sexta-feira, 31 de julho de 2015

A companhia do pensamento: o que revela e esconde o luar


Cabo Branco - João Pessoa 

Por Fernando Pessoa [Bernardo Soares] 

Sem ver, sem pensar, olhos fechados já sobre o sono ausente, medito com que palavras verdadeiras se poderá descrever um luar. Os antigos diriam que o luar é branco, ou que é de prata. Mas a brancura falsa do luar é de muitas cores. Se me erguesse da cama e visse por trás dos vidros frios, sei bem que, no alto ar isolado, o luar é de branco cinzento azulado de amarelo esbatido. Sobre os telhados vários, em desequilíbrios de negrume de uns para os outros, ora doura de branco preto os prédios submissos, ora alaga de uma cor sem cor o encarnado castanho das telhas altas. No fundo da rua, abismo plácido, onde as pedras nuas se arredondam irregularmente, não tem cor salvo um azul que vem talvez do cinzento das pedras. Ao fundo do horizonte será quase de azul escuro, diferente do azul negro do céu. Nas janelas onde bate, é de amarelo negro.
De aqui, da cama, se abro os olhos que têm o sono que não tenho, é um ar de neve tornada cor onde boiam filamentos de madrepérola morna. E, se o sinto com o que sinto, é um tédio tornado sombra branca, escurecendo como se olhos se fechassem sobre essa indistinta brancura.

(In:  Livro do Desassossego, Companhia das Letras) 

Caetano Veloso, Gil e um lamentável papel

Na 'estética da arte', há de se considerar 'um certo grau de autonomia' da obra em relação ao autor. Isso explica, por exemplo, que se continue a cantar 'Para não dizer que não falei das flores', apesar do Geraldo Vandré de hoje. Só assim para assimilar o lamentável papel ao qual se prestaram Caetano Veloso e Gilberto Gil esta semana em Israel, contrariando o movimento internacional de protesto pacífico empreendido por artistas de todo o mundo contra o massacre dos palestinos e em defesa da paz no Oriente Médio. Ninguém melhor do que israelenses apoiadores desse movimento para manifestar reprovação total ao papel desempenhado por Caetano e Gil .  É o que fazem os autores do artigo aí abaixo, que teve como título original exatamente 'A vergonha de Caetano e Gil em Israel'. 

Jerusalém: berço histórico de religiões e de guerra 

Por Ofer Neiman e Yonatan Shapira 

Em uma amostra de relações-públicas superficialmente disfarçada, Caetano Veloso declarou nesta segunda em Tel Aviv: “Acho inaceitável a ocupação, mas sou só um brasileiro, visitante, cantor. Esse é um problema dos israelenses”. Como cidadãos israelenses, temos visto, vez após outra, que a ocupação e apartheid de Israel não são um problema que israelenses estão dispostos ou capazes de resolver sozinhos.
Infelizmente, esse “problema” também chegou à porta brasileira há muitos anos: o Brasil é o quinto maior importador de armas de Israel. Contratos assinados entre os governos brasileiro e israelense chegam quase ao valor de US$ 1 bilhão. De veículos blindados vindos de Israel para as ocupações policiais das favelas ao treinamento israelense das polícias militares no Rio e em São Paulo, trata-se de dinheiro do imposto de cidadãos brasileiros.
Caetano e Gil disseram que vieram a Israel em apoio a um “diálogo”. Palestinos vivendo sob a ocupação e apartheid israelenses costumam dizer, e estão certos, que não pode haver diálogo entre um cavalo e seu cavaleiro. Nós sabemos que diálogos significativos só podem começar quando o opressor percebe que suas políticas não são mais aceitáveis. Artistas que realmente acreditam que as políticas de Israel são inaceitáveis apoiariam, certamente, um movimento de boicote global, não violento, como o BDS — baseado no modelo sul-africano de campanha contra o apartheid.
Eles declararam que estavam aqui em Israel para “aprender” sobre a situação. Não é necessário mais do que uma mente aberta e acesso à internet para entender a realidade da ocupação e apartheid de Israel contra o povo palestino — assim como não é necessário ir à Síria para entender a natureza dos crimes que estão sendo cometidos lá. Além disso, nós e outros convidamos ambos a virem ver a realidade aqui sem prover entretenimento às massas privilegiadas de Tel Aviv.
Os slogans de “paz” de Caetano e Gil, 48 anos depois da ocupação israelense da Cisjordânia e Gaza e 67 anos depois da Nakba, a limpeza étnica da Palestina, não são mais do que uma retórica de lavagem política, a qual mantém as pessoas distantes de uma discussão séria sobre a realidade assimétrica sob controle israelense. Paz só pode vir como um resultado, resultado da igualdade perante os direitos humanos e o fim da opressão. Eles falharam em focar nos crimes e violações de direitos humanos que constituem, diariamente, um sistema de ocupação e apartheid contra milhões de pessoas palestinas.
Em nossa opinião, talvez a pior das ações tomadas por Caetano e Gil em Israel tenha sido sua reunião com Shimon Peres. Este talvez tenha enganado pessoas no passado, com seus longos discursos românticos sobre paz, mas qualquer um olhando para seu currículo percebe que Peres é um inimigo da paz. Enquanto primeiro-ministro de Israel, ele foi responsável pelo bombardeamento indiscriminado do Líbano na primavera de 1996, matando muitos civis e expulsando a milhares de libaneses refugiados de suas casas.
Na função de ministro da Defesa, em 1986, Peres autorizou o sequestro e tortura do israelense Mordechai Va’anunu, que revelou ao público informações sobre o programa nuclear de Israel. Ele também fundou o Centro Nuclear militar israelense de Dimona, um projeto que instigou uma corrida armamentista perigosa e não convencional no Oriente Médio. Há também evidência substancial de seu apoio moral e militar ao brutal regime de apartheid da África do Sul e seu projeto nuclear.
Nós já testemunhamos inúmeros artistas vindo se apresentar em Israel pela “paz”. Nenhum deles deixou um legado político aqui. Nenhum deles começou uma onda de dissidência e ativismo pelo fim dos crimes cometidos pelo governo israelense contra milhões de pessoas. Por outro lado, artistas que escolheram não se apresentar aqui deram uma mensagem moral clara: esses crimes não serão tolerados!
Nesta segunda-feira, Caetano Veloso e Gilberto Gil forneceram serviços de propaganda ao regime de apartheid de Israel e seus esforços anti-BDS. Só se pode esperar que eles farão como Roger Waters, que se apresentou aqui mas depois percebeu que cometeu um erro. Talvez eles também percebam que o movimento global e não violento de BDS é o caminho para justiça, igualdade e — só quando estas forem alcançadas — paz.
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Fonte: Jornal O Globo, Secção Opinião, edição do dia 29/07/2015. 


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Ser ou não ser

Não, não é propriamente do 'to be or not to be', de Shakespeare, que falo. É, sim, da 'música existencial' de Sérgio Godinho. 


O contraste paraibano

Há coisas que, até pelo simbólico que representam, não devem vir a lume, já para não falar da sua materialidade, do que concretamente elas significam. Pois bem, os deputados estaduais paraibanos, num momento de crise que o país vive, resolveram autoconceder-se mais uns dias de férias: aprovaram a ampliação do recesso parlamentar do meio do ano. Se houve alguma voz dissonante? Que nada! A medida foi apoiada por parlamentares de todos os partidos - foi aprovada por unanimidade. Passou-se diferente na cidade paranaense de Santo Antônio de Platina: após a autoconcessão de um aumento salarial, os vereadores se viram pressionados pela população, e foram além da volta atrás: reduziram os seus vencimentos, o do prefeito e vice-prefeito. Claro que, por cá, a gaita não tocará dessa forma. Em frente à Assembleia Legislativa hoje, ao estacionar, ouviu de um flanelinha apontado para o prédio: 'os homens aí estão com tudo'. Estão mesmo!


