De Miguel Torga, 'Ariane', dito por Inês Nogueira.
terça-feira, 7 de março de 2017
segunda-feira, 6 de março de 2017
Como nos tornamos civilizados
Por Michel Aires de Souza (USP)
O
sociólogo Alemão Norbert Elias, em seu livro “O
processo civilizador: uma história dos costumes”, conseguiu compreender
muito bem a ligação que há entre a vida dos indivíduos e as estruturas da
sociedade. Este é um belo livro que todos deveriam ler para saber como
nos tornamos civilizados. Na história da civilização ocidental nem
sempre fomos tão amáveis e educados, nem sempre fomos tão comportados e
asseados, nem sempre fomos tão dóceis e gentis. Para compreender o que somos
temos que compreender o que fomos. Este foi o objetivo de Elias,
compreender como nos tornamos o que somos. Para isso, ele procurou analisar a
história da nossa vida afetiva, procurou analisar a história dos sentimentos de
vergonha, de repugnância, de limpeza, de delicadeza, de desagrado e medo. Em
suma, ele fez uma história de nossos sentimentos mais profundos. Seu foco de análise
foram as interações sociais. Essas interações produzem padrões de
comportamentos, que passam a fazer partes das estruturas sociais. Essas
estruturas, por sua vez, se materializam em representações, hábitos, valores e
formas de conduta. A partir disso, foi possível descrever de forma profunda o
processo psíquico civilizador.
Se
pudéssemos nos transportar para a idade média, no século XIII, ficaríamos
impressionados, sentiríamos certa repugnância quanto aos hábitos daquelas
pessoas. Para Elias, os sentimentos de repugnância, vergonha, desagrado, nojo
foram importantes no processo civilizador, uma vez que moldou o nosso
comportamento e a estrutura de nossa mente. É por isso que sentimos nojo quando
vemos alguém se comportar de modo incivilizado à mesa. Se entrássemos em uma
estalagem na idade média, veríamos muitos homens à mesa, comendo com as mãos,
servindo-se todos numa mesma travessa e bebendo vinho num mesmo cálice.
Veríamos também alguns assoando o nariz na toalha da mesa e outros até mesmo
com com as mãos. Muitos estariam escarrando no chão. Pode ser que um deles
tirasse a bota e colocasse sobre a mesa. Outros estariam soltando gases sem
constrangimento. Ao comer alguns estariam estalando os beiços. Muitos deles
estariam conversando com a boca cheia. Veríamos muitos arrotando. Sentiríamos
um fedor de alho e cebola no ar. Esses tipos de comportamentos eram
naturais e os indivíduos não sentiam nenhum constrangimento quanto a isso.
Na história da civilização ocidental as mudanças de comportamento se deram a
passos lentos, os processos psíquicos foram mudando gradualmente no curso dos
séculos. Elias foi capaz de observar os homens à mesa, na cama, no interior da
casa, no campo e na cidade, em conflitos e disputas. Nestas atividades os
indivíduos foram mudando lentamente seus sentimentos e atitudes. O que Elias descobriu
foi que as mudanças constantes nas estruturas da civilização ocidental mudaram
também os padrões de comportamento e a constituição psíquica dos indivíduos.
Na civilização é natural que todo ser humano sofra influência e seja
modelado pelo comportamento dos outros, nenhum ser humano nasce pronto e
acabado, somos modelados desde o nosso nascimento. Levando em consideração esse
postulado, Elias buscou em manuais de etiqueta, livros de comportamento,
pinturas e documentos históricos, desde o século XIII, as razões que foram
moldando o comportamento humano.
A ideia de bom comportamento só começou a aparecer na idade média em
manuais procedentes das cortes da nobreza guerreira. Nesses manuais se
ensinavam boas maneiras à mesa, como lavar as mãos antes da refeição, não roer
os ossos a mesa, não limpar o nariz com as mãos, não pigarrear, não falar
demais, não limpar os dentes com a faca, não cuspir por cima da mesa, não
soltar gases, não oferecer o resto da sopa a outrem, não se enraivecer, sorrir
sempre e ser cortês.
O conceito de courtoesie (cortesia) não só expressava a autoconsciência
aristocrática, mas também expressava uma mudança na mentalidade e nos
sentimentos do homem medieval. É assim que as pessoas se comportam na corte.
Com esses termos, certos grupos importantes do estrato secular superior, o que
não significa a classe de cavaleiros como um todo, mas principalmente os
círculos cortesões que gravitavam em torno dos grandes senhores feudais,
designavam o que os distinguia, a seus próprios olhos, isto é, o código
específico de comportamento que surgiu nas grandes cortes feudais e, em
seguida, se disseminou por estratos mais amplos. (ELIAS, 1994).
