sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Nem sempre o silêncio é esquecimento



Por Marcel Camargo 

Ao contrário do que possa aparentar, muitas vezes o silêncio tem muito a dizer, carregando em seu aparente vazio uma intensidade tamanha de sentimentos e de carga emocional muito mais significativa do que enxurradas de palavras ou gestos exacerbados. O silêncio pode acalmar, ferir, amparar ou até mesmo violentar, às vezes trazendo paz, outras vezes incitando tempestades - nem sempre o silêncio é pacífico.
O silêncio pode ser revolta, rebeldia, contrariedade contida. Nem sempre estamos prontos para expressar nossos pontos de vista, no sentido de verbalizar o que queremos, o que temos aqui dentro. Assim, mesmo que estejamos discordando de algo, silenciamos, pois nos falta a coragem necessária para que nos libertemos dessa prisão que nós próprios criamos, ou mesmo porque sabemos que qualquer tentativa de diálogo será inútil e cansativa naquele momento.
O silêncio também pode corresponder à reflexão, a um turbilhão de pensamentos pulsando dentro de nós. O pensamento e a fala devem conviver harmonicamente, de forma que um não atropele o outro, colocando-nos em situações constrangedoras. Palavras, após proferidas, não voltam mais, deixando suas marcas, muitas vezes negativas, nas nossas vidas e nas dos ouvintes. Pensar sobre o que se diz é necessário, pois, caso possamos machucar alguém ou a nós mesmos, sem razão, é preferível emudecer.
Às vezes, o silêncio é solidão, é vazio, solitude doída e emudecida. Mesmo acompanhados, ainda que em meio a muitas pessoas, podemos estar solitários, sentindo-nos sem acolhida, sem partilha, sem pertencimento. Como se não fizéssemos parte da vida do outro, como se fôssemos desimportantes, dispensáveis. Perdidos nessa irrelevância emocional, ruímos por dentro, minando nossa autoestima e nossa capacidade de ser feliz.
Outras vezes, o silêncio é desistência. Há momentos em que o mais prudente a se fazer é desistir de algo, de alguém, de tentar convencer, de querer amar, de clamar por atenção e reciprocidade. Certas situações nos pedem que partamos para outra, que canalizemos nossas forças e energias em direção ao que nos trará contrapartida, retirando-nos dos apelos vazios, da mendicância afetiva, pelo bem de nossa saúde física e de nosso equilíbrio emocional.
Silêncio, da mesma forma, pode significar desapego, libertação, livramento de amarras que nos impedem o caminhar tranquilo de nossa jornada. Precisamos nos despedir de tudo aquilo que pesa em nossos ombros, emperrando a visualização serena das possibilidades que nos aguarda o futuro. Temos que serenar a celeridade que intranquiliza os nossos corações, jogando fora bagagens sem as quais conseguiremos viver melhor.
O silêncio muitas vezes é mágoa, ressentimento, lamentação acumulada. Na impossibilidade de encontrarmos coragem de vivermos nossas verdades por inteiro, de refutarmos o que não nos completa, tampouco nos define, de impormos aquilo em que acreditamos, sufocamos nossos sentimentos mais íntimos sob a infelicidade de aparências condizentes com o que todo mundo espera - exceto nós próprios. Nesses casos, o calar-se equivale ao crepúsculo moroso de nossa existência.
Felizmente, no entanto, o silêncio também pode - e sempre o deveria - implicar felicidade, certezas, convicção e força. Sabermos os momentos certos para calarmos e guardarmos para nós aquilo que, pensamos, nos salva de problemas dispensáveis. Quando estamos seguros quanto ao que somos, quanto aos nossos sonhos e planos de vida, nenhum barulho é capaz de abalar as nossas verdades, minimamente que seja.
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Fonte: http://obviousmag.org/



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

A "política da pornografia" e a "pornografia da política"

A minha geração, não poucas vezes, ouviu o eco do brado segundo o qual, 'na política, importa [ter] os objetivos; no amor, o movimento'. Hoje isso está muito, muito confuso. Os acontecimentos que temos estado a testemunhar (não só no plano nacional) desmoralizam as exclamações - a cada dia surge algo novo que faz com que o "espanto" do dia anterior perda o sentido. O circo no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, as estripulias dos "idiotas da objetividade" e a carta do vice-presidente brasileiro fazendo pouso entre o tango e o bolero - sim, aqueles gêneros em que, como anotou a Folha em Editorial, o artista, a dada altura, interrompe o canto e passa à declamação da letra a meia-voz em tom do confidência. No segundo caso, a situação tem resvalado frequentemente para uma espécie de "publicismo epistolar" em que se dosam análises e ações tendo por base  a "política da pornografia", que, como tal, consubstancia a "pornografia da política". A propósito, vale a pena ler o texto aí abaixo do cientista político Cláudio Gonçalves Couto.   




