Um dos principais atores e diretores da atualidade, o argentino Ricardo Darín é de fato alguém com conteúdo e perspectiva de vida/mundo. A esse respeito, a todos os títulos, uma entrevista sua pode ser vista aqui: http://canalbrasil.globo.com/programas/sangue-latino/videos/3928201.html. Utopias, amor, destino, solidão, o que fica da vida, entre outros temas, são abordados por ele de um modo que, nem de longe, determinados "acadêmicos" estão aptos a fazê-lo.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2015
Uma "cantata diferente"
'Cantata', expressão italiana para o tipo de composição vocal com acompanhamento instrumental, descrevendo o lírico, uma situação existencial, um sentimento, um fato dramático, etc. Bom, essa aí abaixo de Nick Cave (There is a Kingdom), em si, não é uma cantata. Mas se aproxima. É então uma "cantata diferente".
sábado, 14 de fevereiro de 2015
Nick Cave: para a existência, o cinzento e melancólico na música
Aí abaixo, passagens de uma reportagem sobre Nick Cave, publicada no diário lusitano Jornal de Notícias. O tom cinzento e melancólico abrigado na música, para revelar a existência. Antes, representativo disso, um vídeo com 'Are you the one that I've been waiting for?', com ele possivelmente na melhor performance na vocalização desta.
Por Cristiano Pereira
Há muito que Nick Cave se afirmou como um dos mais credíveis
artistas da música das últimas três décadas e meia. O homem atingiu um estatuto
que poucos ousam subestimar. São quase 40 anos de uma carreira de cantor,
compositor, romancista, argumentista e poeta.
O seu percurso com os Bad Seeds, iniciado no final de 1983, é
o mais relevante e visível do grande público, mas Cave começou bem antes. Em
meados da década de 70, era um jovem vagamente problemático dos subúrbios de
Melbourne, na Austrália, e decidiu formar os Boys Next Door. Temperada com uma
certa demência punk, a banda acabou, anos mais tarde, por dar origem aos
Birthday Party, um cocktail explosivo enriquecido por referências de blues
retorcido e quase primitivo. Chegaram a criar culto em Inglaterra, mas desatinos
de vária ordem levariam ao colapso da formação, em 1983.
Cave não largou o seu companheiro de longa data - Mick Harvey
- e recrutou Blixa Bargeld, um músico alemão que tripulava os Einstürzende
Neubauten, uma das bandas mais ousadas da época. Juntos, fundaram a banda que
veio mudar tudo: os Bad Seeds. Não eram tempos fáceis para o australiano. Usava
drogas pesadas. De temperamento tumultuoso, assombrado por fantasmas interiores
de vária ordem, Nick Cave vivia em quartos emprestados e mal tinha dinheiro
para comer.
Tal desasossego acabou por revelar-se extremamente inspirador
e criativo - e até ao final da década de 80, quase sempre entre Berlim e
Londres. Nick Cave & The Bad Seeds gravaram qualquer coisa como cinco
álbuns a roçar o genial.
O primeiro foi "From her to eternity", uma porrada
sonora deliciosa de rock sombrio enriquecido por um experimentalismo visceral.
O cineasta alemão Wim Wenders viria a captar a própria banda para o seu filme
"As asas do desejo", naquela que foi apenas uma de várias aparições
de Cave na grande tela.
Pouco antes da viragem da década, Cave viveu algo que
acabaria por torná-lo mais manso na sua faceta auto-destrutiva. Durante uma
digressão que o levou ao Brasil, apaixonou-se por uma moça do público: a
brasileira Viviane Carneiro. Acabou por casar com ela e até tiveram um filho.
Nick Cave viveu uma temporada em São Paulo, aprendeu uma ou outra palavra de
português, aparentemente livrou-se das drogas. Acalmou-se. E tudo isso foi
evidente no disco seguinte. "The Good Son", de 1990, abandonava a
tensão dos álbuns anteriores e revelava um Nick Cave mais relaxado, luminoso,
tocado pela redenção. Nem todos os fãs acharam gostaram.
