terça-feira, 24 de julho de 2012

Dialética sócio-histórica: um ensaio retrospectivo sobre as teorias do desenvolvimento na América Latina

Uma versão preliminar do texto a seguir escrevi-a há já algum tempo. Reformulado e ampliado, a versão atual tem como detentora dos seus direitos a Revista Portuguesa O Comuneiro.



Por Ivonaldo Leite

Se a aparência e a essência dos fenômenos fossem a mesma coisa, a ciência seria desnecessária.  
Karl Marx  

Introdução
O presente ensaio, inspirando pelas ferramentas analíticas proporcionadas por um enfoque que compreende o mundo social como concreto pensado, situa-se nas fronteiras de três domínios científicos: a história social, a história econômica e a sociologia do desenvolvimento, tendo como foco de abordagem o continente latino-americano. Pretende-se, de forma retrospectiva, passar em revista o debate sobre desenvolvimento na região, entendendo-se que isso é uma condição sine qua non para, contemporaneamente, à luz do passado, se aclarar um quadro onde efetivas transformações possam ser levadas a cabo, sobretudo, numa altura, como a presente, em que, num zigue-zague sem critérios, “trombetas neodesenvolvimentistas” são sopradas do Brasil.  
Qualquer iniciativa que, hoje, na América Latina, queira discutir a questão do desenvolvimento, não pode deixar de ter conta em conta o denso patrimônio intelectual que, sobre o tema, já se acumulou na região. Refiro-me, obviamente, à diversidade de formulações que uma variedade de cientistas sociais latino-americanos, com rigor e tino analíticos, esboçaram há já algum tempo.
 A fecundidade das discussões, contudo, como era de se esperar, não significava a inexistência de divergências (extremas, por vezes) entre aqueles. Mas a articulação conceptual, na forma como elas eram construídas, davam-lhes uma imponência teórica que as credenciavam ao debate. Foi neste contexto que, numa classificação sintética – mas não reducionista -, cepalianos, exogenistas, dependentistas e endogenistas abordaram a problemática do desenvolvimento na América Latina.

O background cepaliano 
Se existem alguns consensos nas clássicas discussões sobre desenvolvimento no continente latino-americano, um deles parece ser o de que o background da CEPAL foi uma espécie de ponto de partida para o debate. Foi a partir da focagem cepaliana que outras formulações vieram a lume. A referência temporal do seu surgimento situa-se, fundamentalmente, nos anos 1950, opondo-se à teoria neoclássica das relações internacionais. A análise cepaliana desenvolve uma “abordagem estruturalista” do sistema econômico mundial, com a sua argumentação nuclear partindo das relações entre o centro e a periferia, para explicar a origem e a reprodução do subdesenvolvimento[1].
Posto isto, podemos dizer que a argumentação da CEPAL apoia-se em dois conjuntos de argumentos[2]. O primeiro centra-se nos obstáculos externos ao desenvolvimento e o segundo, nos obstáculos internos. Tenhamos cada um em apreço. 
Os primeiros obstáculos são apresentados como relacionando-se a uma tendência ao desequilíbrio externo com o processo de industrialização substitutiva das importações. Este processo poria em movimento um mecanismo circular, através do qual toda nova etapa de substituição implicaria um aumento das necessidades de novas importações que seria superior ao crescimento, tanto absoluto quanto relativo, da capacidade de importação, o que lavaria, ao fim e ao cabo, a um dispêndio de divisas superior à economia realizada. Neste quadro, o agravamento do déficit externo reincentivaria o movimento de substituição. 
A gênese desse processo radica-se no que se convencionou chamar de etapa de substituição fácil, marcada pela produção local de uma série crescente de bens de consumo leves, até então importados. Os bens de consumo duráveis, os bens intermédios e os bens de capital tendem dessa forma a pesar mais fortemente na estrutura das importações, até ao ponto em que o prosseguimento da industrialização exige a ampliação do movimento substitutivo a outras categorias de bens. 
  Daí, começa então uma nova fase, na qual se operacionaliza uma modificação da estrutura produtiva local, abarcando um nível importante de diversificação e de integração vertical. Contudo, o cenário repete-se: as mesmas causas profundas do desequilíbrio externo não deixam de atuar durante essa fase. Mais ainda. Agora, elas são agravadas pela defasagem entre o momento em que é tomada a decisão de instalar as indústrias pesadas no país e o momento em que se inicia a efetiva produção de seus bens. 
Sendo assim, vem a ser, em última instância, conforme o entendimento cepaliano, a posição dos países latino-americanos na economia mundial que explica a razão de a industrialização substitutiva chocar-se com uma rigidez da estrutura das importações, bem como com uma dificuldade maior de proceder a novas substituições. Pode referir-se nomeadamente como limitação da posição de tais países a defasagem de suas bases técnicas e de seus níveis de produtividade e de renda em relação ao centro.
      Desse quadro, a CEPAL tira a ilação segundo a qual é praticamente impossível que o processo de industrialização se dê da base para o vértice da pirâmide produtiva, ou seja, partindo dos bens de consumo elaborados e evoluindo paulatinamente até chegar aos bens de capital. Foi dessa forma que, numa figuração que é sugestiva da orientação subjacente ao  background  cepaliano, se afirmou que era necessário  construir o edifício simultaneamente em vários andares, mudando tão-somente o grau de concentração em cada um deles de período para período[3].
Quanto aos segundos obstáculos ao desenvolvimento, como já adiantamos, são de natureza interna. Isto é, por um lado, entende-se que a estrutura da propriedade agrária – advinda do período colonial e distintivamente marcada pela oposição latifúndio/minifúndio – seria responsável por uma considerável subutilização das terras, donde se explicava substancialmente a causa dos fracos níveis da produtividade agrícola. Ao se introduzir técnicas modernas, especificamente nas culturas de exportação, ter-se-ia como consequência a geração de uma ampla fracção de mão de obra excedentária, ponto este de impulso para um duplo efeito interligado: debilitação dos salários e concentração de renda. Por outra parte, a inadequação tecnológica do setor industrial seria um fator responsável pela fraca criação de empregos, induzindo não só a sua “ausência conjuntural”, mas impelindo mesmo a tendência ao desemprego estrutural.  
Da conjunção entre a estrutura da propriedade agrária e o tipo de tecnologia introduzida no setor industrial, resultaria uma profunda concentração das rendas que, favorecendo um determinado tipo de consumo entre os grupos situados no cimo pirâmide social, reforçaria a orientação no sentido da industrialização como forma de substituir a importação de bens de consumo duráveis de alto valor unitário. Entretanto, disso decorreria um “estreitamento” da dimensão do mercado interno, levando a uma subutilização das capacidades produtivas instaladas, cujo rebatimento intersetorial traduzir-se-ia no crescimento dos desequilíbrios entre as suas esferas. 
background  cepaliano – nomeadamente a sua tese em torno dos obstáculos estruturais ao desenvolvimento derivados da inserção periférica dos países latino-americanos na economia mundial – tem, como bem se sabe, imediatas implicações políticas. E elas se manifestam, especificamente, na forma como é feita a defesa da industrialização. 
A promoção da industrialização é compreendida como uma espécie de via única para aumentar os níveis de produtividade dos países, tendo-se como suposição que a mesma é capaz de proporcionar uma distribuição internacional mais equitativa das vantagens a que o progresso técnico conduziu as sociedades. Consequentemente, as proposições da CEPAL opõem-se à lógica tradicional subjacente à abordagem da divisão internacional do trabalho, na medida em que esta tem como referência de orientação o laissez-faire, laissez-passer.
O que se objetiva, portanto, é uma dupla modificação: de uma parte,  das estruturas internas dos países, através, por exemplo, da reforma agrária e do impulso à industrialização; e de outra, das  estruturas externas, mediante o incentivo ao desenvolvimento do comércio inter-regional e a adoção de medidas protecionistas perante os países centrais. O desdobramento conclusivo desse programa é evidente. Com  suas proposições organizadas globalmente em volta das questões da redistribuição social da renda e do desenvolvimento autônomo da Nação, a conclusão que se segue é que se deve proceder a uma reforma administrativa do aparelho estatal herdado do período anterior, com o fito de se instituir um  Estado-planificador  moderno, que estaria acima das contradições sociais. E há mais. Supõe-se também que as contradições sociais deverão desaparecer no decurso do desenvolvimento a ser alcançado e que tal Estado se encontra adaptado a uma plataforma de desenvolvimento que responderia, diante das exigências globais, às necessidades de acumulação de um modo eficaz.  
 Embora o  background  cepaliano represente um avanço, em relação à mão invisível do laissez-faire, laissez-passer, advogada pela abordagem tradicional da divisão internacional do trabalho, ele tem certamente aspectos problemáticos. Neste sentido, não podemos estar senão de acordo com Gilberto Mathias e Pierre Salama nas observações críticas que eles lhe fizeram, as quais, fundindo-as com a nossa focagem, podem ser apresentadas conforme o que se segue.
Limpemos o “terreno”. Basicamente, podem ser feitas duas observações críticas ao background cepaliano: a primeira relaciona-se à sua ideia de Nação e a segunda, diz respeito à concepção de Estado que lhe é própria. Conheçamos a razão de ser de tais críticas. 
No primeiro caso, a Nação é concebida como o espaço potencial de um processo de desenvolvimento autônomo com capacidade, parece que ilimitada, de superar os entraves decorrentes da estrutura desigual do comércio mundial e com propriedade para instaurar um projeto de desenvolvimento autocentrado. E nesse particular, talvez exista um paradoxal encontro entre as elaborações da CEPAL e o enfoque neoclássico das trocas internacionais. Expliquemo-nos analiticamente. 
Retenhamos que o enfoque neoclássico capta as Nações como entidades justapostas, isto é, de qualquer modo, como receptáculos dos fatores de produção que mantêm relações tão-só externas entre si, mediante o fluxo das mercadorias que cruzam (supõe-se) reciprocamente as suas fronteiras. Agora, lembremos o que é preconizado pela CEPAL. Ela coloca a plena constituição da Nação nos países periféricos como uma entidade autônoma no plano mundial. Quer dizer, as duas correntes encontram-se, na medida em que possuem em comum o fato de construírem os seus arcabouços teóricos tendo como referência uma determinada idéia de Nação. Contudo, trata-se de um encontro paradoxal, visto que enquanto uma se empenha em demonstrar as vantagens da divisão internacional do trabalho entre as nações, a outra insiste em realçar as defasagens engendradas pela estrutura desigual das relações internacionais. 
Dessa forma, da análise desenvolvida pela CEPAL sobre a Nação, decorrem três limitações teóricas. A primeira reside em se priorizar as relações Nação/Nação na explicação da dinâmica da acumulação capitalista, visto que se centra nos mecanismos pelos quais o centro explora a periferia, descurando as relações contraditórias que as classes e os grupos sociais mantêm entre si. Isto motiva uma restrição inevitável: perde-se a possibilidade de se compreender a reprodução interna própria, nos países periféricos, das relações capitalistas[4]
A segunda tem a ver com a forma como ela concebe a economia mundial. No limite, esta é entendida como um ajuntamento de nações que se “comunicariam” por um único canal: o mercado. Mas eis a complicação: a unidade específica daquela, que a formata como uma totalidade produtiva – com suas próprias estruturas -, e o seu funcionamento não são apreendidos de modo que o seu  corpus seja captado a partir da decomposição dos aspectos que o constituem. De outra parte, não se pode negar que o enfoque cepaliano representa um passo adiante, se comparado com o das teorias do subdesenvolvimento, na medida em que, ao contrário deste, não reduz o seu objeto de estudo às particularidades dos países subdesenvolvidos - a exemplo do baixo nível de poupança e do comportamento dos empresários. De saída, a CEPAL põe logo em questão a funcionalidade da economia mundial, todavia, centrando-se fundamentalmente no nível da circulação de mercadorias, ela impele a sua abordagem a não captar a totalidade desta. 
.  A terceira limitação diz respeito à relação que é estabelecida com a utilização do balanço de pagamentos como forma de se analisar as relações econômicas internacionais. Como sabemos, o balanço de pagamentos é concebido sob a teoria ortodoxa do comércio internacional, tomando em consideração exclusivamente a movimentação global de mercadorias e de capitais, sem se dar ao trabalho, entretanto, de definir a origem das empresas instaladas – se nacionais ou forâneas. Também não leva em conta as interconexões, para além das fronteiras nacionais, entre os mais variados grupos econômicos. Ora, chega a ser até cansativo sublinhar, estes fatores são decisivos para que se revelem as formas de relações internas, além do que se deve ter presente, nas contabilidades nacionais, o registro  ascendentemente formal no qual se inscrevem as relações econômicas entre os Estados-nação.      
Apesar de, conforme realçamos, o enfoque cepaliano representar uma passo à frente no debate sobre desenvolvimento, tais limitações têm um considerável efeito debilitador sobre o seu background. Debilitação que se acentua ainda mais quando temos em apreço a segunda observação crítica que atrás referimos. Saibamos porquê. 
Ela, como já adiantamos, concerne à concepção de Estado com a qual a CEPAL opera. Encontramos nos seus escritos elementos que, nutrindo a sua pressuposição tecnoburocrática, “passa por cima” dos condicionamentos decorrentes das relações entre classes e grupos sociais, em apoio ao estabelecimento de uma focagem entre nações, sendo estas, de outra parte, assimiladas como entes autônomos que se relacionam, no mercado, de uma maneira exclusivamente externa. A despeito das justificações e da boa vontade dos cepalianos, analiticamente um  tour de force teria de revelar as coisas como elas realmente são. O resultado não poderia ser outro. O Estado é compreendido como  uma máquina administrativa socialmente neutra e tecnicamente racional.
Todavia, não ter suficientemente em conta a heterogeneidade social dos países, “cancelando” os interesses divergentes dos atores coletivos internos, é uma condição sine qua non para que a CEPAL formule a sua concepção de Estado, atribuindo-lhe o papel que ele deve desempenhar com afinco: planejar, como uma estrutura técnica neutra, o desenvolvimento. O problema é que, com esse cancelamento sendo levado ao extremo, não se pode entender, de fato, as causas de determinadas iniciativas estatais, em decorrência do comportamento dos aludidos atores, degringolarem, pois, se os mesmos não têm interesses divergentes, implicitamente supõe-se que todos estão de acordo e comprometidos com a objetivação delimitada. Logo, se esta não é alcançada, se há dificuldade nesse sentido, a única explicação a ser invocada é de natureza técnica. No entanto, as coisas não são bem assim. A realidade é bem mais complexa. Como ilustração empírica disso, pode referir-se, por exemplo, que a falência do velho arcabouço pensado em torno da SUDENE, em função do desenvolvimento do Nordeste, não parece ser algo eminentemente de natureza técnica. Aliás, talvez fosse proveitoso ao, agora, “neodesenvolvimentismo” brasileiro dedicar uma atenção acrescida a este fato.
De resto, há uma estreita conexão, no  background  cepaliano, entre uma concepção da economia mundial como um ajuntamento de nações - que as vinculam através do mecanismo da troca desigual – e a representação ideológica dos Estados como entidades soberanas justapostas  umas às outras no plano internacional. Se assim é, as relações entre os Estados-nação não podem ocorrer senão mediante contactos exclusivamente externos entre  países independentes, perdendo-se de vista o complexo processo de interpenetração que existe entre ambos, onde o relacionamento que põe em movimento a totalidade dinâmica que os interpenetra é permeado por condicionantes que se estruturam a partir das bases materiais de poder que constituem hierarquia da Ordem Internacional. 
Em retrospecto, podemos dizer que, apesar dos avanços que lhe são próprios, como salientamos, o  background cepaliano é perpassado por incongruências que o debilitam. E como, quando a formulação teórica é descoincidente com as manifestações da realidade, a tendência é que ela solape, não foi por acaso que o dito projeto de desenvolvimento nacional independente naufragou. A prova empírica: este colapso foi um processo que se deu através de crises totais, semelhantes as que varreram os regimes populistas no Brasil e na Argentina, e que conduziu ao abandono dos programas de desenvolvimento típicos do varguismo e do peronismo, bem como também ocorreu por meio da complementação sem atritos e progressiva entre os capitais público e privado (nacional e estrangeiro), como aconteceu no México. Acrescente-se a isto o surgimento de uma nova forma de acumulação, que redefine a relação da América Latina com a Ordem Internacional, e tem-se então o ambiente onde são desencadeadas intensas discussões que, do lastro estabelecido pela CEPAL, se centram no debate sobre o desenvolvimento latino-americano com outras perspectivas. Emergiram assim duas correntes que focam o assunto com sinais invertidos. 
Falamos, evidentemente, das abordagens exogenista dependentista e endogenista, sobre as quais nos debruçaremos a partir de agora. 

