quarta-feira, 24 de julho de 2013

Jeitinho e jeitão:uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro

O pernambucano Francisco de Oliveira, ou simplesmente Chico de Oliveira, é, por certo, um dos principais intelectuais brasileiros. Dono de uma erudição entrecortada de ironia, o Professor Emérito da USP já definiu o modelo político-econômico brasileiro como um ornitorrinco - 'esse bicho que não é isso nem aquilo, um animal improvável na escala da evolução'. Agora, que muitos já o imaginavam retirado por conta da aposentadoria, ele tem dado mostras que está longe disso. Descortinou uma nova linha de investigação em um terreno que diversos cientistas sociais têm recusado, dada a dimensão da empreitada. Tendo Nobert Elias em perspectiva, Chico de Oliveira anda debruçado sobre a tarefa de esboçar uma interpretação a respeito do caráter do brasileiro. Daí resulta, por exemplo, o texto a seguir. 


Por Francisco de Oliveira 

Norbert Elias se destaca entre os modernos clássicos das ciências sociais por não recusar a investigação sobre o caráter das sociedades. É o que ele faz, brilhantemente, no seu derradeiro livro, Os Alemães, publicado em 1989, um ano antes de morrer, já nonagenário. Ali ele se pergunta, diretamente e sem rodeios, o que fez com que a Alemanha estivesse no coração das grandes tragédias modernas, a Primeira, a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto.
Tinha condições subjetivas para tanto: viveu uma experiência dolorosa como soldado na Primeira Guerra Mundial; judeu, teve de se exilar da Alemanha durante o nazismo; sua mãe foi trucidada em Auschwitz. Norbert Elias tinha também credenciais intelectuais para tentar explicar como a nação que sintetizou a era das Luzes, a pátria de Kant, Hegel e Goethe, tenha desenvolvido a indústria do extermínio: estudou medicina e psicanálise, doutorou-se em filosofia e foi professor de sociologia na Inglaterra.
Para ele, o desenvolvimento tardio do capitalismo na Alemanha, a ausência de uma revolução burguesa no país, a unificação nacional sob o tacão militar de Bismarck, o culto à organização, do qual o militarismo é o emblema mais ostensivo – tudo isso criou um caráter alemão. Esse caráter distingue a sociedade germânica de todas as outras, mesmo as europeias. Para Elias, não são apenas circunstâncias históricas que explicam o surgimento de Adolf Hitler. Isso é uma meia-verdade. As ideias monomaníacas que engendraram a bestialidade fascista talvez não tivessem acolhida sem a existência prévia do caráter alemão, nos termos definidos por Norbert Elias.
Os cientistas sociais costumam recuar ante tal tipo de análise. Têm receio de serem julgados preconceituosos. E, talvez, de se virem excluídos da interlocução com a ciência social alemã, uma das mais brilhantes fontes do pensamento filosófico-social em todos os tempos.
Mas é por um caminho “norbertiano” que pretendo investigar o caráter brasileiro. Penso que o peculiar modo nacional de livrar-se de problemas, ou de falsificá-los, constitui o famoso jeitinho brasileiro.
Os clássicos do pensamento social brasileiro têm dificuldade em lidar com a questão do caráter nacional, que amalgama o subjetivo e o objetivo. Salvo, evidentemente, Gilberto Freyre. Mas o autor de Casa Grande & Senzalamascarou a sua investigação com a nostalgia de um tempo que nunca existiu, e com o enaltecimento da suposta – e ilusória – capacidade da metrópole lusitana em se adaptar aos trópicos coloniais.
Por isso, ele enxergou no Nordeste açucareiro, a primeira região importante na formação do Brasil – que o historiador Evaldo Cabral de Mello definiu como“açucarocrata” –, uma dominação “doce”. O sociólogode Apipucos construiu uma hipótese que serve de justificativa ideológica da sociedade decorrente da escravidão. A sua interpretação é, ela própria, uma das vertentes do jeitinho brasileiro.
Sérgio Buarque de Holanda enfrentou melhor a questão. O seu “homem cordial” – para quem as relações pessoais e de afeto (para o bem ou para o mal) se sobrepõem à impessoalidade da lei e à norma social – é a própria encarnação do jeitinho brasileiro.
Caio Prado Júnior não ofereceu nenhuma contribuição sobre o assunto. Embora o seu marxismo fosse criativo e original, ele ficou prisioneiro da objetividade, o mantra que impediu gerações de marxistas, aqui e alhures, de investigar o caráter das nações.
Antonio Candido, nosso clássico moderno, tratou do tema em “Dialética da malandragem”, o poderoso ensaio sobre Memórias de um Sargento de Milícias, romance de Manuel Antônio de Almeida que se passa no Rio de meados do século XIX. Ainda que se aproxime decididamente do jeitinho, faltou ao ensaio, a meu ver, um pouco de irreverência, para que ele correspondesse à ginga do malandro carioca. Candido respeita tanto o brasileiro pobre que aborda as figuras populares com uma reverência quase mística. Para ele, nossa sociedade é tão obscenamente desigual que qualquer crítica às classes dominadas não passa de preconceito – mais um – dos ricos.
Outros autores, como Roberto DaMatta, vão diretamente à problemática do caráter nacional. É o que ele faz em Carnavais, Malandros e Heróis. Não é pela vertente de DaMatta, contudo, que pretendo chegar lá. Busco desenvolver uma investida mais nitidamente materialista, mesmo sabendo que o abandono da investigação antropológica possa implicar empobrecimento da análise.
Eis a tese: o jeitinho é um atributo das classes dominantes brasileiras que se transmitiu às classes dominadas.
Conforme Marx e Engels de A Ideologia Alemã, as ideias e os hábitos das classes dominantes transformam-se em hegemonia e caráter nacional. No Brasil, a classe dominante burlou de maneira permanente e recorrente as leis vigentes, sacadas a fórceps de outros quadros históricos. O drible constante nas soluções formais propicia a arrancada rumo à informalidade generalizada. E se transforma, ao longo da perpétua formação e deformação nacionais, em predicado dos dominados.
Essa situação, que é social, se configura no malandro, o especialista no logro e na trapaça. O malandro, com sua modernidade truncada, foi primeiro o carioca. E esse carioca era geralmente pobre, mas não miserável. 
Tinha “bossa” quem dominava a aptidão para fugir ou escapar das soluções formais. Bossa que é a expressão do jeitinho, a maneira de ganhar a vida sem se submeter aos ditames da norma, de conviver sem ser reconhecido como fora da lei. A moderna música popular brasileira, nascida no Rio, com toda razão foi chamada de bossa nova. Ela foi um jeitinho de escapar das convenções musicais à la Vicente Celestino,cópia falsa do grande canto lírico italiano. E também um jeitinho de incorporar as malandragens do samba – de origem africana e escrava – ao universo das elites. 
burla das classes dominantes brasileiras às normas seria atávica? Meu horror à burguesia (esse sim quase totalmente atávico) – cujo retrato acabado foi a açucarocracia pernambucana, perdulária e arrogante – tenderia a confirmar que o jeitinho é um caso de mau-caratismo, um dado subjetivo. Mas prefiro a trilha aberta por Norbert Elias: a burla é uma forma de adotar o capitalismo como solução incompleta na periferia do sistema. Incompleta porque o capitalismo trouxe para cá a revolução das forças produtivas, mas não as soluções formais da civilidade. As classes dominantes então “se viram”, dão um jeitinho para garantir a coesão de um sistematroncho e, comme il faut, a exploração.

