sábado, 13 de junho de 2015

'A fantasia desfeita' ou o mito da simpatia brasileira

Sabem aqueles que têm treino na análise social que a expressão 'a fantasia desfeita' remete a uma obra de Celso Furtado, que trata de um período da vida do Brasil que vai do governo JK até o golpe militar de 1964. Desmoronaram aspirações. Pois bem, sempre ouvimos falar de uma 'simpatia brasileira', que às vezes, por ignorância, procurava-se ancorá-la na obra de Sérgio Buraque de Holanda. Fraude maior, não pode haver, por certo. Mas, bem que a empresa prosperou, sob as asas do patrimonialismo - o 'jeitinho', a 'carnavalização', o estiolamento da esfera das convenções pelo modo doméstico, a confusão entre o público e o privado (que tanto faz os políticos nacionais agirem nos governos como se estivessem gerindo as suas casas), etc. Isso é tão forte que, muitas vezes, nem a universidade (como 'lugar esclarecido', que deve refletir sobre as mazelas da sociedade) escapa do imbróglio - o populismo tem-lhe feito estragos. Coisa da 'simpatia brasileira', dizia-se. Lorota. É, no mínimo, 'estranho' uma sociedade violenta e com demonstrações de intolerância ter como sua marca distintiva a simpatia. Por essa linha de abordagem vai o conhecido cientista social Manuel Castells, ao assinalar, em entrevista recente, que a simpatia brasileira é um mito. A conferir aí abaixo. 

Entrevista realizada por Sylvia Colombo (Folha de São Paulo)

Folha - Em 2013, o sr. disse que nosso grande problema era político, não econômico. E agora, que nossa economia tampouco anda bem?
Manuel Castells - Quando aponto a questão política me refiro a uma crise mundial dos sistemas tradicionais de democracia representativa, por conta da corrupção, agora mais exposta porque as pessoas têm mais acesso à informação e mais capacidade de organização por conta da internet.
O sistema político brasileiro está mal como estão mal todos os sistemas do mundo. Há protestos e desgaste dos partidos tradicionais, além da aparição de correntes populistas de extrema-direita e de extrema-esquerda.

