quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A crise da ciência brasileira


Por  Atila Iamarino

Não é novidade que estamos em uma crise financeira das bravas. E a ciência foi pega pelo colarinho nessa, agências de pesquisa com verba cortada, universidades sem financiamento, etc. Nos corredores da USP – não sei das universidades fora de São Paulo, mas imagino que não seja melhor – o clima é de derrota. Bolsas de pesquisa novas não saem, bolsas já concedidas aos departamentos não são renovadas e os projetos de pesquisa, se aprovados, só com sérias restrições orçamentárias. Isso enquanto o dólar dispara do outro lado, fazendo com que cada meio real aprovado valha menos. Imagine que uma demora de alguns dias de uma cotação de equipamento é o suficiente para inviabilizar uma compra que não era opcional. Isso quando o dinheiro vem.
Pelo menos, ainda estamos na fase da derrota, não do desespero. Ainda. O desespero vem quando o maior número de doutores já formado se deparar com um mercado de trabalho em crise e sem demanda nenhuma por mão-de-obra  tão capacitada, órgãos públicos sem novas vagas e impossibilitados de abrir concurso e uma possível obrigação de permanecer alguns anos no país, depois de uma bolsa no exterior com essa obrigação. Pelos menos os jornalistas demitidos não se sentirão mais como os profissionais mais bem formados e mal pagos do mercado. Mas, como disse, parte da culpa pelo que está acontecendo é nossa.
Em uma crise onde os gastos públicos precisam ser cortados a qualquer custo, por onde o governo começa? Serviços não essenciais, gastos exorbitantes, assessores e privilégios de gabinete desnecessários? A não ser que você queira acabar com qualquer chance de eleição, se começa pelo que perde menos apoio político e menos votos. E é aqui que o ostracismo acadêmico nos condena. Se o governo quiser fazer cortes agressivos sem incomodar nenhum eleitor, a ciência é um alvo ridiculamente fácil.
Pare qualquer transeunte na rua e pergunte o que muda na vida dessa pessoa se a pesquisa brasileira deixar de ser financiada e conte quantos serão capazes de dar alguma resposta. Pergunte o que ele acha que um professor ou um pesquisador faz dentro da universidade. Ou em quais áreas o Brasil é líder em pesquisa. Ou pelo menos em quais áreas somos fortes. O Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) perguntaram exatamente isso e descobriram que 87% dos brasileiros não lembram o nome de uma instituição de pesquisa. Uma. E  94% dos entrevistados não sabiam o nome de um(a) pesquisador(a) brasileiro(a), o pior resultado desde que a pesquisa começou. E o 8º cientista brasileiro nomeado foi… Albert Einstein. Isso porque a maior parte dos que responderam se disseram interessados por ciência.
A universidade ainda é um espaço para privilegiados que conseguiram ingressar.
Não é um espaço popular [pelo menos tradicionalmente em muitos cursos; embora nos últimos anos alguma mudança tenha ocorrido] . E, mesmo assim, não são as vagas de graduação que estão sendo cortadas, embora não duvide que a situação chegue a esse ponto. O maior destaque que a USP, universidade que mais publica pesquisa no país, recebeu na imprensa recentemente foi justamente como seriam exorbitantes os salários de seus professores. Que empatia pública isso gera?
No Workshop ‘Comunicação e Pesquisa,  realizado este ano, que não poupou elogios sobre a importância e o prestígio da USP, o jornalista de ciência Marcelo Leite apontou o que vê como as maiores dificuldades para o jornalismo científico ter acesso à pesquisa da universidade. Quando destacou que, com dois cliques nas páginas de Harvard, conseguia achar o nome e telefone de um dos biólogos mais prestigiosos da atualidade, E. O. Wilson – na verdade, só precisei escrever  E O Wilson Harvard no Google e achei o link no primeiro resultado. E se um jornalista ligar para aquele número, Wilson atende e está disposto a dar entrevista. Enquanto o Portal da USP atrapalha mais do que ajuda. O que Marcelo Leite não citou é o incentivo que motiva a diferença: pesquisadores americanos dependem dessas entrevistas para ter verba para pesquisa. Aqui no Brasil, pelo menos até os dias atuais, nós não dependemos. Enquanto o pesquisador americano depende de várias fontes de financiamento que muitas vezes são incentivadas pelo destaque que ele tem na mídia, cientistas brasileiros são julgados pelo quanto e onde publicam, ou até pelo número de alunos que formam. Mas ninguém é julgado pelas atividades de divulgação científica que faz. O resultado é que, para o cientista brasileiro, dar entrevista é literalmente perda de tempo (a curto prazo, vamos chegar nas consequências logo mais); tempo que se for investido gerando dados, gerenciando alunos ou escrevendo publicações seria convertido em verba para as pesquisas.
Ao longo dos tempos, vivemos a situação cômoda de ter um orçamento público garantido que não demandava nenhuma satisfação a respeito de atividades,  além de projetos bem apresentados, gastos regulares e publicações científicas. Note que os três são fundamentais, mas nossas obrigações dialogam só com duas parcelas de interessados, a parte política, através das agências de fomento, e os outros cientistas, através das publicações. Nenhuma das duas envolve quem desembolsou o dinheiro: o público. Nos contentamos com o prestígio dos pares. O resultado é que raramente o público é informado sobre o que financia. Não sabem o que se passa dentro da universidade, porque financiam pesquisa e a compra de equipamentos caríssimos, entre outros.
A NASA é um ótimo exemplo da importância da divulgação científica. Dependem de verbas [os pesquisadores] colossais para qualquer coisa. E a maior parte desse financiamento é público. Ou seja, precisam de apoio. Por isso mesmo fazem tanta divulgação da pesquisa que desenvolvem, convidam a imprensa para fazer estardalhaço a cada descoberta. O público americano sabe por que está financiando a NASA.
Tão importante para a SBPC quanto escrever manifestos e cartas pedindo o aumento do investimento em pesquisa é falar para o público o quão importante a pesquisa éPrecisamos falar sobre ciência, explicar o que é a pesquisa, fazer divulgação, dar entrevistas, fazer vídeos, contar histórias sobre o que queremos defender. Se eu consigo falar com 1 milhão de pessoas no YouTube, não é possível que as universidades não possam fazer o mesmo. Agir para ter o apoio e reconhecimento popular é tão importante quanto cobrar mudanças políticas. Ou são as Olimpíadas que estão sofrendo corte de verba?
A Dilma sabe qual a importância da pesquisa e do prejuízo futuro de acabar com a pesquisa nacional (espero). Os outros cientistas e acadêmicos sabem o prestígio que a pesquisa tem.
Lembre-se: 87,2% não sabem nomear uma instituição de pesquisa.
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Fonte: http://scienceblogs.com.br/


'Duas sombras que se reúnem'

Por Pablo Neruda 

Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama...