Na avaliação de Elias, o que faltava nesse mundo cortês eram as
barreiras emocionais que separavam um indivíduo do outro. Não existia ainda o
condicionamento dos sentimentos, que nos faz ter nojo de qualquer objeto que
tenha tocado as mãos ou a boca de outro indivíduo. Esse condicionamento só
começa a se desenvolver na renascença, onde o embaraço, a vergonha e
repugnância começaram a fazer parte das relações sociais. Por esta razão, surge
no século XVI uma nova sensibilidade, que começou a se universalizar e que teve
como expressão o conceito de civilité (civilidade). Este conceito surge
com os humanistas e substitui o conceito de (cortesia).
O principal livro analisado por Elias, do período renascentista, foi a obra “De
civilitate morum puerilium” (Da civilidade em crianças), do humanista Erasmo de
Rotterdam, publicado em 1530, tendo mais de 130 edições, e que fora publicado
ainda no século XVIII. Este pequeno tratado teve como objetivo “a função de
cultivar os sentimentos de vergonha”. Mas, acima de tudo, é um trabalho de
compilação de boas e más maneiras que Erasmo tirou da própria vida social.
Neste sentido é a expressão das mudanças de seu próprio tempo.
No século XVI, houve uma grande transformação na sociedade. Os valores do
individualismo passaram a ser preponderantes e o comportamento e as boas
maneiras ganharam grande notoriedade, de tal modo que mesmo pessoas de grande
talento e renome não eram capazes de ignorá-las. O tratado de Erasmo surge numa
época de reagrupamento social. É a expressão de um frutífero período de
transição após o afrouxamento da hierarquia social medieval e antes da
estabilização da moderna. Pertence a uma fase em que a velha nobreza de
cavaleiros feudais estava ainda em declínio, enquanto se encontrava em formação
a nova aristocracia das cortes absolutistas. (Elias, 1994)
No livro de Erasmo são ensinadas regras de como se comportar a mesa, como se
sentar, como cumprimentar, como se vestir, que cuidado devemos ter com os
gestos ou com o olhar. É um manual para a educação de crianças, e
foi escrito para um menino nobre, filho de um príncipe. O pequeno tratado fala
de atitudes que perdemos e que aos nossos olhos são entendidos como “bárbaros”
ou “incivilizados”. Um dos seus ensinamentos dizia que, não deve haver meleca
nas narinas. “O camponês enxuga o nariz no boné ou no casaco e o
fabricante de salsichas no braço ou no cotovelo. Ninguém demonstra decoro
usando a mão e, em seguida, enxuga-a na roupa. É mais decente pegar o catarro
em um pano, preferivelmente se afastando dos circundantes. Se, quando o
indivíduo se assoa com dois dedos alguma coisa cai no chão, ele deve pisá-la
imediatamente com o pé. O mesmo se aplica ao escarro.” (1994, p. 69-70).
Muitos dos comportamentos descritos no Tratado de Erasmo são parecidos com os
nossos, mas outros são muito diferentes. Apesar de representar um avanço nas
formas de lidar com o corpo, com a limpeza e com as boas maneiras, são ainda
formas rudimentares de comportamentos se comparados aos do homem contemporâneo.
O Tratado aconselha, por exemplo, que não devemos pegar a carne com cinco
dedos, mas apenas com três dedos. Este é um sinal de distinção que separa a
classe nobre da classe baixa. Mesmo não existindo sabonete, aconselhava-se a
lavar as mãos antes das refeições. A água usada geralmente era perfumada com
camomila. Quando os dedos ficavam engordurados aconselhava-se não lambê-los ou
enxugá-los no casaco, mas sim num pano qualquer. Também aconselhava que não
devemos dar a carne que estamos comendo ao outro, pois é falta de decoro
oferecer carne mastigada a quem se gosta. O manual também dizia que não era
educado expor as partes íntimas. Algo bastante comum naquela época.