Na Espanha, em Portugal e na Grécia, a reação é de esquerda. Na França, na Inglaterra e na Alemanha, é de direita.
O que causa essa crise de representatividade?
Os cidadãos deixaram de aceitar que sua capacidade política seja um voto a cada quatro anos. Há uma insatisfação com toda a classe política. E isso não significa que se acredite que todos os políticos sejam corruptos, mas sim que há uma classe política que está separada da cidadania, que é formada por profissionais que têm um interesse comum: o monopólio da política da corrupção.
Essa é a raiz do problema no Brasil, mas não só. Nos últimos anos vimos que afundou o sistema político italiano, espanhol, grego, está afundando o da Argentina, o do México. É algo mais profundo.
Qual a especificidade do Brasil, então?
Está ocorrendo a tempestade perfeita. Junto a essa crise de representatividade, uma piora da economia. Houve um período de bom crescimento com redistribuição. Mas a desaceleração da China fez com que ficasse difícil manter o mesmo alto nível de gasto público. E então ressurgiu a inflação, que já sabemos que foi um câncer para a economia e a sociedade brasileira em outras épocas.
No momento em que o governo atual percebeu que poderia haver um aumento da inflação, deveria ter restringido o gasto público, e não o fez.
O sr. tem estudado comparativamente protestos recentes –além do Brasil, os casos do Occupy (EUA), da primavera árabe, do Chile, do México e outros–. O que têm em comum?
O fato de não se tratarem de movimentos programáticos, mas emocionais, e de surgirem espontaneamente. Essa indignação inicial permite que se amplie a temática do movimento. A palavra "dignidade" se repete em todos eles. E por quê?
Porque as demandas não são concretas. Ainda que existam problemas concretos. O que as pessoas pedem é reconhecimento.
A primavera árabe começou com a autoimolação de um vendedor ambulante que não suportava mais o tratamento das autoridades municipais.
Um protesto pela dignidade inclui a luta contra a pobreza, mas é algo mais. É a tradução dos direitos humanos na consciência individual.
Seja na favela, seja como um profissional ou empresário, os indivíduos não sentem mais que as instituições os representam.
Em sua opinião, quais as principais diferenças dos protestos no Brasil em 2013 e 2015?
Em comum têm a denúncia da corrupção e o sentimento de que há demandas dos cidadãos que não podem se expressar nos atuais sistemas políticos.
O movimento de 2013 era popular, jovem, e partiu de demandas concretas, mas imediatamente levantou o tema da dignidade. E teve êxito, pois anulou-se o aumento das tarifas. O movimento no Brasil causou a reação política mais positiva de um governo no mundo.
A presidente Dilma Rousseff se conectou com ele. Mas o aparato do PT bloqueou a possibilidade de reforma.
Marina Silva deve seu fugaz êxito na campanha eleitoral justamente por ter se identificado com a crítica que se fazia nas ruas. Porém, não pôde resistir à ofensiva publicitária do PT e ao fato de que seu fundamentalismo evangélico não caiu bem entre a classe média intelectual.
Considero significativo que duas pessoas que disputaram a Presidência do Brasil –Marina e Dilma– haviam respondido positivamente ao movimento.
Já em 2015, é a classe média e média alta quem vai às ruas. E chegou-se a pedir a impugnação da presidente.
O grupo que pede um golpe de Estado é pequeno e considero impossível que isso ocorra. Mas o significativo é que existam cidadãos e políticos que o queiram.
2013 e 2015 se conectam com as recentes manifestações em outras partes do mundo porque mostram que a sociedade que quer expressar-se, hoje em dia, se expressa em movimentos espontâneos, coordenados pela internet, e presentes na rua.
Essa é uma transformação completa, não digo se é boa ou má, apenas digo que é uma transformação. As instituições clássicas não são capazes de representar a diversidade da sociedade. Às vezes é pela esquerda, às vezes pela direita, às vezes são jovens, às vezes são de idade madura, mas o comum a todos é que não creem na possibilidade de representação institucional, têm de conectar-se pela internet e sair às ruas.
E por que o brasileiro tem a sensação de que, na internet, há demasiada violência e intolerância no debate?
A internet é um instrumento de comunicação livre. Portanto, causa curto-circuito às instituições e ao poder do dinheiro.
A comunicação social estava monopolizada até hoje ou pelo poder político, ou pelo poder econômico. Agora, a internet permite às pessoas comunicar-se diretamente sem passar por esses controles, e sem passar por qualquer censura. Ainda que se queira controlar a internet, não se pode.
Eu não creio que no Brasil, com a internet, exista mais agressividade no debate. O Brasil sempre foi agressivo. Nos tempos da ditadura, no final dos anos 60, anos 70, o debate não só era agressivo como se torturavam pessoas diariamente com impunidade.
