente campo da História Ambiental. Eles discutem a produção e a reprodução do real nas/das relações sociais, o contexto
brasileiro e a configuração do real relacional desigual, assim como o lugar da
Educação Ambiental e da História Ambiental perante esses delineamentos.
A reflexão sobre corpo e sociedade, acerca do social
e do natural, bem como a respeito da sociedade e dos processos neurais,
estrutura a base de enfoque do quinto e último eixo do livro. Nesse sentido,
Gilmar Leite realiza uma abordagem aproximativa do tema corpo e natureza,
realçando notas propedêuticas, constantes do pensamento moderno e contemporâneo,
e que se constituem como uma espécie de convite a uma incursão mais
pormenorizada no assunto. A busca de estreitamento de relação entre as
neurociências e as ciências humanas tem sido algo fortemente valorizado na
Espanha, principalmente quando está em apreciação a busca de novas alternativas
educativas, resultando disso, por exemplo, formulações como neuroeducação.[5]
Dando expressão a esse empenho analítico do seu país, Vicente
Huici Urmeneta encerra o livro com um texto que, aproximando neurociências e o
contexto social, delineia um novo campo do conhecimento: a neurosociologia.
Tendo a
forma e o conteúdo que se acaba de descrever, este livro apresenta-se, por um
lado, como um contributo ao debate em torno dos temas que ele aborda e, por
outro lado, como obra cuja leitura pretende ser um ponto de maturação de
procedimentos para tratar dos problemas que desafiam a prática social.
Por fim,
cabe deixar consignado que a sua publicação é levada a cabo sob a chancela do
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
[1] SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à
consciência universal. 10 ed. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 09.
[2] Ibidem, p. 09.
[3] CASTELLS, Manuel. The rise of the
network society. Vol. I. Cambridge, MA; Oxford, UK: Blackwell, 1996.
[4] Ver, por
exemplo, HUGHES, Caitlin E.; STEVENS, Alex. What Can We Learn From The Portuguese
Decriminalization of Illicit Drugs? In: The British
Journal of Criminology, vol. 50, nº 06, 2010, p. 999-1022.
quarta-feira, 12 de julho de 2017
A ideia de universidade e a delinquência acadêmica
Por Rafael Barros de Oliveira
Quando recebeu o título de professor emérito da Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), em 1997, o geógrafo Milton Santos pronunciou um discurso intitulado O intelectual e a universidade estagnada. Nessa intervenção, indagando-se sobre as possibilidades de
produção adequada de conhecimento num mundo em constante mudança,
questionou: Como fazê-lo no
Brasil, onde a vida intelectual está organizada em torno de clubes, de clãs e
do enturmamento, sendo às vezes mais útil passar as noites em reuniões com os
colegas que mandam, do que queimar as pestanas, como antigamente se dizia, em
frente dos livros?
Santos aponta para um fenômeno bastante comum na paisagem universitária
nacional, a saber: a endogamia. Formam-se grupos de poder e de influência entre os membros da
comunidade acadêmica, os quais aparelham e capturam as instituições, mandando,
desmandando e ditando seus rumos e perpetuando-se nas posições de chefia. Nesses
casos, como disse o geógrafo, vale mais a pena investir o tempo em cópulas
sociais – quando não físicas – com colegas influentes do que em estudos,
pesquisas e publicações.
Outro aspecto dessa formação de panelinhas é a endogenia: a produção das futuras gerações
acadêmicas no interior da própria universidade, sem muito espaço para
influências externas. Isso está bem documentado por uma pesquisa do
departamento de ciência da computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) sobre circulação de pesquisadores no
Brasil. Analisando cerca de seis mil pesquisadores brasileiros, o grupo
observou que apenas 20% (um quinto do total, portanto) constroem suas carreiras
profissionais a mais de quinhentos quilômetros (500km) de onde fizeram sua
formação universitária.
O efeito mais pernicioso dessa estrutura de reprodução endogâmica e
endogênica é o engessamento e a falta de circulação – não só de pessoas, mas de ideias.