 Sem querer atribuir tudo aos nossos colonizadores, a semente do jeitinho já vicejava na irresolução que Portugal dá às questões de administração e governo da jovem – e enorme – colônia. Não dispondo nem de homens nem de recursos capazes da façanha de fazer a minúscula cobra engolir o enorme elefante, Portugal opta pela solução capenga das capitanias hereditárias. Na mesma época, tendo criado um novo caminho para o Oriente com Vasco da Gama, dom Manuel, o Venturoso, emprega até o fim os modestos recursosportugueses na conquista da Índia, e só consegue estabelecer relações comerciais em pontos isolados do sul do continente.
No Brasil, as capitanias são entregues a fidalgos, alguns com recursos ínfimos e a maioria quase sem nenhum capital. O resultado da colonização pelo método das capitanias foi pífio, à exceção de duas ou três. O fracasso na Índia é do mesmo porte, senão maior: Lisboa torna-se a meca das especiarias orientais, mas Portugal nunca ocupou a Índia. Sequer conseguiu com que a língua portuguesa tivesse peso expressivo entre as centenas de dialetos do país. A lembrança lusa mais forte ficou restrita a Goa e Macau. 
oltemos ao caso do Rio, lembrado a propósito da malandragem e da bossa nova. Foi Juscelino Kubitschek, outro exemplar do homem cordial, quem jogou a pá de cal nas pretensões modernas do Rio: retirou-lhe a centralidade de capital e não botou nada no lugar. Incapaz de resolver os problemas cariocas, que já se apresentavam em grau superlativo, deu um jeitinho e transferiu a capital para Brasília, nos ermos do Planalto Central.

Espanta-se quem anda hoje pelas ruas da cidade que antigamente ostentava sua modernidade: o Rio ficou a cara do Brasil. A despeito do oba-oba em torno do renascimento carioca, basta observar ao redor do Palácio do Catete, antiga residência dos presidentes da República. O bairro que se oferece à vista exibe mediocridade urbana, pobreza ostensiva e tráfico de crack.
 A fantasia da mulher carioca, linda e elegante (e que de fato disputava o topo da beleza com mulheres de outras nacionalidades, com a vantagem da miscigenação), deu lugar à imagem de mulheres – e homens – que andam com sandálias surradas e se vestem pobremente. Como não perceber aí sinais de uma modernidade truncada?
No caso de Juscelino e das classes dominantes, a mudança da capital foi um “jeitão” para deslocar um problema: criar uma nova fronteira para a expansão capitalista, catapultada pela indústria da construção civil. O jeitinho foi fazer isso por meio dos candangos, trabalhadores informais, depois abandonados à própria sorte, “sem lenço e sem documento”, como cantaria Caetano Veloso, ele próprio, conforme a análise de Roberto Schwarz, um cultor do jeitinho transformado em “verdade tropical”. O Brasil é assim, defendeCaetano, a esquerda é que não o entende. 
a segunda metade do século XIX, o café liderava a expansão econômica. Não só no Vale do Paraíba, em São Paulo ou mesmo no Brasil: o café era a mercadoria mais importante do comércio mundial. Só foi desbancado dessa posição, pelo petróleo, nos anos 40 do século XX. Mas o início da expansão do café se deu sobre o lombo dos escravos.

Qual foi o jeitão da classe dominante, no caso os cafeicultores, a partir do fim do escravismo, em 1888? Em vez de incorporar os ex-escravos à cidadania, fornecendo-lhes meios de cultivar a terra e se incorporarem ao trabalho regular, foram importar a mão de obra europeia, transformando São Paulo na maior cidade italiana do mundo. Malandramente, cheios de bossa, contornaram os problemas do fim do escravismo e se desresponsabilizaram pelos ex-escravos, de novo, como cantaria Caetano, pessoas “sem lenço e sem documento”.
Surgia o trabalho informal, quer dizer, sem formas. O jeitão da classe dominante obrigou os dominados a se virarem por meio do jeitinho do trabalho ambulante, dos camelôs que vendem churrasquinho de gato como almoço, das empregadas domésticas a bombarem de Minas e do Nordeste para as novas casas burguesas dos jardins Europa, América, Paulistano. Etambém para os apartamentos das elegantes – e já medíocres – madames de Copacabana, Ipanema e Leblon, propiciando o vexame bem brasileiro de criados negros, vestidos a rigor, servindo suco de maracujá a demoiselles que se abanavam como se estivessem nos salões parisienses.
Lá em cima, no Pernambuco açucarocrata, Gilberto Freyre podia criar então a nossa versão de E o Vento Levou. Casa Grande & Senzala é a mais formidável denúncia do estupro como formador da nacionalidade, mas visto de um ângulo nostálgico. Ainda não era o tempo das madames edemoiselles, mas o dos sinhôs e das sinhás e sinhazinhas.
O mais clássico dos clássicos do pensamento social brasileiro – Antonio Candido, nossa referência moral e intelectual, considera Casa Grande & Senzalao livro mais importante das ciências sociais brasileiras – é também um pastiche. Sob determinado aspecto, ele é quase um deboche do jeitão de irresolução do problema da mão de obra e do seu rebaixamento às relações “adocicadas” – aquelas em que o filho do senhor transforma o negrinho, companheiro de travessuras, em cavalo vivo. Eis aí a lembrança mais festejada da infância dos senhores. Pais e mães da Casa Grande ensinavam aos filhos o jeitinho doce de ensinar e se divertir ensinando. Os filhos dos negros, por sua vez, aprendiam quem estaria sempre por cima, docemente... 
etúlio Vargas, o estancieiro gaúcho que liderou a Revolução de 1930, tentou formalizar o jeitinho para acabar com o jeitão. Vale dizer: buscou civilizar a classe dominante para que o proletariado existisse. Criou uma legislação trabalhista avançada, mas a expansão capitalista seguiu desobedecendo as regras e, junto com os empregos formalizados pela nova legislação, a avalanche do trabalho informal engolfava todas as relações sociais.

