quarta-feira, 16 de abril de 2014

Tempo quente em Pernambuco

Não, não é do clássico futebolístico entre Sport e Náutico, que terá lugar hoje (sexta-feira) na capital pernambucana,  que estou a falar. Tampouco é de meteorologia. Do que se trata é que esta semana Pernambuco está a ferver politicamente. Desde segunda-feira, quando o agora ex-governador Eduardo Campos "bateu no peito", "riscou o chão" e, acompanhado da ex-ministra Marina Silva, se apresentou diretamente para a refrega eleitoral presidencial, o caldeirão político na terra do 'Leão do Norte' ferve. O bloco eduardista foi colocado na rua em Brasília, mirando parceria com Aécio Neves - de forma comum, chegam mesmo a falar, para o futuro, em medidas duras, classificadas por Neves como 'impopulares'. No mesmo dia, a Presidente da República aportou em solo pernambucano e se disse pronta para o embate - escolheu a casa do adversário para assim dizer. Vamos a ver o que se vai passar. Enquanto isso, ficamos a pensar nas tais medidas ' duras, impopulares'. O que seriam? O jornalista Paulo Moreira Leite também se indaga a respeito - abaixo, o texto dele. 


IMPOPULARES E AMARGOS EM 2014

O espantoso, na campanha, é que candidatos falam em medidas que prejudicam a maioria dos eleitores e nada acontece
  
Por Paulo Moreira Leite 

Só pode haver algo muito errado numa campanha eleitoral na qual um candidato de oposição diz que não tem medo de tomar “medidas impopulares” e nada acontece.
Assessores de outro candidato de oposição, informa o Pedro Venceslau no Estado de S. Paulo de hoje, admitem em voz baixa que apoiam “medidas amargas.”
Vamos combinar.
Até por uma questão de respeito por cada um de nossos 100 milhões de eleitores, em especial a imensa maioria que é alvo de medidas impopulares e amargas, seria bom saber o que se quer dizer com isso.
Fazendo uma imagem para facilitar o entendimento, vou colocar a coisa em termos bem populares.
É como um sujeito que chega para jantar de luxo, avisa que dentro de alguns minutos pretendem passar na cozinha para bater a carteira dos empregados e nenhum convidado pergunta: como assim? Eles vão deixar?
Na lata? E ainda manda aviso prévio?
Quantos reais podem ser extraídas do bolso de cada brasileiro quando um governante pretende tomar medidas “impopulares?”
Quanto valem os “amargos?”
Este é o debate que importa, não?
Em situações normais, nossos New York Times, Guardian, CNN, El País, Le Monde não deixariam passar uma notícia dessas. Na disputar pelo olhar do público, teriam transformado uma afirmação dessas num escândalo.
Tenho certeza de que Adam Prezeworski, o brilhante cientista político que o PSDB adorava ler quando se considerava social-democrata, iria questionar: estamos abandonando a frágil mas necessária relação entre capitalismo e democracia?
Até por uma questão de etiqueta, no mundo inteiro políticos que defendem medidas “não-populares” gostam de disfarçar, dizendo que são na verdade “populares.”
Não é sincero mas é menos arrogante do que entrar numa campanha eleitoral dizendo que se pretende prejudicar a maioria.
Igual a isso é falar em medidas amargas quando faltam poucas semanas para a criançada ganhar os ovos de Páscoa, não é mesmo? No fundo, não espanta.
Um sorridente filósofo-economista em campanha já disse – longe, muito longe dos palanques — que acha que o país não pode conviver com um povo que come bife todo dia. É ruim para o meio ambiente, pretextou, pois gado solta gases para a camada de ozônio.
O cidadão comum – o “popular” que não estava naquele jantar de “impopulares”– , agora você começa a entender a coisa, tem direito a fazer perguntas. Diga rápido o que são medidas “impopulares” para 2015? Por exemplo:
a) o plano é acabar com a lei do salário mínimo?
b) revogar a CLT e informalizar o mercado de trabalho?
c) cortar gastos sociais, o que inclui, você sabe, o Bolsa Família?
d) cortar repasses a bancos oficiais que permitem manter crédito barato para investimentos e emprego?
O debate de política econômica na eleição de 2014 é este. O país vive o menor desemprego de sua história. A economia cresce. Sim. Não tivemos recessão – apesar da torcida impopular.
É preciso ser muito “não-popular” para encher a boca e dizer que “deu errado”, vamos combinar.
Qual a prioridade, para a maioria dos “populares”, num país onde a lei diz que um homem vale 1 voto?
É preciso devotar um desprezo impopular irresistível pela inteligência popular para querer apresentar uma boa folha corrida do PSDB na luta contra a inflação.
A média da inflação no governo FHC foi de 9,2% — depois da moeda nova. A de Lula, que recebeu uma inflação de 12,5%, foi de 5,7%. A de Dilma se encontra em 6,1%.
Em 1995, 1996, 1999 e 2002, a inflação atingiu sob FHC, um patamar que jamais seria repetido, em momento algum, após a chegada de Lula ao Planalto. Ocorreram perdas salariais, que não se verificaram a partir de 2002. Deu errado?
Esse debate distorcido acontece porque estamos em 2002, mais uma vez. Terror eleitoral programado, com ajuda de nossos News of the World. O terror deles funciona com a língua de significados invertidos, onde a verdade é seu oposto.
Você lembra. Em 2002, um economista do Goldman Sachs lançou o “lulômetro”, uma peça de marketing eleitoral disfarçada de cálculo econômico, que pretendia aterrorizar o eleitor com projeções sobre o futuro do país caso Luís Inácio Lula da Silva chegasse a presidência. Ajudou a criar pânico nas bolsas, deixou a classe média amedrontada, criando uma situação política que forçou Lula a fazer concessões além da conta para garantir o início de seu governo. Já vimos este filme. Dez anos depois do lulômetro, o  economista-chefe do mesmo Goldman Sachs disse para a revista Época Negócios que Lula foi o mais competente presidente dos países do G-20.
Os mais espertos impopulares-amargos de 2014 apostam em todas as canoas – não podem se dar ao luxo da imprudência por motivos ideológicos — mas não deixam de notar que uma delas anda na frente. Podem até ter suas preferências profundas mas querem ganhar o jogo de qualquer maneira, não importa o vitorioso. Em caso de derrota, querem colocar uma faca no pescoço de Dilma. Este é o ponto. Por isso falam tanto em mudar o “modelo.” A crítica se concentra em 2009, quando o país enfrentou a maior crise do capitalismo desde 1929 sem desemprego nem recessão. Dizem que o erro foi cometido ali e agora é preciso arrumar a casa. Não perdoam o esforço para resistir a austeridade, as demissões em massa, aos cortes que jogaram a Velha Europa no atoleiro de hoje.
Em 2014, o condomínio Lula-Dilma disputa – como favorito – o quarto mandato consecutivo no Planalto, um feito sem igual na história de nossa República. Não teve ajuda “im-popular” de ninguém.
Em momentos de delírio, os adversários sonharam até com um impeachment auxiliado por um barítono da Baixada Fluminense, não é mesmo? A base é o reconhecimento pelas conquistas que os “populares” obtiveram até aqui. O que se pretende é revogar, uma a uma, aquelas conquistas alinhavadas nos ítens “a” a “d.”
Foi assim há 50 anos, não custa lembrar. Num gesto de grande dignidade, o avô das medidas impopulares chamou de “canalhas” aqueles que pretendiam derrubar, pelas baionetas, um governo que não tomava medidas “impopulares.”
O avô do amargo recusou-se a entregar o cargo, foi para a cadeia depois discursar no rádio em defesa da “revolução pernambucana.”
Está na hora de garantir transparência política na campanha, concorda?