Por Cláudio Gonçalves Couto
(Fundação Getúlio Vargas e Pesquisador do CNPq) 

Verificando em nossos mais prestigiosos dicionários o sentido do termo “pornografia”, encontramos uma certa variação de definições. Uma, comum a quase todos, é a de “estudo da prostituição”. Nesse sentido, a pornografia seria se não uma ciência, um campo de saber como qualquer outro, no âmbito das humanidades.
De forma mais específica, o Aurélio a define como “tudo o que se relaciona à devassidão sexual; obscenidade, licenciosidade; indecência”. O Michaelis fala em “arte ou literatura obscena”, bem como do “caráter obsceno de uma publicação”. Já o Houaiss afirma se tratar de “qualquer coisa feita com o intuito de ser pornográfico, de explorar o sexo tratado de maneira chula, como atrativo”. Por fim, talvez as mais interessantes definições venham do Aulete: “Texto, foto, desenho, filme etc. que, com o objetivo único da excitação ou satisfação sexual das pessoas, apresenta ou descreve pessoas nuas ou copulando”, ou ainda “característica ou condição do que, com o propósito exclusivo de excitação”.
Se nessas definições substituirmos a palavra “sexo” e suas derivações por “política”, teremos uma descrição acurada de um certo tipo de publicística que ganhou público e autores de forma notável nos últimos anos. São pretensos analistas do cenário político cujo estilo e propósito em muito se assemelham à pornografia convencional. Descrevem a política como sendo uma forma de prostituição, relacionando-a ao devasso, ao obsceno, ao licencioso, ao indecente. A ela se referem de forma chula e grotesca, despertando assim os instintos mais primitivos de um público ávido pelo politicamente incorreto e pelo grosseiro. Por isso mesmo, trata-se de uma publicística cujo condão é excitar a audiência por meio dessa escatologia política, causando-lhe um prazer baseado no ódio.
Como atores pornográficos, os publicistas pornôs vivem uma relação confusa com seus personagens – o que lhes diferencia dos atores e dos publicistas normais, respectivamente. Os atores normais, por mais que encarnem seu personagem quando em cena, dele se distinguem claramente; já o ator pornô não tem como se separar por completo de seu personagem, já que o encarna de uma forma muito mais concreta – carnal, no sentido literal do termo. O publicista pornô cria um personagem do qual se torna indissociável, de modo que se torna impossível distinguir se quem fala ou escreve é, afinal, o publicista ou seu personagem. Da mesma maneira, no ato sexual encenado não é possível distinguir o ator pornô de seu personagem – afinal, um e outro efetivamente o praticam.
Por essa razão, debater com tais publicistas é na melhor das hipóteses uma perda de tempo e, na pior delas, um brutal equívoco. No primeiro caso, porque se debate com personagens, em vez de interlocutores reais; no segundo, porque a polêmica com simulacros argumentativos é uma disputa desleal, da qual sempre se sai perdendo. Seria como um ator normal fazer uma pequena ponta num filme pornô. Mesmo que não participe das conjunções carnais, ficará inescapavelmente associado a elas, danificando sua reputação de ator sério.
Aliás, a perda reputacional gera um problema grave aos publicistas pornôs que um dia já tenham sido publicistas normais. Como os atores pornôs que um dia foram atores normais, eles ingressam num caminho sem volta. Muito dificilmente conseguirão se descolar dos personagens aos quais se fundiram carnalmente, de modo a poder novamente atuar da forma convencional. O estigma pornográfico que se autoimpingiram provavelmente lhes acompanhará para sempre.
A razão do sucesso junto ao público também é similar nas duas espécies de pornografia. A encenação – embora farsesca – oferece à audiência uma performance que ela própria não tem a oportunidade de desempenhar. Assim, o prazer não vem da própria atuação, mas daquela que é encenada. O outro faz o que seus espectadores gostariam de estar fazendo, mas não conseguem por falta de oportunidade: razões físicas, intelectuais, emocionais ou simplesmente de acesso aos meios – sejam eles parceiros, momentos, lugares, coragem –, ou espaço para publicação. Torna-se, assim, um substancioso filão de mercado, pois sempre haverá um público necessitado dessa fonte projetiva de prazer – seja ele sexual ou de ódio político.
Os pornógrafos também não têm todos os mesmos atributos. Assim como os atores, alguns publicistas são mais bem dotados do que os outros: argumentam melhor, escrevem melhor, são mais eruditos, mais eloquentes ou, simplesmente, fingem melhor. No caso dos publicistas mais toscos, o espectador sente satisfação porque ele mesmo poderia ter formulado as assertivas do pornógrafo, o que gera uma identificação prazerosa. Já quando o publicista tem um desempenho intelectualmente superior (verdadeiramente ou não), ele se torna um alento para seus espectadores, pois reforça neles o prazer projetivo de performances que requerem atributos inacessíveis para o espectador ordinário – que as assiste embevecido.
No caso dos publicistas digitais, não raro o embevecimento se expressa através de comentários postados nas páginas da internet, demonstrando aprovação, admiração ou mesmo – paradoxalmente – rechaço. Reside aí um típico elemento constitutivo dessa publicística pornô na sua versão digital: os comentários de aduladores e detratores. Eles compõem o cenário junto com o texto do publicista, assim como os gritos da torcida fazem parte do espetáculo esportivo e os aplausos ambientam a apresentação musical. Mesmo quando não se trata apenas de adulação, mas de apupos, isso não deixa de ser verdadeiro.
Os comentários críticos que não são censurados pelos polemistas cumprem sua função: primeiro, mostram-se claramente minoritários, reforçando a sensação de uma relativa unanimidade em torno do publicista; segundo, fazem a escada para que os admiradores reforcem o coro da adulação. Ademais, a possibilidade dos comentários dá aos espectadores a sensação de que eles podem participar efetivamente do espetáculo. Dessa forma, a mera encenação converte-se num espetáculo interativo, aumentando o prazer, reforçando a espiral de ódio e – consequentemente – aumentando mais ainda o prazer. Como naquelas peças de teatro em que os atores interagem com o público, se os encenadores não colocam certos limites à audiência (por exemplo, recriminando-a por seus excessos), tornam-se cúmplices dela. Mesmo porque, alimentaram propositalmente suas reações.
Por fim, para além de um fenômeno relevante da cultura midiática, a publicística pornográfica é um grande negócio – da mesma forma que sua correspondente cinematográfica. Nesta última há os produtores e atores independentes, mas é mais comum que eles se agrupem sob a guarda de alguma organização maior. O mesmo fazem muitos dos publicistas pornôs, com suas colunas e blogs de publicações dedicadas exclusiva ou predominantemente ao gênero. Antigamente era comum chamá-las de revistinhas de sacanagem. Talvez devamos retomar a expressão.
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Fonte: http://www.cartacapital.com.br/. Título original: 'Polêmica como pornografia'. 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Por que os povos da América não descobriram a Europa?