Com esse tratado, Erasmo mostrou as mudanças que estavam acontecendo em sua
época. Ele delimitou as formas de comportamento e as situações sociais e de
convívio que estavam adquirindo sentido e significado, e que se
generalizaria como expressão do mundo moderno. Apesar de nossa visão
etnocêntrica, que nos leva a pensar que aqueles hábitos eram primitivos, Elias
argumenta que o comportamento dos medievais eram naturais e socialmente
aceitáveis. Não existia o sentimento de repugnância. O sentimento de nojo,
repugnância ou vergonha não são sentimentos naturais, mas foram construídos
socialmente, são típicos do homem moderno civilizado. Na época de Erasmo,
todos comiam com as mãos, mesmo o rei e a rainha. Todos bebiam em canecas
comuns. Praticamente não existiam garfos e quando havia eram para tirar carnes
das travessas. Elias mostra-nos que foi somente no século XVI que o garfo
surgiu para tirar alimentos dos recipientes. O garfo era ainda artigo de
luxo da classe alta, no século XVII. Também quase não existem pratos. As
pessoas usavam colheres e facas em comum. Quando a carne chegava à mesa, cada
pessoa pegava-a com as mãos. Os dedos eram frequentemente enfiados no caldo da
travessa para molhar o pão. Os indivíduos também assoavam o nariz com as mãos,
da mesma forma que comiam com elas. A sensação de nojo que experimentamos hoje
nem sequer existia naquela época.
O homem medieval também não tinha nenhum pudor quanto à nudez de seu corpo.
Ficar nu na frente dos outros era algo natural. Por esta razão, o
tratado de Erasmo aconselhava-se a não expor as partes intimas. Esse conselho
começou a surgir em vários manuais a partir do século XVI. Elias cita um
observador daquela época que diz “ver o pai, nada mais usando que calções,
acompanhada da esposa e dos filhos nus, correr pelas ruas, de sua casa para os
banhos. Quantas vezes vi mocinhas de dez, doze, quatorze, dezesseis e dezoito
anos inteiramente nuas, exceto por uma bata curta, muitas vezes rasgada, e um
trajo de banho esmolambado, na frente e atrás! Com isto aberto aos pés e as
mãos decorosamente às costas, correndo de suas casas ao meio-dia pelas longas
ruas em direção aos banhos. E quantos corpos nus de rapazes de dez, doze,
quatorze e dezesseis anos correndo ao lado delas”. (1994, p. 165).
O pudor
só começa a surgir no século XVI e somente se torna um sentimento internalizado
a partir do século XVII. Antes disso não existia o sentimento de vergonha
do corpo e das partes íntimas expostas. Na verdade, a exposição do corpo
era uma “regra diária” que perdurou até o final da idade média. As pessoas
geralmente dormiam nuas e andavam sem roupa em casa e em seu entorno. A
camisola só apareceu no século XVI, na mesma época em que surgiu o garfo, o
lenço e outros objetos da vida civilizada.
Outro fato que espanta o homem contemporâneo, é a extrema agressividade
da época medieval. A pilhagem, a guerra, as vinganças, os estupros, a caça de
homens e animais eram “necessidade vitais” da estrutura social. Atacar igrejas,
atacar peregrinos, atacar oprimidos, viúvas e órfãos, mutilar inocentes eram
acontecimentos diários, geralmente praticados pela classe guerreira. Não
existiam instituições que pudessem impedir as atrocidades, não existia poder
social punitivo. Viver naquela época era se sentir constantemente inseguro.
Elias conta-nos a história de um cavaleiro que sentia prazer em mutilar
pessoas. Em um único mosteiro ele cortou as mãos de 150 homens e mulheres, e
arrancou seus olhos. Sua esposa o ajudou e foi capaz de arrancar as unhas
das mulheres e cortar seus seios. Contudo, ninguém estava seguro, nem mesmo os
algozes. O medo e a insegurança eram sentimentos comuns em todo mundo. O
vitorioso de hoje era derrotado amanhã por algum acidente, capturado e sua vida
corria perigo. No meio dessas perpétuas ascensões e quedas, dessa alternância
de caçadas humanas, pouco podia ser previsto. O futuro era relativamente
incerto mesmo para os que haviam fugido do mundo” (ELIAS, 1994)
O que estava acontecendo na
época de Erasmo era uma tendência cada vez maior das pessoas se observarem, de
se moldarem umas as outras, de fazerem pressão reciprocamente umas sobre as
outras. O indivíduo passa a controlar mais seu comportamento, a coação é muito
maior do que na época das cortes medievais. As boas maneiras começam a se
tornar exigências do convívio social. Se Erasmo se dedicou a escrever um livro
de boas maneiras, foi porque o bom comportamento tinha se tornado importante
naquela época. E tinha se tornado importante justamente porque surgia uma nova
aristocracia: as cortes absolutistas. Exatamente, por esta razão, a questão de
bom comportamento uniforme torna-se cada vez mais candente, especialmente
porque a estrutura alterada da nova classe alta expõe cada indivíduo de seus
membros, em uma extensão sem precedentes, às pressões dos demais e do controle
social. Forçados a viver de uma nova maneira em sociedade, as pessoas tornam-se
mais sensíveis às pressões das outras. Não bruscamente, mas bem devagar, o
código de comportamento torna-se mais rigoroso e aumenta o grau de consideração
esperado dos demais. O senso do que fazer e não fazer para não ofender ou
chocar os outros se torna mais sutil e, em conjunto com as novas relações de
poder, o imperativo social de não ofender os semelhantes torna-se mais estrito,
em comparação com a fase precedente. (ELIAS, 1994)
No tratado de Erasmo, já havia uma preocupação com o controle
das emoções e dos impulsos agressivos. O indivíduo civilizado devia ser dócil e
amável com todos. Não devia dizer nada que pudesse provocar conflito ou
irritar. Além disso, aconselhava-se que devemos ser tolerantes com as ofensas
dos demais. Se um companheiro não se comporta bem, devemos aceitar, uma vez que
ele deve compensar a rusticidade de seu comportamento com outros talentos. Da mesma
forma aconselhava o diálogo com quem nos ofende.
