terça-feira, 16 de outubro de 2012

What ecology? What development?

Temos assistido, há já algum tempo, um debate extremamente dicotômico: de um lado, a crença cega na ideia de que a humanidade pode continuar com o mesmo grau de avanço sobre a natureza similar ao levado a cabo pelos países do capitalismo central (isto é música aos ouvidos de determinados neodesenvolvimentistas brasileiros); de outro lado, a rejeição à qualquer perspectiva de desenvolvimento, sob o argumento do esgotamento ecológico do planeta - chega-se mesmo a aventar a tese do decrescimento. Trata-se de uma dicotomia, como é próprio das dicotomias, estéril. Ambas as posições tem um enviesamento de origem, na medida que partem de um pressuposto meramente quantitativo do desenvolvimento. A este respeito, num ensaio recente, Michel Lowy é lapidar ao afirmar que: "Some ecologists believe that the only alternative to productivism is to stop growth altogether, or to replace it by negative growth – what the French call décroissance – and drastically reduce the excessively high level of consumption of the population by cutting by half the expenditure of energy, by renounc­ing individual family houses, central heating, washing machines, etc. Since these and similar measures of draconian austerity risk being quite unpopular, some of the advocates of décroissance play with the idea of a sort of ‘ecological dictatorship’.18 Against such pessimistic views, socialist optimists believe that technical progress and the use of renewable sources of energy will permit an unlimited growth and abundance, so that each can receive ‘according to his needs’. It seems to me that both these schools share a purely quantitative conception of ‘growth’ – positive or negative – and of the development of productive forces. There is a third position, however, which seems to me more appropriate: a qualitative transformation of development". É exatamente isto: a uma terceira posição. Vale a pena a leitura de todo o ensaio de Lowy, aqui: http://ecosocialistnetwork.org/?page_id=10



quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nick Cave - Brompton Oratory

"Nunca a mesma água, sempre o mesmo rio. Nunca as mesmas flores, sempre a Primavera". Com a sabedoria oriental de Confúcio, a propósito das Mutações, podemos dizer que um autor (compositor, escritor, etc.), em tempo distante ou presente, varia de tom, mas o sentido da sua nota criativa é perene. Para Nick Cave, isto é mais do que válido. 


And I wish that I was made of stone
So that I would not have to see
A beauty impossible to define
A beauty impossible to believe






segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Novo nº da Revista O Comuneiro: movimento e razão

Está em linha a nova edição da Revista Lusitana O Comuneiro. Lá estamos com um ensaio ensaio sócio-histórico com foco na dialética das teorias do desenvolvimento na América Latina. Aqui: http://www.ocomuneiro.com/. A Revista continua a fazer jus a uma insignia que delimitou quando da sua fundação: O Comuneiro pretende ser, dentro do mundo da língua portuguesa, um pequeno laboratório de pesquisa (...).Os futuros possíveis arrancam-se do que é presente, do que se compreende a si próprio como movimento e razão.

sábado, 6 de outubro de 2012

Um tempo de incertezas e a morte da política

Deixou-nos Eric Hobsbawm, cientista social na melhor tradição deste termo. Não é necessário repisar que, intelectuais com o perfil de Hosbsbawm, não morrem. Continuam vivos, bem vivos, influenciando-nos nos nossos textos e em nossas intervenções. Com larga influência na análise social brasileira, é, de certo modo, irônico que, nos últimos tempos, ele tanto tenha realçado o período de incertezas que estamos a viver mundialmente, ao que também se poderia aduzir um tempo de "morte da política". Neste domingo, o Brasil irá às urnas, em muitas cidades com disputas extremamente acirradas - contudo, o reverso da medalha não é nada animador:  a campanha eleitoral brasileira de 2012 passa à história como uma das mais despolitizadas da vida política nacional.  Onde estão os conteúdos ideo-programáticos a diferenciarem candidatos e partidos? Predomina uma "geleia geral", e a principal preocupação de determinados candidatos e  coligações é apenas mostrar os apoios que têm. Que já no início da década os sinais de mediocridade do debate político brasileiro apareciam, não há dúvida. Não se imaginava, contudo, que chegaríamos onde chegamos! Contra essa situação, vale continuar na tradição analítica descortinada por Hobsbawm. Abaixo uma entrevista dele, de já algum tempo, mas atual, por ter conteúdo. 


Revista Sem Terra - O planeta vive hoje uma crise que abalou as estruturas do capitalismo mundial, atinge indiscriminadamente atores em nada responsáveis pela sua eclosão, e que talvez seja um dos mais importantes “feitos” da moderna globalização. Na sua avaliação, quais foram os fatores e mecanismos que levaram a esta situação?

