Muito bem, a nova formação do Madredeus tem estado a altura, mas a anterior, com a voz de Teresa Salgueiro, é sempre uma lembrança que desperta saudade, como aí em 'O Sonho'.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Os desatinos da 'Pátria Educadora'
Às vezes tenho francamente a impressão que determinados professores universitários há muito tempo deixaram de ler a bibliografia especializada sobre a escola, sobretudo com as configurações que ela tem hoje, com a crise cognitiva, o problema da violência, a questão das drogas lícitas e ilícitas, o bullying, as dificuldades docentes, etc. E ainda, possivelmente, há muito tempo também não entram numa escola em dias de ''atividades normais'. Só assim pode-se entender tanta fantasia, coisa do 'mundo da lua', no que dizem a respeito de como os docentes da escola básica devem atuar. Mas, agora, eles também têm a companhia de uma autoridade federal, com disparates do tamanho do Brasil, em torno da dita 'Pátria Educadora', conforme nos aponta o Prof. Arnaldo Niskier, no texto a seguir, originalmente intitulado 'Faltam Newtons e Darwins'.
Por Arnaldo Niskier
(Doutor em Educação e Prof. Emérito da Universidade Cândido Mendes)
O Brasil é um país de contrastes. Aliás,
contrastes e surpresas. Veja-se o caso do ajuste fiscal. O governo realiza um
corte profundo nos investimentos sociais, pegando inclusive a educação. No
barato, cerca de R$ 9 bilhões foram subtraídos dos projetos governamentais,
sacrificando a extensão de metas como Fies e Pronatec, ambos fartamente
referidos na campanha eleitoral.
Enquanto devemos nos
acostumar com isso, sobra espaço para a perplexidade causada pelo documento
dado à luz pelo ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência
da República.
Roberto Mangabeira
Unger tirou da sua cartola de mágico nada menos de 29 laudas, propondo uma
série de modificações na estrutura do Ministério da Educação.
Isso justamente
quando estamos nos acostumando com a presença à sua frente do ministro Renato
Janine Ribeiro, que tem tudo para dar certo depois de algumas experiências
frustrantes. Ele é do ramo e goza da confiança da praça. Por que a tentativa de
enfraquecê-lo?
Não podemos entender
o trabalho de Mangabeira Unger de outra forma. Ele propõe a criação de novos
conselhos e uma série de experiências descabidas. É claro que isso, se
aplicado, representaria mais ônus para a infernal máquina do Ministério da
Educação. Há certas coisas que são mesmo de difícil compreensão.
O documento é uma
proposta preliminar para discussão. Apresenta diretrizes de um projeto nacional
de qualificação do ensino básico. Tem o título de "Pátria Educadora: a
Qualificação do Ensino Básico como Obra da Construção Nacional".
É pomposo, mas não
representa nada, embora pretenda identificar refundadores ou libertadores da
nação. Cita a grande figura de Anísio Teixeira, um pouco posto de lado pelos
nossos últimos reformadores.
Com muita pretensão,
o trabalho da Secretaria de Assuntos Estratégicos sugere "mudar a maneira
de ensinar e de aprender". É contra o enciclopedismo raso e informativo.
Pretende reorientar o currículo e qualificar diretores e professores, por meio
de novas tecnologias.
De onde sairão
recursos para isso tudo? Nada é viável se não houver o comprometimento dos
sistemas estaduais e municipais, notoriamente deficientes e com escassos
recursos.
O trabalho oficial
sugere a reorientação do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação para
financiar esses devaneios ou então fazer o que lhes parece mais simples:
emendar a Constituição para viabilizar o empenho das bases.
Francamente, parece
que esses técnicos vivem no mundo da lua, inclusive quando propõem a criação de
um colegiado transfederal para cumprir a tarefa corretiva. Com tais
providências, eles acham que poderá ocorrer a substituição progressiva da
decoreba enciclopédica por capacidade analítica.
