quarta-feira, 18 de maio de 2016

O inverso do real: redes sociais, artimanhas políticas e manipulação





Realizar a história do tempo presente não é tarefa fácil. De certo modo, faz lembrar a ‘polêmica positivista’ em torno da psicanálise. Como se sabe, Karl Popper considerou a psicanálise uma metafísica especulativa que, em seu entendimento, mais se aproximava do atomismo anterior a Demócrito (ou quiçá das histórias do Olimpo reunidas por Homero) do que da natureza de uma ciência verificável. Outra é a perspectiva de Georges Politzer, para quem a psicanálise se apresenta como uma alternativa consistente a uma psicologia da terceira pessoa que perdeu o sentido do sujeito que se propunha estudar e que, por isso, substituiu o drama pessoal pelo drama impessoal, o drama onde o ator é um indivíduo concreto, onde ele é uma realidade, por um drama onde os figurantes são criaturas mitológicas. Mais contemporaneamente, Habermas considerou o estatuto espistemológico da psicanálise como um modelo tangível de uma esfera do conhecimento que recorre metodicamente à autorreflexão.
Contudo, apesar de Popper e dos positivistas, a psicanálise existe. Fazendo um paralelo com a história do tempo presente: apesar das dificuldades em sua abordagem, ela existe. E há até mesmo quem recorra a dispositivos psicanalíticos para tratar da sua escrita. A história do tempo presente tem de convier com situações peculiares: o envolvimento dos atores com os acontecimentos em marcha, com o calor do momento, com eventuais incompreensões de juízos de fato que a sua narrativa emita. Mas ela existe. É ilustrativo a esse respeito a afirmativa de Jean Lacouture: “Fazer história imediata é ser Georges-Jacques Danton sendo levado ao cadafalso, falando ao povo de sua relação com a revolução francesa e explicando o significado da sua morte.”
Ao fim e ao cabo, a abordagem dos acontecimentos do tempo presente requer um esforço acrescido, para não se cair em uma das principais armadilhas da ideologia, qual seja, enfocar de forma inversa, e muitas vezes perversa, partes da realidade, apresentando-as (as partes) como constituintes de uma versão verdade que não se sustenta em fatos, mas sim na falsa consciência.
Essa démarche descortina os desafios da análise dos acontecimentos destes agitados dias que correm no Brasil.
Tenhamos em conta alguns acontecimentos do pós-afastamento da presidente. Comecemos pelo Ministério da Educação. Foi, no mínimo, impactante a declaração do ministro Mendonça Filho anunciando apoio à cobrança de mensalidade nas universidades públicas. Continuador de uma longeva oligarquia política no agreste de Pernambuco, a posição do ministro está de acordo com as suas posições políticas. Mas chama a atenção pelo atraso e pela insensibilidade em relação aos novos contingentes de estudantes que passaram a ter acesso às universidades federais, com a expansão destas às cidades interioranas, e que, em boa parte dos casos, dependem de transportes de prefeituras para realizar os estudos, em virtude das dificuldades orçamentárias pessoais para arcar com o pagamento de transporte próprio (imagine ter que pagar mensalidade!). O ministro, contudo, segue dando provas do seu propósito, e assim resolveu colocar na Secretaria de Regulação da Educação Superior (SERES) um representante do ensino particular.
Não menos insensato, na mesma linha, posicionou-se o ministro da saúde, ao afirmar que o SUS - a saúde pública - deve ser revisto. Também não surpreende, afinal não só o novo ministro recebeu financiamento de plano de saúde privado, com o próprio presidente interino Temer prometeu ‘privatizar o máximo’.
A presença de corruptos no governo Temer, investigados e denunciados, segue com ares de normalidade, e a imprensa monopolizada e líderes de manifestações de há até pouco seguem como se não estivessem vendo nada. Pelo que parece, colocaram as panelas na cabeça para cobrir os olhos. Contudo, são incomodados pela imprensa estrangeira, que não cansa de divulgar a desfaçatez.
Como se chegou a um tal quadro? Os equívocos e ilícitos de petistas não são suficientes para explicar – até porque as ilicitudes não atingem a presidente Dilma. Para que se esboce uma análise que capte uma explicação credível, realçando a história presente brasileira sem o embuste da ‘contaminação ideológica’, ter-se-á que considerar a monumental máquina de guerra política e manipulação que foi montada há já algum, tendo como forte canal de difusão as redes sociais. Em boa parte, os comandantes desta guerra sequer no Brasil residem, como é o caso de Olavo de Carvalho. Vivem em outros países e recebem apoio financeiro para a referida empreitada. Diariamente, nas redes sociais, são despejadas toneladas e toneladas de postagens, tendo como público-alvo segmentos que, num semestre, não leem sequer um livro completo e têm como fonte de informação básica e de formação de opinião apenas o material fast food das redes sociais, advindo, por vezes, de fontes suspeitas e de perfis falsos, mas que mesmo assim é reproduzido em escala ampliada mediante os compartilhamentos. Isso (em conjunto com outros fatores) trouxe-nos ao momento que vivemos atualmente no Brasil, de quartelada parlamentar, de intolerância, de ódio, de comportamentos fascistas, de pedidos de intervenção militar, de homenagem a um torturador na Câmara dos Deputados, de apologia ao estupro por um parlamentar, de eliminação de conquistas pelo novo governo, etc.
Quem integra a mencionada máquina de guerra política e manipulação, e o que acontecerá agora que a presidente foi afastada? O Blog da Cidadania fez uma matéria a respeito; encerro esta postagem reproduzindo o básico dela aí abaixo. Vale a leitura.