O músico é daqueles que funcionam bem com energia negativa. E
foi assim que gravou um dos seus discos mais singulares e que ainda hoje divide
as opiniões dos fãs. Uns amam; outros acham uma seca. O disco é "The
Boatman's call" e distanciou-se de todos os outros pelo som depurado,
despido, quase minimal, movido quase apenas a piano e voz.
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Fonte: http://www.jn.pt/blogs/festivaisdeverao/archive/2013/02/15/nick-cave-uma-semente-a-germinar-h-225-35-anos.aspx
A sabedoria do silêncio
Existe no silêncio uma tão profunda sabedoria que, às vezes, ele se
transforma na mais perfeita resposta (Fernando Pessoa)
Por Israel Mazzacorati*
Não conseguimos mais viver sem barulho!
Às vezes, somos obrigados a ouvir o barulho dos
outros. É o caso incômodo de uma festa na casa do vizinho que não nos deixa
dormir. O som alto, a falação, as risadas, os gritos... tudo contribui para uma
noite de estresse profundo. Há também os barulhos do dia a dia: buzinas,
veículos e conversas alheias, que se somam aos barulhos que procuramos, tais
como a TV, música e internet. Estamos o tempo todo conversando e processando
informações, mesmo quando estamos sozinhos e achamos que estamos em silêncio.
O silêncio perdeu sua importância no mundo agitado,
apressado e barulhento em que vivemos. Seria a morte do silêncio um sinal de
progresso humano? Creio que não. O silêncio tem o poder de dizer coisas que não
podem ser expressadas num discurso. William Barclay nos dá alguns exemplos:
“Temos o silêncio de admiração, quando não se encontram palavras
para dizer. Temos o silêncio de desprezo, quando ao invés de
responder o protesto de alguém, o ouvinte o deixa desdenhosamente sem resposta.
Temos o silêncio do medo, quando o temor interior, a covardia da
alma impede o ouvinte de responder aquilo que ele sabe que deveria dizer. Temos
o silêncio do coração dolorido, quando uma pessoa é duramente
ofendida e ferida e não fica querendo protestar e rejeitar as palavras ditas
contra si, mas silenciosamente sente a sua dor. E, temos o silêncio da
tragédia, quando não há nada o que dizer diante das deslavadas mentiras,
das incompreensíveis acusações e da antevisão de um final terrível.”
Esses exemplos mostram como o silêncio tem o seu
lugar nas relações humanas. No entanto, será que o silêncio tem uma dimensão
mais profunda? Para algumas religiões do passado, os brâmanes, por exemplo, o
ápice da manifestação da divindade se dava através do silêncio, quando as
pessoas se conscientizavam do vazio do discurso. Tradições cristãs também
cultivaram a prática do silêncio como uma valiosa disciplina espiritual,
através da qual nos silenciamos para ouvir Deus falar. Em nossos dias, quando
conscientes do valor do silêncio, tentamos colocá-lo em prática. Quase que como
uma chave automática, a nossa mente é tomada por um turbilhão de pensamentos,
dentre os quais há aquele que tenta nos convencer de que ficar em silêncio é
perda de tempo.
É por isso que o silêncio é uma disciplina
espiritual, pois requer esforço e persistência. Não conseguimos desfrutar dos
benefícios do silêncio nas primeiras tentativas, mas com o tempo vamos colhendo
seus frutos. Aos poucos, vamos aprendendo o valor de cada palavra pronunciada,
e, com isso, nos tornamos mais “econômicos” ao falar. Ou seja, o silêncio nos
ajuda a compreender que palavras podem ser apenas palavras, jogadas ao ar e sem
sentido. O silêncio nos ensina a ouvir mais e falar menos, e, ao falar, se ater
ao necessário, evitando, assim, as conversas fiadas e fofocas. O silêncio nos
ensina o respeito pelo próximo, quando ao invés de silenciar as palavras do
outro com os nossos pensamentos, aprendemos a ouvi-las com atenção.