De todas as verdades escolheram o dia....
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras...
A ventura é uma torre transparente...
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos...

Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem...
têm da natureza a eternidade...

terça-feira, 29 de setembro de 2015

O tempo das cosias

cone 4.jpg

Por Lolô Sganzerla

O tempo que me habita não é o tempo das coisas. As coisas, elas têm um tempo próprio. Elas começam e acabam e transformam a gente nesse durante, num ritmo que é delas - e isso aí vira o nosso tempo. Mas as coisas, elas são como as estações do ano. Por exemplo, eu me pergunto como as árvores conseguem superar os invernos. Você não? Você nunca se espanta? Olhando pra elas lá, firmes, imperiosas, isoladas, nuas?
Admiro a paciência do carvalho. A impassividade dos pinheiros. Elas têm a compreensão profunda da hora certa, a paciência da espera para as coisas com hora marcada. É que as árvores vivem a eternidade do tempo certo. Elas não têm nem antes nem depois: são somente o agora.
Já eu… eu não. Ao contrário de mim, as árvores não têm vontade. Você já viu uma árvore ansiosa? Uma árvore em crise de pânico?
Como seria possível para nós, filhos do acaso, saber a precisão do tempo de cada coisa? Como acertar o tempo certo, com a exatidão da folha, que se recolhe, impassível, na espera de desabrochar com mais beleza? Esse instinto de relógio cuco não me pertence - desses que não atrasam um segundo e vêm com um pássaro impiedoso para não perder uma chance de me lembrar que tudo tem um tempo próprio: o amor, a solidão, o sexo, o riso.
Alguns povos tinham como sagrado esse papo do tempo das coisas, da medida exata, do momento presente. Mais que uma elegia ao equilíbrio, era o culto ao instante. Eles não subestimavam o poder do agora. Admirei. É um exercício para os fortes esse de lembrar de nunca esquecer que tudo pode mudar a qualquer momento. Diante disso, eu especulo: bastaria a demanda correta, um gesto, uma exigência para acertar o passo de cada um na dança da existência, que é sempre rumo ao fim? Seria possível conviver em paz com o que está sempre se esgotando?
Olhar o presente de frente é saber que só ele existe. É viver na finitude, no que escorre pelos dedos. Viver com isso tudo na sua cara exige a “franqueza” das crianças. Porque você vai cair na tentação de esquecer que tudo, absolutamente tudo, acaba. Você vai se perder nas bobagens do dia a dia ou transformar a agilidade da moça do mercado em uma pedra filosofal capaz de determinar o sucesso ou fracasso da sua existência - e resumir isso tudo apenas numa atitude inadequada e mal direcionada, para não apontar tantos dedos... Porque é perturbador lembrar o tempo todo que tudo, absolutamente tudo, passa.
Menos o tempo das coisas.
O tempo das coisas é eterno. Mesmo que você não esteja mais presente, que tenha decidido ir embora, ou mesmo quando a gente decide abandonar tudo e vem aquela ânsia de sair pelo mundo e recomeçar. Também nessa hora o tempo das coisas está lá, pra colocar você no seu devido lugar. E você, quando saiu, deixou o tempo da sua ausência. Nunca o do seu retorno. A volta, ela é sempre mais rápida. Tudo fica mais fácil quando a gente já conhece o caminho.
Eu queria poder decretar uma lei que impedisse que algumas frases fossem compostas. Algumas palavras deveriam ser como elementos químicos, ter naturezas incompatíveis, combinações impossíveis de acontecer, impensáveis. Talvez assim eu conseguisse tornar algumas ações impraticáveis, algumas dessas que eu pratiquei. Elas seriam possibilidades que não existiriam mesmo nos sonhos mais loucos. Mas os sentimentos, assim como as palavras, são elementos complexos, independentes, que se ligam das formas mais estranhas para criar uma dinâmica particular. Eles se tornam mais profundos do que o que se deseja ou se espera deles, num compasso maluco que nos ensina, mais uma vez, a precisão da hora certa.
Por isso, veja bem, a importância do tempo das coisas, você me entende? Não dá pra acelerar ou deixar pra trás o ritmo dos sentimentos sem se tornar um hipócrita, um cretino ou cínico. Eles, como as coisas, têm o tempo que tem que ter e não dependem mais de mim ou de você ou de ninguém. Mesmo que pareça impossível concentrar no corpo a calma das árvores, o tempo das coisas acontece em nós. Justo em nós, que ficamos sempre perplexos pelas dissonâncias do que nos acontece. Justo em nós, que olhamos assombrados para o nada, nosso destino, nosso fim. Justo em nós, que precisamos transformar em nosso o tempo do outro… sem jamais esquecer que ele é do outro.
E eu? Eu tenho que aprender a me demorar mais. A me demorar mais em você, nas coisas. Precisamos de mais tempo. Não sou só eu que me perco na duração do instante. É que as palavras - e junto com elas os sentimentos - se encontram e se combinam de forma abrupta na trama dos eventos, eu acho que só para determinar algumas escolhas. Me aconteceu você. Eu aconteci em você. Abortamos. Tempo errado.
Por isso, eu preciso encontrar uma forma de conquistar a impassividade dos pinheiros que sabem de cor a hora de cada pinha. Eu sou sempre antes, sempre cedo demais e, quando eu me dou conta, já é tarde demais. Aí o que me resta é perambular pelas dobras do tempo, quando ele deixa de ser linear, e se dobra em mim, na minha dor, na minha incapacidade em apreender o ritmo do mundo. Nessa hora ele habita o pensamento, ali se vive tudo ao mesmo tempo - nesse espaço impossível -, o antes, o depois e o agora. Não importa a ordem. Será que é assim que abandonamos o que já foi sem nos lançarmos, como uma flecha, ao abismo que é o futuro?
Foi assim que eu aprendi que tem coisas piores do que ficar sozinho. Poderia não ter amigos. Poderia ser incapaz de lapidar a palavra.
Só não pode ser cedo demais ou tarde demais. Agora preciso esperar que o próprio tempo dissipe esse aborto que é o cedo demais.
Nessa hora eu invejo profundamente toda e cada árvore. Elas vivem os invernos da alma com leveza. A tristeza, ela também é parte da vida. Então vou falar uma coisa, dessas que todo mundo sabe mas não tem muita coragem de falar em voz alta: precisamos aprender o tempo do triste. Eu e você. Para lembrar que ele também é tempo e, como tudo, passa. Só que eu, eu tenho uma natureza alegre. Ela é pouco tolerante ao tempo do cinza. Uma combinação difícil. Como conciliar forças tão divergentes? Se eu tivesse a natureza dos bambus, me curvaria, quieta, nos dias de vento e esperar passar. Se eu cultivar na alma a natureza de todas as árvores, será que eu consigo aplacar a fúria da pressa?
Porque o tempo, o tempo é tudo o que temos. O tempo das coisas que duram ou das que terminam. Há uma dignidade no fim. E há uma dignidade no tempo dos sentidos, assim como há uma dignidade na tristeza também.
Só assim podemos conviver com nossos erros e acertos ou nossas vidas destruídas: aceitando as coisas com o tempo de cada uma. De frente. No presente. Porque também há uma dignidade no fracasso. E há uma dignidade inclusive no desespero - a mais terrível forma de tristeza. É uma tristeza que não se quer se saber triste nem aceitar o tempo da espera. Mas também é quando a dor do erro descobre que não tem mais o que esperar. Quando não há o que esperar, o tempo aquieta. Paralisa.
Aí você me pergunta: e você?
Eu?
Eu desesperei - enquanto todos encaravam, com horror e espanto, a fragilidade de uma alma incapaz de se render ao tempo das coisas.
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Fonte: http://obviousmag.org/
   