terça-feira, 15 de abril de 2014

Crise do estilo de vida, boa vida e como vivê-la

Aí abaixo você tem um artigo "de fôlego" - revestido de uma histórica incursão analítica no pensamento social - sobre a questão do viver nos dias atuais. E não, não é do "mercado de  autoajuda" que estamos a falar. 

existencialismo sartre humanismo liberdade
O viver contemporâneo: trilha existencialista 


Por Michel Aires de Souza

        No mundo contemporâneo, o estilo de vida entrou em crise. Os valores da modernidade, as tradições, as crenças, as verdades e as formas de conduta se relativizaram.  Essa relativização aconteceu por causa do avanço do progresso do pensamento e do conhecimento técnico e científico.  Vivemos numa época onde as instituições e os códigos sociais e morais não podem mais determinar os modos de vida. Não há mais grupos de referências que poderiam servir de modelos para guiar nossa existência.  Nosso estilo de vida não depende mais de uma autoridade, de uma prática tradicional, de uma meta transcendente ou de um dogma religioso. O lado sombrio disso, segundo Anthonny Giddens, é o aumento das dependências e compulsões, como o alcoolismo e as drogas.  “Podemos ser viciados em trabalho, em exercícios, comida, sexo – ou até em amor. Isso ocorre porque essas atividades, e outras partes da vida também, estão muito menos estruturadas pela tradição e o costume do que eram outrora” (Guidens, 2006, p.56).  Apesar desse diagnóstico sombrio, trataremos de demonstrar que essa crise do estilo de vida não é um mal, mas uma promessa de felicidade, de autonomia, de liberdade e de um futuro mais pleno para o ser humano.  Hoje podemos ter um estilo de vida mais autônomo, mais aberto e reflexivo.  A responsabilidade por nossa vida cabe a nós. “Ali onde a tradição declina, e a escolha do estilo de vida prevalece, a individualidade não fica isenta. O senso de identidade tem que ser criado e recriado de forma mais ativa que antes” (Guiddens, 2006, p. 57). Mas essa crise no estilo de vida, essa liberdade e autonomia que experimentamos no mundo contemporâneo é bastante recente. Os antigos e os medievais nunca as experimentaram, nunca foram verdadeiramente livres.
        Os antigos gregos pensaram sua existência e ordenavam sua vida a partir da ideia de Cosmo, cujo significado grego é ordem.  O mundo foi compreendido como um todo universal ordenado, possuindo uma racionalidade intrínseca a sua própria natureza.   O problema ético de como devemos viver a vida foi determinada por essa noção.  O conhecimento visava um aprimoramento da vida interior e também deveria determinar as normas universais da própria existência. Cabia a cada qual, através da razão,  buscar as normas universais que deviam guiar a própria vida, propiciando o conhecimento de como enfrentar as adversidades,  de como viver melhor e de como atingir a serenidade interior.   A vida dos antigos tinha um télos, uma finalidade determinada pela ideia de natureza.  Epicuro em 306 a.C chegou a abrir uma escola, o “Jardim de Epicuro”, ensinando como enfrentar as perturbações da alma, as adversidades da vida e como buscar o prazer de forma moderada. A filosofia era, para ele, um remédio (pharmakon) que podia libertar os indivíduos de suas perturbações e das crenças infundadas que os atemorizavam, era um discurso que deveria guiar o indivíduo no autodomínio das paixões e na busca da serenidade da alma.  O seu principal ensinamento afirmava que não são as festas contínuas, nem os prazeres da sensualidade ou os prazeres da mesa que tornam a vida boa e agradável, mas sim o sóbrio raciocínio que pondera tudo e procura compreender as causas de todas as nossas escolhas ou repulsas, ensinando-nos a desvencilhar das opiniões e das perturbações que se apoderam do nosso espírito. Segundo esse ensinamento, todo indivíduo deveria obedecer à natureza e não as vãs opiniões, sendo racionais e prudentes em todos os seus empreendimentos.
        Tal como Epicuro, no livro “Ética e Nicômaco”, Aristóteles concebe a felicidade como atividade prática da razão. Segundo seu principal o argumento, a faculdade do pensar é o que há de melhor no ser humano, sendo esta sua melhor virtude, nesse sentido reside na razão o critério da boa vida e do bem viver.  Para que o indivíduo tenha uma existência feliz é necessário o hábito continuado da prática da virtude e da prudência. Dessa forma, a felicidade está ligada a uma sabedoria prática, a de saber fazer escolhas racionais na vida. É feliz aquele que escolhe o que é mais adequado para si. Essas escolhas devem ter como critério a moderação. Toda escolha exige uma mediania, um equilíbrio entre o excesso e a falta.
         A filosofia estóica também elegeu a razão como critério para guiar nossa vida. Segundo essa filosofia, o universo é um todo racional dotado de sentido e significado, como um corpo determinado por um sopro vital (pneuma), onde todas as suas partes são interdependentes. Esse todo foi identificado pelos estóicos como razão (Logos). O mundo seria governado por esse logos universal responsável pela regularidade e harmonia de todas as coisas. Nesse sentido, a natureza é a própria personificação da justiça divina que deveria ordenar as relações sociais e a nossa vida interior. A conduta humana deveria ser guiada pela natureza evitando todo tipo de irracionalidade.  O que a natureza nos ensina como manifestação desse logos é a prudência em todas as nossas ações. Para o estoicismo, a prudência seria o caminho para chegarmos à virtude. Ser virtuoso é viver conforme os preceitos da razão aceitando o destino e conservando a serenidade do espírito, apesar de todas as adversidades.  Sêneca, um dos maiores representantes do estoicismo, em uma carta ao seu amigo Sereno, ensinou o caminho da virtude, pois este vivia numa angustia interior diante dos prazeres da vida e da riqueza. Sêneca o aconselhou a ficar distante do luxo e a usar as coisas conforme sua utilidade, e a não comer e vestir-se segundo as exigências da moda.  