A informalidade é a forma, o jeitinho de substituir as relações racionais e obrigatórias pela intimidade, como já demonstrou Sérgio Buarque. Mas essa substituição, assim que se apresenta o primeiro conflito, mostra sua outra face: a informalidade se converte no rigor mais severo, no apelo à arbitrariedade e não raro em exibições de crueldade. O senhor de engenho que se deitava com sua mucama era o mesmo que a castigava no tronco quando alguma falta, suposta ou verdadeira, lhe ofendia a propriedade.
Diga-se logo, para não nos autocaricaturarmos com nosso eterno “complexo de vira-lata” (apudNelson Rodrigues), que Thomas Jefferson, o grande paladino da liberdade, também estuprava suas escravas. A diferença, essencial para distinguir o jeitinho de outras práticas de dominação, é que Jefferson deu o seu nome à sua descendência negra, coisa que nenhum dos nossos senhores de engenho chegou a fazer.
Em Pernambuco mesmo, as fábricas da Paulista, que chegaram a ser o maior complexo industrial têxtil da América Latina, eram propriedade dos Lundgren. E o membro da família que tocava a fábrica era um sueco que se deitou com 300 das suas operárias. Ele deixou uma prole enorme, mas não há notícia de pobres com sobrenome Lundgren. No máximo, na falta de sobrenome, davam-se aos negros escravos nomes de santoscatólicos. Daí a proliferação de sobrenomes “dos Santos” e de toda a corte católica dos altares.
Antes de Sérgio Buarque, Machado de Assis, ele mesmo um mulato, portanto conhecedor do truque do jeitinho, fez com que Dom Casmurro seja até hoje o retrato mais notável da classe dominante brasileira: “Por fora, bela viola, por dentro pão bolorento”, como se diz no popular. Bentinho é liberal por fora e escravista por dentro. Machado usou um jeitinho literário para legar um formidável enigma, ao qual já se dedicaram milhares de páginas: Capitu traiu mesmo ou foi vítima de uma vituperação de classe? Maria Capitolina, a Capitu, era mais pobre que o seu marido liberal, Bentinho. E, com seus “olhos de ressaca”, provavelmente tinha sangue negro.
Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade. 
ecordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado (rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por sinal conterrâneo seu. Este, vendo-mepor perto, e julgando que eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez. Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana.

 A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão “sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedido qualquer coisa, já que é obrigação do dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento, impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista.Nele, o corpo dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno.
O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje. Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo capitalismo que avançava.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia para quase nada.
Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos. Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Trato dos Viventes, depois de décadas de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, naverdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento. Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar uma industrialização dematriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os excedentes populacionais cresceram exponencialmente. 
ssim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.

Quando o trabalhador ou trabalhadora que tem consciência dos seus direitos recusam o emprego sem carteira, às vezes escuta“malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram suas profissões periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas.
O jeitinho é a regra não escrita, sem existência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância: “Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do moderno atraso brasileiro.
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sexta-feira, 19 de julho de 2013

A reveladora memória dos ‘passos perdidos’: intermitências do tempo-existência

Abaixo, o meu texto da edição do Outono (europeu) da Revista Lusitana A Página da Educação. 


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Straight Up: Oslo em torno do Astrup Fearnley Museum of Modern Art ; Cameron R Neilson



