terça-feira, 15 de julho de 2014

Ciência: Carta ao futuro

Aí abaixo, a carta que o físico-químico Ilya Prigogine, russo com naturalidade belga, escreveu poucos anos antes do seu falecimento. Como pesquisador, dirigia-se às futuras gerações. Buscou a aproximação das ciências naturais ou exatas (como queira) com as ciências humanas - o que é um "empreendimento" de fôlego. Talvez isso explique algumas incongruências suas no plano da abordagem sócio-histórica. Mas a carta tem o seu valor. A conferir. 

Ciência e novas gerações: olhos no futuro 
Por Ilya Prigogine

Escrevo esta carta na mais completa humildade. Meu trabalho é no domínio da ciência. Não me dá qualquer qualificação especial para falar sobre o futuro da humanidade. As moléculas obedecem a ''leis". As decisões humanas dependem das lembranças do passado e das expectativas para o futuro. A perspectiva sob a qual vejo o problema da transição da cultura da guerra para uma cultura de paz - para usar a expressão de Federico Mayor - se obscureceu nos últimos anos, mas continuo otimista.


De qualquer forma, como poderia um homem da minha geração - nasci em 1917- não ser otimista? Não vimos o fim de monstros como Hitler e Stalin? Não testemunhamos a miraculosa vitória das democracias na Segunda Guerra Mundial? No final da guerra, todos nós acreditávamos que a História recomeçaria do zero, e os acontecimentos justificaram esse otimismo.

Os marcos da era incluem a fundação da Organização das Nações Unidas e da Unesco, a proclamação dos direitos do homem e a descolonização. Em termos mais gerais, houve o reconhecimento das culturas não européias, do qual derivou uma queda do eurocentrismo e da suposta desigualdade entre os povos "civilizados e os ''não-civilizados". Houve também uma redução na distância entre as classes sociais, pelo menos nos países ocidentais.

Esse progresso foi conquistado sob a ameaça da Guerra Fria. No momento da queda do Muro de Berlim, começamos a acreditar que enfim seria realizada a transição da cultura da guerra para a cultura da paz. No entanto, a década que se seguiu não tomou esse rumo. Testemunhamos a persistência, e até mesmo a ampliação, dos conflitos locais, quer sejam na África, quer nos Bálcãs. Isso pode ser considerado, ainda, como um resultado da sobrevivência do passado no presente. No entanto, além da ameaça nuclear sempre presente, novas sombras apareceram: o progresso tecnológico agora torna possível guerras travadas premindo botões, semelhantes de alguma forma a um jogo eletrônico.

Sou uma das pessoas que ajudaram a formular as políticas científicas da União Européia. A ciência une os povos. Criou uma linguagem universal. Muitas outras disciplinas, como a economia e a ecologia, também requerem cooperação internacional. Fico, por isso, ainda mais atônito quando percebo que os governos estão tentando criar um exército europeu como expressão da unidade da Europa. Um exército contra quem? Onde está o inimigo? Por que esse crescimento constante nos orçamentos militares, quer na Europa, quer nos Estados Unidos? Cabe às futuras gerações tomar uma posição sobre isso. Na nossa era, e isso será cada vez mais verdade no futuro, as coisas estão mudando a uma velocidade jamais vista. Vou usar um exemplo científico.

Quarenta anos atrás, o número de cientistas interessados na física de estado sólido e na tecnologia da informação não passava de umas poucas centenas. Era uma "flutuação", quando comparado às ciências como um todo. Hoje, essas disciplinas se tornaram tão importantes que têm consequências decisivas para a história da humanidade.

Crescimento exponencial foi registrado no número de pesquisadores envolvidos nesse setor da ciência. E um fenômeno de proporção sem precedentes, que deixou muito para trás o crescimento do budismo e do cristianismo.

Em minha mensagem às futuras gerações, gostaria de propor argumentos com o objetivo de lutar contra os sentimentos de resignação ou impotência. As recentes ciências da complexidade negam o determinismo; insistem na criatividade em todos os níveis da natureza. O futuro não é dado.

O grande historiador francês Fernand Braudel escreveu: ''Eventos são poeira". Isso é verdade? O que é um evento? Uma analogia com ''bifurcações", estudadas na física do não equilíbrio, surge imediatamente. Essas bifurcações aparecem em pontos especiais nos quais a trajetória seguida por um sistema se subdivide em ramos". Todos os ramos são possíveis, mas só um deles será seguido. No geral não se vê apenas uma bifurcação. Elas tendem a surgir em sucessão. Isso significa que, até mesmo nas ciências fundamentais, há um elemento temporal, narrativo, e isso constitui o "fim da certeza", o título do meu último livro. O mundo está em construção e todos podemos participar dela.

Metáforas úteis. Como escreveu Immanuel Wallerstein: ''É possível - possível, mas não certo - criar ou construir um mundo mais humano e igualitário, melhor ancorado no racionalismo material". Flutuações do nível microscópico decidem que ramo emergirá em cada ponto de bifurcação, e portanto que evento acontecerá. O apelo às ciências da complexidade não significa que estejamos sugerindo que as ciências humanas sejam "reduzidas" à física. Nossa empreitada não é de redução, mas de reconciliação. Conceitos introduzidos das ciências da complexidade podem servir como metáforas muito mais úteis do que o tradicional apelo a metáforas newtonianas.

As ciências da complexidade, assim, conduzem a uma metáfora que pode ser aplicada à sociedade: um evento é a aparição de uma nova estrutura social depois de uma bifurcação; flutuações são o resultado de ações individuais.

Todo evento tem uma ''microestrutura''. Tomemos como um exemplo histórico a Revolução Russa de 1917. O fim do regime czarista poderia ter tomado diferentes formas, e o ramo seguido resultou de diversos fatores, tais como a falta de previsão do czar, a impopularidade de sua mulher, a debilidade de Kerensky, a violência de Lênin. Foi essa microestrutura, essa flutuação, que determinou o desfecho da crise e, assim, os eventos que a ela se seguiram.

Desse ponto de vista, a história é uma sucessão de bifurcações. Um exemplo fascinante de como isso transcorre é a transição da era paleolítica para a neolítica, que aconteceu praticamente no mesmo período em todo o mundo (esse fato é ainda mais surpreendente dada a longa duração da era paleolítica). A transição parece ter sido uma bifurcação ligada a uma exploração mais sistemática dos recursos minerais e vegetais. Muitos ramos emergiram dessa bifurcação: o período neolítico chinês, com sua visão cósmica, por exemplo, o neolítico egípcio, com sua confiança nos deuses, ou o ansioso período neolítico do mundo pré-colombiano.

Toda bifurcação tem beneficiários e vítimas. A transição para a era neolítica trouxe a ascensão de sociedades hierárquicas. A divisão do trabalho implicou em desigualdade. A escravidão foi estabelecida e continuou a existir até o século 19. Ainda que o faraó tivesse uma pirâmide como tumba, seu povo era enterrado em valas comuns.

O século 19, da mesma forma que o 20, apresentou uma série de bifurcações. A cada vez que novos materiais eram descobertos - carvão, petróleo ou novas formas de energia utilizável -, a sociedade se transformava. Será que não se poderia dizer que, tomadas como um todo, essas bifurcações conduziram a uma maior participação da população na cultura e que de lá por diante as desigualdades entre as classes sociais nascidas na era neolítica começaram a diminuir?

Homem e natureza. No geral, bifurcações são, a um só tempo, um sinal de instabilidade e um sinal de vitalidade em uma dada sociedade. Elas expressam também o desejo por uma sociedade mais justa. Mesmo fora das ciências sociais, o Ocidente preserva um espetáculo surpreendente de bifurcações sucessivas. A música e a arte, por exemplo, mudam a cada 50 anos. O homem continuamente explora novas possibilidades, concebe utopias que podem conduzi-lo a uma relação mais harmoniosa entre homem e homem e homem e natureza. E esses são temas que ressurgem constantemente nas pesquisas de opinião sobre o caráter do século 21.

A que ponto chegamos? Estou convencido de que estamos nos aproximando de uma bifurcação conectada ao progresso da tecnologia da informação e a tudo que a ela se associa como a multimídia, robótica e inteligência artificial. Essa é a "sociedade de rede", com seus sonhos de aldeia global.

Mas qual será o resultado dessa bifurcação? Em qual de seus ramos nos encontraremos? A palavra "globalização" cobre uma grande variedade de situações diferentes? E possível que os imperadores romanos já estivessem sonhando com globalização, uma cultura única dominando o mundo. A preservação do pluralismo cultural e o respeito pelo outro exigirá toda a atenção das gerações futuras. Mas há outros riscos no horizonte.