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Crepúsculo da memória, temporalidade degradada e melancolia da finitude

Fachada do museu René Magritte, em Bruxelas, Bélgica 

Por Ivonaldo Leite

O tempo é uma superfície oblíqua e ondulante que só a memória é capaz de fazer mover e aproximar
(José Saramago) 

Entre a morte e as ruínas históricas pode ser estabelecida uma relação que evoca necessariamente uma reflexão sobre a degradação temporal. Os sentimentos que experimentamos sobre esse tribunal do tempo, sobre essa temporalidade degradada, nos provocam uma deprimente tristeza.
Ao constatarmos o perecer de uma vitalidade consciente, o falecimento de uma pessoa estimada, atormentamo-nos no desconsolo das lembranças, mesmo quando se busca apoio nas crenças religiosas. Assim é a morte. Ela nos aporta uma pergunta sem resposta: ‘Por quê?’ Por não termos uma resposta confortante, emerge uma dor profunda e, na sua sequência, a melancolia que se nos apodera ora nos oprime no desaparecimento, ora nos indaga nos tormentos sobre o significado das vidas individuais. Lágrimas são vertidas.
Se a sensação vazia do desaparecimento que sentimos, diante do túmulo, nos provoca o luto e nos aprisiona à passividade, é na indagação sobre o significado e a validade das vidas individuais onde podemos encontrar o caminho que nos conduz a superar o desconsolo melancólico, para devolvermo-nos  ao mundo ativo da história. Perante o morto não há consolo, pois ele pertence ao domínio do desaparecimento e da finitude. Somente com o nosso retorno ao mundo ativo da história dos vivos, podemos reconciliar-nos com a universalidade da vida. Quer dizer, é na reconciliação com a vida que temos o lugar onde poderemos encontrar a valorização do desaparecido. Contudo, não como desaparecido em si, mas na expressão de sua universalidade vivida, no produto de sua atividade, que se apresenta como legado e na significação exemplificativa.  
Se é verdade que a analogia entre as ruínas históricas e a morte leva-nos necessariamente à reflexão sobre o crepúsculo das vidas individuais, também o é que ela nos conduz à introspecção indagativa sobre a degradação do patrimônio histórico dos lugares. Praças, casas, prédios, etc., com raízes históricas em distantes idos, são a memória, um reflexo da ‘cor do tempo quando passa’, a alma de modos de vida de determinada época materializada em construções, lembrando-nos que, em boa medida, o nosso lugar presente foi edificado pela ação das gentes de tempos outros. Quando o patrimônio histórico de uma cidade não é respeitado, não sendo preservado, a sua memória verte lágrimas. E limita os seus habitantes a um “presentismo” marcado pelo analfabetismo histórico.
Tal como o perecer das vidas individuais, a desatenção ao patrimônio histórico representa o ocaso do próprio lugar. Daí que, em cidades com ‘longas raízes históricas’, o poder público estabeleça instâncias administrativas específicas (departamentos) para cuidar da preservação da memória histórica, criando, por exemplo, como iniciativa de fomento ao turismo, corredores culturais (não físicos, portanto) na rota de antigos prédios, casas e casarões. Bem sabe-se, nessas cidades, que, além do seu patrimônio histórico ser um ativo turístico e de captação de recursos, se dele elas não cuidarem não terão futuro. Afinal, a construção deste é resultado do labor de homens e mulheres que, como cantou Vandré, têm “a certeza na frente, a história na mão.”


Brasil: forças políticas em movimento e futuro

Enquanto o governo da Presidente Dilma segue na imprevisão da sobrevivência, dois fatos merecem registro: 1º) a oficialização da criação da Rede Sustentabilidade, da ex-ministra Marina Silva, provocando defecções em vários partidos (até no PSOL); 2º) o parecer favorável da Procuradoria Geral da República para que a Polícia Federal colha depoimento do ex-Presidente Lula, como testemunha, no âmbito da Operação Lava Jato. Neste último caso, mesmo que, até o presente, não exista investigação contra o ex-Presidente, trata-se de uma decisão incômoda ao governo, comemorada, por outro lado, por os que desejam a prisão do ex-mandatário. É mais um ingrediente de desgaste no tormentoso quadro que vive o governo federal. No tocante ao primeiro fato e os seus desdobramentos, tem-se a volta da ex-ministra Marina Silva à cena política nacional, com um protagonismo que não se via desde a sua derrota na eleição presidencial do ano passado. O que isso significará? Uma análise de todo esse processo, pela pena do Prof. Aldo Fornazieri, pode ser lida aí abaixo. 