Isso será feito mais
facilmente com modificações do Enem e a formulação de protocolos
disponibilizados aos professores. Delírio? Pode ser, mas segundo Mangabeira
Unger é o melhor caminho para descobrir novos Newtons e Darwins. Será que é tão
simples assim?
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/221601-faltam-newtons-e-darwins.shtml
quinta-feira, 4 de junho de 2015
quarta-feira, 3 de junho de 2015
Sobre liberdade universitária e a censura a Foucault na PUC-SP: uma entrevista imaginária
A propósito da liberdade universitária, dos equívocos
na relação entre religião e ciência ou a censura a Michel de Foucault na
Pontifícia Universidade de São Paulo, determinada pelo Cardeal Dom Odilo
Scherer. Uma entrevista imaginária com o pensador de A Microfísica do Poder a respeito do caso.
![]() |
| Foucault: a pesquisa como uma viagem, romper o fio do tempo |
Por Ana Westphal
Salvo adaptações mínimas próprias à transposição ficcional, todas
as respostas atribuídas ao filósofo Michel Foucault nessa entrevista foram extraídas de seus ditos e escritos já publicados.
Como o sr. se sente por ter sido barrado pelo cardeal d. Odilo
Scherer, justamente quando a PUC-SP estava a ponto de oficializar uma cátedra
em seu nome?
Fico perplexo. Lembro que estive no Brasil em 1975, quando o
jornalista Vladimir Herzog foi assassinado. O Exército alegou que ele havia se
enforcado em sua cela. Foi o arcebispo de São Paulo, d. Paulo Evaristo Arns,
que promoveu, na catedral da Sé, uma cerimônia ecumênica em sua memória.
O cardeal presidia a cerimônia: caminhou diante dos fiéis e os
saudou exclamando "shalom, shalom". Em torno da praça havia policiais
armados. A polícia teve que recuar: não pôde fazer nada contra a multidão. A
igreja era o refúgio dos dissidentes e opositores da ditadura. É estranho que
hoje, em plena democracia, as posições tenham se invertido.
Como o senhor interpreta essa virada? Quais são suas relações com
o catolicismo?
Passei meus últimos anos vasculhando documentos na Biblioteca
Saulchoir, dos Dominicanos, em Paris. Para escrever meus últimos livros, me
encantei com Tertuliano, Cassiano, são João Crisóstemo, com o cristianismo
primitivo, as técnicas da confissão, os exercícios espirituais do Concílio de
Trento.
Não por acaso, quando morri, os dominicanos foram os únicos que se
ofereceram a acolher meu arquivo. Graças a eles meus manuscritos ficaram na
França. Tenho dificuldade em entender o que seria uma universidade católica da
qual fosse banida a liberdade de pensamento.
É isso tão essencial?
É preciso libertar-se da sacralização do social como única
instância do real, e deixar de considerar vento essa coisa essencial na vida e
nas relações humanas --o pensamento.
O sr. sabia que seus livros são incompatíveis com os princípios do
catolicismo, como reza decisão do Conselho Superior da Fundação São Paulo,
composto por d. Odilo, bispos e reitora?
Meus livros nunca foram dirigidos contra a Igreja. Apenas põem a
nu mecanismos de poder que atravessam todas as instituições.
É verdade que a Igreja inventou um novo tipo de poder, que chamei
de pastoral: cuidar do rebanho, cuidar de cada alma. Mas sempre insisti que em
qualquer relação de poder nada está decidido de antemão --há contrapoderes, há
revides, há resistência, há reversibilidades.
A própria espiritualidade pode ter sido uma resistência, num
momento determinado, a formas hierárquicas de poder.
Se meus livros foram dirigidos contra alguém, foi contra mim
mesmo. De que valeria pesquisar, se fosse apenas para confirmar o que já
sabíamos? O que me move é a única curiosidade que vale --saber se podemos
pensar diferentemente do que pensávamos antes.
Como numa viagem, a pesquisa nos rejuvenesce, mas também envelhece
a relação que temos conosco mesmo. É aí onde é preciso deixar-se para trás,
reinventar-se.