Cerca de 12 mil espécies de formigas são conhecidas hoje. Suas colônias variam de algumas centenas a muitos milhões de indivíduos. E interessante notar que o comportamento das formigas depende do tamanho da colônia. Em colônias pequenas, a formiga se comporta de forma individualista, procurando comida e a levando de volta ao ninho. Quando a colônia é grande, porém, a situação muda e a coordenação de atividades se toma essencial. Estruturas coletivas surgem espontaneamente, então, como resultado de reações autocatalíticas entre formigas que produzem trocas de informação medidas quimicamente.

Não é coincidência que nas grandes colônias de formigas ou térmites os insetos individuais se tomem cegos. O crescimento populacional transfere a iniciativa do indivíduo para a coletividade.

Por analogia, podemos nos perguntar qual será o efeito da sociedade da informação sobre nossa criatividade individual. Há vantagens óbvias nesse tipo de sociedade - basta pensar na medicina ou na economia. Mas existe informação e desinformação. Como diferenciá-las? Claramente, isso requer cada vez mais conhecimento e um senso crítico desenvolvido. O verdadeiro precisa ser distinguido do falso,o possível do impossível. O desenvolvimento da informação significa que estamos legando uma tarefa pesada às futuras gerações. Não devemos permitir que surjam novas divisões resultando da ''sociedade de redes" baseada na tecnologia da informação. Mas é preciso igualmente examinar questões mais fundamentais.

Em sentido geral será que a bifurcação reduzirá a distância entre os países ricos e os pobres? A globalização será caracterizada pela paz e democracia ou por violência, aberta ou disfarçada? Cabe às futuras gerações criar as flutuações que determinarão o rumo do evento correspondente à chegada da sociedade da informação.

Minha mensagem às futuras gerações, portanto, é de que os dados não foram lançados e que o caminho a ser percorrido depois da bifurcação ainda não foi escolhido. Estamos em um período de flutuação no qual as ações individuais continuam a ser essenciais.

Quanto mais a ciência avança, mais nos espantamos com ela. Fomos da idéia geocêntrica de um sistema solar para a heliocêntrica, e de lá para a idéia das galáxias e, por fim, para a dos múltiplos universos. Todos já ouviram falar do Big Bang. Para a ciência, não existe um evento único, e isso conduziu à idéia de que múltiplos universos podem existir. Por outro lado, o homem é até agora a única criatura viva consciente do espantoso universo que o criou e que ele, por sua vez, pode alterar. A condição humana consiste em aprender a lidar com essa ambiguidade. Minha esperança é de que as gerações futuras aprendam a conviver com o espanto e com a ambiguidade.

A cada ano, nossos químicos produzem milhares de novas substâncias, muitas das quais derivadas de produtos naturais - um exemplo da criatividade humana no seio da criatividade natural como um todo. Esse espanto nos leva a respeitar os outros. Ninguém é dono da verdade absoluta, se é que essa expressão significa alguma coisa. Acredito que Richard Tarnes esteja certo:

''A paixão mais profunda da alma ocidental é redescobrir a unidade com as raízes de seu ser''.

Essa paixão leva à afirmação prometéica do poder da razão, mas a razão pode também conduzir à alienação, a uma negação daquilo que dá valor e significado ávida. Cabe às futuras gerações construir uma nova coerência que incorpore tanto os valores humanos quanto a ciência, algo que ponha fim às profecias quanto ao ''fim da ciência'', ''fim da história" ou quanto ao advento da ''pós-humanidade''.

Estamos apenas no começo da ciência, e muito distantes do tempo em que se acreditava possível descrever todo o universo em termos de algumas poucas leis fundamentais. Encontramos o complexo e o irreversível no domínio microscópico (tal como associado às partículas elementares), no domínio macroscópico que nos cerca e no domínio da astrofísica. Cabe às futuras gerações construir uma nova ciência que incorpore todos esses aspectos, porque, por enquanto, a ciência continua em sua infância.

Da mesma forma, o fim da história poderia ser o fim das bifurcações e a realização das visões de pesadelo de Orwell ou Huxley quanto a uma sociedade atemporal que perdeu sua memória. Cabe às futuras gerações manterem-se vigilantes para garantir que isso jamais aconteça. Um sinal de esperança é o de que o interesse pela natureza e o desejo de participar da vida cultural jamais foi maior do que hoje. Não precisamos de nenhum tipo de pós-humanidade. Cabe ao homem tal qual é hoje, com seus problemas, dores e alegrias, garantir que sobreviva no futuro. A tarefa é encontrar a estreita via entre a globalização e a preservação do pluralismo cultural, entre a violência e a política, e entre a cultura da guerra e a da razão. São responsabilidades pesadas.

Uma carta às gerações futuras é sempre e necessariamente escrita de uma posição de incerteza, de uma extrapolação arriscada do passado. No entanto, continuo otimista. O papel dos pilotos britânicos foi crucial para decidir o desfecho da Segunda Guerra Mundial. Foi, para repetir uma palavra que usei com frequência nesse texto, uma "flutuação". Confio em que flutuações como essa surgirão sempre, para que possamos navegar seguros entre os perigos que hoje percebemos. É com essa nota de otimismo que eu gostaria de encerrar minha mensagem.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs3001200004.htm

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Uma última e enigmática palavra

Pelas mãos de Leont Etiel, chega-me o poema aí abaixo, de Vergílio Ferreira. Em verdade, o poema chama-se apenas A Palavra. A denominação 'Uma última e enigmática palava' fica por conta das mistas introspecções existencialistas, românticas e surrealistas do portador. 

Se eu soubesse a palavra,
a que subjaz aos milhões das que já disse,
a que às vezes se me anuncia num súbito silêncio interior,
a que se inscreve entre as estrelas contempladas pela noite,
a que estremece no fundo de uma angústia sem razão,
a que sinto na presença oblíqua de alguém que não está,
a que assoma ao olhar de uma criança que pela primeira vez interrogou,
a que inaudível se entreouve numa praia deserta no começo do Outono,
a que está antes de uma grande Lua nascer,
a que está atrás de uma porta entreaberta onde não há ninguém,
a que está no olhar de um cão que nos fita a compreender,
a que está numa erva de um caminho onde ninguém passa,
a que está num astro morto onde ninguém foi,
a que está numa pedra quando a olho a sós,
a que está numa cisterna quando me debruço à sua borda,
a que está numa manhã quando ainda nem as aves acordaram,
a que está entre as palavras e não foi nunca uma palavra,
a que está no último olhar de um moribundo, e a vida e o que nela foi fica a uma distância infinita,
a que está no olhar de um cego quando nos fita e resvala por nós,

- se eu soubesse a palavra,
a única, a última,
e pudesse depois ficar em silêncio para sempre…

quarta-feira, 9 de julho de 2014

'A morte, o sacrifício e o vazio'


Por Georges Bataille


O homem é essa noite, esse Nada [Néant] vazio, que contém tudo em sua simplicidade indivisa.
I. A morte