Também aconselhou “a cultivar a sobriedade; e a moderar nosso amor ao fausto; a reprimir nossa vaidade; a dominar nossas cóleras; a considerar a pobreza com um olhar calmo; a considerar a frugalidade, apesar de todos aqueles que acharão aviltante satisfazer tão modestamente a seus desejos naturais; a não ter nas mãos, por assim dizer, as ambições desenfreadas de uma alma sempre inclinada para o dia seguinte e a esperar a riqueza menos da sorte do que de nós mesmos” (Sêneca, 1973, p. 215).    Para Sêneca,  a boa vida está em se dedicar a si mesmo. Em sua época, ele notou que os homens desperdiçavam sua vida com banalidades, viviam agitados, sempre em busca de alguma coisa. Ele observou que uns desperdiçavam sua vida em trabalhos supérfluos,  outros viviam apenas dos prazeres da sensualidade, uns se preocupavam apenas com a opinião alheia, outros apenas comerciavam e não tinham tempo para usufruir. Em uma carta para seu amigo Paulino, ele expressou esse sentimento: “não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de importantes tarefas. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai” (Sêneca, 2006, p.26). A filosofia antiga tinha como critério da conduta humana uma concepção objetiva da razão. A razão não era somente uma faculdade subjetiva, mas era a consciência cósmica que governava todas as coisas, era o princípio ordenador de todo universo.
          Na idade média, a filosofia cristã também procurou pensar o problema ético de como devemos viver a vida. Contudo, não é mais no cosmo que se apóia a busca da felicidade e da conduta humana, mas em Deus.  Deus torna-se a pedra angular da conduta e da vida moral dos homens.  Para Santo Agostinho (354-430), o maior problema que o homem deve resolver em sua vida é o problema da felicidade. Por toda vida, ele buscou atingir esse objetivo, primeiro na vida devassa, onde se embriagava e vivia dos prazeres do corpo, depois na filosofia, tomando como critério a razão, mas foi somente na revelação cristã que conseguiu uma resposta para sua inquietação. Só alcançou a felicidade através de um encontro pessoal com Deus. Mas este encontro só foi possível através da fé. Segundo ele, “é necessário crer para compreender, assim como é necessário compreender para crer”.  O homem que quer viver uma boa vida é aquele que busca Deus em sua conduta. A felicidade é um dom de Deus. “Então, como vos hei de procurar, Senhor? Quando vos procuro, meu Deus, busco a vida feliz. Procurar-vos-ei, para que a minha alma viva. O meu corpo vive da minha alma e esta vive de vós”. (Santo Agostinho, 1996, p.279).  Para Agostinho, o homem deve ser digno de receber a felicidade. A felicidade é um bem eterno alcançado pela plenitude espiritual. Essa plenitude só pode ser alcançada através da busca da verdade e a verdade está em Deus. Deus é felicidade porque é a verdade.  “A vida feliz consiste em nos alegrarmos em Vós, de Vós e por Vós. Eis a vida feliz, e não há outra”. (Santo Agostinho, 1996, p.282).
         Outro grande filósofo cristão que influenciou toda a idade média e pensou o problema da boa vida e do bem viver foi Santo Tomás de Aquino (1225-1274).   Como bom aristotélico, Santo Tomás de Aquino afirmava que todo ser humano se orienta pela ideia de bem e de felicidade. Assim a felicidade deve estar ligada a um bem infinitamente bom e perfeito: Deus. Esse bem infinitamente perfeito só pode ser alcançado através da razão. A razão deve ser o guia da vontade, pois a vontade naturalmente procura o bem para si mesmo. A razão percebe pela análise que os bens terrenos não satisfazem o homem, pelo contrário muitas vezes os tornam infelizes. Com isso, ela chega à conclusão que o único bem que pode preencher adequadamente o ideal de felicidade humana, é Deus. “O homem só alcança a felicidade se atingir o bem adequado à sua natureza racional. E é através da razão que se conhece esse bem e os meios para atingi-lo, uma vez que só a razão é capaz de aprender a realidade objetiva do bem e dos meios que permitem realizá-lo”. (Costa, 1993, p.70). Para Tomás de Aquino, o animal alcança seu destino e perfeição através dos instintos. O homem, por sua vez, é um ser racional dotado de consciência e vontade, dessa forma ele deve se orientar através de sua razão, de forma livre e voluntária, na busca de sua perfeição e felicidade aqui na terra.  Se Deus é a causa primeira do universo, então “todas as criaturas estão ordenadas e são conduzidas aos seus respectivos fins pela ação da causa primeira manifestada pela providência divina” (Costa, 1993, p.67).  Dessa forma, a felicidade não se encontra nos bens exteriores, mas no íntimo de cada homem. O homem que busca a felicidade deve se voltar para si mesmo, no íntimo de sua alma ele vai encontrar Deus. Nesta ascese, no íntimo de seu ser, ele vai descobrir que na vida devemos agir conforme a lei de Deus, de maneira virtuosa e reta, sem nunca nos desviarmos da verdade, somente assim atingiremos a plena felicidade.
        Com o advento do mundo moderno não há mais critérios pelas quais podemos guiar nossa vida. O homem deve contar consigo mesmo na busca da felicidade. Aquele mundo fechado, ordenado, hierarquizado, fundamentado nas verdades reveladas da fé deixou de existir. O homem deixou de se preocupar com a outra vida e passa a se preocupar com essa vida, com esse mundo. Ele abandona as metas transcendentes e descobre um mundo cheio de possibilidades, de aventura, onde o corpo e não mais a alma é objeto de satisfação.  É a época do antropocentrismo, das grandes descobertas e da reforma protestante. O protestantismo dá um novo rumo à religião. O homem não é mais um ser passivo submetendo-se aos preceitos e dogmas religiosos, esperando receber a graça divina. Ele agora é um ser ativo que busca no trabalho glorificar Deus e reconhece a riqueza e a felicidade humana nessa atividade. Com a invenção da imprensa e com o progresso das ciências que dissemina o racionalismo, o indivíduo torna-se livre e responsável por seus atos e por sua felicidade.  O conhecimento que começou a se desenvolver nessa época buscava provar que não existe, em princípio, nenhum mistério ou poder misterioso imprevisível por trás do mundo e que as ciências podem dominar tudo através da previsão e do cálculo.