Por Bernardo Guimarães 

Maias, astecas, incas… Há registros de muitas civilizações avançadas na América antes da chegada dos europeus no final do século 15.
Entretanto, em comparação, as civilizações da Eurásia são ainda mais impressionantes. Há mais de 5 milênios, no Oriente Médio, já havia a escrita. O código de Hamurabi data de cerca de 1700 A.C. e o direito da Roma antiga tem influência no sistema legal até hoje. Estima-se, aliás, que a cidade de Roma tenha chegado a abrigar 1 milhão de habitantes há quase dois milênios.
Acredita-se que há três mil anos, já se produzia aço de qualidade onde hoje é o Irã. Há mais de dois mil anos, Eratóstenes estimaria a circunferência da Terra com boa precisão.
Com essa vantagem inicial, não é de se espantar que os povos da Eurásia tenham conquistado o poder na América antes dos povos da América começarem a se organizar para descobrir outros mundos.
Mas por que os povos da Eurásia chegaram antes nesse nível de desenvolvimento que os povos da América?
Explicações baseadas na superioridade ou inferioridade intrínseca de alguns povos falham os primeiros testes. Mas se alguns não eram mais inteligentes ou mais belicosos que outros, por que ao final do século XV, alguns estavam tão mais preparados para conquistar as terras dos outros?
Uma explicação muito respeitada é apresentada por Jared Diamond em seu livro “Armas, germes e aço”.
Tudo começa com o desenvolvimento da agricultura. Há mais de 10 milênios, em regiões da China e do Oriente Médio, os seres humanos já estavam deixando de ser caçadores-coletores, se tornando agricultores. Esse desenvolvimento da agricultura se espalharia pela Eurásia em não muito tempo.
Por que a Eurásia sai na frente? Em primeiro lugar, Diamond, que é biólogo, argumenta que algumas espécies de plantas presentes da Eurásia eram mais fáceis de serem adaptadas ao cultivo agrícola que as espécies presentes da América, mas essa seria apenas uma parte da história.
Mais interessante, a difusão de técnicas e conhecimentos seria mais fácil na Eurásia que na América por conta da geografia. O ponto chave é que, com frequência, o que se cultiva em um determinado lugar pode ser cultivado também 2 mil quilômetros para o oeste e para o leste, mas em geral, não pode ser cultivado 2 mil quilômetros para o norte ou para o sul.
O clima, afinal, depende muito da latitude, não da longitude.
Como mostra o mapa abaixo, as espécies domesticadas onde hoje é a Turquia poderiam ser transferidas sem grandes problemas em direção à Europa Ocidental e, também, à Asia. Por outro lado, era bem mais difícil transferir o que se cultivava onde hoje é o México para o Norte ou para o Sul por conta da geografia e das mudanças no clima.
diamond
Essa maior possibilidades de aprender dos outros na Eurásia levou a um desenvolvimento maior da agricultura.
Com a agricultura, surgem estoques de alimentos e a possibilidade de roubá-los. Surge também a possibilidade de arrecadar impostos e sustentar um grupo que vende proteção. Assim, nascem os reis e os Estados.
Como eu expliquei no post anterior, a possibilidade de taxar não depende apenas da produtividade agrícola. Alguns estudiosos argumentam que os Estados se desenvolveram mais onde havia o cultivo de cereais, pela facilidade de tributar.
Seja como for, isso tudo tornava mais fácil o surgimento de reis e Estados na Eurásia. Esses “reis” tributavam as pessoas e vendiam proteção mas, com o tempo, também passariam a prover bens públicos.
Esse papel de um rei na época é descrito em textos antigos, como a Bíblia. Em I Samuel 8:10-20, Samuel explica às pessoas que um rei tomaria parte dos grãos que elas produzem, faria seus filhos e filhas trabalharem para o rei e as exploraria de diversas formas.
As pessoas respondem a Samuel que querem um rei mesmo assim. Sim, por um lado, o rei seria um explorador, taxando o que as pessoas produziam. Mas por outro lado, parte desses recursos seria utilizado para prover bens públicos para as pessoas.
Bens públicos incluem estradas, sistemas legais e de justiça, sistemas de irrigação, coisas que permitem um maior desenvolvimento. Nessa passagem do livro de Samuel, o exemplo citado de provimento de bens públicos é a guerra com outros povos. Os impostos pagos pelos agricultores poderiam financiar exércitos para defendê-los e atacar os outros. (Ainda que haja guerras hoje em dia, o mundo melhorou muito desde então.)
Assim, os Estados começam a se desenvolver mais onde a agricultura é mais desenvolvida. Com o decorrer dos milênios, esses Estados passam a ter exércitos com poderosas armas de aço.
Além disso, Estados fortes podem sustentar aglomerações em cidades, pois muitas pessoas passam a viver não da produção de alimentos, mas de outras coisas.
Aglomerações em cidades tornam mais fácil a propagação de doenças epidêmicas, como a varíola e o sarampo. Muita gente nas cidades vai morrer desse tipo de doença.
Parece muito ruim. Note, porém que, com o tempo, passa a haver na população apenas quem tem maior resistência a essas doenças.
E é justamente o rapaz que não morreu de sarampo e varíola que vai chegar à América com germes e poderosas armas de fogo.
Sem terem sido previamente expostas a essas doenças, as populações da América foram dizimadas pelos germes trazidos da Europa.
Por que os europeus não morreram com vírus americanos? Na América, cidades grandes eram bem menos comuns, menores e muito mais recentes que as maiores cidades da Eurásia. Assim, vírus tão letais não se espalharam tanto por aqui.
Eis um breve resumo de uma história que se desenvolve por milênios e explica porque os povos da Eurásia descobriram a América, e não o contrário.