A negatividade do homem

Nas Conferências de 1805-1806, no momento da plena maturidade do seu pensamento, na época em que escrevia a Fenomenologia do espírito, Hegel exprimia assim o caráter negro da humanidade:
"O homem é essa noite, esse Nada [Néant] vazio, que contém tudo em sua simplicidade indivisa: uma variedade de um número infinito de representações, de imagens, das quais nenhuma lhe vem à mente com clareza, ou [ainda], que não estão [ali] como realmente-presentes. É a noite, a interioridade – ou – intimidade da Natureza que existe aqui: – [o] Eu-pessoal puro. Em representações fantasmagóricas, tudo ao redor está escuro: surge então uma cabeça ensanguentada aqui; mais adiante outra aparição branca; e elas desaparecem também de repente. É essa noite que se percebe quando se olha bem nos olhos de um homem: [mergulha-se o olhar] numa noite que torna-se terrível; é a noite do mundo que se apresenta [então] a nós".*20
Bem entendido, esse "belo texto", em que se exprime o romantismo de Hegel, não deve ser entendido em sentido vago. Se Hegel foi romântico, foi talvez de uma maneira fundamental (ele foi de todo modo romântico para começar – em sua juventude –, quando era banalmente revolucionário), mas ele não viu então no romantismo o método pelo qual um espírito desdenhoso acreditava subordinar o mundo real ao arbitrário de seus sonhos. Alexandre Kojève, citando-as, diz dessas linhas que elas exprimem a "ideia central e última da filosofia hegeliana", a saber: "a ideia de que o fundamento e a fonte da realidade objetiva [Wirklichkeit] e da existência empírica [Dasein] humanas são o Nada que se manifesta enquanto Ação negativa ou criativa, livre e consciente de si mesma".
Para dar acesso ao mundo desconcertante de Hegel, acreditei dever marcar nele, por uma visão sensível, ao mesmo tempo os contrastes violentos e a unidade última.
Para Kojève, "a filosofia 'dialética' ou antropológica de Hegel é, em última análise, uma filosofia da morte (ou o que dá no mesmo: do ateísmo)".*21
Mas se o homem é "a morte que vive uma vida humana",*22 essa negatividade do homem, dada na morte pelo fato de que essencialmente a morte do homem é voluntária (derivando de riscos assumidos sem necessidade, sem razões biológicas), não é menos o princípio da ação. Para Hegel, com efeito, a Ação é Negatividade, e a Negatividade, Ação. De um lado, o homem que nega a Natureza – ao introduzir nela, como um reverso, a anomalia de um "Eu pessoal puro" – está presente no seio dessa Natureza como uma noite na luz, como uma intimidade na exterioridade dessas coisas que são em si – como uma fantasmagoria em que nada se compõe senão para se desfazer, nada aparece senão para desaparecer, nada que não seja, sem trégua, absorvido no aniquilamento[néantissement] do tempo e que daí não tire a beleza do sonho. Mas eis o aspecto complementar: essa negação da Natureza não é apenas dada na consciência, – onde aparece (mas para desaparecer) o que é em si – essa negação se exterioriza e, exteriorizando-se, muda realmente (em si) a realidade da Natureza. O homem trabalha e combate: transforma o dado ou a natureza: cria, ao destruí-la, o mundo, um mundo que não existia. Há, de um lado, poesia: a destruição, surgida e se diluindo, de uma cabeça ensanguentada; de outro, Ação: o trabalho, a luta. De um lado, o "Nada [Néant] puro", em que o homem "não difere do Nada a não ser por um certo tempo".*23 Do outro, um Mundo histórico, em que a Negatividade do homem, esse Nada que o corrói por dentro, cria o conjunto do real concreto (ao mesmo tempo objeto e sujeito, mundo real mudado ou não, homem que pensa e muda o mundo).
A filosofia de Hegel é uma filosofia da morte – ou do ateísmo4
É o caráter essencial – e novo – da filosofia hegeliana descrever a totalidade do que é. E consequentemente, ao mesmo tempo em que dá conta de tudo o que aparece aos nossos olhos, dá conta solidariamente do pensamento e da linguagem que exprimem – revelam – essa aparição.
"A meu ver", diz Hegel, "tudo depende de exprimirmos e compreendermos a Verdade não (apenas) como substância, mas também como sujeito."5 (Phénomenologie de l'esprit, Préface, Traduction de Jean Hyppolite, t.I: 17, 1. 1-4. [GB].)
Em outras palavras, o conhecimento da Natureza é incompleto, ele só considera e só pode considerar, entidades abstratas, isoladas de um todo, de uma totalidade indissolúvel, que é só ela concreta. O conhecimento deve ser ao mesmo tempo antropológico: "além das bases ontológicas da realidade natural", escreve Kojève, "ela deve buscar as da realidade humana, que é a única capaz de se revelar a si própria pelo Discurso".*24 Bem entendido, essa antropologia não considera o Homem à maneira das ciências modernas, mas como um movimento que é impossível isolar no seio da totalidade. Em um certo sentido, é antes uma teologia, onde o homem teria tomado o lugar de Deus.
Mas para Hegel, a realidade humana que ele descreve, no seio e no centro da totalidade, é muito diferente da realidade da filosofia grega. Sua antropologia é a da tradição judaico-cristã, que sublinha no Homem a liberdade, a historicidade e a individualidade. Assim como o homem judaico-cristão, o homem hegeliano é um ser espiritual (isto é, "dialético"). Contudo, para o mundo judaico-cristão, a "espiritualidade" só se realiza e só se manifesta plenamente no além, e o Espírito propriamente dito, o Espírito verdadeiramente "objetivamente real", é Deus: "um ser infinito e eterno". Segundo Hegel, o ser "espiritual" ou "dialético" é necessariamente temporal e finito". Isso quer dizer que apenas a morte assegura a existência de um ser espiritual ou "dialético" no sentido hegeliano. Se o animal que constitui o ser natural do homem não morresse, ou melhor, se não tivesse a morte em si como a fonte de sua angústia, tanto mais forte na medida em que ele a busca, a deseja, e às vezes busca voluntariamente a morte, não haveria nem homem, nem liberdade, nem história, nem indivíduo. Em outras palavras, se ele se compraz naquilo que no entanto lhe dá medo, se ele é o ser, idêntico a si mesmo, que põe o próprio ser (idêntico) em jogo, o homem é então um Homem em verdade: ele se separa do animal. Ele não é mais, doravante, como uma pedra, um dado imutável, ele porta em si a Negatividade; e a força, a violência da negatividade, o jogam no movimento incessante da história, que o muda, e que sozinha realiza através do tempo a totalidade do real concreto. Só a história tem o poder de acabar [achever]6 o que é, de acabá-lo no desenrolar do tempo. Assim, a ideia de um Deus eterno e imutável não passa, nessa perspectiva, de um acabamento [achèvement] provisório que sobrevive enquanto espera algo melhor. Apenas a história realizada/ acabada e o espírito do Sábio (de Hegel), no qual a história revelou, depois acabou [acheva] de revelar, o pleno desenvolvimento do ser e da totalidade de seu devir, ocupam uma situação soberana, que Deus ocupa apenas provisoriamente, como regente.
Aspecto tragicômico da divindade do homem
Essa maneira de ver pode com razão ser tida por cômica. Hegel, aliás, não falou disso explicitamente. Os textos em que ela se afirmou implicitamente são ambíguos, e a sua extrema dificuldade acabou por lhes furtar a luz. O próprio Kojève observa prudência. Ele fala deles sem gravidade, evitando precisar-lhe as consequências. Para exprimir como convém a situação em que Hegel se enfiou, sem dúvida involuntariamente, seria preciso o tom, ou pelo menos, sob uma forma contida, o horror da tragédia. Mas as coisas teriam logo um andamento cômico.
De qualquer maneira, passar pela morte faz de tal modo falta à figura divina que um mito situado na tradição associou a morte, e a angústia da morte, ao Deus eterno e único, da esfera judaico-cristã. A morte de Jesus participa da comédia na medida em que não saberíamos sem arbitrário introduzir o esquecimento da sua divindade eterna – que lhe pertence – na consciência de um Deus todo-poderoso e infinito. O mito cristão, exatamente, antecipou o "saber absoluto" de Hegel, fundando sobre o fato de que nada de divino (no sentido pré-cristão desagrado) é possível que não seja finito. Mas a consciência vaga em que o mito (cristão) da morte de Deus se formou, apesar de tudo, diferia da de Hegel: para adulterar no sentido da totalidade uma figura de Deus que limitava o infinito, foi possível introduzir, em contradição de um fundamento, um movimento em direção ao finito.
Hegel pôde – precisou – compor a soma (a Totalidade) dos movimentos que se produziram na história. Mas o humor, parece, é incompatível com o trabalho, e com a aplicação exigida pelas coisas. Voltarei a esse assunto, tudo o que fiz, por enquanto, foi embaralhar as cartas... É difícil passar de uma humanidade que a grandeza divina humilhou àquela... do Sábio divinizado, soberano e que infla a sua grandeza a partir da vaidade humana.