Eric Hobsbawm – Nos últimos quarenta anos, a globalização, viabilizada pela extraordinária revolução nos transportes e, sobretudo, nas comunicações, esteve combinada com a hegemonia de políticas de Estado neoliberais, favorecendo um mercado global irrestrito para o capital em busca de lucros. No setor financeiro, isto ocorreu de forma absoluta, o que explica porque a crise do desenvolvimento capitalista ocorreu ali. Apesardo fato de que o capitalismo sempre — e por natureza — opera por meio de uma sucessão de expansões geradoras de crises, isto criou uma crise
maior e potencialmente ameaçadora para o sistema, comparável à Grande Depressão que se seguiu a 1929, mesmo que seja cedo para avaliarmos todo o seu impacto. Um problema maior tem sido que a tendência de declínio das margens de lucro, típico do capitalismo, tem sido particularmente dramática porque os operadores financeiros, acostumados a enormes ganhos com investimentos especulativos em épocas de crescimento econômico, têm buscado mantê-los a níveis insustentáveis, atirando-se em investimentos inseguros e de alto risco, a exemplo dos financiamentos imobiliários subprime” nos EUA. Uma enorme dívida, pelo menos quarenta vezes maior do que a sua base econômica atual foi assim criada, e o destino disso era mesmo o colapso.

RST - Como resposta à crise econômica, governos e instituições financeiras estão concentrados em salvar os sistemas bancário e financeiro, opção que tem sido considerada uma tentativa de cura do próprio vetor causador do mal. No que deve resultar este movimento?

EH – Um sistema de crédito operante é essencial para qualquer país desenvolvido, e a crise atual demonstra que isso não é possível se o sistema bancário deixa de funcionar. Nesse sentido, as medidas nacionais para restaurá-lo são necessárias. Mas o que é preciso também é uma reestruturação do Estado por exemplo, através das nacionalizações, a “desfinanceirização” do sistema e a restauração de uma relação realista entre ativos e passivos econômicos. Isso não pode ser feito simplesmente combinando vastos subsídios para os bancos com uma regulação futura mais restrita. De toda forma, a depressão econômica não pode ser resolvida apenas via restauração do crédito. São essenciais medidas concretas para gerar emprego e renda para a população, de quem depende, em última instância, a prosperidade da economia global.

RST - Antes de se agudizar o caos econômico, o mundo começou a sofrer uma sucessão de abalos sociais e ambientais, como a falta global de alimentos, as mudanças climáticas, a crise energética, as crises humanitárias decorrentes das guerras, entre outros. Como você avalia estes

fatores na perspectiva do paradigma civilizatório e de desenvolvimento do capitalismo moderno?
EH – Vivemos meio século de um crescimento exponencial da população global, e os impactos da tecnologia e do crescimento econômico no ambiente planetário estão colocando em risco o futuro da humanidade, assim como ela existe hoje. Este é o desafio central que enfrentamos no século 21. Vamos ter que abandonar a velha crença — imposta não apenas pelos capitalistas — em um futuro de crescimento econômico ilimitado na base da exaustão dos recursos do planeta. Isto significa que a fórmula da organização econômica mundial não pode ser determinada pelo capitalismo de mercado que, repito, é um sistema impulsionado pelo crescimento ilimitado. Como esta transição ocorrerá ainda não está claro, mas se não ocorrer, haverá uma catástrofe.

RST – O capitalismo tem adquirido, cada vez mais, uma força hegemônica na agricultura com o crescimento do agronegócio. Muitos defendem que a Reforma Agrária não cabe mais na agenda mundial. Como vê este debate e a luta pela terra de movimentos sociais como o MST e a Via Campesina?

EH – A produção agrícola necessária para alimentar os seis bilhões de seres humanos do planeta pode ser fornecida por uma pequena fração da população mundial, se compararmos com o que era no passado. Isso levou tanto a um declínio dramático das populações rurais desde 1950, quanto a uma vasta migração do campo para as cidades. Também levou a um crescente domínio da agricultura por parte não tanto do grande agronegócio, mas principalmente de empreendimentos capitalistas que hoje controlam o mercado desta produção. Da mesma forma, têm aumentado os conflitos entre agricultores e iniciativas empresariais na disputa pela terra para propósitos não agrícolas (indústrias, mineração, especulação imobiliária, transporte etc.), bem como pela sua posse e pela exploração dos recursos naturais. A Reforma Agrária sem duvida não é mais tão importante para a política como foi há 40 anos, pelo menosna América Latina, mas claramente permanece uma questão central em muitos outros países. Na minha opinião, a crise atual reforça a importância da luta de movimentos como o MST, que é mais social do que econômica. Em tempos de vacas gordas é muito mais fácil ganhar a vida na cidade. Em tempos de depressão, a terra, a propriedade familiar e a comunidade garantem a segurança social e a solidariedade que o capitalismo neoliberal de mercado tão claramente nega aos migrantes rurais desempregados.

RST - Na virada do século, um novo movimento global de resistência social tomou corpo através do que ficou conhecido como altermundialismo. Surgiu o Fórum Social Mundial, e grandes manifestações contra a guerra e instituições multilaterais, como a OMC, o G8 e a ALCA, na América Latina, ganharam as ruas. Na sua avaliação, o que resultou destes movimentos? E hoje, como vê estas iniciativas?