3 – O exogenismo da Teoria da Dependência 
Por  exogenismo dependentista, entenda-se o conjunto de formulações dos autores que, de modo distinto, podem ser circunscritos ao âmbito da chamada Teoria da Dependência (TD). Ao apresentarmos o exógeno adjetivado com  dependentista,  queremos assinalar que a TD, assim como a CEPAL, mas com um outro itinerário, também centra a sua abordagem sobre o desenvolvimento latino-americano em fatores externos, mesmo que se tenha em conta a sua pluralidade constituinte.
A propósito desta, desejamos desenvolver a nossa incursão analítica sobre a TD estabelecendo uma demarcação. Se, até aqui, temos acompanhado em plena concordância a interpretação de Gilberto Mathias e Pierre Salama, no que passamos, a partir deste momento, a nos ocupar não nos sentimos à vontade, ou dito melhor, não nos sentimos convencidos a continuar tendo a mesma postura. Justificamo-nos. 
Embora Mathias e Salama cheguem a frisar que há diferenças entre os dependentistas[5], nas suas considerações críticas à TD, procedem de uma forma que, implicitamente, subtende que ela é homogênea. Detenhamo-nos, por alguns instantes, em algumas destas considerações, como forma de fundamentar o desenvolvimento da nossa incursão de um modo demarcado. 
Sobre a questão nacional, na TD, Mathias e Salama apresentam, em síntese, dois blocos de objeções. O primeiro, enfatizam, tem a ver com a estreita relação que os teóricos da dependência estabelecem entre uma abordagem essencialmente centrada nas formas de circulação internacional do excedente, que menospreza as condições internas de produção de mais-valia, substituindo ainda o conflito entre as classes pela luta entre nações – pela partilha do excedente econômico –, como princípio impulsionador do sistema capitalista mundial. O segundo é concernente ao que entendem ser uma concepção simplificadora e coagulada da economia mundial como uma totalidade dada, responsável por uma determinação mecânica das partes representadas por cada Nação. 
No tocante à relação entre o Estado e os regimes políticos, um elemento crítico que os autores em tela acentuam é que reduzindo o problema da reprodução das relações sociais capitalistas ao da simples dinâmica de um “modelo de acumulação”, os dependentistas retomam implicitamente e explicitamente a divisão tradicional (e estaque) do conjunto social numa infra-estrutura determinante, por um lado, e, por outro, numa superestrutura determinada[6]
 E já que não se diferencia a versão da TD para a qual tais críticas são dirigidas, é enfatizado como ilação geral para a ela, em seu conjunto, que a mesma cai numa abordagem “politicista”, onde a dinâmica dos regimes políticos é atribuída essencialmente ao jogo das alianças e conflitos entre as  classes e grupos sociais, sem que as múltiplas imposições  - resultantes da acumulação do capital em escala mundial e local – possam ser inteiramente tomadas em conta. Mais ainda, e fundamentalmente, entende-se que a TD pode ser criticada por, deixando de lado os problemas teóricos e analíticos colocados pela inserção dos Estados periféricos na economia mundial, oscilar continuamente entre uma concepção “instrumentalista” dos mesmos – reduzidos a simples “correias de transmissão” dos Estados centrais – e uma concepção “politicista” que, ao inverso, concebe a ação de tais Estados unicamente como um resultado da estrutura e das relações das classes sociais internas. E assim sendo, apesar de diversas, as análises da dependência se apoiariam numa mesma concepção “agregativa” da economia mundial, apreendida como uma “soma” de Estados-Nação, sem que os seus processos de funcionamento internos fossem revelados por via dos diferentes efeitos suscitados no centro e na periferia.
Retidos elementos basilares da interpretação (crítica) de Mathias e Salama, estamos prontos, para,  do interior da própria TD, desenvolvermos a nossa incursão em sentido contraposto ao deles. Antes, porém, por honestidade intelectual, reconhecemos que se tem-se em conta algumas  vozes dependentistas específicas, decerto, que o fulcro da  argumentação dos mesmos faz sentido. Demonstrando isto, referimos como prova suficiente o raciocínio que Samir Amin expôs num texto publicado em 1976 [7].  Nele, a sua compreensão é que a contradição principal na qual se manifesta o antagonismo burguesia/proletariado em escala mundial não é mais a contradição burguesia nacional dos centros desenvolvidos/proletariado desses centros, mas a que opõe o capital dos monopólios aos povos da periferia (proletariado, campesinato explorado em graus diversos, segundo as etapas do sistema imperialista). Ora, se temos em atenção que Mathias e Salama vêem nesse raciocínio os elementos que fornecem o embasamento teórico da ideologia do “nacionalismo terceiro-mundista”[8], que termina por cair prisioneira da lógica da repartição internacional do excedente econômico, onde, nacionalmente, todas as classes e grupos sociais são confundidos, então não há como negar que eles têm razão no que afirmam.  Entretanto, há lá limites. Generalizar ao conjunto da TD juízos dessa natureza, é um non sens.
Ao mesmo tempo, há que se dizer que desenvolver uma incursão analítica sobre o terreno da TD, é hoje, talvez mais do que ontem, expor-se ao risco das incompreensões. Se, ontem, as discussões a seu respeito roçavam a esfera ideológica, chegando, por isto mesmo, a mergulhar nela, hoje, tendo em conta o fato de um dos seus principais proponentes ter tido uma experiência como statesman, a probabilidade de incompreensão – basicamente por ignorância acerca do que era proposto - se torna mais acentuada ainda. Contudo, talvez agora, face ao novo panorama político brasileiro, se comece a ter condições para que a análise acadêmica sobre a TD obedeça mais aos imperativos da objetividade analítica, para que, no reverso da medalha, com bases atualizadas diante dos novos tempos, possa-se proporcionar quadros epistemológicos pertinentes à leitura, se assim se entender, de quem tem que tomar decisão política.
Ressaltadas tais “precauções”, detenhamo-nos numa “variante” da TD que não parece ser apanhada pela crítica de Mathias e Salama, mesmo que assim eles o entendam, pelo que então a questão passa a ser uma questão de (má)interpretação.
O que vem a ser então a ideia de dependência, qual a sua intenção?  Buscando resposta para isto, de início, citamos, propositadamente, uma espécie de abordagem retrospectiva do Cardoso de outrora, por, nela, ele, já considerando alguma temporalidade das polêmicas sobre o tema, posicionar-se sobre as mesmas[9]. Eis o que temos:    

Nos trabalhos que escrevi sobre dependência, existe uma dupla intenção crítica. Por um lado – e este aspecto da crítica parece-me que ficou claro, e foi menos combatido – criticam-se as análises do desenvolvimento que abstraem os condicionantes sociais e políticos do processo econômico e criticam-se as concepções evolucionistas (das etapas) e funcionalistas (especialmente a teoria da modernização) do desenvolvimento. A crítica se faz mostrando-se que o  desenvolvimento que ocorre é  capitalista e que não pode desligar-se do processo de expansão capitalista internacional e das condições políticas que este opera. Por outro lado, a crítica se orienta para mostrar (...) que a análise «estrutural» dos processos de formação do sistema capitalista só tem sentido quando referida historicamente[10]
  
Destaca-se que é insatisfatório substituir as análises inspiradas na Teoria do Desenvolvimento por outras tantas que insistem, de uma maneira geral e indeterminada, em que o processo do desenvolvimento capitalista se dá em proveito da burguesia e que, nas condições da América Latina e do capitalismo internacional, ele é uma expressão do imperialismo. Daí, podemos apreender num trabalho clássico da TD[11] que a utilização da noção de dependência só ganha sentido quando põe em evidência que: 

El concepto de dependencia (...) pretende otorgar significado a una serie de hechos y situaciones que aparecem conjuntamente en un momento dado y se busca estabelecer por su intermedio las relaciones que hacen inteligibles las situaciones empíricas en función del modo de conexión entre los componentes estructurales internos y externos. Pero lo externo, en esa perspectiva, se expresa también como un modo particular de relación entre grupos y clases sociales en el ambito de las naciones subdesarrolladas[12].