Elias analisou grande parte dos manuais produzidos até o século XVIII, como
livros, tratados ou panfletos sobre civilidade. O que ele percebeu foi que
nessa época esses manuais já se dirigiam claramente a moradores de pequenas
cidades das províncias. As formas de comportamento ensinadas nesses manuais
surgem na classe aristocrática e, posteriormente, se generalizam por toda
sociedade. Na medida em que se popularizam, demonstram com grande clareza a
disseminação dos costumes, de cima para baixo. Isso significa que nossos
hábitos civilizados, como comer com garfo, colher, faca, e ter boas
maneiras, assim como nossos valores morais, provem da nobreza, disseminada pela
burguesia.
Outra descoberta de Elias, foi que esses rituais de bom
comportamento não surgiram por causa do nosso medo de contrair doenças, mas
surgiram do nosso sentimento de repugnância. Foi uma mudança nos nossos
impulsos e emoções. Os sentimentos de nojo se tornaram institucionalizados. O
desagrado, a antipatia, a repugnância, o medo ou a vergonha foram alimentados e
reproduzidos tornando-se ritualizados. O novo padrão não surge da noite
para o dia. Algumas formas de comportamento são proibidas não porque sejam
anti-higiênicas, mas porque são feias à vista e geram associações
desagradáveis. A vergonha de dar esse espetáculo, antes ausente, e o medo de
provocar tais associações, difunde-se gradualmente dos círculos que estabelecem
o padrão para outros mais amplos, através de numerosas autoridades e
instituições. (ELIAS, 1994).
As boas maneiras começaram a surgir nas cortes dos senhores feudais e se
expressavam pela palavra cortesia. Mas, ainda durante a idade média, a palavra
não se limitava apenas à corte, uma vez que a burguesia em ascensão também se
apropriava dela. Com a queda da nobreza guerreira e dos senhores feudais, e com
a formação de uma nova aristocracia dos monarcas absolutistas, o conceito de
civilidade ganhou preponderância como forma de comportamento em vigor. Foi
através do conceito de civilidade que surgiram grande parte dos hábitos do
homem civilizado, como comer com garfo, faca e colher. Contudo, de maneira
análoga, o conceito de civilidade começou a perder sentido no século
XVIII, uma vez que a burguesia estava se afirmando como classe dominante. A
corte cada vez mais sofria influências dos valores burgueses. O conceito de
civilidade começa a diminuir e outros conceitos ganham mais valor, como
“politesse”, “humanité.” A partir disso, surge uma nova autoconsciência.
Nessa época, os padrões de comportamento já eram bastante divulgados e
muitos deles haviam sido internalizados. O conceito de civilização indica
com clareza, em seu uso no século XIX, que o processo de civilização – ou, em
termos mais rigorosos, uma fase desse processo – fora completado e esquecido.
As pessoas querem apenas que esse processo se realize em outras nações, e
também, durante um período, nas classes mais baixas de sua própria sociedade.
Para classe alta e média da sociedade, civilização parece firmemente enraizada.
Querem acima de tudo, difundi-la e, no máximo, ampliá-la dentro do padrão já
conhecido. (ELIAS, 1994)
Os manuais de boas maneiras, analisados por Elias, serviram
como um instrumento para se entender, em cada época, os padrões de hábitos e
comportamentos a que a sociedade procurou acostumar os indivíduos. Significa
dizer que cada época condicionou e modelou os indivíduos tentando dissuadi-los
a não se comportarem de certa maneira, mas sim de acordo com os hábitos, regras
e tabus vigentes. Nesse sentido, ele conseguiu compreender como os homens
abandonaram seus impulsos naturais incivilizados e os transformaram em
comportamentos civilizados.