'Novos rumos da corrupção' e o cala-boca nos defensores de intervenção militar

Descontada a delinquência da Revista Veja na cobertura dos escândalos que assola o país (acompanhada da indignação seletiva de muitos) e a desfaçatez dos que - invocando os propósitos de uma suposta "causa" - a tudo justificam ou dizem que não se passou nada, sobra a realidade. E esta, como combustível da história, não faz concessões a discursos que não passam de espumas de palavras. Pois bem, os novos rumos das investigações sobre os casos de corrupção bate às portas do setor eletrônico. Ao mesmo tempo que isso faz aumentar a tensão no Governo e no PT, a chegada das investigações aí representa um cala-boca nos defensores da volta da ditadura, que clamam por uma intervenção militar. A prisão do Presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro, sob acusação de recebimento de uma bolada como propina, é o ato que consubstancia esse cala-boca. Ele é vice-almirante da Marinha. A ideia segundo a qual não há corrupção em governos militares oscila entre o analfabetismo histórico  e a mentira a serviço da manipulação política com objetivos golpistas. Segue artigo de periodista da Folha a respeito. 

Por Bernardo Mello Franco 

A prisão do presidente da Eletronuclear mostra que a Lava Jato ultrapassou as fronteiras da Petrobras. A investigação chegou com força ao setor elétrico, que concentra alguns dos maiores investimentos do governo federal. Ao que tudo indica, o petrolão era só o começo.
O enredo da nova série, já chamada de eletrolão, parece reprise da anterior. O governo repartia as estatais entre os partidos aliados. As estatais repartiam os contratos entre as empreiteiras. As empreiteiras repartiam a propina entre os dirigentes das estatais e seus padrinhos em Brasília.
O último elo da partilha são os políticos, que ainda não apareceram na história. "É possível que no avanço das investigações a gente chegue a isso", disse o delegado Igor Romário de Paula. Para bons entendedores, o recado não poderia ser mais claro.
No início do governo Lula, o setor elétrico era propriedade do PT. Dilma Rousseff, ainda pouco conhecida, comandava o Ministério de Minas e Energia. Depois do mensalão, a pasta passou ao controle do PMDB. Foi chefiada por figuras como Silas Rondeau e Edison Lobão, ambos aliados do ex-presidente José Sarney.
Rondeau caiu ao ser citado na Operação Navalha. Lobão, que voltou ao Senado, é investigado na Lava Jato. Estava no ministério quando a Eletronuclear licitou as obras de Angra 3, novo foco da investigação.
Segundo o delator Dalton Avancini, a partilha beneficiou sete empreiteiras. "Já havia um acerto entre os consórcios com a prévia definição de quem ganharia cada pacote", contou. Depois, as empresa pagariam propina a dirigentes da estatal e ao PMDB.
Apesar do enredo repetido, o caso da Eletronuclear traz uma novidade. O presidente da estatal, Othon Luiz Pinheiro da Silva, é vice-almirante reformado. Sua prisão, sob suspeita de embolsar R$ 4,5 milhões, serve de alerta a quem pensa que uma "intervenção militar" salvaria o país da corrupção. Em tempo: na ditadura, nunca haveria espaço para uma operação como a Lava Jato. 
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/bernardomellofranco/2015/07/1661632-o-petrolao-era-so-o-comeco.shtml

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O poder do (auto)ocultado de si afirmando a identidade negada

Desde que o historiador Michel de Certau colocou em realce as conexões entre a ciência histórica e a psicanálise, na obra Histoire et psychanalise,  as aproximações entre o 'campo da ciência social' e o 'campo psicanalítico' têm se revelado muito promissoras. Vladimir Safatle, no artigo aí abaixo, incursiona nesse terreno ao tratar da relação entre Freud e a teoria social, explorando aspectos desta última, como a questão da socialização. Ou o poder do (auto)ocultado de si afirmando a identidade negada. 


Por Vladimir Safatle

Freud é um autor fundamental no esforço de constituir um campo de reflexão sobre a modernidade. O recurso a ele foi uma constante em várias correntes de pensamento do século 20 e a razão para tal constância era evidente: longe de se colocar apenas como uma clínica do sofrimento psíquico, a psicanálise freudiana procurou, desde seu início, ser reconhecida também como teoria das produções culturais para desvendar a maneira com que sujeitos mobilizam sistemas de crenças, afetos, desejos e interesses para legitimar modos de integração a vínculos sociopolíticos.

Partir do patológico sem reduzir o social
Não se trata aqui de reduzir a dimensão do social ao psicológico. Na verdade, esse recurso à psicanálise apenas realizava a intuição do sociólogo alemão Max Weber a respeito da necessidade de explicar como a racionalidade dos vínculos sociais depende fundamentalmente da disposição dos sujeitos em adotar certos tipos de conduta.
Em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Weber lembrava como a racionalidade econômica do capitalismo dependia fundamentalmente da disposição dos sujeitos em adotar os tipos de conduta ligados a um modo de ser que remetia à ética protestante do trabalho e da convicção, estranha ao cálculo utilitarista, e cuja gênese deve ser procurada no calvinismo. Sem essa ética internalizada, os sujeitos nunca desenvolveriam disposições para trabalhar, poupar e acumular do modo que o capitalismo exigia. No caso de Freud, essa análise das disposições individuais nascia de uma maneira peculiar. Em vez de partir do que deveria ser normal a todos os sujeitos, Freud partia da análise daqueles que, de certa forma, portavam as marcas do fracasso da razão, daqueles que guiavam suas condutas de maneira “patológica” e “irracional”. No entanto, o que Freud procurava era transformar a compreensão do patológico no modo de acesso ao verdadeiro mecanismo do comportamento normal. O que não poderia ser diferente para alguém que acreditava que a conduta patológica expõe, de maneira ampliada, o que está realmente em jogo no processo de formação das condutas sociais gerais. É dessa forma que devemos interpretar uma metáfora maior de Freud: “Se atiramos ao chão um cristal, ele se parte, mas não arbitrariamente. Ele se parte, segundo suas linhas de clivagem, em pedaços cujos limites, embora fossem invisíveis, estavam determinados pela estrutura do cristal”. O patológico é esse cristal partido que, graças à sua quebra, fornece a inteligibilidade do comportamento definido como normal.
Por exemplo, Freud nunca cansou de lembrar que “um ser humano se torna neurótico por não poder suportar a frustração (Versagung) imposta pela sociedade com seus ideais culturais”, sem que essa impossibilidade o leve ao ponto de negar todo e qualquer interesse por tais ideais. Para assumir tais ideais, os sujeitos devem estabelecer certo compromisso entre suas exigências individuais de satisfação e aquilo que é socialmente permitido. Tal compromisso exige, necessariamente, aceitar certa frustração, submeter-se a certa coerção e conflito. Esse é, para Freud, um traço geral dos processos de socialização. No entanto, os neuróticos vivem tal compromisso como fonte profunda de sofrimento psíquico. Entender as causas de tal sofrimento psíquico nos permite, por outro lado, apreender a verdadeira natureza dos compromissos presentes em todo processo de assunção de ideais, normas e valores sociais. Dessa forma, poderemos partir da frustração patológica para, ao final, encontrar seus traços em todo comportamento normal.
Notemos um dado fundamental aqui. Quando alguém está doente, cremos que sabemos isso porque comparamos sua situação com uma situação normal da qual disporíamos previamente. Ou seja, a doença nos aparece como uma derivação do normal. No entanto, Freud faz praticamente o inverso. Ele parte do sofrimento vivenciado pelo doente que procura amparo clínico. Em vez de simplesmente curá-lo, ele procura inicialmente mostrar como seu sofrimento expõe conflitos e processos gerais na constituição de todo e qualquer indivíduo. Isso lhe permite problematizar uma noção demasiadamente normativa e sublimada de normalidade.
No entanto, não se trata com isso de simplesmente negar a distinção entre normal e patológico. Podemos dizer que, no caso de Freud, temos uma diferença qualitativa fundamental entre normal e patológico. Se é verdade que o patológico permite a visibilidade de processos e conflitos presentes no comportamento normal, é porque o patológico transforma em motivo de quebra aquilo que o comportamento normal é capaz de suportar sem cindir-se e dissociar-se.Por exemplo, a ambivalência entre amor e ódio na relação com o objeto de desejo, assim como a erotização da autoridade, é um traço que encontramos em todo comportamento. Mas é na neurose obsessiva que tal ambivalência e tal processo são vivenciados para produzir necessariamente sintomas, inibições e angústia. Ou seja, há uma diferença qualitativa na vivência de processos estruturalmente semelhantes. Eles ganham visibilidade, como os sulcos do cristal quebrado, porque começam a produzir fenômenos que não produziriam em algo que poderíamos chamar de uma situação normal (e que nada mais é do que a ausência de certos sintomas, inibições e angústias em outras situações patológicas, já que não há sujeitos sem sintomas de sofrimento psíquico).Mas dizer que o patológico é o ponto que fornece a visibilidade do que está em jogo nas condutas sociais gerais significa, necessariamente, dizer que “normal” e “patológico” são categorias que podem ser utilizadas para compreender fatos sociais. Proposição aparentemente temerária, a não ser que mostremos que a verdadeira crítica social pode ser algo como uma “análise de patologias do social”. Talvez essa seja a lição que podemos tirar ao tentar trazer Freud para o domínio da teoria da sociedade.