Fundamentalmente, buscava-se valorizar dois aspectos de significação metodológica precisa: 1º) As análises do processo histórico de constituição da periferia na ordem capitalista internacional deviam explicar a dinâmica da relação entre as classes sociais no nível interno das nações (no caso das situações de dependência mantidas a partir da existência de Estados Nacionais); 2º) Os condicionantes externos, ou seja, o modo de produção capitalista internacional, a “dominação imperial”, o mercado externo, etc. (ou seja, tanto os aspectos econômicos como os políticos do capitalismo), reaparecem inscritos estruturalmente tanto na articulação da economia, das classes/grupos sociais e do Estado com as economias centrais e com as potências dominantes, como na articulação dessas mesmas classes e grupos sociais no tipo de organização política que prevalece no interior de cada situação de dependência[13]
Nesse decurso, portanto, ficamos a saber que se o “conglomerado multinacional” passa a prevalecer como forma de organização da produção, ele provoca uma reorganização da divisão internacional do trabalho e leva à rearticulação das economias não-centrais e do sistema de alianças/antagonismos entre as classes e grupos sociais – nos níveis internos e externos. Todavia, tenha-se bem presente, a “expressão concreta” que o modo capitalista de produção vai encontrar nas áreas dependentes não é automática. De forma nenhuma. Ela é “condicionada” por “factores locais” relacionados às classes e grupos sociais, ao Estado, aos recursos humanos naturais, etc., e à forma como eles se foram articulando historicamente. 
Consequentemente, temos que, nisto, talvez resida a vantagem fundamental da utilização da perspectiva da dependência de  forma analítica.  E o encadeamento da abordagem conduz-nos a clarificação neste sentido. Ela desloca as explicações de um plano simplista do condicionante externo sobre o interno para uma concepção mais integrada do relacionamento das partes que compõem o sistema capitalista mundial. Substitui-se um estilo de abordagem que se apóia prioritariamente em determinações gerais e abstratas, e que insiste  indefinidamente, por exemplo, no imperialismo, na burguesia, na revolução, etc., por um outro que procura situar  concretamente  cada momento significativo de modificação da produção capitalista internacional, evidenciando as (re)articulações econômicas, políticas e sociais que daí decorrem em  situações particulares do sistema mundial[14]
Quanto ao estatuto da idéia de Nação, na TD, convém reter o que originariamente é enfatizado, para que se desfaça os mal-entendidos. O que encontramos é que: 


Com a noção de dependência, não se pode (nem se desejou) substituir a análise de classes pela de nações (...). Como conceito, entretanto, a dependência, mesmo na situação de internacionalização do mercado, na medida em que busca categorizar as relações entre as classes concretamente situadas, precisa captar o tipo de contradição que subsiste entre o modo de produção prevalecente, as classes sociais e a organização política, inclusive a nação e o Estado nacional. E foi o que se fez (...). Em termos teórico-metodológicos, seria uma volta atrás, num ensaio que caracteriza situações de dependência, insistir apenas nas contradições gerais entre relações de produção e relações de classe (...), sem mostrar que
elas se articulam (...) através do Estado e da nação[15].

    Ora, cruzando-se esse approach da TD com aquilo que, nuclearmente, constitui a crítica de Mathias e Salama, não se pode senão apontar, no mínimo, a inadequação do que eles objetam. Além do que, talvez, se cobre destes dependentistas posturas com as quais os mesmos, de antemão, se descomprometiam. De resto, este parece ser um impulso bastante típico de outras críticas que lhes foram endereçadas, tanto ontem quanto hoje, principalmente, neste último caso, tendo em conta o percurso político de Cardoso na década de 1990. O que este comportamento, de modo geral, desconsidera, por desconhecimento de causa ou por outra razão qualquer, é que a preocupação destes dependentistas era analítica.  Dada a importância de se compreender isto, para que se desfaçam mal- entendidos, convém fechar esta nossa incursão sobre a TD explorando tal fato. 
Cabe lembrar que, em meados dos anos 1960, diante da situação de estagnação económica na América Latina (e no rescaldo do programa pós-cepaliano), muitos entendiam que a alternativa seria a Revolução, com a consequente implantação do socialismo, por, acreditavam, dada a estrutura do sistema capitalista mundial, não haver possibilidade de desenvolvimento para a região. É desnecessário gastar tempo em explicar o grau de simplismo e de infantilidade presente nesta compreensão – até porque já se sabe muitíssimo bem o que se passou. Vamos ao que nos é central. 
Perante um tal reducionismo, o ponto de vista da variante da TD em foco, não poderia ser mais esclarecedor, conforme nos revela o seu principal proponente: 

Discordava daquela postura. Como tinha lido bem Marx, achava que a economia da região estava seguindo um movimento cíclico: havia uma crise, mas igualmente uma possibilidade de nova expansão. A minha tese não era a de que a dependência impedia o desenvolvimento e que, portanto, havia condições próprias ao socialismo, mas sim que haveria um desenvolvimento dependente, que mais tarde chamei de desenvolvimento dependente associado[16].
  
Ou seja, o que se entendia era que estava havendo na região um processo de acumulação, donde decorria a pauperização e o crescimento desordenado das cidades, etc. Todavia, isto não significava ausência de desenvolvimento, mas sim desenvolvimento com contradições. Entendia-se ainda que o capitalismo que estava nascendo não era o capitalismo do século XIX, “mas um capitalismo já baseado numa outra forma de organização da produção, que é a grande produção oligopolística que se internacionaliza”[17].  Quer dizer, para evitarmos as armadilhas da metafísica, dizemos, em síntese, o que esta perspectiva sustentava: haveria desenvolvimento capitalista na América Latina; a estagnação não levaria ao socialismo; e poderia haver um surto de desenvolvimento dependente e associado, colocando na ordem do dia a questão da democracia. A partir disso, afirmava-se, acentuadamente, que não se podia pensar a relação entre o interno e o externo como se pensara até então, isto é, que as forças externas vinham e esmagavam as forças internas: “estava havendo uma simbiose, de que decorria a ideia de dependência, a qual se opunha à versão vulgar do colonialismo e do imperialismo como ave de rapina”[18]
Assim era porque, realçava-se, existiam formas diferentes de relação entre as economias nacional e internacional, na medida em que, na região, algumas economias nacionais se organizavam a partir de um enclave – cobre no Chile, petróleo na Venezuela, por exemplo -, nas quais o capital e a tecnologia vinham de fora. A economia local se relacionava com esse  encalve  por meio do Estado, via imposto, sustentando uma classe média, sendo que, muitas vezes, o próprio Estado era gerido por uma aliança entre essa classe média e grupos da oligarquia agrária. A partir do  enclave, tinha-se uma classe operária avançada, moderna, em contraposição à classe dirigente tradicional. Por outro lado, apontava-se um outro tipo de economia, como a do Brasil, na qual se formou uma camada de empresários nacionais, sendo a decisão do investimento no café, por exemplo, do próprio cafeicultor: “o capital nasce internamente, não vem de fora, embora depois se pague um preço pela dependência no comércio internacional”[19].

4 – A focagem endogenista 
Se, mesmo que de maneira não-unívoca, a TD vincula a perspectiva de desenvolvimento latino-americano a fatores externos, a abordagem endogenista, por sua vez, recusa globalmente este cenário e relaciona tal perspectiva fundamentalmente a fatores internos. Não é à-toa, portanto, que, semanticamente, se realiza a contraposta categorização exogenismo & endogenismo. Podem ser referidos como trabalhos representativos da focagem endogenista textos de Francisco de Oliveira, Maria da Conceição Tavares e Cordera Campos[20].
Voltamos aqui a acompanhar, em parte, a interpretação de Gilberto Mathias e Pierre Salama. Logo de início, não podemos estar senão de acordo com a tese deles segundo a qual a focagem endogenista funda a necessidade e a forma que assumem a intervenção do Estado numa análise das especificidades estruturais da industrialização na América Latina.  Com efeito, logicamente, essa industrialização diferencia o seu percurso daquele que é seguido no modelo clássico de desenvolvimento industrial. Como é de domínio público na comunidade científica – e não só -, não custando mesmo assim repetir, no modelo clássico, a acumulação do capital se caracteriza, desde o princípio, por uma articulação setorial entre as indústrias que produzem bens de consumo e as que produzem bens de produção[21].
No caso latino-americano, compreendem os endogenistas, ocorreria o contrário. Isto é, condições estruturais diversas, como a introdução “exógena” do progresso técnico, a heterogeneidade das relações de produção e o papel do capital estrangeiro, consubstanciariam um outro processo de industrialização. Como este pode ser definido? Ele emerge como um prolongamento das atividades agrícolas de exportação e avança através de linhas de menor resistência, proporcionando o desenvolvimento local das indústrias de bens de consumo leves. Contudo, muito rapidamente se verifica um “choque”: essa “evolução natural” abalroa-se com a ausência de organização do mercado de trabalho e com a inexistência de um segmento local produtor de bens de produção. A demanda crescente de mão-de-obra urbana tende a fazer com que os salários se elevem muito rapidamente nesse segmento. De outra parte, as trocas setoriais são fracas e, daí, decresce o ritmo do emprego e da demanda, ao passo que a importação de máquinas e de equipamentos se eleva, donde resulta o agravamento dos custos de produção industrial e os desequilíbrios de seus balanços de pagamento. Que fazer então?
Perante este quadro, frisa-se, só a intervenção estatal pode remediar a insuficiência tecnológica e financeira da emergente burguesia industrial. Em tal cenário, do que se trata é de uma intervenção do Estado que inaugura uma primeira fase da industrialização, a chamada  industrialização restrita, que tem como marca distintiva o remanejamento estatal das condições de valorização do capital. O que é feito através da movimentação de dois “mecanismos”. 
O primeiro, em poucas palavras, pode ser traduzido como sendo o esforço de financiamento da produção industrial levado a cabo pelo Estado. De maneiras diversas. Por exemplo, seja por meio da transferência fiscal de recursos do setor agrário para o urbano, seja por via do fato de ele se encarregar maciçamente dos setores pesados[22]. . Quanto ao segundo, consiste na instituição de uma legislação trabalhista e, especificamente, no estabelecimento de um salário mínimo nacional de subsistência para os trabalhadores urbanos. 
Este último “mecanismo” seria responsável por uma “igualização pela base” da remuneração da força de trabalho urbana, assegurando uma elevada taxa de exploração da força de trabalho, reproduzindo consequentemente, de modo ampliado, o capital industrial. Assim, a organização estatal do mercado de trabalho e a fixação de salários de subsistência no setor industrial implica um duplo efeito sobre o conjunto do sistema, que também opera um rebatimento condicionante sobre as especificidades do modelo de desenvolvimento. Ou seja, por um lado, tem-se a necessidade de preservar um vasto setor agrícola, onde predominam as relações de produção pré-capitalistas e que produz, a custos reduzidos, o essencial dos bens de consumo operários; por outro lado, a explicação dessa transformação dos mecanismos internos de regulamentação do sistema se consubstancia na manutenção das formas “não capitalistas” de reprodução e de apropriação do excedente no setor de serviços, de uma forma que o crescimento se combina organicamente com a intensificação da acumulação do capital industrial. Se o encadeamento tem tal configuração, agora, portanto, através da intervenção estatal, esta intensificação passa a se constituir o centro motor da economia, graças a intervenção do Estado, num processo que assegura a coesão de todo o tecido social e impele a canalização de recursos para o setor urbano-industrial. 
Não é preciso fazer muito esforço para mostrar que a focagem endogenista tem em conta uma variável que considera a forma populista de regime político. A probabilidade do panorama por ela desenhado indica isto. Depreenda-se que o populismo realiza uma modificação no regime político e que o panorama desenhado concorre para a passagem a um novo modo de acumulação que se orienta para o mercado interno. Captada a conexão. A forma populista de regime político repousará concretamente numa aliança de caráter duplo: ela põe lado a lado fracções da oligarquia agrária e a florescente burguesia, como também, ao mesmo tempo, liga essa burguesia ao nascente proletariado industrial. Sem divagações, estamos diante do pacto populista. E se quiser um exemplo de expressão material sua, olhe-se para o Brasil sob Getúlio Vargas. Eis que, por esse caminho, somos conduzidos a uma situação bastante particular. Digamo-la. 
Trata-se de uma situação que raciocina a partir da ideia de revolução passiva[23]. Consequentemente, a decolagem industrial é concebida como resultante de uma intervenção do Estado pelo alto, assumindo um papel que a burguesia, dada a sua condição embrionária, não poderia desempenhar. De par com esta ideação, entende-se que a crise dos anos 1930 limitou-se a criar um “vazio” – rompendo as relações comerciais e financeiras com o exterior -, sem que, no entanto, tenha produzido alternativas, sendo estas decorrentes da “celebração” do  pacto populista entre velhas e novas forças sociais. E mais. É no contexto das transformações inauguradas que o Estado procede a codificação institucional de  novas formas de trabalho do emergente operariado, empenhando-se ao mesmo tempo – em face do nascimento tardio do capitalismo industrial – na histórica tarefa de “fabricar fabricantes”. Isto corresponde, entende-se, a fase de industrialização restrita, que precede e prepara a entrada maciça de capitais estrangeiros, ao fim dos anos 1950, em países latino-americanos. 
No decurso, aponta-se a constituição de um aparato de dispositivos que, modificando o sistema fiscal e a legislação concernente ao capital forâneo, é concebido pela classes dirigentes, em cada país, como meio para reforçar e ampliar a sua hegemonia. De outra parte, tal aparato contribui para atrair investimentos estrangeiros e para garantir o estabelecimento de um novo setor produtor de bens de consumo duráveis em alguns dos países da América Latina. E eis o desdobramento resultante: a modificação do modelo de acumulação. 
A “articulação endógena” dos três grandes ramos produtivos[24]  apresenta-nos então uma nova dinâmica de acumulação, cuja caracterização básica é marcada por uma conexão em que o  ciclo produção  (investimento) e realização  (consumo) é executado de maneira singular: a classe trabalhadora gasta o que recebe e o patronato recebe o que gasta. Nesta lógica, os salários são vistos como um mero custo de produção – ao invés de uma componente de uma demanda a ser ampliada -, o que faz com que se busque a sua redução. O resultado, portanto, é claro: trata-se de um modelo de acumulação socialmente excludente. Ora, compreende-se, daqui, politicamente, não se tem outra coisa senão que o pacto populista “bateu no teto”. Esgotou-se. O modelo de acumulação requer uma redefinição na forma e na ação do Estado.  Por essa via, explica-se então a passagem, na região, do discurso populista para formas autocráticas de governo, como condição, por exemplo, para – pela extensão da violência estatal – manter a “paz social” e assegurar a reprodução alargada do sistema. 
Há na  focagem endogenista elementos que estabelecem um “inesperado” encontro com o background cepaliano. Onde, apesar de incursões invertidas, chega-se a um mesmo ponto. Isto é, embora a leitura proporcionada pela focagem endogenista sobre o balanço de pagamentos dos países latino-americanos se situe em posição oposta à da CEPAL[25], ela converge em direção à mesma concepção de Nação pressuposta nas formulações cepalianas. Quer dizer, ao fim e ao cabo, chega-se a uma concepção de Nação apreendida como um espaço relativamente fechado, dotada de um atributo que a credencia a conduzir uma estratégia alternativa de desenvolvimento autônomo – logo, sendo assim, este pode ser menos concentracionista e mais igualitário[26].
Certamente, ficando prisioneira de um raciocínio construído a partir de uma “nação fechada”, a focagem endogenista impede-se de captar as dinâmicas contraditórias de acumulação do capital ao nível mundial. Desse modo, não se tenha dúvida: a própria noção de subdesenvolvimento com a qual ela opera padece de limitação teórica. Nesse sentido, é bastante pertinente um realce direto no texto de Gilberto Mathias e Pierre Salama: 