A imagem mítica do brasileiro simpático existe só no samba. Na relação entre as pessoas, sempre foi violento. A sociedade brasileira não é simpática, é uma sociedade que se mata. Esse é o Brasil que vemos hoje na internet. Essa agressividade sempre existiu.
A única coisa que a internet faz é expressar abertamente o que é a sociedade em sua diversidade. Trata-se de um espelho.
Como hoje não precisam passar pelos meios tradicionais de comunicação, as pessoas aparecem como realmente são.
A pergunta fundamental é: a liberdade é um bem em si? Se dizemos que sim, então a internet é uma tecnologia de liberdade, e portanto realiza uma mudança histórica. Mas é preciso aceitar que liberdade é também para coisas de que não gostamos. É para todos. Portanto, se ali se articulam formas de violência, racismo, sexismo, é porque isso existe na sociedade.
Na internet, um racista ou um sexista pode facilmente encontrar outros racistas e sexistas que, em seu entorno social, não podem se declarar abertamente assim. Na rede, não há constrangimento e se abre a possibilidade de expressão espontânea da sociedade.
E o que ocorre? Nos damos conta de que a sociedade não é tão boa e angelical como gostaríamos que fosse.
Vemos que, na verdade, a sociedade é bastante má. No Brasil e em todos os outros países.
E de quem depende a mudança social nesse novo contexto?
Certamente, não será da internet, mas sim dos sujeitos da mudança. Se estes querem um golpe militar, a internet facilita a organização desses sujeitos.
A internet é agnóstica, expressa o que somos. E o que somos depende da cultura. Repito, não creio que o Brasil seja pior agora, ou que a rivalidade política esteja mais intensa nesse momento do que foi antes.
No Brasil, a desigualdade diminuiu, mas ainda é muito grande. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dizia que o Brasil não era pobre, mas sim injusto. Concordo. Há uma imensa riqueza, controlada por 1% da população. Como é que a sociedade não vai estar com com raiva? E há, também, um grupo de classe média que está descontente porque se tira deles alguns recursos para redistribuir.
Trata-se de uma classe média profissional, que teme perder seus privilégios e que vive melhor que seus pares nos EUA e na Europa. Quem pode ter dois ou três empregados domésticos permanentes, vivendo em casa, ou constantemente indo e vindo? Nenhuma classe média do mundo! Pode-se ver famílias com empregados domésticos em outros países, mas em número pequeno. Empregados domésticos como massa importante, só no Brasil.
A descrença no Estado tende a gerar para-Estados ou Estados paralelos, que se expressam na formação de milícias e de uma justiça civil, como no México, ou terrorista, no caso do Estado Islâmico?
O México se transformou de fato num narcoestado. Há uma guerra civil ali, e ressurgem leis que são ancestrais, portanto reproduzem as formas de opressão que estão na raiz da violência.
O Estado Islâmico não é um grupo totalmente desvairado. Representa uma resistência profunda ao colonialismo cultural nos países muçulmanos e nas comunidades muçulmanas da Europa. Por que jovens dos EUA e da Europa vão morrer ali? Por que mulheres vão se casar e ter filhos com militantes do Estado Islâmico?
Essa diversidade cultural e política é a que existe no planeta. Não podemos criar um standard do politicamente correto e do humanamente correto, porque isso não existe. Cada vez que vamos afirmar um direito num sentido, vamos encontrar outras formas de opressão.
Vivemos atualmente numa contradição, e a internet exacerba isso. Se respeitamos realmente os direitos democráticos, devemos aceitar que são os povos os que elegem as formas democráticas em que querem viver.
Você não pode, com o pretexto do civilizado ou do não civilizado, impor formas de vida. Isso é colonialismo cultural e político, cuja reação violenta estamos vendo agora.
Sim, é preciso defender os direitos da mulher em todo o mundo, mas as mulheres de cada cultura é que têm de interpretar isso e mostrar como querem ter esse direito respeitado.
Valores universais há, mas a interpretação deve ser feita em cada sociedade. A forma de defendê-los depende de cada cultura.
Está em risco o Estado de Direito no Brasil?
Do ponto de vista concreto, ele não existe na maioria dos países. No Brasil, não há Estado de Direito. No Brasil, há uma classe política corrupta que utiliza o Estado para seus próprios fins. Faz isso como classe, ainda que como governantes concretos às vezes não o sejam. No Brasil não há um Estado de Direito, há a manipulação do Estado de Direito para manter um Estado patrimonial.
Mas ocorre o mesmo nos EUA. Ali se governa para a classe política e seus interesses. Sem Wall Street não se pode fazer política. E se Wall Street se afunda, toma-se o dinheiro dos contribuintes, e se entrega a Wall Street.
O movimento Occupy não mudou isso, mas fez com que mudasse a consciência dos EUA sobre a desigualdade social, que o americano médio não sabia que era tão importante.

