quinta-feira, 28 de maio de 2015

O que a falta de coragem faz: Frente de Esquerda para quê?

Desde que o Governo Dilma, ainda no primeiro mandato, foi levado às cordas do ringue, começaram a emergir manifestações em favor da constituição de uma 'Frente de Esquerda'. Com exceção da franqueza de propósito de alguns partidários dessa ideia, o que sobra (considerando os moldes em que a Frente é proposta) não passará de pilheria. Entre os que estão inclusos na franqueza de propósito da ideia, está Tarso Genro, homem que vem de longe com a sua criativa capacidade de formulação e de intervenção política - do tempo em que, sob risco de morte, para dizer o que se pensava era-se obrigado a usar outros nomes. Dele, pode-se discordar, mas não se pode negar a sua sinceridade em discutir teses, e fundamentando-as. Fora isso, sobram os "zumbis político-burocráticos", amparados sob as asas do lulismo e saudosistas dos tempos do ex-Presidente. Este, por seu turno, estimula os "zumbis", e não só. Pelos escaninhos, mas também de forma pública, "chumba" a Presidente  e pisca ao PMDB, sobretudo à secção do Rio de Janeiro. Mas também, de quando em quando, vai ao repasto com Renan Calheiros. Pensa no seu regresso à Presidência em 2018, prepara o caminho e quer se descolar do desgaste da Presidente (convenhamos, este não é o melhor exemplo de solidariedade política).  Enquanto isso,  os "zumbis" estão por aí, em todo lado, sempre disponíveis a repetir frases vazias em nome da "autonomia", da "liberdade", da "transformação", da "libertação", etc. Macunaíma em cada tempo. A propósito, é exemplificativo que Cândido Vacarezza (crítico da Presidente e voz ativa do lulismo), não tendo conseguido um novo mandato de deputado federal, tenha criado uma consultoria.... empresarial. Uma transição e tanto: de um  partido denominado de trabalhadores para assessorar empresários nos meandros do capitalismo nacional, sobretudo, por suposto, nos negócios com o Estado. Assemelha-se, assim, aos atores universitários que fazem dos eventos um mercado e dos projetos empreendimentos monetários. Pois bem, dá para levar a sério a ideia de uma 'Frente de Esquerda' com protagonistas deste quilate? Haja pachorra! No máximo, será uma "Frente das Sombras". 'Não é falta de direção que acomete a ala progressista da sociedade brasileira. É falta de coragem'. Entre oportunismo, vigarice, incompetência e frouxidão, chegamos ao imponderável. O problema torna-se mais grave ainda quando se pretende reeditar pactos com quem está implicado nessa situação e com o mesmo modus operandi que a gerou. Corroborando isso, a artigo a seguir de Vladimir Safalte é paradigmático a esse respeito - o seu título original é 'Frente de Esquerda para quê?'

Resultado de imagem para Frente de esquerda


Por Vladimir Safatle (Professor Titular da Faculdade de Filosofia – USP)

Se fosse o caso de fornecer uma analogia histórica para a situação atual do Brasil, talvez o melhor a fazer seria voltar os olhos para a Argentina dos anos 1970. De certa forma, não há nada mais parecido com o atual governo Dilma do que a Argentina de Isabelita Perón. Dilma transformou-se em uma Isabelita Perón do Cerrado.
Uma presidenta refém de seus operadores políticos, impotente diante da dissolução do acordo peronista entre setores da esquerda e setores conservadores em torno da figura de seu finado marido, Juan Domingo Perón, Isabelita foi a figura mais bem-acabada do esgotamento do ciclo de acordos, avanços e paralisias que marcou o peronismo. Ao se deixar guiar pelos setores mais conservadores do peronismo, Isabelita parecia uma morta-viva, a encarnação de um tempo que já acabara, mas ninguém sabia como terminar.
Agora, imaginem que estamos na Argentina dos anos 1970 e Perón não morreu. Como um fantasma, ele volta para tentar organizar a oposição contra o governo que ele mesmo elegeu, federando as vozes dos descontentes com o governo criado por ele mesmo e para o qual indicou vários ministros. Não, algo dessa natureza não poderia acontecer na Argentina. Algo assim só pode ocorrer no Brasil. Pois não é isso o que estamos vendo com um Lula reconvertido a arauto da “frente de esquerda” juntamente com o resto do que ainda tem capacidade de formulação no PT? O mesmo PT que, em um dia, vai à televisão para afirmar seu compromisso com a defesa dos direitos trabalhistas para, no dia seguinte (vejam, literalmente no dia seguinte) votar em peso a favor de um pacote de medidas que visam “ajustar” a economia não exatamente taxando lucros bancários exorbitantes, mas diminuindo os mesmos direitos trabalhistas que defendera 24 horas antes.
Nesse contexto, o que pode ser uma frente de esquerda a não ser a última capitulação da esquerda brasileira à sua própria impotência? Ou, antes, o reconhecimento tácito de que a esquerda brasileira só pode oferecer o espetáculo deprimente de discursos esquizofrênicos divididos entre o reino das boas intenções e a dureza das decisões no “mundo real”? Acreditar que aqueles que nos levaram ao impasse serão os mesmos capazes de nos tirar de tal situação é simplesmente demonstrar como a esquerda brasileira vive de fixações em um passado que nunca se realizou, que nunca foi efetivamente presente. É mostrar ao País que a esquerda não tem mais nada a oferecer de realmente novo e diferente do que vimos.
Se a esquerda quiser ter alguma razão de existência (pois é disso que se trata), ela deve começar por fazer uma rejeição clara do modelo que foi aplicado no Brasil na última década, seja no campo político, seja no campo econômico. O modelo lulista não chegou a seu esgotamento por questões exteriores, pressão da mídia ou inabilidades de negociação da senhora Dilma. Ele se esgotou por suas contradições internas e quem o criou não é capaz de criar nada de distinto do que foi feito.
Insistiria ainda em como é falsa a ideia de que a esquerda brasileira está de joelhos sem saber o que fazer. Há anos, vários setores progressistas têm alertado para o impasse que agora vivemos. Há anos, várias pautas foram colocadas em circulação, entre elas a revolução tributária que taxe a renda e libere a taxação sobre o consumo, a democracia direta com poder de deliberação, veto e gestão, o combate à especulação imobiliária através de leis que limitem a propriedade de imóveis, a reforma agrária, a diminuição da jornada de trabalho, a autogestão de fábricas e locais de trabalho, o salário máximo, o casamento igualitário, as leis radicais de defesa da ecologia, o fim da política de encarceramento sistemático, a exposição da vida financeira de todos os que ocupam cargos de primeiro e segundo escalão, a punição exemplar da corrupção, o fim do monopólio da representação política para partidos. Não é a falta de direção que acomete a esquerda brasileira. É a falta de coragem, o que é muito mais grave. 