Se você está pensando agora naqueles momentos em
que você prejudicou alguém, ou a si mesmo, por falar demais, então é hora de
começar a descobrir a sabedoria no silêncio.
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* Doutorando em Estudos Clássicos pela Universidade de Coimbra/Portugal.
Fonte: https://www.blogger.com/blogger.g?blogID=5084853060023085017#editor/target=post;postID=1120935764001075773
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015
'Idiotas acadêmicos'
Paradoxalmente, muitas vezes, eles fazem questão de se apresentar como eminentes intelectuais. Gostam de ser o centro das atenções. Precisam de palco. Como gostam de aparecer! Só mesmo a argúcia analítica e a ironia entrecortada de erudição de Slavoj Zizek para, com humor, colocá-los a descoberto. No texto aí abaixo, numa conversa com Luke Massey (em NewStatesman).
![]() |
| Conforme Zizek, idiotas acadêmicos estão por aí |
By Luke Massey
Slavoj Žižek is brimming with thought. Each idea sprays out of the controversial Slovenian philosopher and cultural theorist in a jet of words. He is like a water balloon, perforated in so many areas that its content gushes out in all directions.
The result is that, as an interviewer, trying to give direction to the tide is a joyfully hopeless enterprise. Perhaps more significantly, the same seems to be true for Žižek himself.
We meet in a room with one glass wall - an apt setting for a discussion of freedom, ideology, surveillance and ‘80s dystopias on film. Picturehouse HQ is playing host to our discussion, on the launch of Žižek’s new film The Pervert’s Guide to Ideology.
Before I even ask my first question, Slavoj is off: he tells me that I’m better than some interviewers he’s met. The fact that I’ve barely spoken yet doesn’t seem a barrier to that.
"You know, I hate it so much, when I was in Korea, I gave a couple of interviews, and they ask me 'What do you think we should do in Korea? What’s our situation here?' F*ck you! What do I know?! You know? This crazy idea…"
Žižek’s demeanor is rabidly energetic. He delivers his responses with an acerbic wit and a gloriously foul mouth, which has earned him the moniker "the Elvis of cultural theory", though something like "the Richard Pryor of radical philosophy" strikes me as more appropriate.
I haven’t seen the film yet, I tell him, though I’m going to the premiere at The Ritzy in Brixton, where he’ll be doing a Q&A. Then he drops a bomb: he hasn’t seen it either. It dawns on me: what are we both doing here? Two guys in a room discussing a film neither of us has seen.
"I’m serious," he says. "People think that this is my extravagant postmodern joke. No, I just, with all my nervous ticks and so on I hate seeing myself on screen: I cannot."
In an effort to get us back on track, I joke "well, hopefully you know what you said in it!" Another brick wall:
"No I don’t, because many things were not used, I was just improvising. I don’t in all honesty." I start thinking that this could be a long half hour.
"I mean I was just blah blah improvising there. And then, Sophie [Director - Sophie Fiennes], I mock her - she was like Leni Riefenstahl - you know after she shot Olympia, Leni Riefenstahl had some 200 hours of stuff and she spent one year just going through all of it and selecting. So, Sophie was our leftist Leni Riefenstahl."
Thankfully I know that Slavoj covers Terry Gilliam’s Brazil in The Pervert’s Guide to Ideology, and happily it’s one of my favourite films, so I push us onto that. It’s a bonding point:
Oh my god that’s the best British movie of all time. It really shows in advance how the new authoritarianism will be full of these jokes, self-irony: it will no longer be this dignified fascism, or whatever, you know? So many detailed tricks, like - I quoted it at least some ten times - it’s wonderful, you remember when they go to a restaurant and you get the photo of the meal and then some sh*tty stuff [is put out] and you look at it.
Žižek pulls a face I never thought I’d see a philosopher pull. Somewhere between throwing up and the dull-eyed facial sag of someone suffering a stroke. "This is worth a Nobel prize", he says. Another moment in this scene, where a terrorist bomb goes off in the restaurant - following which a screen is drawn up to preserve the dining experience of those unharmed is "really the work of a genius."