Gerações atuais costumam repetir ou, na melhor das hipóteses, reformular os
trabalhos realizados por seus orientadores e orientadoras e, consequentemente,
treinar gerações futuras para seguir na mesma toada: a repetição da
repetição, ad nauseam. Ora, a força das universidades e da vida acadêmica reside precisamente
em sua capacidade de abertura a novas ideias. Sem ela, é impossível à universidade realizar sua
tarefa mais vital, da qual sua sobrevivência depende estritamente, como bem
apontou Santos:
A universidade, aliás, é, talvez, a
única instituição que pode sobreviver apenas se aceitar críticas, de dentro
dela própria, de uma ou outra forma. Se a universidade pede aos seus
participantes que calem, ela está se condenando ao silêncio, isto é, à morte,
pois seu destino é falar. A fidelidade reclamada não pode ser à universidade, e
a ela não temos razão para ser fiéis. Nossa única fidelidade é com a ideia de
universidade. E é a partir da ideia sempre renovada de universidade que
julgamos as universidades concretas e sugerimos mudanças.
Pois bem, embora não se configurem estritamente como casos de nepotismo – o favorecimento de parentes na
nomeação de cargos – porque não se tratam de relações consanguíneas, há de se
convir que a atuação de padrinhos e madrinhas acadêmicos é decisiva na construção de
carreiras na universidade. Além de impedir a renovação científica, intelectual
e crítica das instituições, pressupostos de seu fortalecimento, essa prática
provoca distorções quanto à primazia da qualidade acadêmica ou promoção de
certa meritocracia.
Para além de razões culturais, antropológicas e sociológicas que invocam
traços da formação brasileira como compadrio, uma das causas desse fenômeno
está na própria estrutura de carreira das universidades brasileiras, especialmente as públicas. Uma vez
aprovado(a) no concurso, o(a) docente adquire estabilidade no cargo após um
período de experiência de alguns anos – normalmente três.
Como combater esse problema? Engana-se quem pensa que a solução esteja
na extinção da estabilidade. Países anglófonos, como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, por
exemplo, concedem estabilidade a uma parcela cada vez menor de docentes, o que
gera uma massa de profissionais com contratos temporários instáveis e
precários, sobrecarregados por obrigações e impossibilitados de desenvolver
pesquisas de médio-longo prazo – o que, irônica e paradoxalmente, lhes
qualificaria para postos permanentes. Países como Alemanha, França e Itália têm
soluções locais para promover algum grau de circulação em seus sistemas
universitários, mas essas costumam estar intimamente ligadas à história e à
constituição desses.
Não é necessário, entretanto, importar soluções. Um caminho se encontra
disponível no Brasil, nas carreiras jurídicas, por exemplo. Carreiras federais
são organizadas nacionalmente, e os ingressantes distribuídos pelas diversas
Unidades da Federação de acordo com a demanda e disponibilidade de vagas de
cada uma delas (exemplo: Ministério Público Federal). Ao longo da carreira, a
cada x anos, o(a) profissional pode optar por se transferir
para outra localidade – novamente de acordo com a demanda e a disponibilidade
de vagas. O mesmo acontece em esfera estadual (exemplo: magistratura estadual).
Isso tudo sem prejuízo da estabilidade no cargo.
Por que não tentar algo semelhante na carreira acadêmica? Docentes e
pesquisadores poderiam prestar concursos federais e estaduais, após cuja
aprovação seriam alocados nas instituições que carecessem de profissionais.
Alguns anos depois, poderiam solicitar transferência para outras, se for de seu
interesse.
Naturalmente, não se trata de uma solução perfeita. Ela não impede a
captura de bancas de concursos por grupos de influência e distorções
sistêmicas. No entanto, já é mais do que se tem feito hoje para combater esse
grave problema: nada. Dado o que está em jogo, vale a aposta.
segunda-feira, 10 de julho de 2017
"Prisioneiras"
Por Mario Sergio Conti
O novo livro de Drauzio
Varella, "Prisioneiras",
da Companhia das Letras, trata de mulheres enjauladas. Ele conta que, como elas
não têm onde cair mortas quando saem da prisão, novos crimes e condenações são
inelutáveis. Para algumas a cadeia é preferível à liberdade. Ao menos não há
crack no cárcere.
O
livro é uma desgraceira só. Por frequentar penitenciárias há 28 anos, o autor é
pessimista. Ele diz que o problema prisional ficou intratável com as detenções
em massa. A repressão burra às drogas fez com que o número de presas crescesse
567% em 14 anos, passando de 5.600 para 37 mil.