   
Após o golpe, máquina golpista vai sendo desativada
(http://www.blogdacidadania.com.br/) 

Quem pensa que a concretização do golpe afetará apenas governistas, está enganado. A máquina edificada ao longo dos últimos dois anos para tirar o PT do poder é estupidamente cara e já começa a perder o sentido.
As lendas construídas pela direita golpista e pela mídia tucana a respeito das supostas benesses que o governo distribuía a pessoas também vão ser desmascaradas.
Figuras do golpe
Kim Cataguiri, um dos pistoleiros contratados pela franquia golpista para pregar o golpe no âmbito de um tal “Movimento Brasil Livre”
Há, também, um tal de Marcelo Reis, de um grupo chamado “Revoltados On Line”. O Sujeito fez fortuna vendendo um kit golpista para os tarados que saíram por aí cometendo atentados fascistas.
O terceiro grupo que explorou fartamente o golpe e ganhou maior notoriedade é o “Vem Pra Rua”, conduzido por um tal Marcelo Chequer, alguém que jamais chegaria ao nível de protagonismo que chegou se não fosse a multimilionária franquia do golpe.
Até hoje não se sabe oficialmente de onde vieram as dezenas e dezenas de milhões de reais que financiaram os golpistas. Essa é uma história que ainda será contada.
Mas a resposta será conhecida – ao menos extraoficialmente – a partir do momento em que o butim começar a ser distribuído de forma menos envergonhada –, o que ocorrerá dentro de alguns meses.
Além dos vários grupos que exploraram o golpismo – há outros menos notórios, além dos supracitados –, ao longo da primeira e da segunda décadas do século XXI, formou-se, também, um exército de comentaristas de grandes meios de comunicação cujo único propósito tem sido atacar os governos do PT e suas figuras de proa.
Dos pistoleiros antipetistas incrustados na grande mídia há nomes que surgiram na era petista – a dita “molecadinha do golpe” – e outros que abandonaram os falsos escrúpulos e aderiram, os “golpistas veteranos”.
Entre os veteranos, há uma figura singular que, apesar de ter sido talvez quem mais ganhou com o arrivismo golpista e de ser um jornalista veterano, só alcançou alguma notoriedade ao se engajar na luta golpista que demorou 13 anos para ser vencida pelos autores.
Reinaldo Azevedo é o maior exemplo de arrivismo bem-sucedido. No fim do governo FHC, ele nada havia conseguido. Era um jornalista apagado que trabalhava em uma publicação malsucedida financiada pelo governo que terminava.
A revista Primeira Leitura era uma espécie de prima pobre da Veja. Foi fundada pelo ex-ministro de FHC Luiz Carlos Mendonça de Barros. Reinaldo Azevedo era o gerentinho de Mendonça de Barros. Entre suas atribuições estava a de liberar comentários de leitores no site da revista.
Como a Primeira Leitura dependia de dinheiro estatal, fechou logo após o PSDB deixar o poder. Espertalhão, Mendonça de Barros vendeu a revista para Azevedo e um outro tonto que trabalhava lá. Como é óbvio, ambos deram com os burros n’água.
Porém, os contatos de Azevedo com o PSDB lhe renderam espaço no então insipiente site da Veja – há cerca de 10 ou 11 anos. O novo modelo conhecido como “blog” teve em Azevedo um experimento que, assim como os blogs de esquerda, deu certo.
O “blogueiro” Reinaldo Azevedo fez sucesso.
Seja como for, esses pistoleiros antipetistas agora perdem importância. Ainda se aferram ao criticismo ao PT, mas o golpe que foi dado contra o partido torna obsoleta essa legião de agressores.
Há um excesso de pistoleiros da mídia ou grupos picaretas mobilizadores de incautos. Até há pouco, criar uma página no Facebook e começar a falar mal do PT rendia dinheiro e muita audiência. Era só investir um pouquinho com a publicidade daquela rede social e logo o sujeito estava ganhando rios de dinheiro vendendo bugigangas palpáveis ou ideológicas pregando o golpe. Mas não há mais lugar para tantos pilantras no novo cenário.
A partir de agora, a mídia não precisa mais massacrar o PT. Aquela avalanche de pistoleiros malhando só o PT vai acabar pegando mal – menos na Veja, cuja única finalidade, hoje, é falar mal do PT e pelo menos por um tempo vai continuar na mesma toada.
Já os movimentos que “lutavam” pelo golpe, perderam a razão de existir. Só se quiserem criar um movimento cuja proposta seja queimar petistas numa fogueira…
O fato é que o aparato descomunal forjado contra o PT perdeu a razão de existir. Nem como oposição o PT poderá fazer muita coisa. Juntando PT, PC do B e PSOL, a esquerda não tem nem um terço do Congresso – tem cerca de ¼
Com esse contingente não dá para fazer oposição. Dá só para gritar. Temer tem a maior base aliada da história e a mídia, o Judiciário e o Ministério Público. Como se não bastasse, colocou o partido queridinho da mídia no governo, o PSDB. E mais: colocou Serra no seu governo, o fetiche político da mídia encarnado.
Para que manter uma estrutura tão cara para atacar o PT? Esses movimentos golpistas vão perder o financiamento e haverá um excesso de comentaristas antipetistas na mídia. Não haverá lugar para todos.
Quanto tempo irá demorar para as pessoas começarem a dizer: “Bom, mas o PT saiu. Vocês vão continuar colocando a culpa no partido, em Lula e Dilma, até quando? Cadê a solução que vocês iam dar?”
Claro que os golpistas irão distribuir cargos e benesses para os que considerarem que foram mais eficientes, mas serão apenas alguns poucos eleitos entre a imensa massa golpista que se formou para derrubar o governo democraticamente eleito de Dilma Rousseff.
Haverá muita briga na divisão desse butim.


Nenhum comentário:

Postar um comentário