Por Aldo Fornazieri
  
Entre as possibilidades de impeachment e renúncia e de não-impeachment e não-renúncia de Dilma, muitos acontecimentos imponderáveis e não previstos poderão e deverão ocorrer até 2018. Mas esta conjuntura crítica que caracteriza o atual momento histórico do Brasil é de longa duração e se define por dois elementos estruturantes: 1) a crise de deslegitimação do sistema e dos atores políticos; 2) a crise econômica. Não há nenhum indício de que estas duas crises, com suas imbricações e suas autonomias, tenham algum tipo de solução satisfatória até 2018, independentemente do desfecho da crise específica que atinge o governo Dilma.
No plano da crise política, o divórcio que existe entre a sociedade e o sistema político, entre os eleitores e os representantes, entre o povo e os governos tem causas complexas e é de difícil solução. Dentre outras causas está a percepção de que o sistema é estruturalmente corrupto, de que os partidos e os políticos colocam seus interesses próprios acima do bem público, de que os políticos e agentes públicos graduados se beneficiam de cestas de privilégios, de que o poder público arrecada muito e entrega pouco, de que os governos perderam capacidade e eficiência na entrega de bens públicos e políticas sociais e de que o sistema tributário e de subsídios beneficia a elite abastada da sociedade. Na medida em que o presidencialismo de coalizão é também um presidencialismo de barganhas, a crise fiscal exauriu os estoques de ativos concedíveis pelo governo, provocando a perda de apoio no Congresso.
O colapso de legitimidade do sistema político teve seu apogeu em junho de 2015 e de lá para cá o que houve foi mais degradação e degeneração e não recuperação ou refundação. Nem as eleições de 2014 e nem os arremedos de reforma política foram capazes de recuperar a legitimidade do sistema, dos partidos e dos políticos. Dilma só conseguiu se reeleger porque existia uma reserva de apoio difuso, advinda dos resultados dos governos Lula.
A crise de legitimidade atinge os dois pontos nevrálgicos centrais do sistema político: a) a sua dimensão simbólica em face da degradação moral da política; b) a sua dimensão material, pela cessação da entrega de benefícios materiais por parte dos governos e pelos efeitos negativos no emprego e nas condições de vida que a crise econômica provoca. A legitimidade do Congresso não é melhor do que a de Dilma e os principais líderes do PMDB – Temer, Renan e Eduardo Cunha – também se situam no patamar de 10% de avaliação positiva. A sorte do PSDB não é muito melhor.
A crise econômica também é complexa e tem várias causas. A rigor, ela já vinha se estruturando no segundo mandato do governo Lula. Além de causas mais remotas, uma das causas mais evidentes é a crise fiscal. As crises fiscais, invariavelmente, têm deprimido as economias. A crise fiscal se compõe de dois eixos: o primeiro, diz respeito a causas estruturais e custos constitucionalizados. Nem os últimos governos e nem o Congresso se dispuseram a enfrentar esses problemas. O segundo eixo se refere a imprudência fiscal do primeiro mandato de Dilma e a má vontade de enfrentar o problema no inicio desse segundo mandato. As incompreensões do PT e as pautas-bomba da Câmara dos Deputados agravaram essa crise.
Mas a crise econômica se relaciona também com 30 anos de desindustrialização, à falta de um posicionamento do Brasil no contexto global, à exaustão do binômio crédito-consumo e ao esgotamento do modelo macroeconômico originado no Plano Real. O desenvolvimentismo de privilégios do governo Dilma (concessões e empréstimos a juros subsidiados à setores do capital, sem resultados efetivos), agravaram esse cenário.
Marina Silva e a Crise
Marina Silva adotou uma tática de baixo protagonismo ante a crise política e moral, cujas labaredas queimam o PT, o PMDB, o PSDB e outros partidos orbitais. Isto pode parecer um paradoxo em face das possibilidades de intervenção que a crise política suscita. Mas Marina pode estar certa em sua tática, pois intervir na crise significa intervir no vasto lodaçal, no qual, poucas coisas sobrevivem. Marina procura preservar-se no momento em que a Rede Sustentabilidade obtém o registro oficial.
É certo que Marina cometeu alguns erros graves após o surpreendente sucesso nas urnas, nas eleições presidenciais de 2010. O primeiro, foi não apostar imediatamente e com força na construção do novo partido. A prioridade do líder autêntico consiste em organizar suas forças próprias para que ele possa ter autonomia de ação. Somente aqueles que têm autonomia de ação lideram efetivamente. Assim, o agrupamento ficou de fora das eleições municipais de 2012 e chegou às eleições de 2014 na condição de subordinação ao PSB. Somente um acaso trágico permitiu que Marina se alçasse à condição da candidata presidencial, mas com frágil autonomia por conta das injunções do PSB. Mesmo assim, obteve um resultado eleitoral significativo.
O segundo erro foi a guinada à direita promovida durante a campanha. O programa de Marina, em alguns temas centrais, pouco se diferenciou do de Aécio Neves. Isto provocou desencanto em setores progressistas e abriu o flanco para ataques pesados e exagerados do PT.
As circunstâncias da crise e os ventos da Fortuna agora oferecem uma nova chance à Marina. Ela deverá chegar a 2018 preservada da devastação provocada pela crise. Estará no comando de sua força própria – a Rede. Poderá acumular forças em 2016 se adotar a tática de lançar o máximo de candidatos possível às eleições municipais, deixando as alianças para o segundo turno.
A Rede poderá ser o desaguadouro do descontentamento e da desventura de vários políticos e militantes. Desventurados do PT devem migrar para a Rede. Descontentes do PSol sinalizam o caminho da Rede. Na medida em que o PSDB de Aécio Neves se tornou o partido da bancada da Bala, do Boi e da Bíblia, os remanescentes de ideias social-democratas também poderão recorrer à Rede.
Mas para ter êxito, a Rede terá que encontrar o seu lugar. Este lugar não poderá ser nem de centro (congestionado) e nem de centro-direita (PSDB). Terá que ser de centro-esquerda, se é que essas designações representam ainda alguma coisa. Poderá ocupar um espaço político e social que, de alguma forma, foi do PT. Mas sem a roupagem e sem a retórica do PT. Para ser significativa, a Rede terá que ser o partido do novo progressismo. Enquanto organização, a Rede está mais próxima dos partidos burocráticos tradicionais e mais longe dos novos partidos-movimento que surgem na Europa. A agremiação não encontrou uma forma adequada de combinar a política vertical com a política democrática horizontal. A Rede tem permitido que apenas os seus fieis rezem em sua igreja.
Marina terá que decidir se quer ser a encarnação de uma nova liderança política lastreada na exigência de um discurso moral e humanista, ao mesmo em tempo que propõe e exige soluções práticas e eficazes para os problemas sociais e humanos. Isto exige um novo discurso, a retórica de uma nova esperança, uma crítica sem peias à desumanidade do capital financeiro e às iniqüidades das desigualdades sociais. Exige uma crítica qualificada a este capitalismo que está aí e que, no dizer do Papa Francisco, representa uma “forma sutil de ditadura”.
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Fonte: http://jornalggn.com.br/