Um
ar podre de pântano paira sobre "Prisioneiras": o do inevitável.
Novos ventos, todavia, vêm revirando o lodaçal. Drauzio começou a cuidar de
detentos em 1989. Vieram desde então a chacina no Carandiru, a fundação do
Primeiro Comando da Capital e a explosão do crack. E tudo mudou.
Para
pior. O massacre dos 111 marcou o apocalipse do sistema fundado na fúria
policial. Os presos revidaram e criaram o PCC. O crack devastou os presídios,
dizimando milhares. Das ruínas do Estado surgiu a nova ordem, violenta de alto
a baixo.
Ei-la,
a ordem vigente: o Primeiro Comando proibiu o crack nos presídios; controla
todas as cadeias para homens e 90% das femininas; enraizou-se em todo o país;
trafica, rouba e mata; corrompe e comanda partes da polícia; domina periferias,
elege parlamentares, negocia de igual para igual com o Estado.
Se
não há redenção à vista, há testemunho. Precedido por "Estação
Carandiru" e "Carcereiros", "Prisioneiras" encerra a
trilogia do médico do Brás sobre prender e punir. O painel que ele constrói tem
alcance maior que o dos especialistas e é mais profundo que o relato
jornalístico. Tem a energia do longamente vivido, do apreendido e pensado.
A
trilogia ecoa às vezes dois livros que se passam na Sibéria do século 19. Em
"Recordações da Casa dos Mortos", Dostoiévski escreve sobre seus
quatro anos de prisão nos confins do império russo. Tchékhov conta em
"A Ilha de Sacalina" o que descobriu quando investigou uma colônia
penal czarista.
As
diferenças dos livros de Drauzio com o de Dostoiévski são nítidas. O russo foi
preso político e as "Recordações" têm muito de ficção. Já Tchékhov
era médico também, e tinha uma curiosidade parecida com a de Drauzio, de
natureza objetiva. Mas Tchékhov passou apenas três meses entre os presos, e não
tratou deles.
O
que prevalece nos livros dos três é a crueldade do universo que retratam.
"Cárcere" deriva da palavra latina que designa o lugar onde ficavam
as carroças. "Penitenciária" remete a penar, penitenciar-se. A prisão
não apenas aparta certas pessoas da coletividade, imobilizando-as como coisas
ou como a morte.
Presídios
existem isso sim para atormentar gente. São lugares onde o sadismo da sociedade
é sancionado e –como na Rússia autocrata e no Brasil democrata– incentivado.
Ninguém melhor que um médico, no exercício do seu metiê, para observar a dor e
o sofrimento. Ninguém melhor do que Drauzio Varella.
Porque ele não trata do
espírito, e sim do corpo, da vida material que molda o espírito. Ele escutou as
histórias das pacientes "cum grano salis", e as pensou a partir de
pressupostos científicos. É na contramão, depois de comparar e pensar, que se
permite generalizações –que jamais reproduzem preconceitos em moda. Não é o
sabichão de praxe.
Ele
observa, por exemplo, que na cadeia, assim como entre grupos de chimpanzés e
humanos, "a liderança não é necessariamente exercida pelo mais forte, mas
por aquele com mais habilidade para formar coalizões". Aplica o conceito
ao PCC, e não a Temer.
Ninguém
melhor do que Drauzio para contar o que as prisões brasileiras se tornaram.
Para dizer o que as prisões dizem da sociedade que as gerou e gere.
----------------------------
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/. Título original: 'Ninguém melhor do que Drauzio para contar o que as prisões se tornaram'.