As an unashamed proponent of the importance of theory, Žižek has previously said that while the concept of "humanity" is fine by him, that "99 per cent of people are idiots". I ask him if The Pervert’s Guide to Ideology is in some way an attempt to communicate theory to "idiots".
"Yeah, but who are the idiots? I didn’t mean so-called poor, uneducated, ordinary people. If anything, most of the idiots that I know are academics. That’s why I don’t have any interest in communicating too much with academics."
I suggest that 99 per cent of people would probably include both. Žižek seems unfazed and moves on: "I do feel some kind of stupid responsibility, as a public intellectual, and then I ask myself, sincerely, what can I do? It would be bluffing to claim that I can give answers. As I always repeat, what we philosophers can do is just correct the questions."
So what are the questions that Žižek is trying to correct? Well the first is the way in which we conceive of ideology. It’s not some "big social, political, project" which "died in 1990" with the fall of the USSR: ideology, he says, "still well and alive - not as a big system - but precisely in [a] most self-evident, normal everyday form."
"The way we, everyday people are addressed by social authority, whatever we call it - it’s no longer telling us 'sacrifice your life' for British empire, for socialism, whatever. It’s not. It’s some kind of permissive bullsh*t basically. Society is telling us, like, be true to yourself, authentic, develop your potential, be kind to others. It’s kind of what I ironically call a slightly enlightened Buddhist hedonism."
Žižek sees the controversy over Obama-aid in the US - and the Republican-forced government shutdown - as emblematic of Obama touching "the nerve of what is false in American everyday ideology of freedom."
"What Americans don’t want to admit… is that not only is there not a contradiction between state regulation and freedom, but in order for us to actually be free in our social interactions, there must be an extremely elaborated network of health, law, institutions, moral rules and so on."
"Ideology today", says Žižek, is "unfreedom which you sincerely personally experience as freedom."
That’s why, he claims, many Americans see universal healthcare as a restriction on their freedom to choose a doctor: "well f*ck it, I feel much more free if I simply don’t have to think about that. Like with electricity. I’m very glad to renounce the freedom to choose my water or electricity suppliers: because can you imagine having to make all these choices?"
I decide to force some choices out of Žižek.
Foucalt or Chomsky? "Er, you know this classical answer 'Coffee or Tea? Yes please.'" Foucault or Chomsky? "No thanks," he says with a cackle.
Joseph Stalin or Joe Strummer? "Is there even a choice here?!" laughs Žižek. As a self-proclaimed Stalinist I say that’s really for him to tell me.
"No nono - I would put it in this way. I would love to say Stalin, because that would be expected from me, you know … he was a nightmare."
On The Clash: "I like their activity … they were engaged [politically]. So I like everything about them … except their music."
"Basically, unfortunately I must tell you, I’m a ‘68 generation conservative. I secretly think that everything really interesting in pop music, rock, happened between ‘65 and ‘75. I’m sorry!" One contemporary band he does have time for, perhaps surprisingly, is German industrial metal outfit Rammstein.
"They’re very hard - I think they’re extremely progressive. It’s totally wrong to read them as almost a proto-fascist band. My god, they explicitly supported Die Linke, the leftists there, and so on. I like their extremely subversive from within, undermining of all this - you know? Like, it gives me pleasure. Psychologically I’m a fascist - everyone knows it, no? Who published this -Daily Telegraph? That jerk who pronounced me a leftist fascist, you know? Alan Johnson or who? So - I mean - I think we should take over these - all of these - authoritarian gestures, unity, leader, sacrifice, f*ck it! Why not? No? So, Rammstein are my guys."
I never imagined these would be the closing words of our discussion.