Ivonaldo Leite
O caminhante constitui, em relação à sua distância, um passo próximo e um ‘distante’, um cá e outro lá. Como assinalou Michel de Certeau, em L’invention du quotidien, pelo facto de os advérbios cá e lá serem precisamente, na comunicação verbal, os indicadores da instância locutora, deve-se acrescentar que essa localização (cá-lá) necessariamente implicada pelo ato de andar e indicativa de uma apropriação presente do espaço por um ‘eu’ tem igualmente por função implantar o outro relativo a esse ‘eu’ e instalar assim uma articulação conjuntiva e disjuntiva de lugares. A caminhada afiança, respeita, lança suspeita, arrisca, transgride, etc., os percursos que ‘fala’.
Passos dados, mas não apenas no sentido estrito de lançamento no espaço físico. Trata-se da existência e do transcurso num contexto, num determinado cotidiano, englobado pelo permanente devir da esfera social. O mundo não existe somente como forma de um receptáculo físico no qual nos encontramos, ele é estruturado por padrões de sociabilidade, na medida em que a repetição da ação configura a estrutura, quer dizer, ele é mundo social.  Mas, à Heidegger, pode dizer-se que a vida social é o império do impessoal, é o âmbito onde o ‘todos nós’ e o ‘ninguém’ são confundidos, visto que o parâmetro que norteia o comportamento é o que se pensa ‘no geral’.
A vida em sociedade é marcada por uma ‘noção obscura’ de convivência, em que não predomina a singularidade do sujeito, mas, sim, prevalece a padronização de comportamentos, um ‘impessoal sem rosto’, algo como um ‘ninguém’ que não se identifica com esta ou aquela pessoa. Os comportamentos planejados e esperados, frases de circunstâncias, palavras ditas (por vezes, falsas) tão-somente para que não predomine o incômodo silêncio, etc., são marcas características do que, não raramente, o ‘teatro’ da vida social requer.   
Daí não se tem outra coisa que não a inautenticidade do vivido no ‘espaço publico’ do quotidiano. O ‘encobrimento’ do ser. Assim, uma analítica da existência não prosperará caso se limite a repisar a positividade do vivido. Terá de adotar uma perspectiva inversa. A dimensão positiva emergirá, mas através do exame negativo e inquieto dos constituintes da existência. E assim põe-se a questão da angústia, e põe-se porque ela não é somente um fenômeno psicológico, que diz respeito apenas a um ente, mas sim a sua ‘extensão’ é ontológica, na media em que nos remete à totalidade da existência como ser-no-mundo. Novamente com Heidegger, podemos dizer que a angústia começa a se apresentar quando, em meio a nossas ocupações quotidianas, somos tomados por um certo tédio. Começamos a ficar fartos de entes que nos rodeiam e não encontramos em qualquer outro ente suporte para nos livrar desse tédio. Até chegamos a acreditar que precisamos buscar mais contacto com as coisas do mundo, para assim nos ocupar - ao invés de nos preocupar -, e então sairmos da estranha indiferença na qual nos atira o mundo. Contudo, com isso, ao desse modo procedermos,  caímos mais ainda nos abismos da angústia.
Quando somos indagados sobre o motivo da nossa angústia, geralmente segue-se a resposta: ‘não é nada’. Ou seja, sente-se a angústia, mas não se identifica o objeto dela. Todavia, com a angústia nos remetendo à totalidade como ser-no-mundo, ela é um fenômeno que coloca a existência humana diante de si mesma, abrindo a possibilidade de retirar o ser da sua decadência e revelando a autenticidade e inautenticidade como possibilidades no modo de estar no mundo.
A esse respeito, um exemplo ilustrativo pode ser buscado no romance O Muro, de Sartre, que tem como cenário uma prisão espanhola na altura da guerra civil.  Pablo Ibbieta, personagem principal, na noite que antecede a sua execução (que não chega a acontecer), na angústia do perecer, faz uma retrospectiva da sua vida e, ao cabo da mesma, chega a uma clareza tal sobre a sua existência que o leva a dizer: "no estado em que me achava, se viessem me avisar que eu poderia voltar tranqüilamente para casa, que a minha vida estava salva, ficaria indiferente; algumas horas ou alguns anos de espera dá na mesma, quando se perdeu a ilusão de ser eterno". Reveladora memória do tempo passado. Dos passos dados. Consciência dos ‘passos perdidos’. Intermitências do tempo-existência.
O passo próximo e o passo distante fazem o caminhante ‘deslizar’ pelo tempo, em passos incertos, mas insistentes na busca de rumos. A cansada existência. De modo semelhante à perspectiva surrealista, a memória dos passos perdidos transmuta-se numa operação alquímica que perpassa as enigmáticas sombras refletidas no espelho do pensamento.


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terça-feira, 16 de julho de 2013

Sustentabilidade e Educação em debate: Carlos Rodrigues Brandão na UFPB

No âmbito de um Projeto coordenado pelo Prof. Antonio Alberto, sob os auspícios do CNPq, ocorrerá, nos dias 30 e 31/07, o Encontro de Educação do Campo e Práticas Agroecológicas (ENECAPA), na UFPB/Campus do Litoral Norte. Presença do Prof. Carlos Rodrigues Brandão, nome que é uma referência histórica da Educação Popular no Brasil e na América Latina. Estará presente em dois momentos do evento: proferindo a conferência de abertura, sob o título 'Educação: Antigos e Novos Desafios frente à Sustentabilidade Sócio-econômica e Ambiental; e no segundo dia, numa 'roda de diálogo' organizada pela Coordenação de Educação Popular (COEP)/Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (PRAC)/UFPB. Abaixo, a programação completa. 

Carlos Rodrigues Brandão (direita) e Rubem Alves: campo, sustentabilidade e a busca de outra educação 


Dia 30/07
9h00 – Abertura
9h30 – Conferência
Educação: Antigos e Novos Desafios frente à Sustentabilidade Sócio-econômica e Ambiental
Conferencista: Prof. Dr. Carlos Rodrigues Brandão (Universidade de Campinas - Unicamp/SP)

14h00
Apresentação de experiências envolvendo educação e práticas agroecológicas: A Experiência da RESAB (Rede de Educadores do Semi-árido Brasileiro)

15h00 - Apresentação de experiências envolvendo educação e práticas agroecológicas: A Experiência do Pólo Sindical da Borborema

16h00 - Apresentação de experiências envolvendo educação e práticas agroecológicas: A Experiência do Projeto Formação de Agricultores Familiares para Sustentabilidade Sócio-econômica e Ambiental

Dia 31/07
09h00 – Conferência
Agroecologia e Desenvolvimento: Concepções e Práticas
Conferencista: Prof. Dr. Alexandre Eduardo de Araújo (Universidade Federal da Paraíba)
                       
14h30
Roda de Diálogo: Educação Popular e Extensão
(Diálogo entre o Professor Carlos Rodrigues Brandão, extensionistas e representantes da Coordenação de Educação Popular/Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários - PRAC)

16h00
Mesa de encerramento do Encontro: Reflexões sobre as Perspectivas da relação entre Educação do Campo e Agroecologia
(Intervenções coletivas, em forma de balanço do Encontro; presença da representação do Projeto Formação de Agricultores Familiares na Perspectiva da Sustentabilidade Sócio-econômica e Ambiental – Mesa coordenada pela discente Ana Maria Gomes, do Curso de Pedagogia)

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Armadilhas para Dilma

Muita tinta tem corrido a respeito das manifestações no Brasil. Muitos analistas em programas televisivos também têm procurado colocar em realce o central da questão. Mas, aqui e alhures, as abordagens padecem de consistência. Falta algo, e, por vezes, sobram equívocos de análise.  O texto abaixo, da lavra da Profa. Maria Franco (USP), é uma exceção a isso. Vale a pena a leitura. 