O Occupy é responsável por conscientizar os norte-americanos sobre a desigualdade social e desconstruir a ideia do "sonho americano", de que você pode chegar aonde quiser se for empreendedor e trabalhar.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/05/1630173-internet-so-evidencia-violencia-social-brasileira-afirma-sociologo-espanhol.shtml

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O dia depois de hoje - Pedro Abrunhosa


O que vêem os olhos quando já não podem ver

Por António Lobo Antunes

Isto que escrevo é o quê? Uma pessoa a bater à porta sem que lhe respondam e continua a insistir numa monotonia aflita? A mão que imita no papel a chuva da janela? O silêncio do outro lado das vozes quando as nossas lembranças, uma a uma, se calam? Um velho a morrer sozinho num terceiro andar sem elevador e na cabeça dele, não alcançando a boca, o chamamento que só eu oiço
- Elisa
e o relógio de parede que só ele ouve, com todas as horas da sua vida dentro, as insignificantes, as grandes, um barco a afastar-se? Será isso acabar, um barco que se afasta, uma senhora a dizer adeus com o lenço, por trás do lenço um sorriso e por trás do sorriso ninguém, nem o que pensamos ser a nossa sombra? O lugar onde o Mondego nasce, num fiozinho, entre pedras e o sol no fiozinho e a tua sombra dentro? Isto que escreves é o quê? O teu pobre corpo no hospital, há dois anos, um corpo que não é teu, és tu, um trapo que tenta resistir, desiste, continua e tu, sem orgulho nele, a vê-lo desobedecer-te, diluir-se? Qual o teu nome verdadeiro sob o nome que te chamam e nem a tua mãe conhece? Escreves para quem se estão mudos, se não podem ler-te, se lendo-te se distraem de ti e te abandonam? Que sentido fazes e a quem esse sentido importa? Haverá alguém mais sem companhia do que aquele que fala? Depois de não seres virão escutar-te ou são os móveis da casa que escutam, as cruzetas baloiçando sem descanso nos varões, seja o que for parecido com o mar, a sétima onda que sempre procuraste e nunca veio, vem um enfermeiro medir-te a temperatura na orelha e queres dizer-lhe e não consegues, ao não conseguires perdes o que querias dizer e em ti
- Elisa
e o relógio de parede com todas as horas da tua vida dentro, sobretudo as que não viveste e te gastaram, mínimas horas entre as quatro e as seis quando era possível, ainda, encontrar um buraquinho onde coubesses neste muro? Não te lamentes, não te tornes amargo, não esperes: ocuparam o teu lugar, não tens espaço, fica o pó de algumas frases que um sopro distraído varrerá, um lugar nas selectas, títulos que penduraste à entrada dos teus gritos, nada porque nada te atinge ou te perturba, é tarde. Isto que escrevo é o quê? A empregada continuará a vir, a tomar conta da casa, a deixar-te bilhetes, a surpreender-se com a ausência de roupa no cesto, a ausência de correio, a ausência de ordens, a camisa azul precisa de, lave melhor o plástico do chuveiro, não encontro a faca do queijo na gaveta? Tão quotidiana foi a tua vida, pequeninos gestos, pequeninas maçadas, pequeninos projectos, pequeninos desejos e tanta luz em volta que te não pertence. És uma estátua entre estátuas, cegaste? Quem passeia o cão que não tens, quem examina o que te resta de intestinos, quem morrerá contigo se morreres? Fotografias de outro, cartas de outro, o teu prato não na mesa, vazio, limpo? Mais perguntas ainda ou nenhuma pergunta, vais-te embora e ficas, durarás para sempre a esta mesa, nesta rua, neste quarteirão, a lembrares-te do homem que vivia com o gato e passava fome para comprar fiambre ao bicho, peixe caro, miminhos, enquanto ele se alimentava de cerveja, resmungos e cigarros? Ou o sujeito enorme que ao deixares o automóvel no passeio te tranquilizou, olhando o fulano das multas com desprezo
- Vá sossegado, doutor, que por cima de mim só os aviões?
Ou aqueles que não te deixavam pagar a torrada, o Julinho, o Carlos, os outros que, ainda estás para saber porquê, te estimavam? O paquistanês que se despediu de ti a apertar-te a mão, comovido
- Tenho de me ir embora, desculpe, não ganho um tostão com a loja
sentindo-se culpado de ser pobre? O senhor Varela, digno, delicadíssimo, de cabelos brancos, a quem o cancro levou a esposa e se injectava derivado aos diabetes, iluminando a esquina ao cumprimentar-te
- Ontem à noite senti-me mal, rezei dois Padre-Nossos, melhorei
a solidão que morava nesta conversa, rezei dois Padre-Nossos, melhorei? Senhor Varela, senhor Miguel que te oferecia do bolo que a mãe fez no Alentejo, João Paulo, Vítor, Senhor Cardoso, dona Irene, senhor Jorge, sempre tão atentos contigo, generosos? Senhor Leonel, senhor Paulo, um rosário protector à tua volta e tu a pensares
- Não mereço a vossa estima? Formaram a matéria dos teus livros, ensinaram-te tanto, e tu é que eras o doutor, tu é que eras importante, que patetice, que asneira, ficarás aqui ao ires-te embora? Ficarás aqui ao ires-te embora, é aqui que pertences, reencontraste a Benfica perdida neste lugar de Lisboa, nestas pessoas que não sonham o que lhes deves nem acreditam em ti por mais que o repitas
- O senhor doutor está a brincar