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Fonte: http://www.cartacapital.com.br/revista/851/frente-de-esquerda-para-que-4260.html

'Aprendizes de feiticeiro'

Certa feita, no Oriente Médio, escutei de um cidadão do Chipre que acadêmicos e governos ocidentais, além de não entenderem nada dessa região, ainda brincam de 'aprendizes de feiticeiro'. Na época (2001), vivia-se mais um momento de intensificação do conflito entre israelenses e palestinos. Todas às vezes que vejo algumas análises do Programa Painel, da Globonews, a respeito da região, lembro do que disse aquele cidadão chipriota. Hoje (28/05), em artigo publicado na Folha de São Paulo, o Prof. Salem H. Nasser (FGV), de ascendência árabe, foi direto ao ponto e mostrou como é vasta a ignorância e a hipocrisia sobre o Oriente Médio. Sugestivamente o título do seu texto é 'Os aprendizes de feiticeiro'. Que brincam com fogo. O foco é o Estado Islâmico. Pode ser lido aí abaixo.  


Por Salem H. Nasser 

O Oriente Médio é um eterno desafio à nossa capacidade de compreensão. Talvez nunca o tenha sido como agora. As conflagrações são tantas, os atores, os interesses, as chaves de leitura, que mentirá quem disser que pode tudo explicar. A não ser que, por querer ou sem querer, minta na explicação.
Um dos elementos incontornáveis desse complexo emaranhado é o chamado Estado Islâmico (EI). Esse grupo, e com ele os seus vários similares, aliados ou concorrentes, aparece como espectro a assombrar desde a Nigéria até o Iraque, passando pela Líbia e o restante do norte da África, pelo Levante Árabe e pelo Golfo, incluído aí o Iêmen, hoje sob ataque saudita.
Em todos os lugares se multiplicam os relatos de sua extraordinária violência e causam impressão os seus números, a sua força e a sua capacidade de ação. Esse perigo gigantesco, que não pode ter sido fruto de geração instantânea, parece ter surgido no nosso radar de repente e apenas muito recentemente.
É verdade que antes disso, sob o nome genérico de Al Qaeda, e no contexto da chamada guerra contra o terror, muito se falava dos portadores da mesma visão torta do islã e da violência por eles perpetrada.
Mas aquilo que era uma rede difusa de células voltadas a ações pontuais transformou-se em legiões de homens bem treinados, bem armados, com acesso a abundantes recursos materiais. E, por alguma razão, aqui no Ocidente se decidiu, por um bom tempo, que não era o caso de prestar muita atenção.
A metamorfose se deu originalmente no Iraque e na Síria e o seu momento mais relevante foi a entrada do EI e outros grupos similares, como a Jabhat Al Nusra, no combate ao governo sírio.
Essa questão temporal serve de pista para explicar, ao menos em parte, tanto o nosso silêncio quanto o fenomenal crescimento em força desses exércitos de ocasião.
Calou-se sobre aquilo que se estava alimentando, direta ou indiretamente, na esperança de mudar a balança de poder na região, derrubando o regime sírio e enfraquecendo os seus aliados mais evidentes, o Irã e o Hizbollah libanês.
O Estado Islâmico e seus similares aparecem assim como instrumentos, tão perigosos para quem os manuseia quanto para suas vítimas imediatas, no jogo que opõe esses atores a que me referi às potências ocidentais e seus clientes regionais, incluídos aí os países do Golfo e também Israel.
Mas, mesmo enquanto ainda não escapam totalmente ao controle de quem os apoia, esses grupos são como aqueles parceiros com quem se tem vergonha de aparecer em público. Por isso ninguém confessa as ligações perigosas que mantém.
Somos, portanto, convidados a ultrapassar os discursos e observar o comportamento dos vários atores.
Mesmo após o avanço do Estado Islâmico sobre o Curdistão iraquiano e a difusão de imagens de vítimas ocidentais executadas, ou seja, depois de violada a linha do que era permitido e a opinião pública ocidental ter sido de tal modo provocada, a resposta veio tímida.
Não há qualquer avanço relevante contra o EI no Iraque ou na Síria que possa ser posto na conta das ações da coalizão montada pelos Estados Unidos, ações que de resto aparecem ao observador como meramente cosméticas.
Tampouco há qualquer ação visível por parte dos parceiros e clientes dos Estados Unidos voltada a efetivamente estancar as fontes de financiamento, fechar os campos de treinamento, impedir a chegada dos combatentes etc.
Do mesmo modo, a mesma Arábia Saudita que hoje bombardeia o Iêmen, em violação flagrante do direito internacional, sob o pretexto de proteger a legalidade institucional do avanço dos houtis, não pensou ser necessária qualquer ação contra a Al Qaeda e seus filhotes naquele país.
Os aprendizes de feiticeiros continuam a brincar com fogo.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/220696-os-aprendizes-de-feiticeiro.shtml