        No início da modernidade, pensadores como Hobbes e Maquiavel demonstraram que a propensão para o bem e para a construção da boa sociedade não está inscrita na natureza humana. Esta, ao contrário, é, em sua própria essência, má, daí a necessidade de um poder institucionalizado que contenha os conflitos e os maus instintos do homem, satisfazendo o  desejo de paz, segurança e tranqüilidade, que estão ausentes no estado de natureza. A boa vida passa a ser pensada no âmbito da sociedade. A sociedade é um campo de forças onde os melhores são beneficiados: “vive bem aquele que se dá melhor”. Aquele que tem mais poder, dinheiro e capital social são beneficiados na luta pela existência. A busca da boa vida surge como ação instrumental. O indivíduo deve coordenar sua ação de tal modo que ele possa enganar a Fortuna, entendendo por esse conceito, aquilo que não se pode prever, calcular, ponderar. Deve-se saber escolher bem a ação que a ocasião determina.  Foi o que Maquiável chamou de virtú (virtude). A virtude aqui não deve ser entendida no sentido moral, devemos entendê-la como a capacidade de saber agir diante das contingências da vida, como a capacidade de criar estratégias para se dar bem diante da Fortuna.  Isso significa que não podemos conduzir nossa vida por um ideal, mas sim pelas circunstâncias.
       Essa ética do mais forte foi logo substituída com os novos valores do iluminismo. A expansão do capitalismo, nos séculos XVII e XVIII, possibilitou a tomada de consciência da classe burguesa. A revolução industrial, a tecnologia e o desenvolvimento das ciências possibilitaram ao homem uma forte crença no poder da razão para modificar a existência e criar um ideal de felicidade humana aqui na terra. Os iluministas acreditavam no poder da razão para conhecer os produtos transitórios da existência, assim como intervir na realidade para melhorar a vida dos indivíduos. É nessa época que surge um dos principais pensadores iluministas: Immanuel Kant. Em seu texto “O que é ilustração”, a razão deveria libertar os homens de sua “menoridade”, abandonando as crenças, opiniões e toda forma de misticismo, levando-os a autonomia de pensamento. Em outro texto, “Fundamentação da metafísica dos costumes”, a razão adquire um caráter legislador, ela torna-se a faculdade que deve fundamentar as normas universais da moralidade. Essas normas são determinadas apriori, tendo que ser obedecidas como deveres universais. Ao seguirem os imperativos categóricos determinados pelo próprio pensamento, os indivíduos deveriam criar um mundo livre, mais justo e igualitário, uma vez que obedecem à liberdade da razão.  Kant acreditava que, se fosse possível uma ética do dever universal, a humanidade poderia eliminar as guerras, a fome, a violência e a miséria. Contudo, esse ideal não se concretizou, com o progresso da razão e das ciências a humanidade, em vez de realizar a paz e a felicidade aqui na terra, criou um mundo cada vez mais de barbárie e regressão social. Fomos expectadores de duas grandes guerras mundiais, tivemos a experiência de seis milhões de judeus mortos, ficamos perplexos com as bombas de Hiroshima e Nagasaki,  acompanhamos pela TV as guerras da Bósnia, Afeganistão  e o ataque ao Wolrd Trade Center. O mundo permanece numa  dialética sem síntese. O progresso do pensamento não libertou a humanidade.
     Em nossa atualidade, o estilo de vida e o bem viver tornaram-se problemáticas, pois não há mais parâmetros pelos quais podemos nos guiar.   O mundo contemporâneo se caracteriza pela perda de valores. As noções como verdade, justiça, razão, virtude foram relativizados como conseqüência do progresso técnico e científico.  Como já havíamos dito, a moral e a religião não possuem mais sentidos universais, fundamentado na tradição. Os valores se relativizaram. Aquilo que denominamos tradição parece não mais existir.  Vivemos numa época onde  os códigos morais, sociais e institucionais já não podem mais determinar os modos de existência. Não há mais grupos que poderiam servir de modelos para a vida dos indivíduos. A experiência contemporânea é determinada pelo fim dos padrões, da tradição, dos dogmas, da estabilidade, da segurança. Vivemos na era das incertezas, do medo e da insegurança. Se este diagnóstico é correto, como podemos pensar o estilo de vida hoje?
        Nossa vida é regida por ações, escolhas que vão se somando. Cada gesto vai determinando o que nós somos ou que podemos ser, cada gesto tem enormes implicações para nosso futuro. Cada dia almejamos alvos cada vez mais longínquos e mais essenciais à nossa felicidade. No mundo das incertezas em que vivemos, não há uma fórmula para a melhor forma de se viver. Cada qual deve descobrir qual é o caminho para a felicidade pessoal. A nossa existência pode, a cada momento de sua história, ser diferente do que ela é. Tudo pode mudar, seja pelas contingências da vida, seja por nossa própria ação. O que descobrimos nesses três mil anos de história da civilização ocidental, é que o mundo é contingente.   Estamos finalmente livres, não há mais dogmas, não há mais um cosmo para nos guiar. Ninguém pode nos oferecer uma resposta para nossa vida pessoal, ninguém mais pode dizer como devemos viver a vida, como podemos ser felizes. A vida boa depende de nós. Nietzsche expressa de forma  poética essa verdade.  Diz ele: “ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.  Ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias. Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar. Onde leva? Não perguntes, segue-o!”  Ou seja, não são os livros de auto-ajuda que  nos ajudarão atravessar a ponte da existência. Somente nós podemos escolher o caminho de nossa vida. O mundo é feito de escolhas, sejam elas boas ou más. Temos que necessariamente escolher qual caminho devemos tomar. É claro que essas escolhas nos trarão angústia, mas não há outra maneira. A responsabilidade cabe a nós mesmos. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”,  bem disse Ortega Y Gasset.  O homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire a plena consciência de suas circunstâncias.  Temos que aceitar as nossas circunstâncias tais como elas são, mas não podemos nos encerrar nelas. Temos que alargá-las, temos que ultrapassá-las, não podemos ficar apenas em seus limites. Temos que saber encontrar o nosso lugar na perspectiva maior do mundo. Para Gasset, é por meio das circunstâncias que os indivíduos se comunicam com o universo.