Formulando uma problemática do subdesenvolvimento em termos essencialmente «endogenistas»  - ou seja, como um fenômeno circunscrito em suas leis de movimento ao espaço nacional -, desliza-se fatalmente para uma concepção da economia mundial que, embora caracterizada por «defasagens” significativas (tecnológicas, financeiras, etc.), permanece fundamentalmente agregativa. Perde-se de vista, assim, que – inclusive para além das múltiplas polarizações que podem se estabelecer a nível internacional – a economia mundial constitui uma totalidade em movimento[27].

  Encerrando a nossa abordagem sobre a focagem endogenista, cabe, em síntese, assinalar que ela parece envolvida numa “desconexa indefinição” no que concerne à sua concepção de Estado. Por se movimentar num quadro analítico onde a Nação é apreendida de “maneira fechada”, procede-se a uma delimitação do Estado como algo estritamente endógeno. Daí se oscila entre uma concepção “funcionalista”, onde o Estado aparece como comandado pelas necessidades objetivas do processo de acumulação de capital – no contexto específico de transição de uma economia agroexportadora para uma economia industrial – e uma concepção “subjetivista”, em que o Estado intervém pelo alto, semelhante a um “aparelho” externo ao capital, instituindo voluntariamente  as condições necessárias ao desabrochar da acumulação capitalista[28].
Somos colocados, desse modo, perante uma marcha pendular entre duas concepções extremas da relação Estado & capital. Uma marcha insuficiente, pois, seja como for, tem-se em perspectiva uma ideia de  autonomia relativa que remete de uma concepção “determinista” do Estado – onde o que condiciona a sua reprodução desaparece numa identificação com as dinâmicas do capital – a uma concepção “voluntarista”, em que ele intervém no processo de acumulação como um “aparelho” situado do exterior. 

À guisa de conclusão
Retrospecto feito. Background cepaliano, exogenismo dependentista e focagem endogenista. Estas foram as correntes que, classicamente, orientaram o debate sobre desenvolvimento na América Latina. Delas, pode dizer-se o que se quiser. Que mantêm pontos de contacto, que foram formuladas em função de uma época específica, que teses de uma são mais pertinentes do que as de outra (e isto, por certo, é procedente), etc. Mas o que não se pode negar é que elas assumiram com afinco a tarefa de discutir o desenvolvimento latino-americano. Dessa forma, hoje, quando novamente a região se vê perante o mesmo debate, as análises a seu respeito não podem ser empreendidas desconsiderando-as. Elas têm algo a dizer na refundação do desenvolvimentista na região. Uma refundação que requer perspicácia teórica e criatividade intelectual. Que seja capaz, perante as configurações de um novo tempo, entre coisas, de ultrapassar o simplismo da oposição centro &periferia e de colocar em causa o estatuto da ideia de Terceiro Mundo. No primeiro caso, não se pode senão apontar a impropriedade de uma tal formulação em relação, por exemplo, à sociedade brasileira, que, nem sendo centro, nem periferia, é semi-periférica – o que implica em se ter conta a formulação de Imanuel Wallerstein[29]. No segundo caso, o conceito de Terceiro Mundo é, hoje, tão anacrônico que só a senilidade analítica e o nacionalismo canhestro ainda justificam o seu uso: aquela por acomodação e este, não poucas vezes, por motivações ideológicas que tendem ao populismo[30].
Por outro lado, seria de bom tom que os “neodesenvolvimentistas” brasileiros atuais, tão eufóricos que estão, a ponto de levarem o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social) a conceder recursos a uma multinacional como a Volkswagen, tivessem mais em atenção os quadros de referência das teorias do desenvolvimento na América Latina. Talvez assim “descubram” o que realmente significa, por exemplo, empenhar o BNDES na formação de conglomerados nacionais de projeção mundial, como o Brasil Foods e o JBS, maiores exportadores mundiais de frango e carne bovina respectivamente. É possível, ainda, que os “neodesenvolvimentistas” também “descubram” que, por mais que se queira subordinar as possibilidades estruturais da história às ideologias políticas de governos, a história, por ser movimento, tem a propensão de nos tornar dupes de nous-mêmes, surpreendendo-nos com desdobramentos imprevistos. Só não se considera isto quando se está tomado por um dos principais atributos das ideologias dominantes: a ideia de perpetuidade do presente. Esta é uma razão a mais para os “neodesenvolvimentistas” brasileiros passarem em revista o debate sobre desenvolvimento na América Latina.

Notas 


[1] Os textos El Pesamiento de la CEPAL, de RODRIGUES, O. (México: UNAM, 1979); e The Originality of the Copy: CEPAL and the Ideia of Development, de CARDOSO, Fernando Henrique (in CEPAL Review, nº 4, 1977) são fulcrais para que se capte o background cepaliano. 

[2] Aqui, portanto, estamos inteiramente de acordo com as interpretações desenvolvidas por Gilberto Mathias e Pierre Salama em  O Estado Superdesenvolvido (São Paulo: Brasiliense, 1983), nomeadamente no texto constante como anexo do livro sob a denominação de Das Teorias do Estado e da  Nação à definição de uma Problemática: o debate latino-americano como ilustração, p. 137-206 (Mathias & Salama, 1983). 

[3] Tal como realçou Maria da Conceição Tavares. Cf. o seu Da Substituição das Importações ao Capitalismo Financeiro, Rio de Janeiro: Zahar, 1979.  

[4] Seguramente a posição capaliana poderia objetar à tal interpretação que ela leva em consideração, em suas perspectivas sobre comércio internacional, a dinâmica reivindicativa diversa das classes   trabalhadoras dos países centrais e periféricos, evidenciando as disparidades de remuneração nos dois casos. Contudo, se é assim, tende-se para uma “focagem unilateral”. Isto é, como com pertinência bem assinalaram Gilberto Mathias e Pierre Salama (op.cit., p.143)  “corre-se o risco de perder o fato de que as relações de classe e sua expressão ao nível salarial só intervêm na análise cepaliana no quadro de uma comparação estática entre o centro e a periferia, sem desempenharem nenhum papel decisivo – o que, de resto, implicaria ampliar a análise dos salários, entendidos (...) como uma simples variável de distribuição (...) – na análise das formas específicas de reprodução da relação capitalista nesses diferentes países”. 

[5] A propósito,  desenvolvem mesmo uma tipologia da TD. Conforme esta:  “Uma primeira versão (...) coloca no centro da análise o fluxo de  capital-dinheiro  entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos (...); uma segunda versão põe o acento, tal como a CEPAL, nas características das relações comerciais que se estabelecem entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos (...); para
outros, ainda, os mecanismos de dependência resultariam das influências estruturais que separam os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos do ponto de vista das condições técnicas de reprodução de seus capitais” (Mathias & Salama op. cit. p. 148-149).     

[6] Não citamos os autores de maneira direta por, já estando a seguir o texto, ser desnecessário e cansativo para o leitor. Além do que realizamos uma interpretação própria do que eles elaboram. De qualquer forma, deixamos indicado que as mencionadas considerações encontram-se nas págs. 150, 153, 156 e 157. 

[7] Trata-se de “A propos de la critique”, in L’Homme et la Société, Janeiro-Fevereiro, 1976. 

[8] Que, compreendem os autores, se manifesta de duas formas: “Por um lado, através de uma tomada de posição em defesa dos interesses econômicos das nações subdesenvolvidas (...). E, por outro, sob a forma de um discurso e/ou de uma prática populistas, nos quais a emergência de um chefe carismático que encarna a vontade de um povo contribui para apagar as divisões de classe numa concepção indiferenciada de nação” (Mathias & Salama, op.cit, p.150).  Embora o “nacionalismo terceiro-mundista”, prosseguem, faça uma crítica metodológica à orientação que se centra essencialmente nas formas de circulação internacional do excedente e na elevação da luta entre nações como princípio motor do sistema capitalista mundial, ele remete, de qualquer modo, “à mesma problemática da repartição internacional do excedente econômico e, portanto, do poder relativo de negociação de cada país no cenário mundial, onde todas as classes aparecem confundias no seio da nação” (ibidem, p. 151).  

[9] A mencionada abordagem foi desenvolvida por Fernando Henrique Cardoso em “Teoria da Dependência ou Análises Concretas das Situações de Dependência”, texto este apresentado no “2º Seminário Latinoamericano para el Desarollo”, em 1970, promovido pela FLACSO no Chile, sob o patrocínio da UNESCO. Ele vem a ser algo como que um comentário/resposta a um texto de Francisco Weffort, intitulado “Notas sobre a Teoria da Dependência: Teoria de Classe ou Ideologia Nacional?”, base de sua comunicação no mesmo Seminário. Quanto ao texto de Cardoso, encontra-se publicado no seu O Modelo Político Brasileiro, pp. 123-139 (São Paulo: Bertrand Brsil, 1993). De resto, a Teoria da Dependência nesta variante tem como proponente principal alguém que, em sua formação, é influenciado pelo modo de análise social difundido por Florestan Fernandes, que, convenhamos, se trata de um modo de análise que, atualmente, nos faz falta. 

[10] CARDOSO, 1993, op. cit., p. 123-124. Daí, para prosseguir a sua argumentação, Cardoso faz uma indagação, respondendo-a em seguida: “Que quer isto dizer? Quer dizer, basicamente, que as estruturas condicionantes são o resultado da relação de forças entre classes sociais que se enfrentam de forma específica em função de modos determinados de produção. Trata-se, portanto, de valorizar um estilo de
análise que apanha os processos sociais num nível concreto. Ora, a partir deste momento, a crítica não se orienta apenas contra “a direita”, mas também contra setores, em geral preponderantes, da esquerda intelectual” (ibidem, p. 124).  

[11] Referimo-nos ao livro escrito por Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto, o  Dependencia y Desarrollo en América Latina, México, Siglo XXI, 1969.   

[12] Ibidem, p. 19-20. Em seguida, afirma-se que o conceito de dependência será utilizado como “um tipo de concepto «casual-significante» - implicaciones determinadas por um modo de relación historicamente
dado – y no como concepto meramente  mecánico-causal, que subraya la determinación externa, anterior, para luego producir consecuencias internas (ibídem, p.20). 

[13] Logo, somos informados que “a noção de dependência é apresentada para pôr ênfase em um tipo de análise que recupera a significação política dos processos econômicos e que, contra a vagueza das análises pseudomarxistas que vêem no imperialismo a enteléquia que condiciona apenas do exterior o processo histórico dos países dependentes, insiste na possibilidade de explicar os processos sociais, políticos e econômicos a partir de situações concretas e particulares em que eles se dão nas situações de dependência” (Cardoso,1993, op. cit., p. 125).   