Da necessidade de críticas totalizantes
Nesse sentido, podemos dizer que o recurso a Freud nos permite compreender que uma crítica social é indissociável da análise dos procedimentos de socialização que visam conformar sujeitos a formas de vida aspirantes a uma validade que não se reduz apenas aos domínios da tradição e do hábito. Por um lado, sabemos como os dispositivos de formação e de individuação presentes nas dinâmicas de socialização são legíveis a partir daquilo que compreendemos como sendo processos de identificação mimética e de investimento libidinal. Até porque socializar é, fundamentalmente, “fazer como”, atuar a partir de tipos ideais que servem de modelos de identificação e de polo de orientação para os modos de desejar, julgar, falar e agir. Mas sabemos também que essa identificação com tipos ideais não pode ser descrita simplesmente a partir de considerações sobre as pressões de conformação presente em núcleos elementares de interação social (família, instituições sociais, mídias). Freud compreendeu que as estruturas elementares que orientam o que está em jogo nesses núcleos de interação são figuras privilegiadas da razão. As exigências de racionalidade presentes nesses núcleos são, necessariamente, manifestações privilegiadas do que estamos dispostos a contar como racional. No entanto, nunca deixará de colocar a questão: “o que é necessário perder para se conformar a exigências de racionalidade presentes em processos hegemônicos de socialização e de individuação?”, ou, ainda, “qual o preço a pagar, que tipo de sofrimento devemos suportar, qual o cálculo econômico necessário para viabilizar tais exigências?”.
Essa questão está claramente enunciada em trechos como, por exemplo: “Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente, ou seja, um compromisso (Ausgleich) que traga felicidade entre reivindicações individuais e culturais; e um problema que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal compromisso pode ser alcançado através de uma formação determinada da civilização ou se o conflito é irreconciliável”. Pois devemos nos perguntar o que deve acontecer ao sujeito para que ele possa se pautar por um regime de racionalidade que impõe padrões de ordenamento, modos de organização e estruturas institucionais de legitimidade. Como deve se organizar sua economia libidinal para que ele possa ser reconhecido, como sujeito agente, por estruturas institucionais que aspiram garantir a racionalidade de nossas dinâmicas sociais. Toda discussão freudiana clássica da imbricação entre socialização e repressão, que encontramos em textos como O Mal-estar na Civilização, é apenas o ponto mais visível desse problema.
Essas perguntas são fundamentais por nos levarem a uma visão renovada do que pode ser a crítica social. Sendo os núcleos de interação social modos de realização de formas de ordenamento, de determinação de validade do que estamos dispostos a contar como racional, então a verdadeira crítica social deverá ser uma análise das formas de vida que se perpetuam por meio dos modos institucionais de reprodução social.
No entanto, sabemos desde ao menos Rousseau que tal análise pode nos levar à denúncia ampla do caráter distorcido das formas de vida na modernidade ocidental. Nesse caso, ela se transforma em crítica da natureza patológica de tais formas de vida com suas exigências de autoconservação e reprodução social. Notemos que, aqui, uma forma de vida poderia ser chamada de “patológica” por produzir um sofrimento social advindo da impossibilidade de dar conta de exigências de reconhecimento dos sujeitos em suas expectativas de autorrealização. Ou seja, nesse caso, a estrutura conceitual e valorativa “normal”, cuja internalização constitui sujeitos agentes, produtores de deliberações racionais, já seria “patológica”, pois indissociável da perpetuação de uma situação de sofrimento advinda, ao menos no caso de Rousseau, da perda de um horizonte originário que se confunde com a natureza como plano positivo de doação de sentido.
Se deixarmos de lado a temática rousseauísta do retorno à origem, é bem possível que esse esquema esteja animando algo da intuição freudiana. Trata-se de se perguntar se o sofrimento social que produz patologias não expõe, de maneira mais clara, o funcionamento dos processos de formação de subjetividades normais. Trata-se, ainda, de investigar se isso não nos obrigaria a perguntar pelos conflitos que estão por trás dos sistemas de normas e regras que compõem a vida social e, principalmente, por novas maneiras de gerir tais conflitos.
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Fonte: Revista Cult - http://revistacult.uol.com.br/


Carlos Drummond: o amor natural e a distinção entre erotismo e pornografia

Os trechos aí abaixo são de uma longa e histórica entrevista daquele que José Saramago lamentou não ter sido agraciado com o Prêmio Nobel: o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. A entrevista foi realizada pela pesquisadora Maria Lúcia do Pazo, em função da elaboração da sua Tese de Doutorado, em Comunicação na UFRJ, tendo como foco os poemas eróticos de Drummond e uma relação com a lírica medieval. O dado peculiar é que, na época (princípio dos anos 1980), os referidos poemas não estavam publicados. Drummond tinha receios, por exemplo, de que erotismo fosse confundido com pornografia. Como sabemos, o grosso dos seus poemas eróticos só foram publicados após o seu falecimento, em O Amor Natural. Seguem os trechos da reveladora entrevista.

 

Você poderia dizer alguma coisa sobre a sua intenção de não publicá-los [os poemas de "O Amor Natural"] no momento, e a permissão que me deu, tão gentilmente, para que pudessem ser abordados em minha tese de doutorado sobre o erotismo na poesia de Carlos Drummond de Andrade?
Bem, a autorização e mesmo a sugestão que fiz de lhe mostrar esses poemas para serem aproveitados na sua tese, a meu ver, é uma coisa óbvia, porque se o objeto da tese é exatamente o erotismo na minha poesia, não havia nada mais representativo do que esse volume inédito, porque ele trata exclusivamente desse tema em suas muitas variações.
Já na minha "Obra Completa", publicada, o erotismo aparece aqui e ali, de uma maneira mais ou menos intensa ou declarada, mas não tem esse sentido assim de tema único que o "Amor Natural" possui. Não quis publicar até agora e hesito ainda em publicar - ou, antes, resolvi não publicar - pela circunstância de que o mundo foi invadido por uma onda de erotismo, logo depois convertida em pornografia, se é que a onda de pornografia não veio antes.
O fato é que hoje não se distingue mais o erotismo propriamente dito e a pornografia, que é uma deturpação da noção pura de erotismo. Se eu publicasse agora o livro, iria enfrentar, por assim dizer, um elenco bastante numeroso de livros em que a poesia chamada erótica não é mais do que poesia pornográfica, e às vezes nem isso, porque é uma poesia malfeita, sem nenhuma noção poética.
Já me advertiram que a demora em publicar vai importar talvez num futuro próximo, em que meus poemas já não ofereçam nenhuma curiosidade porque o tema já estará tão batido, já se esgotou tanto essa série de assuntos, e a educação sexual, de uma forma errada ou certa, se generalizou de tal modo -na escola, no rádio, na televisão e na casa de família - que o meu livro de poemas correrá o risco de constituir-se em livro de classe para jardim de infância...