domingo, 9 de julho de 2017
quarta-feira, 5 de julho de 2017
"El Ministerio del Tiempo" vai na contramão do tempo-espaço da era global
Por Wilson Ferreira
Desde “O Exterminador do Futuro” (1984) e “De Volta ao Futuro” (1985),
as representações do tempo mudaram no cinema e audiovisual: o Tempo tornou-se
mutante e aleatório como um hipertexto. Mas curiosamente, a série da TVE (a
tevê pública espanhola) “El Ministerio Del Tiempo” (2015) vai na contramão
desse imaginário sobre o tempo-espaço que caracteriza a atual era das
tecnologias digitais e Globalização: ao contrário, a série de ficção-científica
mostra o Tempo como um fenômeno unidirecional e imutável onde um ministério
secreto do governo protege misteriosas portas do tempo de possíveis
oportunistas que tentem alterar o passado em seu próprio benefício. Se o cinema
é um documento do imaginário de cada época, a série espanhola parece apontar
para uma reação contra o paradigma tempo-espaço que sustenta a financeirização
e a Globalização. Mergulhada em uma crise econômica desde o fim da estabilidade
da Zona do Euro, a Espanha nos oferece uma série que quer se apegar ao
nacionalismo e à sua História como resposta à crise global.
O leitor deve conhecer o
mais famoso quadro do pintor espanhol Valazquez, Las Meninas de 1656 –
composição enigmática que sugere um quadro dentro de um quadro, criando uma
relação incerta entre observador e a obra. Quem é a figura no fundo
atravessando um corredor que observamos através de uma porta aberta? O neto do
pintor, Dom José Nieto Velazquez? Não, provavelmente algum viajante do Tempo de
passagem que parou para observar a cena.
É o que sugere a série
produzida pela tevê pública espanhola (TVE) Lo Ministerio Del Tiempo em
uma rápida sequência onde é apresentado ao protagonista o maior segredo
guardado pelo governo espanhol: portas e corredores do tempo existentes em um
subterrâneo na cidade de Madrid – segredo de um rabino na Idade Média que, em
troca de não ser expulso revelou o segredo para reis católicos. Uma rede de
portas de origem misteriosa que se conecta com o passado dos reinos espanhóis.
A
rede de portas é administrada e guardada por entediados funcionários públicos
do Governo, principalmente porque existe a ameaça da existência de portas
clandestinas: existem pessoas que querem mudar o passado em seu benefício –
líderes de legiões romanas que querem ter acesso a metralhadoras atuais ou
militares franceses do século XVIII que querem ter acesso a revólveres da
polícia de Madrid para derrotar a Espanha – tema do episódio piloto da série. E
se a Al Qaeda de 2001 tivesse acesso aos modelos atuais de celulares?
Três Personagens Distintos
A série acompanha o recrutamento pelo ministério de
três personagens em três épocas diferentes: Alonso de Entreríos (soldado
condenado a morte no século XVI), Amélia Folch (feminista e primeira mulher a
frequentar uma universidade da Espanha no século XIX - inteligente e com uma
memória fotográfica é o cérebro do grupo) e Julian Martinez, paramédico do Samu
na Madrid atual.
Cada um deles vive em sua respectiva época, mas
ocasionalmente são convocados para missões secretas para localizar e combater
oportunistas que descobrem as portas do tempo clandestinas, e tentam mudar o
passado a seu favor. Três personagens bem distintos, que criam em muitos momentos
situações engraçadas e irônicas – como um soldado do século XVI poderá aceitar
ordens de uma feminista do final do século XIX?
Duas coisas chamam a atenção nas linhas de diálogo
do El Ministério Del Tiempo: constantes referencias irônicas que o
paramédico Julian faz ao filme O Exterminador do Futuro (The
Terminator, 1984) e ironias em relação a atual situação econômica da Espanha –
venceu a guerra contra a França no passado, mas hoje “presta homenagens ao
Banco Central Europeu”. Ou quando os três atônitos protagonistas perguntam o
que fazer em sua primeira missão para deter os militares franceses do século
XVIII: “improvisem, como faz todo espanhol”, numa alusão ao atual cenário de
crise econômica.
Três Personagens Distintos
A
série acompanha o recrutamento pelo ministério de três personagens em três
épocas diferentes: Alonso de Entreríos (soldado condenado a morte no século
XVI), Amélia Folch (feminista e primeira mulher a frequentar uma universidade
da Espanha no século XIX - inteligente e com uma memória fotográfica é o
cérebro do grupo) e Julian Martinez, paramédico do Samu na Madrid atual.
Cada
um deles vive em sua respectiva época, mas ocasionalmente são convocados para
missões secretas para localizar e combater oportunistas que descobrem as portas
do tempo clandestinas, e tentam mudar o passado a seu favor. Três personagens
bem distintos, que criam em muitos momentos situações engraçadas e irônicas –
como um soldado do século XVI poderá aceitar ordens de uma feminista do final
do século XIX?