Bibliografia
ELIAS, Nobert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Vol 1. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1994.
A Luz entre Oceanos
Chamava-se Janus o deus romano das mudanças, com as suas
duas faces – olhando para frente e para trás – com vista no futuro e no
passado, ao mesmo tempo. Deu nome ao mês de janeiro, o mês que, no calendário
cristão, faz a transição entre o ano velho e o ano novo. É essa narrativa da
mitologia romana que oferece nome à pequenina ilha do filme ‘A Luz entre
Oceanos’ (The Light Between Oceans), exatamente por ela se situar entre dois mares. Já foi dito que uma
das características de um bom filme é quando ele continua após as luzes do
cinema serem acesas, nas conversas que se seguem. Bom, já não é mais tão
habitual se assistir filme em cinemas, mas a metáfora continua a valer. E se
aplica, a meu ver, muito bem ao filme ‘A Luz entre Oceanos’. Personagens à
deriva, dilemas ético-morais e o sentido da afirmação do caráter. Pelo meio
disso tudo tudo, uma ciranda de sobressaltos, e o contar dos dias de vidas que
buscam mais do que o registro de existirem. Assim, no final das contas, é o
‘real da vida’, no dizer de Guimarães Rosa. Aí abaixo, mais sobre ‘A Luz entre
Oceanos’.
Por Marcelo Perrone
O melodrama é um gênero subestimado por conta dos excessos de açúcar e
lágrimas que roteiristas e diretores menos talentosos lançam sobre enredos que,
de maneira geral, transitam pelo caminho dos romances tortuosos, das fissuras
familiares e das lições edificantes de superação. Mas, vez que outra, surgem
realizadores como o norte-americano Derek Cianfrance, que, em A luz
entre oceanos, reforça a elevada potência desse gênero sobre o espectador
quando se combinam a boa história, o elenco afiado e a mão segura de quem
harmoniza o conjunto sem apelar para o golpe baixo do sentimentalismo desmedido
— como se costuma ver nas adaptações para o cinema de best-sellers desse
estrato.
Autor de filmes dramaticamente densos como Namorados para sempre e O lugar onde tudo
termina (leia mais
sobre esses filmes abaixo), Cianfrance desta vez não trabalha com um roteiro
original. A matriz de A luz entre oceanos é o romance homônimo de estreia da australiana
M.L. Stedman, lançado em 2012. Deslocado do tempo contemporâneo dos longas
anteriores, o diretor encontra na história ambientada logo após o fim da I
Guerra Mundial (1914 — 1918) elementos com os quais estabeleceu sua marca autoral:
personagens emocionalmente à deriva que ensaiam tomar o rumo para se recompor
mas que, em vez de uma jornada mais feliz — ou menos amarga —, acabam tragados
por uma ciranda de sobressaltos afetivos e dilemas morais. E, ao desviarem da
rota, em razão das escolhas feitas, mesmo as banais e aparentemente
inconsequentes, não conseguem mais voltar.
E os protagonistas de A luz entre oceanos não poderiam
estar mais deslocados no mundo que se redesenhou após o conflito — vivem
numa cidadezinha da costa australiana que perdeu quase todos os seus jovens no
front. Tom (Michael Fassbender) sobreviveu à carnificina nas trincheiras da
Europa. É recebido como herói, mas tudo que ambiciona agora é isolar-se do
mundo. Assim, lhe é providencial o posto vago de faroleiro em uma ilha próxima,
chamada Janus — nome do deus romano de duas faces, que representam o antes
e o depois decorrente de uma transição, de uma tomada de decisão, como a que
norteará a reviravolta na vida de Tom. Por sua vez, Isabel (Alicia Vikander)
ficou sozinha com os pais após todos os seus irmãos morrerem na guerra. Enxerga
em Tom, embaralhada à atração genuína, a oportunidade de alçar voo daquele
ambiente impregnado pelo luto. Tom e Isabel se aproximam, se casam e vão morar
em Janus, refúgio idílico onde só de tempos em tempos ganham a companhia dos
marujos que lhe levam provisões.
Os anos passam, e Isabel fica emocionalmente abalada pelos sucessivos
abortos sempre na reta final da gravidez. Um dia, bate nas rochas da ilha um
barquinho com o cadáver de um homem e um bebê sobrevivente. Tom quer reportar a
tragédia, mas Isabel o convence a ficarem com a menininha, para ela uma
recompensa do destino até então ingrato. Tem início um lento processo de
corrosão no relacionamento, que ficará adormecido na aparente felicidade
familiar até ganhar, mais adiante, um decisivo vértice na figura de Hannah
(Rachel Weisz), viúva que Tom conhece no continente.