EH – O movimento global de resistência altermundialista merece o crédito de duas grandes conquistas: na política, ressuscitou a rejeição sistemática e a crítica ao capitalismo que os velhos partidos de esquerda deixaram atrofiar. Também foi pioneiro na criação de um modo de ação política global sem precedentes, que superou fronteiras nacionais nas manifestações de Seattle e nas que se seguiram. Grosso modo, logrou formular e mobilizar uma poderosa opinião pública que seriamente pôs em cheque a ordem mundial neoliberal, mesmo antes da implosão econômica. Seu programa propositivo, porém, tem sido menos efetivo, em função, talvez, do grande número de componentes ideologicamente e emocionalmente diversos dos movimentos, unificados apenas em aspirações muito generalistas ou ações pontuais em ocasiões específicas.

RST - Principalmente na América Latina, os anos 2000 trouxeram uma série de mudanças políticas para a região com a eleição de governadores mais progressistas. A sociedade civil organizada ganhou espaço nos debates políticos, mas os avanços na garantia dos direitos sociais ainda esperam por uma maior concretização. Como analisa este fenômeno?

EH –O fator mais positivo para a América Latina é a diminuição efetiva da influência política e ideológica — e, na América do Sul, também econômica — dos EUA. Um segundo fator muito importante é o surgimento de governos progressistas — novamente mais fortes na América do Sul — , inspirados pela grande tradição da igualdade, fraternidade e liberdade, que comprovadamente está mais viva aí do que em outras regiões do mundo neste momento. Estes novos regimes têm se beneficiado de um período de altos preços de seus bens de exportação. Quão profundamente serão afetados pela crise econômica, principalmente o Brasil e a Venezuela,ainda não está claro. Suas políticas têm logrado algumas melhorias sociais genuínas, mas até agora não reduziram significativamente as enormes desigualdades econômicas e sociais de seus países. Esta redução deve permanecer a maior prioridade de governos e movimentos progressistas.

RST - Diante da crise civilizatória, do fracasso do capitalismo e da inoperância dos sistemas multilaterais, que não foram aptos a enfrentar as grandes questões mundiais, as esquerdas têm se debatido na busca de alternativas; mas nem consensos nem respostas parecem despontar no

horizonte. Haveria, em sua opinião, a possibilidade real da construção de um novo socialismo, uma nova forma de lidar com o planeta e sua gente, capaz de enfrentar a hegemonia bélica,
econômica e política do neoliberalismo?
EH – Eu não acredito que exista uma oposição binária simples entre “um novo socialismo” e a “hegemonia do capitalismo”. Não existe apenas uma forma de capitalismo. A tentativa de aplicar um modelo único, o “fundamentalismo de mercado” global anglo-americano, é uma aberração histórica, que potencialmente colapsou agora e não pode ser reconstruída. Por outro lado, o mesmo ocorre com a tentativa de identificar o socialismo unicamente com a economia centralizada planejada pelo Estado dos períodos soviético e maoísta. Esta também já era (exceto talvez se nosso século for reviver os períodos temporários de guerra total do século 20). Depois da atual crise, o capitalismo não vai desaparecer. Vai se ajustar a uma nova era de economias que combinarão atividades econômicas públicas e privadas. Mas o novo tipo de sistemas mistos tem que ir além das várias formas de “capitalismo de bem estar” que dominou as economias desenvolvidas nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. Deve ser uma economia que priorize a justiça social, uma vida digna para todos e a realização do que Amaratya Sen chama de potencialidades inerentes aos seres humanos. Deve estar organizada para realizar o que está além das habilidades do mercado dos caçadores- de-lucro, principalmente para confrontar o grande desafio da umanidade neste século 21: a crise ambiental global. Se este novo sistema se comprometer com os dois objetivos, poderá ser aceitável para os socialistas, independente do nome que lhe dermos. O maior obstáculo no caminho não é a falta de clareza e concordância entre as esquerdas, mas o fato de que a crise econômica global coincide com uma situação internacional muito perigosa, instável e incerta, que provavelmente não estabelecerá uma nova estabilidade por algum tempo. Entrementes, não há consenso ou ações comuns entre os Estados, cujas políticas são dominadas por interesses nacionais possivelmente incompatíveis com os interesses globais.

RST - Conceitos como solidariedade, cooperação, tolerância, justiça social, sustentabilidade ambiental, responsabilidade do consumidor, desenvolvimento sustentável, entre outros, têm encontrado eco, mesmo de forma ainda frágil, na opinião pública. Acredita que estes princípios poderão, no futuro, ganhar força e influenciar a ordem mundial? Vê algum caminho que possa aproximar a humanidade a uma coabitação harmoniosa?

EH – Os conceitos listados estão mais para slogans do que para programas. Eles ou ainda precisam ser transformados em ações e agendas (como a redução de gases de efeito estufa, encorajada ou imposta pelos governos, por exemplo), ou são subprodutos de situações sociais mais complexas (como “tolerância”, que existe efetivamente apenas em sociedades que a aceitam ou que estão impedidas de manter a intolerância). Eu preferiria pensar na “cooperação” não apenas como um ideal generalista, mas como uma forma de conduzir as questões humanas, como as atividades econômicas e de bem estar social. Me entristece que a cooperação e a organização mútua, que eram um ele- mento tão importante no socialismo do século 19, desapareceram quase
que completamente do horizonte socialista do século 20 – mas felizmente não da agenda do MST. Espero que esta lista de conceitos continue conquistando o apoio e mobilize a opinião pública para pressionar efetivamente os governos. Não acredito que a humanidade alcançará um estado de “coabitação harmoniosa” num futuro próximo. Mas mesmo se nossos ideais atualmente são apenas utopias, é essencial que homens e mulheres lutem por elas.