[14] - Dessa forma, ao se deslocar o núcleo das explicações do processo histórico, “assegura-se, ao mesmo
tempo, a possibilidade de encontrar vias distintas de rearticulação de uma situação de dependência para outra, de um período para outro. Em resumo, aceita-se que existe uma “história” – e portanto, uma dinâmica própria, própria de cada situação de dependência” (ibidem, p. 127).   

[15] Ibidem: 131. A propósito, podemos ainda ler: “Não se iria além de petições de princípio e de uma dialética ao nível da oposição abstrata entre conceitos, se deixássemos de caracterizar precisamente a «ambiguidade» da situação, sempre e quando se entenda, como o fizemos, que neste caso essa ambiguidade nada mais é do que a forma como a contradição aparece, ao nível da percepção dos agentes. Uma análise dialética que não marcasse as ambiguidades e que passasse sem mediações das relações de produção às relações de classe não seria uma análise concreta de movimentos sociais estrutural-historicamente condicionados, que foi o que pretendemos fazer” (ibidem, p.131). 

[16] CARDOSO, Fernando Henrique, Entrevistas, Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1985, p. 13.  A propósito da sua formação, Fernando Henrique Cardoso revela: “O meu background é marxista” (ibidem, p. 15), decorrendo, no entanto, que o proveito que daí tira é fundamentalmente metodológico, o que o leva, aliás, na sequência da sua revelação, a criticar a ortodoxia: “(...) mas Marx escreveu um livro sobre o capitalismo no século XIX. (...) As estruturas de classe que Marx descreveu em seus trabalhos são as estruturas da sociedade capitalista competitiva, enquanto vivemos atualmente numa sociedade oligopolística (ibidem, p.15). No que se refere à variante da TD que ele  desenvolveu, também reconhece o seu débito para com Lenine, afirmando que:  “O meu modelo,  que não apliquei mecanicamente,   era o de Lenine para o desenvolvimento do capitalismo na Rússia (...)” (ibidem, p. 13). 

[17] Ibidem, p. 13.  

[18] Ibidem, p. 14.  

[19] Ibidem, p. 14.  

[20] Nomeadamente, OLIVEIRA, Francisco, A Economia Brasileira: Crítica à Razão Dualista, in EstudosCEBRAP, São Paulo, nº 2, 1972; TAVARES, Maria da Conceição, Distribuição de Renda, Acumulação e Padrões de Industrialização: Um Ensaio Preliminar, in A Controvérsia sobre a Distribuição de Renda e o Desenvolvimento, Rio de Janeiro: Zahar, 1975; CAMPOS CORDERA, R., Estado y Subdesarrolo en el capitalismo tardio y subordinado, in Investigación Económica, Julho-Setembro, 1971. 

[21] Consequentemente, “o investimento e o consumo podem se desenvolver e se diversificar   simultaneamente, ainda que não sem atritos” (Mathias & Salama, 1983, op.cit., p. 166).   

[22] O que importa é que, de uma forma ou de outra,  “o Estado cria inteiras faixas da indústria, garantindo as condições materiais necessárias às novas formas de valorização do capital e ao florescimento da burguesia local” (ibidem, p. 166)

[23] Constitui-se um fato bastante realçado os três conceitos referidos para designar as formas de transição ao capitalismo. Um é o  clássico, tendo como modelo os processos seguidos pelas revoluções inglesas do século XVII e pela Revolução Francesa. Os “não clássicos” são a  via prussiana  e a revolução passiva. No primeiro caso “não-clássico”, a noção serve, sobretudo, para designar os processos de transição ao capitalismo no campo, evidenciando o fato de que se conservam na nova ordem fundada pelo capital claras sobrevivências das formas pré-capitalistas, a exemplo do uso da coerção extra-econômica na extração do excedente produzido pelos trabalhadores rurais; no segundo caso, a formulação é utilizada para designar os processos de modernização promovidos  pelo alto, nos quais a conciliação entre as diferentes fracções das classes dirigentes (embora não só) é um recurso para afastar a participação das camadas populares na passagem para a modernização capitalista (Coutinho, Carlos Nelson, Marxismo e Política: A Dualidade de Poderes e Outros Ensaios. São Paulo: Cortez, 1996). Trata-se de um “conceito gramsciano [que] foi muito utilizado na Itália, na tentativa de conceituar adequadamente tanto o processo de unificação nacional (o chamado Risorgimento) quanto o fascismo” (Coutinho, 1996, op. cit., p. 16).

[24] Ou seja,  bens de produção, bens de consumo operários e bens de consumo duráveis.

[25] Que, como sabemos, vê na deterioração dos termos de intercâmbio a explicação central das formas e dos bloqueios do desenvolvimento latino-americano. 

[26] Por outro lado, não se pode perder de vista que a  focagem endogenista  constitui um passo para a superação da separação entre as esferas do político e do econômico, visto que o Estado é introduzido como uma pré-condição histórica do processo de  industrialização subdesenvolvida. Ela põe concretamente a questão da relação entre o Estado e o capital. Mas, eis o problema: Fá-lo no quadro de análise de uma Nação fechada. 

[27] Mathias & Salama, 1983, op. cit., p. 169-170. A referida totalidade – que, estando em movimento, não é mecânica – é regida por uma dinâmica que reproduz uma estrutura hierarquizada. Por conseguinte, a economia mundial pode ser vista, por exemplo, como um conjunto articulado através do qual o capital se manifesta e se reproduz em espaços nacionais específicos.

[28] Tenha-se presente ainda que, nos dois casos, “vê-se diferentemente – ou suprimindo-a ou  exagerando-a – a autonomia relativa do Estado em face do capital” (ibidem, p. 171). 

[29] Ver WALLERSTEIN, Immanuel,  O Moderno Sistema Mundial, Porto: Afrontamento, s/d. Para uma discussão específica sobre a noção de semiperiferia, ver MARTIN, William (Ed.),  Semiperipheral States in the World-Economy, Londres: Grrewood Press, 1990.  

[30] Aliás, há já algum tempo, alguém apontou o colapso do conceito de Terceiro Mundo. Cf. HARRIS, Nigel, The End of the Third World , Harmondsworth, Middx: Penguin, 1987.    

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Political Philosopher Robert Kurz has died - Faleceu o filósofo Robert Kurz

Faleceu, na passada semana, aos 68 anos, o filósofo político alemão Robert Kurz. Talvez seja mais apropriado defini-lo como um pensador social, dada a abrangência da sua obra. Numa época como a presente, em que as novas gerações têm limitado à  teoria social a estudos circunscritos estéreis, repisando o repisado, Kurz por certo fará imensa falta. Dono de uma marcante erudição, deu vida aquilo que alguém já chamou de Escola de Nuremberg, com crítica e inovação no campo marxiano. Embora, a meu ver, o seu modo de conceber o trabalho seja, de dentro do próprio marxismo, passível de contraponto, textos como o Colapso da Modernização são imprescindíveis para se entender as dinâmicas do que ele chamou de Moderno Sistema Produtor de Mercadorias. A seguir, uma breve recensão do seu pensamento. 