'A morte sem mestre'



Embora com algum atraso, fica aqui o registro da partida do poeta lusitano Herberto Helder, considerado que foi, por muitos, 'o maior poeta poeta português da segunda metade do século XX'. Da sua obra me aproximei pelas sendas do surrealismo, âmbito em que a sua escrita começou por se situar. Figura um tanto enigmática, recusando prêmios, bem como conceder entrevistas e deixar-se fotografar, faleceu em março último, deixando uma obra monumental. Daí ser tido como um 'segundo Fernando Pessoa'. Aí acima, em voz, o realce em um dos seus últimos  trabalhos ('A Morte sem Mestre'); abaixo, um poema do seu livro 'A Faca não Corta Fogo'. No centro da narrativa, a morte. "O quanto se trabalha para que a noite apareça/e à noite se vê a luz que desaparece na mesa". Foi assim. Foi-se Herberto Helder. Shanti, shanti, shanti!

Por Herberto Helder 
que eu aprenda tudo desde a morte,
mas não me chamem por um nome nem pelo uso das coisas,
colher, roupa, caneta,
roupa intensa com a respiração dentro dela,
e a tua mão sangra na minha,
brilha inteira se um pouco da minha mão sangra e brilha,
no toque entre os olhos,
na boca,
na rescrita de cada coisa já escrita nas entrelinhas das coisas,
fiat cantus! e faça-se o canto esdrúxulo que regula a terra,
o canto comum-de-dois,
o inexaurível,
o quanto se trabalha para que a noite apareça,
e à noite se vê a luz que desaparece na mesa,
chama-me pelo teu nome, troca-me,
toca-me
na boca sem idioma,
já te não chamaste nunca,
já estás pronta,
já és toda

O vulto por trás do medo

₢ Ygor Raduy | sem título | técnica mista
Tela de Ygor Raduy

Por Susana Machado 

Lá no alto da serra existia uma cabana. Era um abrigo simples, construído em madeira tosca e chapas de zinco, mas com uma porta blindada. Lá dentro vivia uma velhota franzina, que perdera contas da idade. Vivia lá desde sempre, talvez. Nunca ninguém a tinha visto sair, nunca ninguém tinha sido convidado a entrar.
Embora ninguém soubesse porquê, era tudo o que ela desejava fazer. Passava os dias à janela, olhando o céu e o vento a dançar com as árvores, desejando poder senti-lo na face. Mas nunca se atrevia a sair.
Havia lá fora um homem que teimava em a perseguir. Sempre que colocava o pé fora de casa, via aquele vulto por trás de si, pronto a atacar. Não sabia porque o fazia, não entendia os seus motivos. Apenas sabia que ele estava lá sempre, que não lhe podia fugir e, por isso, receando o que este lhe podia fazer, optou por não mais sair. Acabou-se o problema. A porta blindada impedia-o de entrar e ele sabia isso, pois nunca o tentara fazer. Ela não sabia onde ele se escondia, bem procurava percebê-lo, olhando pela janela, mas nunca o via. Sabia, contudo, que era perto, pois assim que colocasse o pé fora de casa, ele lá estaria. Tinha tentado tantas vezes. Adorava poder sair quando o Sol brilhava, mas há anos que não se atrevia a tentá-lo. Ali se deixava ficar, olhando pela janela o mundo que tanto desejava viver.
Era nessa mesma janela que estava, um dia, quando uma imensa nuvem cobriu o Sol e começou a chover. Foi quando o viu. Um vulto, no meio das árvores. Assustou-se! Seria ele? Deu um passo para trás, encolheu-se. À medida que o vulto avançava pode ver claramente que se tratava apenas de uma criança, perdida, desorientada, com aquilo que parecia ser um velho papagaio rasgado na mão. Aproximou-se novamente da janela. Chovia muito e o menino estava encharcado até aos ossos. Por certo pedir-lhe-ia abrigo e não o poderia negar. Abriria a porta rapidamente e a fecharia logo em seguida. Não teriam problemas.
Mas eis que enquanto assim pensava, viu o menino tropeçar e cair no chão, agarrando-se ao seu tornozelo. Chorava e gritava de dor, por certo não podia avançar mais. Não podia sair…não podia sair. Ficou ali, vendo o menino agonizar debaixo da chuva forte que parecia não querer parar. Não teve mais coragem e, sem pinga de sangue, abriu a porta e correu até ele. Ninguém a perseguia. Chegou até ele, limpou-lhe as lágrimas e acalmou-lhe a dor antes de o pegar ao colo. O seu corpo frio tremia. Avançou mais lentamente sob o peso daquele corpo frágil nos seus ossos cansados. E eis que o Sol começou a despontar, primeiro timidamente, depois mais forte. Ao caminhar, pode ver aquele vulto surgir novamente detrás de si, a sua sombra, nada mais que a sua sombra… Tinha sido sempre a sua sombra.