RST - O senhor, que estudou com profundidade a história do mundo e as relações humanas nos últimos séculos, o que espera do futuro?

EH – Se a crise ambiental global não for controlada, e o crescimento populacional estabilizado, as perspectivas são sombrias. Mesmo se os efeitos das mudanças climáticas possam ser estabilizados, produzirão enormes problemas que já são sentidos, como a crescente competição por recursos hídricos, a desertificação nas zonas tropicais e subtropicais, e a necessidade de projetos caros de controle de inundações em regiões costeiras. Também mudarão o equilíbrio internacional em favor do hemisfério Norte, que tem largas extensões de terras árticas e subárticas passíveis de serem cultivadas e industrializadas. Do ponto de vista econômico, o centro de gravidade do mundo continuará a se mover do Oeste (América do Norte e Europa) para o Sul e o Leste asiático, mas o acúmulo de riquezas ainda possibilitará às populações das velhas regiões capitalistas um padrão de vida muito superior às dos emergentes gigantes asiáticos. A atual crise econômica global vai terminar, mas tenho dúvidas se terminará em termos sustentáveis para além de algumas décadas. Politicamente, o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Se tornou mais instável e perigoso, especialmente na região entre Marrocos e Índia. Um novo equilíbrio internacional entre as potências — os EUA, China, a União Européia, Índia e Brasil — resumivelmente ocorrerá, o que poderá garantir um período de relativa estabilidade econômica e política, mas isto não é para já. O que não pode ser previsto é a natureza social e política dos regimes que emergirão depois da crise. Aqui as experiências do passado não podem ser aplicadas. O historiador pode falar apenas das circunstâncias herdadas do passado. Como diz Karl Marx: a humanidade faz a sua própria história. Como a fará e com que resultados, muitas vezes inesperados, são questões que ultrapassam o poder de previsão do historiador.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Concurso para Professor Adjunto - UFPB

Encontram-se abertas, até o dia 25 de outubro, inscrições para Concurso de Professor Adjunto do Departamento de Educação do Centro de Ciências Aplicadas e Educação (CCAE)/UFPB, conforme os requisitos abaixo. Os candidatos podem se inscrever no próprio Departamento de Educação/unidade de Mamanguape, das 14h00 as 18h00. 

 

Área de Conhecimento
Nº de vagas
Classe de ingresso
Requisitos
Organização do Trabalho Pedagógico
01
Professor Adjunto
Graduação em Pedagogia, Doutorado em Educação
Didática e Metodologia da Arte, Corporidade, Movimento e Ludicidade, Música
01
Professor Adjunto
Graduação em Pedagogia ou Educação Artística ou Educação Física, Doutorado em Educação





sábado, 29 de setembro de 2012

Michael Apple: advice to teachers/coselho a professores


Pesquisador consagrado no campo das políticas educativas e do Currículo, Michael Apple tem sido uma voz alternativa no debate educativo contemporâneo, como bem se pode constatar na entrevista a seguir. 

Apple: um conselho aos professores 

Michael Apple is a professor of Curriculum and Instruction and Educational Policy at the University of Wisconsin at Madison. He has written extensively on the state of education in the US, deconstructing what knowledge is, what we are teaching our students, and how it is that we make meaning. His contributions include helping teachers learn how to confront issues in education, how to question knowledge, what knowledge is, and bringing to light the "hidden curriculum" in classrooms. He has published a vast compilation of books, articles and essays, all of them encouraging educators and students alike to question the dominant power and to wonder about how their knowledge came to be legitimated.


Prof Apple, you are considered to be at the forefront of progressive education. What would you say, in a word, is your desire for teachers?
Resistance. Resistance represents everything that I want teachers to embody. This does not mean that I want teachers to all be revolutionaries—what it means is that I want teachers to question the power dynamics in which they have been placed, and the race and gender relations of which they are a part. For too long, our society has been focused on complaining about teachers’ resistance to administrative and educational change. I think we should celebrate and encourage this resistance. Resist the dominant paradigm in society, which is based in an antiquated patriarchal system, and teach your students to resist and question as well.

What are the foremost issues in education, in your mind?
One of the most important issues to me is looking at how knowledge is created. Language, which is the primary means by which we make meaning, is context-specific, and is inundated with power relations. We need to question how language is created, and how it then creates knowledge.
The most important question we can ask of education is, Whose knowledge is considered legitimate? How do we know? Who controls the collection and distribution of knowledge? How is that collection and distribution linked to the unequal distribution of wealth? How will this knowledge be made accessible to students? How can we make this knowledge meaningful to students? These are some of the questions at the forefront of my mind. (www.perfectfit.org)

You said, in your article, Cultural Capital and Official Knowledge, that “I want us to think of knowledge as a form of capital. Just as economic institutions are organized (and sometimes disorganized) so that particular classes and class fractions increase their share of economic capital, cultural institutions such as universities seem to do the same thing.” What did you mean by that? (fromwww.perfectfit.org)
I want teachers and students alike to realize that education, like economic units, is a commodity, and we need to understand how it is that we distribute it. If we don’t acknowledge the commodified way in which we distribute education unequally, we will never be able to change it, and allow equal access to education for all students.