Bibliografia
Aristóteles. Ética a Nicômaco. Edipro, São Paulo, 2007.
Agostinho, Santo. Confissões. São Paulo, Nova Cultural, 1996.
Costa, José S. Tomás de Aquino: a razão a serviço da fé. São Paulo: Moderna, 1993
Epicuro. Antologia de textos de Epicuro. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural,1973.
Giddens, Anthony.  Mundo em descontrole: o que a globalização está fazendo de nós. Rio de janeiro: record, 2006.
Kant. Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. In: Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974. p. 195-256.
_____________. O que é o Esclarecimento? In: Textos Seletos. Trad.  Raimundo Vier. Petrópolis: vozes, 1985.
Sêneca, Lúcio A. Da tranquilidade da alma. Col.Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural. 1973
___________. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: L&PM Pocket. 2007.
Ortega Y Gasset, J. Meditações do Quixote. São Paulo: Iberoamericana, 1967.

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Fonte: http://filosofonet.wordpress.com/2013/04/03/a-crise-do-estilo-de-vida-no-mundo-contemporaneo-a-boa-vida-e-como-devemos-vive-la/

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Coragem, ação e segurança pública

A pesquisa social tem avançado bastante no estudo do 'complexo mundo' da segurança pública, aí incluindo-se também as particularidades dos aparelhos policiais e suas lógicas. Claro, esse é um trabalho demorado, mas, uma vez estabelecida a ponte, os canais se abrem, contactos são feitos e se pode circular no meio. No conjunto das investigações que tenho conduzido sobre escolares e drogas, isso tem ficado bastante evidente. De outra parte, o avanço da pesquisa social nessa 'intrincada seara', começa a dar frutos - sugestões suas têm sido acolhidas. Um exemplo é a ideia do Pacto pela Vida na cidade do Recife, com discussões sendo realizadas em consulta pública, aglutinando esferas do Estado e da sociedade civil. Nessa empreitada, o vereador recifense Henrique Leite tem sido lapidar ao assinalar a necessidade de coragem e ação no trato da segurança pública. Como o seu irmão, deputado Sérgio Leite, Henrique é oriundo de uma estirpe política que lhe confere autoridade, sendo também originário dos quadros da polícia civil.  Planejamento, inteligência, ação calculada/sem os calores de momento. Iniciativas articuladas com política públicas efetivas. Eis aí um caminho que os gestores públicos devem ter em conta na abordagem do tema da segurança pública. 


sexta-feira, 4 de abril de 2014

'A arte de reduzir cabeças' e a dialética da análise social

No primeiro capítulo de L'arte de reduire les têtes ('a arte de reduzir cabeças'), Robert Dufour, indo da 'histeria à histerologia', em tese teria feito correr tintas assaz enigmáticas. Em tese. Mas, para saber a razão desse 'em tese', teremos que começar uma prosa crítica a long time ago: buscando ferramentas desveladoras da histeria como a mais emblemática forma de neurose. Pois bem, este é um tema tratado no novo número da Revista Lusitana de Teoria Social Comuneiro, mediante a instigante abordagem histórico-filosófica de João Esteves da Silva. Também estamos lá com um ensaio designado 'Notas sobre Tecnologias, Trabalho e Sociedade'. A Revista, levando a efeito a sua característica dialética da análise social,  pode ser lida aqui: http://www.ocomuneiro.com/

sexta-feira, 28 de março de 2014

Consciência intelectual e 'solidão no alvorecer'

A propósito da última postagem (acerca do trabalho intelectual), um amigo do Rio Grande do Sul me encaminha um texto sobre a consciência intelectual, com o adorno da 'solidão do alvorecer'. É resultado das atividades do Grupo de Estudos Nietzsche, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), e trata de um dos aforismos desse pensador (A Gaia Ciência §2), comentado por José Luiz Votto. Publicado a seguir. 
'Solidão no alvorecer', Johann Heinrich Füssli

Por José Luiz Votto 

Neste aforismo, Nietzsche questiona as formas com que as pessoas se relacionam com as suas crenças. Enquanto por uma via há aqueles que possuem crenças mesmo sem fornecer as razões para elas; por outro lado há a via da suspeita. Sendo assim, Nietzsche inicia o aforismo argumentando que embora não queira acreditar naquilo que sua experiência lhe mostra como evidente, a saber, que “a grande maioria das pessoas não tem consciência intelectual”, tal observação é palpável demais para que consiga se rebelar contra ela. O filósofo alemão diagnostica que aqueles que consideram necessária tal consciência, e a exigem dos outros, encontram-se solitários, ainda que rodeados de pessoas, como nas cidades populosas, já que não há pares nessa sua exigência no trato com as crenças.
Nietzsche também aponta que não só as pessoas são desprovidas da referida consciência intelectual, como também são indiferentes àqueles que as alertam a respeito disso. Portanto, a indiferença das pessoas frente a este questionador funciona como um agravante ao deserto da sua solidão. Isto porque a indiferença se apresenta como a ausência de oposição, ou seja, sequer existe uma tensão, uma forma de interação com o questionador, ainda que de conflito. Logo, aquele que aponta que a forma de valorar das pessoas possa estar sendo injusta não recebe como retorno sequer indignação, e quando muito a reação será a de uma risada sobre a sua dúvida.
         Assim, a consciência intelectual está diretamente ligada à suspeita, à dúvida. Para Nietzsche, a grande maioria (o que incluiria “os mais talentosos homens e as mais nobres mulheres”) sequer duvida de suas crenças, não vê o problema que é estabelecer seus valores sem uma ponderação racional: “a grande maioria não acha desprezível acreditar isso ou aquilo e viver conforme tal crença, sem antes haver se tornado consciente das últimas e mais seguras razões a favor ou contra ela, e sem mesmo se preocupar depois com tais razões”. Assim, por melhor que seja alguém, por mais que seja dotado de “bondade, finura e gênio”, ainda seria um ser inferior, posto que de nada adianta tais virtudes se tal pessoa tolera em si mesma “sentimentos frouxos ao crer e julgar”, ou seja, se esta pessoa é leviana quanto ao que acredita e não tem a necessidade de buscar a certeza, o que caracteriza os homens superiores e os diferencia dos inferiores. 

         Até no piedoso, personagem que Nietzsche não admira, o filósofo identifica um ponto que nos melhores homens e mulheres não encontrou: este tem ódio à razão, o que seria uma tomada de posição frente à consciência intelectual, rejeitando-a, o que difere daqueles que são simplesmente indiferentes à ela. O que é desprezível para Nietzsche é estar diante de “toda a maravilhosa incerteza e ambigüidade da existência” e não se posicionar, nem interrogar e nem ter ódio por quem interroga, como o piedoso. Nietzsche aponta, então, que o que procura primeiramente nas pessoas é a percepção do quanto isto é desprezível, e argumenta que “algum desatino está sempre a me convencer de que todo ser humano tem esta percepção, como ser humano. É minha espécie de injustiça”. Ou seja, está sendo injusto na medida em que pensa que todos tem tal percepção, o que está relacionado com o aforismo seguinte, §3: Nobre e Vulgar, em que escreve sobre a “eterna injustiça dos nobres”. Tal injustiça significa que os nobres consideram sua idiossincrasia do gosto necessária a todos, afirmam posições novas partindo desta sua idiossincrasia, o que só é possível na medida em que estes não sentem a si mesmos como naturezas excepcionais.

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Fonte: http://grupodeestudosnietzsche-ufpel.blogspot.com.br/2013/07/a-gaia-ciencia-2-consciencia-intelectual.html

quinta-feira, 27 de março de 2014

Trabalho intelectual: inquietação e sentido de existir


Consta que, certa feita, ao ser questionado porque viajava tanto, porque não se contentava em dizer a sua palavra em uma única universidade, Henri Lefebvre terá respondido que 'isso tem a ver com a genuinidade do meu ofício'. Queria dizer que o exercício efetivo do trabalho intelectual, do ato de pensar, superando a doxa, não se contenta com "acantonamento" em um único contexto. É como se, a cada intervenção, a cada interlocução com públicos diferentes, em contextos diferentes, se reabastecesse com mais "combustível" para continuar o exercício do ofício. Disso implica que pode se encontrar muito bem em um contexto, mas mudar para outro - aliás, foi assim com o sociólogo Manuel Castells, quando deixou a Universidade de Paris e rumou para Berkeley. É possível que Lefebvre tenha sido incompreendido em sua resposta, como é bem provável que também o sejam aqueles que da mesma forma, hoje, continuam a proceder. Em dada altura, Goehte afirmou: se me perguntares como é a gente daqui, responder-te-ei: como em toda parte. A espécie humana é de uma desoladora uniformidade; a sua maioria trabalha durante a maior parte do tempo para ganhar a vida, e, se alguns horas lhe ficam, horas tão preciosas, são-lhe de tal forma pesadas que busca todos os meios para as ver passar. Triste destino o da humanidade! Ao realçar isso, como abertura do seu livro Adeus ao Trabalho?, Ricardo Antunes acrescentou: o trabalho intelectual, em seu sentido profundo e verdadeiro, é um dos raros momentos de contraposição a esta desoladora uniformidade. Talvez assim possamos, ontologicamente, começar a entender o sentido daquela resposta de Henri Lefebvre. Mas, o genuíno exercício do trabalho intelectual, nos dias presentes, não tem sido fácil - questão esta que é enfatizada no curto artigo abaixo. 


