segunda-feira, 1 de julho de 2013

A nova era da ciência

Reproduzo, a seguir, um artigo de Thomaz Wood Jr., Professor da Fundação Getúlio Vargas e colunista da Revista Carta Capital, a propósito de um tema caro ao mundo acadêmico hoje: a necessidade de o mesmo 'internacionalizar-se', o imperativo de a universidade brasileira sair do provincianismo, que, infelizmente, predomina em determinados segmentos seus. Que os universitários e os pesquisadores que estão a iniciar a sua caminhada tenham isso em conta.

Recentemente, um colega estrangeiro solicitou a este escriba participação em uma investigação sobre padrões de cooperação internacional na ciência. Objetivo: entender por que acadêmicos latino-americanos buscam cooperar com norte-americanos e europeus mais do que com seus próprios vizinhos, na atividade de desenvolvimento e publicação de trabalhos científicos.

Não faltam hipóteses. Europa e América do Norte ainda concentram parte considerável da produção científica mundial. Os mais renomados institutos de pesquisa, as principais universidades e as revistas de maior impacto encontram-se em países dessas regiões. O clube prima pela meritocracia, porém, é frequentemente acusado de elitista. Ali e acolá, a porosidade vem aumentando. O centro vem atraindo contingentes crescentes de asiáticos e eslavos.
Enquanto isso, a periferia tropical mantém um sistema caro e ineficiente de pesquisa, algumas ilhas de excelência cercadas de mares estagnados pela indolência e pelo corporativismo. Sua insularidade é garantida por um sistema de autoavaliação que garante pequenas benesses mediante reduzidos esforços.
Matéria veiculada pela revista Nature, no fim de maio, trata do mesmo tema da cooperação internacional em pesquisa. Jonathan Adams, o autor, argumenta que a atividade de pesquisa, essencial para sustentar o avanço econômico e a qualidade de vida, progrediu em três eras: a individual, a institucional e a nacional. Agora, segundo o especialista, estamos iniciando a quarta era, caracterizada pela colaboração internacional entre grupos de elite. Nesta nova era, as instituições de pesquisa que não estabelecerem parcerias internacionais podem se tornar irrelevantes.
Adams conduziu uma pesquisa que incluiu cerca de 25 milhões de artigos científicos, publicados de 1981 a 2012. Foram analisados seis países desenvolvidos – Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Holanda e Suíça – e cinco países em desenvolvimento – China, Índia, Coreia do Sul, Brasil e Polônia. Nos países desenvolvidos, a produção científica total cresceu, mas a parte dessa produção exclusivamente doméstica manteve-se estável. Portanto, o crescimento foi consequência de parcerias internacionais.
Nos países emergentes, ao contrário, o rápido crescimento registrado deveu-se essencialmente ao aumento de trabalhos gerados internamente. Em 1981, esses países publicavam menos do que 15 mil artigos científicos. Hoje publicam mais de 300 mil. Porém, aproximadamente, três quartos da produção científica da China, do Brasil, da Índia e da Coreia do Sul ainda são domésticos.
Adams também constatou que o impacto dos estudos assinados por autores de mais de um país supera aquele dos trabalhos exclusivamente domésticos. Além disso, essa diferença parece aumentar ao longo do tempo. O impacto, ou fator de impacto, indica quanto o trabalho de um pesquisador é citado por outros pesquisadores, ou seja, revela a importância do trabalho no campo de conhecimento. O autor chama a atenção para o caso inglês. No reino de Elizabeth II, as instituições com as maiores taxas de trabalhos colaborativos internacionais atingem maior impacto e concentram parcela substantiva das verbas para pesquisa.

O fenômeno pode se repetir globalmente, com a criação de duas classes de instituições de pesquisa: um grupo de elite produtor de ciência em um sistema de colaboração internacional, e um grupo periférico, que produz ciência com foco doméstico. A segregação viria somar-se a outra, já existente, entre grandes instituições de pesquisa, que atraem os melhores talentos e os maiores recursos, e instituições periféricas, menos capazes de aglutinar esses preciosos recursos.
Atentas às mudanças e tendências, muitas instituições em todo o mundo incentivam a construção de redes internacionais de cooperação. O caminho é árduo: compatibilizar interesses, agendas e egos exige doses maciças de tolerância e paciência. Adams cita como exemplo de mobilidade e cosmopolitismo científico a Holanda, que, segundo ele, atinge patamares invejáveis de excelência, apesar de recursos financeiros limitados. Miremos os Países Baixos!
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