Sunshine on my shoulders


Para relembrar John Denver ou 'os anos que não terminaram'. 


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Beijo, lugar e duração


Desta eu tomei conhecimento através do jornalista Vandeck Santiago. No Aalborg Airport, no norte da Dinamarca, há, digamos, uma 'preocupação adicional' com o amor: no estacionamento, está reservado um espaço para, vamos lá, beijos "mais íntimos" na despedida do/a amado/a. Mas com tempo definido: não mais que três minutos. Literalmente: pare o carro, beije e diga tchau. 






Elegância na ação e no pensamento

Realçava Paul Valéry que a arte da elegância no pensamento não busca palco, não quer aparecer a todo custo, mas, mesmo assim, se distingue pelo que é, ao passo que Balzac não deixava por menos: "a liberdade de escolha é um direito de todos, mas só alguns a exercem com elegância." Ou seja, no pensamento e no comportamento, na ação. Pois bem, Carlos Fuentes, um dos grandes da literatura de nuestra latinoamérica, foi uma dessas pessoas. Neste mês de maio, vivemos os três anos da sua transvivenciação - razão mais do que suficiente para voltarmos ao texto do também escritor Eric Nepomuceno sobre Fuentes, sugestivamente intitulado 'Elegante na Ação e no Pensamento'. Aí abaixo. 
Carlos Fuentes: livros e estética do pensamento 

Por Eric Nepomuceno

Será preciso – é parte do ritual que se presta a quem se vai – recordar os livros todos, e louvar a grandeza do ofício, e mencionar os prêmios e traduções e honrarias, e recolher elogios entre os sobreviventes. Sim, será preciso cumprir o ritual. Convém saber, para evitar enganos, que no caso de Carlos Fuentes os elogios, mesmo os insinceros, serão justos, mais que justos. Foi um autor de uma obra de imensa importância. Alguns de seus livros – penso em A Região Mais Transparente, em A Morte de Artemio Cruz, em Gringo Viejo, em Terra Nostra – estão entre os que de mais valor foram escritos ao longo das últimas cinco ou seis décadas na América Latina.
Será preciso, também, mencionar sua trajetória de cidadão comprometido com tudo que disse e diz respeito ao seu tempo, à sua terra, a esta América nossa. Mencionar a inteireza com que se manifestou sobre a realidade latino-americana, sobre o peso das ambições do mundo neste nosso continente de contradições e esperanças rotas.
Será preciso, enfim, dizer que mesmo quem discordou dele em tudo ou quase tudo soube, quase sempre, reconhecer e respeitar sua palavra e sua integridade. Discordamos um sem fim de vezes, sem jamais deixar que isso roçasse o afeto, a lealdade, a solidariedade.
Será preciso dizer isso tudo e muito mais. Foi-se embora mais um dos poucos grandes de verdade, não apenas da literatura das Américas, mas dos homens dispostos a dar combate sempre que julgaram ser isso necessário.