O escorpião do poema "Signo" é o desejo, mas o escorpião do poema "Confissão" é o pecado. Durante muito tempo associou-se sexo e pecado; hoje, não mais. Por que nos culpamos tanto por termos outrora feito dele um pecado? O excessivo discurso sobre sexo de nossos dias não será um erro para corrigir outro?
Sem dúvida, porque sobretudo é um discurso muito confuso, muito enrolado. Com relação ao escorpião, devo dizer a você que o escorpião faz parte da minha vida, porque sou do signo de escorpião e essa palavra – escorpião - é terrível para os moradores do interior de Minas, onde cidades inteiras eram ameaçadas, invadidas por escorpiões. O escorpião é muito ligado à minha vida por essa razão, embora eu não acredite na importância dos signos do zodíaco -acho isso uma coisa mais literária ou mágica do que outra coisa, não é nada racional - o escorpião de que eu fugia no porão lá de casa, com medo de ser mordido por ele, era paradoxalmente um bicho que eu trazia dentro de mim, por ter nascido dentro desse signo, compreendeu?
Essa é a interpretação que eu dou. Já o poema "Confissão" -"Escorpião mordendo a alma, o pecado graúdo acrescido do outro de omiti-lo, aflora noite alta em avenidas úmidas de lágrimas, escorpião mordendo a alma da pequena cidade".
Aí, tanto quanto eu posso me lembrar, era associando a ideia do escorpião, do animalzinho perverso, maligno da nossa cidade, ao escorpião do pecado, à tortura, à angústia que a criança do interior, educada no princípio do século, sentia com a noção de pecado.
Você pode imaginar como nós sofríamos porque não tínhamos ainda bastante lucidez de espírito para julgar na época o que fosse ou não pecado. Se era pecado mastigar a hóstia no ato da comunhão, muito mais pecado seria praticar digamos, o onanismo, ou tentar ver o nu feminino, o que aliás era impraticável.
Mas essas coisas, essas tentações da idade, da infância e da adolescência, eram todas consideradas pecados graves. Era como se o sentimento desse pecado passasse a ser pecado realmente, porque nós o sentíamos como tal. Isso nos aferroava a alma como um escorpião.

Em Machado de Assis, a fixação pelos braços das mulheres é evidente; em sua poesia, pernas e coxas femininas se destacam. Isso começou em Belo Horizonte quando você era adolescente. Como foi?
Acho, Lúcia, que começou antes. Começou em Itabira, porque não havia a menor informação sobre o corpo feminino. Os vestidos alongavam-se a ponto de esconder até os sapatos, e as pessoas, no máximo, arregaçavam um pouco o vestido para não se sujarem na lama da rua, nas poças d'água. O máximo que se podia ver de uma mulher era o bico do sapato.
Indo para Belo Horizonte já rapazola, com essa imagem precária da mulher, e encontrando ali um veículo muito útil para se recolher informação um pouco maior, que era o bonde, onde as mulheres, para subir, tinham de, contra a vontade, mostrar um pouco da perna, aquilo era uma delícia, pelo menos para pessoas do interior, como eu. Já para os rapazes nascidos em Belo Horizonte, não seria tanto assim.
Note-se que eu não tinha cinema na infância. O cinema chegou precariamente, com sessões no domingo à noite, quando não chovia, quando as estradas não estavam encharcadas e o burrinho, levando a mala do correio, levava também os discos, as latas dos filmes. Nós conhecíamos pouco da vida e conjecturávamos muito.
É como um selvagem que vai à cidade e encontra todas essas máquinas, esses recursos da civilização: fica espantado; a gente se espantava diante da perna, já não direi da coxa, que essa não se via de maneira nenhuma. A palavra coxa, eu a considerava altamente erótica.
A gente se consolava com a perna e notadamente com a barriga da perna, talvez também porque essa expressão - barriga da perna - já fazia suspeitar alguma coisa mais além. Eram suspeitas, indícios, conjecturas, que formulávamos em torno do corpo feminino.
Daí o fato de Mário de Andrade ter identificado na minha poesia aquilo de que eu não me tinha dado conta: a quantidade enorme de pernas que passam - o bonde passava cheio de corpos, mas eu só via pernas na hora de subir. Freud explica isso, não é?...

Segundo Freud, "o amor sexual proporciona as mais fortes sensações de prazer, constituindo-se no protótipo do anseio de felicidade em geral; todavia, uma pessoa nunca está menos protegida contra o sofrimento do que quando ama". Você mesmo já escreveu, no poema "Elegia", "amor, fonte de eterno frio". Assim sendo, por que queremos todos o amor, a despeito de tudo que possa nos causar?
Não creio que, conscientemente, qualquer um de nós procure a tristeza e a dor. Mas há de haver uma força oculta dentro de nós, que acaba paradoxalmente procurando essas coisas. Não se procura isso conscientemente.
A gente procura o amor como fonte de realização plena, evidentemente. Não creio que alguém aspirasse a um amor puramente tranquilo, celestial, mesmo porque, na prática, está demonstrado que é impossível.

Quais as influências literárias que você foi recebendo desde que começou a fazer poesia?
Olha, essas influências são inúmeras, e não são simplesmente literárias, são de toda natureza. O "Almanaque Bristol", da minha infância, foi uma influência que eu senti profundamente. As farmácias antigas tinham um cheiro especial, devido à manipulação de certas essências que exalavam um perfume muito agradável.
Esse cheiro vinha acompanhado dos almanaques que a gente ganhava; almanaques publicados pelos laboratórios, a Bayer e o Elixir Capivarol faziam isso.
A leitura daquilo - nos almanaques havia anedotas, acrósticos, enigmas, cartas enigmáticas e versinhos também - foi das primeiras leituras que eu tive; em seguida as revistas semanais do Rio -"Fon-Fon!" e "Careta"- que eu pedia emprestado. Já atingindo assim uns dez, doze anos, eu tinha uma pequena mesada; então eu mesmo adquiria as revistas com grande orgulho; colecionava aquilo, guardava com um ciúme louco, ninguém podia pôr as mãos em cima delas. Foram essas as minhas influências literárias.
As revistas já me traziam Olavo Bilac, além dos versos de outros poetas, e aí eu já me sentia mais familiarizado com a literatura. Depois vieram os livros que meu irmão mandava para mim. Ele era estudante de direito no Rio, lia os livros de Fialho d'Almeida, Flaubert (em português), Antônio Patrício, poeta português pouco conhecido, de que eu gosto até hoje, Antônio Nobre, outro poeta muito estimado, Eça de Queirós, espécie de autor universal para o Brasil. Não havia brasileiro que se prezasse que não apreciasse Eça de Queirós. As pessoas imitavam-no, usavam suas expressões. Era uma grande influência.
Tive essas influências todas; depois, através de meu irmão, fui adquirindo um conhecimento maior dos simbolistas franceses, Verlaine, Mallarmé, Rimbaud etc. E me apaixonei por eles. No Brasil, esses poetas refletiam-se em Álvaro Moreyra, em Eduardo Guimarães, do Rio Grande do Sul, e no nosso velho Alphonsus [de Guimaraens], espécie de ídolo da mocidade do meu tempo.
Através dos modernistas, atravessando os modernistas, cheguei a Manuel Bandeira e Mário de Andrade, que foram, realmente, os dois encontros literários mais importantes da minha vida. A esses devo praticamente tudo, porque foi o gosto da poesia de Bandeira, a delicadeza, o mistério dessa poesia que me encantaram, como foi também a teorização, a abertura de novos pontos de vista críticos que Mário me sugeriu.
A poesia do Mário nunca me influenciou. A de Bandeira, sim. Essas foram as grandes influências literárias da minha vida e influências humanas.

E Machado, como é que ficou?
Acho que houve uma intenção inconsciente minha de eliminar o Machado, porque, de tal maneira ele me persegue que quando estou aqui conversando, de repente há uma interrupção qualquer, por motivo de um café ou coisa que o valha, então eu mergulho na estante, pego Machado e abro em qualquer página. É uma fatalidade na minha vida; talvez seja por isso que eu gostaria de esquecê-lo.