Que tipo de homens o senhor admira, afinal? Homens engajados ou os
que desaparecem? Em qual categoria o senhor se inclui?
Não são essas as categorias que definem os homens. Admiro os que
introduziram no mundo em que vivemos a única tensão da qual não cabe rir nem
envergonhar-se: aquela que rompe o fio do tempo.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/221361-entrevista-ficcional-com-foucault.shtml
terça-feira, 2 de junho de 2015
O peso de mil anos de solidões

Por Patrícia Smaniotto
Ele entrou pela porta da frente ao mesmo tempo em
que corri para a janela e me lancei contra a vidraça. Enquanto flutuava
lentamente no ar, junto com estilhaços de vidro e as gotas de sangue, eu podia
ver o sol alaranjando o horizonte em mais um fim de dia enviado pelo Universo.
Finalmente, meu corpo se chocou contra o topo do plátano avermelhado, uma perna
esticando-se toda diante do meu ventre, o joelho colado na testa, a outra perna
solta como boneca de pano nos galhos que me flechavam as carnes. Meu olhar
paralisado perfurava o chumbo do céu que me cobria e riscava fogos de artifício
no breu que se aproximava.
Balancei o lado esquerdo do quadril duas, três,
quatro vezes, até que meu corpo se desprendeu e caiu no fundo da água abaixo de
mim. Flutuava agora em elemento aquoso, morta como Ofélia. Fui sendo levada até
a beirada e ali o que restava das minhas roupas rasgadas se dissolveram.
Ergui-me, então, nua e deslizei para a terra firme. Caminhei assim em meio aos
vaga-lumes e os trancei nos cabelos e embebi com sua luz minhas feridas. Foi
minha primeira morte. A próxima, a definitiva, não seria tão lúcida quanto a
primeira.
***
Ninguém soube da minha segunda morte. Ficou perdida
entre as pedras e os fósseis. Os cata-ventos sussurravam brincadeiras em meus
ouvidos e retalhos de estrelas mergulhavam no fundo dos meus olhos que nada
viam. Minhas pernas tinham se tornado feixes de trigo e os tornados acima de
mim nasciam das minhas mãos de gelo. Os soldados marchavam sobre minha ausência
e toda espera era eterna. Era sempre tempo de guerra e a morte ria um riso
pesado como o peso de mil solidões.
Neste leito de chumbo, eu não tinha mais as
tranças, mas elas insistiam em derramar-se em torno de mim como se eu ainda
fosse uma menina ou uma princesa. Na minha janela subterrânea, não havia
vidraças, tampouco paisagens, menos ainda a promessa de um príncipe encantado a
me esperar no altar. Dobrei-me em duas, como se já fosse o passado enterrado de
mim mesma, suspirei e esqueci totalmente quem eu era. Para todo o sempre.
***
Porém, em meio às minhas duas mortes, a memória do
tempo se apresentou:
“Há cinco dias, Plutão ganhou sua quinta lua.
Há doze, encontraram o Bóson de Higgs.
Há exatos 67 anos, a primeira bomba nuclear,
Trinity, foi lançada no México. Logo depois foi a vez de Little Boy em
Hiroshima e de Fat Man em Nagasaki.”
Fiquei à espera do brilho magnífico de 60 luas
cheias que emite a Nebulosa da Tarântula, mas ele não veio. O que veio foi o
sopro.
***
Eu gosto do sopro. Somos um sopro. A vida é um
sopro. A morte é um sopro. E no sopro há sempre movimento, nenhum tédio ou
terror debaixo do pó. Apenas movimento. Volutas. Redemoinhos. Mares a varrer.
Frio e calor se revezando em canais aéreos. Incenso. O trago de um xamã. Até
chegar ao espaço, onde tudo é silêncio e vislumbro transformados em milhões de
partículas, as luzes boreais e os buracos negros. Descubro que não vamos ao pó,
mas ao fim do tempo, essa unidade ilusória que nos priva de todos os mistérios.