Maria Sylvia Carvalho Franco 

Os atuais movimentos de massa no Brasil não se devem apenas a recentes demandas sociais, econômicas ou políticas. Essa atribuição toma o resultado pela gênese dos eventos. Estes determinam-se no interior de um arraigado sistema produzido em nossa história.
Destaca-se na origem da sociedade brasileira a ex­ploração de riquezas baseadas na escravidão moderna, instituição constitutiva do capitalismo, articulada às mudanças socioeconômicas, inclusive o trabalho livre, em curso na Europa. Não por acaso, J. Locke deu forma teórica às práticas capitalistas, fundamentou o pensamento liberal e legitimou a escravidão moderna, alicerçando-os no direito natural e individual à propriedade: só o proprietário pertence ao gênero humano. Os sem posses convertem-se em inferiores, justificando-se o seu jugo e a pena de morte para quem atenta contra a propriedade, "ipso facto", contra a vida e a liberdade.
A violência do estado de natureza permeia a sociedade civil, garantindo --pela recusa de sua humanidade-- a exploração do trabalhador livre e do escravo. Na vertente moderna e cristã exposta por Locke, o escravo está expulso do estado de natureza, segregado da religião, excluído da sociedade civil.
Entre nós, esse elenco articulou-se ao absolutismo português gerando, em nossa concretização do capitalismo, ampla rede de controle social arbitrário e economia espoliativa. Por séculos, mudanças decisivas ocorreram entre dominantes e dominados, mas subsiste a essência dessa ordem: a produção de lucro. Distraída desse fato, Dilma caiu em ciladas, algumas embutidas em sua própria ideologia.
A primeira delas foi acatar o esquema de poder construído por seu antecessor, que esbanjou ardis retribuindo os provedores de suas campanhas políticas e produziu, com astuciosa propaganda, o mito do herói em um país próspero e venturoso. Com essa herança, Dilma caminhou para o inferno ao cortar benesses. Perturbou o setor financeiro ao baixar juros e introduzir impostos para o capital externo, provocando fuga desses bens, elevação do câmbio, desequilíbrio no mercado.
Crente no "papel histórico da burguesia nacional", cortou impostos, concedeu crédito copioso, subsidiou o consumo, supondo que os ganhos acrescidos se transformariam em produtividade. E veio a desaceleração industrial, o "pibinho", as aventuras com recursos do BNDES e a volumosa remessa de lucros. Jogou com a inflação visando lastrear o desenvolvimento, mas conseguiu carestia e queda no consumo, suposto lastro para a ascensão social, produtor de nova classe média, na verdade inexistente.
Classes não se formam com artifícios de propaganda e participação rapsódica no mercado. Exemplar dessa falácia é o Minha Casa, Minha Vida. O banco oficial não empresta os recursos iniciais para construção, apenas ressarce o montante previamente aplicado pelo candidato, quantia que lhe é impossível amealhar; as prestações excedem os bolsos da família e é exorbitante o preço final do imóvel. Diante do impasse, o bancário aconselha o cliente a procurar um construtor "acostumado a trabalhar com a Caixa", vale dizer, com a empreiteira favorecida pelo governo.
Dilma tropeçou no rijo sistema de privilégios e troca de favores. Nessa faina, o empresariado conta com lobbies operando no Congresso, influenciando os partidos oligarquizados e a burocracia estatal, com apropriação privilegiada e uso irresponsável dos dinheiros públicos.
Contra esses interesses destrutivos da imensa riqueza nacional, ergue-se a massa dela despojada. A revolta contra as tarifas de transporte não é a gota d'água, o estopim que acendeu o povo, mas parte importante da experiência diuturna de pessoas roubadas de seus direitos. Elas têm consciência de que preços maiores visam favorecer os concessionários que financiam eleições e ocupam cargos chaves na administração pública.
Aqui, é nulo o perigo de populismo tarifário e é inválida a alegação de que a estabilidade dos preços possa bloquear investimentos e, "ipso facto", piorar o serviço. Esse automatismo não existe; o alvo é o lucro fácil, isento de contrapartida.
O peso desse arcabouço torna irrisória a assertiva de que a atual rebelião seria difusa, alheia a partidos, carente de alvos precisos. Nebulosa apolítica, seria a expressão do fortalecimento ("empowerment") do indivíduo, sujeito da consciência e dos atos sociais, gerado no bojo da internet.
Trata-se de versão requentada da secular ideologia liberal, em que o indivíduo é constitutivo do universo. O poder de seres isolados --hoje como antes-- anula-se diante dos monopólios estatais da força física, da norma jurídica e dos impostos. As massas assustam e um recurso para aplacá-las seria dissolvê-las em seus átomos. Mais vale compreender o sentido desses movimentos.
Eles não poderiam conjugar-se a partidos, por serem fonte da corrupção que recusam; a liderança não poderia ser hierárquica, pois são contra a oligarquização da política; suas demandas são exatas, referentes a direitos que lhes são roubados e pelos quais pagam tributos; não querem "mais", como reza a propaganda, querem o imprescin­­dível. Nem são amorfos: as redes sociais ensejam a organização dos grupos e atividades.
Como toda técnica, ela é meio para ações cujo sentido define-se por seus atores e por seus fins.
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terça-feira, 9 de julho de 2013

'Onde está o conhecimento que perdemos na informação?'

Abaixo, mais um artigo instigante de Thomaz Wood Jr., denominado 'pensar dói', que nos faz lembrar as palavras de T. S. Eliot: onde está a vida que perdemos na existência?/Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?/Onde está o conhecimento que perdemos na informação? 