How would you describe education in general? How does that shape what you think we should change about education?
I think of education as a connection of economy, politics and culture. Textbooks, for example, which shape our curriculum in large part, represent what powerful groups have deemed as legitimate knowledge. Our curricula are the result of hegemonic and counter hegemonic movement. And, the more that we acknowledge that textbooks and curriculum are subject to multiple readings and interpretations, are a circuit of cultural production, the more we will be able to work with students to look for what they think is legitimate and meaningful knowledge, and not just take everything we read and see at face value. Everything, especially knowledge, is full of cultural contexts, of which we will probably never be fully aware; but the more we question this context and bring them to light, the better we will be able to provide our students with a quality education. (Apple, 1996)

What is one way that educators can work to bring the ways in which we deem knowledge as legitimate to light?
Critical discourse analysis is one way that I have found legitimacy in questioning where knowledge comes from, and whose knowledge is legitimate. Language has a role in producing meaning, and it always has a social context. The dominant discourse is a product of historical synthesis of events, social formation and culture, and it looks organic, but is often a result of the forces of society. We need to be careful and aware of these forces. Critical discourse analysis has as its goal to destabilize authoritative discourse, and to generate agency. This means giving teachers and students the tools to allow them to see texts as embodiments of particular representations of social and natural world, and of particular interests. It is all about resisting what we see, questioning its origins, and creating new knowledge and ways of knowing. (Apple, 1996)


What do you predict to be the future of education in the US?
I am optimistic in some ways, and pessimistic in others. For example, I am not optimistic about the future of urban schools. I see their curriculum becoming more rigid, and less updated. This will become even truer as teachers are faced with having to do more and more work for less pay. The stress on teachers is incredible. This unequal distribution of benefits among teachers reflects the unequal distribution of wealth in larger society.

Teachers will also have to justify what they are teaching more and more, as ideologically-based groups try to push their own agenda in schools. This will only add to the stress that they face. This is part of the larger argument of what basic content should be taught in schools. However, more importantly, teachers are being told to focus more on how they teach, rather than on whatthey teach. Methods are trumping content, and this is dangerous. Without more of a focus on what they are teaching, teachers will have a hard time defending what they are teaching.
I hope that schools will continue to move away from a tracking system, and more toward a system that allows students to identify their strengths, and which provides teachers and personnel to help them develop those strengths. However, with the shortage in personnel growing greater all the time, it is unlikely that schools will be able to give much individual attention to students.

These fiscal constraints are having a profound impact on available resources for students. For one thing, as resources decline, there will be an accompanying decline in curriculum alternatives. Textbooks will get more and more outdated. This trend will be more obvious among poorer schools, and this will serve to increase the disparity between what privileged students will learn and what underprivileged students will learn. In short, without an increase in funding, without more attention paid to curriculum, students will continue to get the short end of the stick in education.

Additionally, curriculum is becoming more and more standardized, and teachers are losing control over what they are allowed and expected to teach. My fear is that as teachers use fewer of the skills that they have learned over the years, those skills will atrophy and be forgotten. They may begin to feel alienated from what they are teaching, which will lead to atrophy and burnout. This needs to be addressed.

Some of Apple’s Contributions to Education

Michael Apple has traveled extensively all over the world, bringing his message of education reform to anyone who wanted to hear it. He has also spent time in Africa, keeping schools whose status as an open school was threatened by government closure. He has taught in secondary as well as elementary schools, and has conducted studies of schools from the kindergarten level all the way to the university level. In these studies he looks primarily at the role of pre-determined curriculum, textbooks and knowledge determination on teachers and their classrooms. His concern is primarily for teachers, and for how they can move beyond the gendered, classed and politicized roles in the classroom.

Apple is also concerned with a return to conservative values, and with the conservative ilk that is now presenting itself more and more in schools. This concerns him because of a spiral of conditions that are presenting themselves. First, teachers are becoming more strapped for time, and are earning less and less money. This puts a strain on them in many ways, not the least of which is that they will have less time to spend on developing their own curriculum. Curriculum will become more and more standardized, and teachers will lose motivation to create original, engaging lessons. At the same time, conservatives who have political power will begin to demand more and more that teachers teach to their agenda, and that teachers justify what they are teaching. In short, the pressure will become too much for teachers, who have been taught in teacher school to focus more on methods, and less on content, and will not be able to defend their curriculum choices. In turn, they will burn out and either quit, or continue teaching without engagement. This is Apple’s worst nightmare.

