sábado, 28 de novembro de 2015

Verdades secretas

Por Salem H. Nasser
(Professor de Direito Internacional da Fundação Getúlio Vargas)

Muitos dos males deste mundo começam quando o Ocidente resolve invadir algum país. Um ato terrorista é muitas vezes a desuclpa tida por apropriada, e conveniente.
Conta-se que, imediatamente após os ataques de 11 de Setembro, George W. Bush quis atacar o Iraque. Foi então lembrado, ou informado, de que não haveria como conectar convincentemente o fato e o país. Já com o Afeganistão a coisa era diferente e este foi invadido primeiro.
Mas não esqueceram o Iraque. Acusado de buscar obter armas de destruição em massa e também de apoiar o terrorismo, o país ganhou de presente a mudança de regime e a promessa de democracia que as bombas americanas carregariam.
A ocupação atraiu para o Iraque um contingente cada vez maior de islamistas radicalizados vindos engrossar as fileiras da insurgência. Entre outros, consolidou-se ali a chamada Al Qaeda no Iraque. Muitos elementos das forças armadas iraquianas desmobilizadas pelos americanos se juntaram ao grupo.
Em 2011, com a revolta síria em curso, a Al Qaeda no Iraque cruzou a fronteira, passou a se chamar Estado Islâmico no Iraque e no Levante e a combater as forças do governo ao lado de outros grupos de mesma inspiração radical e violenta.
O Estado Islâmico, o nome agora encurtado, indicando que já não pretendia circunscrever sua ação àquela região do mundo, tornou-se rapidamente o mais bem-sucedido grupo combatente no campo da chamada oposição, o mais espetacularmente violento, o mais hábil na manipulação da mídia e no recrutamento de novos combatentes, muitos vindos de países ocidentais.
Esse mesmo Estado Islâmico reivindicou a autoria dos ataques em Paris e é apenas por causa desses ataques que agora alguém conceberia uma invasão terrestre, improvável antes de 13 de novembro.
A lógica da coisa seria mais ou menos esta: os ataques teriam evidenciado a necessidade de derrotar esse grupo terrorista; os bombardeios aéreos não bastam a esse fim; se não se quer contar com as forças governamentais e seus aliados para empreender a luta em solo, seria então necessário colocar botas no chão.
O Ocidente intervém na crise síria desde o seu primeiro momento. E não me refiro aos bombardeios aéreos. As revoltas na Síria foram percebidas pelo Ocidente, assim que eclodiram, como uma oportunidade única de derrubar o regime. As justificativas oficiais são as nossas já conhecidas: exportar a democracia e combater o terrorismo que certos países patrocinariam.
A verdadeira razão, no entanto, era a vontade de mudar o alinhamento político da Síria no jogo regional e mudar o equilíbrio de forças, na região e no mundo.
Em nome desse objetivo, o Ocidente permitiu que o Estado Islâmico e outros grupos perigosos se fortalecessem, avançassem na conquista de territórios e continuassem a arregimentar seguidores.
Na esperança de derrubar o governo sírio, o Ocidente pareceu gozar um sono profundo que não lhe permitia enxergar o perigo. Só acordou quando o Estado Islâmico chegou às portas do Curdistão iraquiano, mas ainda assim só foi capaz de montar uma coalizão que empreende uma guerra de faz de conta, lançando aqui e ali um ataque aéreo.
Antes de conceber a invasão terrestre é preciso realmente querer derrotar o Estado Islâmico. E, se a vontade for real, pode-se começar por coisas mais simples como impedir que lhe cheguem fundos, armas e combatentes; que sejam fechados seus campos de treinamento; que se troque informações com os russos e com os sírios; e, sobretudo, que se busque honestamente uma solução política que ponha fim ao banho de sangue.
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Fonte: Folha de São Paulo, versão para assinantes, edição do dia 28/11/2015. 
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sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Uma palavra