Thomaz Wood Jr
Em texto publicado no New York Times, Neal Gabler, da Universidade do Sul da Califórnia, argumenta que vivemos em uma sociedade na qual ter informações tornou-se mais importante do que pensar: uma era pós-ideias. Gabler é o autor, entre outras obras, de Vida, o Filme (Companhia das Letras), no qual afirma que, durante décadas de bombardeio pelos meios de comunicação, a distinção entre ficção e realidade foi sendo abolida. O livro tem o significativo subtítulo: Como o entretenimento conquistou a realidade.
No texto atual, Gabler troca o foco do entretenimento para a informação. Seu ponto de partida é uma constatação desconcertante: vivemos em uma sociedade vazia de grandes ideias, leia-se, conceitos e teorias influentes, capazes de mudar nossa maneira de ver o mundo. De fato, é paradoxal verificar que nossa era, com seus gigantescos aparatos de pesquisa e desenvolvimento, o acesso facilitado a informações, os recursos maciços investidos em inovação e centenas de publicações científicas, não seja capaz de gerar ideias revolucionárias, como aquelas desenvolvidas em outros tempos por Einstein, Freud e Marx.
Não somos menos inteligentes do que nossos ancestrais. A razão para a esqualidez de nossas ideias, segundo o autor, é que vivemos em um mundo no qual ideias que não podem ser rapidamente transformadas em negócios e lucros são relegadas às margens. Tal condição é acompanhada pelo declínio dos ideais iluministas – o primado da razão, da ciência e da lógica – e a ascensão da superstição e da ortodoxia. Nossos avanços tecnológicos são notáveis, porém estamos retrocedendo, trocando modos avançados de pensamento por modos primitivos.
Gabler critica o afastamento das universidades do mundo real, operando como grandes burocracias e valorizando o trabalho hiperespecializado em detrimento da ousadia. Critica também o culto da mídia por pseudoespecialistas, que defendem ideias pretensamente impactantes, porém inócuas.
No entanto, o autor aponta que a principal causa da debilidade das nossas ideias é o excesso de informações. Antes, nós coletávamos informações para construir conhecimento. Procurávamos compreender o mundo. Hoje, graças à internet, temos acesso facilitado a qualquer informação, de qualquer fonte, em qualquer parte do planeta. Colocamos a informação acima do conhecimento. Temos acesso a tantas informações que não temos tempo para processá-las. 
Assim, somos induzidos a fazer delas um uso meramente instrumental: nós as usamos para nos manter à tona, para preencher nossas reuniões profissionais e nossas relações pessoais. Estamos substituindo as antigas conversas, com seu encadeamento de ideias e sua construção de sentidos, por simples trocas de informações. Saber, ou possuir informação, tornou-se mais importante do que conhecer; mais importante porque tem mais valor, porque nos mantêm à tona, conectados em nossas infinitas redes de pseudorrelações.

As novas gerações estão adotando maciçamente as mídias sociais, fazendo delas sua forma primária de comunicação. Para Glaber, tais mídias fomentam hábitos mentais que são opostos àqueles necessários para gerar ideias. Elas substituem raciocínios lógicos e argumentos por fragmentos de comunicação e opiniões descompromissadas.
O mesmo fenômeno atinge as gerações mais velhas. Nas empresas, muitos executivos passam parte considerável de seu tempo captando fragmentos de notícias sobre mercados, concorrentes e clientes. Seu comportamento é o mesmo no mundo virtual e no mundo real: eles navegam pela internet como navegam por reuniões de negócios. Vivem a colher informações e distribuí-las, sem vontade ou tempo para analisá-las. Tornam-se máquinas de captação e reprodução. À noite, em casa, repetem o comportamento nas mídias sociais. Seguem a vida dos amigos e dos amigos dos amigos; comunicam-se por uma orgia de imagens e frases curtas, signos cheios de significado e vazios de sentido. 
O futuro aponta para a disponibilidade cada vez maior de informações. A consequência para a sociedade, segundo Gabler, é a desvalorização das ideias, dos pensadores e da ciência. A considerar a velocidade com que livros e outros textos estão sendo digitalizados e disponibilizados na internet, estamos no limiar de ter todas as informações existentes no mundo ao nosso dispor. O problema é que, quando chegarmos lá, não haverá mais ninguém para pensar a respeito delas.

Pode-se acusar o ensaísta de nostalgia infundada ou ludismo. Porém, ele não está só. Felizmente, há sempre um grupo de livres pensadores a se colocar contra o conformismo massacrante das modas tecnológicas e comportamentais, nesta e em outras eras.
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sábado, 6 de julho de 2013

'O Livro das Minhas Vidas'

Por estes dias, as boas para o mundo da leitura são aportadas pela Feira Literária Internacional de Paraty. Das novidades, muitas me têm chamado a atenção. Dentre elas, é de se destacar a tradução de The book of my lives, do bósnio, a viver nos Estados Unidos, Aleksandar Hemon. Tradução literal para o português brasileiro: O Livo das Minhas Vidas (Editora Rocco, 244 págs.). Sem mais delongas, a seguir, uma apresentação do autor e do que tem escrito, publicada pelo Caderno Ilustrada da Folha de São Paulo, edição do dia 29/06/2013 (disponível em: http://app.folha.com/m/noticia/276220). 




JOCA REINERS TERRON


A obra de Aleksandar Hemon é o testemunho de um escritor que escapou da margem. Com "O Livro das Minhas Vidas" não é diferente. Em termos formais, encontra-se no extremo oposto ao ocupado por Witold Gombrowicz, embora existam coincidências biográficas na maneira que se deu o exílio forçado de ambos, presos em países estrangeiros devido a acidentes da história.
A partir de 1939, o polonês Gombrowicz permaneceu na Argentina por 24 anos, ao ter sua viagem de retorno à Polônia suspensa pela invasão de Hitler. Deu-se o mesmo com Hemon em 1992, ao ser flagrado em viagem aos EUA pela guerra que irrompeu na Bósnia.
Contudo, Gombrowicz fugiu do limiar entre Ocidente e Oriente representado pela Polônia, caindo no terceiro mundo. Pior: permaneceu exilado de sua própria língua, pois nunca adotou literariamente o espanhol. O fatal drible de Hemon nas circunstâncias está aí, em sua adoção da língua inglesa como instrumento de expressão do qual extrai especial brilhantismo estilístico.
Gombrowicz nunca esteve exilado por completo, sobreviveu em estado de suspensão. Hemon, entretanto, teve de se desfazer de tudo, exceto das lembranças.
Daí vem o fato de seus relatos --"O Livro das Minhas Vidas" é apenas mais um que no futuro poderá ser reunido a um livrão que inclua todos-- serem marcados pelo estranhamento advindo daquilo que foi inapelavelmente perdido, a juventude em Sarajevo, as idiossincrasias familiares particularizadas pelo humor e por outras marcas essenciais da cultura, como a apologia do borscht (uma sopa de legumes com carne marcada pela cor da beterraba) dos Hemon, um prato indefinível por ser irrepetível (era feito com o que havia de disponível, portanto nunca era igual --e não voltará a existir).
Esse relato, intitulado "Jantar em Família", é marcado por certa graça melancólica que tira qualquer apetite.
Mas nada se compara à aproximação progressiva entre o passado bósnio e a presente intimidade norte-americana que os textos de "O Livro das Minhas Vidas" promove, culminando na crônica estarrecedora de "O Aquário".
Publicada anteriormente na "The New Yorker", narra diagnóstico e remoção de um tumor cerebral de Isabel, filha mais nova de Hemon e Teri, sua mulher, quando tinha 9 meses de idade. O episódio (narrado sem sentimentalismo) traduz com profundidade o que é a vida, uma enorme sequência de perdas que implode no vazio. Ainda bem que, enquanto isso, é possível imaginar e lembrar.
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JOCA REINERS TERRON é autor de "Do Fundo do Poço se Vê a Lua" (Companhia das Letras), entre outros.