A maior brutalidade: enterrar os filhos
De minha parte, digo tudo isso e algo mais. A memória que trago de Carlos Fuentes pouco ou nada mudou desde nosso primeiro encontro, já lá se vão uns bons 20 anos. Carlos Fuentes foi das pessoas mais elegantes que conheci. E digo elegante no sentido mais amplo da palavra – elegante na conduta, no pensamento e na ação. Um homem refinado, amigo dos amigos, capaz de alternar o humor rápido e leve com a indignação em brasa quando se tratava das mazelas vividas pelo México, pela América Latina, pelo ser humano neste mundo enlouquecido dos tempos que nos tocaram viver.
Sua imagem de viajante incansável corresponde à mais pura verdade. Mas muito além e muito mais profundo que um lado supostamente mundano, o que havia nessa peregrinação toda era a aguda curiosidade pelo que é vivido tempos afora, mapas afora. Fuentes era um inquieto, um indócil, contido a muito custo nas aparências de sua elegância. Porque na alma, ninguém jamais conteve – nem ele mesmo – essa inquietação, essa indocilidade. Podia ser frio e racional em suas análises. Jamais, porém, perdeu a capacidade de se indignar.
Passou pela maior brutalidade reservada a um ser humano: enterrar os filhos. Em 1999, perdeu o artista plástico Carlos Rafael aos 25 anos. Seis anos depois, perdeu Natasha aos 29. E continuou em frente, desafiando e enfrentando os tempos. “Escrevo com eles ao meu lado”, dizia. O que era uma forma de dizer: escrevo para continuar vivo, continuar lembrando, continuar sendo.

Se fosse num jogo limpo, ele teria vencido
Lembro dele dizendo que a natureza não basta a si mesma, que precisa de outra realidade, precisa da imaginação.
Lembro dele dizendo que é preciso aceitar, na literatura, a continuação do que veio antes. Que não há nada original no mundo. Que o que existe é uma meia dúzia de grandes temas, e que muito mais importante do que contar é como contar. Que o escritor luta para ser dono do tempo – não do tempo do escritor, mas do tempo da escrita.
Lembro dele dizendo, quando Carlos Rafael morreu, que jamais aceitaria aquela perda, mas tampouco se deixaria sufocar pela melancolia. Que era preciso seguir em frente para justificar e honrar a memória do filho.
Foi o que ele, ao lado de Sílvia, fez até o fim. Há poucos dias andou por Buenos Aires. Anunciou novos projetos, falou do livro que havia começado a escrever. Falava do futuro, porque foi nisso – o futuro – que ele acreditou até o fim.
A morte chegou de surpresa, na casa mexicana que foi seu porto mais seguro. Porque se não fosse assim – de surpresa, à traição –, a morte não teria levado Carlos de nós. Se fosse num jogo limpo e aberto, cara a cara, ele teria vencido de novo. E ficado.
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Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,elegante-na-acao-e-no-pensamento-imp-,873505

Rise of Day - Before Everything Changes

Banda húngara, claramente de vanguarda, uma espécie de fusão de 'post-rock' (note-se, 'post') e metal alternativo, Rise of Day é algo para se ouvir e ouvir. Tranquilidade e serenidade musicais. Isso pode ser conferido aí abaixo, com 'Before Everything Changes', do Álbum Just in Time - Story About a Man Who Went to Death. 


Life and road


Nick Cave and Warren Ellis - The Road


terça-feira, 26 de maio de 2015

O adeus de John Nash ou cinco pontos de uma mente brilhante

Partiu, de forma trágica (acidente automobilístico), John Nash, cientista inspirador do filme 'Uma Mente Brilhante'. Travou muitas lutas, vendo-se por vezes perante a vertigem de um  sofrimento atroz, prologando e desesperado. Mas conseguiu a superação e se refez. Transvivenciou-se, contudo, numa cena banal: o motorista do táxi em que ele estava, com a esposa Alicia, perdeu o controle do automóvel e bateu em uma mureta. Shati, shanti, shanti. A Revista Época elencou cinco ponto que ilustram Nash como uma mente brilhante. Reproduzidos a seguir. 

John Nash e sua mulher, Alicia, chegam para a cerimônia de entrega do Oscar, em 2002 (Foto: Laura Rauch/Arquivo/AP)
John Nash e a sua companheira Alicia

1. John Nash é até agora a única pessoa a ganhar um Nobel e um Abel (um "Nobel da matemática").
O matemático John Nash estava em Oslo na semana passada justamente para receber das mãos do rei da Noruega, Harald V, o Abel, prêmio de 6 milhões de NOK (cerca de US$ 750 mil), que dividiu com Louis Nirenberg. O acidente que matou Nash e sua mulher, Alicia, aconteceu no sábado (23) quando os dois voltavam de táxi do aeroporto para casa.
John Nash ganhou o Abel por suas contribuições em matemática pura, principalmente em geometria e equações diferenciais parciais. Os matemáticos afirmam que seu trabalho na área é mais espetacular do que o que ele fez na Teoria dos Jogos, que lhe rendeu reconhecimento internacional e o Nobel de Economia em 1994 (não existe Nobel de Matemática). Sua tese de doutorado, de 1950, com 27 páginas é considerada um dos textos fundamentais da Teoria dos Jogos. É possível ler no site de Princeton o artigo: Non-cooperative games (Jogos não-cooperativos). Nele, está o conceito conhecido como Equilíbrio de Nash.