The name of the game for Apple is resistance. Resisting cultural norms, resisting curriculum that was created without thought or question, resisting the urge to make things easy and painless. Without resistance, Apple argues, education will be on a steep decline.
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A Galáxia da Internet: a rede é a mensagem

Manuel Castells é, de certo, um pioneiro nas pesquisas histórico-sociológicas sobre a sociedade em rede. A seguir, uma recensão do seu A Galáxia da Internet. A rede é a mensagem.



Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Numa referência ao que McLuhan chamou de “A Galáxia de Gutenberg”, criada a partir da difusão da máquina impressora no Ocidente, Manuel Castells denomina seu livro de “A Galáxia da Internet”, que no decorrer de seus capítulos transmite uma análise e uma reflexão sobre as transformações sociais, econômicas, políticas e culturais produzidas no final do século XX, com a emergência da Internet e a sua conseqüente utilização em escala global.
O livro possui uma introdução – “A rede é a Mensagem” – e uma conclusão – “Os desafios da sociedade em rede”. O conteúdo principal organiza-se em nove capítulos, cada qual com uma pequena introdução ao tema que será desenvolvido e com a respectiva bibliografia no final de cada capítulo.
A Galáxia da Internet inicia fazendo um panorama da história da Internet. O primeiro capítulo, “Lições de História da Internet”, traz a descrição de uma seqüência de acontecimentos relevantes da formação da Internet, desde 1962, passando pela Arpanet, até cerca de 1995, quando a rede começava a se consolidar. Também expõe a importância do movimento Open Source, a cultura hacker, e o conceito de copyleft (que seria o avesso do conceito de copyright) na estruturação e desenvolvimento social e técnico da Internet.
O segundo capítulo, “A Cultura Internet”, trata ainda do contexto de criação da Internet, mas do ponto de vista social e cultural. O autor esclarece que a cultura da Internet está diretamente ligada ao seu desenvolvimento tecnológico, e explica como o código aberto possibilitou a maior utilização, modificação e replicação do conteúdo da rede, e da rede em si. A partir daí surgem as quatro camadas culturais que deram forma colaborativamente à Internet, que o autor desenvolve nesse capítulo.
A expansão dos setores mais dinâmicos da economia mundial, após a expansão da Internet, é abordada no capítulo três, “Negócios eletrônicos e a nova economia”. Castells sugere o termo e-economia para definir esta nova economia, que segundo ele “emerge do interior da velha (economia), como resultado da utilização da Internet pelas empresas para os seus próprios fins e em contextos específicos”.
O autor avalia e explora o surgimento de novas formas de interação social em “Comunidades virtuais ou sociedade em rede?”, quarto capítulo da obra. Ele expõe algumas questões como os perigos da comunicação em rede, o isolamento social do indivíduo, a quebra da comunicação social e da vida familiar, e o desempenho de fantasias on-line – onde os indivíduos vivem realidades virtuais, fugindo do mundo real. Situações que podem existir pontualmente, mas que não são generalizáveis, tornando-se “difícil chegar a uma conclusão definitiva sobre os efeitos que a rede pode ter sobre o grau de sociabilidade” (Castells, 2004).
Nos capítulos cinco e seis, respectivamente “A política da Internet I: redes de computadores, a sociedade civil e o Estado” e “A política da Internet II: Privacidade e liberdade no ciberespaço”, Castells contextualiza o controle político das redes, e a relação existente entre governo e sociedade, e o poder de detenção da informação. Ele mostra como a liberdade e a privacidade na Internet se tornou conseqüência direta da sua comercialização. Volta-se novamente ao conflito da liberdade: Por um lado, a ideologia libertária que tenta a todo o custo conservar a Internet como este novo terreno de oportunidades. Por outro lado, um grau de controle que aumenta exponencialmente, com a crescente mobilização dos recursos dos governos para podar esta liberdade.
Em “Multimídia e a Internet: Hipertexto além da convergência”, capítulo sete, numa tentativa de compreender os novos modelos de comunicação, o autor analisa a convergência entre Internet e multimídia. Ele reflete sobre as práticas midiáticas atuais que se baseiam na Internet, tais como o compartilhamento de áudio e vídeo, os jornais disponíveis on-line, entre outros. Também conceitualiza e distingue os meios de comunicação dos meios de entretenimento, dentro e fora da rede, e a personalização do conteúdo hipertextual.
Castells analisa e reflete no penúltimo capítulo de seu livro – “Geografia da Internet: lugares em rede” – um dos aspectos mais importantes na Era da Internet: a desigualdade de implementação e de expansão da Internet, que provoca uma lacuna cada vez maior entre o primeiro e o terceiro mundo. O autor faz a análise da geografia da Internet sob três aspectos: a geografia técnica (distribuição física), a geografia dos utilizadores, e a geografia econômica de produção da Internet (concentração dos produtores de conteúdos Internet). Nos três pontos, o autor identifica uma correlação entre o uso da Internet e a dimensão das cidades e também que as zonas mais pobres do planeta são as mais afastadas das infra-estruturas da Internet, independentemente da sua densidade populacional.
No último capítulo, “A divisão digital numa perspectiva global”, Manuel Castells retoma a questão abordada no capítulo anterior. Estuda a relação existente entre os níveis de acesso à Internet e as fontes sociais da desigualdade, e como a Internet contribui para que se acentuassem as diferenças sociais. Ele conclui que Internet “não é apenas uma tecnologia: é o instrumento tecnológico e a forma organizativa que distribui o poder da informação, a geração de conhecimentos e a capacidade de ligar-se em rede em qualquer âmbito da atividade humana” (Castells, 2004), e que a sociedade em rede poderia representar uma possibilidade de participação e interação democrática, entre governos e cidadãos, na construção de um mundo melhor, concretizando a disseminação da Internet de fato para todos os cidadãos ao redor do mundo.
A obra de Castells proporciona ao leitor, de forma literal e ilustrativa, uma viagem pela Galáxia da Internet, com uma linguagem clara e idéias bem estruturadas no que diz respeito aos termos relacionados à Internet – o que torna a leitura instigante e fascinante, principalmente para quem está inserido no meio da comunicação digital. O autor apresenta de maneira seqüencial os pontos mais importantes referentes à criação histórica, cultural e política da Internet e a correlaciona à emergência e a consolidação de uma nova economia, às novas formas de sociabilidade em rede, participação social e intervenção política. Uma leitura fundamental para quem deseja ir além ao entendimento da Internet e da sociedade em rede.
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A saúde, os cursos e a população