Se o "sadismo é uma característica do homem, adquirida em período tardio do seu desenvolvimento" (Wilhelm Reich, "A Função do Orgasmo", pág. 140) e considerando "que o homem se distingue do animal não por uma sexualidade menor, porém mais intensiva - disposição permanente para relações sexuais" (Wilhelm Reich, "A Revolução Sexual, pág. 164), como você vê, Carlos, o fato de que o cruzamento entre macho e fêmea ocorra na Natureza sem maiores incidentes, enquanto o intercurso sexual entre homem e mulher tem mais de desencontro que encontro, haja vista a frequência, por exemplo, dos chamados crimes passionais?
Não concordo com o nosso amigo Reich quanto a essa afirmação de que "o sadismo é uma característica do homem adquirida em período tardio do seu desenvolvimento". O sadismo é uma característica infantil, por excelência; posso dizer isso com experiência própria. Num poema de "Boitempo", falo de um gato em cujo rabo coloquei um carretel a duras penas, segurando com muita força para impedir que me mordesse. O rabo ficou inflamado a ponto de que tirar dele o carretel, foi um problema. Meu irmão é que tirou, eu não tinha condições para isso.
Pratiquei esse ato por pura maldade, não tem outra explicação. Foi um ato perverso, sem sentido – coisa que os animais não fazem. O animal ataca e mata obedecendo à necessidade de alimentação, de sobrevivência, coisa que o homem não tem porque pode subsistir sem eliminar seu parceiro.
Acho que o cruzamento entre macho e fêmea ocorre realmente sem maiores incidentes, mas, na realidade, o animal irracional é aquele que tem a sabedoria, o privilégio de viver a sua vida praticando sexualidade, sem remorso, sem sentimento de culpa, com naturalidade e na época adequada. Ele está programado; nós não estamos ou desobedecemos à programação da natureza.

Carlos, você já me disse que nunca precisou do divã do analista. Em que medida a poesia concorreu para isso?
Realmente, mesmo que eu sentisse necessidade do divã, seria impossível, porque não havia o divã no Brasil. Os divãs existiam, mas divãs comuns. Ninguém se lembraria de deitar neles e dizer coisas da sua infância, coisas tenebrosas, para um especialista.
A figura do analista veio muito depois da minha infância e da minha mocidade. E já agora, a essa altura da vida, acho que nenhum analista me receberia, nem haveria mais necessidade.
De fato, a poesia exerceu sobre mim um papel bastante salubre ou tonificante, procurando, sem que eu percebesse, clarear os aspectos sombrios da minha mente.
Tive uma infância bastante confusa e triste, e uma mocidade tumultuada. Sentia necessidade de expandir-me sem que soubesse como. A conversa com os amigos não bastava porque, talvez, eles não entendessem bem os meus problemas.
Então comecei a fazer versos sem saber fazê-los, por um movimento automático. Foi uma tendência natural do espírito e senti que, pouco a pouco, ia aliviando a carga de problemas que eu tinha. Como se vomitasse. Nesse sentido, a poesia foi, para mim, um divã.
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Fonte: Arquivos da Folha de São Paulo, para assinantes; edição do dia 08/07/2012 (Secção Ilustríssima). 


Joaquim Levy e Papai Noel

Infelizmente, falta 'discussão argumentada', com lastro lógico-racional (preferencialmente, da Economia Política, ao invés das miragens da Econometria), sobre a atual conjuntura econômica brasileira. Na ausência disso, sobram as 'estorinhas de Papai Noel'. Acredita nelas quem quiser. No máximo, devem ser deixadas para as crianças no período natalino. Exceto nesse caso, os pequeninos devem ser retirados da sala, sobretudo considerando a encrenca econômica que vivemos, como diz a Profa. Laura Carvalho no texto a seguir. 

Por Laura Carvalho 
(Departamento de Economia da USP) 

Para os que fizeram as contas, não dá para dizer que a inviabilidade da meta fiscal que havia sido anunciada por Joaquim Levy às vésperas do Natal passado veio como surpresa, pois o ministro se esqueceu de combinar com o PIB o seu grande plano de ajuste.
Com um crescimento projetado de menos 2% em 2015, e uma queda na arrecadação da União de 2,87% no primeiro semestre, nem o mais épico dos ajustes nos levaria ao tal superavit de 1,1%.
Ao contrário, um esforço fiscal que vá além das medidas já aprovadas, que já somam 1,9% do PIB, só aprofundará a recessão e, assim, a queda nas receitas. Mas esse círculo vicioso, ou espiral descendente, já é velho conhecido de gregos e troianos.
Com esse cenário, só defendia a manutenção da meta quem acreditava que o comportamento exemplar do ministro da Fazenda ainda lhe traria de presente a volta do otimismo e a retomada do crescimento. Para esses, é melhor pedir que tirem as crianças da sala e contar logo: Papai Noel não existe. Pior, o bom comportamento de Levy aos olhos dos guardiões da austeridade tampouco trará presentes surpresa dos papais investidores. 
Aqui na Terra, empresário só investe quando precisa ampliar a capacidade produtiva para atender ao crescimento esperado nas vendas. É por isso que as medidas fiscais recessivas e o baixo crescimento projetado só contribuíram para fazer despencar a confiança dos investidores, que, depois de uma pequena recuperação no fim do ano passado, já caiu mais de 20% no primeiro semestre, segundo o Índice de Confiança da Indústria do Ibre-FGV.
Mas então por que a maior parte dos empresários clamou tanto por esse ajuste, inclusive quando apoiou os candidatos da oposição, que –diga-se de passagem– perderam as últimas eleições?
O que as fábulas ortodoxas não costumam revelar é que um dos efeitos da austeridade é o aumento da taxa de desemprego, que por sua vez já está servindo para pôr fim ao crescimento real dos salários e ao processo de redistribuição de renda que marcou os governos do PT.
Só resta então um motivo para que o ministro Levy tenha insistido por tanto tempo na manutenção de uma meta fantasiosa. E não é o de manter a credibilidade, pois, para isso, mais vale um ajuste na mão do que dois voando. É sim o de conseguir aprovar o maior número de medidas de arrocho até lá, espantando o verdadeiro Papai Noel dos lares brasileiros. E no final sempre dá para alegar que a política só fracassou porque não lhe concederam no Congresso tudo aquilo que queria.
O problema é que o arrocho salarial pode ser uma maçã envenenada. De acordo com o chamado Paradoxo de Custos, se um único empresário reduz o salário dos seus empregados, consegue aumentar seus lucros. Mas, se o nível geral de emprego e de salários cai, a renda da população diminui, e assim também as vendas de todos eles. De que adianta obter uma parcela maior de uma receita menor? A lição é que um ajuste assim não beneficia nem os trabalhadores nem o setor produtivo.
Pela alegria das nossas crianças no Natal, é hora então de defender, junto com o não à redução da maioridade penal, o sim à redução da meta fiscal. Infelizmente vai ter muito parlamentar trocando essas bolas.
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Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/227179-o-papai-noel-de-levy.shtml


terça-feira, 28 de julho de 2015

Nas Águas do Tempo

Segue mais um conto de Mia Couto. Com a sua literatura também conhecemos um pouco das particularidades da variável africana da língua portuguesa - ou mais precisamente da variável moçambicana. No espírito desse conto, é de se dizer que todos nós temos as nossas águas do tempo e que só com os olhos que enxergam para dentro avistamos a navegação. São poucos, todavia, os que tiveram a pessoa que fez com que eles aprendessem a olhar com os 'olhos de dentro'. 