convencidos que estás a brincar e não estás a brincar, é no meio desta gente que te sentes bem, deste canto que ninguém a não ser nós sabe onde fica, é para eles, que te não lêem, que escreves. O senhor Ribeiro, que ainda não saiu da guerra na Guiné, a dona Fernanda que te enrolava salsichas em couve lombarda, a esplanadazinha com as empregadas brasileiras do cabeleireiro? O teu avô nasceu em Belém do Pará, o teu bisavô nasceu em Belém do Pará, ao teu trisavô, filho de camponeses da Póvoa do Lanhoso, meteram-no num veleiro faz-te à vida, e ele fez-se à vida, que remédio, e lá andou na borracha, aguentou-se. Chamava-se Bernardo António Antunes e aguentou-se. Aguenta-te tu. Isto que escrevo é o quê? O trineto do senhor Antunes a aguentar-se, a nobreza dele um casinhoto que deixou de existir há séculos, na Póvoa do Lanhoso. Todo o Minho do sangue do senhor Antunes está no teu, é uma criança num veleiro, a fazer-se à vida. Faz-te à vida, miúdo. António Antunes, mais o Lobo da nora do senhor Antunes, Leopoldina claro, como a imperatriz. O teu pai tinha retratos dela, morreu nova. Isto que escreves é Belém do Pará a tremer ao longe nas histórias que te contavam em pequeno, mamãe diz ao papai que eu quero ir para a guerra do Paraguai. E vou. Pensando bem já lá cheguei há que tempos.

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Fonte: http://visao.sapo.pt/o-que-veem-os-olhos-quando-ja-nao-podem-ver=f511402

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Orange Sky


Sobre a greve nas universidades federais

É provável que eu seja incompreendido por alguns com esta postagem. Por uns, por incompreensão mesmo; por outros, por 'canaillerie' em deturpar as minhas posições. Os primeiros, têm o meu respeito; os outros, ignoro. Seja como for, não me abalo. Não seria a primeira vez que o fato me ocorreria, e nem a última, por certo. Os recortes aí abaixo são de uma entrevista do historiador Daniel Arão Reis Filho (da Universidade Federal Fluminense), onde ele expõe a sua posição crítica à atual greve nas universidades federais. Antes que um desavisado tente desqualificá-lo, é bom que se diga: ele não é nenhuma figura de direita. Não passa nem perto disso. É um intelectual claramente situado no campo da esquerda, e por aí desenvolve a sua obra. No final da década de 1960, participou da luta armada contra a ditadura militar. Ah, e o meu propósito em postagens como esta é contribuir para tornar o debate mais plural. Para que a discussão não seja um 'samba de uma nota só' - algo que é, convenhamos, bastante despolitizado. De resto, também para assinalar que greve não quer dizer férias.  

Daniel Arão Reis Filho: defesa de novas
formas de mobilização 
Entrevista realizada por Rapahel Kapa (O Globo)

POR QUÊ O SENHOR É CONTRA A GREVE?
A visão que expus é uma construção desde 2004, quando tivemos uma grande greve e levantamos, coletivamente, que esta ação desmobiliza mais do que pressiona. Perceba: não discordo das reivindicações. O que critico é a forma de luta proposta.