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Fonte: http://www.newstatesman.com/ideas/2013/10/slavoj-zizek-most-idiots-i-know-are-academics
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015
Drama e afeto: 'Uma Mente Brilhante ainda emociona'
O filme já é de há tempos, mas as análises a seu respeito continuam a ocorrer. O que bem diz do que ele é. 'Uma Mente Brilhante' (baseado na história do Professor/Prêmio Nobel John Nash, no tormento que lhe acompanhou e na luta, ao lado da sua companheira, para o superar) tem atravessado os anos alimentando discussões para além da crítica cinematográfica. Aí abaixo um texto neste sentido, com o sugestivo título de 'Uma Mente Brilhante: o drama de 2002 ainda emociona', do jornalista Darlino Dídimo.
Era
março de 2002. O ano anterior havia sido especial para o cinema
norte-americano, o que podia ser visto na lista de indicados a melhor filme. De
dramas independentes (“Assassinato
em Gosford Park” e “Entre Quatro Paredes”) à melhor parte de uma
grandiosa trilogia (“O
Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel”), passando pelo mais
estupendo musical das últimas décadas (“Moulin
Rouge – Amor em Vermelho”), a qualidade era evidente em todos eles.
Tratavam-se de obras diferenciadas, arriscadas, algumas delas visionárias. Mas
venceu a fórmula. O Oscar foi concedido ao pior dos concorrentes, aquele que
simplesmente atendia às expectativas. Aquele que sabia como derramar lágrimas
em seus espectadores. Aquele drama histórico bem filmado e atuado que surge a
cada ano.
“Uma Mente Brilhante”
saiu carregando quatro estatuetas, que a cada ano perdem mais o seu valor,
enquanto seus adversários são rememorados com maior prestígio. No entanto, não
se pode ignorar os diversos acertos do filme. Ron Roward, Akiva Goldsman, Russel
Crowe e Jennifer Connelly realizaram um longa extremamente correto, que
emociona como poucos e revela com sucesso o doloroso mundo da esquizofrenia,
além de contar uma linda história de amor entre um gênio e sua dedicada esposa.
Apenas não espere ser surpreendido em termos cinematográficos.
O personagem
principal é John Nash (Crowe), um matemático introvertido, mas bastante
inteligente. Para ele, a matéria está em cada ato do seu dia-a-dia, seja ao
observar a feia gravata de um colega de classe ou ao andar de bicicleta pelo
campus da Universidade de Princeton. O desenvolvimento de uma tese de doutorado
bastante pretensiosa no ramo leva o rapaz a mergulhar ainda mais nos números, o
que coincide com o início de um transtorno mental. A doença, porém, não o impede
de conhecer, nos anos 50, Alicia (Connelly), uma bonita estudante que vê em
Nash alguém além de um péssimo professor.
A paquera vira
casamento e a moça passa a ser a principal prejudicada com a piora na saúde do
marido. Alucinações tornam-se constantes, o que levam a fortes tratamentos,
como sessões de eletrochoques e a ingestão de remédios que limitam a
genialidade do matemático. A partir de então, Nash e Alicia começam uma luta
diária para conseguirem levar adiante suas vidas profissional e pessoal. A
inexistência de cura para a esquizofrenia tornam os desafios ainda maiores para
ambos.
Baseado em biografia
homônima escrita por Sylvia Nasar, “Uma Mente Brilhante” é um filme feito para
conquistar prêmios. Trata-se de um drama real e de época, contado da forma mais
didática e linear possível, deixando apenas as primeiras décadas da vida de seu
personagem principal de fora. O que mais incomoda, porém, não é a estrutura
narrativa e sim as opções comerciais feitas pelo roteiro de Akiva Goldsman. A
escolha é exibir quase que exclusivamente o homem que é John Nash, jamais o
profissional ganhador do Prêmio Nobel de 1994.
Logo, seus estudos
que resultariam em descobertas quanto aos equilíbrios não-cooperativos (teoria
que hoje leva o seu nome) são substituídos pelas dores e sofrimentos
resultantes da doença. É quase como explorar a desgraça alheia com a função
demasiadamente correta de alertar e informar o público sobre a enfermidade.
Diálogos artificiais e a falta de complexidade plena também impedem que adentremos,
por completo, a mente perturbada desse homem. Felizmente, Ron Roward e seus
atores transformam a apelação em algo charmoso e cheio de méritos.