***
No fim, as vozes das estrelas cantaram para
espantar toda solidão.
Ali, no Infinito, onde a morte não pode mais rir
seu riso de chumbo.
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Fonte: http://lounge.obviousmag.org/kaleidoscope/2014/01/o-peso-de-mil-solidoes.html
Infinito
![]() |
| Líquido e gasoso ao mesmo tempo |
Por Rafaela
Werdan
O infinito é além do infinito. Infinito por definição não cabe em si. Infinito não se consome ou entende como conhecimento, leitura ou matemática. Essa reflexão sobre o infinito é o algoz do infinito. Ele tenta existir livre mais a vida veio para limitá-lo, jogou-lhe horas e estações térmicas diferentes, separadinhas por orvalho, sol e chuva. Infinito são (em plural mesmo) o disforme, talvez o gasoso que abrange tudo que existe sem forma definida ainda, caracterizado pelo inicio e fim.
Não, antes do inicio gasoso tem o desejo. Desejo é a parte instintiva anterior ao existir. A terra é o orgasmo do infinito universo gasoso. È o desejo materializado. È o infinito líquido. Esse infinito líquido perpassa a luz em todas as suas exibições, transforma ela em cor sólida e é visto escorrendo pelos dedos e pintando telas ou dando cor a nossa pele. Ele resiste a noite que adentra a terra enquanto a luz percorre estaticamente todo o infinito terrestre. Esse infinito que abriga e é abrigado pelo dia e pela noite na terra, se multiplica, se repete, se converte em medidas e símbolos. Quando o infinito líquido terrestre sente algo com muita intensidade ele quase se desfaz em inconsciência, fica tudo negro novamente. Alguns vêem a morte, outros gozam a vida, alguns sonham ao descansar na noite, sonham imagens nunca antes vistas conscientemente, imagens que só o infinito abriga em possibilidade.

O infinito por vezes considerado muito grande, abriga tudo de menor que existe. Nas menores medidas cabem todo o infinito, afinal, infinito são todas as concepções, formas e percepções possíveis. Talvez o infinito seja a partícula minúscula, invisível e impalpável que reside em um espaço sem medidas ou delimitações, um espaço para além de gigante. Pois, para ser gigante precisaríamos de um referencial e tudo para uma partícula minúscula é além de gigante. O infinito é o desaparecer também, ser nada é ser tudo. Ser nada, então, é ser infinito. Infinito se opõe a si mesmo. È o contraste do ser e não ser. Do existir e não existir. Do resistir e desaparecer. O infinito esconde feridas, e suas maiores feridas é nada ser real. È tudo um jogo de sensações, principalmente a do desejo de nascer e morrer. È o desejo inconsciente de se multiplicar e se anular em igual escala.

Infinito é tudo que caberia na forma de cada letra que escreve esse texto. Se o infinito fosse uma partícula invisível ele percorreria as letras desenhadas como se essas fossem um universo que guardam segredos e possibilidades de serem tudo. De expressarem tudo. Cada letra em sua I N D I V I D U A L I D A D E se transforma em pequenos infinitos. E aqui, eu direcionei elas para falarem sobre uma concepção muito pequena do que seja infinito perto de todo o universo gasoso.

Sou o infinito líquido que gera outro infinito líquido em meu ventre. Sou a matéria que carrega o orgasmo do universo. Eu posso sentir o infinito líquido resistindo a tudo, enquanto eu assim quiser. Resistindo a luz, a escuridão, a dor e ao frio. Infinito sãos os caminhos que nos fizeram esbarrar uns nos outros depois de percorrer o tudo e o nada anterior ao gasoso que se liquidificou dentro de nós.
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Fonte: http://lounge.obviousmag.org/entre_ocio_e_sonhos/2015/05/infinito.html
Fonte: http://lounge.obviousmag.org/entre_ocio_e_sonhos/2015/05/infinito.html
segunda-feira, 1 de junho de 2015
A longa brevidade da vida
Texto de António Lobo Antunes, no seu peculiar estilo de retratar literariamente o que a vida abriga.