Um texto capital
No que precede, uma única exigência se depreende de modo preciso: não pode haver autenticamente Sabedoria (Saber absoluto, nem geralmente nada que se aproxime) se o Sábio não se eleva, se ouso dizer, à altura da morte, qualquer que seja a angústia que ele sofra com isso.
Uma passagem do Prefácio da Fenomenologia do espírito*25 exprime com força a necessidade de uma tal atitude. Nenhuma dúvida de que esse texto admirável, de antemão, tenha "uma importância capital", não somente para a inteligência de Hegel, mas em todos os sentidos.
"A morte", escreve Hegel "– se quisermos chamar assim essa irrealidade – é o que há de mais terrível e sustentar a obra da morte é o que exige a maior força. A beleza impotente odeia o entendimento, porque ele exige dela aquilo de que ela não é capaz. Ora, a vida do espírito não é a vida que se apavora diante da morte, e se preserva da destruição, mas a que suporta a morte e nela se conserva. O espírito só obtém sua verdade ao encontrar a si mesmo no dilaceramento absoluto. Ele não é essa potência (prodigiosa) sendo o Positivo que se desvia do Negativo, como quando dizemos de algo: isso não é nada ou (isso é) falso, e, tendo-o (assim) liquidado, passamos dali a outra coisa; não, o Espírito só é essa potência na medida em que contempla o Negativo bem no rosto (e) se instala perto dele. Essa estadia-prolongada é a força mágica que transpõe o negativo no Ser-dado."
A negação humana da natureza e do ser natural do homem
Em princípio, eu deveria ter começado mais acima a passagem citada. Quis não pesar esse texto com as linhas "enigmáticas" que as precedem. Mas indicarei o sentido de algumas linhas omitidas retomando a interpretação de Kojève, sem a qual a sequência, a despeito de uma aparência relativamente clara, poderia nos permanecer inacessível.
Para Hegel, é ao mesmo tempo fundamental e inteiramente digno de espanto que o entendimento do homem (quer dizer, a linguagem, o discurso) tenha tido a força (trata-se de uma potência incomparável) de separar da Totalidade os seus elementos constitutivos. Estes elementos (esta árvore, este pássaro, esta pedra) são de fato inseparáveis do todo. Eles estão "ligados entre si por ligações espaciais e temporais, e até materiais, que são indissolúveis." A separação deles implica a Negatividade humana a respeito da Natureza, de que falei sem destacar uma consequência decisiva. Esse homem negando a natureza, de fato, não poderia de maneira nenhuma existir fora dela. Ele não é apenas um homem negando a Natureza, ele é, em primeiro lugar, um animal, isto é, a coisa mesma que ele nega: ele não pode portanto negar a Natureza sem se negar a si próprio. O caráter de totalidade do homem é dado na expressão bizarra de Kojève: essa totalidade é em primeiro lugar Natureza (ser natural), é "o animal antropológico" (A Natureza, o animal indissoluvelmente ligado ao conjunto da Natureza, e que suporta o Homem). Assim, a Negatividade humana, o desejo eficaz que tem o Homem de negar a Natureza destruindo-a – reduzindo-a a seus próprios fins: ele faz dela por exemplo uma ferramenta e a ferramenta será o modelo do objeto isolado da Natureza – não pode parar diante de si mesmo: enquanto é Natureza, o Homem se expõe à sua própria Negatividade. Negar a Natureza é negar o animal que serve de suporte à Negatividade do Homem. Sem dúvida não é o entendimento que quebra a unidade da Natureza que quer que haja morte de homem, mas a Ação separadora do entendimento implica a energia monstruosa do pensamento, do "puro Eu abstrato", que se opõe essencialmente à fusão, ao caráter inseparável dos elementos – constitutivos do conjunto – que, com firmeza, mantém a separação entre eles.
É a posição como tal do ser separado do homem, é o seu isolamento na Natureza, e, consequentemente, o seu isolamento no meio de seus semelhantes, que o condenam a desaparecer de uma maneira definitiva. O animal, não negando nada, perdido, sem oferecer oposição, em meio à animalidade global, assim como a própria animalidade está perdida na Natureza (e na totalidade do que é), não desaparece verdadeiramente... Sem dúvida, a mosca individual morre, mas estas moscas aqui são as mesmas do ano passado. As do ano passado estariam mortas?... É possível, mas nada desapareceu. As moscas permanecem, iguais a elas mesmas, como o são as ondas do mar. Aparentemente é forçoso ser assim: um biólogo separa esta mosca aqui do turbilhão, um traço de pincel basta. Mas ele a separa para si mesmo, ele não a separa para as moscas. Para se separar dos outros, a "mosca" precisaria da força monstruosa do entendimento: então ela se nomearia, fazendo o que em geral a linguagem opera pelo entendimento, que só ele funda a separação dos elementos, e ao fundá-la se funda sobre ela, no interior de um mundo formado de entidades separadas e nomeadas. Mas nesse jogo o animal humano encontra a morte: ele encontra precisamente a morte humana, a única que amedronta, que horripila, mas amedronta e horripila apenas o homem absorvido na consciência do seu desaparecimento futuro, enquanto ser separado e insubstituível; a única verdadeira morte, que supõe a separação e, pelo discurso que separa, a consciência de ser separado.
"A beleza impotente odeia o entendimento"
Até aqui o texto de Hegel apresenta uma verdade simples e comum, – mas enunciada de uma maneira filosófica e, mais do que isso, propriamente sibilina. Na passagem citada do Prefácio, Hegel ao contrário afirma, e descreve, um momento pessoal de violência. Hegel, ou seja, o Sábio, a quem um Saber absoluto confere a satisfação definitiva. Não é uma violência enfurecida. O que Hegel desencadeia não é a violência da Natureza, é a energia ou a violência do Entendimento, a Negatividade do Entendimento, opondo-se à beleza pura do sonho, que não pode agir, que é impotente.
De fato, a beleza do sonho remete ao mundo onde nada está ainda separado do que está em volta, onde cada elemento, ao contrário dos objetos abstratos do Entendimento, é dado concretamente, no espaço e no tempo. Mas a beleza não pode agir. Pode ser e se conservar. Agindo, ela não seria mais, pois a Ação destruiria antes o que ela é: a beleza, que não busca nada, que é, que se recusa a se perturbar, mas que a força do Entendimento perturba. A beleza não tem, aliás, o poder de responder à requisição do Entendimento, que lhe pede para sustentar, mantendo-a, a obra da morte humana. Ela é incapaz disso, no sentido de que ao sustentar essa obra, ela estaria engajada na Ação. A beleza é soberana, ela é um fim, ou ela não é: é por isso que ela não é suscetível de agir, ela é em, seu princípio mesmo, impotente e não pode ceder à negação ativa do Entendimento que muda o mundo e torna-se ele próprio uma coisa diferente do que é.7
Essa beleza sem consciência de si mesma não pode portanto realmente, mas não pela mesma razão que a vida que "recua de horror diante da morte e quer se preservar do aniquilamento", suportar a morte e se conservar nela. Essa beleza que não age sofre pelo menos quando sente que se parte em pedaços a Totalidade do que é (do real-concreto), que é profundamente indissolúvel. Ela gostaria ela própria de permanecer o signo de um acordo do real consigo mesmo. Ela não pode tornar-se essa Negatividade consciente, desperta nesse dilaceramento, esse olhar lúcido, absorvido no Negativo. Esta última atitude supõe, antes dela, a luta violenta ou laboriosa do Homem contra a Natureza, de que ela é a conclusão. É a luta histórica em que o Homem se constituiu como "Sujeito" ou como "Eu abstrato" do "Entendimento", como ser separado e nomeado.
"Quer dizer", precisa Kojève, "que o pensamento e o discurso, revelador do real, nascem da Ação negadora que realiza o Nada aniquilando [anéantissant] o Ser: o ser dado do Homem (na Luta) e o ser dado da Natureza (pelo Trabalho – que resulta aliás do contato real com a morte na Luta). Quer dizer então que o próprio ser humano não é nada além dessa Ação: ele é a morte que vive uma vida humana."*26
Insisto sobre a conexão contínua de um aspecto abissal e de um aspecto coriáceo, terra a terra, dessa filosofia, a única que teve a pretensão de ser completa. As possibilidades divergentes das figuras humanas opostas ali se afrontam e se conjugam, a figura do moribundo e a do homem orgulhoso que se desvia da morte, a figura do senhor e a do homem pregado ao trabalho, a figura do revolucionário e a do cético, cujo interesse egoísta limita o desejo. Essa filosofia não é apenas uma filosofia da morte. É também uma filosofia da luta de classes e do trabalho.
Mas, nos limites deste estudo, não tenho a intenção de enfrentar a outra vertente, gostaria de aproximar essa doutrina hegeliana da morte daquilo que sabemos do "sacrifício".