Por Mia Couto 

Meu avô, nesses dias, me levava rio abaixo, enfilado em seu pequeno concho. Ele remava, devagaroso, somente raspando o remo na correnteza. O barquito cabecinhava, onda cá, onda lá, parecendo ir mais sozinho que um tronco desabandonado.
- Mas vocês vão onde?
Era a aflição de minha mãe. O velho sorria. Vovô era dos que se calam por saber e conversam mesmo sem nada falarem.
- Voltamos antes de um agorinha – respondia.
Nem eu sabia o que ele perseguia. Peixe não era. Porque a rede ficava amolecendo o assento. Garantido era que, chegada a incerta hora, o dia já crepusculando, ele me segurava a mão e me puxava para a margem. A maneira como me apertava era a de um cego desbengalado. No entanto, era ele quem me conduzia, um passo à frente de mim. Eu me admirava da sua magreza direita, todo ele musculíneo. O avô era um homem em flagrante infância, sempre arrebatado pela novidade de viver.
Esperávamos no barquinho, nossos pés pareciam bater na barriga de um tambor. A canoa solavanqueava, ensonada. Antes de partir, o velho se debruçava sobre um dos lados e recolhia uma aguinha com sua mão em concha. E eu lhe imitava.
- Sempre em favor da água, nunca esqueça.
Era sua advertência. Tirar água no sentido contrário ao da correnteza pode trazer desgraça. Não se pode contrariar os espíritos que fluem.
Depois viajávamos ate ao grande lago onde nosso pequeno rio desaguava. Aquele era o lugar das interditas criaturas. Tudo o que ali se exibia, afinal, se inventava de existir. Pois, naquele lugar se perdia a fronteira entre água e terra. Naquelas inquietas calmarias, sobre as águas nenufarfalhudas, nós éramos os únicos que preponderávamos. Nosso barquito ficava ali, quieto, sonecando no suave embalo. O avô, calado, espiava as longínquas margens. Tudo em volta mergulhava em cacimbações, sombras feitas da própria luz, fosse ali a manhã eternamente ensonada. Ficávamos assim, como reza, tão quietos que parecíamos perfeitos.
De repente, meu avô se erguia no concho. Com o balanço quase o barco nos deitava fora. O velho, excitado, acenava. Tirava seu pano vermelho e agitava-o com decisão. A quem acenava ele? Talvez a ninguém. Nunca, nem por um instante, vislumbrei por ali alma deste ou de outro mundo. Mas o avô acenava o pano.
- Você não vê lá, na margem? Por trás do cacimbo?
Eu não via. Mas ele insistia, desabotoando os nervos.
Não é lá. É láááá. Não vê o pano branco a dançar-se?
Para mim havia era a completa neblina e os receáveis aléns, onde o horizonte se perde. Meu velho, depois de perdida a miragem, se recolhia, encolhido no seu silêncio. E regressávamos, viajando sem companhia de palavra.
Em casa, minha mãe nos recebia com azedura. E muito me proibia, nos próximos futuros. Não queria que fôssemos para o lago, temia as ameaças que ali moravam. Primeiro, se zangava com o avô. Mas depois, já amolecida pela nossa chegada, ela ensaiava a brincadeira:
- Ao menos vissem o namwetxo moha! Ainda ganhávamos vantagem de uma sorte...
O namwetxo moha era o fantasma que surgia à noite, feito só de metades: um olho, uma perna, um braço. Nós éramos miúdos e saíamos, aventurosos, procurando o moha. Mas nunca nos foi visto tal monstro. Meu avô nos apoucava. Dizia ele que, ainda em juventude, se tinha entrevisto com tal semifulano. Invenção dele, avisava minha mãe. Mas a nós, a miudagens, nem nos passava desejo de duvidar.
Certa vez, no lago proibido, eu e vovô aguardávamos o habitual surgimento dos ditos panos. Estávamos na margem onde os verdes se encaniçam, aflautinados. Dizem: o primeiro homem nasceu de uma dessas canas. O primeiro homem? Para mim não podia haver primeiro homem mais antigo do que meu avô. Acontece que, dessa vez, me apeteceu espreitar os pântanos. Queria subir à margem, colocar o pé em terra firme.
- Nunca! Nunca faça isso!
O ar dele era de maiores gravidades. Eu jamais assistira a um semblante tão bravio em meu velho. Desculpei-me: que estava descendo do barco mas era só um pedacito. Mas ele ripostou:
- Neste lugar, não há pedacitos. Todo o tempo, a partir daqui, são eternidades.
Eu tinha um pé meio fora do barco, procurando o fundo lodoso da margem. Decidi me equilibrar, busquei chão para assentar o pé. Sucedeu-me então que não encontrei nenhum fundo, minha perna descia engolida pelo abismo. O velho acorreu-se e me puxou. Mas a força que me sugava era maior que o nosso esforço. Com a agitação, o barco virou e fomos dar com as costas na água. Ficamos assim, lutando dentro do lago, agarrados às abas da canoa. De repente, meu avô retirou o seu pano branco e começou a agitá-lo sobre a cabeça.
- Cumprimenta também, você?
Olhei a margem e não vi ninguém. Mas obedeci ao avô, acenando sem convicções. Então, deu o espantável: subitamente, deixamos de ser puxados para o fundo. O remoinho que nos abismava se desfez em imediata calmaria. Voltamos ao barco e respiramos os alívios gerais. Em silêncio, dividimos o trabalho do regresso. Ao amarrar o barco, o velho me pediu:
Não conte nada do que se passou.
Nesta noite, ele me explicou as suas escondidas razões. Meus ouvidos se arregalavam para lhe decifrar a voz rouca. Nem tudo entendi. No mais ou menos, ele falou assim: nós temos olhos que se abrem para dentro, esses que usamos para os sonhos. O que acontece, meu filho, é que quase todos estão cegos, deixaram de ver esses outros que nos visitam. Os outros? Sem, esses que nos acenam da outra margem. E assim lhes causamos uma total tristeza. Eu levo-lhe nos pântanos para que você aprenda a ver. Não posso ser o último a ser visitado pelos panos.
- Me entende?
Menti que sim. Na tarde seguinte, o avô me levou uma vez mais ao lago. Chegados à beira da ponte ele ficou a espreitar. Mas o tempo passou em desabitual demora. O avô inquietava, erguido na proa do barco, palma da mão apurando as vistas. Do outro lado, havia menos que ninguém. Desta vez, o avô não via mais que a enevoada solidão dos pântanos. De súbito, ele interrompeu o nada:
- Fique aqui!
E saltou para a margem, me roubando o peito no susto. O avô pisava os interditos territórios? Sim, frente ao meu espanto, ele seguia em passo sabido. A canoa ficou balançando, em desequilibrismo com meu peso ímpar. Presenciei o velho a alojar-se com a discrição de uma nuvem. Até que, entre a neblina, ele se declinou em sonho, na margem da miragem. Fiquei ali, com muito espanto, tremendo de um frio arrepioso. Me recordo de ver uma garça de enorme brancura atravessar o céu. Parecia uma seta transpassando os flancos da tarde, fazendo sangrar todo o firmamento. Foi então que deparei na margem, do outro lado, o pano branco. Pela primeira vez, eu coincida com meu avô na visão do pano. Enquanto ainda me duvidava foi surgindo, mesmo ao lado da aparição, o aceno do pano vermelho do meu avô.Fiquei indeciso, barafundido. Então, lentamente, tirei a camisa e agitei-a nos ares. E vi: o vermelho do pano dele se branqueando, em desmaio de cor. Meus olhos se neblinaram até que se poentaram as visões.
Enquanto remava um demorado regresso, me vinham à lembrança as velhas palavras de meu velho avô: a água e o tempo são irmãos gêmeos, nascidos do mesmo ventre. E eu acabava de descobrir em mim um rio que não haveria nunca de morrer. A esse rio volto agora a conduzir meu filho, lhe ensinando a vislumbrar os brancos panos da outra margem.
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Fonte: Fonte: Mia Couto, in A Menina sem Palavras - Histórias de Mia Couto (São Paulo: Boa Companhia, 2013).  


Involução mental, desinteligência e pensamento binário

Sob o título de 'pensamento binário', o artigo a seguir de Vladimir Saflatle, publicado pela Folha de São Paulo, é lapidar ao apontar o grau de involução mental e de desinteligência que tomou conta dos debates no Brasil - debates protagonizados, em muitos casos (o que é mais gave), por pessoas oriundas do meio universitário. Subscrevo o texto. Vale a leitura. 