Rasmus Fleischer
Quarter of a century ago, the Nürnberg school of Wertkritik (value-critical theory) emerged as a project to develop a third critical theory, pertinent to the third industrial revolution. This essay aims to outline some recurrent figures of thought within this particular school, especially in the work of its most prominent representative, Robert Kurz. First of all, something should be said about the relation between critique and crisis.
When the growth of capital (or, more precisely, the Wertvergesellschaftung) begins to stall, if so only for a brief period of time, this does not only equal an “economic” crisis, but also a nascent decomposition of the whole “pseudo-nature” which is historically constituted around the value form and its form-immanent expansion. The crisis also involves labour, politics, nation, art, reason and other categories of realized metaphysics. If growth reaches its absolute limits, this means that all these mentioned categories are doomed and, in the long term, beyond any saving. Most important of all, they cannot give any orientation for the acute search for an exit.
The crisis is opening a gap between fetish and experience. The theory of the fetish-character of commodities was developed by Marx in the first band of Capital, showing how the commodity-form is mediating human relations as relations between things. Fetishism should not be misunderstood as an obsessions with commodities in themselves. It means that we experience the categories of the modernity – that is, societies of commodity-production – as naturally given, rather than as something we take part in shaping in our interaction with our environment. Everyday reason may rest safely within the fetishized categories, which everyone must internalize within their own consciousness to have any chance to take the role of a subject on the commodity-market, which is a role necessary to take in order to survive in a world based on wage labour. The manifestation of crisis means that the fetishes are no longer fit to explain everyday situations. Thinking may recognize crisis in two was: as ideology or as critique, both to be understood as a response to the experience of suffering, of a “damaged life”.
Ideology means affirmation; a thinking with an affirmative relation to one or several fetishized categories. Usually these are played out against each other: politics against economy, labour against capital, art against industry, or something similar. Ideology comes as an abundance of positive visions for the future; nevertheless, every ideology is essentially an ideology of crisis. Ideology itself is a symptom specific for the situation of a crisis within a society built on growth, that is, self-valorizing value.
The alternative to ideology is called critique. The precondition for critical thinking is to realize the impossibility to remain a subject envisioning community with others without recourse to fetishized categories. Critique can only begin from what Adorno called the non-identical, that which is not absorbed in fetishism. It cannot be reduced either to the form of pure theory or pure practice. Even when critique appears as theory, this can only be in attempt to sustain its negativity, a negativity which must also confront the very category of “theory”.
Any taking part in the competition of the marketplace of “theory” will imply a capitulation of theory before ideology. On the other hand, trying to immediately “get practical”, so that theory is made into an justification of a certain practice, will ultimately mean exactly the same kind of capitulation.
Critique demands both distance and closeness to the object of critique. Distance can only be kept by radically historicizing. Thus, radical critique is primarily to be understood as critique of fetishism, while the critique of ideology is secondary but indispensable. There is hardly any room for a genuine critique of “injustice”, as such jargon necessarily implies a positive notion of justice, which can only be formulated by recourse to fetishized categories and thus transform itself to ideology.
The Nürnberg school of Wertkritik are not defining themselves as representatives as a “third” critical theory. They do, however, address a tradition in which the two great forerunners are called Karl Marx and Theodor W. Adorno. Schematically, these could be thought as formulating a “first” and a “second” critical theory, corresponding to the first and the second industrial revolution, respectively. During these two epochs the critical theorists confronted an expansive modernity. Capital generally did work as self-valorizing value, even if sometimes hit by periods of crisis, which Marx as well as Adorno could experience on a personal level. After a while, however, every crisis was followed by new cycles of growth, which indeed made capitalism appear to be about the eternal recurrence of the same, also for those critics who strove to surpass it.
Neither the first critical theory, nor the second, had any chance to relate to the reality which has materialized in the third industrial revolution, based on microelectronics and digitalization. During the 1980s, Marxists like Fredric Jameson and David Harvey began to describe this reality as “postmodernity”. The Nürnberg school of Wertkritik preferred to understand it as “the collapse of modernization”.
Wertkritik, in this sense, is a rather marginal current, due to the fact that it takes place outside academia and inside the German-speaking country. There are, however, some parallels to the more academic “value-form analysis” represented by theorists like Christopher J. Arthur. The similarities are stronger than the differences between Wertkritik and Michael Heinrich, who has written an accessible, well-read and yet untranslated book on Marx’ Capital, in which a few sections are dedicated to polemic against Robert Kurz on the topic of crisis theory.
Most of all, Wertkritik does have strong affinities with the writings of Moishe Postone. As long as these are approaches to reading Marx, a common part of departure consists in the pathbreaking re-readings known as Neue Marx-Lektüre, made during a few years around 1970 by some students of Adorno’s (most importantly Hans-Georg Backhaus and Helmut Reichelt). Another influence comes from the rediscovery of I.I. Rubin (1886–1937), who already in the 1920s had emphasized the critique of fetishism as the central point in Marx, which was indeed an idea far from existing Marxism.
While all the mentioned writers tend towards a theoretical strictness, the writers associated with Wertkritik are often oscillating wildly between abstraction and concretion. This critique does not allow for itself any calm contemplation of the laws of movement of capital. On the contrary, it constantly returns to the question about how all theory is specific for a historical moment. One example of this turn is Robert Kurz’ essay “The end of theory”, translated to Swedish in this issue of Subaltern.
Robert Kurz was born in 1943 in Nürnberg. Around 1968 he got engaged in Germany’s maoist movement and during the 1970′s he was a member of KABD (Kommunistischen Arbeiterbundes Deutschland), which was one of innumerable “K-groups” in the sectarian left of West Germany. After his farewell to marxist-leninism he oriented himself towards a splinter group of ex-maoists around the magazine Neue Strömung. Already at this time Robert Kurz gained some notoriety for the polemic style which he himself likes to describe as “sharp-edged” (zugespitzt). There is undoubtedly something sectarian in saving one’s juiciest epithets for former comrades. So far, a certain heritage of Maoism is alive in Robert Kurz. The polemical style is not only a matter of personal temperament, but is grounded in an explicit aversion against the conventions of academic theory. Kurz has repeatedly expressed his contempt for what he terms the “bookbinder synthesis”, materialized in anthologies of academic theory as in vaguely leftist magazines which want radical critique as content without letting it question the editorial line. The refusal to take part in many such contexts is keepingWertkritik at a distance from academic leftism. Instead, it has mainly proceeded in the form of long essays in thick magazines edited by a few people in Nürnberg.
The beginning of Wertkritik can be traced to 1986, with the very first issue of Marxistische Kritik, a magazine which a few years later would change its name into Krisis. This first issue contained a programmatic essay by Robert Kurz, raising the claim that capitalism is entering its end crisis. The simple reason given for this was that the third industrial revolution has raised the productivity in commodity-production to such a degree that the generation of relative surplus value no longer can rise but must be beginning to fall. Capitalism makes itself impossible or is digging its own grave by emancipating itself from labour. The flight of capital from real accumulation to financial speculation is just a symptom of a stalled generation of surplus value. (It might be noted that 1986 marked not only the beginning of Wertkritik, but also the year in which the world’s financial markets were connected to one single system, an event which has been termed “the Big Bang” and which is given some attention by David Harvey in his recent work on crisis theory, The Enigma of Capital (2010).
Here is not the place to discuss details of the value-critical theory of crisis, which has been disputed a lot in Germany and is sometimes described by opponents as a kind of “catastrofism”. Around ten years ago, there was a major debate between some value-critical thinkers and Michael Heinrich, with the latter denying any inner logical limit in capital to infinite growth. Heinrich wrote: “The theory of collapse has historically played the role as a relief for the left. No matter how miserable the real defeats have been, one has been able to assert oneself that one’s opponent is about to lose it.”
This objection indicates that Michael Heinrich is underestimating the ambitions of the Nürnberg school. To the latter, the collapse of capitalism can hardly be thought as the defeat of an opponent, for to the extent that everyone living in capitalist society is caught within its fetishized forms, this will mean that the collapse of capitalism is also a collapse of their own conditions for living. There is an infinitely destructive potential in the crisis of capital. Indeed, Robert Kurz has returned a number of times to the idea of an death-drive immanent in the value-form as an absurd end in itself. The absolute end of self-valorizing value can, according to him, only be the “gnostic” annihilation of the world.
Only if people are consciously trying to transcend capitalism, and to resolutely negate the value-form, can there be a possibility to create a post-capitalist society. This is stressed also by Claus Peter Ortlieb, author of an important explication of the theory of collapse which in Germany has come to define Wertkritik.
Already before the fall of the Eastern bloc, Wertkritik was regarding Soviet and other “socialist” states not as failed alternatives to capitalism, but as belated and resolute attempts by states to achieve a stronger position on the capitalist competition on the world market. In the West as well as in the East, “socialism” essentially remained an adjective which could be put before all kinds of fetishized categories in order to legitimate their continued existence: “socialist politics”, “socialist economy”, “socialist culture”, “socialist state”, “socialist growth”, “socialist labour”…
An definite break between Wertkritik and existing Marxism occurred in 1989, as Robert Kurz published an article titled “Der Klassenkampf-Fetisch“. There is indeed an antagonism between labour and capital, he argued, but this is an antagonism of the commodity-market, which is as essential for capital as is the antagonism between competing capitalists. Class struggle is just a manifestation of the universal competition within capitalism and is therefore not able to lead the way out of it. Wertkritik was rather seeking an exit from the society built on of abstract labour, and during the 1990s this became a central theme for the group associated with the magazine Krisis. They got a certain fame in 1999 as they published their “Manifesto against labour” which sold surprisingly many copies in Germany and was also translated to a number of other languages.
The critique of labour was also broadened towards a critique of the fetishized forms of anti-capitalism which are affirming decent labour against indecent capital. This included not only a critique of traditional Marxism, but also of various ideas about an “alternative economy”, be it based on the abolition of interest or on the abolition of copyright. In this context Robert Kurz has, in a similar manner to Moishe Postone, discuss the relation of antisemitic ideologies to the value-form.
Wertkritik is characterized by a strictly anti-political stance, in opposition to all those leftist tendencies seeking to rescue “the political”. Common for all political parties and all political activist are a short-circuiting of critique. Political reason means to define objectives and to represent interests, but these objectives and interests can only be expressed within categories immanent to the real metaphysics of value. In the end, politics can have no other objective than the totalization of the commodity form and the transformation of all human relations into relations between legal subjects.
After formulating the fundamental critique of labour and politics, Robert Kurz tried to further radicalize Wertkritik in terms of a fundamental critique of subjectivity, reason and enlightenment. He abandoned certain remnants of Hegelian thinking (like the concept ofAufhebung) and, in the name of negativity, rejected the idea of a “dialectic of enlightenment”.
Just as the first critical theory did degenerate into ideology as its representatives where playing out state against capital, the second critical theory met a dead end as it approached enlightenment by playing out its ideal against its reality.
Just like the critique of labour knows two Marx, there are also two Adorno: one who affirms subjectivity and one who is staying true to negative critique. Subjectivity is, according to Robert Kurz, the form into which human individuals are forced by the fetishism of commodities. To the extent that people are acting as subjects, they are prisoners within a dialectic of subject and object which can only be destroyed by an “organized individuality”, which may be able to intensify critique to the point of an “ontological rupture” putting an end to modernity in its entirety. Beyond this point, critical theory will not be able to give directions. The destruction of the value-form does not liberate any fettered substance, neither “labour” nor “life”.
Nevertheless, Robert Kurz has a few times indicated how he is imagining a process pointing beyond capitalism. Crucial is that liberation can never build on prohibition, because the prohibition of a fetish would itself be a degeneration into fetishism. The destruction of the existing can only happen by practical confutation, and the process is not about destroying everything old that exists. Robert Kurz is rather describing liberation as a process of laborious selection, based on criteria which can not be defined in advanced but may only arise in the process of abolishing capitalism. Organized individuality has to sort out and judge the whole existing history of productive powers and cultural techniques. These might be appropriated or rejected, re-grouped or re-directed. In a curious way, Robert Kurz is here arriving close to some ideas of Bruno Latour, or even of the recent turn to ontology within British philosophy, when suggesting the need to give proper judgement to every singular thing in the world, if only after a process of intensified critique which is yet to be realized.
The historical origin of anything – a work of art, a technological innovation, a figure of thought – cannot be the basis of its judgement. At the point of transformation, all things must be judged by the same emergent standards, regardless if they have arisen from any phase of capitalist development or if they are inherited from pre-capitalist formations. This transformation will probably involve the resurrection of some of the potentials in agrarian society which was annulled by capitalism.
Around the turn of the century, Wertkritik was becoming a fundamental critique of existing civilization. At this point, some editorial members of Krisis began to think that Robert Kurz had gone too far. Conflicts within the group were intensifying and in 2004 the split became a fact, as the group around Kurz left Krisis in order to found a new magazine, Exit.
On the theoretical level, this conflict was mainly played out as a dispute about the status of feminism. According the group around Exit, it is now necessary to get beyond a simpleWertkritik in order to develop a critical meta-theory called Wert-Abspaltungskritik (roughly translatable as “critique of value-secession”).
While the value-form is in itself totalizing, it can never become total. In order to exist and to expand, value must have the support of its own shadow, consisting of that which is systematically excluded from exchangeability. The precondition for human life under capitalism is that some activities – those associated with love, care and sensuousness – are given a special kind of reservation. This reservation happens to be largely synonymous with what is regarded as “female”. Even if this theory operates on a high level of abstraction, it does indeed give a reason for the continued dominance of a dualism of sexes in the contemporary ordering of gender.
The theory of Wert-Abspaltung is indeed a meta-theory, stressing that value and its “secession” must be understood at exactly the same level of abstraction. Consequently, this is not another theory about how capitalism is behind patriarchy. Rather it is a development of the critique of Marxist feminism that has been formulated by Roswitha Scholz, a writer inKrisis and now in Exit. Later on, Robert Kurz has made a couple of loose attempts to also understand how “artistic” activity is “seceded” from capital.
Through this theoretic upgrade, Exit has succeeded in remaining an always experimenting and radically unfinished project. The remaining group of value-critical writers, around magazines like Krisis and Streifzüge, are far more prone to let their theories be used to legitimate practice, for example the practice of free software. In response to this, Robert Kurz tends to turn into a schismatic on the level of Guy Debord. The polemic against former comrades here tends to involve more coarseness as well as more brilliance. It is also contributing to make Kurz impossible in the radical milieus of art, activism and academia which are otherwise fond of idolizing symbols of “communism” like Antonio Negri, Alain Badiou and Slavoj Žižek.
Robert Kurz does not really show any interest in connecting his thoughts with contemporary leftist theorists. In his writings it may seem like the history of philosophy ended around 1970 (after Adorno and Arendt); the only exception from this is Agamben. Otherwise, Kurz is only referring to contemporary philosophy when he wants to demonstrate its general degeneration. He is rather drawing his influences from contemporary historical research, in which he seems well orientated.
Robert Kurz is, as an economy journalist specialized in crisis theory, a regular contributor to German as well as Brazilian newspapers with a monthly column in Neues Deutschland. He does not, however, really come to his right in that short format.
Over the years, hundreds of his articles have been translated from German into Portuguese. Almost nothing has been translated into English. There are exceptions online, but these are in many cases translated in two stages, via Portuguese, which means that these text are not very readable. The central texts of Wertkritik and Wertabspaltungskritik – the books and the longer articles from Krisis and Exit – have never found a substantial readership outside Germany, which is unfortunate. There are however rumours about a forthcoming English translation of Robert Kurz historical work, Schwarzbuch Capitalismus (1999), which found quite a large readership in Germany. It is yet to see if and how the critical theory from Nürnberg, at a time where capitalist modernity is showing signs of collapse, may be received outside Germany.


quarta-feira, 18 de julho de 2012

The Sun Also Rises - O Sol Também se Levanta


Ao cabo de cada livro lido, a pergunta sobre o seu sentido para o aqui e o agora. No caso de O Sol Também se Levanta, a resposta não parece difícil. Abaixo, uma pequena recensão. 




Considerado pela crítica norte-americana como o primeiro grande romance de Ernest Hemingway (mesmo ele tendo publicado, um ano antes, a novela The Torrents of Spring), O Sol também se levanta, de 1926, é um retrato fiel daquilo que ficou conhecido como Geração Perdida (Lost Generation). O termo foi popularizado pelo próprio Hemingway, que buscava caracterizar uma parcela da população americana que se mostrava descrente quanto ao seu futuro logo após a Primeira Guerra Mundial.

A trama é narrada e vivenciada por Jake Barnes, um veterano de guerra que voltara dos campos de batalha impotente, em todos os sentidos. Como um anti-herói americano, o personagem vive exilado em Paris trabalhando como jornalista. Seu círculo de amizades compreende estereótipos complexos e obsoletos. É apaixonado por Lady Brett Ashley, uma mulher aparentemente distinta, mas que mantém uma série de relacionamentos pouco duradouros com os homens.

Logo no primeiro capítulo do livro, Jake apresenta um de seus amigos mais íntimos, o ex-boxeador e escritor Robert Cohn, de quem desconfia todo o tempo (...).  Os verdadeiros relacionamentos de Jake, no entanto, são mantidos com Bill Gordon (também escritor e veterano de guerra) e Mike Campbell, escocês, noivo de Brett, e ex-milionário.

Apaixonado por touradas, o protagonista convida os demais personagens para a Fiesta, um festival de touros que acontece anualmente na cidade de Pamplona, na Espanha. Durante a semana em que deixam Paris, Jake, Bill, Brett, Mike e Cohn mergulham com tudo na descrença marcante da Geração Perdida. De bar em bar, os personagens passam todo o dia bebendo vinho, cerveja, chope e absinto. O assunto nas mesas raramente vai além das frivolidades do mundo.

O título O Sol também se levanta, a princípio, reflete bem o comportamento dos personagens: mesmo depois de todas as bebedeiras desenfreadas, todos eles sempre estão de pé quando o sol se anuncia. Porém, o nome foi dado ao livro tendo como base o versículo 5, do primeiro capítulo de Eclesiastes na Bíblia, expresso nas seguintes palavras: “O sol nasce, e o sol se põe, e corre de volta ao seu lugar donde nasce.” A apropriação de Hemingway não faz muito sentido até que se leia a passagem anterior: “Uma geração vai-se, e outra vem, mas a terra permanece para sempre”. Isso reforça a crença de que o autor buscava caracterizar e retratar o sentimento comum que vigorava unicamente naquele determinado período de tempo, sabendo de sua efemeridade e volatilidade.
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sexta-feira, 13 de julho de 2012

Penumbra do tempo presente ou as incertas paisagens da existência

O texto abaixo é o meu artigo para a edição de Outono (europeu) da Revista Portuguesa A Página da Educação. Aí está, Leont Etiel. Solicitação atendida.   