Por Émilien Vilas Boas Reis
(Doutor em Filosofia, PUC-Rio de Janeiro) 

Qual o papel do intelectual em uma sociedade pragmática, utilitarista, “materialista” e conformada? Parece que há uma grande dificuldade em situar esta emblemática figura no mundo atual. Claro que o intelectual sempre foi considerado um pária da sociedade. Como não esquecer a simbólica figura de Giordano Bruno (1548-1600), queimado como herege no século XVI por não abrir mão de suas ideias? O que ocorreu com Bruno simboliza a perseguição inerente ao verdadeiro pensador. 

No mundo hodierno, o próprio intelectual tem dificuldade em se situar. Se alguma profissão não for contabilizada nas engrenagens utilitaristas não serve. Mas, em um tempo essencialmente plural, como o nosso, há espaço e necessidade para profissões de cunho mais teórico, tão desvalorizada. 

O que vem ocorrendo, no entanto, é a própria entrega do intelectual dentro dessa engrenagem. Percebe-se uma necessidade que o homem de ideias tem de participar da vida ativa para se sentir útil, e tornar sua profissão mais “prática”. Em alguns países, como a França, por exemplo, o “engajamento” atual do intelectual depende de sua atuação em áreas governamentais ou do terceiro setor. Alguns se tornam políticos profissionais, enquanto outros criam ONGs a fim de terem voz ativa. 
No Brasil, não vem sendo diferente, muito pelo contrário. Enfatizado pela nossa falta de tradição no campo das ideias, o que vem ocorrendo é que o intelectual, de forma acrítica, aceita cargos burocráticos nos governos vigentes, o que lhe faz calar ante as calamidades ocorridas. Criam-se situações absurdas, pois o intelectual, preso a ideologias e governos, não tem coragem de explicitar os erros cometidos, calando com certa conveniência. 
Há intelectuais que, apesar de estarem presentes em veículos de comunicação de massa, acabam adequando seu discurso em prol daquilo que aparece como mais palatável para a opinião pública. Outros intelectuais, por sua vez, com necessidades de “mudar o mundo” se entregam ao pragmatismo vigente, ao ativismo pelo ativismo, o "militantismo cego”. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

'Fado da Tristeza'


Música e arranjo de José Mário Branco, letra de Manuela de Freitas - do Álbum Ser Solid(t)ário  


Não cantes alegrias a fingir 
Se alguma dor existir 
A roer dentro da toca 
Deixa a tristeza sair 
Pois só se aprende a sorrir 
Com a verdade na boca

Quem canta uma alegria que não tem 
Não conta nada a ninguém 
Fala verdade a mentir 
Cada alegria que inventas 
Mata a verdade que tentas 
Pois e tentar a fingir

Não cantes alegrias de encomenda 
Que a vida não se remenda 
Com morte que não morreu 
Canta da cabeça aos pés 
Canta com aquilo que és 
Só podes dar o que é teu


quarta-feira, 19 de março de 2014

Educação, terra e sustentabilidade

Aí abaixo o registro de um livro que acaba de ser publicado, e que produzi em coautoria com um colega de Departamento/UFPB, o Prof. Antonio Alberto, além do contributo de vários outros colaboradores. Um agradecimento especial às acadêmicas Ana Maria Gomes da Silva e Roseane Benício Costa, bolsistas do projeto/CNPq de onde decorreu o livro, e que foram de um empenho exemplar durante a execução do projeto e, especificamente, na coleta de dados/levantamento de informações para viabilizar a produção. O texto que se segue é o constante da apresentação do livro. 



O presente livro é um dos produtos resultantes da efetivação do Projeto Formação de Agricultores Familiares na Perspectiva da Sustentabilidade Sócio-econômica e Ambiental, desenvolvido sob os auspícios do CNPq mediante recursos obtidos por via do Edital nº 58/2010, e cuja execução ocorreu entre dezembro de 2010 e janeiro de 2014.
Implementado no contexto da educação não-formal, o Projeto teve como propósito geral incentivar e fortalecer a produção agroecológica diversificada, proporcionando segurança alimentar, geração de renda e sustentabilidade econômica, social e ambiental para famílias do Vale do Mamanguape/PB, residentes nos assentamentos Novo Salvador, Jardim e Boa Esperança. Para tanto, objetivando alcançar o referido propósito, foram desenvolvidas ações como: a) promoção da formação continuada em agroecologia e desenvolvimento rural sustentável; b) incentivo ao trabalho coletivo e à gestão participativa no processo de produção; c) realização de intercâmbios de experiência entre as comunidades dos mencionados assentamentos, e com outras, no sentido de compartilhar práticas agroecológicas; d) estímulo ao uso de técnicas de manejo em sistema de produção agroecológica, a exemplo da utilização de tração animal, curva de nível, rotação e consórcio de culturas.
O livro divide-se em três partes. Na primeira, enfoca-se a história da luta pela terra no Vale do Mamanguape-PB, colocando-se em realce depoimentos de protagonistas desse processo[1] e o registro documental do mesmo. Na segunda, o foco incide sobre a resistência e a luta pela permanência na terra, especificamente, nos três assentamentos nos quais o Projeto foi desenvolvido (Novo Salvador, Jardim e Boa Esperança), buscando-se caminhos alternativos, ambientalmente sustentáveis, para a produção local.  Na última parte, através de três trabalhos com autoria individual, realiza-se uma reflexão analítica a respeito de temas centrais do Projeto, como Agroecologia, Educação Popular e Educação do Campo. No todo, o fio condutor que garante unidade à obra consiste exatamente nessa busca de articulação entre a dimensão teórica e a dimensão prática.   
Trata-se de um trabalho que procura corporificar uma abordagem inter/transdisciplinar, ou seja, que não fique adstrita a um enfoque disciplinar específico. É produzido de um modo que dialoga entre disciplinas diferentes e, por vezes, transcende-as, dissolvendo-as umas nas outras. De qualquer forma, na primeira e segunda partes, há uma considerável presença de “aspectos” que, em análise mais sistemática/problematizada, podem evidenciar um realce acentuado da história social[2], se ela for vista sob a ótica de dois significados que convencionalmente lhe têm sido atribuídos. Quais sejam: a história das classes populares/dos seus movimentos (‘sociais’) e a ligação do ‘social’ com a economia[3]
Isso é tanto mais assim quando se considera que, como assinalou Carlos Silva, em seu clássico estudo sobre os camponeses, a economia campesina corresponde ao modo mais antigo, conhecido na história, de se produzir, como uma das variantes da forma doméstica de produção[4]. Disso resulta que - tomando como critérios as técnicas de cultivo, a maneira de apropriação da terra e o lugar do campesinato nas diferentes fases do desenvolvimento social - é possível apresentar uma categorização que, historicamente, demonstra a diversidade e fecundidade da vida camponesa, consubstanciada em uma tripla signficação. Isto é: uma camada diferenciada de ‘protocamponeses’ em sociedades nômades e tribais; o grupo de colonos e rendeiros agrícolas nos modos de produção escravista e feudal; e os camponeses atuais que, mesmo sob o capitalismo, empreendem formas de produção diferenciadas das deste, como as formas comunitárias.
Portanto, o presente livro, nascendo a partir de um contexto local do estado da Paraíba (o Vale do Mamanguape), vem oferecer testemunho desse  histórico e alternativo jeito de ser camponês. Que, buscando transformar sonhos em realidade, resiste e insiste em caminhar. Afinal, como, literariamente, afirma  Guimarães Rosa[5], “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.   