Abaixo, artigo publicado pelo Jornal Folha de São Paulo, focando uma questão de extrema relevância atualmente.

Quando o aluno não tem o perfil

ANTONIO CARLOS LOPES*


A prática da medicina está ameaçada no Brasil. Basta abrir as páginas dos jornais para constatar uma verdadeira crise anunciada que inclui notícias como a abertura indiscriminada de escolas médicas, a flexibilização da residência médica e as tentativas de revalidar automaticamente diplomas de médicos formados no exterior sem exigir comprovação de capacidade, apenas para citar alguns exemplos.
O resultado desse cenário é um profissional com formação deficiente para exercer a medicina.
Sempre digo que para ser médico, além da disposição para enfrentar, com trabalho árduo, as dificuldades habituais inerentes à profissão, são necessárias características especiais. É fundamental gostar de gente. O bom médico também deve ser imbuído de firmeza de caráter, senso humanístico, consciência coletiva, amor à vida. Esses atributos não são adquiridos na faculdade. É uma questão de formação pessoal.
Hoje, com a porta dos vestibulares aberta, a seleção coloca para dentro das escolas médicas principalmente os candidatos que têm mais conhecimento teórico, não os que de fato possuem as importantes características citadas acima.
Por isso considero absurda a abertura de grande número de vagas sem critério de avaliação rigoroso. Desse jeito, é grande a probabilidade de entregarmos a prática da medicina a indivíduos com as mais distintas fragilidades.
Atualmente, mesmo em vestibulares bem feitos e nas principais escolas medicas, sempre nos deparamos com alunos que passam pela seleção, mas que não têm perfil adequado para a medicina. O indivíduo se arrasta pelo curso de graduação, mas, quando chega à residência médica e é impelido a tomar decisões e conviver com a morte, não possui estrutura psicológica.
No exercício desta profissão, as decisões que podem ou não salvar vidas são tomadas sem ter quem confira. Quem que não tem vocação acaba abandonando o curso, desenvolvendo depressão ou outros distúrbios psicológicos.
Para evitar tantos problemas advindos da deficiência do vestibular, o ideal seria que os pretendentes à carreira médica fossem avaliados também por um exame psicotécnico. Na medicina, não lidamos com máquinas, mas com seres humanos. Essa prerrogativa é, por si só, um diferencial em relação às outras profissões liberais.
O Brasil não precisa de tantos médicos. Precisa, sim, de bons médicos. E selecionar bem os futuros profissionais da medicina é primordial para mudar a triste realidade da saúde no país.
Paralelamente, é mister continuar lutando pela implantação de uma política de governo sólida que fixe os profissionais em regiões afastadas, com remuneração digna e possibilidade de desenvolvimento contínuo. Aí sim, alcançaremos o que sempre sonhamos.
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* ANTONIO CARLOS LOPES, 64, é diretor da Escola Paulista de Medicina da Unifesp e presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Existir é autopromover-se?


Extratos de um texto de Umberto Eco - curtos, mas significativos. 
Eco: risco da busca de notoriedade a qualquer preço 

Umberto Eco 

1. Já há algum tempo a ênfase na reputação cedeu lugar à ênfase na notoriedade. O que importa é ser “reconhecido” pelos outros. Não no sentido de estima ou de prêmios, mas no sentido mais banal de quando se é visto na rua podem dizer: “Olhem, é ele/a”. A chave está em ser visto por muita gente e a melhor forma de fazer isto é aparecer na TV. 