Wlater Benjamin: enigmática e melancólica penumbra 


Ivonaldo Leite
As faces do ocaso, por vezes, se disfarçam na simulação de um esboço de alegria simbolizada por um instante de sorriso triste. Reação compreensível perante determinadas intermitências de um mundo que exala desalento, que se esconde, e se recusa a deixar-se entender. Em última instância, parece ele querer repisar a máxima do filósofo franco-romeno Emil Cioran segundo a qual “o limite de cada dor é uma dor maior”.  
Do deambular pelo terreno cioraneano, recolhe-se da pena do seu tradutor Thomaz Brum uma asserção com significação ontológica para o tempo presente: “só uma geração desiludida poderia se entusiasmar por uma visão tão negativa da história. É preciso reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir sentido ao que visivelmente não tem sentido”. Como estrutura da relação do sujeito com ele próprio e com o mundo, o tempo é uma instituição no plano da sensibilidade que, todavia, não é guiado por uma teleologia absoluta para pintar “paisagens sensíveis”. Nos cumes do desespero, o abrigo na metafísica, vamos lá, é sempre uma alternativa. Mas que não sejam alimentadas grandes ilusões. As máscaras sobre as máscaras sempre têm um fim, que desconcertam até mesmo quem aposta as suas fichas numa opção apofática. Pode-se, é certo, como meio de reflexão imanente, buscar contentamento numa ancoragem mítica - seguindo uma certa trilha gnóstica de revolta contra um demiurgo supra-histórico -, mas parece evidente que isto não anula a possibilidade de o castelo da estância metafísica acolher, na totalidade das suas dependências, sombras que põem em movimento a incerteza e a angústia.   
Quanto desalento, desilusão e sofrimento na contemporaneidade! A era da reprodutibilidade técnica, digamos, invocando o testemunho de Benjamin, não parece apenas ter submetido a obra de arte à existência serial, mas, ao que tudo indica, ampliou a serialidade à praticamente todas as esferas da vida, e, mais do que isto, tende a seriar o fútil, banalizar a desventura e desvirtuar a pólis. A insegurança ontológica de cidadãos de diversos países europeus, face a um sistema que – para assegurar a sua reprodução – os reduzem a incômodas estatísticas econômicas; a geopolítica da morte entre Ásia e África; o destruidor “Minotauro” do agrobusiness avançando com toda a força sobre a Amazônia; a ansiedade e a amargura de vidas individuais, etc. são exemplos das melancólicas paisagens dos dias que estamos a viver. Les fleurs du mal. Sim, seja como for, mutatis mutandis, uma fresta faz clarear a lembrança do Baudelaire das Flores do Mal. “O imenso e frio cemitério sem limite/onde repousa, à luz de um sol pálido/quando povo existiu”.
Uma vez mais aludindo a seara benjaminiana, é de se trazer a lume a alegoria, em tom escatológico, adornada a partir do quadro Angelus Novus, o Anjo da História. A tempestade do progresso impelindo-o para o futuro enquanto um amontoado de escombros cresce até ao céu. Da dialética do esclarecimento frankfurtiana, recolhemos que esse Anjo, que expulsou os seres humanos do paraíso em direção ao progresso técnico, é ele próprio, com a espada em chamas, a imagem desse progresso.  
A trágica mensagem de Angelus Novus bem pode chamar a atenção do tempo presente para o fato do que significa a existência individual e coletiva se encontrar submetida às - não poucas vezes dilacerantes - trilhas das ruínas históricas. A tempestade dos acontecimentos que sopra em todas as direções. A vida não é um fenômeno que escoa de modo unidimensional – mesmo que se busque o essencialismo no castelo da estância metafísica. Parece que, na penumbra do tempo presente, ao se falar de “sentido da vida”, desse entendimento ter-se-á que partir. Porque, se a vida for limitada a um objetivo único ou inexaurível, o viver passa a ser a negação do sentido da vida. 

      

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Alfabetização na idade errada

Quanto vemos, os crescentes casos de functional literacy ("analfabetismo funcional"), é de, pelo menos, se prestar atenção em argumentos como os do artigo abaixo - publicado na edição de hoje (12/07/2012) do Jornal Folha de São Paulo (versão para assinantes). 


Por João Batista Araújo e Oliveira (Doutor em Educação, Presidente do Instituto Alfa e Beto) 


Quem tem filho em escola particular sabe que a idade certa para alfabetizar é aos seis anos. Por que o MEC propõe que isso possa ocorrer aos oito anos na escola pública?
Há vários critérios para balizar uma resposta: a experiência nacional, a experiência internacional e a evidência científica.
No Brasil, escolas privadas e centenas de escolas públicas alfabetizam aos seis anos -antes no terceiro período da pré-escola, agora no primeiro ano do ensino fundamental. No plano internacional, todos os países com o sistema alfabético de escrita alfabetizam seus alunos no primeiro ano da escola formal.
Há duas exceções. Os de língua inglesa, que levam mais tempo (três anos) pela quantidade de fonemas e pela complexidade do seu código ortográfico, e os de língua francesa, que ensinam a ler no primeiro ano, mas muitas crianças ainda apresentam dificuldades no processamento ortográfico até o fim do segundo -uma palavra com o som "ô" pode se escrever o, ô, ot, au, eau, eaux...
O sistema de escrita da língua portuguesa tem complexidade média, pode ser aprendido em quase sua totalidade ao final de um ano.
E a evidência científica: a ciência cognitiva da leitura -ignorada pelas faculdades de educação e pelas autoridades educacionais, mas reconhecida como paradigma científico da área- tem suas respostas.
A Academia Brasileira de Ciências publicou um relatório sobre o tema em 2011, que valeria ser lido e levado a sério. Mas essas evidências não são levadas em conta no Brasil. É mais cômodo bater claque para tudo que vem do Planalto ou que agrada a certos ouvidos.
Por que empacamos no assunto? Porque as autoridades colocaram a raposa para cuidar do galinheiro.
Bastam poucos exemplos para ilustrar como estamos amassando barro em discussões fúteis e políticas equivocadas, que seriam superadas se a ideologia e o corporativismo cedessem lugar ao diálogo e ao debate embasado em evidências.
É bom que as autoridades políticas falem em alfabetização na idade certa. Pelo menos começam a falar do problema, depois de ter torrado bilhões em programas ineficazes de alfabetização de adultos.
Mas o gigante desperta de mau humor e se levanta com o pé esquerdo. O programa não define o que seja alfabetização e erra na idade em que se deve alfabetizar. Trata-se de inaceitável hipocrisia, pois só é aplicável aos alunos da rede pública e não aos filhos e netos dos que advogam essas políticas.
Inventam-se termos melífluos e indefinidos como "letramento" para confundir as mentes e sugerir que a aprendizagem do código alfabético é algo de segunda classe, que sequer merece ser tratado pelo próprio nome. A tal Provinha Brasil é um testemunho vivo dessa visão equivocada do que seja alfabetizar e da confusão reinante no país entre leitura e compreensão.
A inexistência de um programa de ensino onde as competências da alfabetização sejam bem definidas é o atestado da renúncia oficial em enfrentar os problemas de frente.
Até o termo "cartilha", adotado em todas as áreas pelos que desejam iniciar alguém em algum assunto, é tido como anacronismo pelos patrulho-pedagogos de plantão.
No Brasil, a pedagogia da alfabetização ficou paralisada desde a década de 1970. Jogamos fora o bebê e a água do banho. Paramos de formar professores alfabetizadores, paramos de alfabetizar as crianças, tudo em nome de uma ideologia que afirma que o aluno é um Champollion diante da pedra de Roseta, capaz de descobrir por si mesmo o código alfabético.
Tornamo-nos prisioneiros de ideias requentadas de autores há muito falecidos e que só fazem sucesso nos trópicos.
A paralisia intelectual de nossos ideo-pedagogos e a opção preferencial do MEC pelo corporativismo nos trazem vultosos prejuízos.
Para avançar em educação, o Brasil precisa romper o círculo vicioso de consultar sempre as mesmas pessoas e grupos escolhidos por critérios ideológicos, sem compromisso com evidências e resultados.
O país deve ouvir o que a ciência tem a dizer sobre o que é alfabetizar, como alfabetizar, quando alfabetizar e como saber se o aluno sabe ler e escrever. Até lá, vamos continuar a sacrificar os alunos da escola pública no altar das ideologias.

terça-feira, 10 de julho de 2012

A Filosofa do Desalento de Emil Cioran e o encontro com Fernando Pessoa

Passou praticamente sem registro, em nosso meio, o centenário do filósofo romeno, naturalizado francês, Emil Cioran, em 2011. Controverso nos seus primeiros anos, Cioran abandonou a Romênia, fixando-se em França e deixou para trás até mesmo a língua romena, negando-se a dela fazer. Foi, pode-se dizer, um pensador do desalento. Ou o pensador do "castelo do terror metafísico", como também já foi dito (uma implícita alusão ao fato de ter nascido na região romena da Transilvânia). Em português brasileiro, há apenas quatro livros traduzidos dele, todos vertidos por José Thomaz Brum (Editora Rocco). Brum, aliás, bem realçou uma nota que é sugestiva do pensar de Cioran: "só uma geração desiludida poderia se entusiasmar por uma visão tão negativa da história. Só da história? Da existência em geral. É preciso reconhecer que a vida não resiste a uma interrogação séria e que é difícil, e mesmo impossível, atribuir um sentido a algo que visivelmente não tem". Para um rápido panorama sobre Cioran, vale o texto abaixo, veiculado pelo sítio francês Le Point.  E fica-se a saber que, em Portugal, na Universidade do Porto, se tem realizado um sugestivo encontro/diálogo entre Fernando Pessoa e Emil Cioran. 
Emil Cioran: "A força interior aumenta com os anos" 

Material de divulgação do Encontro Pessoa/Cioran, na Universidade do Porto   




Aristocrate du doute et dandy métaphysique, l'écrivain roumain d'expression française Emil Cioran, mort à Paris en 1995, aurait eu cent ans le 8 avril et ce styliste du désespoir, qui avouait préférer "la tombe au bâillement", aura forgé une philosophie teintée d'humour noir.
Né à Rasinari, en Transylvanie, ce fils de pope orthodoxe vit jusqu'à 26 ans en Roumanie, où il publie ses premiers livres, "Sur les cimes du désespoir" à l'âge de 22 ans, puis "Des larmes et des saints", qui fait scandale dans son pays.
A l'époque, le jeune Cioran se laisse enivrer par le nationalisme, l'hitlérisme d'abord, puis la Garde de fer, mouvement fasciste créé en Roumanie. Une "faute", selon ses propres mots, qui fondera cependant l'oeuvre à venir. "J'avais haï mon pays, tous les hommes et l'univers. Il me restait de m'en prendre à moi: ce que je fis par le détour du désespoir".
Alors que le chaos s'installe dans son pays, il quitte la Roumanie en 1937 grâce à une bourse d'étude puis s'installe définitivement enFrance.
A la suite de l'interdiction de ses oeuvres par le régime communiste, il abandonne le roumain en 1947 et écrit désormais en français, dans une langue ciselée où son goût pour l'aphorisme s'allie à un certain lyrisme. "Le style, si je m'y suis tant intéressé, c'est que j'y ai vu un défi au néant", écrit-il dans ses "Cahiers".
Bien que demeurant en France jusqu'à sa mort, il ne demandera jamais la nationalité française.
Proche d'Eugène Ionesco, Samuel Beckett, Henri Michaux ou Fernando Savater, sa philosophie a été inspirée par Nietzsche,Schopenhauer ou encore Kierkegaard.
Les titres des livres de cet insomniaque chronique annoncent la couleur de son oeuvre. Et c'est une noirceur teintée de lucidité : "Précis de décomposition", publié en 1949, "Syllogismes de l'amertume", "De l'inconvénient d'être né" ou "La tentation d'exister"... Son dernier ouvrage, "Aveux et anathèmes", est publié en 1987.
Dans un essai en forme d'hommage, qui vient de paraître, "Cioran, éjaculations mystiques" (Le Seuil), Stéphane Barsacq ne cache rien de l'épisode antisémite du jeune Cioran, ni du regard cynique de ce grand séducteur qui écrivait: "La dignité de l'amour tient dans l'affection désabusée qui survit à un instant de bave" ou "L'orgasme est un paroxysme. Le désespoir aussi. L'un dure un instant. L'autre, une vie".
Dans ses écrits, Emil Cioran relate aussi ses nuits d'insomnies, ses longues promenades nocturnes.
Il habite durant plusieurs décennies une mansarde du quartier de l'Odéon, sa tour d'ivoire, d'où il décline les honneurs littéraires, comme en 1988 le Grand prix Paul Morand, décerné par l'Académie française.
Resté pauvre, il continuera à fréquenter le restaurant universitaire jusque vers 40 ans avant de s'en voir interdire l'accès. Un épisode qu'il vivra douloureusement.
Après une dizaine d'ouvrages diversement salués par la critique, la publication posthume, en 2009, de son livre "De la France" recueille un succès international. "J'ai connu toutes les déchéances, même le succès", aimait-il à dire.
Sans jamais être retourné dans son pays natal, il meurt, en 1995, à Paris.
Epilogue de dix ans de procédure, la cour d'appel de Paris vient de trancher en faveur d'une brocanteuse, qui se battait pour la propriété matérielle des manuscrits de Cioran retrouvés dans son appartement. Certains d'entre eux seront vendus aux enchères jeudi à Drouot Richelieu, ainsi que des documents personnels.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Midnight in Paris: Woody Allen, Hemingway e a questão da coragem

Da pena do jornalista e artista plástico Enio Squeff, tem sempre vindo a lume uma boa prosa literária e existencial. O texto abaixo é uma prova disso.