Desabafo de um professor que deixou a universidade

Há um axioma oriental que diz que a incompreensão e o impeto para magoar, muitas vezes, são tão inerentes às pessoas como é o sal em relação às águas oceânicas. Então, por mais que se seja complacente para com elas, é bom ficar de sobreaviso.  A incompreensão e a rebordosa podem vir - talvez, por isso, Nick Cave tenha cantado que 'as pessoas não são boas'. E atualmente, em tempos de redes sociais, a linguagem subliminar e os recados disfarçados de postagens abundam. Novas 'formas de socialização'. É a vida, 'o que se há de fazer?', poder-se-á perguntar com Sérgio Godinho. Querer fazer a coisa certa - e ter a intenção de fazer o bem ao outro - pode ter um preço indesejado. E a 'questão do certo', diga-se, não tem a ver com 'transcendência religiosa', mas sim com 'humanismo concreto' (tratei desse assunto aqui: http://www.apagina.pt/?aba=7&cat=533&doc=14847&mid=2). Estive a pensar nessas considerações após ler o texto aí abaixo, enviado por um amigo. São extratos do desabafo do prof. Éfrem Maranhão, que, por razões várias, resolveu pedir demissão da UFPB. Filho do ex-reitor da UFPE Éfrem de Aguiar Maranhão (que, cá entre nós, fez um dos melhores reitorados da instituição), ele não suportou muitas "peculiaridades da rotina" na UFPB (que, de resto, estão presentes em diversas outras universidades) e resolveu ir embora. Jovem estudioso, cedo concluiu a sua formação completa (graduação, mestrado e doutorado). Compreendo a sua decisão, e como a compreendo! Até porque, de determinada forma, já fiz o mesmo. Ele, contudo, resolveu desligar-se oficialmente da instituição universitária; eu, no entanto, continuo a acreditar, ainda, na universidade pública e na sua 'oxigenação'/transformação. Até penso que, nesse sentido, deveríamos começar superando a organização assente em departamentos - sim, é isso mesmo: o fim dos departamentos. Já há promissoras experiências nessa perspectiva. A conferir, a seguir, o desabafo do prof. Éfrem. Perde a UFPB; ganha, e muito, a nova esfera profissional para onde ele vai. 




Éfrem Maranhão Filho 

Um sonho de vários anos…
Não foi fácil. Pensar que sete anos de preparo — o último da graduação em ciência da computação, dois de mestrado e quatro de doutorado — com todos os seus percalços e difíceis decisões no caminho, transformar-se-ia por completo nos três anos e meio em que fui professor da UFPB.
Voltei para iniciativa privada e esse mundo de startups. Não sou um dropout abrindo uma startup e nem sai com algo promissor em vista, mas em busca de um propósito. Entretanto, é naquele ambiente o qual, na minha limitada visão, consigo pesquisar São ambientes realmente inovadores e com pessoas motivadas, e esses fazem o trabalho com gosto.
Ter a resiliência para concluir anos de dedicação só foi possível pelos bons conselhos que recebi no caminho, no qual muitos amigos/colegas ficaram. Não há arrependimento do mestrado e doutorado, pelo contrário, fiz em instituições relevantes — uma pública e outra privada — e foram estes anos os quais mudaram a minha forma de analisar e entender situações problemáticas. Infelizmente, a recompensa não foi a esperada por todo esforço e aqui explico os (principais) porquês de uma forma resumida.

Falta ensino e pesquisa… sobra politicagem
Reclamações diversas dos servidores — professores e técnicos — , porém pouca ação para mudar. A maior parte da energia gasta é por questões políticas. Eleições são sujas, desestimulantes e não baseadas em competência. Não se seguem as regras para os procedimentos administrativos — nem por bem nem por mal — e tudo vale, construções irregulares, liberação de professores, distribuição de cargas horárias, etc.
O fato de se ter estabilidade, todos podem falar o que querem sem sofrerem consequências. Isto poderia até ser uma coisa boa, porém, na prática, não é. Há liberdade para agressividades e intrigas completamente desnecessárias. O conselho que eu mais escutei foi “Dá tuas aulas e faz tuas coisas sem se envolver e toca teus projetos”. Não, não quero isso. Quando se faz isso, quem perde são os alunos, pois não há um professor dedicado, nem um bom profissional no mercado.