Referência:
– Essas ideias são desenvolvidas no livro “Armas, Germes e Aço” (Guns, Germs and Steel) de Jared Diamond. O livro é um dos mais influentes trabalhos nesse campo do conhecimento e eu recomendo fortemente para quem quer entender mais sobre o caminho traçado pela humanidade nos últimos milênios. Tendo dito isso, a meu ver, o livro não é particularmente bem escrito. Além disso, como ocorre com frequência em obras inovadoras, é provável que parte do argumento não sobreviva ao teste do tempo e à pesquisa futura (o post anterior é um exemplo de crítica à uma parte do argumento). A parte final do livro, em especial, me parece menos interessante.
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Fonte: Folha de São Paulo, versão para assinantes, edição do dia 08/12/2015

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Nota do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais sobre a conjuntura brasileira

No último dia 04, o Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO) emitiu a nota aí abaixo sobre a atual conjuntura brasileira. O Conselho é uma instituição que agrega cientistas sociais no sentido mais estrito (sociólogos, historiadores, antropólogos, economistas) e profissionais das ciências humanas em geral (filósofos, educadores). Está sediado em Buenos Aires, e reúne 481 centros de pesquisa e pós-graduação associados em 37 países da América Latina e de outras nações, como Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha,  Espanha e Portugal. Pelo histórico da América Latina e pelo momento que o Brasil vive, a CLACSO solicita ampla divulgação do seu posicionamento. A conferir a nota. 


El Comité Directivo y la Secretaría Ejecutiva de CLACSO expresan su más enfático repudio a las maniobras de desestabilización del orden democrático en Brasil.

La democracia en Brasil, como en toda América Latina, ha sido una ardua y casi siempre dolorosa conquista popular. Nuestros pueblos lucharon y siguen luchando día a día para que la institucionalidad democrática se imponga a los intereses, los atropellos y las arbitrariedades de los grupos de poder político, económico y mediático, que siempre han cuestionado o ignorado los gobiernos populares y los derechos de las grandes mayorías.

El pueblo brasileño se expresó democráticamente en las urnas hace poco más de un año, eligiendo un gobierno que hoy pretende ser despojado de su mandato por maniobras sin peso jurídico o constitucional.

Frente a esta inaceptable situación, y como siempre lo ha hecho, CLACSO expresa su más vehemente rechazo al golpismo en cualquiera de sus formas. Nos sumamos al amplio conjunto de organizaciones políticas, sociales y académicas que, dentro o fuera del país, expresan su firme solidaridad con el gobierno brasileño. Estamos atentos y movilizados para defender la democracia donde quiera que sea.