Duas coisas chamam a atenção
nas linhas de diálogo do El Ministério Del Tiempo:
constantes referencias irônicas que o paramédico Julian faz ao filme O Exterminador do Futuro (The
Terminator, 1984) e ironias em relação a atual situação econômica da Espanha –
venceu a guerra contra a França no passado, mas hoje “presta homenagens ao
Banco Central Europeu”. Ou quando os três atônitos protagonistas perguntam o
que fazer em sua primeira missão para deter os militares franceses do século
XVIII: “improvisem, como faz todo espanhol”, numa alusão ao atual cenário de
crise econômica.
Exterminador do Futuro e De Volta para o Futuro dos
anos 1980 foram filmes que alteraram a concepção clássica sobre o tempo no
cinema. Ao contrário de séries cultuadas como O Túnel do Tempo (Time Tunnel, 1966-67) onde
Philip e Doug tentam evitar sem sucesso as tragédias da História, a partir dos
anos 1980 podemos voltar ao passado para alterá-lo e, simultaneamente, melhorar
o presente. Mais do que isso, em filmes recentes como O Efeito Borboleta (2004)
e Sr. Ninguém (Mr. Nobody, 2009)
transforma-se em um hipertexto onde cada opção cria um futuro ou um passado
alternativos, configurando um contínuo espaço-tempo cada vez mais complexo como
uma série de universos paralelos que, potencialmente, poderiam se tangenciar ou
influenciarem-se mutuamente.
O
que chama a atenção de El Ministerio Del Tiempo é
a sua concepção do contínuo tempo-espaço que transforma a série num documento
de época, um produto cultural cujo imaginário reflete a atual situação
econômica espanhola e europeia.
Em
primeiro lugar a série parece romper com a concepção de tempo, por assim dizer,
pós-moderna iniciada nos anos 1980 – um contínuo maleável, moldável e que pode
se bifurcar. Ao contrário, na série espanhola o passado deve ser guardado e
mantido intacto a todo custo. O Governo é o guardião da História cuja missão é
caçar todos os oportunistas que tentam mudá-la.
Parece
que todos os passados de todas as épocas estão ainda sendo vivenciados
repetidamente, ad eternum – por
exemplo, um dos funcionários públicos que administram as portas do tempo sempre
visita a de número 58 para reviver uma histórica vitória em uma partida do time
do Real Madrid.
Tempo Real e a Globalização
O
tempo-espaço complexo e mutável retratado pelo cinema segue paralelo ao
desenvolvimento das mídias digitais, a linguagem hipertexto e a Internet –
tecnologias que foram as ferramentas fundamentais para a Globalização e a
integração do sistema financeiro mundial.
Se o
historiador francês Marc Ferro estiver correto de que toda produção
cinematográfica é um documento histórico por carregar consigo mentalidades,
costumes e o universo simbólico do período em que foi produzido, podemos
considerar que isso é mais do que um paralelismo (sobre isso leia FERRO, Marc. Cinema e História, São
Paulo: Paz e Terra, 1992).
Os seminais Exterminador do Futuro e De Volta Para o Futuro refletiram
a concepção tempo-espaço da financeirização da sociedade – a hegemonia dos
mercados financeiros (o chamado “turbo-capitalismo”) produziu a virtualização
monetária, a integração em tempo-real das praças financeiras que produziu
fluxos voláteis e cenários de engenharia financeira cada vez mais complexo.
Para o capital financeiro
virtual e sem o antigo lastro-ouro que ancorava o papel-moeda, a realidade
torna-se plástica, rapidamente modelável em um eterno presente (o
“tempo-real”). Passado e futuro desaparecem nesse contínuo presente e o tempo
deixa de ser rígido numa sucessão de causa e efeito – agora o Tempo é
aleatório, caótico.
Não mais lemos a História
como um texto, mas navegamos como em um hipertexto onde saltamos de um lado
para outro por meio de hiperlinks.
