sábado, 5 de dezembro de 2015

'Laços das bocas ressuscitadas'


"O leitor de mimodramas assalta-se intensamente na lucidez das profligações, na radicalidade dos invisuais-orbitais e o sarcasmo das lâmpadas gorgolejantes deforma-o, liberta-o, extravasa-o para o encetamento tracejado dos paradigmas enciclopédicos onde os anéis electrizados do théatron se dilaceram sobre as obstruções dos animais-inscritos em planos-móbiles_____os laços das bocas ressuscitadas armadilham as tonalidades antropofágicas das suspeitas etimológicas ao tentarem decifrar obsessivamente a fetichização-mímica, fazendo fendas de prolusões minerais, de cores transitórias urdidas pela retardação dos alheamentos dos gestos( a página em branco incinera-se a si própria, ambalsamando a sublevação seminal da palavra!)."

(Luís Serguilha, in Kalahari, 2013) 

O 'capitão do golpe', a farsa e as contrariedades

Alguns amigos que bastante estimo dizem-se contrariados com a avaliação que fiz sobre a desastrosa política de alianças do lulismo, que trouxe para o centro da cena política nacional figuras como Eduardo Cunha e premiou o oportunismo do PMDB, ao mesmo tempo que conduziu a Esquerda brasileira a uma enrascada, e pela qual vai pagar caro, muito caro. São os fatos, amigos, são os fatos. Ou será que ainda não perceberam que o Vice-Presidente da República, Michel Temer, está, ele próprio, conspirando para derrubar a Presidente Dilma. Pois é, ele, que teria dificuldades de se reeleger deputado federal por São Paulo, foi conduzido à Vice-Presidência da República (por duas vezes) pela arca do lulismo. Agora articula para tomar a cadeira da Presidente, alimentado os movimentos em favor do impeachment. O ex-ministro e ex-governador do Ceará Ciro Gomes, que é crítico ao governo, além de ter um estilo que lhe é bem característico (de, como se diz muito no Nordeste, 'não levar desaforo para casa') está enxergando mais. Em entrevista à jornalista Mariana Godoy, chamou 'os bois pelos nomes' e disse que o Vice-Presidente Michel Temer é 'o capitão do golpe'. Confiram aí abaixo. 


sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

De como do coração do silêncio vem a alegria

Beethoven, por Julius Scmid


Por Jaqueson Luiz Silva

Primeiro, uma gravidade de cordas que prenunciam algo de muito profundo. Depois, como uma fala de instrumentos que imitam nossa respiração, a clarividência de uma serenidade que só pode ser alcançada descendo à mais silenciosa calma. Em sequência, cordas mais metálicas tomam o curso de um movimento, como águas correndo por entre jardins suspensos elevados a alturas extasiantes. Este não é um texto técnico sobre a música de Beethoven (1770-1827), mas tão somente uma apreciação. O que interessa aqui é a escuta, o silêncio e a alegria. Ou de como do coração do silêncio vem a alegria. Esta é uma escuta do último movimento da Nona Sinfonia.
O silêncio aqui não se diz sobre a censura, a interdição, o calar-se em açodamento. O silêncio aqui é o da escuta. Escutar enquanto atenção.
Porque do ouvir, originário do ouvido, pode ser apenas o aparelho do corpo preparado para receber o som exterior. O ouvido que Beethoven fora perdendo. O quarto movimento da Nona Sinfonia é a escuta que fora ganhando do mundo e sua oferta a esse mesmo mundo de tudo que escutara em seu silêncio.
Richard Wagner (1813-1883), no ensaio Beethoven (1870), escrito na efeméride dos cem anos do nascimento do mestre, como ele o intitula, afora o tom elogioso e outras questões e interesses do discurso que não vem ao caso discutir aqui, estabelece, citando Schopenhauer (1788-1860), uma relação entre o silêncio, a vontade e a fisiologia do sonho. Com isso, o também compositor, empreende uma explicação da excepcionalidade da música de Beethoven e mais precisamente do espanto que é a Nona Sinfonia, quando até então, nenhum músico havia feito com que sentíssemos tanto horror e tormento do mundo. Segundo o autor:
Quanto mais ele perdia contato com o mundo exterior, mais puro se tornava o olhar que dirigia ao seu próprio mundo. Quanto mais familiarizado se sente com as grandes reservas de sua riqueza interior, mas consciente são suas exigências em relação ao mundo exterior (p. 49-50) *.
Em outro ponto:
Mas nós conhecemos o vidente que fica cego. Tirésias, para quem o mundo da aparência se fechou, e que começa a perceber com sua visão interior o que há realmente no fundo de toda aparência. É a ele que se parece agora o músico que ensurdeceu. Quando o ruído da vida não o perturba mais, ele só ouve as harmonias do seu mundo interior, e é unicamente do fundo do seu abismo que ele ainda fala a um mundo que já não tem nada para lhe dizer (p.51).