QUAL O PROBLEMA DO USO DA GREVE COMO FORMA DE LUTA NA EDUCAÇÃO?
A greve dos professores mimetiza a dos operários. Só que as consequências são muito diferentes. A greve na universidade só causa prejuízo para nós mesmos e, principalmente, para os alunos da graduação. O governo não liga para a paralisação. Enquanto as graduações param, mestrado e doutorado funcionam. Os professores não param suas pesquisas durante a greve. Muitos, de forma oportunista, aproveitam o tempo para tocarem outros projetos. Quem sofre é a graduação, e a universidade fica desmobilizada.

POR QUÊ?
Ela fica um deserto. O maior trunfo da universidade é a troca de ideias. Uma universidade atuante pode interromper suas atividades durante um dia para fazer uma passeata com muito mais força do que quando está em greve e pulverizada. É errado o discurso de que ela é a única forma de luta. Além disso, a sociedade passou a ver a greve do funcionalismo público como algo ruim. Afinal, como se pode ficar parado durante o mês e ganhar no final? Isso são férias. É muita ingenuidade pensar que se pode fazer isso.

A UNIVERSIDADE PIOROU?
Houve avanços no governo Lula, mas não ocorreram continuidades. Muitas universidades foram criadas, muitas funcionam de forma precária. A terceirização é uma aberração. O funcionário não tem o menor laço com a comunidade. Além disso, há uma desvalorização do professorado. Sem desmerecer, um jovem juiz só com graduação ganha mais que um professor titular com doutorado. Não dá para falar de pátria educadora enquanto existir essa educação.

EM SUA CARTA, O SENHOR AFIRMOU QUE AS ASSEMBLEIAS SINDICAIS NÃO REPRESENTAM A COMUNIDADE. POR QUÊ?
É necessário voltar no tempo para explicar isso. O movimento sindical nos anos 80 tinha uma associação muito íntima com as bases, com os departamentos. As assembleias sempre eram precedidas de reuniões de departamentos que escolhiam seus delegados para representarem aqueles grupos. Hoje, 140 professores definem 2 mil. Eles não levam em consideração a opinião da grande maioria. As assembleias, hoje, representam a si mesmas.

LOGO, O ANÚNCIO DA GREVE PODE NÃO SER VISTO NO COTIDIANO DA UNIVERSIDADE A PARTIR DE HOJE?
Quando a comunidade sindical fala para a imprensa que a UFF está em greve, vale a pena dar uma olhada no terreno para ver se a gente está mesmo. É uma minoria. Essa greve não tem legitimidade, não pelas reivindicações mas pelo modelo, pelas decisões que não tiveram respaldo democrático.

DEVIDO A SUA CARTA, O SENHOR RECEBEU CRÍTICAS. CHEGARAM A CHAMÁ-LO DE PELEGO...
Eu acho graça quando dizem que sou pelego. Pelego é quem quer conciliar com o Estado. Eu não quero conciliar com o Estado. Sou contra essa gestão, o governo Dilma. Eu quero ver a universidade protestar. Esse insulto não me atinge.

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Fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/greve-na-universidade-so-causa-prejuizo-para-alunos-da-graduacao-diz-daniel-aarao-reis-16282157

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Tempo de proteção, acolhimento e bem viver ou a idade do poema



Carlos Drummond de Andrade (Idade Madura) 


As lições da infância
desaprendidas na idade madura.
Já não quero palavras, nem delas careço.
Tenho todos os elementos
Ao alcance do braço.
Todas as frutas
e consentimentos.
Nenhum desejo débil.
Nem mesmo sinto falta 
do que me completa e é quase sempre melancólico. 
Estou solto no mundo largo.
Lúcido cavalo
com substância de anjo
circula através de mim.
Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,
Absorvo epopéia e carne,
bebo tudo,
desfaço tudo,
torno a criar, a esquecer-me:
Durmo agora, recomeço ontem.

De longe, vieram chamar-me.
Havia fogo na mata.
Nada pude fazer, 
nem tinha vontade.
Toda a água que possuía 
irrigava jardins particulares
De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.

Nisso, vieram os pássaros,
rubros sufocados, sem canto,
e pousaram a esmo.
Todos se transformaram em pedra.
Já não sinto piedade.