II. O sacrifício
O sacrifício, de um lado, e, de outro, o olhar de Hegel absorvido pela morte e pelo sacrifício
Não falarei da interpretação do sacrifício dada por Hegel no capítulo da Fenomenologia consagrado à Religião.8 Ela tem sem dúvida um sentido no desenvolvimento do capítulo, mas distancia do essencial, e tem, a meu ver, do ponto de vista da teoria do sacrifício, um interesse menor do que a representação implícita no texto do Prefácio que continuo a comentar.
Do sacrifício, posso dizer essencialmente, no plano da filosofia de Hegel, que, em um certo sentido, o Homem revelou e fundou a verdade humana sacrificando: no sacrifício, ele destruiu o animal9 nele mesmo, deixando subsistir, de si mesmo e do animal, apenas a verdade não corporal descrita por Hegel, que, do homem, faz – segundo a expressão de Heidegger – um ser para a morte (Sein zum Tode), ou – segundo a expressão do próprio Kojève – "a morte que vive uma vida humana".
Na verdade, o problema de Hegel é dado na ação do sacrifício. No sacrifício, a morte, de um lado, atinge essencialmente o ser corporal; e é, por outro lado, no sacrifício que exatamente "a morte vive uma vida humana". Seria até mesmo preciso dizer que o sacrifício é precisamente a resposta à exigência de Hegel, de quem retomarei a fórmula:
"O espírito só obtém a sua verdade ao encontrar a si mesmo no dilaceramento absoluto. Ele não é essa potência (prodigiosa) sendo o Positivo que se afasta do Negativo [...] não, o Espírito só é essa potência na medida em que contempla o Negativo bem no rosto (e) se instala perto dele [...]."
Se levarmos em conta o fato de que a instituição do sacrifício é praticamente universal, é claro que a Negatividade, encarnada na morte do homem, não somente não é uma construção arbitrária de Hegel, mas desempenhou um papel no espírito dos homens mais simples, sem acordes análogos àqueles que as cerimônias de uma Igreja regulam desde sempre – no entanto de uma maneira unívoca. É impressionante ver que umaNegatividade comum manteve através da terra um paralelismo estreito com o desenvolvimento de instituições bastante estáveis, tendo a mesma forma e os mesmos efeitos.
Que ele viva ou morra, o homem não pode conhecer imediatamente a morte
Falarei mais adiante de diferenças profundas entre o homem do sacrifício, que opera na ignorância (na inconsciência) das causas e consequências do que faz, e o Sábio (Hegel), que se rende às implicações de um Saber absoluto a seus próprios olhos.
Apesar dessas diferenças, trata-se sempre de manifestar o Negativo (e sempre, sob uma forma concreta, isto é, no seio da Totalidade, cujos elementos constitutivos são inseparáveis). A manifestação privilegiada da Negatividade é a morte, mas a morte na verdade não revela nada. É em princípio o seu ser natural, animal, cuja morte revela o Homem a si mesmo, mas a revelação nunca tem lugar. Pois uma vez morto o ser animal que o suporta, o próprio ser humano deixou de ser. Para que o homem ao final se revele a si mesmo, ele deveria morrer, mas seria preciso fazê-lo em vida – olhando-se deixar de ser. Em outras palavras, a própria morte deveria tornar-se consciência (de si), no momento mesmo em que aniquila o ser consciente. É em um certo sentido o que tem lugar (que está pelo menos à beira de ter lugar, ou que tem lugar de uma maneira fugidia, inapreensível), por meio de um subterfúgio. No sacrifício, o sacrificante se identifica com o animal atingido pela morte. Assim, ele morre vendo-se morrer, e até mesmo de certo modo, por sua própria vontade, fazendo um só corpo com a arma do sacrifício. Mas é uma comédia!
Seria em todo o caso uma comédia se existisse algum outro método que revelasse ao vivente a invasão da morte: esse acabamento do ser finito, que só a sua Negatividade e apenas ela pode realizar, que o mata, o termina[finit] e definitivamente o suprime. Para Hegel, a satisfação não pode ter lugar, o desejo só pode ser apaziguado na consciência da morte. A satisfação seria de fato contrária ao que a morte designa, se ela supusesse a exceção da morte, se o ser satisfeito, não tendo consciência, e plenamente, do que é de uma maneira constitutiva, isto é, mortal, se ele tivesse mais tarde que ser expulso da satisfação pela morte. É por isso que a consciência que ele tem de si deve refletir (e dele ser um reflexo10) esse movimento de negatividade que o cria, que justamente faz dele um homem pela razão de que um dia o matará.
A sua própria negatividade o matará, mas para ele, doravante, nada mais será: a sua morte é criativa, mas se a consciência da morte – da maravilhosa magia da morte – não o toca antes de ele morrer, será para ele, enquanto viver, como se a morte não o devesse atingir, e essa morte por vir não poderá lhe dar um caráter humano. Assim, seria preciso, a qualquer preço, que o homem vivesse no momento em que ele morre realmente, ou que ele vivesse com a impressão de morrer realmente.
O conhecimento da morte não pode deixar de se valer de um subterfúgio: o espetáculo
Essa dificuldade anuncia a necessidade do espetáculo, ou geralmente, da representação, sem cuja repetição11poderíamos, diante da morte, permanecer estrangeiros, ignorantes, como aparentemente o são os animais. Nada é menos animal, de fato, do que a ficção, mais ou menos distanciada do real, da morte.
O Homem não vive somente de pão, mas de comédias com as quais se engana voluntariamente. No Homem, é o animal, é o ser natural, que come. Mas o Homem assiste ao culto e ao espetáculo. Ou ainda, ele pode ler: portanto a literatura prolonga nele, na medida em que é soberana, autêntica, a magia obsedante dos espetáculos, trágicos ou cômicos.
Trata-se, pelo menos na tragédia,12 de identificar-nos com algum personagem que morre, e de acreditar morrer embora estejamos vivos. Além disso, a imaginação pura e simples é suficiente, mas ela tem o mesmo sentido que os subterfúgios clássicos, os espetáculos ou os livros, aos quais a multidão recorre.
Acordo e desacordo das condutas ingênuas e sobre a reação lúcida de Hegel
Ao aproximá-la do sacrifício e a partir daí do tema primeiro da representação (da arte, das festas, dos espetáculos), eu quis mostrar que a reação de Hegel é a conduta humana fundamental. Não é uma fantasia, uma conduta estranha, é por excelência a expressão que a tradição repetia ao infinito. Não é Hegel isoladamente, é a humanidade inteira que, em toda parte e sempre, quis, por um desvio, discernir o que a morte ao mesmo tempo lhe dava e lhe roubava.
Entre Hegel e o homem do sacrifício subsiste no entanto uma diferença profunda. Hegel despertou de uma maneira consciente para a representação que ele se deu do Negativo: ele o situava, lucidamente, em um ponto definido do "discurso coerente" pelo qual se revelava para ele próprio Essa Totalidade incluindo o discurso que a revela. Enquanto que o homem do sacrifício, a quem faltou um conhecimento discursivo do que fazia, só tinha o conhecimento "sensível", isto é, obscuro, reduzido à emoção ininteligível. É verdade que o próprio Hegel, além do discurso, e a despeito de si mesmo (em um "dilaceramento absoluto"), recebeu ainda mais violentamente o choque da morte. Mais violentamente sobretudo pela razão de que o amplo movimento do discurso estendia sua envergadura ilimitadamente, isto é, no âmbito da Totalidade do real. Para Hegel, sem nenhuma dúvida, o fato de permanecer vivo era simplesmente um agravante. Enquanto que o homem do sacrifício mantém a sua vida essencialmente. Ele a mantém não somente no sentido de que a vida é necessária à representação da morte, mas ele pretendia enriquecê-la. Mas tomando a coisa pelo alto, a comoção [émoi] sensível e querida no sacrifício tinha mais interesse que a sensibilidade involuntária de Hegel. A comoção [émoi] de que falo é conhecida, é definível, e é o horror sagrado: a experiência ao mesmo tempo mais angustiante e mais rica possível, que não se limita por si mesma ao dilaceramento, que se abre, ao contrário, assim como uma cortina de teatro, para um além deste mundo, em que o dia que nasce transfigura todas as coisas e destrói o seu sentido limitado.