Por António Lobo Antunes
O marido não falava: lia o jornal. Quando não lia o jornal olhava a
parede em frente. Aos domingos, a seguir ao almoço, ia ao quarto pôr a gravata
e ficava à espera, junto à porta, sem uma palavra, que ela mudasse de roupa,
desse um jeito ao cabelo, e viesse ter com ele. Então desciam do segundo andar
a pé, porque o elevador não era de confiança, e saíam para o cinema. O marido
mostrava dois dedos à empregada que vendia os bilhetes, explicando-lhe que duas
pessoas, e apontava o cartaz do filme mais perto. No intervalo permaneciam
sentados, diante do écran vazio, sem conversarem, da mesma forma que não
conversavam no regresso a casa. Em casa a mulher mudava de novo de roupa para
fazer o jantar. Ao acabar estava escuro na sala, nenhum candeeiro aceso e, no meio
do escuro, o marido sentado no sofá em silêncio, com a mesa já posta, o que
surpreendia a mulher dado que não se ouvia nenhum ruído de loiça. A mulher
ligava as três lâmpadas do tecto e trazia a sopa. Depois da sopa o borrego.
Depois do borrego o arroz doce. Depois do arroz doce o digestivo. Depois do
digestivo arrumava tudo na máquina e instalava-se no sofá também, com o
crochet. Se uma ambulância aos gritos na rua o prédio estremecia. Se nenhuma
ambulância na rua as vozes do andar de cima e de vez em quando uma criança a
chorar, de vez em quando uma discussão até que uma voz de homem
- Acabou-se a conversa
e com o
- Acabou-se a conversa
paz de novo. Em certas alturas a mulher quase
desejava que o marido
- Acabou-se a conversa
também, mas era difícil acabar uma conversa que não tinha começado.
Passada meia hora ou assim o marido ia deitar-se, e a mulher ficava a ouvir a
escova de dentes eléctrica, conforme ouvia o estalo das tábuas da cama
protestando contra o peso do marido. Era uma cama antiga, de bilros, a mesma da
época em que casaram, trinta e seis anos antes. Toda a mobília, aliás, existia
desde há trinta e seis anos antes, oferecida pelos pais dele, que não seriam
ricos mas tinham algumas posses. Mais recente, que a mulher se lembrasse, só o
tapete da sala que de resto principiava a gastar-se, sobretudo nos sítios onde
os pés da mesa de apoio se afundavam nele, e nos quais já se percebia a trama.
Por vontade sua a mulher mudaria o tapete, chegou a sugerir
- Era capaz de ser melhor mudarmos o tapete
porém, como não houve resposta, não teimou. Pensou em mudar o tapete sem
o informar, visitou várias lojas estudando preços, perguntou-se
- Para quê?
e desistiu. Para quê, de facto? E demais a mais a gente vai-se
habituando aos objectos e acaba por ter saudades deles quando desaparecem.
Teria saudades do marido se ele desaparecesse? Julgou que sim, julgou que não,
julgou que sim, cessou de julgar. Em trinta e seis anos o marido não
desaparecera nunca e, portanto, seria pouco natural que desaparecesse agora,
perto dos setenta. Para mais afigurava-se-lhe que de há semanas para cá ele
começara a arrastar um pouco umas das pernas e de perna arrastada ninguém vai
muito longe. Para onde iria ele, de resto? Não possuía amigos, não frequentava
cafés, não recebiam nem visitavam fosse quem fosse, nunca reparara num soslaio
interessado para senhora nenhuma: lia o jornal, olhava a parede e acabou-se. Há
quantos lustros não lhe tocava? Ao calcular há quantos lustros não lhe tocava
chegou-lhe do andar de cima um
- Acabou-se a conversa
que a sobressaltou o bastante para deixar os cálculos de lado. Há
assuntos em que é melhor deixar as questões como estão, e a mulher era uma
criatura prudente. Aos sessenta e cinco anos vai-se ganhando bom senso, para quê
arranjar maçadas agora? De modo que acabou por ir para a cama também,
guiando-se pela claridade dos intervalos dos estores. Ao deitar-se nenhuma
tábua estalou, o marido dormia numa respiração lenta, quando se preparava para
se voltar para um dos lados percebeu-lhe um murmúrio
- Sissi
e ficou a repetir para dentro
- Sissi, Sissi
por acaso o nome da empregada que vinha uma tarde por semana ajudar nas
limpezas, uma criatura baixa e gorda, viúva, com o filho preso por uma questão
de drogas ou um problema no género. A criatura baixa e gorda não era de grandes
expansões e o marido, estava certa disso, nem atentava nela. Nem atentava nela?