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Fonte: http://canalsubversa.com/?p=2715

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Em Comum: compreensão dos mundos presentes, busca dos mundos possíveis

Conjuntura é uma palavra tantas vezes repetida sem que se "dimensione" o seu significado. Deve ser dito, em síntese, que se trata de uma 'configuração na face da estrutura' em um dado momento, que poderá ser consolidada como parte dessa ou não. No primeiro caso, será uma atualização da estrutura. A conjuntura, portanto, não tem autonomia absoluta frente à estrutura, na medida em que a estrutura dispõe de um  'estatuto central' - por sua posição condicionadora - na ocorrência dos fatos políticos, econômicos, sociais e culturais. Pois bem, isto é para dizer que está na praça o novo número da revista lusitana O Comuneiro, com textos abordando os "movimentos" entre conjuntura e estrutura no momento atual. Dois núcleos temáticos de abordagem são evidenciados na presente edição: o quadro político grego e a crise brasileira. Logo de início, um instigante artigo do historiador inglês Perry Anderson, intitulado 'A Derrocada Grega'. Plural, com visões por vezes divergentes entre os seus autores, a revista segue, contudo, a sua senda editorial: em comum, procurando compreender os mundos presentes e buscando os rumos dos 'mundos possíveis'. Acesso à edição integral por aqui:
http://www.ocomuneiro.com/nr21_00_Introducao.html

'Não É Meia Noite Quem Quer'



Por José Alexandre Ramos

O título deste meu texto de opinião sobre a leitura de Não É Meia Noite Quem Quer de António Lobo Antunes, numa tão simples, comprimidida e (aparentemente?) muito redutora palavra, tanto podia servir para abrir como para fechar o resumo sobre o que nos diz este livro, o 28º título do escritor, publicado em Outubro de 2012. A razão para tal é simples: parcas ou muitas palavras podem ser, ao mesmo tempo, excessivas e demasiadas quando opinamos sobre um livro de António Lobo Antunes, pelo menos os que foram escritos, mais ou menos, desde O Arquipélago da Insónia. Até porque Não É Meia Noite Quem Quer reafirma a dificuldade de ler este autor, cujo discurso se vem tornando cada vez mais fragmentado, no intuito de ampliar os pensamentos ao nível da palavra escrita e lida. Fica ao critério do leitor – como o afirma António Lobo Antunes há muito tempo – cuidar de ter a chave correcta para o decifrar, chave essa que não existe em mais nenhum lugar senão dentro de nós. O certo é que é mesmo verdade o que o escritor tantas vezes alerta: temos que partir para a leitura despidos de (pre) conceitos, e de forma humilde. O livro acaba por ser o leitor que o constrói mas, para tal acontecer, é necessário que haja total empatia entre quem lê e o texto. Pode demorar até que essa simbiose surja, ou alías, até que fique perceptível para o leitor obstinado e curioso (não para aquele que desiste ao fim de 50 páginas), mas acaba por acontecer, no meio de muito esforço, esforço este que vale muito a pena. 
Se pudéssemos fazer um resumo, o livro é sobre uma mulher (o autor não lhe dá um nome), a narradora, se quisermos assim chamar, de cinquenta de dois anos, professora, separada, vítima de cancro da mama e consequente mastectomia, que vem num fim de semana despedir-se da casa em Peniche onde cresceu ela e seus irmãos, e decidir dar termo à sua vida. Assim que chega, o novelo das memórias que a casa obviamente suscita começa a desenrolar-se, nas primeiras impressões da infância de antes e depois do suicídio do seu irmão mais velho - ela é a mais nova de quatro irmãos, e a única rapariga [moça, no português brasileiro] -, memórias que se vão encadeando no discurso da narradora, sem haver qualquer evolução cronológica dos eventos, apresentando as outras personagens à medida que o pensamento as evoca. A mãe é uma das personagens mais presentes e que maior influência exerce sobre a narradora, uma mãe que se tornou amarga após (ou já o seria antes?) o suicídio do filho mais velho, resignada como o seu marido que se torna alcoólico pelas mesmas razões. Pelo meio, o segundo irmão mais velho (designado como o irmão não-surdo) que vai para África combater e regressa tolhido do stress pós-traumático, e o outro, o irmão surdo, que conhecemos como uma pessoa rebelde por ser tomado como diferente, incompreendido, quase marginalizado. Surge ainda Tininha, que conhecemos como a vizinha com quem em miúda a narradora brincava, sendo depois a indiferente doutora Clementina, médica da narradora no curso da sua doença, mas sem dar importância à amizade da infância, tomando uma atitude distante. À medida que as recordações da infância se vão misturando com o passado mais recente, ficamos a saber do marido de quem acaba por se separar depois de ter abortado, da morte do pai após longos anos dependente da bebida, do envolvimento amoroso da narradora com uma colega mais velha, entre muitos outros factos.
São apenas apontamentos de personagens e do que, numa primeira mirada, elas representam para a mulher que as vai evocando ao longo do livro. Não são só estas, outras personagens vão surgindo que, apesar de não as considerar menos importantes (se o são apenas por que não tantas vezes evocadas), decidi não referir, assim como não importa referir aqui pormenores e episódios das vivências desta mulher, já que não é possível isolá-los do contexto em que são evocados. No fundo, não existe história (o que não é novidade para quem lê António Lobo Antunes), o que existe são pensamentos e sentimentos da vida de alguém que vão interpelando e se interligando com os sentimentos e pensamentos de outras pessoas. E como o pensamento não se estrutura num simples esquema, também não podemos resumir como numa sinopse o que nos transmite Não É Meia Noite Quem Quer.
No livro habita a personagem (deixamos de lado agora a designação – errada – de “narradora”) e os espectros da sua vida. Nada nos garante, enquanto lemos, que seja de facto uma mulher de meia idade que nos fala, se quisermos podemos pensar que o nosso diálogo com o livro é feito através de alguém senil e demente, ou de alguém que já morreu, ou de alguém que talvez estivesse a sonhar (ainda: do escritor que tenta projectar numa personagem e factos fictícios a sua própria experiència e a si mesmo? Porque terá dito António Lobo Antunes que este é o seu livro mais biográfico?). E por isso também não é garantido que os factos sejam os reais, isto é, os que a personagem efectivamente viveu, experimentou, conheceu. No fundo, são também os meus, os teus, os deles. Os nossos. Estes espectros fazem parte de nós, basta mudarmo-lhes os nomes, substituir as circunstâncias, alterar as afinidades... e somos nós dentro do livro. Da minha experiência pessoal, eu sonhei com o livro, ou melhor: sonhei com a personagem e suas angústias, mas o sonho era sobre eu próprio, sobre o que me angustia. Que outra prova podia haver para mim?
O que resulta de muito valioso é quando percebemos a forma como as palavras e as expressões estão tão bem colocadas como se conseguíssemos “ler” o pensamento da personagem (e por aí chegarmos ao ponto de termos a sensação de estarmos a “ouvir” o nosso próprio pensamento). É interessante constastar isto se entendermos como se estrutura, por exemplo, um trecho musical, como se ligam dois ou três acordes para se fazer uma melodia. E será isto, na minha opinião, que quer dizer António Lobo Antunes quando afirma “Ninguém escreve como eu, nem eu próprio”.
 A terminar, como se um post scriptum: não se consegue opinar sobre um livro de António Lobo Antunes sem evocar outros da sua autoria, bem como referir a sua forma de escrever. Já que muitas vezes até parece que estamos a ler algo que não ficou escrito no(s) livro(s) anterior(es)...
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Fonte: http://alaptla.blogspot.com.br/2014/04/jose-alexandre-ramos-sobre-leitura-de.html