Não há incentivos
Quem está acostumado com outros ambientes de trabalho fora da área pública sabe a importância da meritocracia — com raras exceções naquela. Não existe meritocracia, aliás, não existe nem transparência. Conheci pouquíssimos professores dispostos a ter seus relatórios semestrais abertos aos colegas e nem pensar aos discentes. Ninguém sabe ao certo o que os professores fazem e como administram o seu tempo. De um lado, temos um professor o qual abandona a disciplina porque faltou com o compromisso, e do outro um o qual se matou para lecionar três/quatro disciplinas, pesquisar, publicar… pois é, progredirão na carreira igual.
É uma cultura organizacional que nivela “por baixo”. Fazer o mínimo possível para se continuar no emprego. Tem professor de administração que nunca foi administrador,  e nem precisa ser um excelente pesquisador. Não há professores profissionais da área em tempo parcial. Todos os departamentos querem professores com dedicação exclusiva — a lógica de ter um maior orçamento. Há exceção, entretanto são basicamente nos centros de Medicina e Direito — e claro, os motivos não são claros.

Professores despreparados/desmotivados
Quando se pensa que há milhares de professores com dedicação exclusiva, pensa-se que há excelência no ensino. Em todo o período que estive na UFPB, não vi professores motivados e com recursos necessários — falo de recursos de modo geral, desde o básico, como papel higiênico no banheiro. E isso, por si, só já seria um cenário terrível.
Não há reciclagem e nem uma preocupação no modo de ensino. No máximo é informar a necessidade do curso de mais concluintes e para isso, precisa que os alunos passem. Não precisa aprimorar o método, só ter mais alunos concluintes. Não é difícil perceber como isso é prejudicial à toda sociedade, infelizmente os alunos não percebem. Os professores reclamam do nível dos discentes, mas não percebem que são culpados de não mudarem essa percepção.

Alunos descompromissados
Além de professores despreparados e/ou descompromissados, os alunos sabem disso e tiram proveito. Felizmente, conheci algumas raras exceções ultimamente de cursos de imersões na área de tecnologia, como o caso do General Assembly e Galvanize, onde vi uma preocupação com a empregabilidade do aluno, óbvio, não são modelos perfeitos e possuem diversos problemas. Entretanto, em cursos menos concorridos de universidades federais é fácil imaginar a situação precária da educação do alunado.
Penso tais cursos como agentes  transformadores sociais, mas a dedicação dos alunos — e dos professores — é muito baixa para isso, e raras exceções realmente têm o compromisso com o seu aprendizado. E aqui não falo necessariamente de aulas — tal fato não é exclusividade das instituições públicas de ensino.

Ser acadêmico sempre
Não que eu queria deixar a vida acadêmica, pelo contrário. Gostaria de trabalhar em novos modos de ensino, porém não vejo como realizar tal atividade em universidades federais, as quais seguem engessadas e perdidas no tempo. Há tentativas de alguns — pouquíssimos — nobres professores que se dedicam ao ensino/pesquisa de uma forma apaixonante. Entretanto, ver-se, em sua maioria, pessoas acomodadas e preocupadas em aumentar seu rendimento.
Continuo “participativo” na UFPB através de um Laboratório de Transparência Pública — LABTRANSP —, que financiamos. É empolgante trabalhar com pessoas motivadas a aprender,  e que não querem apenas completar a disciplina e ter o diploma o mais rápido possível — novamente, problema em todas as instituições de ensino que conheço.
Como disse, não consegui me acomodar e pedi demissão . O que escutei - “você é louco por largar um emprego público em época de crise” - só me fez motivar ainda mais. Agora procuro descobrir, me envolver e começar novos projetos de ensino, principalmente de métodos analíticos e tecnologia da informação. Sempre focados na empregabilidade, autonomia e utilidade para a sociedade. Fico à disposição e sempre terei tempo para quem quiser discutir tais tópicos.





quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A existência que a cinza espalhou

Aproxima-se dezembro, o mês da partida do Tom. Tom Brasil. Tom Jobim. A ele, devemos o peculiar 'juízo' Brazil is not for beginners. Em tempos que a música nacional é invadida por uma onda de futilidades, faz falta.  Como a obra é o que eterniza o autor, voltamos a ele. Aí abaixo. 'Passarim'. A existência que a cinza espalhou. 