Por Vladimir Safatle
(Departamento de Filosofia - USP) 

Há anos, escrevi que um país em involução mental só consegue contar até dois. Seus debates organizam-se a partir de um polaridade simplória na qual nenhum pensamento um pouco mais elaborado é possível.
Tudo deve encaixar em dois conjuntos, sendo que um deles serve apenas para ser sumariamente descartado e esconjurado. Este é um dos aspectos daquilo que Christian Dunker chamou recentemente de "lógica do condomínio" a organizar a vida intelectual do país.
De fato, há algo de cômico em ter que ouvir cada vez mais frases como "Vá para Cuba" ou "Aqui não é a Coreia do Norte" todas as vezes que alguém defende políticas esquerdistas de combate à desigualdade social e de regulação econômica.
Não passa na cabeça destas pessoas que é possível ser radicalmente de esquerda e contrário, por exemplo, ao Estado degenerado que acabou sendo implantado em Cuba. Não, isso é muito complicado para alguém que, no fundo, só consegue pensar com as dicotomias mais primárias da Guerra Fria.
Da mesma forma, é patético ter que receber afagos como "você faz o jogo da direita" todas as vezes que critica de forma dura os descaminhos do governo federal. Normalmente, tais afagos vêm de pessoas que procuram esconder sua capacidade de pensar criticamente sob a fantasia da luta constante e inglória contra as forças do atraso.
Há meses, apareceu em uma livraria um dos títulos mais inacreditáveis que um livro poderia ter: "10 livros que estragaram o mundo". Entre eles estavam listados obras de Freud, Darwin, Lênin, Hitler, Nietzsche e Marx. Esta é a melhor síntese deste pensamento binário que nos assola nos dias atuais.
Não se trata de dizer que você discorda do encaminhamento de certas ideias. Trata-se de dizer que tais ideias "estragaram o mundo", que é melhor queimar os livros que as expressam, nunca mais lê-los, colocando-os ao lado de Hitler (que também gostava de falar de livros que estragaram o mundo e que mereciam ser queimados). Engraçado saber que livros que dizem que outros livros estragaram o mundo são o deleite de alguns.
Gilles Deleuze costumava mostrar a grandeza de seu pensamento fazendo algo que irritava mais de um de seus colegas. Mesmo sendo alguém vinculado à tradição do pensamento radical francês, ele não deixava de mostrar a genialidade de certos autores claramente conservadores, como Charles Péguy e Paul Claudel, ou de autores "moderados", como Henri Bergson. Era uma maneira de mostrar verdadeira abertura ao pensamento e à criação, independentemente de onde ela viesse. Eis um bom exemplo a meditar nos dias de hoje.
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Fonte: Folha de São Paulo, edição para assinantes do dia 28/07/2015 


segunda-feira, 27 de julho de 2015

A filha do solidão

Literatura em língua portuguesa banhada no continente africano, através da pena do moçambicano Mia Couto. 



Por Mia Couto 

Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos conta, já tinha acontecido. Uns deixam a acontecência emergir, sem medo. Esses são os vivos. Os outros se vão adiando. Sorte a destes últimos se vão a tempo de ressuscitar antes de morrerem.
Filha dos cantineiros portugueses, Meninita sempre foi moça comedida. Na penumbra da loja, ela atendia os negros como se fossem sombras de outros, reais viventes. A miúda se ia fazendo ao corpo – o fruto se adoçava em polpa açucrosa. A sede se inventa é para a miragem de águas. Pois nas redondezas não viviam outros brancos, únicos a quem ela entregaria seus açúcares.
A família Pacheco se pioneirara na aridez de Shirapera, onde mesmo os negros originários escasseavam. Por que escolher tão longínquas paragens?
- Aqui, por trás destas altas montanhas, nem Deus me pode espiar....
Fala do português para enganar as perguntas. Ninguém entende por que o Pacheco se internara tanto nas dunas de Sofala, condenando a família a não conviver mais com gente de igual etnia. Dona Esmeralda, a esposa, se angustiava vendo o crescer da filha. A que homem se destinaria ela, naquele afastamento da sua semelhante humanidade? Deram-lhe o nome de Meninita para a ancorar no tempo. Mas a filha se inevitalizava. Na sombra imutável do balcão, ela desfolhava umas mil vezes repetidas repetida fotonovela. Sonhava aos quadrinhos...
- Não espere consolo, filha: aqui só há pretalhada.
A menina se consolava fechada no quarto, a revista da fotonovela entre os lençóis. Suas mãos se desprivatizavam em carícias de outro. Mas esse apagar de lume lhe trazia um novo e mais aguçado tormento. Quando, depois de suspirada e transpirada, ela se abandonava no leito, uma funda tristeza lhe pousava. Era como se nascesse em si uma lama já morta. Tristeza igual só essas mães que dão à luz a um menino inanimado. É justo poder-se assim visitar os paraísos e nos expulsarem? Lhe custaram tanto essas despedidas de si que passou a evitar seu próprio corpo. Vale a pena é trocar carinhos, receber salivas do ventre de um outro. Mas outros ali não havia para a donzela Meninita.
- Acha que essa nossa filha vai se meter com um preto?
O pai se ria, cuspindo gargalhada. O riso dele tinha razão: a casa dos Pachecos se enconchara de preconceito. Ali se dizia no singular: o preto. Os outros, de outra cor, se reduziam a uma palavra, soprada entre a maxila do medo e a mandíbula do desprezo. Meninita cumpria os ensinamentos da etnia. Recebia os clientes, sem erguer a cabeça:
- Que quer?
Massoco, único empregado, achava graça aos modos desdenhosos da pequena patroa. Ele era jovem como ela, carregava sacos e caixotes, conduzia a carroça dali para depois do horizonte.
As melancolias de Meninita cresciam. A revista já esfarelava, de tanto desfolheada. No dia em que fez dezoito, Meninita lançou fogo sobre si mesma. Se imolou. Mas não desses fogos comuns de combustão visível. Ardeu em invisíveis chamas, só ela sofria tais ardências. Ficou ardendo em demorada consecução. A febre lhe autorizava o delírio.
Veio a mãe, lhe abanou uma frescura. Veio o pai, lhe aplicou conselho seguido de ameaças. Tudo irresultou. Esse fogo se apagava era em corpo masculino, em água de duplos suores e carícias. A mãe lhe corrigia a ilusão da expectativa:
- Minha filha, não deixe o corpo lhe nascer antes do coração.
Adoentada, a moça deixou de atender ao balcão. Substitui-a o moço Massoco, cresceram simpatias na loja. Meninita se internou em seu quarto, emigrada da vida, exilada dos outros. Massoco, ao fim do dia, se apresentava, em solene tristeza.
- Peço licença ir lá ver patroinha...
Um dia chegou a Shiperapera uma veterinária do Ministério. Vinha inspecionar o gado dos indígenas. Quando o casal soube da notícia decidiu ocultar a novidade da filha. Ela já andava tão alterada! O Pacheco foi à estrada, esperar a compatriota. Levou cerimônias e pasteis de peixe-seco. Acompanhou a doutora a uma casa de hóspedes que a administração em tempos construíra. Já deitados, os Pachecos trocaram as esperadas más-línguas:
- A gaja parece um homem!
E riram-se. Dona Esmeralda se satisfazia pela visitante ser tão pouco mulher. Não fosse o marido se devanear. Numa dessas noites, Meninita sofreu de um acesso grave. O casal, em desespero, decidiu chamar a médica veterinária. O pai acorreu à casa dos hóspedes e urgiu comparência à veterinária. No caminho, lhe explicou a condição da filha.
Chegados à cantina, dirigem-se em silêncio profissional para os aposentos da perturbada jovem. Em delírio, a menina confunde a veterinária com um homem. Atira-se-lhe aos braços, beijando-lhe os lábios com sofreguidão. Os pais se embaraçaram e acorreram a separar. A veterinária recompõem-se, ajeitando imaginários cabelos sobre a face. Meninita com um sorriso sonhador parece agora ter adormecido.
Pacheco volta a acompanhar a visitante. Vão calados, todo o tempo da viagem. Na despedida, a veterinária, rompendo o silêncio, expõe o seu plano:
- Eu vou fazer de homem. Me disfarço.
Pacheco não sabia o que dizer. A veterinária se explica: o cantineiro lhe emprestaria roupas velhas e ela se apresentaria, disfarçada de namorado caído dos céus. O português acenou maquinalmente e voltou a casa apressado em colocar a esposa a par do estranho plano. Dona Esmeralda riscou no lábio superior a curva da dúvida. Mas que se fizesse, a bem da pequena. E se benzeu.
Nas noites seguintes, a veterinária aparecia com seu disfarce. Subia ao quarto de Meninita e lá se demorava. Dona Esmeralda, na sala, chorava em surdina. Pacheco bebia, devagaroso. Passadas horas a veterinária descia, ajeitando no rosto uma inexistente madeixa.
Fosse pela qual razão, a verdade é que Meninita arrebitava. A veterinária, dias depois, se retirou, nuvem naquela estrada onde mesmo a poeira rareava. Meninita, na manhã, seguinte, desceu à loja, a velha revista na mão. Sentou-se no balcão e inquiriu a sombra do outro lado do balcão:
- Que quer?
Massoca riu-se, abanando a cabeça. E a vida se retomou, em novelo que procura o fio. Até que um dia, Dona Esmeralda despertou o marido, sacudindo-o:
- Nossa filha está grávida, Manuel!
Choveram insultos, improperiou-se. Os vidros das janelas se estilhaçaram, tais as raivas do Pacheco: eu mato o cabrão da doutora! A mulher implorou: agora, sim, era assunto de ir à vila. O marido que quebrasse o seu juramento e superasse as montanhas de volta ao mundo. De noite, o casal se fez à viagem, recomendando à filha mil cuidados e outras tantas trancas. E sumiram-se no escuro.
Na janela, Meninita ainda espreitou a poeira da estrada iluminada pela lua. Subiu ao quarto, abriu a revista das velhas fotos. Vencida pelo sono se ajeitou no colchão em rodinha de lençóis. Antes de adormecer, apertou a mão negra que despontava no branco das roupas. 
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Fonte: Mia Couto, in A Menina sem Palavras - Histórias de Mia Couto (São Paulo: Boa Companhia, 2013).  