Se nem atentava nela porque carga de água o
- Sissi
num soprozinho que classificou de enternecido? Decidiu sacudir-lhe o ombro
- Que história é essa da Sissi?
meditou com mais calma, não se atreveu, porém o facto é que não
conseguia livrar-se daquele nome. Foi à cozinha beber água para acalmar os
nervos, descalça, sujeitando-se a uma constipação ou uma gripe, o azulejos
gelados, ela sensível do nariz, o médico, na última consulta
- Atenção aos pulmões que já não vai para nova
e a hipótese de uma pneumonia aterrou-a. Na bancada estavam algumas
facturas por pagar e no meio das facturas uma página solta do bloco onde
assentava as coisas a comprar no centro comercial, em que encontrou escrito
- Até para a semana meu ursinho rechonchudo, Sissi
e ficou séculos a reler aquilo, aparvalhada, Meu ursinho rechonchudo,
Sissi, meu ursinho rechonchudo, Sissi, até que principiou a sentir-se cansada,
estrangulou um bocejo e decidiu voltar para a cama. Ao fim de trinta e seis
anos não era fácil substituir o marido mas podia muito bem substituir o tapete
da sala. E, com um tapete novo na ideia, adormeceu quase contente.
---------------
Fonte: http://visao.sapo.pt/
O 'império do senso comum' e o desastre que vivemos
Sempre causou-me "estranheza" alguns discursos que, por dizerem "respeitar" os saberes populares, terminam por fazer a louvação da ignorância. E pararem pelo senso comum. Uma coisa não tem a ver com a outra. Em geral, desprezam o estudo, a reflexão teórica, em nome de uma prática que não sabemos o que significa. É a 'prática pela prática', isto é, o praticismo, torto, geralmente levando a situações desastrosas. Mas não se admire com a reação que esses apologistas da ignorância podem ter, se forem contestados: lançam mão de alguma frase de efeito de Paulo Freire, como 'santo remédio'. E então reina o oba oba e o populismo. Torpedeiam a universidade como instituição comprometida com a episteme, e se calhar seriam até capazes de atear fogo nas bibliotecas - o que, de resto, dar-lhes-ia jeito para disfarçar a preguiça em relação à leitura. É de não se entender por qual razão, com tanta aversão à instituição universitária, continuem dentro dela. Ora bem, pois tome-se nota do seguinte: a corrosão do partido que governa o Brasil e do seu ideário é resultado também dessa visão míope. O popular que piscou ao populismo, desprezou o debate e a formação política, tornando-se prisioneiro do senso comum que instaurou no país uma agenda retrograda comandada pelo Presidente da Câmara dos Deputados, onde até a diversidade da convivência amorosa - com novas formas de coabitação - é posta em questão, em função de um modelo único de família tradicional. Com a argúcia que lhe é peculiar, Chico Alencar, ator político, mas, antes de tudo, historiador, produziu um texto paradigmático a respeito dessa conjuntura que hoje o Brasil vive, sugestivamente intitulado o 'império do senso comum', a seguir reproduzido. Os apologistas da ignorância fariam bem se tirassem as devidas lições de um texto dessa natureza.