Bolsas de estudo: Holanda


Holanda Amsterdã bolsa estudo brasileiro
Amsterdã

O programa OTS (Orange Tulip Scholarship) Brazil abriu inscrições nesta semana para 50 bolsas de estudo exclusivas para brasileiros cursarem graduação, pós-graduação (MBA e mestrado) e short degree (último ano da graduação no exterior) em universidades renomadas na Holanda.
O programa oferece bolsas de estudo integrais e parciais de até 32.500 euros em anuidades (tuition fee) e, em alguns casos, cobre outros custos, como de visto e seguro. São 15 instituições de ensino superior participantes e as bolsas abrangem áreas de Artes, Ciências Biológicas e Saúde, Exatas e Humanas.
Não é preciso saber holandês, pois as aulas são todas ministradas em inglês. Além de inglês fluente, é preciso ter excelente desempenho acadêmico (bacharelado requer diploma de ensino médio; mestrado requer diploma de bacharelado) e não estar atualmente estudando ou trabalhando na Holanda.
Também é primordial estar atualmente no processo de admissão em pelo menos uma das instituições e, é claro, ser brasileiro.
Inscrição e seleção
Os interessados em concorrer às bolsas podem se inscrever até o dia 1° de abril de 2016 site da Nuffic Neso Brazil, fundação que representa oficialmente o ensino superior dos Países Baixos no Brasil. Na candidatura, é preciso:
— Preencher o formulário de candidatura para a Orange Tulip Scholarship Brazil
— Comprovante de estar em processo de admissão na instituição (ou instituições) participante de seu interesse;
— Entregar carta de aceite condicional, caso já tenha sido aceito pela instituição de seu interesse;
— E-mail da(s) universidade(s) confirmando o recebimento da candidatura;
— Confirmação de ter preenchido o documento de solicitação de admissão da instituição ou;
— Comprovante de envio do pacote de candidatura à instituição holandesa por correio;
— Cópia autenticada do diploma(s) original anterior e tradução juramentada do documento para a língua inglesa;
— Apresentar diploma de ensino médio (em caso de graduação) ou apresentar diploma de graduação (em caso da pós ou
mestrado);

— Cópia autenticada do histórico(s) escolar original e tradução juramentada do documento para a língua inglesa;
— Exame de proficiência, apresentando pontuação obtida: TOEFL iBT (oficial, não o institucional) ou IELTS (acadêmico);
— Curriculum Vitae mais recente em inglês;
— Carta de motivação em inglês;
— Cartas de referência (verificar no detalhamento da bolsa de seu interesse a quantidade de recomendações requeridas);
— Cópia autenticada do passaporte (apenas página com dados pessoais: nome, data e local de nascimento, e data de validade)
A lista dos candidatos selecionados sairá no dia 11 de maio de 2016. Para verificar todas as universidades participantes, clique aqui.
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Fonte: BrasilPost


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

'Os Caminhos Cruzados da Consciência'

Em 1999, causou uma 'certa estranheza' o fato de reconhecidos cientistas, de projeção internacional, como o neurocientista lusitano António Damásio, terem se reunido com o Dalai Lama (líder do budismo tibetano) tendo como propósito discutir a relação entre cérebro e consciência. Aumentava ainda mais a estranhava o fato de, no grupo, existirem ateus, além de agnósticos. Dos diálogos desse encontro, surgiu o livro 'Consciousness at the Crossroads', vertido para o português lusitano, em tradução oblíqua, como 'Os Caminhos Cruzados da Consciência', tendo um subtítulo, ausente na versão original, denominado 'Conversas com o Dalai Lama sobre ciência do cérebro e budismo'. Na época, convivendo com uma pessoa da Tailândia, adepta religiosa do budismo, perguntei-lhe o que pensava daquilo; ela riu-se e disse que 'era algo natural', visto que, cada vez mais, o budismo estava passando a ser visto como religião e também como uma 'filosofia de vida', com preceitos existências, lado a lado com a laicidade e valorizando o conhecimento do cérebro. De fato o livro tem esse realce. E realmente, ao longo dos últimos tempos, essa dimensão do budismo como 'filosofia de vida' tem se acentuado, calcando-se na tradição oriental da reflexão, na emancipação interior frente aos dogmas que regulam por delegação exógena os comportamentos individuais, no (auto)conhecimento, etc. Por tudo isso e muito mais, a leitura de 'Os Caminhos Cruzados da Consciência' é uma leitura alvissareira. Aí abaixo alguns preceitos dessa dimensão do budismo como 'filosofia de vida'. 

1. A dor é inevitável, o sofrimento é opcional.

Nós tendemos a pensar que reagimos aos eventos que trazem consigo a semente de tristeza ou da alegria, mas, na verdade, reagimos ao que os fatos significam para nós. Nós só podemos sofrer por aquilo a que demos importância. Portanto, para evitar sofrimento desnecessário, por vezes, apenas um passo para trás,desanexar emocionalmente e ver as coisas de outra perspectiva. É difícil, mas com a prática você aprende. Na verdade, uma outra frase budista nos mostra o caminho: “Tudo o que somos é o resultado do que pensamos; É fundada em nossos pensamentos e é feito de nossos pensamentos. “
2. Alegrai-vos porque em toda parte é aqui e tudo é agora.
Muitas vezes perdemos a vida enquanto estamos amarrados ao passado ou preocupados com o futuro. No entanto, o budismo nos ensina que temos apenas o aqui e agora. Portanto, devemos aprender a estar totalmente presentes, para desfrutar de cada momento como se fosse o primeiro e o último. Não mergulhar no passado ou sonhar com o futuro, se concentrar no momento presente, porque é onde você vai encontrar as chaves para a felicidade.
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3. Tenha cuidado com o exterior, bem como seu interior, porque tudo é um.