Antes de mim outros poetas,
depois de mim outros e outros
estão cantando a morte e a prisão.
Moças fatigadas se entregam, soldados se matam
No centro da cidade vencida.
Resisto e penso
numa terra enfim despojada de plantas inúteis,
num país extraordinariamente, nu e terno,
qualquer coisa de melodioso,
não obstante mudo, 
além dos desertos onde passam tropas, dos morros
onde alguém colocou bandeiras com enigmas,
e resolvo embriagar-me.

Já não dirão que estou resignado
e perdi os melhores dias.
Dentro de mim, bem no fundo,
Há reservas colossais de tempo,
Futuro, pós-futuro, pretérito,
Há domingos, regatas, procissões,
Há mitos proletários, condutos subterrâneos,
Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.

Ninguém me fará calar, gritarei sempre
que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,
negociarei em voz baixa com os conspiradores,
transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,
serei, no circo, o palhaço,
serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,
serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,
serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:
tudo depende da hora
e de certa inclinação feérica,
viva em mim qual um inseto.

Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade
com sua maré de ciências afinal superadas.
Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,
descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.

Eles dizem o caminho,
embora também se acovardem
em face a tanta claridade roubada ao tempo.
Mas eu sigo, cada vez menos solitário,
em ruas extremamente dispersas,
transito no canto homem ou da máquina que roda,
aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,
e ganho.

Concurso de Bolsas: Pesquisa e Escola na América Latina

O nosso glorioso Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) divulga concurso de bolsas à pesquisa tendo como objeto a Escola na América Latina. Creo que es una oportunidad muy interesante para los estudios y la investigación en Latinoamérica sobre una cuestión central en nuestros días. Sin duda, la ciencia social de Latinoamérica es una referencia de calidad y buenas discusiones.



CONCURSO DE BECAS CLACSO/IDEDH-OEI/IDEP

para investigadores/as de América Latina y el Caribe

• Convivencia, democracia y ciudadanía en la escuela latinoamericana


El Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO), el Instituto de Educación en Derechos Humanos (IDEDH-OEI) y el Instituto para la Investigación Educativa y el Desarrollo Pedagógico de Bogotá, Colombia (IDEP), convocan conjuntamente el Concurso de Becas CLACSO/IDEDH-OEI/IDEP “Convivencia, democracia y ciudadanía en la escuela latinoamericana” dirigido a científicos/as sociales y maestros/as de escuelas públicas de América Latina y el Caribe.

Con esta iniciativa las instituciones organizadoras buscan incentivar el desarrollo de investigaciones originales sobre el tema a través de la constitución de equipos integrados por científicos/as sociales y maestros/as de escuelas públicas.
CIERRE DE INSCRIPCIÓN: 12 DE JULIO DE 2015




terça-feira, 9 de junho de 2015

Silêncio e sentimento maduro

Os habituados com a música erudita, por certo, lembrarão dele apresentando um programa televisivo denominado 'Quem tem Medo da Música Clássica?' Falo sobre Arthur da Távola. Ao fim de cada edição do programa, ele repeita: 'música é vida interior, e quem tem vida interior jamais padecerá de solidão' (claro, há Música e música). De determinado modo, esse é um ponto de valorização da solidão. Do silêncio. E de encontro com o Existencialismo. Sartre foi categórico sobre isso: 'se você sente solidão quando está a sós, então está em má companhia'. Bom, e como por cá vivemos a semana da Fête des Amoureux, embora não de Saint Valetin, vai aí o poema do 'Amor Maduro' de Arthur da Távola. Ou a tranquilidade, a estabilidade no viver e a serenidade. 


O amor maduro não é menor em intensidade.
Ele é apenas quase silencioso. Não é menor em extensão.
É mais definido, colorido e poetizado.
Não carece de demonstrações: presenteia com a verdade do sentimento.
Não precisa de presenças exigidas: amplia-se com as ausências significantes.

O amor maduro somente aceita viver os problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem e o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.