2. John Nash casou, divorciou e casou novamente com a mesma mulher.
John e a física Alicia Nash se casaram em 1957. Dois anos depois, ele foi internado pela primeira vez, sofrendo com paranoias, mirabolantes histórias de perseguição. Eram sintomas daesquizofrenia. Alicia estava grávida do primeiro filho do casal (ele já tivera um filho antes, em 1953, de um relacionamento com uma enfermeira). Em 1963, divorciaram-se, mas ela continuou o ajudando. Em 1970, mesmo separados, Alicia o aceitou em sua casa, para cuidar dele. Depois que Nash conseguiu controlar a doença, casaram-se novamente em 2001.

3. John Nash afirmava que controlou a esquizofrenia simplesmente decidindo voltar à racionalidade.
Quando ganhou o Nobel de Economia, em 1994, John Nash estava sem publicar artigos científicos desde 1958, contou sua biógrafa,Sylvia Nasar, em artigo no New York Times, na época do anúncio do prêmio. Seus problemas mentais o haviam impedido de exercer cargos acadêmicos desde 1959, quando deixou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês, onde ingressara em 1951). Nash chegou a se mudar para a Europa, afirmando que era perseguido. Em 1960, retornou para Princeton. Foiinternado diversas vezes por conta da esquizofrenia. Nos anos 1970, foi deixando de tomar medicamentos e descreveu assim, em 1996, para o amigo Harold W. Kuhn, professor emérito de matemática em Princenton, sua "cura": "Me livrei do pensamento irracional, por fim, sem remédios, que não as mudanças hormonais do envelhecimento".
No texto biográfico que escreveu para o Nobel, Nash disse que evitaria descrever detalhes pessoais do longo período em que lutou contra a esquizofrenia. Sobre seu retorno à racionalidade escreveu: "E aconteceu que eu fiquei internado por tempo o suficiente para, finalmente, poder renunciar às minhas teses delirantes e voltar a pensar em mim como uma pessoa nas circunstâncias mais convencionais e retornar à pesquisa matemática".

4. Ao ganhar o Nobel, aos 66 anos, John Nash afirmou que continuava a buscar grandes realizações.
John Nash escreveu, em 1994, que "estatisticamente seria improvável que um matemático ou cientista, aos 66 anos, pudesse, por meio de continuados esforços em pesquisa, adicionar muito àquilo que já alcançara academicamente". O matemático disse, entretanto, que os 25 anos em que ficou atormentado por delírios tornavam seu caso atípico. "Por isso, espero ser capaz de alcançar algo de valor por meio de meus estudos atuais ou com qualquer nova ideia que me surja no futuro."

5. John Nash era um gênio.

Uma das cartas de recomendação para ser aceito no doutorado da Universidade de Princeton ("casa" de grandes nomes da ciência, como o físico Albert Einstein em seus 22 últimos anos de vida) tinha apenas uma frase: "Este homem é um gênio".
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Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/05/john-nash-matematico-que-inspirou-filme-morre-em-acidente-nos-eua.html

Sobre a manipulação das pessoas

Sabe aquelas pessoas que atuam nos bastidores no sentido de influenciar outras para que elas defendam os seus interesses? E aquelas que, sob uma falsa modéstia, têm uma necessidade permanente de serem o centro das atenções, para alimentar a sua vaidade? E aquelas outras que se aproveitam de quem é instável, inseguro ou passivo, para exercer controle? As universidades estão cheias destas pessoas. Por isso, em boa hora, vale a leitura do Petit traité de manipulation, de Robert-Vincent Joule e Jean-Léon Beauvois, que foi vertido para a língua de Camões sob o sugestivo título de ‘Como Manipular Pessoas’ (Editora Novo Conceito). A seguir, alguns extratos, capítulo a capítulo, da obra. 





Por Dêner Martins 

Capítulo I – Armadilhas da decisão 

Esse capítulo começa com a introdução do conceito de submissão livremente consentida. Essa situação ocorre quando fica difícil a uma pessoa recusar um pedido em uma situação social formal. Há uma tendência observada em tomar iniciativa por uma ação não desejada simplesmente por ter assumido um compromisso anterior. Esse comportamento é chamado de efeito de congelamento, e seria a aderência da pessoa a uma decisão tomada anteriormente, condicionando assim seu comportamento futuro, mesmo não sendo essa a decisão mais racional. Essa técnica é utilizada para trabalho de grupo, pois é mais eficaz na persuasão do que uma ação executada sobre um indivíduo, pois as pessoas são levadas a pensar e agir conforme a decisão que o grupo toma. 
Quando o indivíduo opta pela linha de ação em que já havia investido anteriormente (dinheiro, tempo), e não pela mais vantajosa ou promissora, chamamos essa situação de a despesa irreversível e a armadilha da decisão não racional. É com esse tipo de armadilha, que implica na escalada do comprometimento, que as casas de jogo conseguem extrair todo o dinheiro do jogador compulsivo, afinal de contas ele está “quase” ganhando o jogo, por que parar? Os autores mostram que antes de entrar na armadilha, o indivíduo deve estabelecer limites a não serem ultrapassados para interromper o ciclo vicioso. 