Futuro: vivendo a história sem saber a história que está a ser feita

Aí abaixo, um bom artigo de Carlos Melo (Prof. do Insper) sobre a conjuntura brasileira atual. Faço apenas duas considerações. Primeira, nas diversas traduções, a frase de Marx, por ele referida no artigo, aparece mais ou menos nos seguintes termos: os homens fazem a história, mas não a fazem sob circunstâncias da sua escolha. Segunda observação: não parece adequado, analiticamente, apanhar sobre o mesmo patamar questões que têm estatutos diferentes, ou seja, não parece apropriado nivelar as situações (e as responsabilidades) da presidente Dilma e do ex-presidente Lula. Isto posto, penso eu, vale a leitura. 'Mais uma flechada em São Sebastião? Claro que não. A coisa está mais para espancamento da historia'. A conferir. 

Por Carlos Melo 

Adivinhar o futuro é tarefa tão custosa quanto vã; mas o futuro não é a Deus que pertence. Ele é fruto do processo que se delineia sempiternamente, minuto a minuto no constante no presente. Mais ou menos, o que dizia o Velho Marx: “os homens fazem a história, mas não sabem a história que fazem”. O que será o destino do governo Dilma ou do ex-presidente Lula? Quem saberá dizer… só mesmo o processo é que permite indagar, como uma bola de cristal um tanto menos inconfiável, que esse destino não será nenhum pouco brilhante quando construído de todas estas sombras do agora.
Vistos com olhos de hoje, é impossível não admitir que Dilma e Lula estão metidos numa consistente e indesmentível enrascada. Não se trata de simples “armação da mídia” ou da estupefata, nefelibata e inofensiva oposição. A tergiversação de Lula não consegue omitir o óbvio: as justificadas prisões de José Carlos Bumlai e de Delcídio do Amaral desenham um abismo que olha para a atual e para o ex-presidente como que os convocando. Negar isto não implica apenas em “petismo” ou “torcida” ou teimosia, mas em remata da tolice.
A situação que estava distante de ser favorável ou caminhar para uma melhora – ler aqui “equilíbrio instável” –, evidentemente, piorou muito e aceleradamente. O nome dado à operação que colocou Bumlai atrás das grades – “Passe Livre” – é uma ironia não com o agora detento que, antes, tinha livre circulação nos Palácios de Luiz Inácio, mas com o próprio ex-presidente. Uma estocada indireta de quem já provoca, mas ainda não quer ir às vias de fato, já que, ao que parece, nos cálculos de Sérgio Moro e de sua turma, não é hora de um enfrentamento direto e em mar aberto contra Lula. Momento que chegará, pelo rumo dos ventos.
Dizem os mais crentes que isso tudo é irrelevante, que Lula é forte e os fatos apenas “mais uma flechada em São Sebastião”. Com efeito, São Sebastião morreu açoitado. E a quantidade de pancadas que o ex-presidente tem levado, a vulnerabilidade (inclusive familiar) a que tem sido exposto, não o fortalecem – nem adianta insistir com mitificações ou sofismas: a situação de Lula está longe de qualquer controle; a diminuição de sua densidade política é inegável; Lula está “despoderado” ou em processo de franco “despoderamento”. Nem mesmo sua base histórica — já não tão jovem e nem tão petista — parece acreditar em sua mitologia.
Com Dilma não é diferente. Seu governo não consegue encontrar saídas; nem mesmo o remédio amargo parece viável — quanto mais o doce ajuste com crescimento!!! Se um é impraticável pela política, o outro é improvável pela economia. O beco é escuro e as poucas luzes se apagam. Agora foi o caso de Delcídio do Amaral. Não é pouca coisa: o senador era ativo líder do governo; estava longe de ter papel decorativo. No processo de negociação parlamentar — já tortuoso e dificílimo –, possuía maior trânsito que qualquer outro líder (sic!) petista. Seu recolhimento forçoso e sua desmoralização não abrem lacuna, expressam-se num rombo na articulação do Planalto.
E se fosse apenas isso… Sua prisão, assim como a do banqueiro André Esteves, estabelece nova rodada de pânico. Ninguém é capaz de saber qual a decorrência disto; o que será “encontrado” nos arquivos, nos celulares, nas anotações. Se estarão dispostos a colaborar; quem será implicado; quais as ramificações de mais esta lambança em que meteram o país e, sim, o governo. O mínimo que se pode dizer de ambos é que são indivíduos muito (mas MUITO) bem relacionados; o grau e o raio de irradiação dessa fonte de energia é ainda imensurável. Quem estaria contaminado pelo contato? Delcídio, por exemplo, era das poucas pessoas a ter, ele também, uma espécie de “passe livre” com Dilma. O que pode resultar? É claro que esse futuro não cabe a Deus.
Como tenho assinalado, o país está condenado a uma crise crônica, com momentos de piora. Vive, no momento, mais uma fase aguda. O corpo sofre e a alma parece querer se libertar; já não estar nesse mundo. Mas, ninguém vai antes da hora. O timing é o da política e o processo é o da história. Vivemos a história, sem saber a história que está sendo feita.
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Fonte: http://politica.estadao.com.br/blogs/carlos-melo. Título original: 'História'. 

