quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O ponto em que o olhar exercitou a sua profundidade: a criança, o adulto e a 'lei do eterno retorno'

espiral

No filme Meia Noite em Paris, o ator Owen Wilson, ao se perder pelas ruas da cidade, transforma-se em um viajante do tempo, de volta ao passado. Regressar a passados distantes vividos ou imaginados talvez seja um desejo acalentado por muitos e muitos em toda parte. Mas só na memória isso é possível, porque a mente é eterna-mente. Viagem memorial por paisagens que, assim, na mente, se afiguram como se o viajante as observasse de um belevedere temporal. Tal como pretender uma viagem ao tempo que já se foi tem uma nuance de melancolia, olhar o tempo como que interrogando o porvir parece ser um ato misto de encanto e desencanto. Porque ‘a cor do tempo quando passa’ revela tonalidades que descolorem a existência.  Perante o registro fotográfico,  a criança lança um olhar fixo atravessando os ares do ambiente em que está e que vai imbuído de uma inquietação posta para além da ideia dos pais de parar aquele momento, em foto, para mostrá-lo no futuro.  Mas, lembra Walt Whitman, “quão diferente é o cheiro do meio dia do da meia noite, o cheiro do outono do cheiro do inverno, o de um momento de brisa de outro de calma.”
Falava Nietzsche que a criança está para além do bem e do mal, e que, com a força do seu  olhar intelectivo e da sua penetração, cresce a distância (e, de certo modo, o espaço) que circunda o homem: o seu mundo torna-se mais profundo, avistam-se continuamente novas imagens e novos enigmas. Não sabemos até que ponto. É provável que nunca saibamos. Mas deve ser colocada a hipótese segundo a qual, no registro fotográfico, a criança, numa atitude similar à da Física Clássica, fita o escoar do tempo que constitui tal momento indagando-se sobre o significado do registro que está a ser feito. Olhos do crescimento na observação do tempo: encanto e desencanto juntos. Nietzsche novamente: talvez em tudo aquilo que, um dia, o olhar exercitou - desde cedo - a sua sagacidade e profundidade venha a ser a razão da volta ao ponto inicial. A ideia de eterno retorno.