Com efeito, se a atitude de Hegel opõe à ingenuidade do sacrifício a consciência sábia, e a ordenação sem fim de um pensamento discursivo, essa consciência, essa ordenação, têm ainda um ponto obscuro: não se poderia dizer que Hegel desconhecesse o "momento" do sacrifício: esse "momento" está incluído, implicado, em todo o movimento da Fenomenologia – onde é a Negatividade da morte, na medida em que o homem a assume, que faz um homem do animal humano. Mas não tendo visto que o sacrifício por si só dava testemunho de todo o movimento da morte,13 a experiência final – e própria ao Sábio – descrita no Prefácio da Fenomenologia foi antes de mais nada inicial e universal – ele não soube a que ponto tinha razão – com que exatidão descreveu o movimento íntimo da Negatividade – ele não separou claramente a morte do sentimento de tristeza a que a experiência ingênua opõe uma espécie de plataforma giratória de emoções.
A tristeza da morte e o prazer
O caráter unívoco da morte para Hegel inspira justamente a Kojève o comentário seguinte, que se aplica ainda à mesma passagem do Prefácio:*27 "Sem dúvida, a ideia da morte não aumenta o bem-estar do Homem; não o torna feliz e não lhe proporciona nenhum prazer." Kojève perguntou-se de que maneira a satisfação resulta de uma estadia junto ao Negativo, de um face a face com a morte, ele acreditou dever, honestamente, rejeitar a satisfação vulgar. O fato de o próprio Hegel dizer do Espírito, a esse respeito, que ele "só obtém a sua verdade quando se encontra no dilaceramento absoluto" vai de par, em princípio, com a Negação de Kojève. Consequentemente, seria até mesmo supérfluo insistir... Kojève diz simplesmente que a ideia da morte "é a única que pode satisfazer [o] orgulho [do homem]"... De fato, o desejo de ser "reconhecido", que Hegel coloca na origem das lutas históricas, poderia se exprimir em uma atitude intrépida, própria a fazer valer um caráter. "Só ao ser ou ao se sentir como mortal ou finito, diz Kojève, isto é, ao existir e ao se sentir existir num universo sem além ou sem Deus, é que o Homem pode afirmar e fazer reconhecer sua liberdade, sua historicidade e sua individualidade 'únicas no mundo'".*28 Mas se Kojève afasta a satisfação vulgar, a felicidade, ele afasta agora o "dilaceramento absoluto" de que fala Hegel: de fato, um tal dilaceramento se concilia mal com o desejo de ser reconhecido.
A satisfação e o dilaceramento coincidem entretanto em um ponto, eles se conciliam com o prazer. Essa coincidência tem lugar no "sacrifício"; quer dizer, geralmente, na forma ingênua da vida, em toda existência no tempo presente, que manifeste o que o Homem é: o que ele significa de novo no mundo após haver se tornado oHomem, e com a condição de ter satisfeito as suas necessidades "animais".
De todo o modo, o prazer, ao menos o prazer dos sentidos, é tal que, a seu respeito, a afirmação de Kojève dificilmente poderia ser mantida: a ideia da morte contribui, de uma certa maneira e em certos casos, para multiplicar o prazer dos sentidos. Creio mesmo que, sob a forma de sujeira, o mundo (ou melhor, a imagística geral) da morte está na base do erotismo. O sentimento do pecado se liga na consciência clara à ideia da morte, e do mesmo modo o sentimento do pecado se liga ao prazer.14 Não há, de fato, prazer humano sem uma situação irregular, sem a ruptura de uma proibição, da qual, atualmente, a mais simples – e ao mesmo tempo, a mais forte – é a da nudez.
Mais do que isso, a posse foi associada, em seu tempo, à imagem do sacrifício: era um sacrifício de que a mulher era a vítima... Essa associação da poesia antiga é cheia de sentido: ela remete a um estado preciso da sensibilidade em que o elemento sacrificial, o sentimento de horror sagrado se ligou até mesmo, em estado atenuado, ao prazer edulcorado; em que, por outro lado, o gosto do sacrifício e a emoção que ele liberava nada tinham que parecesse contrário ao gozo.
É preciso dizer também que o sacrifício era, como a tragédia, o elemento de uma festa: ele anunciava uma alegria deletéria, cega, e todo o perigo dessa alegria, mas este é justamente o princípio da alegria humana: ela excede e ameaça de morte aqueles que carrega em seu movimento.
A angústia alegre, a alegria angustiada
À associação da morte ao prazer, que não é dada, pelo menos não é imediatamente dada na consciência, opõe-se evidentemente a tristeza da morte, sempre como pano de fundo da consciência. Em princípio,conscientemente, a humanidade "recua de horror diante da morte". Em seu princípio, os efeitos destruidores da Negatividade têm a Natureza por objeto. Mas se a Negatividade do Homem o leva colocar-se diante do perigo, se ele faz de si mesmo, pelo menos do animal, do ser natural que ele é, o objeto de sua negação destruidora, sua condição banal é a inconsciência em que se encontra em relação à causa e aos efeitos de seus movimentos. Ora, foi essencial para Hegel tomar consciência da Negatividade como tal, capturar-lhe o horror, nesse caso o horror da morte, sustentando e olhando a obra da morte bem no rosto.
Hegel, dessa maneira, opõe-se menos àqueles que "recuam" do que àqueles que dizem: "não é nada". Ele parece se distanciar mais daqueles que reagem alegremente.
Insisto, querendo fazer destacar, o mais claramente possível, para além da sua semelhança, a oposição entre a atitude ingênua e a Sabedoria – absoluta – de Hegel. Não estou certo, de fato, de que, entre as duas atitudes, a menos absoluta seja a mais ingênua.
Citarei um exemplo paradoxal de reação alegre diante da obra da morte.
O costume irlandês e galês do "wake" é pouco conhecido, mas ainda podia ser observado no fim do século passado. É o assunto da última obra de Joyce,15 Finnegan's Wake,16 é o velório de Finnegan (mas a leitura desse romance célebre causa no mínimo mal-estar). No país de Gales, dispunha-se o caixão aberto, em pé, no lugar de honra da casa. O morto era vestido com suas mais belas roupas, coberto com a cartola. Sua família convidava todos os amigos, que tanto mais honravam àquele que os havia deixado quanto mais tempo dançassem e bebessem desbragadamente à sua saúde. Trata-se da morte de um outro, mas em tais casos, a morte do outro é sempre a imagem de sua própria morte. Ninguém poderia se regozijar assim a não ser com uma condição; o morto, que é um outro, estando supostamente de acordo, o morto que o beberrão será na sua hora não terá um sentido diferente do primeiro.
Essa reação paradoxal poderia responder ao anseio de negar a existência da morte. Anseio lógico? Creio que não é nada disso. No México, em nossos dias, é comum encarar a morte no mesmo plano que o divertimento: vê-se nela, nas festas, fantoches-esqueletos, açucareiros-esqueletos, carrosséis de cavalos-esqueletos, mas a esse costume se liga um culto intenso dos mortos, uma obsessão visível com a morte.17