(I)maturidade



Há muito tempo na Índia, à beira do [rio] Ganges, o discípulo disse:
- Agora, Mestre, que o tempo passou, a minha idade avançou, estou pronto, tenho maturidade.
O mestre retrucou:
- Não.
Sem compreender , o discípulo indagou:
- Por quê?
O Mestre olhou-o fixamente e disse:
- Não é o fato de este rio [Ganges] existir durante tempos e tempos que o torna auspicioso.  As suas águas nada seriam sem o esforço da nossa ação e sem a inspiração de Shiva. Não confundas o passar dos anos, o envelhecer, com maturidade. Às vezes, os anos são apenas vento na cabeça das pessoas. Adultas na idade, mas infantes, imaturas e imprudentes de shupiran a loftiguei [janeiro a dezembro].

(Narrativas históricas hindus) 

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O ponto da situação: a política e o ruído das "lantejoulas"

Essa é de Eça de Queirós. Dizia ele que "não há nada mais ruidoso - e que mais vivamente se saracoteie com um brilho de lantejoulas - do que a política". Claro, aí vai uma imensa dose da boa e útil ironia. Pois bem, é difícil ficar indiferente diante dos últimos acontecimentos no Brasil e na América do Sul (eleição argentina). Mesmo tendo sobre a mesa uma "montanha" de trabalho, que vão das demandas de pesquisa do CNPq, passando pelas questões inerentes à docência e à emissão de pareceres diversos.  E também recebo mensagens pedindo uma manifestação a respeito conjuntura. Fazendo o ponto da situação então: 

1) Chamado à Polícia Federal o filho do ex-presidente Lula, preso um dos amigos que gozava da estrita intimidade do ex-presidente e detido também o senador Delcídio Amaral (um fato inédito), líder do governo no Senado da República, fazendo-lhe companhia na mesma operação um dos banqueiros mais influentes do Brasil. Juntar-se-ão a outros graúdos que já estão "guardados" (o senador, pela imunidade parlamentar que detém, terá mais possibilidade legal de reverter a prisão). O país vai acabar? Claro que não. Do que se trata é do funcionamento das instituições, de forma republicana. Desde sempre, ouvimos a tolice que debitava todos os vícios do Estado brasileiro em supostos problemas da herança ibérico-portuguesa, coisa essa que só encontra abrigo na ignorância, e que transfere, permanentemente, aos outros as causas dos problemas de si próprio.  Repetir isso, com o país sendo independente de Portugal há cerca de duzentos anos, não passa de asneira, e das grosas - além de representar um profundo desconhecimento da realidade lusitana (a propósito, registre-se que, por lá, recentemente, um ex-primeiro ministro foi preso). 