Capítulo II – O chamariz 

A técnica de manipulação denominada de chamariz basea-se na persistência do processo decisório. Uma vantagem inicial é usada como isca, a qual deixa de existir no final da negociação, deixando o indivíduo constrangido em recuar e desistir do negócio. É o efeito da perseverança na atividade decisória. 

Nem sempre o aplicador da técnica tem consciência da manipulação. Muitas vezes isso não passa de uma técnica simples de venda para fazer o freguês entrar na loja. Deve-se enfatizar ao cliente a “liberdade de escolha” para que ele se sinta mais confortável, mas sem perder o vínculo com a primeira decisão (comprar a “oferta” da vitrine). 

Capítulo III – Um pouco de teoria 

Os autores mostram em inúmeros experimentos que a liberdade de escolha influi no efeito da perseverança de uma decisão. Quando havia liberdade de escolha ocorre o efeito da perseverança. E quando havia uma decisão forçada por pressão do experimentador não se verificava os efeitos da perseverança. Isso se deve ao que os autores denominaram de “sentimento de liberdade”. O comprometimento do indivíduo dá-se pelos atos, não pelos seus pensamentos ou sentimentos, visto que estes são internos a nós. Esse comprometimento pode variar em graus, do zero ao comprometimento total. Quanto maior a recompensa maior a pressão sobre o indivíduo, portanto menor seu comprometimento com a decisão tomada, afinal de contas ele foi forçado a fazer isso. 

Os autores desenvolvem ainda o conceito de submissão livremente consentida para designar situações em que o indivíduo executa ações de acordo com suas convicções ou contrariamente a elas, mas que não as teria realizado caso estivesse sob pressão explícita. Eles estabelecem que o comprometimento do indivíduo aos atos praticados por ele está associado ao aspecto público do ato, seu caráter irrevogável, sua repetição, seu custo e à sensação de liberdade experimentada pelo indivíduo. O grau de comprometimento de um indivíduo ao ato praticado por ele é medido pela fusão desse ato com o próprio indivíduo, ou ainda, na medida em que o individuo é confundido com suas ações. Por isso a avaliação formal mais comum de uma pessoa na sociedade humana é baseada em seus atos. 
O estudo das conseqüências do comprometimento foram estudadas no nível cognitivo de acordo com suas atitudes relativas ao processo decisório, envolvendo os aspectos de conhecimento da causa, sua opinião sobre ela e suas crenças pessoais. Os estudos mostram que quanto maior o comprometimento de um indivíduo por uma decisão maior será sua resistência em alterar sua posição e vice-versa, o que abre caminho para mecanismos de manipulação como incentivos financeiros, por exemplo. 

Capítulo IV – O pé calçando a porta 

Neste capítulo é descrita uma técnica bastante utilizada por comerciantes conhecida como “O pé calçando a porta”. Essa técnica consiste em preparar o alvo da ação por meio de outras ações aparentemente inofensivas e desconexas e que exigem dele respostas voluntárias não comprometedoras. Assim que o alvo for “preparado” acontece a solicitação real e comprometedora com a qual o indivíduo não teria acedido tão facilmente não fosse o esquema de manipulação preparado anteriormente. O efeito de pé calçando a porta é mais uma prova cabal do efeito da perseverança sobre uma decisão anterior feita livremente. Muitas campanhas públicas começam com a decisão livre e espontânea como usar um adesivo no carro ou na roupa, passando logo em seguida para a militância no bairro para arrecadar fundos para uma causa nobre. 

A eficácia do procedimento preparatório gira em torno de sete a dez dias, após os quais a preparação perde o efeito de manipulação sobre a pessoa, segundo os pesquisadores. Os pedidos de preparação solicitados ao alvo devem ser próximos na linha de tempo. É importante ressaltar que essa preparação seja da mesma natureza que o comportamento esperado, para predispor o alvo mais favoravelmente aos objetivos esperados. A técnica de pé calçando a porta tem ainda uma variante com um pedido implícito, quando não há o pedido explícito do manipulador, mas sim, uma situação que dará ao indivíduo alvo a “oportunidade” de manifestar o comportamento esperado. 

Capítulo V – A porta no nariz 

Ao contrário da técnica do pé na porta, a porta no nariz utiliza uma recusa a uma solicitação desmedida para conseguir o comportamento esperado. A preparação pode ser um pedido para doar uma grande quantia de dinheiro, o que seria prontamente recusada, para logo então conseguir a participação voluntária em um evento beneficente qualquer. Essa estratégia é utilizada largamente por profissionais do comércio para conseguir seus objetivos na venda de bens e serviços. Os especialistas alegam que as duas solicitações devem ter semelhança entre si quanto a natureza mas diferentes quanto ao seu custo. 