Não se trata, se encaro a morte alegremente, de dizer de minha parte, desviando-me do que me amedronta: "não é nada" ou "é falso". Ao contrário, a alegria, ligada à obra da morte, me dá angústia, ela é acentuada pela minha angústia e exaspera essa angústia em contrapartida: finalmente, a angústia alegre, a alegria angustiada me proporcionam, num quente-frio, o "absoluto dilaceramento", onde é a minha alegria que acaba de me dilacerar, mas onde o abatimento acompanharia a alegria se eu não estivesse dilacerado até o fim, sem medida.
Gostaria de tornar sensível uma oposição precisa: de um lado a atitude de Hegel é menos inteira que a da humanidade ingênua, mas isso só faz sentido se virmos, reciprocamente, a atitude ingênua impotente em manter-se sem subterfúgios.
O discurso dá fins úteis ao sacrifício "a posteriori" ["après coup"]
Liguei o sentido do sacrifício à conduta do Homem uma vez satisfeitas as suas necessidades de animal: o Homem difere do ser natural que ele também é: o gesto de sacrifício é o que ele é humanamente, e o espetáculo do sacrifício torna portanto a sua humanidade manifesta. Liberado da necessidade animal, o homem é soberano: faz o que lhe apraz, a seu bel prazer. Ele pode fazer enfim nessas condições um gesto rigorosamente autônomo. Enquanto tivesse que satisfazer necessidades animais, ele precisava agir com vistas a um fim (ele devia prover-se de alimentos, proteger-se do frio). Isso supõe uma servidão, uma sequência de atos subordinados ao resultado final: a satisfação natural, animal, sem a qual o Homem propriamente dito, o Homem soberano, não poderia subsistir. Mas a inteligência, o pensamento discursivo do Homem se desenvolveram em função do trabalho servil. Só a palavra sagrada, poética, limitada ao plano da beleza impotente, conservava o poder de manifestar a plena soberania. O sacrifício só é portanto uma maneira de ser soberana, autônoma, na medida em que o discursosignificativo não o informa. Na medida em que o discurso o informa, o que é soberano é dado em termos deservidão. De fato, o que é soberano, por definição, não serve. Mas o simples discurso deve responder à questão colocada pelo pensamento discursivo no tocante ao sentido que cada coisa deve ter no plano da utilidade. Em princípio, ela está ali para servir a tal ou qual fim. Assim, a simples manifestação do liame do Homem com o aniquilamento, a pura revelação do Homem a si mesmo (no momento em que a morte fixa a sua atenção) passa da soberania ao primado dos fins servis. O mito, associado ao rito, teve inicialmente a beleza impotente da poesia, mas o discurso em torno do sacrifício deslizou para a interpretação vulgar, interessada. A partir de efeitos ingenuamente imaginados no plano da poesia, como o apaziguamento de um deus, ou a pureza dos seres, o discurso significativo deu como fim da operação a abundância da chuva ou a felicidade da cidade. A volumosa obra de Frazer, que evoca as mais impotentes formas de soberanias e, segundo a aparência, as menos propícias à felicidade, tende a reduzir geralmente o sentido do ato ritual aos mesmos fins do trabalho nos campos, fazendo do sacrifício um rito agrário. Hoje, essa tese do Ramo de ouro está desacreditada, mas ela pareceu sensata na medida em que os próprios povos que sacrificavam inscreveram o sacrifício soberano no âmbito de uma linguagem de lavradores. De fato, de uma maneira bastante arbitrária, que nunca justificou o crédito de uma razão rigorosa, esses povos tentaram, e tiveram que se esforçar para submeter o sacrifício às leis da ação, às quais eles próprios estavam submetidos, ou se esforçavam por se submeter.
Impotência do sábio em alcançar a soberania a partir do discurso
Assim, a soberania do sacrifício também não é absoluta. Ela não o é na medida em que a instituição mantém em um mundo da atividade eficaz uma forma cujo sentido é ser, ao contrário, soberana. Um deslizamento não pode deixar de se produzir, em proveito da servidão.
Se a atitude do Sábio (de Hegel) não é soberana, por sua vez, as coisas se passam no mínimo no sentido contrário: Hegel não se distanciou da soberania autêntica e, se não pôde encontrá-la, aproximou-se dela o mais que podia. O que o separou dela seria mesmo insensível, se não pudéssemos entrever uma imagem mais rica através dessas alterações de sentido, que atingem o sacrifício e o reduziram do estado de fim ao de simplesmeio. O que, do lado do Sábio, é a chave de um rigor menor é o fato, não de que o discurso engaje a sua soberania em um quadro que não pode lhe convir e o atrofie, mas precisamente o fato contrário: a soberania na atitude de Hegel procede de um movimento que o discurso revela e que, no espírito do Sábio, nunca é separado de sua revelação. Ela não pode portanto ser plenamente soberana: o Sábio de fato não pode deixar de subordiná-la ao fim de uma Sabedoria supondo o acabamento [achèvement] do discurso. Apenas a Sabedoriaserá a plena autonomia, a soberania do ser... Ela o seria ao menos se pudéssemos encontrar a soberania buscando-a: de fato, se a busco, faço o projeto de ser – soberanamente: mas o projeto de ser – soberanamente supõe um ser servil! O que assegura no entanto a soberania do momento descrito é o "dilaceramento absoluto" de que fala Hegel, a ruptura, por um tempo, do discurso. Mas mesmo essa ruptura não é soberana. É em um certo sentido um acidente na ascensão. Embora ambas as soberanias, a ingênua e a sábia, sejam as da morte, fora a diferença de um declínio no nascimento (da lenta alteração à manifestação imperfeita), elas diferem ainda nesse ponto preciso: do lado de Hegel, trata-se justamente de um acidente. Não é um acaso, uma má sorte, que seriam desprovidos de sentido. O dilaceramento, ao contrário, é pleno de sentido. ("O espírito só obtém sua verdade, diz Hegel (mas sou eu que sublinho), quando se encontra no dilaceramento absoluto.") Mas esse sentido é infeliz. Foi o que limitou e empobreceu a revelação que o Sábio tirou de uma estadia nos lugares em que reina a morte. Ele acolheu a soberania como um peso, e o largou...
Teria eu a intenção de minimizar a atitude de Hegel? Mas é o contrário que é verdadeiro! Quis mostrar o incomparável alcance de seu procedimento. Eu não devia, para esse fim, velar a parte fraca (e mesmo inevitável) do fracasso.
Para mim, é sobretudo a excepcional segurança desse procedimento que se destaca de minhas aproximações. Se ele fracassou, não se pode dizer que foi o resultado de um erro. O próprio sentido do fracasso difere do do erro que o causou: apenas o erro é talvez fortuito. É geralmente, como de um movimento autêntico e grave de sentido, que se deve falar do "fracasso" de Hegel.
Na verdade, o homem está sempre perseguindo uma soberania autêntica. Essa soberania, segundo a aparência, ele a teve em certo sentido inicialmente, mas sem nenhuma dúvida, não poderia então ser de maneira consciente, de modo que em um certo sentido ele não a teve, ela lhe escapou. Veremos que ele perseguiu de várias maneiras o que se lhe esquivava sempre. O essencial sendo que não se pode atingi-lo conscientemente e buscá-lo, pois a busca o distancia. Mas posso acreditar que nunca nada nos é dado senão dessa maneira equívoca.