Buenos Aires, viernes 4 de deciembre de 2015

Comité Directivo de CLACSO

Labirinto da ausência

Ou, em outra versão, 'o labirinto parado'. 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

'Aquilo que pensamos não existir é o que existe sem que saibamos enxergar'

 Por Audrey de Mattos

Se o Surrealismo é a estética do onírico por excelência, ao se fitar um quadro de Salvador Dalí, por exemplo, tem-se a dimensão do que isso quer dizer. Uma das obras do artista catalão que considero expoentes da estética é o seu "Hombre com la cabeza llena de nubes". Lendo isso, muitos poderão relembrar, exaltados, o seu "Persistência da memória" - os célebres relógios que se derretem ou, os conhecedores mais profundos de seu trabalho, poderão argumentar que nada expressa melhor o inconsciente - cerne da estética surrealista - do que o perturbador "El espectro del sex appeal", no qual o homem se vê criança diante da imagem retorcida de si mesmo.
Pois bem, não posso discordar dessas vozes que, porventura, se levantarem. Entretanto, penso que quando uma obra é tão explícita em relação aos seus padrões, ideais ou, mesmo, ao seu manifesto, a ponto de desafiá-lo de algum modo sem, contudo, negá-lo, à tal obra deve ser reconhecido esse valor. O homem com a cabeça cheia de nuvens, de Dali, é um escancaramento do ideal Surrealista: negação do realismo castrador e da ideia conservadora de que somente as coisas que existem é que são possíveis, ou, como afirmou André Breton no primeiro Manifesto Surrealista: chegar ao que não existia pela via da arte que valoriza da mesma forma os atos executados em sonhos ou em estado de vigília.

Passados mais 100 anos do surgimento das vanguardas artísticas na Europa, a herança legada pelos vanguardistas, da qual o século XXI se farta, é a da estética despida de rótulos, livre. Tão livre que penso ser completamente inadequado falar-se na existência de uma estética. Mas, desse assunto, somente poderão assenhorar-se - precariamente, como ocorre com todos os olhares que procuram sistematizar para entender - aqueles que sobre ele debruçarem-se daqui uns 50 anos, talvez mais. Por ora, talvez nos baste conferir como os novos artistas se valem dessa herança libertária para produzirem peças de arte que atualizam as velhas vanguardas - que se releve o paradoxo - deixando seus observadores em dúvida quanto à origem de seu impulso criador: se reflexo de um olhar atento para aquelas vanguardas ou produto de um completo à vontade instalado após as terapias de choque que os movimentos modernistas representaram no início do século XX.
É nessa tônica que quero apresentar um conto sem nome - "fujamos da mania incurável de reduzir o desconhecido ao conhecido", gritava Breton -, em que a jovem contista Bruna Marcheti de Mattos percorre, a exemplo de Dalí, o caminho surrealista empunhando à vista de todos a sua bandeira. Bruna situa entre o sonho e a vigília um narrador inominado e, por instantes, estranho a si mesmo cujas sensações vão sendo descritas como espectros tampouco nomeáveis. Nada parece gratuito nesse conto: da falta de título à quase impossibilidade de situar no plano da realidade empírica o que vai sendo descrito, trata-se de um mergulho no universo difuso onde Breton acreditava esconder-se o puro verdadeiro. No momento em que o leitor pensa ter alcançado alguma lógica, ela se desfaz pela justaposição de uma nova imagem incongruente. O final, surpreendente, mostra como o poeta francês e teórico do Surrealismo, André Breton, tinha razão ao dizer que aquilo que pensamos não existir é o que existe sem que saibamos enxergar.
Abaixo, na íntegra, para deleite dos leitores, o conto sem nome de Bruna Marcheti de Mattos, datado de novembro de 2012.
As imagens difusas com cores opacas ainda desfilavam à minha vista, parecendo aquarela que um sovina botou no papel com a precisão de um bêbado. Os sons eram poucos, o tato já quase nada percebia, mas o sentido e a coerência que o desfile inspirava ainda pairavam na atmosfera que rodeava a minha presença. Ao longe, então, como se eu possuísse o tato de outro corpo, distante de mim, uma pressão fez-se sentir em meu entorno. Seria em minhas costas? Perscrutei com o olhar, mas não enxerguei coisa alguma ao meu redor. Nem conseguia enxergar a mim mesma!
Mas já não estava ali. Minha presença preenchia o espaço, mas meu corpo desaparecera ao mesmo tempo em que a pressão em meu dorso fazia-se mais perceptível, mais intensa. As imagens imergiam em um manto negro e ali paulatinamente começavam a afundar, a se desfazer. Os ruídos débeis misturavam-se a um novo som que perturbava a coesão do que eu vivenciava – mas não o conseguia identificar.
Meu segundo corpo se tornava cada vez mais real e concreto. No entanto, sua visão me era tolhida e já não conseguia me encontrar onde eu de fato estava desde que o primeiro invólucro se dissolvera no ar. As imagens viraram pontos em um breu sem fim, como atores que saem de cena rumo ao longínquo horizonte dos bastidores e concedem seus lugares aos objetos que mimetizam. A temperatura morna da pressão parecia se materializar, e já podia senti-la contra a minha carne, que a acolhia com a hospitalidade com que a relva recebe o sono do animal. Sombras restavam no lugar das imagens que me passavam em frente, e flutuavam no predomínio da escuridão dos olhos fechados. A cada momento, que se prolongava ao infinito, a coerência do que antes eu tão bem compreendera se desvanecia e dava lugar à confusão mental tão lenta, tão atordoada...
O novo som se distinguiu, impondo-se com valentia persistente em meus ouvidos: era o som da quietude. Um rumor ao fundo, um ruído pausado ao lado, um apito agudo esporádico. A pressão morna se solidificava... e se movia. Quando me dei conta, tudo já havia desaparecido: os sons antigos, as imagens fracas. Só restaram os intrusos que meus sentidos haviam passado a captar.
Num disparo contrastante com a anterior lentidão, minha presença se encontrou com meu corpo, adentrou-o. A quietude da manhã entrecortada pelos pios do filhote de joão-de-barro combinava com o baixo e constante rufar do ventilador. Ao lado, a respiração pausada tão melodiosa se interrompeu com um suspiro descansado e acompanhou o carinho da mão que afagava minhas costas. Abri um buraco na escuridão com o olhar, que a atmosfera e a luz não hesitaram em ofuscar. Senti um toque prolongado no que apenas segundos mais tarde descobri ser minha mão direita.
Foi um quase ronronar que me apresentou ao novo dia. Mas que belo despertar.
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Fonte: http://lounge.obviousmag.org/. Título original: 'Num Conto sem Nome uma Viagem ao Surrealismo'. 