Não apenas a música, mas a poesia escuta o silêncio das coisas, assim como o sonho. Beethoven, no seu silêncio, mergulhou no mais profundo estado físico do sonho e daí revela o espírito das coisas, o seu fenômeno, segundo Wagner. Para ele, apenas Shakespeare havia chegado em tamanha clarividência das coisas. Por isso a Ode à alegria, em versos como Teu encanto une de novo/O que o rigor separou, talvez seja a visão de Beethoven do que escutara no poema homônimo de Friedrich Schiller (1759-1805). Este movimento seria a própria visão da alegria.

A alegria que, a partir de sua etimologia latina alacritas, pode ter seu sentido desdobrado em vivacidade, ardor, atitude, ação e consciência de estar vivo e em estado permanente de criação. Também entusiasmo: ter a divindade em si mesmo. Ou seja, estar alegre é estar vivo no próprio corpo e isso apenas é possível estando no próprio corpo, escutando seu abismo, em silêncio.
Talvez seja isso o que podemos saber da alegria e de como estar alegres a partir do silêncio de Beethoven. Como experiência para uma alegria, é preciso escutar o silêncio, muito mais que ouvi-lo. A alegria silenciosa de Beethoven é essa meditação. Por isso é preciso ouvi-la e escutá-la sempre.




*WAGNER, Richard. Beethoven. Tradução de Theodemiro Tostes. Porto Alegre: L&PM, 1987.
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Fonte: http://obviousmag.org/

O impeachment e o teatro dos horrores: nem riso, nem lágrima

Segue aí um bom texto analítico de Carlos Melo (Insper) sobre a conjuntura brasileira e a solicitação de impeachment da presidente Dilma. Salvo algum detalhe, estou de acordo com a abordagem. Há apenas uma pequena correção a ser feita: para não ser cassada, a Presidente precisa obter o voto de 171 deputados, e não 172, conforme é assinalado no texto.  


Por Carlos Melo
(Cientista político, Professor do Insper) 