[1] - Os depoimentos foram coletados/transcritos procurando-se garantir fidelidade ao conteúdo das falas.

[2] - Também poder-se-ia apontar a presença da história oral, mas o estatuto da história social lhe subsume. 

[3] Cf. HOBSBAWM, Eric. Sobre história.  Tradução: Cid Knipel Moreira.  1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 (especialmente, o sexto capítulo - Da história social à história da sociedade, p. 83-105).  Um terceiro significado atribuído à história social também é referido por Hobsbawm, e designa uma diversidade de atividades humanas, tais como usoscostumes e cotidiano. Trata-se de uma perspectiva com inegável fronteira e enlaçamento sociológico.

[4] - Cf. SILVA, Manuel Carlos. Resistir e adaptar-se: constrangimentos e estratégias camponesas no Noroeste de Portugal.  Porto: Edições Afrontamento, 1998 (sobretudo, o segundo capítulo –Conservadorismo e racionalidade campesina: que modelos?, p. 41-67).

[5] - ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988, p. 52.  

sexta-feira, 14 de março de 2014

Felicidade: exercício da razão, da virtude e da prudência

Há um axioma oriental que diz que, 'a certa altura da vida, se abre mão do estado de feliz para se chegar à felicidade'. Talvez a metáfora não seja de fácil compreensão. Talvez. Contudo, uma volta aos clássicos do pensamento ocidental pode lançar lume sobre a questão. Trazendo Aristóteles à cena, o Prof. Michel Aires Souza, no curto, mas significativo, texto abaixo trata do assunto. 


Aristóteles: 'a felicidade como sabedoria prática' 
Por Michel Aires Sousa 

Aristóteles (384-322 a.C) nasceu em Estagira (Macedônia). Seu pai era médico do rei Felipe da Macedônia. É considerado juntamente com Sócrates e Platão um dos mais influentes filósofos gregos do mundo ocidental.  Foi aluno de Platão e educou Alexandre, o Grande. Criou o pensamento lógico e a biologia como ciência.  “Em suas obras sobre a natureza, Aristóteles tentou descobrir uma hierarquia de classes e espécies (…). Ele estava convencido de que a natureza tinha uma finalidade e que cada traço específico de um animal existia para cumprir uma determinada função”. (Strathern, 1997, p.24).  Dessa forma, Aristóteles foi o primeiro filósofo a valorizar a observação e a experiência em seus estudos e por isso pode ser considerado o pai do  método científico. Aos 17 anos foi para Atenas, o maior centro filosófico e artístico de toda antiguidade, matriculou-se na escola de Platão e lá permaneceu por vinte anos, até 347 a.C. Após a morte de seu mestre fundou sua própria escola, o Liceu. Ao contrário da Academia, que valorizava o pensamento teórico, o Liceu privilegiava as ciências naturais. Dirigiu o liceu até 324 a.C. Com a morte de Alexandre surgiram sentimentos xenófobos antimacedônios em Atenas, sentindo-se ameaçado Aristóteles fugiu afirmando não permitir que a cidade cometesse um segundo crime contra a filosofia, assim como cometerá com Sócrates. Apesar de sua escola ter privilegiados as ciências naturais Aristóteles também pensou os problemas políticos e sociais de sua época, assim como se debruçou sobre os problemas éticos e morais.  Em seu livro “Ética e Nicomaco” Aristóteles pensou profundamente sobre a felicidade humana. 
       Para Aristóteles a felicidade não está ligada aos prazeres ou as riquezas, mas a atividade prática da razão. Em sua opinião,  a capacidade de pensar é o que há de melhor no ser humano, uma vez que a razão é nosso melhor guia e dirigente natural.   Se o que caracteriza o homem é o pensar, então esta é sua maior virtude e, portanto, reside nela a felicidade humana.  “Aristóteles, fiel aos princípios de sua filosofia especulativa, e após ter feito uma análise e um estudo da psicologia humana, verifica que em todos os seus atos o homem se orienta necessariamente pela idéia de bem e de felicidade e que nenhum dos bens comumente procurados (a honra, a riqueza, o prazer) preenche esse ideal de felicidade. Daí a sua conclusão: primeiro, a felicidade humana deverá consistir numa atividade, pois o ato é superior a potência; segundo, deverá ser uma atividade relacionada com a faculdade humana mais perfeita que é a inteligência (…)”. (Costa,1993, p.67) 
        Em seu livro “Ética e Nicômaco”  Aristóteles mostra-nos que os homens se tornam o que são pelo hábito. Os homens se tornam bons engenheiros construindo, e se tornam músicos tocando, da mesma forma um homem torna-se justo praticando atos justos e mal praticando atos maus. Um homem torna-se um bom ou mau músico por tocar bem ou mal. Um escritor torna-se um bom ou mau escritor por escrever bem ou mal. Assim como um mau músico não tem o hábito de tocar, também o mau escritor não tem o hábito de pensar e escrever.   Dessa forma para se tocar música ou escrever bem é necessária a excelência, é necessário o engajamento, é necessário o hábito. A pratica continua de uma atividade ou de um comportamento nos possibilita internalizar aquele hábito. Somente a prática leva a excelência. Esse raciocínio serve para todas as atitudes e atividades humanas. Pelo hábito de sentir receio ou confiança tornamo-nos covardes ou corajosos. O mesmo se aplica aos desejos e a raiva, por se comportarem da mesma forma e do mesmo modo em todas as circunstâncias algumas pessoas tornam-se moderadas e amáveis, outras se tornam concupiscentes ou irascíveis. É por isto que devemos fazer uso da razão em nossas escolhas e atividades. Devemos sempre desenvolver nossas atitudes e atividades de uma maneira racional.          
       A felicidade para Aristóteles corresponde ao hábito continuado da prática da virtude e da prudência. Por sua própria natureza os homens buscam o bem e a felicidade, mas esta busca só pode ser alcançada pela virtude. A virtude é entendida como Aretê – excelência. É somente através do nosso caráter que atingimos a excelência. A boa conduta, a força do espírito, a força da vontade guiada pela razão nos leva à excelência. Dessa forma, a felicidade está ligada a uma sabedoria prática, a de saber fazer escolhas racionais na vida. É feliz aquele que escolhe o que é mais adequado para si. 
        A razão é a faculdade que analisa, pondera, julga, discerne. Ela nos permite  distinguir o que é bom ou mau,  a distinguir os vícios das virtudes. Ela  nos permite fazer escolhas pertinentes para nossa felicidade. Por exemplo, a temeridade é um vício por excesso, a covardia é um vício por falta; o meio termo é a coragem, que é uma virtude. O orgulho é um vício por excesso,  a humildade um vício por falta; o meio termo é a veracidade, que também é uma virtude. A inveja é um vício por excesso, a malevolência é um vício por falta; o meio termo é a justa indignação. Para Aristóteles toda escolha exige uma mediania, um equilíbrio entre o excesso e a falta.  Na vida não podemos ser imprudentes e impulsivos se arriscando em situações perigosas. Por outro lado,  também não podemos ser covardes e ter medo de tudo deixando que o medo nos domine. É necessário o meio termo entre esses dois sentimentos, devemos enfrentar os medos e perigos sabendo agir com bom senso. O mesmo raciocínio serve para alimentação, não podemos comer muito para passar mal do estômago, assim como não podemos evitar comer, pois também vamos adoecer. Devemos comer com moderação. Por esta ótica, também podemos pensar os sentimentos.  Na vida não podemos ser vaidosos preocupando-nos apenas com nossas qualidades, satisfazendo sempre o nosso ego. Por outro lado, também não podemos ser muito modestos,  achando que somos inferiores. É necessário auto-estima, sabendo reconhecer através da razão nossos defeitos e nossas qualidades. Para Aristóteles, portanto,  devemos sempre escolher o meio termo, sendo moderados em tudo que fazemos na vida. Somente assim atingiremos o bem e a felicidade.    