O amor maduro cresce na verdade e se esconde a cada auto-ilusão.
Basta-se com o todo do pouco.
Não precisa nem quer nada do muito.
Está relacionado com a vida e a sua incompletude, por isso é pleno em cada ninharia por ele transformada em paraíso.
É feito de compreensão, música e mistério.
É a forma sublime de ser adulto e a forma adulta de ser sublime e criança.
O amor maduro não disputa, não cobra, pouco pergunta, menos quer saber. Teme, sim. Porém, não faz do temor, argumento.
Basta-se com a própria existência.
Alimenta-se do instante presente valorizado e importante porque redentor de todos os equívocos do passado.
O amor maduro é a regeneração de cada erro.
Ele é filho da capacidade de crer e continuar, é o sentimento que se manteve mais forte depois de todas as ameaças, guerras ou inundações existenciais com epidemias de ciúme.

O amor maduro é a valorização do melhor do outro e a relação com a parte salva de cada pessoa.
Ele vive do que não morreu mesmo tendo ficado para depois.
Vive do que fermentou criando dimensões novas para sentimentos antigos, jardins abandonados cheios de sementes.
Ele não pede, tem.
Não reivindica, consegue.
Não persegue, recebe.
Não exige, dá. Não pergunta, adivinha.
Existe, para fazer feliz.
Só teme o que cansa, machuca ou desgasta.





Tears in Heaven


Confusão de papeis, atraso religioso e obscurantismo na universidade

Galileu diante do Tribunal da Inquisição: farsa religiosa
 perseguindo a ciência, como hoje na PUC-SP

Por Vladimir Safatle 
(Professor Titular da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)


Na semana passada, o sr. Francisco Borba Ribeiro publicou (Folha, 2/6) uma defesa da decisão tomada pela PUC-SP, de rejeitar a criação de uma Cátedra Michel Foucault. Não, disse o sr. Ribeiro, não se trata de nenhuma reação obscurantista contra um filósofo que não "tem afinidade com o pensamento católico". Trata-se apenas de uma reafirmação aparentemente legítima dos princípios de uma instituição que, "num mundo repleto de identidades líquidas, pensamentos débeis e opiniões passageiras", acredita ter encontrado a verdade há séculos.
Os professores poderão continuar a dar seus cursos sobre Foucault, diz o representante da PUC, mas não esperem que a referida instituição permita que eles desenvolvam cátedras responsáveis por federar pesquisas envolvendo outras instituições, conservar materiais que possam alimentar o interesse dos alunos e receber professores convidados. Segundo ele, uma cátedra é um "ente honorífico", e não há questão de honorar alguém como Foucault. Mas a colocação é simplesmente falsa. Qualquer universitário no mundo inteiro sabe que uma cátedra é um instrumento academicamente importante de fortalecimento de pesquisa, visibilidade e intercâmbio.
Tudo isto é uma afronta inaceitável ao ensino de filosofia no Brasil. Não cabe à igreja e às suas pretensas verdades seculares limitar a possibilidade do desenvolvimento de saberes na área de filosofia. No entanto, é isto o que está a ocorrer. Faz parte da espinha dorsal de um estado laico defender suas universidades como espaços nos quais diferentes concepções de verdade podem se confrontar e serem igualmente respeitadas. Uma universidade não conhece "verdades encontradas há séculos", mas está disposta a permitir o questionamento de toda e qualquer verdade que queira se colocar enquanto tal.
Se a PUC quer agir como um seminário católico, então ela deve abrir mão de seu credenciamento como universidade e se contentar em ser um seminário católico. Uma universidade que não aceitaria, por exemplo, uma Cátedra Voltaire ou uma Cátedra Spinoza por eles não terem afinidades como o pensamento do dono não pode ser chamada de universidade. Nossos departamentos de filosofia ensinam São Tomás de Aquino e o ateu Diderot, Marx e o liberal John Locke, Santo Agostinho, Nietzsche, o protestante Kierkegaard e qualquer um deles poderia receber uma cátedra em qualquer universidade pública brasileira. Não há razão alguma para aceitarmos ser diferente na PUC.
As áreas de filosofia e teologia são ligadas nas agências federais de fomento. Por esta razão, é de se esperar que os responsáveis pela área de teologia se manifestem contra tal ataque ao ensino de filosofia. Do contrário, não sei por que nos colocaram juntos.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/222016-obscurantismo-sim.shtml