  

A falsa ciência diante do impeachment, os sócios do golpe e os 'idiotas da objetividade'

Por Aldo Fornazieri
(Escola de Sociologia e Política de São Paulo)

Desencadeado o impeachment por Eduardo Cunha, um exército de analistas políticos e jurídicos se pôs a campo para tentar desvincular as motivações do presidente da Câmara dos processos e procedimentos que a tramitação terá nos próximos meses. Cavaleiros da falsa ciência, esses analistas, ou são idiotas da objetividade, o que é improvável, ou são manipuladores  paratucanos que, em nome de uma suposta neutralidade, têm a tarefa de construir uma aparência de legitimidade do futuro governo peemedebista-tucano se o golpe triunfar. Esses analistas querem esconder que as interpretações que veiculam ou vendem também são ingredientes da luta política que está em curso. As suas opiniões não são neutras, assim como não [se] pode desvincular o impeachment dos sentimentos, dos desejos, das intenções, das ambições e dos interesses de Eduardo Cunha, do PSDB e de setores do PMDB.
O momento não é para omissões, pois o impeachment, tal como está posto, é um golpe e a defesa da democracia não comporta neutralidades. O impeachment carece de um fundamento jurídico e desta forma, esse instrumento constitucional, que deveria servir apenas para superar crises derivadas de crimes de responsabilidade do mandatário supremo da nação, está sendo degradado à condição de mero instrumento de luta pelo poder. Abre-se um precedente perigoso para o futuro da democracia, pois qualquer oposição pode lançar mão desse instrumento para instruir lutas políticas menores.
Presidencialismo não é parlamentarismo. Em que pese todos os erros do governo e de Dilma, o fato é que ela tem o respaldo das urnas. As avaliações positivas e negativas da opinião pública e a maior ou menor capacidade de governar são ingredientes que variam segundo as circunstâncias e as conjunturas. E se não há ato doloso de Dilma ninguém tem o direito legítimo e constitucional de tirá-la do cargo.
Cunha foi movido por um ato de vingança e por uma chantagem consumada. Mas a principal responsabilidade pelo golpe político posto em movimento por ele deve ser debitada ao PSDB que, inconformado com o resultado do ato soberano das urnas, não aceita a derrota e vem mantendo a espada de Dâmocles  sobre o pescoço de Dilma desde o início do segundo mandato. Se é verdade que a atual crise tem falhas do governo como causas, é inequívoco que ela foi artificializada e agravada pela ameaça permanente de abertura do processo de impeachment alimentada por Cunha e pelo PSDB. Essa ameaça foi a fonte de todas as incertezas e essas incertezas espalharam as chamas da crise e bloquearam a viabilidade do governo e possíveis soluções para a crise econômica.
Não há como a historiografia não registrar essa conduta golpista de Cunha e do PSDB. A biografia de muitos ilustres líderes tucanos começou a ser reescrita desde a semana passada, na medida em que passaram de uma posição contra o impeachment a uma posição a favor do golpe. Começaram a se desfazer do lustre democrático que ostentavam para assumir a desfaçatez do oportunismo político. Como se diz, “a ocasião faz o ladrão”.
O PSDB não pode ser isentado também da atitude anti-povo e contra o Brasil que vem adotando. Sim, porque essa crise política artificial, que agrava a crise econômica, joga suas consequências negativas maiores sobre os ombros do povo, gerando desemprego e outros males, assim como prejudica a economia brasileira como um todo.
Os ilustres tucanos passaram a apoiar o golpe em nome da ideia de que o “mercado não quer mais a Dilma”. Mas quem é o mercado? Os Andrés Esteves da vida? O BTG Pactual? O Marcelo Odebrecht? A Tim, que derruba as ligações dos clientes para que estes tenham que ligar novamente? As empresas sonegadoras investigadas pela operação Zelotes? Os bancos que extorquem seus clientes? A Samarco? As empresas estrangeiras que não pagam impostos sobre remessas de lucros? A elite brasileira que recebe isenções, incentivos e benefícios fazendo com que a carga tributária recaia de forma violenta sobre os mais pobres? As empresas subsidiadas pelo BNDES? São os especuladores que ganham dinheiro com a crise? Terá o mercado o monopólio da soberania popular? Francamente, o Brasil do próximo período terá que ser o país da radicalização do conflito social, pois a hipocrisia é despudorada, a enganação tornou-se a regra do jogo e o sacrifício dos mais pobres chegou aos limites da suportabilidade.