2. Pelo menos na Itália esses primeiros heróis foram os “papagaios de pirata” que na noite seguinte num bar ouviam: Vi você na TV, ontem. Mas a fama não durava muito tempo. De forma que gradualmente foi aceito que para poder fazer aparições frequentes e proeminentes, era necessário fazer coisas que, em épocas passadas, teriam arruinado a reputação de uma pessoa. 
3. Não é que não se aspire a ter uma boa reputação, mas é bastante difícil adquiri-la. É mais fácil converter-se em uma pessoa de interesse popular, especialmente, o que facilita, nas variedades mais mórbidas. Não estou brincando. Esses momentos de exposição e notoriedade bem valem até um tempinho na cadeia. 
4. Esse desejo frenético de ser visto, e de obter notoriedade a qualquer preço, mesmo que signifique fazer algo que antes era considerado vergonhoso, é porque se vai perdendo o sentido da vergonha, pois, atualmente, é mais importante ser visto, ainda que isso signifique o risco de cair em desgraça.
5. É tanto o valor que se dá ser visto, e assim converter-se em tema nas conversas, que pessoas estão dispostas a abandonar, sem temores, o que antes era chamado de decência (e até a proteção da própria privacidade).
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Fonte: http://cesarmaia.blogspot.com.br/

domingo, 16 de setembro de 2012

Rumos da universidade brasileira: impasses e incoerências do Programa Ciência sem Fronteiras

Tenho repetido, neste espaço, que há uma carência de dirigentes universitários com o feeling de um Naomar de Almeida Filho, ex-reitor da UFBA. Nos últimos tempos, do Nordeste, foi Naomar quem levantou questões de extrema relevância para o debate sobre o futuro do ensino superior brasileiro. Vejamos mais esta: o Ministério da Educação vem alardeando um marketing desmedido em torno do Programa Ciência Sem Fronteiras. Pois bem, Naomar, agora não mais como reitor, chama o MEC às falas, conforme pode ser lido no artigo a seguir. 


Ações afirmativas sem fronteiras 

Naomar de Almeida Filho 

Desafiada por Obama, Dilma Rousseff lança o programa Ciência sem Fronteiras, oferecendo 75 mil bolsas de estudos no exterior.

Em fase de elaboração, o programa levanta polêmicas. Por um lado, prioriza somente áreas tecnológicas, principalmente engenharias, onde haveria menor capacidade nacional de formação. Por outro, encaminha os bolsistas às melhores universidades do mundo em cada área, numa lista feita com base em rankings internacionais.
Serão inéditas 25 mil bolsas-sanduíche de graduação. Aplausos! Mas aqui antevejo dois problemas.
Primeiro, há incompatibilidade entre as estruturas curriculares dos países receptores e o arcaico regime de formação linear que adotamos no Brasil. Na América do Norte e na Europa, egressos do ensino médio em geral não entram diretamente em cursos profissionais.
Por mais sem fronteiras que se pretenda o programa, não cabe esperar que as universidades estrangeiras se submetam ao modelo brasileiro, ainda bonapartista.
O segundo problema é mais preocupante. O critério principal de seleção dos estudantes será (e não poderia ser diferente) o domínio do idioma inglês. Ora, este é justamente o novo divisor de classes no Brasil, onde jovens pobres (ou da "nova classe média", como dizem alguns) nunca fizeram intercâmbio nem tiveram bons cursos de inglês ou acesso livre à web.
Em contraste, os filhos da classe média/alta urbana, fração dominadora da sociedade, tendencialmente são bilíngues e cosmopolitas.
A se manter tal critério de seleção, o Estado brasileiro custeará programas de estudos nas melhores universidades do mundo justamente para aqueles que já dispõem de capital econômico, cultural, social e político.
Nesse cenário, a perversão da educação superior completaria uma dinâmica de mal-efeitos: (i) o ensino básico público não prepara seus alunos para acesso às universidades públicas, que (ii) têm ensino de melhor qualidade e que, por isso, recebem em maioria alunos de classe média e alta que, (iii) adestrados pelo ensino médio privado e caro (porém subsidiado por maciça renúncia fiscal), garantem aprovação nos duros processos seletivos das instituições públicas.
Excluir do programa justamente aqueles que mais necessitam de apoio social, jovens de grande potencial, talentosos, porém pobres, apartados da cultura dominante no mundo globalizado, será a quarta perversão, inominável iniquidade.
Proponho duas soluções imediatas: 1) cotas sociais para acesso ao programa, sem prescindir do domínio de língua estrangeira; 2) programas intensivos de preparação realizados na universidade brasileira, com estágio na instituição estrangeira, prévio ao curso. Tais medidas podem ser exigidas nas parcerias interinstitucionais.
Mas há uma solução estratégica e sustentada. Compreende a implantação no Brasil do regime de ciclos, especialmente na modalidade bacharelado interdisciplinar, compatível ao "college" norte-americano e ao "bachelor" de Bolonha. Esse regime já existe em 13 universidades públicas brasileiras, com mais de 9.000 alunos.
Ampliá-lo, por um lado, supera a incompatibilidade entre currículos; por outro, permite preparar alunos de origem social humilde nos repertórios linguísticos e culturais requeridos, além de acolher com mais facilidade os créditos cursados no retorno. Precisamos tornar a internacionalização da educação superior brasileira um instrumento de desenvolvimento social, competente e justo.



NAOMAR DE ALMEIDA FILHO, pesquisador 1-A do CNPq, é professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, da qual foi reitor.
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