Utilizando-se da
trilha sonora mágica de James Horner, o diretor incrementa o básico com cenas
que sabem como misturar imaginação com realidade, não escondendo nem revelando
precipitadamente a verdadeira natureza de alguns de seus personagens. Efeitos
especiais e truques de montagem também ajudam Howard a dar identidade a uma
formato comum de se contar uma história. Algumas cenas se destacam, como a ida
de Nash ao Pentágono ou a que cria uma teoria imediata sobre como conquistar
uma garota.
Mas as melhores
sequências são as que envolvem a relação de Nash com Alicia. Após a entrada da
personagem de Connelly, “Uma Mente Brilhante” transforma-se em um romance
inspirado, que sabe como idealizar o amor entre os dois sem se tornar piegas.
Ron Howard acerta no tom sublime, elevado ao máximo na cena em que ambos
desenham objetos no céu estrelado. A delicada performance de Jennifer Connelly
acrescenta um carisma extra que faz de Alicia uma mulher sensível, mas segura,
sem contar sua beleza.
Russel Crowe também
dá um show a parte, levando-nos às lágrimas na homenagem que Nash faz a esposa
já no desfecho do filme. Com essa conclusão, Ron Howard e Akiva Goldsman
atingem seu objetivo de fazer uma obra pouco original, mas dona de uma
emotividade eficiente que permanece na memória, principalmente na hora de votar
nos melhores do ano. E não precisa ir tão longe na história do Oscar para
perceber que o mesmo fenômeno e erro já se repetiu.
__________
Darlano Dídimo é crítico do CCR desde 2009.
Graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade
Federal do Ceará (UFC), é adorador da arte cinematográfica desde a infância,
mas só mais tarde veio a entender a grandiosidade que é o cinema.
Fonte: http://cinemacomrapadura.com.br/criticas/
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015
'A solidão romântica'
Ainda sobre a última postagem, da 'Casa dos Pequenos Cubinhos', do solitário romântico 'viajante sobre o mar de névoa' (e por que não?, também da introspecção surrealista), pronto, aí abaixo, agora, a solidão pela voz pernambucana de Alceu Valença... ou de como ela "É amiga das horas prima irmã do tempo/E faz nossos relógios caminharem lentos."
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
'Um curta solidão'
A solidão... ou os casos de solidão. De qualquer forma, uma imagem que me é emblemática é a que foi consagrada no movimento romântico, a do indivíduo romântico, pela quadro 'Viajante sobre o Mar de Névoa' (em algumas traduções, 'Caminhante'), do alemão Caspar David Friedrich. Mas o curta aí abaixo me chamou a atenção - 'A Casa dos Pequenos Cubinhos'. Sinopse: "A animação conta a história de um velhinho que vive solitário em uma cidade inundada. À medida que a água sobe, o senhor eleva sua casa com pequenos tijolos em forma de cubos para se manter fora do nível do lago sobre o qual vive. Então, um dia, seu cachimbo favorito cai e vai parar em um andar mais baixo de onde sua real moradia encontrava-se naquele momento. Muito apegado ao cachimbo, ele decide comprar uma roupa de mergulho e ir atrás dele. Ao mergulhar, passa a reviver toda a história dele, de sua família e, claro, a da casa, cujos vários andares (cerca de 10), agora estão todos submersos, exceto o último".
Título original:Tsumiki no ie.
Direção: Kunio Katô.
País: Japão.
Duração: 12 min.
Direção: Kunio Katô.
País: Japão.
Duração: 12 min.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
'Seta à esquerda, caminho à direita'

Por Ricardo Melo
Parece
paradoxal, mas quanto mais se aprofunda a investigação sobre a Petrobras, mais
o PT ganha músculos para tentar se manter vivo. Resta saber se ele quer --e
pode-- seguir este caminho.
Seis de fevereiro de 2015. Neste dia,
praticamente todos os jornais do país estamparam na manchete que o PT teria
recebido US$ 200 milhões de propina em dez anos. A afirmação vinha do
ex-gerente da estatal Pedro Barusco, o showman da moda na Lava Jato, My Way ou
outro nome qualquer.