2) Então a prisão do senador é um golpe na Esquerda, e também golpeia a presidente Dilma? Pode-se começar indagando: qual Esquerda? Se por acaso se estiver a referir a segmentos que, lançando mão de velhos e novos populismos, inflavam o balão do lulismo, por certo, sim. A história do senador Delcídio é curiosa: ocupante de cargo de confiança na Petrobras no governo governo FHC, migrou do PSDB para o PT. A presidente Dilma é atingida? Não são poucos os que - até na oposição - reconhecem a integridade pessoal da presidente, e até agora, diga-se, nada há que a desabone. Portanto, demarcando-se dessas "trabalhadas" que foram "jogadas em seu colo", não parece que seja  pessoalmente atingida, embora o ocorrido seja mais um componente condimentar a crise política. 

3) A eleição argentina. Pondo-se de parte as versões que, majoritariamente, têm pautado a cobertura da comunicação social, não é de se supor que o governo Macri representará uma ruptura total com os 12 anos do kirchnerismo no país e será o farol de uma onda de extra-direita na América Latina. Quem pensa desse modo, não entende nada da realidade Argentina. O fenômeno do peronismo no país (que, em tese, foi derrotado) é algo que perpassa forças políticas diversas, e continuará sendo assim na administração Macri. A propósito, no fundo, há suspeitas de que Cristina preferiu a Macri, e não o candidato oficial do peronismo (solitariamente, no Brasil, apenas a jornalista Sylvia Colombo trouxe esse fato a lume, aqui: http://sylviacolombo.blogfolha.uol.com.br/2015/11/23/e-cristina-ao-final-preferiu-macri/). Desconhecer essa complexidade política da pátria de Piazzolla é o mesmo que querer falar sobre música argentina sem conhecer sequer o tango de rua na Boca ou em San Telmo aos domingos. 





Nostalgia da luz

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Por Diego Montel

Dirigido pelo documentarista chileno Patricio Guzmán, Nostalgia da luz, que veio a ser lançado em julho de 2010, tem como cenário fulcral o descomunal deserto do Atacama, o lugar mais seco da terra. O documentário é, antes de mais nada, uma viagem através do tempo, já que percorre a arqueologia pré-colombiana, assim como os resquícios da ditadura Pinochet e da mesma forma mostra o trabalho astronômico.
A obra de Guzmán apresenta uma relação entre o objeto de estudo dos astrônomos, arqueólogos e historiadores, isto é, astronomia, arqueologia e história. Essa relação, apesar de apresentar diferenças - por exemplo, o passado estudado pelos arqueólogos é um passado mais distante do que o estudado pelos astrônomos -, se dá, certamente, pelo estudo da história. Porém, há em comum entre eles o fato de todos tirarem lições do passado e, por intermédio disso, construir um futuro melhor.
No que se diz respeito à ciência astronômica, o filme apresenta a análise de um cientista que, através de um telescópio gigante, estuda corpos celestes e, com isso, tenta de alguma maneira entender o presente e qual foi a bagagem deixada pelo passado. Semelhante a isso, Nostalgia da luz relata o difícil trabalho dos arqueólogos em encontrarem, dentro do deserto de Atacama, corpos de habitantes antigos, com o propósito de, assim como a astronomia e a história, conseguir respostas para o tempo presente.
Além disso, é importante ressaltar a história envolvida dentro da obra de Guzmán. De fato, a memória da pós-ditadura Pinochet ainda habita na mente da população que sofreu com a perde de seus familiares. Por conseguinte, a narrativa acontece no tempo presente de algo que, mesmo ultrapassado, continua na mente daqueles que ainda tentam buscar alguma resolução acerca do que já aconteceu. Assim se dá também a pesquisa de todos esses pesquisadores, portanto. 
É possível afirmar que o documentário é uma competência máxima de Guzmán, excelente para aqueles que anseiam um estudo mais profundo sobre as relações entre arqueologia, astronomia e história.