Tradução de João Camillo Penna 
(UFRJ)


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Referências I 

*20 (Citado por KOJÈVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel. Trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto/Eduerj, 2002: 536.         Links ])
*21 (Op. cit.: 504.)
*22 (Op. cit.: 513.)
*23 (Op. cit.: 536. Ênfase de Bataille.)
*24 (Op. cit.: 498.)
*25 (Trad. Hyppolite, t.1: 29. Citada por Kojève, op. cit.: 505-506.)
*26 (KOJÈVE, op. cit.: 513.)
*27 (KOJÈVE, op. cit.: 514. As palavras são sublinhadas pelo autor.)
*28 (KOJÈVE, op. cit.: 514.)
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Referências II 


1 Excerto de um estudo sobre o pensamento, fundamentalmente hegeliano, de Alexandre Kojève. Esse pensamento quer ser, na medida em que é possível, o pensamento de Hegel tal qual um espírito atual, sabendo o que Hegel não sabia (conhecendo, por exemplo, os acontecimentos após 1917, assim como a filosofia de Heidegger), poderia contê-lo e desenvolvê-lo. A originalidade e a coragem, é preciso dizê-lo, de Alexandre Kojève é ter percebido a impossibilidade de ir mais longe, a necessidade, consequentemente, de renunciar a fazer uma filosofia original, e daí, o recomeço interminável que é a confissão da vaidade do pensamento.
2 "Hegel, a morte e o sacrifício", Deucalion, n° 5 ("Études hégéliennes"), n. 40 de Étre et penser, Cahiers de philosophie, Neuchâtel, outubro, 1955: 21-43.
No mesmo número, Deucalion publica "La critique des fondements de  la dialectique hégélienne", redigido por Bataille em colaboração com Raymond Queneau para La critique sociale (n° 5, março, 1932).
3 Trecho cotejado com o original de Kojève e com a tradução brasileira, ligeiramente modificada. Adotei ao longo de todo o texto o mesmo procedimento. (N. do T.)
4 Neste parágrafo, e no parágrafo seguinte, retomo sob uma outra forma o que diz Alexandre Kojève. Mas não somente sob uma outra forma; devo essencialmente desenvolver a segunda parte dessa frase, difícil, à primeira vista, de ser compreendida em seu caráter concreto: "O ser ou o aniquilamento [néantissement] do 'Sujeito' é o aniquilamento [anéantissement] temporalizante do Ser, que deve ser antes de ser aniquilado: o ser do 'Sujeito' tem necessariamente um começo. E sendo aniquilamento [néantissement] (temporal) do nada [néant] no Ser, sendo nada que aniquila [néantit] (enquanto Tempo), o 'Sujeito' é essencialmente negação de si mesmo: ele tem necessariamente um fim." Em particular, segui para isso (como já o fiz no parágrafo precedente) a parte daIntrodução à leitura de Hegel que responde às partes 2 e 3 do presente estudo, a saber: Apêndice II, "A ideia da morte na filosofia de Hegel": 495-536.
5 Preferi não utilizar a tradução brasileira da Fenomenologia do espírito, por ela se distanciar muito da tradução utilizada por Bataille, de Jean Hyppolite, que permaneceu por muito tempo a tradução canônica de Hegel na França. (N. do T.)
6 "Achever", "achèvement", traduz o verbo "vollenden" e derivados em alemão. Em português, deve ser traduzido por "acabar" no sentido de "realizar". Optei por traduzi-lo em geral por "acabar". Observe-se, no entanto, que "acabar" contém em português uma equivocidade (destruir e completar), aliás perfeitamente dialética, uma equivocidade bem ao gosto de Hegel, que não existe nem em alemão, nem em francês. (N. do T.)
7 Aqui a minha interpretação difere um pouco da de Kojève (op.cit.: 512). Kojève diz simplesmente que a "beleza impotente é incapaz de dobrar-se às exigências do Entendimento. O esteta, o romântico, o místico fogem da ideia da morte e falam do próprio Nada como de algo que existe." (Ênfase de Bataille. [N. T.]) Em particular, ele define assim o místico admiravelmente. Mas a mesma ambiguidade se encontra no filósofo (em Hegel, em Heidegger), ao menos ao final. Na verdade, Kojève me parece estar enganado ao não considerar, para além do misticismo clássico, um "misticismo consciente", que tem consciência de fazer um Ser do Nada, ao definir, além de tudo, esse impasse como o de uma Negatividade que não teria mais campo de Ação (no fim da história). O místico ateu,consciente de si, consciente de dever morrer e de desaparecer, viveria, como Hegel o diz evidentemente de si mesmo, "no dilaceramento absoluto"; mas, para ele, não se trata de um período: em oposição a Hegel, ele não encontraria uma saída, "contemplando o Negativo bem no rosto", mas não podendo jamais transpô-lo em Ser, recusando-se a fazê-lo e mantendo-se na ambiguidade.
8 Fenomenologia, capítulo VIII: A Religião, B: A Religião estética, a) A obra de arte abstrata (tomo II: 235-236). Nessas duas páginas, Hegel mostra o desaparecimento da essência objetiva, mas sem desenvolver-lhe o alcance. Na segunda página, Hegel se limita a considerações próprias à "religião estética" (a religião dos Gregos).
9 Contudo, embora o sacrifício do animal pareça anterior ao do homem, nada prova que a escolha do animal significa o desejo inconsciente de se opor ao animal enquanto tal, é somente ao ser corporal, ao ser dado, que o homem se opõe. Ele se opõe, aliás, também à planta.
10 Bataille utiliza aqui dois verbos, "réfléchir" e "refléter", "refletir" e "produzir um reflexo" físico, que são normalmente traduzidos em português por "refletir". Uso "e ser um reflexo" ("refléter") para dar uma ideia do duplo sentido. (N. do T.)
11 "Répétition" tem em francês o duplo sentido de "repetição" e de "ensaio" no sentido teatral do termo. (N. do T.)
12 Falo mais adiante da comédia.
13 Talvez por falta de uma experiência religiosa católica. Imagino o catolicismo mais próximo da experiência pagã. Quero dizer, de uma experiência religiosa universal de que a Reforma se distancia. Talvez apenas uma piedade católica profunda pudesse haver introduzido o sentimento íntimo sem o qual a fenomenologia do sacrifício seria impossível. Os conhecimentos modernos, bem mais extensos que os do tempo de Hegel, contribuíram seguramente para a solução desse enigma fundamental (por que, sem razão plausível, a humanidade em geral "sacrificou"?), mas creio seriamente que uma descrição fenomenológica correta teria inevitavelmente que apoiar-se no mínimo sobre um período católico.
– Mas de qualquer maneira, Hegel, hostil ao ser sem fazer, – ao que é simplesmente, e não é Ação, – interessava-se mais pela morte militar; foi através dela que ele percebeu o tema do sacrifício (mas ele emprega a própria palavra em um sentido moral): "A condição-de-soldado", diz ele, nas Conferências de 1805-1806, "e a guerra são o sacrifício objetivamente real do Eu-pessoal, o perigo de morte para o particular, – essa contemplação de sua Negatividade abstrata imediata..." (Œuvres, XX: 261-262, citada por Kojève: 522.) O sacrifício religioso não deixa de ter, do próprio ponto de vista de Hegel, uma significação essencial.
14 Isso é pelo menos possível, e, em se tratando das proibições mais comuns, é banal. 
15 Sobre o assunto desse livro obscuro, ver E. Jolas, Élucidation du monomythe de James Joyce (Critique, julho 1948: 579-595).
16 O título do romance de James Joyce é Finnegans Wake, sem o sinal diacrítico, e não Finnegan's Wake, como Bataille o grafa.  Finnegan's Wake, com o apóstrofe possessivo inglês é, no entanto, o título da divertidíssima balada celta do século XIX, a que o título de Joyce remete. A balada relata o velório do irlandês Tim Finnegan, que nasceu "para o amor da bebida", e uma manhã, bastante alto ("rather full"), cai de uma escada, e quebra o crânio. Segue-se o velório, sua mulher coloca o corpo do marido na cama, dispondo uma garrafa de whisky na cabeça e um barril de cerveja preta nos pés do morto.  Os amigos aparecem, o almoço é servido, os convivas bebem, ocorre muita algazarra. Os convivas brigam, até que um pouco de whisky se espalha sobre o corpo do morto, e os "espíritos" da bebida o devolvem à vida. Ele salta da cama "como um troiano" gritando: "pensaram que eu estava morto". O carregador de tijolos, Finnegan, aparece no capítulo introdutório de Finnegans Wake.  É um personagem menor do romance. O episódio que segue de perto o relato da balada celta. Como o personagem da balada, Finnegan cai de uma escada e morre. Segue-se o velório, e a ressureição após o cadáver ser banhado de whisky . É a esse episódio que Bataille se refere. (N. do T.)
17 Isso se destacava no documentário que Eisenstein retirou de seu trabalho para um filme longo: Tempestade sobre o México. O essencial incidia sobre as bizarrices de que falo.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

Professores e o futuro da escola

Aí abaixo você tem um breve artigo sobre o futuro da escola, de autoria do suíço Philippe Perrenoud, uma referência no campo das Ciências da Educação com uma reflexão sociológica de marcante originalidade, ao aliar a fecunda teorização com a preocupação com as questões práticas do cotidiano educacional. É possível que exista quem faça queixas do seu trabalho, 'por conta dos seus textos densos, herméticos'. Oponho duas observações: 1) É provável que parte disso resulte de um problema de tradução das suas obras; 2) É preciso superar, no debate educacional, a tendência a um simplismo pedagógico que tem sido incapaz de sair do mundo das aparências, bem como de fazer a abstração da realidade para colocar em realce o que ela oculta. Poucas palavras bastam. A seguir, o artigo. 

Perrenoud: Escola e professores em foco

Por Philippe Perrenoud
Os conhecimentos são adquiridos. A engenharia genética não é capaz de incorporá-los aos nossos cromossomos. Eles existem na forma de uma rede. Ou seja, seria preciso transplantar um cérebro inteiro para as crianças... Daqui a 25 anos, portanto, os estudantes ainda terão de aprender para saber, isto é, terão de desenvolver uma atividade mental intensa para compreender, memorizar, comparar, organizar os conhecimentos. Talvez os avanços na área de bioquímica do cérebro serão capazes de produzir substâncias que facilitem ou acelerem os processos mentais. Mas daí a aprender sem esforço nem dor...

É provável, igualmente, que dentro de 25 anos se compreenda melhor o processo da aprendizagem e seus obstáculos, tanto no registro cognitivo como no emocional ou no relacional. Talvez se possa esperar por dispositivos didáticos mais eficazes, auxiliados por programas de computador especializados tão fáceis de usar quanto poderosos.
Será que teremos acabado com o fracasso escolar? Pelo menos dois problemas subsistirão: dar sentido aos aprendizados escolares e lidar com a heterogeneidade dos alunos.
O sentido —ou significado— da escola envolve a relação entre investimento e resultados. Uma pedagogia mais eficaz desencorajará menos os alunos, desesperados em ver que seus progressos têm pouca relação com o tamanho dos esforços empenhados. Mas esse sentido também tem relação com o saber, com o projeto de vida. Por que eu aprenderia a jogar golfe ou a cozinhar se não tenho necessidade ou vontade disso?
Hoje em dia, a escola mal consegue fazer com que todos compreendam o interesse em saber ler ou contar. O que dizer, então, de saberes cuja utilidade não é fácil de imaginar, como a álgebra, a biologia, a história, a filosofia? A escola continua muito despreparada diante dos alunos que não têm interesse em "encher a cabeça de coisas inúteis" e que não percebem o poder e o prazer que esses saberes poderiam lhes trazer.
Os currículos por competências podem contribuir para dar sentido ao saber, ligando-os mais explicitamente à ação. As tecnologias —simulação, realidade virtual— podem ajudar a obter uma melhor representação das práticas sociais para as quais os conhecimentos e as competências são essenciais. Mas não há computador capaz de convencer um aluno a aderir à cultura escolar. O trabalho de mediação dos professores continua a ser essencial para seguir as pistas traçadas pela nova pedagogia e pelas pesquisas sobre a relação entre o saber e a construção do sentido.
Do outro lado, o sistema educativo acolhe crianças e adolescentes muito diferentes. Caso continue "indiferente às diferenças", o fracasso escolar persistirá.
O objetivo é, com frequência, propor a cada aluno situações de aprendizagem adequadas para ele —não padronizadas, mas construídas "sob medida". A pedagogia diferenciada passa por uma nova organização do trabalho (ciclos plurianuais de aprendizagem, cooperação entre professores). É preciso, igualmente, haver ferramentas mais precisas de avaliação formativa e de regulamentação.
Mas nenhuma tecnologia, nenhuma reforma estrutural poderá fazer efeito sem mediação pedagógica. Mas esta, para ganhar eficácia, precisa ser confiada a professores cada vez mais qualificados, com ampla cultura na área das ciências humanas, forte orientação para as práticas reflexivas e capacidade de inovação.
Seria ilusório crer que basta o tempo para resolver os problemas. 
A escola, daqui a 25 anos, pode ser ainda menos igualitária e ainda menos eficaz que hoje, se não fizermos nada para enfrentar e resolver seus problemas com nossas próprias mãos. Uma vontade política forte e duradoura pesará mais do que a fé no progresso...
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u511.shtml