Deflagrado o processo de impeachment pelo ainda presidente da Câmara, Eduardo Cunha, uma nuvem de dúvidas e ansiedade também é liberada. Torcedores e indignados há de todos os lados; acusações mútuas também; histeria para todos os gostos. O momento é extraordinário, mas as paixões são comuns. É necessário, no entanto, manter a cabeça fria: perscrutar a natureza maior da crise, levantar as mais importantes variáveis presentes no conflito e, assim, aferir seu potencial. O propósito do analista, como diria Spinoza, não é “nem o riso, nem a lágrima; apenas o entendimento”.
Que falta a Eduardo Cunha bases morais para capitanear o processo de destituição da presidente Dilma Rousseff até os mais empedernidos defensores do impeachment são capazes de admitir. Com efeito, as denúncias que embaraçaram o deputado – e podem custar-lhe o mandato – são mais que conhecidas, assim como sua índole. Isto lhe retira a credibilidade e o coloca em suspeição – mas não lhe cassa a legalidade. Bater em Eduardo Cunha, neste momento, é mais um exercício de desqualificação do mensageiro do que um ardil eficaz para barrar o processo.
Também é verdade que, até aqui, não se viu a presidente Dilma diretamente envolvida com a corrupção que conturba o ambiente e envolve membros do seu partido. Mas é igualmente real que tudo a atinge indiretamente e a fragiliza; que seu governo está em cacos. Não seria motivo justo para o impedimento, mas a política não se faz de moral, nem de justiça. Infelizmente, não é assim que a banda toca. E, se não lhe falta a legitimidade das urnas, Dilma tem carecido, sim, de condições mínimas de governabilidade, da simpatia e da boa vontade popular. Os sucessivos fracassos que tem colecionado têm minado sua credibilidade, atingido a economia e o bem-estar social; tornado vulnerável a presidente. Não há como negar.
Será um erro analítico – e possivelmente político – afirmar que o eventual impedimento de Dilma, portanto, é obra de um homem só, Eduardo Cunha; ou localizar sua danação no indisfarçável ressentimento da oposição que, ademais, em momento algum conduziu o processo, deixando-se, antes, conduzir pela turbulência e pelas ondas de um mar ingovernável, este sim, no campo do adversário. Também um equívoco será vitimizar a presidente e o PT, dissociando-os de erros e das circunstâncias mais gerais. A política quase nunca se move por motivos e explicações simples; como um acidente aéreo, o avião nunca cai por um único e isolado defeito.
Nada disso constitui novidade e é até mesmo óbvio; não valeria os bits deste teclado. O que, de fato, nos trouxe até aqui foi um conjunto de esgotamentos estruturais da política nacional associado a erros crassos cometidos pelo governo, pelo PT e pela presidente. Não convém detalhá-los neste espaço. A questão que cabe é que de nada adianta demonizar o comprometido Eduardo Cunha e empobrecer o entendimento do processo que ainda teremos pela frente. Assim como o policial, Cunha pode dizer que “quem mata é deus”, ele mesmo “só faz o furo”. As circunstâncias são muito mais soberanas.
E são as circunstâncias, e não Eduardo Cunha ou a oposição, que nos próximos meses podem definir se Dilma volta ou não mais cedo para casa. Se o processo ora detonado fosse definido hoje, é possível que a presidente o contornasse com relativa facilidade – podendo contar com 172 votos que arquivariam o processo, no plenário da Câmara. Pudesse acelerar o ritmo do processo na Comissão Especial ou ritmo das sessões seus problemas estariam, se não resolvidos, encaminhados.
Mas nada se resolverá rapidamente e o tempo, neste caso, não cura feridas. Pelo contrário, as abre, criando mais incerteza e agravando o processo por uma série de processos paralelos. A questão é o momento “xis” onde tudo se definirá, em que o impeachment efetivamente será votado. Afinal, o que podemos ter em alguns meses adiante. Eis os pontos:
1) A economia e as consequências sociais derivadas de um processo não mais de estagnação, mas de depressão econômica; 2) O manancial que brota da Operação Lava Jato, de suas mais de três dezenas de delações premiadas; 3) O papel que o procurador-geral da República e o Supremo Tribunal Federal podem desempenhar em virtude disto, levando ao convívio dos atuais réus, em Curitiba, outras dezenas de parlamentares; 4) O arrolamento de novos atores, mais ou menos próximos ao governo e ao seu partido; 5) A capacidade de o PT e seus aliados, assim como de seus adversários, mobilizar as ruas.
Tudo isto tende a pressionar o ambiente e influenciar humores e o posicionamento de 342 almas na Câmara que decidirem a peleja pela abertura do processo – ou 172 que votem pelo arquivamento.
Infelizmente para defensores ou detratores da presidente, nada disto está sob controle de quem quer que seja. O governo já demonstrou sua imensa inabilidade para dar conta de processos um tanto mais sofisticados que um simples jogo de damas; a oposição é um deserto de ideias, a elite do Congresso não merece este nome. Fica o País à mercê da dinâmica econômica, política e policial, como também da sorte e de muito oportunismo dispersos em ilhas de interesses.
Tudo se mistura e se confunde, conturba o entendimento, aumenta a angústia e aumenta a incerteza. Aprofunda a crise.
Portanto, a dinâmica política mais ampla tende, daqui para frente, a um ritmo bem peculiar, sem previsões. Não há deus, comitê central da burguesia, voluntarismo militante ou bruxos da política que possam manipular com plena certeza os cordões ou mamulengos desse teatro de horrores. Há, sim, interesses os mais diversos em conflito, o que é absolutamente natural; exércitos indispostos ao diálogo, mas armados até os dentes, carentes de generais e Estado-Maior qualificados e de boa-vontade.
Justificativas jurídicas, fatos determinados que incriminem diretamente a presidente, são agora exigidas por seus aliados. Elas existirão, virão à tona? Difícil dizer, inútil apostar. Num mundo ideal, com efeito, isto teria capital importância. No mundo concreto da política real que se tem, os interesses, a sagacidade e a força fabricam justificativas, que se tornam detalhes negligenciados pela dinâmica política. Sempre bom lembrar que, ao fim e ao cabo, Fernando Collor de Mello foi inocentando pelo Supremo , quando a Inês do seu caso já era morta. Dilma terá que cuidar para que a Inês de sua defesa não morra antes da hora de seu salvamento.
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Fonte: http://politica.estadao.com.br/blogs/carlos-melo/apenas-o-entendimento/. Título original: 'Apenas o entendimento'. 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Em tempos turvos, saber navegar