Michel Temer aderiu ao Golpe?
De fato, o silêncio de Temer sobre o impeachment é ensurdecedor. Emite sons e alaridos dos desejos da ambição. Emergirá da figura polida do vice-presidente a fisionomia de Joaquim Silvério dos Reis? A imprensa dá conta de que ele foi afiar os punhais nas pedras de amolar de Aécio Neves, de José Serra e de outras figuras que querem chegar ao poder por atalhos antidemocráticos.
Os idiotas da objetividade e os manipuladores de opinião vendem a ideia de que Temer organizará um “governo de união nacional”. Será um governo de união nacional um governo que nasce da conjura de corruptos, de inconformados, de ambiciosos, de vingativos e de irresponsáveis?
Um possível governo Temer, tudo indica, será de instabilidade provavelmente maior do que um governo de continuidade de Dilma. Pesará sobre ele a acusação de ilegitimidade. Com o agravamento da crise econômica e do desemprego, os movimentos sociais afluirão às ruas. O PT e Lula passarão para a oposição visando um resgate de sua desgraça. Sendo o PMDB um ator competitivo em 2018, o PSDB guardará uma distância regulamentar e passará para uma oposição mais acirrada se a crise se agravar. Um governo Temer não conseguirá escapar também das injunções das investigações da Lava Jato.
Os idiotas da objetividade e os manipuladores de opinião acreditam que o programa peemedebista “Uma Ponte para o Futuro” será a salvação da lavoura. No Brasil a insensatez e a esperteza políticas difundem a ideia de que programas feitos em gabinetes de especialistas possam valer alguma coisa. Se valessem, a solução dos problemas brasileiros seria fácil. Nenhum programa será eficaz se não tiver enraizamento social, se não tiver fundamento nas forças vivas e reais da economia, da sociedade, dos movimentos populares, da intelectualidade, das universidades, das entidades da sociedade civil.
Por onde quer que se olhe, a crise, agravada pelo processo de impeachment, não terá uma solução fácil e nem tranquila. Esse processo, tal como foi posto, precisa resvalar para as ruas e reclama o protagonismo da sociedade civil e dos movimentos sociais. Caso contrário, se o golpe triunfar, a onda conservadora agredirá as conquistas sociais e o peso do ajuste será jogado de forma mais virulenta sobre os ombros dos trabalhadores. Para além disso, é preciso lutar contra esse processo de ruptura democrática. Usar atalhos não fundados na soberania popular para chegar ao poder é inaceitável. Usar o impeachment porque ele está inscrito na Constituição para tirar a presidente Dilma não lhe garante a legitimidade e nem a justiça. Usar uma lei para punir um inocente, além de ser um ato injusto, é um ato criminoso.
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Fonte: http://jornalggn.com.br/. Título original: 'PSDB, o Sócio de Eduardo Cunha no Golpe'. 


domingo, 6 de dezembro de 2015

O futuro vivido agora


Le Monde des Images, de René Magritte

by Leont Etiel 
The afternoon crawls slowly
It’s just Sunday
Shadows at twilight
Flying memories

The afternoon crawls slowly
The night is coming
Hidden words
Within ourselves

Is tomorrow coming?
Surrealist doubt
We don’t see the future
We just imagine and live it now

Debate 'Quebrando o Tabu - Sobre Criminalização e Descriminalização das Drogas'


Capa do dvd do documentário 'Quebrando o Tabu',
com Dráuzio Varella, Fernando H. Cardoso e outros