Woody Allen, Paris e o dilema da coragem
Enio Squeff
No filme "Meia Noite em Paris", (...) o cineasta Woody Allen põe na boca do ator que interpreta o escritor norte-americano Ernest Hemingway uma série de considerações sobre a coragem que, no fundo, pode ser estendido não apenas aos artistas, mas ao comum dos mortais. 

Hemingway (Prêmio Nobel de 1954), pessoalmente, nunca admitiu que exagerava. Ao contrário do argentino Jorge Luis Borges que passou maior parte da vida entre livros, a inventar - e a inventariar - valentias e histórias fantásticas, Hemingway foi um realista que, não raro, imitou a si mesmo em sua ficção. Era, como Borges, um leitor compulsivo e um estilista severo com seus textos (escoimava-os impiedosamente) - mas, ao relatar combates e guerras, sabia do que falava. Foi soldado condecorado, por valentia, na Primeira Guerra, correspondente na Guerra Civil Espanhola, acompanhou, como jornalista, a Segunda Guerra Mundial e quando se viu tolhido pela velhice precoce com seus achaques inescapáveis - tinha apenas 62 anos - não hesitou em meter uma bala na cabeça. Era dado a depressões mas, enquanto Borges se calou diante do assassínio de mais de 30 mil argentinos pela ditadura militar, Hemingway, denunciou publicamente o senador proto-fascista Joseph McCarthy que, na década de 50, fazia campanha contra os intelectuais de esquerda de seu país, com o apoio da grande mídia. Hemingway fez o que seria, inclusive, inconcebível para o argentino, sempre enfronhado em lutas inventadas de heróis paradoxais: desafiou o senador para um duelo.
Não houve confronto algum. À parte seu oportunismo populista, o senador era um covarde de "pés de barro". Quando Lillian Hellman, escritora de esquerda, invocou a Constituição americana para se posicionar como bem entendesse, livremente - a própria imprensa conservadora viu-se, de repente, sem argumentos para apoiar McCarthy. Que morreu obscuramente, no esquecimento merecido de seus compatriotas. 
No belo filme de Woody Allen a idéia da coragem é apenas uma dentre as muitas que o diretor suscita - mas uma das mais instigantes, é mesmo a questão da valentia. O próprio diretor não regateia suas posições na contramão da "Era Bush", com alusões diretas ao tempo do ex-presidente americano. No entanto, parece repor o ponto de interrogação a que somos levados nos limites da coragem. Ou da covardia. 
A questão não se afigura simples, de fato. Aparentemente, em seu tempo, ninguém mais merecedor do Prêmio Nobel que Jorge Luis Borges. Como se sabe, Borges não foi apenas um escritor de sucesso. Tanto à esquerda quanto à direita, a crítica jamais fez qualquer restrição aos méritos do escritor argentino - talvez um dos mais originais da literatura universal em todos os tempos. Mas ao ser posta em questão a sua eleição para o ambicionado premio, a Academia Sueca - com a pusilanimidade de todas as instituições do gênero - não se atreveu a arrostar a opinião pública mundial. Se Borges não se mostrou intimorato à altura de seus personagens - como conceder-lhe o mais ambicionado galardão literário que, bem ou mal representaria também o humanitarismo contido na literatura? Para muitos, foi a resposta contraditoriamente também medrosa a um desafio talvez maior que se pôs à Academia: o de premiar a grande literatura, a despeito do homem que a fez.
O caso de Borges, realmente, parece conduzir ao que Woody Allen - ele mesmo, na sua filmografia e na sua vida pessoal, insistiu em nunca tergiversar. A vida seria curta demais para os atos vis de complacência ou a covardia perante matanças, como se fizeram nas ditaduras militares da América Latina. Para dizer tudo: Borges, um gênio, não parece ter-se comportado à altura da sua condição de homem; ou mesmo de escritor. Não deixa, porém, de ser um enigma, principalmente para os artistas.
Não que os artistas sejam diferentes do restante dos homens. Cervantes, o grande autor de Dom Quixote, distinguiu-se na batalha de Lepanto contra os turcos. O ferimento que recebeu na ocasião, tornou-o maneta. Sua mão esquerda ficou inutilizada para o resto da vida. Assim também com Lord Byron (George Gordon, 1788-1824) - o grande poeta romântico inglês. Como Hemingway, teve uma vida aventurosa que culminou com a sua morte - de peste - na guerra de independência da Grécia, a favor da qual, aliás, ele aderiu como combatente voluntário. Camões, o português, foi um guerreiro persistente; Puchkin - o mais festejado poeta russo - morreu num duelo. Os exemplos são muitos - mas a covardia, ou a pusilanimidade ( digamos que sejam duas coisas distintas) ainda que pouco mencionadas, também não foram nenhuma raridade entre poetas, músicos e pintores. Cézanne fugiu de Paris quando da guerra franco-prussiana. Com a razão que a história da pintura talvez lhe dê, preferiu não correr riscos de vida. Monet, de sua parte, logrou escafeder-se quando se viu na contingência de ser alistado no exército francês no mesmo período. Assim também anos mais tarde, com o compositor alemão Richard Strauss que só rompeu com o hitlerismo quando muitos dos cometimentos do regime nazista já tinham sido cometidos. 
Artistas não parecem, enfim, menos ou mais que homens e mulheres comuns. Quanto a essas, porém, tidas como representantes do "sexo frágil" - a coragem ou mesmo o heroísmo não foram menos freqüentes, porque menos conhecidos. As mulheres submetidas às torturas pelo regime militar brasileiro, mas que nem por isso delataram seus companheiros, são por demais conhecidas para que se façam maiores comentários. Há, porém, os casos anônimos como o que mereceu uma gravura de Goya. Durante a guerra franco-espanhola, uma jovem espanhola, ao ver seu noivo abatido por um tiro, assumiu seu lugar no canhão que ele dirigia, fulminando os franceses atacantes. O título da gravura diz por si, do espanto, não apenas dos espanhóis: "Que coragem!", assinalou o artista abaixo de seu trabalho.
Na verdade, se a covardia não conviesse mais - a coragem - "Que coragem!" - nem mereceria qualquer menção. Parece não ser ocioso, porém, que se a registre. Como fica do filme de Woody Allen, temos a impressão de que a era do heroísmo é sempre a do passado que idealizamos, nunca do presente que vivemos - o que nos dispensaria do gesto mais digno. Ou mais valente. Mas não é bem assim.
Napoleão Bonaparte, que sabia do que falava, comentava, com seus generais que, de todos os membros da família real austríaca, o mais valente era a rainha. Dizia, derrisoriamente, contrariando, quem sabe, sua experiência com sua mãe - a qual sempre dedicou uma admiração imorredoura, justamente por sua coragem - que a tal dama, "era o único homem da casa ".
Ser homem, finalmente, não parece se constituir na condição para a covardia ou para a coragem.. Como assevera Hemingway na fita de Woody Allen, a possibilidade do medo pode assaltar um homem ( e uma mulher ) em qualquer situação. Mas se persistir durante o ato de fazer amor - então restaria ao candidato a romancista desistir de seu empenho. São palavras fortes, condicionais, que talvez pudessem ser endereçadas a Borges. Seria provável, então, que o grande escritor argentino respondesse, paradoxalmente, que justamente durante o ato de amor, aí mesmo é que lhe dava medo. Não é impossível. Borges gostava de chocar. Sua resposta, porém, não indicaria que seria menos genial por causa disso. Medroso ou não, Borges foi um dos maiores escritores de todos os tempos. Essa a contradição insolúvel dos artistas: eles acedem fazer amor com outros medos do que só o da impotência.

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Enio Squeff é artista plástico e jornalista.- Fonte: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5117

Anomie and alienation

I have seen a big theoretical mistake about anomie and alienation. Surely, Hegel used the term alienation in the sense in the which we now call it anomie. Therefore, it is necessary to do a distinction between them. Durkheim, Merton and others treated anomie as a structural phenomenon, but it is so important to show anomie also as a psychological phenomenon. On the other hand, alienation is a social concept, it is particularly the characteristic of the labour class.

domingo, 8 de julho de 2012

Filosofia Profana-Filosofia da Práxis: A Honestidade Sóbria de Adelmo Genro Filho

Adelmo Genro Filho, já dele falei aqui em outras oportunidades. Uma vida que se foi precocemente, mas que deixou, contudo, penso eu, uma contribuição teórica original - infelizmente, inteiramente desconhecida pelo establishment universitário oficial. Não é de estranhar, Adelmo pertence, como tantos outros, ao universo da Filosofia Profana. Gaúcho, um dos fundadores do Centro de Estudos de Filosofia e Política,  ele  escreveu atiladas páginas a respeito da Filosofia Profana-da Práxis. O filósofo húngaro Georgy Lukács, no Ensaio As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem, realçou que o marxismo raramente foi entendido como uma ontologia. E aduz que o elemento filosófico fundamente da contribuição de Marx foi ter proposto, de modo geral, uma ontologia histórico-materialista que supera (teórica e praticamente) o idealismo lógico-ontológico hegeliano. Ora, então se o marxismo é uma filosofia que superou outra filosofia, ou dizendo de outro modo, se diz respeito a uma concepção que engloba um postulado totalizante, convenhamos, não pode ser reduzido a mero método, como, em princípio, o próprio Lukács assinalou, e outros continuam a sustentar. Não pode ser concebido como uma mera epistemologia da qual resultaria o método, pois estas duas dimensões (epistemologia e método) estão necessariamente articuladas a uma pressuposição ontológica. Sobre este terreno, Adelmo deixou um importante contributo ao debate no livro Marxismo, Filosofia Profana (Editora Tchê). Abaixo, extratos da apresentação do mesmo. 

Por Tau Goulin 

Em Marxismo, filosofia profana, o autor trata a dialética como premissa que "põe o homem no mundo e, o homem, através de sua apropriação prática e teórica desse mundo, se põe como história e dentro desta a própria história do mundo passa a revelar-se como processo da verdade". Estuda o "ecologismo libertário", onde revela pontos de ligação com a filosofia burguesa, ao mesmo tempo em que aponta as limitações de um certo marxismo tradicional em relação às problematizações colocadas pelas agudas questões ecológicas.
Adelmo Genro Filho discute o conceito de ideologia, polemizando com Marilena Chauí. Extrai do leninismo uma conceituação não dissolvente de ideologia. Esse é um debate que confronta com visões de ideologia como "falsa consciência" ou como necessária negação da "verdade" teórica, com trânsito predominante principalmente entre acadêmicos. Concomitantemente ao debate, nesse particular, Adelmo também avança teoricamente na formulação do conceito de ideologia. A oportunidade dos ensaios do autor é exatamente a possibilidade de intervenção concreta na luta política, onde assume posições nos confrontos ideológicos e teóricos.
Para o autor, a conquista de um socialismo que realmente mereça esse nome requer um marxismo militante e reflexivo. Onde a premissa seja a compreensão do homem como ser "prático-pensante", o qual encontra-se na base da categoria de práxis, tomada em seu conteúdo materialista. Propõe igualmente a reavaliação e reconstrução das formulações teóricas. Nada mais estranho ao marxismo do que a estagnação, o dogma e a religiosidade das explicações permanentes, usurpando o lugar da dialética. "O marxismo é, no plano das idéias, um movimento de construção teórica presidido pela categoria da práxis, sendo enriquecido por ela e enriquecendo-a progressivamente".
A honestidade sóbria do autor em enfrentar as questões aqui colocadas estabelece uma disciplina igualmente inquietadora sobre os desafios postos aos marxistas, os quais, certamente, não são respondidos pelo dogmatismo e pela apologia arrogante de algumas inalteráveis e monolíticas categorias. Esse livro contém uma energia revolucionária incontida contra o conformismo e um estímulo à reflexão teórica. 

sábado, 7 de julho de 2012

Start again


I know, I know, I know... Probably, someone does not like it. Why? Because it’s too pop... But,  it’s Tindersticks.