sexta-feira, 5 de julho de 2013

'Pensadores que inventaram o Brasil'


Ao lermos os textos acadêmicos de Fernando Henrique Cardoso após os seus dois mandatos presidenciais e a sua 'retirada política', calha-nos duas impressões: primeira, que, aos 82 anos,  ele reencontrou-se com a arguta verve analítica que o projetou como cientista social; a segunda, que deveria ter usado (ou pelo menos usado mais) tal verve no exercício da Presidência da República. O seu novo livro, Pensadores que Inventaram o Brasil (Companhia das Letras, 329 págs.), embora em significativa medida constituído de ensaios anteriores (mas reapreciados), constitui-se, por certo, uma obra de referência para aqueles que querem entender autores clássicos do pensamento social brasileiros, sendo, portanto, a meu ver, um livro imprescindível às novas gerações. De Joaquim Nambuco a Sérgio Buarque de Holanda, de Gilberto Freyre a Florestan Fernandes, de Caio Prado Júnior a Celso Furtado, de Antonio Cândido a Raymundo Faoro, dentre outros, Cardoso passa em revista com notável poder de síntese. O que não é surpresa para aqueles que conhecem os seus trabalhos acadêmicos (e um registro: muitas críticas políticas que lhe  foram - e são -  dirigidas, talvez decorram do fato de não se ter lido sequer um trabalho escrito por ele). Por via do estudo de Florestan Fernandes, comecei a ler o autor de Dependência e Desenvolvimento na América Latina - e a dada altura, quando vivia fora do Brasil, cheguei mesmo a escrever um trabalho a seu respeito, com foco numa política setorial da sua administração, que recebeu como título: Brazilian Educational Policy during the Cardoso Administrations (1995-2001), acolhido como publicação por Ted Goertzel/Rutgers University/USA (crab.rutgers.edu/~goertzel/LeiteEducation.doc). Pois bem, o Fernando Henrique, cientista social, está na ativa, e defendendo a tese do 'intelectual público'. Abordarei essa tese em outra postagem.   

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Universidade: plágios e a falta de credibilidade de pesquisas

'Um fantasma ronda a universidade'. O fantasma do plágio. Ele tem assumido as mais diversas faces. Já   há até quem aponte, por exemplo, a existência do 'plágio dublê' - quando alguém escreve no lugar de outro alguém, que, oficialmente, é o "autor" de determinado trabalho. Legislação para punir esse delito há. Punição no meio acadêmico também (onde inclui-se até mesmo a perda de títulos obtidos). Então é fazer vale a ética e combater rigorosamente o plágio. O que já vem acontecendo, conforme pode ser visto na reportagem abaixo. Afinal, o plágio é uma afronta à competência e ao mérito. 



Plágio virou 'praga' no meio acadêmico, diz especialista


Um caso de plágio em uma tese de doutorado derrubou a ministra da Educação da Alemanha, Annette Schavan. Ela renunciou após acusações de que teria copiado partes do texto de seu trabalho, defendido há 33 anos na Universidade Heinrich Heine, de Düsseldorf. Além do cargo, perdeu o título de doutora. Casos desse tipo não são tão raros: em abril do ano passado, Pál Schimitt renunciou à presidência da Hungria após perder o título de doutor, também por plágio.
Com o uso das ferramentas online, esse tipo de prática vem se tornando mais comum - e nem sempre é fácil detectá-la. O que a internet fez foi facilitar o serviço, transformando o "Ctrl+C" e "Ctrl+V" em vilão. "No meio acadêmico, em especial, o plágio se tornou uma verdadeira praga", diz o diretor relator da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), Cláudio Lins de Vasconcelos.
Esta discussão não surgiu no embalo da internet. Muito antes, ainda na época do Império Romano, o fantasma da cópia não autorizada já assombrava autores de trabalhos artísticos e intelectuais. Mas não é só a cópia que caracteriza o plágio. As citações em trabalhos científicos, por exemplo, reproduzem exatamente o que o autor de um livro ou artigo escreveu, mas com a devida referência. O problema está na apropriação de trechos, quando o aluno se faz passar por autor de uma frase ou um pensamento que não é dele.

"Inspiração não é plágio, a menos que resulte em uma obra idêntica ou quase idêntica à original, sem que a verdadeira fonte seja citada", esclarece Vasconcelos. Nas pesquisas, o impacto dessa conduta pode culminar inclusive no comprometimento da credibilidade dos dados apresentados.
A legislação brasileira proíbe a cópia não autorizada de obras protegidas por direitos autorais, com algumas exceções que visem a uma função social (como na imprensa ou em estabelecimentos de ensino). Porém, a lei não trata especificamente do plágio. Mesmo assim, é possível punir essa prática com mecanismos da própria Lei de Direitos Autorais, bem como do Código Penal, que consideram ilegal a cópia não autorizada em geral (a violação dos direitos pode render uma pena de 2 a 4 anos de reclusão, além de multa).

Já se a cópia está mascarada com a troca de algumas palavras, Vasconcelos alerta que a lei poderia não se aplicar. "Se o plagiador obtiver alguma vantagem para si ou para outra pessoa, poderá ser enquadrado por estelionato. Desde que a intenção de ludibriar os leitores fique demonstrada", explica o diretor relator da ABPI.
Embora tanto o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) quanto o Superior Tribunal de Justiça (STJ) não tenham um levantamento de quantas ações tramitam por plágio no País, uma das principais instituições de ensino superior brasileiras já demitiu por este motivo. Em um dos casos mais recentes, no início de 2011, Andreimar Martins Soares foi exonerado da Universidade de São Paulo (USP) depois que pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) reivindicaram a autoria de imagens utilizadas em uma pesquisa da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP em Ribeirão Preto.