Essa técnica embora de conhecimento do público leigo, como vendedores, não foi suficientemente explicada por modelos teóricos de comportamento da psicologia moderna. As duas técnicas explicadas anteriormente são consideradas equivalentes em termos de eficácia, devendo o experimentador usar a prática para definir qual delas utilizar em função do público alvo e do comportamento esperado. 

Capítulo VI – Da gafe à hipocrisia: outras técnicas de manipulação 

Aqui os autores descrevem várias técnicas avulsas que podem ser utilizadas de forma combinada para atingir os objetivos do experimentador ou manipulador. A manipulação da técnica do toque é muito utilizada por vendedores que “capturam” a vítima segurando seu braço e o liberam logo em seguida após o alvo (ou vítima) exibir o comportamento esperado. Essa técnica é conhecida por predispor o cliente mais favoravelmente às ações que se acontecem logo em seguida. O toque pode também sofrer variações de acordo com a cultura do povo estudado. No Brasil essa técnica tem mais chances de dar certo do que na Inglaterra, onde o contato entre as pessoas é mais formal. 

A técnica da gafe começa com uma pergunta mais pessoal sobre seu estado, para a qual, por motivos de convenção social, somos obrigados a responder “tudo bem”. Com isso, o percentual de aceitação para as ações subseqüentes aumentam sensivelmente. Ela diminui o percentual de recusa por parte do público alvo, estabelecendo um diálogo inicial positivo. Já a situação de medo e alívio já foi muito utilizada por interrogadores experientes em regimes políticos autoritários ou situações controladas em delegacias de polícia. A pessoa é submetida a uma situação de estresse para logo em seguida passar para outra de alívio. Isso faz com que haja um relaxamento por parte da pessoa alvo e a predispõe a colaborar mais com o experimentador ou interrogador. Essa técnica pode ser utilizada também para conseguir doações por parte do público alvo. 

Quando o experimentador qualifica uma pessoa positivamente pelas suas qualidades internas (asseio, organização etc) está utilizando a técnica da rotulagem, muito empregada na educação de crianças. Outra forma de conseguir uma resposta mais positiva é apertar a mão do indivíduo mas sem massacrá-la olhando-o diretamente nos olhos com voz tranqüilizadora. Essa técnica é conhecida por quebrar o gelo no contato inicial. 

As técnicas podem ser utilizadas de forma conjunta para construir um contexto psicológico mais favorável antes do pedido ser formulado ao indivíduo. Quando se trata de conseguir dinheiro na rua, a técnica de um pouco é melhor do que nada é muito eficaz. O pedinte pede uma quantia relativamente grande para a situação exposta, mas logo em seguida abaixa sua expectativa de recompensa, e assim, consegue algumas moedas de troco. 

Dobrando ou aumentando instantaneamente a oferta pode-se convencer alguém a comprar algo. Primeiro o experimentador ou vendedor oferece um bem por X. Logo após o indivíduo mostrar desinteresse pela coisa, o vendedor oportunamente se lembra que na verdade são dois por X, quebrando assim a resistência do cliente em colocar a mão no bolso. Essa uma técnica conhecida como tudo ou nada! 

Entrando no campo da psicologia social, os autores abordam ainda a técnica da hipocrisia, o qual também possui uma ação preparatória envolvendo um compromisso parte do indivíduo. Essa técnica consiste em fazer o indivíduo participar de uma ação voluntária aparentemente inofensiva, que, depois de ter sido interiorizada (pode-se até prever o tempo), começa a modificar as atitudes dele em relação ao assunto abordado. 

Capítulo VII – Rumo a manipulações cada vez mais complexas 

Neste capítulo são colocadas as diversas formas de manipulação de forma combinada para ganhar mais eficácia. Ainda no campo da psicologia social, os autores lembram que ocorre dissociações entre atitudes e opiniões de uma pessoa e seu comportamento em determinadas situações de manipulação. 

O uso da rotulagem interna como fase preparatória para a técnica do pé calçando a porta é muito utilizada por pesquisadores. Antes de solicitar o comportamento desejado, os experimentadores solicitam, ainda que de forma simulada, não real, uma participação em um experimento ou situação quando alguma qualidade interna dos participantes é exaltada. Logo a seguir vem outro pedido envolvendo comprometimento e evocando o mesmo tipo de atitude ou opinião do indivíduo, lembrando a ele que sempre há liberdade de escolha. 

O encadeamento de diversas técnicas é enfatizado pelos autores como forma de potencializar as chances de sucesso nos experimentos de manipulação. Essa perspectiva, alicerçada na psicologia do comprometimento, possibilitou inúmeros tipos de intervenção utilizados pelos cientistas do comportamento para desenvolvimento de práticas terapêuticas, mudanças comportamentais de grupos sociais inteiros entre outras. Essas mudanças comportamentais podem ter efeitos duradouros de vários meses, podendo fazer parte de programas sociais. 