A vigorosa performance do elenco, a delicada trilha de Alexandre Desplat
e a paleta de cores e molduras da fotografia de Adam Arkapaw (responsável pelo
visual da primeira temporada do seriado True detective e do
recente Macbeth estrelado por Fassbender) compõem um painel
dramático grandioso, do tipo que se mostra sua real dimensão pelo impacto
provocado por seu esfacelamento.
Fassbender e Alicia correspondem plenamente à exigência dramatúrgica
imposta a seus personagens. Tom é exemplo de uma pétrea retidão de caráter. O
trauma da guerra o deixou impermeável a qualquer emoção, até deparar com a
radiante Isabel. A leveza e a serenidade que ela lhe traz nos primeiros anos de
casamento, contudo, darão lugar ao imenso peso que passa a arrastar após
atender ao desejo da mulher pela maternidade. Fassbender entrega uma atuação
primorosa transitando pelas intensas nuanças do personagem. Alicia, por
sua vez, reflete em seu registro a penosa transição da garota que desabrocha
diante de seu amor à mulher que murcha na depressão quando o sonho se mostra
frustração. A intensidade da ficção se desdobrou na vida real, e Fassbender e
Alicia terminaram as filmagens como um casal de verdade.
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Fonte: http://zh.clicrbs.com.br/
domingo, 5 de março de 2017
As ruas de Borges e a definição de eternidade: o sentido do instante de saudade

A REPETIÇÃO DO INFINITO
Por Leont Etiel
No vislumbre do horizonte
imaginado, a presença da assertiva borgiana a cravar a história da eternidade: “o número de todos os átomos que
compõem o mundo é, embora descomunal, finito, e só capaz, como tal, de um
numeroso finito (embora também descomunal) de permutações. Num tempo infinito,
o número das permutações possíveis deve ser alcançado, e o universo tem de se
repetir. Novamente nascerás de um ventre, novamente crescerá teu esqueleto,
novamente chegará esta mesma página às tuas mãos iguais, novamente percorrerás
todas as horas até a de tua morte incrível."
Uma biografia da duração em detrimento da história como sucessão
temporal, como uma fase de vida suplantando outra, levando a suplantada ao
museu do esquecimento – engano de percepção.
A presença da permanência que a aparência do movimento oculta - o substancialmente essencial que ele carrega. A
insuficiência da paisagem nova para encobrir as camadas das paisagens
anteriores. Ao fim dos seus dias, em longas caminhadas pelas ruas de Buenos
Aires, Borges deu expressão ao que a sua pena apontou em Historia de la Eternidad. O momento que permanece. A imagem que
fica. A definição de eternidade: o sentido do instante de saudade. A repetição
do infinito.
sábado, 4 de março de 2017
As sutilezas do caráter
Devemos ao escritor Salman Rushdie a retomada contemporânea da reflexão do grego Heráclito segundo a qual 'o caráter de alguém é o seu destino'. Rushdie é daquelas pessoas que não se importa em pagar o preço que for necessário para dizer a sua palavra. De origem indiana, e oriundo do islamismo, radicou-se na Inglaterra, principalmente após a publicação de um livro em 1989 em que fazia questionamentos ao extremismo muçulmano. O Aitolá Khomeini, líder iraniano, condenou-o à morte, ordenando que era dever de 'todos os muçulmanos zelosos' procurar assassiná-lo. Rushdie viu-se forçado a viver no anonimato, e sobreviveu (ou tem sobrevivido). Agora tematiza sobre o caráter, o "ontológico conexo", o romance, a relação com a literatura. É uma matéria instigante. Já foi dito que há um espelho mental do qual ninguém escapa. Pode então refletir o que ensombreia o destino referido por Heráclito. Desvios de caráter. Deformação da personalidade. O peso da consciência refletida. Certa feita Leont Etiel escreveu sobre uma parte oculta do mundo interior individual, que é uma caixa de refúgio (consciente, ao invés do inconsciente de Freud), sendo ela observada, por vezes, em breves operações mentais mediante os incontroláveis movimentos do pensamento. Mas ela não é aberta, pois 'há perfumes tão sutis que, uma vez abertos os vasos que os contêm, quase instantaneamente eles se dissipam pela atmosfera. Fogem ao controle de quem abriu os vasos.' Isso, contudo, não retira o espelho mental do seu lugar, ele continua a postos. Pegando "veredas analíticas" parecidas com essas, com uma outra perspectiva, Ezio Bazzzo foi adiante e escreveu 'As sutilezas do mau caratismo'. Salman Rushdie, por sua parte, diversifica os ares, e pergunta-se: o que acontece quando o tipo de pessoa que você é não determina a vida que você tem? A propósito, vale conferir o vídeo dele aí abaixo.