Conforme somos informados, o depoimento de
Barusco, um doente terminal, foi colhido em 20 de novembro de 2014. Por que
veio a público apenas agora cabe à turma do juiz Sérgio Moro explicar.
O mais intrigante não é isso. Nas páginas
internas dos jornais, a salvo as manchetes, deparamos com outras declarações de
Barusco. "Afirma que começou a receber propina em 1997 ou 1998 da empresa
holandesa SBM, enquanto ocupava cargo de gerente de tecnologia de instalações,
no âmbito da diretoria de Exploração e Produção (...) Sendo uma iniciativa que
surgiu de ambos os lados e se tornou sistemática no segundo contrato (...)
firmado entre a SBM e a Petrobras no ano 2000." (Folha, pág. A8, 6/2).
Barusco nada mais faz do que afirmar: o
esquema da Petrobras é velho de guerra. Aliás, foi facilitado por uma lei de
1998. "Esse modelo de concorrência passou a ser usado a partir de 1998,
após o fim do monopólio do petróleo, quando um decreto livrou a estatal da lei
de licitações que rege o setor público.
A intenção era dar mais agilidade à companhia
para enfrentar concorrentes. Uma das inovações foi a licitação por convite, na
qual a Petrobras não é obrigada a divulgar edital nem a aceitar propostas de
qualquer interessado. Ela decide quem pode se candidatar. Depoimentos das
delações premiadas de Pedro Barusco, ex-gerente executivo de Engenharia da
Petrobras, e de Augusto Mendonça, executivo da Setal, revelados na semana
passada, apontam que o uso desse tipo de licitação fortaleceu o cartel que
direcionava licitações e superfaturava contratos, segundo as
investigações". ("O Globo", 8/2).
Nem é preciso um calendário para saber quem
governava o país nos momentos citados por Barusco. De tudo o que ele
supostamente falou, descontando os interesses na delação premiada, fica a
evidência de que a Petrobras sempre foi alvo de um esquema combinando cobiça do
grande empresariado e os políticos/executivos de turno. A roda da fortuna, como
lembra a reportagem acima, foi azeitada em 1998. O PT assumiu o governo em 2002...
Nada disso isenta o partido no poder de
acusações que, se comprovadas, merecem uma justa punição nos tribunais. Situam,
no entanto, a extensão dos delitos pelo tempo e seus personagens.
O que está em questão, quanto mais o juiz
Moro extravasa na cenografia, é a relação promíscua histórica entre os donos do
dinheiro e o aparelho estatal. O PT tem responsabilidade pela falta de coragem,
ou vontade, de romper com este círculo vicioso. Ao mesmo tempo, as provas de
que o esquema envolve "todo o mundo" mantêm Dilma acima da linha
d'água.
Por quanto tempo? Não há resposta para esta
pergunta. Mas de nada adiantam discursos inflamados de Lula convocando
militantes a reagir enquanto o governo que ele defende, desde a reeleição de
2014, só tem feito atacar conquistas do povo humilde. Seta à esquerda e rumo à
direita: eis uma mistura que não costuma dar certo.
-----------------
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/207551-seta-a-esquerda-caminho-a-direita.shtml
sábado, 7 de fevereiro de 2015
Saúde, alimentação escolar e agricultura familiar
Está na praça o último número da Revista Saúde e Sociedade, da Universidade de São Paulo (USP), periódico de referência na discussão das relações que envolvem essas duas dimensões. Em coautoria com colegas da área de nutrição, sob a condução da Amanda de Andrade Marques (promissora pesquisadora das ciências da nutrição), lá estamos com um trabalho sobre saúde, alimentação escolar e agricultura familiar, tendo como base empírica o Araripe cearense. Pode ser acessado pelo seguinte link:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-12902014000401329&script=sci_arttext&tlng=pt.
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-12902014000401329&script=sci_arttext&tlng=pt.
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