Capítulo VIII – A manipulação no dia a dia – 1. Amigos e negociantes 

Esse capítulo começa com uma discussão sobre os aspectos éticos e morais no estudo dessas técnicas de manipulação e sua divulgação para o público em geral. Em geral há uma publicação tardia desses resultados em função da prudência. Os autores ressaltam que na disputa entre princípios éticos e as objetivos reais, como nos ramos do marketing e da política, os primeiros perderão para os segundos. Essas técnicas avançadas de manipulação para produção ou alteração de comportamentos são cada vez mais estudadas e utilizadas pelos profissionais do mercado em virtude de sua eficácia. 

O tipo de manipulação como a porta no nariz é pouco utilizado normalmente, talvez por ela não ter muita ressonância com nossas intuições iniciais. O chamariz, embora bastante natural, em algumas situações pode ser considerado ilegal como a propaganda enganosa. Já a técnica do pé calçando a porta é a mais largamente empregada, até mesmo por que não há restrições legais quanto ao seu uso. 

Capítulo IX - A manipulação no dia a dia – 2. Chefes e pedagogos 

Nas relações sociais existem casos em que as normas vigentes colocam os indivíduos em situações assimétricas de poder, como a de chefe e a de subordinado. Assim, não haveria necessidade de um chefe lançar mão de técnicas de manipulação, pois a lei lhe confere o poder necessário para exigir do subordinado a ação ou comportamento requerido. Mas nem sempre o princípio da autoridade inconteste é utilizado, pois isso acarretaria na criação de um ambiente sufocante e insuportável pelos subordinados. 

Poucas organizações, como as forças armadas ou a máfia, aceitam o exercício do poder como valor supremo e método natural e inconteste para conseguir uma ação ou mudança de comportamento de um membro. Com o desenvolvimento econômico e a globalização a tendência dos métodos de gestão modernos é enfatizar cada vez mais o sentimento de liberdade e responsabilidade de cada indivíduo pelo sucesso da organização no mercado. A opção de auto-gestão como as decisões em grupo têm que levar em consideração duas dimensões, o peso social interno das decisões e o seu peso na eficiência organizacional. Deve-se levar em conta que, quanto maior for a liberdade de escolha no processo decisório, maior será o grau de comprometimento com ela. 

Muitas vezes o pretenso ambiente livre de decisão de uma estrutura organizacional esconde o jogo de manipulação embutido, como as relações de comprometimento dos indivíduos e equipes com suas decisões e as conseqüências para todos, decorrentes dessas mesmas decisões. O que acontece frequentemente nas organizações e grupos sociais é a tendência a reprodução das relações de poder nos diversos níveis da sociedade, família, empresas, governo, ou seja, é busca pela autopreservação. 

Capítulo final - Para Concluir” 

Nesta última seção do livro, os autores encenam uma suposta entrevista á Rádio Nacional da Dolmácia, país fictício criado por eles para ilustrar os exemplos das técnicas de manipulação, com muito bom humor. 

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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Moral e energia

Por Hélio Schwartsman* 

Nossa moral é determinada pela forma como capturamos energia. Essa é a polêmica tese que o historiador Ian Morris, de Stanford, defende em seu mais recente livro, "Foragers, Farmers, and Fossil Fuels" (coletores, fazendeiros e combustíveis fósseis).
Humanos nutrimos pendor biológico para com valores como justiça, equidade, respeito, amor etc. Mas o que cada sociedade define como instância desses valores varia. Ao longo dos últimos 20 mil anos, sustenta Morris, houve três desenhos básicos, que foram mudando à medida que os grupos alteraram a maneira pela qual extraíam energia, isto é, comida e combustíveis, do ambiente.
A primeira forma, a dos caçadores-coletores, permitia apenas a vida em pequenos grupos, caracterizados por baixa tolerância a diferenças políticas ou de riqueza e que resolviam suas disputas recorrendo à violência. Era o que funcionava para eles, que não conseguiam retirar muito mais do que 5.000 kilocalorias por dia por habitante de seu ambiente.
Com o advento da agricultura, fazendeiros geravam até 30 mil kilocalorias e transformaram a energia extra em mais filhos. Sociedades agrárias experimentaram forte aumento populacional, o que as levou a aceitar como necessárias desigualdades políticas, econômicas e de gênero e a reprimir a violência entre indivíduos.
Com os combustíveis fósseis, passamos a retirar até 230 mil kilocalorias e forjamos sociedades que valorizam a igualdade e abominam a violência, ainda que não sejam tão boas em tornar esses ideais realidade.
Morris admite que seu modelo é reducionista, mas diz que reducionismos são úteis para compreender as coisas. Poderíamos até descrevê-lo como uma versão mais geral da noção de modo de produção de Marx. Mas o que me parece mais interessante é a ideia de que o que hoje tomamos por verdades morais autoevidentes pode não passar de efeito colateral de nossa política energética.
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* Bacharel em Filosofia, colunista da Folha de São Paulo, autor de 'Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena'

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2015/05/1629962-moral-e-energia.shtml