Dos assuntos que, no presente ano, marcaram o debate brasileiro,  e continuam pendentes, um deles é a descriminalização ou não do uso de drogas, designadamente da maconha. A matéria se encontra em análise pelo Supremo Tribunal Federal (STF), mas a conclusão do julgamento foi suspensa por um pedido de vistas do ministro Teori Zavascki, por ele sentir necessidade de ter mais tempo para estudar o tema. Do lado da defesa da descriminalização, estão, por exemplo, ex-ministros da justiça (de diferentes governos),  que chegaram mesmo a fazer um apelo ao STF em favor dessa tese, e que foi acolhido pelos magistrados que já manifestaram o seu voto – Gilmar Mendes, Edson Fachin e Luís Roberto Barroso. Estes dois últimos, contudo, circunscreveram a descriminalização à maconha. O ministro Barroso fundamentou o seu voto assinalando que não cabe ao Estado imiscuir-se na vida privada das pessoas (dizendo o que elas devem fazer ou não, o que podem usar ou não)  e que cabe ao governo combater o tráfico e procurar desestimular o consumo (tal como ocorre com as bebidas alcoólicas), sendo necessário ainda diferenciar usuário e traficante.  Do lado oposto, o Procurador Geral da República posicionou-se contrário à descriminalização, fazendo menção à complexidade do assunto, e questionando a descriminalização generalizada, assim como também se equacionaria a questão da aquisição e quais seriam os critérios de porte para se considerar alguém apenas consumidor. O tema é polêmico. No entanto, o que parece certo é que o procedimento geral adotado, até agora, para lidar com as drogas, assente no mero proibicionismo e na repressão, fracassou. E trata-se de um fracasso decorrente da matriz que lhe inspirou,  isto é, a chamada política de ‘guerra às drogas’ comandada pelos Estados Unidos há mais de quarenta anos. Trata-se, realmente, de um assunto complexo e com fortes reflexos sobre a educação, o cotidiano escolar, a atividade docente, etc. Portanto, cabe observar as experiências de como outros países estão a lidar com a questão e debatê-la, debatê-la muito. Neste sentido, ocorrerá no próximo dia 15/12/2015, no CCAE-UFPB, no auditório da unidade de Mamanguape,  o debate ‘Quebrando o Tabu – Sobre Criminalização e Descriminalização das Drogas’.  Serão expositores: Israel Castro (Coletivo Antiproibicionista); Melânia Cornélio (Professora - DED/CCAE/UFPB); e Manoel Nery Neto (Projeto Cristolândia). A atividade é promovida pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Sociedade e Culturas (GEPEDUSC)/CNPq  e pelo Projeto Escola, Estudantes e Drogas Ilícitas/CNPq.  Após o debate, será apresentada a publicação ‘‘Drogas, Saúde Coletiva e Educação: Conhecimentos para a Ação Formativa’ (Editora Ideia) - Trabalho coletivo de membros do GEPEDUSC.



Vertigens em doses: entre contar e descontar uma história




Por Ricardo Gessner 

A sobriedade é lugar comum e seguro para que a consciência dê os seus passos lógicos. Tudo vai bem quando o olho vê, os ouvidos escutam, o nariz cheira, a boca degusta, o tato sente e o cérebro compreende. Contra isso, há uma indicação: Vertigens, de Wilson Alves-Bezerra, lançado pela Iluminuras em 2015.
Trata-se de 29 cápsulas de poemas em prosa, cuja posologia abarca uma linguagem que desfaz a percepção consciente e nos coloca noutras possibilidades de perceber e viver. Não há receita para ingestão das cápsulas: podem ser tomadas a qualquer hora, em qualquer sequência, com água, leite, uísque ou conhaque: “Um deus eunuco ronda as tocas, mas tatu preguiçoso quer chegar ao inferno é pelos atalhos. Quero esquecer Constância, e quando a louca se deita esparrama pelo céu seus pedágios...”. É uma escrita febril, nada vai bem: o olho grita, os ouvidos espirram, o nariz ferve, a boca delira, o tato explode e o cérebro ri-se.
Arrisco dizer que é uma escrita de “subvertigem”, pois subverte, como se disse, qualquer percepção consciente da realidade, o que se constitui numa linguagem solta, de vertigem; ou nos termos de Cláudio Willer, no prefácio: uma escrita “radicalmente do avesso”, semelhante ao delírio” – em que se confundem sentidos: “O oximoro dos seus seios vejo da fresta do meu olho esquerdo, enquanto passa a página. Em qualquer capítulo tateei as páginas para lhe saber as carnes”, e/ou confundem-se línguas e brotam novas palavras: “Il est trés lelés de la cuca, et en le parcours de la cucaracha de la tête a la baguete, il vois tout les chacrettes dans la rue, solitaire comme l aluna, chocolatt, latt y me morde pas”. Em última instância, a escrita adquire autonomia em relação à realidade, atingindo seus limites: ao articular outros meios de percepção, revela os limites da própria realidade. Mais do que isso, sua falta de sentido.
“Vertigens” não é um livro que conta uma história; é uma história que desconta. O leitor torna-se personagem, englobado em cada cena, ébrio, percorrendo despropositadamente uma cidade que conhece como a palma da mão, mas lida pela primeira vez. Um andante que experimenta cada paisagem na imersão dos sentidos aflorados e desconfigurados, ao mesmo tempo em que é experimentado pela paisagem que se manifesta pela própria vontade.
É possível visualizar a leitura de alguns poemas de Vertigens, feitas pelo próprio Wilson Alves-Bezerra em seu canal no site Youtube. Para acessá-lo, o link é: 
Além de “Vertigens”, Wilson também publicou “Histórias zoófilas e outras atrocidades” (Contos, EUFSCar/Oitava Rima, 2013), é resenhista em jornais como O Globo, Zero Hora, O Estado de São Paulo. Traduziu Horácio Quiroga (Contos de amor e de loucura e de morte; Contos da Selva; Cartas de um caçador,) e Luis Gusmán (Pele e osso; Os outros). É professor do Departamento de Letras, UFSCar, tendo publicado os estudos Reverberações da Fronteira em Horácio Quiroga; e Da clínica do desejo a sua escrita.
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Fonte: http://lounge.obviousmag.org/