Na época, a ex-reitora Suely Vilela também foi investigada, mas acabou inocentada pelo depoimento de Soares. Ele atribuiu a cópia a um engano de sua ex-aluna Carolina Dalaqua Sant'Ana - que perdeu o título de doutora. Soares até tentou contestar a decisão da universidade na justiça, mas não teve êxito.


Programas e sites ajudam a identificar trechos copiados
Se, por um lado, as ferramentas online facilitam a cópia, por outro podem ajudar a desmascarar os casos. Hoje os professores têm à disposição programas e sites especializados em identificar plágios, que fazem uma varredura em todo o trabalho. Para isso, existe até produção nacional, como o Agente de Busca de Similaridades, criado pelo professor Fernando Campos de Macedo, da Universidade Católica de Santos (UniSantos).

Mesmo sites de buscas podem ser aliados dos docentes, caso eles desconfiem de plágio. Para Vasconcelos, depende do "feeling" do professor. "Nos cursos de graduação, textos muito acima do nível médio da turma costumam justificar uma rápida investigação.
As estatísticas sobre plágio no Brasil praticamente não existem, até porque muitos casos são resolvidos administrativamente pelas instituições, analisa o vice-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil no Ceará (OAB-CE), Ricardo Bacelar. Ele é autor de um documento que orienta as universidades sobre a adoção de medidas como o uso de softwares para coibir a prática entre os alunos.

A recomendação foi chancelada pelo Conselho Federal da OAB, mas Bacelar ainda critica a falta de uma política contundente, o que deixa o Brasil atrás dos países desenvolvidos nessa questão. "Tem de haver um trabalho político e de conscientização. As universidades precisam criar rotinas internas para investigar os casos", opina.
O combate a esta prática não deve começar na vida acadêmica, mas sim no ensino básico, defende o advogado. Para Vasconcelos, trata-se de um problema ético. "O plágio precisa ser combatido com veemência, ou estaremos jogando uma sombra de desconfiança sobre boa parte da produção científica de nosso tempo", afirma.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A nova era da ciência

Reproduzo, a seguir, um artigo de Thomaz Wood Jr., Professor da Fundação Getúlio Vargas e colunista da Revista Carta Capital, a propósito de um tema caro ao mundo acadêmico hoje: a necessidade de o mesmo 'internacionalizar-se', o imperativo de a universidade brasileira sair do provincianismo, que, infelizmente, predomina em determinados segmentos seus. Que os universitários e os pesquisadores que estão a iniciar a sua caminhada tenham isso em conta.

Recentemente, um colega estrangeiro solicitou a este escriba participação em uma investigação sobre padrões de cooperação internacional na ciência. Objetivo: entender por que acadêmicos latino-americanos buscam cooperar com norte-americanos e europeus mais do que com seus próprios vizinhos, na atividade de desenvolvimento e publicação de trabalhos científicos.

Não faltam hipóteses. Europa e América do Norte ainda concentram parte considerável da produção científica mundial. Os mais renomados institutos de pesquisa, as principais universidades e as revistas de maior impacto encontram-se em países dessas regiões. O clube prima pela meritocracia, porém, é frequentemente acusado de elitista. Ali e acolá, a porosidade vem aumentando. O centro vem atraindo contingentes crescentes de asiáticos e eslavos.
Enquanto isso, a periferia tropical mantém um sistema caro e ineficiente de pesquisa, algumas ilhas de excelência cercadas de mares estagnados pela indolência e pelo corporativismo. Sua insularidade é garantida por um sistema de autoavaliação que garante pequenas benesses mediante reduzidos esforços.
Matéria veiculada pela revista Nature, no fim de maio, trata do mesmo tema da cooperação internacional em pesquisa. Jonathan Adams, o autor, argumenta que a atividade de pesquisa, essencial para sustentar o avanço econômico e a qualidade de vida, progrediu em três eras: a individual, a institucional e a nacional. Agora, segundo o especialista, estamos iniciando a quarta era, caracterizada pela colaboração internacional entre grupos de elite. Nesta nova era, as instituições de pesquisa que não estabelecerem parcerias internacionais podem se tornar irrelevantes.
Adams conduziu uma pesquisa que incluiu cerca de 25 milhões de artigos científicos, publicados de 1981 a 2012. Foram analisados seis países desenvolvidos – Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda e Suíça – e cinco países em desenvolvimento – China, Índia, Coreia do Sul, Brasil e Polônia. Nos países desenvolvidos, a produção científica total cresceu, mas a parte dessa produção exclusivamente doméstica manteve-se estável. Portanto, o crescimento foi consequência de parcerias internacionais.
Nos países emergentes, ao contrário, o rápido crescimento registrado deveu-se essencialmente ao aumento de trabalhos gerados internamente. Em 1981, esses países publicavam menos do que 15 mil artigos científicos. Hoje publicam mais de 300 mil. Porém, aproximadamente, três quartos da produção científica da China, do Brasil, da Índia e da Coreia do Sul ainda são domésticos.
Adams também constatou que o impacto dos estudos assinados por autores de mais de um país supera aquele dos trabalhos exclusivamente domésticos. Além disso, essa diferença parece aumentar ao longo do tempo. O impacto, ou fator de impacto, indica quanto o trabalho de um pesquisador é citado por outros pesquisadores, ou seja, revela a importância do trabalho no campo de conhecimento. O autor chama a atenção para o caso inglês. No reino de Elizabeth II, as instituições com as maiores taxas de trabalhos colaborativos internacionais atingem maior impacto e concentram parcela substantiva das verbas para pesquisa.

O fenômeno pode se repetir globalmente, com a criação de duas classes de instituições de pesquisa: um grupo de elite produtor de ciência em um sistema de colaboração internacional, e um grupo periférico, que produz ciência com foco doméstico. A segregação viria somar-se a outra, já existente, entre grandes instituições de pesquisa, que atraem os melhores talentos e os maiores recursos, e instituições periféricas, menos capazes de aglutinar esses preciosos recursos.
Atentas às mudanças e tendências, muitas instituições em todo o mundo incentivam a construção de redes internacionais de cooperação. O caminho é árduo: compatibilizar interesses, agendas e egos exige doses maciças de tolerância e paciência. Adams cita como exemplo de mobilidade e cosmopolitismo científico a Holanda, que, segundo ele, atinge patamares invejáveis de excelência, apesar de recursos financeiros limitados. Miremos os Países Baixos!
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