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Fonte: http://obviousmag.org/

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Apelo à inteligência humana


 Pierre Barbancey

Je suis actuellement en Irak. Ce pays qui a été démembré, ses communautés et ses confessions jetées les unes contre les autres, par une guerre voulue par les Etats-Unis en 2003. C'est sur ce terreau que s'est développé Daech, l'organisation de l'Etat islamique. Des terroristes soutenus et aidés par des pays comme le Qatar, la Turquie et l'Arabie saoudite. Trois pays aux liens privilégiés avec la France qui leur vend des armes.
Il faut pleurer les morts d'hier à Paris. Mais il faut aussi avoir en tête que les populations du Moyen-Orient vivent ce cauchemar au quotidien depuis des années.
La France officielle fait des guerres: Libye, Mali, Centrafrique, Irak... Toujours sous des prétextes humanitaires. Ce qui est un leurre. La guerre n'a jamais rien réglé, au contraire. 
La guerre ne peut pas toujours se regarder à la télévision. Si on accepte qu'elle ait lieu ailleurs, alors il faut s'attendre à ce qu'elle nous revienne dans la gueule un jour.
C'est pour cela qu'il faut la paix. Une politique internationale de la France dédiée à la paix, pas une politique de gendarme, vendeuse d'armes et de captation des richesses d'autres pays.
Le danger est grand de voir une partie de la France se tourner vers le Front national. Ce parti d'extrême-droite ne prône que la haine et le rejet de l'autre, qui tente de désigner comme bouc émissaire les musulmans. Des ingrédients pour que les drames comme celui que nous venons de connaître à Paris ne s'amplifient.
En souvenir des morts du 13 novembre, déjouons le plan de tous ceux qui voudraient nous dresser les uns contre les autres.
C'est un appel à l'intelligence humaine.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Carta para o passado-futuro