Estas sentenças tais o velho honrado 
Vociferando estava, quando abrimos
As asas ao sereno e sossegado
Vento, e do porto amado nos partimos.
E, como é já no mar costume usado,
A vela desfraldando, o céu ferimos,
Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
Nos troncos fez o usado movimento.

Entrava neste tempo o eterno lume
No animal Nemeio truculento,
E o mundo, que com tempo se consume,
Na sexta idade andava enfermo e lento:
Nela vê, como tinha por costume,
Cursos do sol quatorze vezes cento,
Com mais noventa e sete, em que corria,
Quando no mar a armada se estendia.

Já a vista pouco e pouco se desterra
Daqueles pátrios montes que ficavam;
Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
Ficava-nos também na amada terra
O coração, que as mágoas lá deixavam;
E já depois que toda se escondeu,
Não vimos mais enfim que mar e céu.

Em alto mar "Assim fomos abrindo aqueles mares, 
Que geração alguma não abriu, 
As novas ilhas vendo e os novos ares, 
Que o generoso Henrique descobriu; 
De Mauritânia os montes e lugares, 
Terra que Anteu num tempo possuiu, 
Deixando à mão esquerda; que à direita 
Não há certeza doutra, mas suspeita.

(Camões, Os Lusíadas, Quinto Canto - Parte de Belém a Expedição de Vasco da Gama) 

Manifestação do vício: a hipocrisia; sobre a solicitação de impeachment da presidente Dilma