Por Chico Alencar
O senso comum, nesta encruzilhada de nossa
história, foi erigido como medida inquestionável de uma série de decisões que
afetam a vida nacional. Na Câmara dos Deputados, a onda conservadora afoga
todos na superficialidade da percepção dos fenômenos sociais.
Assim, a violência estrutural e a sensação de
insegurança passam a ter como solução o encarceramento de jovens em regime
prisional para adultos --de onde advêm 70% de reincidência criminal-- e a
flexibilização do Estatuto do Desarmamento, na perigosa linha do "cada
cidadão uma arma".
A perspectiva do desemprego é
"enfrentada" com a precarização geral do trabalho e quase irrestrita
das terceirizações. A necessidade da produção de alimentos e commodities pelo
agronegócio ameaça ainda mais os direitos dos povos nativos, desconhecendo-se
que cada km² de terra indígena emite 25% menos CO2 que outras terras
agricultáveis na própria Amazônia.
À saudável diversidade da convivência amorosa --com
novas formas de coabitação solidária-- é oposto o modelo único da família
tradicional, como se fora dela não existisse salvação.
Aos escândalos que se sucedem, a serem enfrentados
com investigação rigorosa e transparência, é preceituado o remédio do moralismo
individualista, como se tudo fosse uma questão de transferir virtudes privadas
--véu de hipocrisia?-- para o âmbito da instância pública.
Também no plano da política institucional o método
arcaico impera: no lugar de uma reforma política, implementam-se medidas
tópicas contra a política. O povo a repudia? Pois reduzamos suas oportunidades
de debate e escolha, com pleitos apenas quinquenais, para todos os cargos da
República.
A corrupção atinge a todas as grandes siglas,
revelando a perda total de fronteiras entre o público e o privado?
Constitucionalize-se a doação de empresas para os partidos, e só a partir deles
para as campanhas, como se isso as tornasse mais limpas e austeras.
A ideia de partido está degradada? Então que se
garanta na lei o triunfo do indivíduo, da personalidade ungida pelo voto, como
defendida pelos proponentes do distritão, sistema que elege para a função
pública só os mais votados.
Há pequenos partidos, alguns "de
aluguel", que se vendem? Que se imponham cláusulas para impedir seu
direito de crescer, preservando os grandes que tantas vezes os compram e, não
raro, são acometidos de nanismo moral.
As pseudossoluções galopantes da pequena política,
os arreganhos triunfantes de uma maioria reacionária são expressões típicas da
crise do nosso modelo de modernização conservadora, do nosso aparato político reativo
à democratização de base, direta e participativa, do esgotamento do arsenal de
conciliações entre contrários que estão, cada vez mais, assemelhados.
Antonio Gramsci (1891-1937), em seus "Cadernos
do Cárcere", denominou "interregno" esse tempo de incertezas que
anuncia, entre sombras, um fim de ciclo. Trata-se do intervalo histórico em que
o velho ainda não desapareceu totalmente e o novo ainda não se firmou.
A sofreguidão regressista, com mais espaço nesses
tempos sem hegemonia clara, tenta cristalizar suas posições. Esses períodos
trevosos, diz Gramsci, são propícios ao aparecimento de "sintomas
mórbidos, fenômenos estranhos, criaturas monstruosas".
Nossa cena política contemporânea oferece vários
personagens com essas características nefastas.
A história é um contínuo de transformações. O
desafio da hora presente, frente ao império do senso comum e seus monarcas do
atraso, é dar um novo significado ao bom senso republicano da igualdade, da
democracia e da ética social.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/221161-o-imperio-do-senso-comum.shtml
domingo, 31 de maio de 2015
Canção do Mar
Há determinadas músicas (das boas músicas, digo) que são epifanias. E com o mar pelo meio então! A conferir isso aí, com Dulce Ponte, em 'Canção do Mar'. A histórica saga lusitana. Descobrir onde está a razão. A luz sem par. O mar.
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