Bibliografia
Aristóteles. Ética a Nicômaco. Edipro, São Paulo, 2007.
Costa, José S. Tomás de Aquino: a razão a serviço da fé. São Paulo: Moderna, 1993
Stratheer, Paul. Aristóteles em 90 minutos.  Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1997.
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Fonte: http://filosofonet.wordpress.com/2011/07/02/aristoteles-a-felicidade-como-sabedoria-pratica/
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sábado, 8 de março de 2014

A Educação na 'Praça Pública': Entre os Lugares-comuns e os Palpites

Por Ivonaldo Leite

“Nem todos podem falar com perícia, com a fundamentação necessária, sobre a educação, e não se pode desenvolver ciência com um vocabulário incapaz de exprimir os fenômenos do campo sobre o qual ela incide. Pelo contrário, falar de uma maneira informada sobre a educação é tão difícil como falar da construção de uma ponte. Claro que isto não significa que não tenhamos o direito, na nossa vida privada, de falar sobre a educação, sobre a educação dos nossos filhos, por exemplo. Claro que temos este direito, mas com o direito vem o dever - e certamente não devemos falar publicamente sobre a educação sem tomar em conta o que a pesquisa científica e a experiência pedagógica nos podem dizer sobre este campo do saber”.
Com essas palavras, o saudoso Stephen Stoer, especialista luso-britânico britânico da sociologia da educação, chamava a atenção, pouco antes do seu falecimento, para algo inusitado: o fato de, a partir de lugares-comuns, proliferarem discursos palpiteiros sobre educação, em função de esta se encontrar na ‘praça pública’. O mais singular ainda, assinalava o teórico, é que, pretensiosamente, por vezes, os palpites são pronunciados com uma retórica supostamente científica – registrado-se, contudo, o paradoxo de os seus autores não participarem da comunidade dos pesquisadores em educação e, assim, não terem conhecimento do mapa conceitual/vocabular que medeia o diálogo no interior da mesma. Contudo, os 'palpiteiros', sem conhecer a realidade das escolas, não se furtam até de dizer como os professores devem fazer o seu trabalho. Haja pachorra!
Um exemplo paradigmático da inconsistência dos discursos que, mesmo sem terem estatuto fincado na pesquisa educacional, prescrevem procedimentos educativos diz respeito à postura que, tendo como referência a escola da antiga classe média (a escola de um tempo passado), propõe receitas que, no mínimo, são defasadas temporalmente. É uma situação tal qual como se alguém tivesse tomado um trem entre os anos 1950/1960, tivesse adormecido, sido trocado de trem, e, ao acordar nos dias de hoje, não se desse conta que o trem não é o mesmo, os passageiros não são os mesmos e até companhia transportadora é outra.  Tradução (simplificada) da metáfora: os alunos e a escola de hoje não são os mesmos do passado, pois, por exemplo, os filhos das classes populares chegaram, enfim, à instituição escolar (básica e superior). Trata-se da ascensão da escola de massas, ou, também poder-se-á dizer, da “universalização” da educação escolar, superando-se o tempo em que ela era restrita a uma minoria. Isto já para não se falar das reconfigurações que, em função dos fenômenos contemporâneos, envolvem, por exemplo, a socialização primária e a socialização secundária, bem como a própria família.
O mais paradoxal ainda, para não dizer deprimente, é constatarmos que agentes educativos, como professores e gestores (de universidades, inclusive), por vezes, abordam a educação beirando o mais rasteiro senso comum. Já para não falarmos aqui, digamos, do comportamento pouco edificante desses agentes no exercício do seu métier.
Mas, já que em meio à algazarra dos palpiteiros nos encontramos, façamos uma concessão. Que o fato de a educação se encontrar em ‘praça pública’ possa servir a um aggiornamento roussereano, para se debater a cidade educativa. O que não é pertinente, convenhamos, é ela se tornar prisioneira dos lugares-comuns e das opiniões de ocasião. Ao sabor dos achismos. Para que a praça pública passe a ser o lugar de debate sobre a cidade educativa faz-se mister, contudo, que a comunidade de pesquisadores em educação mostre serviço. Dela requer-se  pesquisa disciplinada, rigor científico e criatividade analítica.

Só assim poder-se-á ir além dos discursos infestados de palpites e lugares-comuns sobre a educação. Retórica esquentada a cada momento. Trata-se, em suma, de evitar, como dizem os ingleses, as half-baked truths (“verdades meio-cozinhadas”), bem como de descartar as ‘idéias fora de lugar’.