Escrevi aqui, no princípio do ano, quase na imediata comemoração pós-posse da presidente Dilma para o segundo mandato, que seria apropriado os petistas colocarem 'as barbas de molho', porque assistiríamos no país a uma espécie de busca por um terceiro turno da eleição presidencial (uma terceira volta, em português d'além mar), que poderia culminar na solicitação de impeachment. Recebi uma enxurrada de mensagens (algumas inclusive de amigos dos 'velhos tempos') manifestando contrariedade com a análise, e até mesmo (nas entrelinhas) sugerindo-se que era uma abordagem resultante de juízo de valor. Na medida  em que os meses foram passando, foi-se vendo que não, e ontem, com a decisão do presidente da Câmara dos Deputados de acolher o pedido de impeachment, ficou, por fim, demonstrado, amigos, que a análise era, sim, resultado de um análise factual. No início da semana, em comentário a um artigo do Prof. Aldo Fornazieri, abonando-o, também disse aqui que a situação era grave, e que havia um risco de colapso institucional no país, com consequências imprevisíveis, podendo resultar no descumprimento de despesas públicas e em enfrentamentos de rua. O caos. Pois bem, com a decisão de abertura do impeachment, há quem diga que estamos a adentrar neste cenário. É o que faz, com um certo tom de alarmismo, convenhamos, o 'calejado' jornalista Josias de Souza, ao dizer que 'o caos já começou' (aqui http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/2015/12/02/quando-comeca-o-caos-atencao-ja-comecou/). Dê-se um certo desconto a isso, afinal é na frieza da análise, no devido movimento entre a instância lógica e a instância empírica, que o enfoque da análise social se distingue da pura abordagem jornalística. O analista social não deve andar em busca de popularidade fácil (isto fica para os populistas),  procurando vender notícia ou agradar esta ou aquela linha editorial. Por agora, o que se disser sobre os desdobramentos da solicitação de impeachment da presidente Dilma deve ser inscrito sob o registro do provisório. De qualquer forma, para já, pode-se afirmar o seguinte:

1) É indisfarçável que a abertura do processo de impeachment é resultado de uma chantagem do presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha,  por não obter o apoio de deputados do partido da presidente no conselho de ética da instituição, que analisa a continuidade da solicitação de cassação do mandato do deputado, por quebra decoro parlamentar e o seu notório envolvimento com corrupção.

2) A presidente é uma mulher digna, com biografia ilibada, contra a qual não há nada nesses casos de corrupção, vindos a lume até agora, que desabone a sua honestidade pessoal.

3) Em tais circunstâncias, juntando-se estas duas variáveis, é claramente perceptível que, se o impeachment prosperar, trata-se de um golpe e de uma histórica injustiça política contra a presidente Dilma Rousseff. Ter-se-á um homem enlameado na corrupção, investigado pela justiça brasileira e denunciado por autoridades suíças, conduzindo a deposição de uma presidente pessoalmente digna e honesta.

4) Dessa situação toda, para quem “não desiste de pensar”,  há ilações a tirar. Uma delas é que não chegamos a este estado de coisas por acaso. Ele é resultado, em grande parte, do modus operandi do ‘pacto lulista’ (ou do lulismo, como diz André Singer), que durante cerca de  uma década foi uma espécie de grande guarda-chuva, juntando descriteriosamente todo os tipos de interesse, sob o “azeitamento”, não poucas vezes, do espumado de palavras populistas.  Foi nessa atmosfera que os graúdos hoje presos em Curitiba e o ‘correntista suíço’ Eduardo Cunha botaram as garras na Petrobras.  Esta é uma obra do pacto conservador amalgamado com os laivos da esquerda populista, sob o guarda-chuva do lulismo. O pacto que brandia uma imensa frente de partidos (de direita, de esquerda, de centro, do que se imaginar...) e a existência de uma base parlamentar de quase 400 deputados (num universo de 513). E, no entanto, o segundo governo Dilma só fez acumular derrotas no parlamento, mesmo fazendo concessões e distribuindo cargos. Resta saber, agora, se a presidente obtém pelo menos 171 votos para não ser deposta. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Escrever - o eu, o nós.