sexta-feira, 3 de março de 2017
O que podemos aprender com o "chato de cinema"

Por
Vandeck Santiago
Se
houver uma terceira guerra mundial não sei o que vai acontecer, mas tenho
certeza que pelo menos duas espécies sobreviverão: as baratas e o chato de
cinema. Este é aquele(a) camarada que empurra as pernas na cadeira (ocupada) da
frente, que fala longamente ao celular durante a sessão, que conversa
alegremente com a sua companhia, que come durante o filme todo, que fica de pé
à sua frente antes de o filme acabar – é um personagem eterno das salas de
cinema.
Quando eu era criança não em Barbacena, mas na aprazível Pesqueira (PE) havia
um hilário personagem da – vamos generosamente chamar assim – cena
cinematográfica local: um cidadão que ia ao cinema para de repente revelar o
destino dos personagens ou da história. Aparecia alguém e ele gritava: “Esse
morre no fim!”. Ou então, em relação a outro: “Tá se fazendo de bonzinho, mas é
o assassino!”. Um Spoiler-man analógico. Os filmes no cinema Moderno de
Pesqueira tinham ‘temporadas’ de dois dias na semana e três no final semana.
Ele assistia no primeiro dia, e estragava a sessão de quem ia nos dias
seguintes. Era odiado por todos nós, recebia suspensões frequentes da gerência
do cinema (semanas sem poder entrar).
Trata-se de um caso, porém, talvez de tratamento médico. É diferente de outros
que se comportam como se estivessem a sós na sala de casa. Lembro da estreia no
Recife de Nascido para matar (1987),
no São Luiz. Cinema lotado, ar condicionado precário e, de repente, o
espectador ao lado liga um ventilador portátil em forma de caneta. Vrrruuummm…
Desligava quando se sentia refrescado, mas logo que o calor voltava ele ligava
de novo: vruuummm…
A gente até pode dar o desconto de que nos anos 1970/1980 o comportamento da
plateia recebia estímulos da própria publicidade dos filmes e dos cinemas.
Nesta foto de 1975, por exemplo, olha o que diz o letreiro ao lado do título do
filme: “Você gritará de pavor. Saltará do seu lugar quando assistir Tubarão”…
Hoje não tem mais esse tipo de propaganda. Entraram em cena outros componentes.
Em 2005 (trinta anos depois do Tubarão que fazia gritar de pavor), assistindo a
O segredo de Brokeback Moutain,
escutei um cidadão negociar um boi pelo celular. Juro – preços, entrega, tudo.
Um boi. Foi demais – a partir dali decidi nunca mais ir ao cinema.
De lá para cá tive recaídas. Na maioria das vezes, sem problema. Nem todas as
vezes, porém. Em 2013, com O lobo de Wall
Street, minha mulher pediu para trocar de lugar comigo porque o cidadão ao
lado estava com gestos suspeitos. Mudamos, eu olhei para ele e em 15 segundos o
camarada levantou-se e foi embora. Além do espectador mal-educado, que é
eterno, temos agora o tarado, que aparece de vez em quando…
Os cinemas mudaram para os shoppings, as salas diminuíram, os preços aumentaram
– mas o chato do cinema não muda. Semana passada eu e minha mulher fomos ver Até o último homem, em um cinema de
shopping. Havia duas pessoas atrás de nós, ambas empurrando os joelhos em nossa
poltrona (essa prática é um clássico não só dos cinemas; também dos aviões…).
Você olha para trás, demonstrando o incômodo. As pessoas param; dali a pouco
fazem de novo. Você se vira mais uma vez; elas param e, dali a pouco…
A hipótese primeira que surge para tentar explicar o fenômeno aqui descrito é
que algumas pessoas levam para o cinema o comportamento que têm em casa diante
da televisão. Talvez. Essa hipótese, porém, não explica tudo.
Creio que o motivo maior, de fundo, é o hábito de não pensar no outro.
Quem pensa no outro, com o sentimento de que devemos respeitá-lo assim como
queremos ser respeitados, não deixa o carro estacionado de forma a dificultar a
vida de quem está ao lado; não deixa o carrinho de compras no caixa do
supermercado para que quem venha atrás empurre; não suja algo que alguém vai
utilizar em seguida; tenta levar vantagem deslealmente na convivência diária
com os colegas; não empurra os joelhos nas suas costas e, sobretudo, não
empurra uma segunda e terceira depois que você demonstra que o gesto está
incomodando…
Um simples pensar no outro evitaria muitas das tensões e conflitos que
acontecem diariamente. E tornaria nossa convivência mais prazerosa não só no
cinema.