Somos uma unidade física e espiritual, mas muitas vezes nos esquecemos. Às vezes nos preocupamos muito sobre como cuidar do corpo e esquecemos a alma, enquanto em outras vezes nos preocupamos muito com  nosso equilíbrio psicológico e negligenciamos aspectos importantes, tais como dieta e exercícios. No entanto, para encontrar um estado de bem-estar verdadeiro é imperativo que a mente e o corpo estejam equilibrados.
4. Melhor usar pantufas do que tentar colocar  tapete no mundo.
Às vezes, ou porque superestimamos nossas forças ou porque não estamos cientes da magnitude da situação, estabelecemos metas que vão além de nossas capacidades. Em seguida, geramos um estresse desnecessário. No entanto, para encontrar a paz interior, é importante estar ciente de nossas forças e nossa dose de recursos, e qualquer caminho tem que começar de nós mesmos, antes de mudarmos o que não gostamos no mundo, mudemos o que não gostamos em nós mesmos.
5. Não ferir os outros com o que causa dor a si mesmo.
Esta é uma das máximas do budismo que, se aplicada ao pé da letra, estaríamos praticamente eliminado todas as leis e preceitos morais. No entanto, esta frase budista vai além do clássico “não faça aos outros o que você não quer fazer para você”, pois envolve, acima de tudo, uma profunda compreensão de nós mesmos e, uma grande empatia para outros.
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6. Não é mais rico quem tem mais, mas quem precisa menos.

Apesar de não estarmos conscientes disso, o nosso desejo de mais, seja no material ou emocional, é a principal fonte de nossas preocupações e desapontamentos. Quando aprendemos a viver com pouco e aceitando tudo que a vida nos oferece no momento, podemos alcançar uma vida mais equilibrada e reduzir a tensão e stress. Entender que já temos todo necessário para atingir a paz interna e felicidade é um ensinamento que traz tranquilidade na caminhada e evita a ansiedade e desgaste incessante de sempre achar que a felicidade está logo ali na frente, mas nunca aqui.
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7. Para entender tudo, é preciso esquecer tudo.

Quando somos pequenos, estamos abertos à aprendizagem, não temos idéias preconcebidas. No entanto, à medida que crescemos nossa mente está cheia de condicionamentos sociais que nos diz como as coisas devem ser, como devemos nos comportar e até mesmo o que pensar. Estamos tão imbuídos nesse contexto que não percebemos que nossa mente se tornou uma caixa muito estreita que nos aprisiona. Então, se você quer mudar e ver as coisas de outra perspectiva, o primeiro passo é se separar das crenças e estereótipos que o mantem amarrado. Neste sentido, uma outra frase budista nos ilumina: “No céu, não há distinção entre o leste e o oeste, são as pessoas que criam essas distinções em sua mente e depois pensam que são verdadeiras“.
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8. O ódio não diminui ódio. O ódio diminui com o amor.

Gerar violência, raiva produz ressentimento. É algo que quase nunca aplicamos quando nos envolvemos em discussões nas quais somos guiados por nossas emoções mais negativas, respondemos às críticas com outro comentário e um ataque ainda mais forte. No entanto, o ódio só gera ódio, a única maneira de contrariar o seu efeito é o de proporcionar amor, respondendo com emoções positivas. Não se apaga fogo com mais fogo.

9. Dê, mesmo se você tiver muito pouco para dar.

Esta é uma das mais antigas frases budistas, e algumas pesquisas na área da psicologia positiva mostraram que a gratidão e a entrega é um dos caminhos que conduzem à felicidade. Não é sobre dar com intuito de receber algo, mas dar motivado pelo prazer que sente ao ajudar alguém.

Os ventos que virão


Por Leont Etiel

Quando John Milk aportou em Cruz da Serra, Cruz da Serra ainda não era Cruz da Serra. Lugar íngreme, pouco ou quase nada havia. A Coroa Portuguesa, de tantas venturas e desventuras na ocupação de territórios pelos quatro cantos do mundo, bem que já havia tentado povoar Cruz da Serra. Contudo, sem êxito. No lugar, índios perambulavam com “as suas vergonhas expostas”. Milk, o Jonh, não tinha muitas estratégias em mente. A única coisa que pensava talvez fosse como iria sobreviver naquele desgarrado sítio.
Buscou conversar com os indígenas. Todavia, o seu accent do norte português, designadamente do Porto, cerrando ainda mais as vogais, era um problema; sobretudo porque os índios tinham tomado contacto apenas com vagas noções da língua de Camões. A qualquer movimentação que parecia estranha aos nativos, eles logo, para usar expressão local, ‘davam no pé’ – isto é, corriam. Milk, o Jonh, não teve mãos (ou pés) a medir. E do seu não ter pés a medir, resultou a expressão ‘pegar índio a dente’.
Foi utilizando estas tácticas que John, que já sabemos ser o Milk, em decorrência das suas peripécias na Corte lusitana, nunca desprezando o líquido white, acostou-se a uma costela feminina. Ela pouco sabia. Pouco entendia. Pouco falava. Mas muito fazia... E isto, para Jonh, era o suficiente. Naqueles idos e naquelas plagas, este era, repetia ele, de si para si, um bom começo.
John olhou o horizonte. Fez cálculos. Pensou. Regressar ao Porto? Fora de hipótese. É certo que ele sentia falta dos vinhos do Douro, mas, em Cruz da Serra, para sua surpresa, conseguiu encontrar o outro líquido que apreciava: milk. Se assim foi, imaginava que seria possível também encontrar os brancos e os tintos, ou uma forma de fabricá-los. Enquanto isso não ocorria, Tayuan, a sua costela que nada falava mais muito fazia, apresentou-lhe uma solução que lhe parecia engenhosa: manufaturar uma raiz chamada mandioca, que outros também diziam ser macaxeira, no que há, por certo, uma ignorância, pois são raízes, mas raízes diferentes. A operação era, na percepção de John, relativamente simples. Consistia, ao fim e ao cabo, em descascar a raiz, prensá-la e espremê-la. Disso resultava o que Tayuan chamava de manipoeira, e que ela dizia ser ingerida pelos seus como forma de eles chegarem aos deuses. John, contudo, não queria ir tão longe. Se servisse para auxiliar na ingestão dos alimentos já estava de bom tamanho. De toda forma, daí resultou um espaço chamado casa de farinha.
John, agora já dispondo de dois líquidos whites, começava a fazer planos. Cruz da Serra começaria a ser desenhada. O que importa na vida, começou a pensar ele, é que, em decorrência desse enigma que paira entre o céu e a terra, não se procure evitar ‘os ventos que virão’.