"Escrever é desaparecer na morfina dos hemisférios dos ofícios sem esperar retorno, sem esperar os rebocos das fendas baptismais, transplantando gritos da tremenda lucidez sob locomotivas acesas de pensamento____hospícios irrefreáveis aglutinam-se e se espalham simultaneamente, anonimamente para tentarem dilacerar o possível poema: dar vida adentro dos travessamentos da morte (carcaças enfeitiçadas, expiadas e aguilhoadas entre os baques das transumâncias e os arados a-sígnicos dos engolfamentos inconscientes): revelar-se nos hiatos-zoológicos de si próprio antes de se abrir aos brônquios portuários-ocasionais da semanturgia e prosseguir rés aos ecos dos escorpiões do mundo, à memória aquática gangrenada pela lactescência cosmogónica_____mímica estética acompanha as tentativas das descodificações-uivantes; escrever é urdir dilemas placentários incomensuráveis, é cartografar interferências geológicas, é gaguejar nas intersecções repulsadas, é desvendar impiedosamente ARABESCOS nas foices das caiadoras de cometas inalcançáveis_____acontecer soberanamente no corpo hipnótico-jazzístico das medusas que absorvem expressões-contraditórias plantadoras de migrações clandestinas e de refúgios propiciatórios de desaparecimentos onde as escalas da correnteza dos resíduos arrepanham diferenças arteriais, obeliscos labirínticos, transmutações siderúrgicas desmanteladas pelos olhares ancestrais-da-agoridade que jamais abocarão a visibilidade completa (nos rituais dos desertores hipnógenos há círculos de corvos assopradores de caligrafias obsessivas: incorporar os rumores dos insectos da gravitação de ex-critas nas embarcações de mortalhas cruzadoras de cabeças-delirantes_______escrever imperceptivelmente com os alvéolos das escavações medulares, chacoalhando as malhadeiras dos bestiários: aqui, as sanguessugas fundentes assinalam as catástrofes necessárias aos rastros das metástases da palavra em recomeço contínuo: ascendentes de enciclopédias vitícolas garatujam-se com as falanges prenhes de urtigas giratórias e nas incertezas das invaginações-silabárias os instantes do espanto serão sempre uma vigília das cartomantes!)."

(Luis Serguilha, in Embarcações, Porto: Campo das Letras, 2007)

Não perguntem por quem os sinos dobram; eles dobram por Mariana

Para uma reflexão sobre meio ambiente, 'desenvolvimento insustentável' capitalista e governo. Enquanto as conferências do clima, realizadas há anos mundo a fora, não passam de faz de conta. Quando muito têm servido para turismo de evento e acadêmico. 

Lama da mineradora Samarco em Mariana (MG) se espalha pela foz do rio Doce na praia de Regência em Linhares (ES)
"Lama" da mineradora Samarco, em Mariana (MG), se espalha pela
 foz do rio Doce na praia de Regência em Linhares (ES)
(Foto: Fabio Braga, Folhapress) 

Por João Lara Mesquita 

O desastre de Mariana, possivelmente, é o pior acidente ambiental brasileiro. Além de soterrar comunidades, matando 11 pessoas, e deixando 8 desaparecidos até agora, provocou a morte do rio Doce.
O Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), de Baixo Guandu (ES), analisou a água do rio e encontrou metais pesados: chumbo, alumínio, ferro, bário, cobre, boro e mercúrio.
"O rio está morto, o cenário é o pior possível", disse Luciano Magalhães, diretor do Saae. Morte anunciada em razão de uma legislação frouxa e inexistência de fiscalização.
Além da Samarco, propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, o governo federal também deveria ser punido; afinal, a responsabilidade é dele.
O Código de Mineração, no capítulo 2º, artigo 21º, inciso 24, estabelece que "compete à União organizar, manter e executar a inspeção do trabalho".
Já o capítulo 1º, artigo 174, é claro: "Como agente normativo e regulador da atividade econômica, o Estado exercerá, na forma da lei, as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, sendo este determinante para o setor público e indicativo para o setor privado".
Infelizmente, como denuncio em meu trabalho, a ausência de fiscalização é unânime em todas as comunidades nativas do litoral.
A Folha noticiou, em junho passado, que o principal órgão de controle ambiental do governo federal, o Ibama, tem apenas três barcos em atividade para fiscalizar os mais de 7.300 km do litoral brasileiro.
Em entrevista para o site "Mar sem Fim" (www.marsemfim.com.br), Maria Tereza Jorge Pádua, um dos ícones do ambientalismo brasileiro, sentenciou: "o meio ambiente nunca foi prioridade no Brasil".
Alguém duvida?
Fui aos sites. Descobri que a "missão" da Vale é "transformar recursos naturais em prosperidade e desenvolvimento sustentável". Desconfio de quem se diz "verde", "sustentável", "eco isso ou aquilo". Cansei de ver a destruição do litoral por empresas que abusam do jargão.
De toda forma, continuei a leitura. A Vale lista no site seis valores que norteiam a atuação da empresa. O primeiro e o terceiro foram duros de engolir. Respectivamente, "a vida em primeiro lugar" e "cuidar de nosso planeta". Argh!
O pior estava por vir. Vasculhando sobre a BHP, a casa caiu. O governo federal foi tão omisso que não se preocupou com o histórico de acidentes da empresa.
A BHP Billiton, ao contrário de Midas, tem dedo podre. Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold Mine, em 1984.
Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000 quilômetros quadrados de floresta. E detonou dois rios, o Fly e o Ok Tedi.
Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes comunitários, que isentaram a empresa do pagamento de indenizações.
ONGs informaram que "ao conversarem com os nativos, ficou claro que eles não sabiam o que estavam assinando". O histórico da BHP gerou um relatório alternativo, "BHP Billiton Dirty Energy", informando sobre a destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália.
Já o "Mining Journal" cita outros, como o da mina de cobre em Pinto Valley, Arizona (EUA).
Só o Brasil oficial não sabia?
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Fonte: Folha de São Paulo, versão para assinantes, edição do dia 02/12/2015. Título original: 'Só o Brasil oficial não sabia?'