http://obviousmag.org/minha_mente/2015/05/28/Old%20man.jpg

Por Gustavo Galli 

Querido Eu,
A primeira coisa que você deve entender é que essa mulher que está na sua frente te olhando com toda essa felicidade nos olhos é a pessoa que você mais vai amar em toda a sua vida. Um fato curioso: ela vai te amar mais do que você a amará. E mais: ela te amará ainda mais do que ama a si mesma! Mas não tente entender o porquê, pois nem ela própria saberá. Somente saiba disso. Ah, mais uma coisa: pode chamar ela de mãe.
Você logo vai reparar que junto dela estará um homem que te olhará com o mesmo brilho nos olhos. É ele que vai te salvar das encrencas que você vai aprontar quando ficar mais velho. Pode chamar ele de pai. Juntos, essas duas pessoas vão ficar orgulhosas com qualquer coisa que você fizer. Eles estarão com você até o final de suas vidas, então cuide bem deles. Esse primeiro sentimento que você está experimentando chama-se Amor.
Mas não se preocupe com isso ainda. Aproveite todas essas pessoas que estão olhando para você. Repare como elas sorriem e acenam feito bobas através daquele vidro. Tire proveito desse carinho, porque isso só vai durar uns cinco anos.
Não estranhe o lugar em que você está. Essa ainda não é sua casa. Esse lugar se chama Hospital. Já vá se acostumando com o ambiente, porque você ainda vai voltar muitas vezes para um local assim durante sua vida, e muitas dessas vezes serão por culpa sua.
Daqui uns quatro anos, você conhecerá um lugar que você, a princípio, provavelmente não goste. Conhecerá outras pessoas da mesma idade e perceberá que você não gosta delas tanto assim. Essas pessoas se chamam Amigos. Você notará depois de uns anos que esses amigos farão muita diferença nos momentos difíceis que você certamente irá enfrentar. Quanto ao lugar, não deixe se importunar tanto. Ele se chama Escola e você passará uns vinte anos estudando. Vá se acostumando.
Pouco mais de uma década depois, você já estará acostumado com a Escola e até preferirá ficar nela do que na sua própria casa. Por volta dessa idade, você começará a perder facilmente a paciência com seus pais, e achará que eles só querem pegar no seu pé. Não é exatamente isso. Eles se preocupam com você e, agora que você está crescendo, a tendência é que eles fiquem cada vez mais “chatos”, ao seu ponto de vista. Isso não é nada além de preocupação. Vá se acostumando.
Mais alguns anos adiante, você testemunhará algumas mudanças estranhas que acontecerão em seu corpo. Relaxe, esse é um processo natural. Quando você se der conta, ele já terá passado. Nessa fase da vida, você vai descobrir uma coisa que vai afetar todo o resto da sua existência. Uma coisa que vai perturbar sua mente e abalar seus sentimentos de todas as formas possíveis. Você irá do inferno ao céu por causa dela, mas perceberá que é isso que incentivará cada vez mais que você viva intensamente. Ela é o tempero da vida e se chama Mulheres. As Mulheres vão te apresentar uma coisa que você já conhece: amor. Mas mais do que isso, você conhecerá uma coisa chamada Paixão. Aproveite cada minuto. A Paixão traz consigo altos e baixos, e é isso que te cativará. Você se apaixonará por muitas das mulheres, então entenda que nenhum rompimento será o fim do mundo. Talvez você aprenda isso depois de uns anos. Vá se acostumando.
Junto com essas novas descobertas, você conhecerá alguns pontos nem tão legais de serem lidados num primeiro momento. Um deles se chama Responsabilidade. Seus pais vão falar muito sobre ela, mas você terá que entender por si próprio seu real significado. Espero sinceramente que você aprenda.
Por volta dessa etapa, você começará a trabalhar, e talvez a cursar alguma faculdade. Nessa fase de sua vida, eles te darão números. Você terá que decorar senhas, terá que pagar alguns pequenos impostos e terá que fazer algumas coisas que não te agradam, mas que são necessárias: acordar cedo, por exemplo. Essa é a famosa Responsabilidade que sua mãe falou alguns anos atrás. Vá se acostumando.
Certifique-se de trabalhar fazendo algo que goste: você passará grande parte da sua vida fazendo isso. Em paralelo, faça atividades que te desenvolvam pessoal, profissional, cultural e espiritualmente. Nunca pare de evoluir. Nunca pare de aprender.
Chegaremos então a um ponto onde você se dará conta de como o tempo passou rápido. Você estará casado. É você que estará olhando um bebê nascer. Você notará que tomou o lugar de seu pai, e que agora o pai coruja é você. “Como pode ter acontecido tão rápido?” você se perguntará. É melhor perceber que, daí pra frente, o tempo tenderá a passar cada vez mais rápido. Tome cuidado.
Alguns anos depois e seus filhos já estarão crescendo. Eles irão para a escolinha assim como você mesmo o fez. Lembra-se como odiava? Seja paciente e sempre se coloque no lugar deles. Você provavelmente se impressionará em como eles crescem rápido. Sua filha, que antes estava na maternidade, já estará trazendo o namorado da escola para te conhecer. Seu filho já estará dirigindo seu carro e agora é você quem o livrará das encrencas que aprontar. Você olhará para sua esposa e se dá conta do quão importante ela foi em todo esse tempo ao seu lado. Se perguntará se teria chegado tão longe se não fosse por ela. Agora você começará a entender que a vida é um ciclo, e quando você menos esperar, surgirão...
Netos! Já é a segunda vez que você está na maternidade. A segunda vez que é você que está atrás do vidro acenando. E junto com os netos, chegam os cabelos brancos. Você perceberá que está na sua fase final da vida, e é aí que você se perguntará: “fiz tudo o que eu queria? Tudo que fiz, fiz do jeito que eu queria?” A sombria resposta pode ser “não”, e é por isso que eu estou lhe escrevendo.
Enfim, é chegada a minha hora de partir, e a sua hora de surgir. Espero que tenha lido tudo com atenção e que tenha entendido que a vida é comprida, mas passa rápido demais. 
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Fonte: http://obviousmag.org/