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Fonte: http://blogs.diariodepernambuco.com.br/diretodaredacao/2017/02/07/o-que-podemos-aprender-com-o-chato-de-cinema/
Por onde não se vai: a existência da vida distante
José Régio, para além, talvez, da pena incontida que Fernando Pessoa colocou na mão de Álvaro de Campos.
quinta-feira, 2 de março de 2017
Sombras frágeis da realidade
Juanito continued to stare downward.
Joseph sat down beside him. “My father is dead,
Juanito.”
“I am sorry, my friend.”
“But I want to talk about that, Juanito, because you
are my friend. For myself I am not sorry, because my father is here.”
The dead are always here, señor. They never go away.”
“No”, Joseph said earnestly. “It is more than that. My
father is in that tree. My father is that tree! It is silly, but I want to
believe it. Can you talk to me a little Juanito? You were born here. Since I
have come, since the first day, I have known that this land is full of ghosts.”
No, that isn’t right. Ghosts are weak
shadows of reality. What lives there is more real than we are. We are like
ghosts of its reality. What is it, Juanito? Has my brain gone weak from being
two months alone.”
“The dead, they never go away”, Juanito repeated. Then
he looked straight ahead with a light of great tragedy in his eyes. “I lied to
you, señor. I am not Castillian. My mother was Indian and she taught me
things.”
“What things?”, Joseph demanded.
Father Angelo would not like it. My mother said how
the earth is our mother, and how everything that lives has life from the mother
and goes back into the mother. When I remember, señor, and when I know I
believe these things, because I see them and hear them, then I know I am not
Castillian nor caballero. I am Indio.”
“But I am not Indian, Juanito, and now I seem to see
it.”
Juanito looked
up gratefully and then dropped his eyes, and the men stared at the
ground. Joseph wondered why he did not try to escape from the power that was
seizing upon him.
After time Joseph raised his eyes to the oak and to
the house-frame beside it. “In the it doesn’t matter, he said.
(John Steinbeck, To
a God Unknown, London, Gorgi Books, 1969, p. 27-28).
quarta-feira, 1 de março de 2017
O perigo da palavra que mostra ocultando: saudade de outra universidade e o dilema dos intelectuais
Preste bem atenção no vídeo aí abaixo. É uma raridade. Nele, temos um bom debate-duelo entre dois pesos-pesados do pensamento social: Michel de Foucault e Noam Chomsky. Ao redor, estudantes e não estudantes assistem absortos. As legendas não são das melhores. Mas há duas passagens na fala deles que são marcantes. Em Chamosky, o papel do intelectual: a) aprofundar-se no conhecimento para, com credibilidade, mostrar o que é a sociedade, "desnudá-la"; b) e, em função disso, perspectivar o futuro. Foucault: pondo em dúvida "o perspectivar o futuro", volta o foco para os chamados micropoderes por ele teorizados. Talvez daí derive o seu descompasso, como notou Poulantzas, por não considerar devidamente a dimensão do poder de Estado (e as suas implicações) como um poder codificado juridicamente. Conhecimento e debate. É a dinâmica de outro tipo de universidade. Buscar esse outro tipo de universidade foi uma das razões que me levaram a aceitar compor uma chapa à Reitoria da UFPB na última eleição. Contudo, o nosso programa não logrou êxito. Resta-nos então respeitar o resultado, recolher-nos e torcer para que a universidade caminhe bem. De toda forma, de modo geral, a impressão que se tem é que esse tipo de universidade aí refletida no vídeo está em descenso, passando a predominar a "universidade dos cargos", a "vida acadêmica fast food", a "produção improdutiva" - usando aqui uma expressão de Frigotto - para órgãos de fomento, as "espumas de palavras", etc. O perigo é que, como diz o próprio Foucault, muitas vezes, 'a linguagem mostra ocultando'. Esses tempos têm feito com que colegas que andam na contracorrente a eles se perguntem se não estamos perante o 'fim dos intelectuais acadêmicos' - é o que está no livro 'Fim dos Intelectuais Acadêmicos? Induções da CAPES e Desafios às Associações Científicas' (Campinas-SP, Editora Autores Associados), que tem, entre os seus autores, o colega Gilson Ricardo, da UERN. Ao vídeo, para persistirmos na senda de outro tipo de universidade.
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