Viajantes no tempo

Conta uma narrativa do Oriente que um jovem chegou a um oásis, próximo de um povoado, e aproximando-se de um velho sábio, perguntou-lhe:
– Que tipo de pessoas vive neste lugar?
– Que tipo de pessoas vive no lugar de onde vens? – Perguntou o sábio.
– É um grupo de pessoas egoístas e malvadas, replicou o rapaz, estou satisfeito de ter saído de lá.
O sábio respondeu.
– Aqui encontrarás o mesmo.
No mesmo dia, um outro jovem aproximou-se do oásis para beber água e, vendo o sábio, perguntou-lhe:
– Que tipo de pessoas vive aqui?
O sábio respondeu com a mesma pergunta:
– Que tipo de pessoas vive no lugar de onde vens?
O rapaz respondeu-lhe:
– É um magnífico grupo de pessoas amigas, honestas e hospitaleiras. Fiquei um pouco triste por ter de deixá-las.
– O mesmo encontrarás aqui, respondeu o sábio.
Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao sábio:
– Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?
O sábio respondeu-lhe:
– Cada um carrega no seu coração o meio em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também encontrará aqui. Somos todos viajantes no tempo, e o futuro de cada um está escrito no passado; ou seja, cada um encontra na vida exatamente aquilo que traz dentro de si mesmo.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Alçar a palavra

"A reassunção da língua sem rostos-massílios enrola-se na vetustez dos ergástulos, fendilhando as emboscadas da página mântrica: nestas golpeaduras desconexas, as longitudes lunares embutidas nos crematórios instantâneos reconhecem criativamente tudo que reemerge entre os estertores das vértebras venesianas para reencetar a visão-da-visão-do-restauro-sacro-ilíaco e da espera-afã prematura: alçar a palavra no inatingível heteromórfico, sendo o olifante-poema o próprio fora entecortado por si mesmo, pela sua repulsão defronte às espáduas esfalfadas sem perspectiva justamarcial: apenas são sugeridos vestígios confessionais de Bosch nos açodamentos das ínfulas debruçadas diante das antecâmaras das latências suicidas: um GRITO nos bastidores da luxúria das escarpas animalizantes arranca as águas das trincheiras passeriformes às leitoras, avisando-as dos prefixos indicativos dos falsários: aqui, a troca de olhares-de-incensórios fabrica a revelação lúbrica dentro da fome canina de uma prece inacabável com invisibilidades-insubmissas às prescrições dos halos cerebrais."
(Luis Serguilha, in Khamsin-Morteratsch, São Paulo: Editora Arte-Livros, 2011).