As aspirações de cada um: sobre metas e empenho

Por Vandeck Santiago 

Conta-se que ao fim de um concerto um grande pianista ouviu de uma fã: “Eu daria minha vida para tocar como o senhor”. E ele: “Eu dei a minha, senhora, eu dei a minha…” Na forma como a nossa sociedade é estruturada, a gente só vê o clímax da conquista, o momento exuberante em que o artista ou o atleta exibe toda sua maestria. Mas até chegar àquele momento anos e anos se passaram de um esforço diário e anônimo.
Rogério Ceni, por exemplo, é o goleiro que mais fez gols em toda a história do futebol. Chegou a esta marca cobrando faltas e pênaltis. O que poucos sabem é que, antes de começar a fazer as cobranças, ele treinou 15 mil faltas. Batia de 2.500 a 3 mil por mês.
Carlos Saldanha hoje é um cineasta de animação reconhecido, daqueles que a indústria cinematográfica norte-americana permite trabalhar com filme de orçamento de 100 milhões de dólares. Dirigiu A Era do Gelo e Rio. Lendo esta informação somos levados a pensar: “Ah, esse cara devia ser fera em computação e desenho desde cedo”. Aí vejam o que ele diz em toda entrevista que lhe perguntam sobre isso: “Nunca fui o melhor em nada. Não era o que desenhava melhor nem o que entendia mais de computação, mas talvez eu fosse o que mais queria estar ali”.
Aos 20 anos, Saldanha – que é carioca – juntou tudo o que tinha e foi fazer um curso em escola de artes visuais de Nova York. Muitos dos alunos nem compareciam às aulas. Ele ficava lá dia e noite. Aproveitou para fazer várias produções sozinho, embora isso não fizesse parte do currículo. 
Sabem todos que um dia almejaram algo difícil e chegaram lá que fora do esforço não há salvação. O dom de ser capaz de fazer algo em um nível acima dos outros vem acompanhado – sempre – da obrigação de também esforçar-se mais que os outros.
Aos cinco, seis anos, um enxadrista genial, um pianista genial, um matemático genial já era capaz de surpreender todos com sua habilidade. Mas se esta genialidade que surge tão cedo não é cultivada com horas e horas de estudo e treino, torna-se anos depois apenas uma lembrança doída. 
O pianista Oscar Peterson (1925-2007) foi considerado um dos maiores de todos os tempos. Aos cinco anos ele já estudava com o seu pai. Para desenvolver seu talento, estudava oito horas por dia. Por que tanto? “Se num dia eu treinar sete horas”, respondia Peterson, “no outro dia terá alguém tocando melhor”.
O esforço como meio para atingir objetivos vale para quem nasce com algum talento extraordinário e também para o restante. Uma teoria desenvolvida pelo psicólogo K. Anders Ericsson, em 1993, e popularizada pelo jornalista Malcolm Galdwel no livro Fora de Série - Outliers (Sextante, 2008), diz que para você atingir um nível de excelência em qualquer atividade são necessárias pelo menos 10 mil horas de prática. Ou três horas por dia, durante 10 anos. Às vezes quem se compromete com um esforço obstinado acaba até superando outros que têm muito mais talento mas não se dedicam. George Leonard, no livro Maestria (Cultrix, 1998) conta que fez uma série de entrevistas para a Esquire com atletas de ponta em diversos esportes e a maioria “colocou o trabalho árduo e a experiência acima do talento puro”.
Se você, leitor, teve a generosidade de me acompanhar até aqui permita-me dizer-lhe que tudo isso é só para ressaltar o exemplo da nadadora pernambucana Joanna Maranhão. Na Olimpíada de Atenas em 2004 ela nadou a final de sua prova preferida, os 400m medley, com um tempo de 4m40s. Ficou na quinta colocação; até hoje o melhor resultado para uma nadadora brasileira. Joanna tinha 17 anos. Nos anos seguintes ela nunca mais conseguiu superar aquele tempo, nem igualá-lo. Uma marca que era extraordinária transformou-se numa barreira intransponível que afetou psicologicamente a nadadora. Sofreu uma síndrome do pânico antes de disputar uma prova. Teve um mal súbito na Olimpíada de 2012, em Londres, e não disputou. Decidiu aposentar-se das competições em janeiro de 2014. Aos 26 anos encerrava precocemente sua carreira, como a maior nadadora da história do Brasil. Durante cerca de 10 anos ela dominara as provas de 400m medley e 200m no país, além de conquistas também em outras modalidades da natação (800m livre, 200m borboleta e 200m costas). Mas cerca de seis meses depois da aposentadoria anunciada, ela voltou a nadar. E no dia 16 de julho passado conseguiu superar a marca de 2004 nos 400m medley: terminou a prova com 4m38s07, e levou a medalha de bronze. Farei a conta pra vocês: a superação demorou 11 anos para acontecer. E foi por menos de dois segundos. Joanna tem hoje 28 anos.
Nas entrevistas logo após a disputa, vimos sua alegria: “Nunca fui tão feliz”. Ela conquistou ainda duas outras medalhas: bronze nos 200m borboleta e prata na equipe de revezamento 4x200m. Fiquei pensando no que deve ter sido sua luta diária e anônima, esses anos todos, enfrentando cobranças, pressões, frustrações, o medo de nunca mais ser beijada pelo sucesso. O talento precoce que não conseguia superar a si mesma. Como deve ter sofrido esta menina… Como deve ter se esforçado… Por tudo isso, sua conquista é o resultado mais inspirador desses Jogos Pan-Americanos de 2015.
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Fonte: Diário de Pernambuco, edição do dia 26/07/2015.