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Fonte: http://jornalggn.com.br/blog/wilson-ferreira/.
terça-feira, 4 de julho de 2017
'A administração sábia da tristeza', e recordar os gestos de amanhã
Ruy Belo, 'A Mão no Arado', dito por Luís Miguel Cintra.
sábado, 1 de julho de 2017
Um romance prefigurativo
Por Mario Sergio Conti
De tão repetida, a verdade
insofismável de que a história não se repete transforma-se no seu contrário, em
sofisma. Agora mesmo, venais travestidos de vestais repisam que o Terror
curitibano esconde uma guilhotina no porão e estamos todos com a cabeça a prêmio.
Como
os legalistas querem deter os carrascos, os procuradores provincianos botam a
carapuça, fingem que é boné frígio e entoam: somos todos jacobinos. A analogia
é trapaceira porque não se passou nada que remotamente lembre a revolução
francesa.
Logo,
não há motivo real para reação à termidoriana ou o alarme moralista. O que há
de palpável, isso sim, é o afã em desregulamentar o trabalho e cortar
aposentadorias. O sofisma de fundo histórico é falsa ideologia: evoca um
passado heroico para justificar tramoias no presente.
Assim,
se na França tribunos da plebe vestiram as togas retóricas da República romana,
políticos e procuradores brasileiros agitam o espectro do Terror para mobilizar
crápulas tremebundos do pântano brasiliense. Fazem buuuuu para arrebatar
aliados e trouxas. É má ficção, mas cola.
Para
captar o presente, o melhor é ficar na ficção à vera. Não na nossa, pois não
temos o romance do pai da pátria, subgênero ilustre nas letras
latino-americanas. Nele estão "O Senhor Presidente", de Astúrias,
"Eu o Supremo", de Roa Bastos, "O Recurso do Método", de
Carpentier, "A Festa do Bode", de Vargas Llosa.
São
bons romances do século 20, mas nenhum emparelha com "O Outono do
Patriarca", de García Márquez. Ele levou ao desvario o ódio frio de um
tirano tropical: o monstro estrebucha com as axilas recendendo a cebolas velhas
e uma hérnia no escroto do tamanho de um figo.
É
com cadência fúnebre, com parágrafos letárgicos em prosa espessa, que "O
Outono do Patriarca" fantasia a agonia de um ditador de República Banana.
Há sentenças gélidas, compostas com drama e escárnio, que parecem delinear a
solidão do patriarca ora no Planalto:
"Ninguém
sabia senão ele que só lhe restavam nas frestas da memória uns quantos fiapos
soltos dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como um espelho,
arrastando suas densas patas decrépitas por gabinetes sombrios." Lá vai
ele, com sua dança de dedos neurótica.
O
personagem brasileiro mais parecido com um pai da pátria é Don Porfírio Diaz,
de "Terra em Transe". Ele não se encaixa bem no gênero porque o filme
acaba no momento em que costumam começar os romances de ditadores –quando o
patriarca entra em parafuso e seu poder se paralisa.
Paralisia
é o mote de "O Outono do Patriarca". Um colapso fez com que o poder
do déspota se esvanecesse. O país entorpece aos poucos. Os pássaros silenciam.
Todos estão à espera. Aí tempo para. O romance prefigura o Brasil letárgico de
nossos dias:
"Esperávamos
o cumprimento de previsões antigas, que no dia da sua morte o lodo dos lamaçais
havia de regressar pelos seus afluentes até as nascentes, que havia de chover
sangue, que as galinhas poriam ovos pentagonais, que o silêncio e as trevas
voltariam a se estabelecer no universo porque aquele havia de ser o fim da
criação".
Paralisia
é permanência: os países dos pais da pátria estão condenados a esperar. A
paralisia perpétua imobiliza até os de eventos mágicos de "Cem Anos de
Solidão", também de García Márquez, cujo meio século de publicação vem de
ser comemorado.
Estão
no romance os fatos brutos: a chegada dos estrangeiros; a exploração colonial;
o massacre dos trabalhadores; as escaramuças contínuas entre conservadores e
liberais para manter o status quo.
Alvíssaras:
depois de uma chuva de quatro anos, 11 meses e dois dias virá a praga do esquecimento.
Um vento varrerá o país e haveremos de esquecer que estamos à espera de não
sabemos o quê. Restará apenas a silhueta do patriarca no Planalto.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/mariosergioconti/
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